sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Nascimento de Racine

Jean-Baptiste Racine

A 22 de Dezembro de 1639, nasceu Jean Racine.
Jean-Baptiste Racine foi um poeta trágico, dramaturgo, matemático e historiador francês. É considerado, juntamente com Pierre Corneille, como um dos maiores dramaturgos clássicos da França.
Jean-Baptiste Racine nasceu em La Ferté-Milon, no norte da França, no dia 22 de Dezembro de 1639. Órfão aos três anos de idade ficou aos cuidados dos avós.
A partir de 1649 foi educado pela Abadia de Port-Royal, centro do movimento católico jansenista, cujos  austeros princípios marcaram  a sua formação.
Entre 1655 e 1658, estudou na Petites Écoles de Port-Royal, onde recebeu uma educação clássica, com influência do filósofo e teólogo Blaise Pascal.
Em 1658, Racine iniciou os estudos de Filosofia no colégio D’Harcourt de Paris. À medida que se distanciava da influência de seus antigos mestres, entrava para os círculos literários e teatrais.
De espírito ousado e frequentemente mordaz, Racine teve uma ascensão rápida e uma carreira brilhante. Com Andrómaca (1667) iniciou-se o período das obras primas: Britânico (1669), Berenice (1670), Bazet (1672), Mitrídates (1673), Ifigénia em Áulida (1674) e Fedra (1677).
Em 1677, abandonou o teatro. Foi nomeado historiógrafo do rei por Luís XIV. 
No final da vida, Racine voltou à fé e reconciliou-se com a Abadia de Port-Royal, cuja história contou em “História de Port-Royal”, que só foi publicada postumamente em 1767. 
Jean-Baptiste Racine faleceu em Paris, França, no dia 21 de Abril de 1699. Foi enterrado no cemitério de Port-Royal, mas em 1710 os seus restos mortais foram transladados para a igreja Saint-Étienne-du-Mont,  em Paris.

Frases de Jean Racine:
"Temo os vossos silêncios, não as vossas injúrias."
"O covarde teme a morte, e isso é tudo o que teme."
"Quanto mais gosto de quem ofende, mais sinto a ofensa."
"Entrego-me cegamente ao impulso que me arrasta."
"Não há segredos que o tempo não revele."

A histórica livraria Ferin encerra

 
Livraria histórica Ferin dá o último fôlego e encerra
"Em 2017 os herdeiros da centenária livraria Ferin pediram ajuda a José Pinho para a salvar. No ano da morte do conhecido livreiro, também esta livraria - um dos seus projetos - encerra portas.
A notícia do fim da livraria da baixa Lisboeta chega por comunicado às redações. Em 2017, José Pinho tentou salvar a histórica livraria e comprou-a por 1 euro, alugou a Loja Histórica e ficou com os recursos humanos, mas segundo se lê em comunicado também herdou "monumental dívida histórica acumulada".
Desde 2017 até à sua morte, este ano, José Pinho e a equipa da Ler Devagar levaram a cabo o processo de reestruturação da Ferin e de acordo com o mesmo comunicado, pagaram aos funcionários, renegociaram contratos com fornecedores e credores e foram responsáveis pela renovação da programação e seleção de títulos. E ainda, tiveram entre mãos "mil projetos que começaram a nascer para dar vida ao espaço gigante da enorme cave, com porta direta para a Rua do Crucifixo e com um saguão que fazia sonhar com esplanadas e chá quente. E foram feitos diversos contactos com possíveis investidores, que pudessem introduzir o dinheiro necessário a todas as transformações. "
Mas se o futuro era promissor, a pandemia da Covid-19 e o confinamento deitaram por terra os planos e "condenaram ao fecho e à penúria grande parte dos negócios, mas muito particularmente as livrarias". Mas a história hoje recontada, lembra que ainda houve uma esperança, "nessa altura que nasceu a RELI, Rede de Livrarias Independentes, uma articulação do José Pinho e de um grupo de outros pequenos livreiros em luta pela sobrevivência das suas livrarias. "
Com a descoberta do cancro de José Pinho, em 2021, a luta pela sobrevivência tornou-se outra ditando, renegando assim para segundo plano outras lutas.
Hoje, sabe-se, que "nos últimos 6 meses, prosseguimos a procura de uma solução que permitisse tapar o enorme buraco que estes 4 anos de luta vieram acrescentar ao já existente. Mas nem as instituições públicas, nem os investidores privados, nem os parceiros livreiros nem os accionistas e amigos da Ler Devagar conseguiram fazer face ao problema financeiro e contabilístico da Ferin. As suas vendas caíram drasticamente e a livraria Ferin entrou num ciclo do qual já dificilmente recuperaria", explica a administração.
Que termina o comunicado com uma nota de esperança e uma frase de José Pinho, “sempre que uma livraria fechar, a Ler Devagar abrirá uma outra”.
Importa lembrar que, este ano, a  Livraria Ler Devagar abriu um novo espaço no Bairro Alto. A CCBA - Casa do Comum do Bairro Alto - Centro Cultural e assume-se como um lugar em sentido contrário às dinâmicas mais sensíveis da cidade de Lisboa."
Vida, 21 de Dezembro de 2023

O Grande Civilizado


“Eu penso que o riso acabou – porque a humanidade entristeceu. E entristeceu – por causa da sua imensa civilização. (...) Quanto mais uma sociedade é culta - mais a sua face é triste. (...) O Infeliz está votado ao bocejar infinito. E tem por única consolação que os jornais lhe chamem e que ele se chame a si próprio – O Grande Civilizado.”
Eça de Queiroz,  “A Decadência do riso”, in Notas Contemporâneas, Lisboa, Edição “Livros do Brasil”, 2000, pp.165-166.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Alentejo

 
O Alentejo lembra-me sempre
Um imenso relógio de sol
Onde o homem faz de ponteiro do tempo
Miguel Torga
 
Nesta larga brancura
De restolhos, de cal e solidão
Miguel Torga
 
A luz que te ilumina,
Terra da cor dos olhos de quem olha!
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar!...
Miguel Torga
 
A foice dos teus ceifeiros
Trago no peito gravada
ó minha terra vermelha
Como bandeira sonhada
Urbano Tavares Rodrigues
 
 
TERRA-MÃE
Lá dos campos, tristes campos,
Dos campos do Alentejo,
Vim ainda pequenino
- E pequenino me vejo...
Lá nos campos, tristes campos
Da solitária planura,
Nasceu a minha revolta,
Nasceu a minha amargura.
Lá dos campos, tristes campos,
Vem a lembrança de tudo
O que mais amo e desejo.
Vem a fome, a sede e o sono
Das terras do Alentejo!
Raul de Carvalho

 Luís Trigacheiro, em  O Meu Alentejo.
Buba Espinho e Bandidos do Cante , em  Um dia hei de voltar.
Miguel Moura, em Tenho de Abalar.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Boas Festas


A fé e as demonstrações  matemáticas são inconciliáveis.
Fiodor Dostoievski

Dezembro , o último mês do ano, é talvez aquele que carrega mais lembrança, mais diversidade, mais história . Sendo o último , fecha o ano . E, se o ano foi rico, será o ponto final de um fecho feliz. Se o ano foi perverso, será o  fim mais desejado. Se o ano foi 2023, será um ano trágico , de conflitos e guerras insanas.
E é este o nosso ano . Um ano que começou com uma incompreensível e cruel  guerra na Ucrânia, decretada pelo ditador  Putin e acaba com uma sanguinária guerra no Médio-Oriente, entre o Hamas e Israel. Pelo meio, outros tantos focos conflituosos e de lutas intestinas se foram sucedendo e acontecem, sem que os  senhores da guerra dimensionem até onde chegam as suas mandíbulas impiedosas.
Num quadro tão desolador , vai celebrar-se o Natal. Um Natal que deve ser um momento de Paz e de fé num novo futuro do homem. 
Não sei se assim será. Se o presépio que a memória nos  traz, apresentou, ao mundo,  um menino nu que sobreviveu ao frio de Dezembro, talvez a paz e a esperança nesse novo futuro sobrelevem  este ano de 2023.
Para todos nós, ficam esses  votos.
Boas Festas.
Presépio

Nuzinho sobre as palhas
nuzinho - e em Dezembro!
Que pintores tão cruéis,
Menino, te pintaram!

O calor do seu corpo,
pra que o quer tua Mãe?
Tão cruéis os pintores!
( Tão injustos contigo,
Senhora!)

Só a vaca e a mula
com seu bafo te aquecem...

Quem as pôs na pintura?
Sebastião da Gama, in  Pelo sonho é que vamos, Edições Ática, 1971, p 27

Esse vosso filho é incorrigível, não é?

Ilustração: Susa Monteiro 
A gente os três 
por António Lobo Antunes
"Numa das ocasiões em que lá foi espreitou a minha turma pela janela e voltou aterrada porque eu me achava sentado ao contrário na carteira, a olhar para o tecto. Segundo ela a setora de Francês perguntou-lhe – Como é que eu podia chumbar aqueles olhos azuis? e a minha mãe chegou a casa capaz de estrangular-me, a repetir advérbios de modo que levou a minha infância a atirar-me à cara: – Francamente. Eu fui o filho que deu sempre mais problemas aos meus pais, ou seja o único que não parava de dar problemas aos meus pais. Era mau aluno (os meus irmãos eram brilhantes) não me interessava pelas aulas, não estudava, tinha sempre nota de mau comportamento, não falava às amigas da minha mãe que não me interessavam, as minhas notas eram miseráveis, não reprovei porque o meu avô tinha dois camaradas do Colégio Militar que eram professores no Camões e arranjavam maneira de eu receber, no último período, as classificações que precisava para não chumbar, de modo que acabei o secundário aos dezasseis anos sem nunca ter estudado. A minha mãe foi algumas vezes ao Camões e voltava sempre deprimida com o que lhe contavam de mim. Numa das ocasiões em que lá foi espreitou a minha turma pela janela e voltou aterrada porque eu me achava sentado ao contrário na carteira, a olhar para o tecto. Segundo ela a setora de Francês perguntou-lhe 
– Como é que eu podia chumbar aqueles olhos azuis? 
e a minha mãe chegou a casa capaz de estrangular-me, a repetir advérbios de modo que levou a minha infância a atirar-me à cara:
 – Francamente 
e recordo-me de a ouvir dizer ao meu pai, julgando que eu não estava na sala 
– Se ao menos ele fosse estúpido eu ainda compreendia comigo a sentir-me um bicho esquisito que passava o tempo a ler e a escrever e, nos intervalos, a fazer asneiras, como por exemplo usar as jarras de flores para fazer chichi, espalhando pela casa um cheiro horrível, às vezes difícil de localizar. Uma ocasião, para aí com treze ou catorze anos, o meu pai, ao acordar, descobriu-me a dormir no meu quarto com as portadas fechadas. Abriu-as de rompante, furioso, eu descerrei um olho, perguntei 
– Veio assistir ao acordar de um génio? ele ficou a olhar-me, de boca aberta, e muitos anos depois ainda me falava neste episódio, com uma cara esquisita que me parecia ter lá dentro, escondido, uma espécie, que estranho, de orgulho. Mas suportou em silêncio, ele que era bravo e colérico, os três anos que passei sem pôr os pés no hospital, depois de me matricularem em Medicina, ocupado com um poema longuíssimo que devia ser fresco e acabou no cesto dos papéis como tudo aquilo que eu produzia, furioso com a bodega dos resultados. Mas continuava, certo de que iria conseguir obras primas se persistisse nas minhas pobres tentativas. Estou para saber de onde me vinha aquela fé. E, a fim de resolver o problema dos estudos (enquanto tentava resolver o problema da escrita) chantageei a minha pobre mãe 
– Se me der a carta de condução eu faço as cadeiras todas na primeira época. 
Ela, coitada, aceitou
(o que são as mães)
E disparei até ao fim do curso como um foguete, surpreendido por aquilo ser tão fácil. Até tive alguns dezoitos pelo meu meio, palavra, banzado
 – Afinal nem demora muito tempo e é canja genuinamente banzado que ser médico fosse uma questão de caracacá. Depois da volta da guerra, com o balanço, pulei os concursos todos na broa, entrei sempre nas vagas a que concorri, fiquei um doutor da mula ruça do caraças, cada vez ia gostando mais da Medicina, acho que fui um médico competente mas os cabrões dos livros não me largavam de modo que tive, com pena, de deixar tudo o resto por eles. Espero que os meus pais os leiam lá no Céu, eles que se calhar os leram cá na Terra mas isso era um assunto de que nunca me falaram. Nem eu com eles.
A merda do pudor, a merda da distância, e logo comigo que tenho tantas saudades vossas e me sinto tão arrependido de vos ter inquietado. Mas, entendam-me por favor, o que podia eu fazer, não é? E agora não sei se assine António ou Ovelha Ronhosa. No fundo é igual ao litro. Quando chegar onde estão prometo-vos que não faço chichi em nenhuma jarra, antes que São Pedro vos venha com a conversa do costume:
 – Esse vosso filho é incorrigível, não é? E se calhar sou, paizinhos. Se calhar sou. "
António Lobo Antunes , em Crónica publicada na VISÃO 1339 ,de 1 de Novembro de 2018

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

O Ilimitável Oceano


 Alguns poemas do livro O Ilimitável Oceano, de Eugénio Lisboa
 
Anaxágoras ou o Astrónomo
 
Qual o fim da vida?, foi-lhe alguém perguntar.
E ele: o sol, a lua, os céus investigar.
 
 
Demócrito
 
Prefiro entender o que sei
a poder ser, na Pérsia, rei.
 
 
Euclides
 
Um percurso exacto.
Um discurso claro.
O rigor em acto.
O escuro raro.
 
 
Arquimedes
 
Nos líquidos perscrutou
o segredo vertical
de uma força que achou:
descobrir é casual
quando muito se pensou.
 
 
Galileu
 
As leis do movimento perscrutaste,
com paciência e cândido olhar.
Com o mesmo olhar o vasto céu sondaste,
humilde mas altivo no ousar.
 
 
Copérnico
 
O céu que viste era o céu
de Ptolomeu. Mas diferente
foi a forma de o olhar.
No modo de julgar, teu,
a Terra, astro movente, demitiu-se de pensar
que era o centro do mundo:
assim ver, que abalo fundo!
 
Eugénio Lisboa, in O Ilimitável Oceano, Quasi Edições, Março 2001

Advent Concert 2023

 

Advent Concert 2023.