domingo, 22 de outubro de 2023

Ao Domingo Há Música

 
A Mãe e o Filho – O Beijo de Boa Noite (1880),  de Mary Cassatt

 Slumber, my darling, thy mother is near,
 Guarding thy dreams from all terror and fear,
 Sunlight has pass'd and the twilight has gone,
 Slumber, my darling, the night's coming on. 

Num tempo de trágica instabilidade, em algumas partes do nosso mundo, as vozes surgem em jeito de clamor de uma paz e compaixão  tão ambicionadas.

VOCES8, em Slumber My Darling,  arr. Blake Morgan.
 
De  VOCES8,  Barnaby Smith e Katie Jeffries-Harris interpretam um dueto de Johann Sebastian Bach  "Et In Unum Dominum Jesum Christus" , da  Mass in B Minor.
 

O jardineiro da felicidade

Josef Stalin
 
O jardineiro da felicidade humana
por Eugénio Lisboa
« Agora, que, por todo esse mundo, avançam as radicalizações, à direita e à esquerda, convém ir lembrando de que metal são feitos os tiranos. São gente perigosa, porque, mesmo quando o seu comportamento é ostensivamente grotesco, guloso de glorificação, para além daquele teor mínimo de megalomania que assiste a qualquer ser humano, arranjam sempre uma corte de bajuladores que se atropelam uns aos outros para verem quem mais se destaca na arte de bajular. Vou aqui transcrever um excerto de um capítulo do excelentemente documentado livro A CONTRA HISTÓRIA DO COMUNISMO, do espanhol Fernando Díaz Villanueva.
 
O jardineiro da felicidade humana
“Os tiranos foram sempre muito dados a olhar para o umbigo e a obrigar toda a gente a admirá-los. Por isso, aquilo a que hoje chamamos culto da personalidade – expressão extraída directamente do marxismo – teve lugar em todas as civilizações, independentemente da época e do lugar.
 Os egípcios antigos divinizaram os faraós, que, mais do que simples reis, eram deuses num corpo mortal que estavam de passagem pela Terra. Em Roma, os governantes começaram a investir-se de divindade, assim que a antiga república deu lugar ao Império. Incas, aztecas, tibetanos e chineses transformaram os seus governantes em algo muito semelhante a deuses, quando não directamente em deuses. Na China, a filosofia política prevalecente era a do mandato do céu, que era muito similar à que, na Europa, legitimava a monarquia de direito divino.
Mas, ainda que pareça mentira, foi no século XX que o culto da personalidade alcançou o seu máximo esplendor, em boa medida, graças ao aparecimento de novas tecnologias e meios de expressão como a fotografia e o cinema e, principalmente, à irrupção dos totalitarismos após a Primeira Guerra Mundial. Os fascistas e os bolcheviques perderam a cabeça com o culto ao líder e aos poderosos. As suas ideologias anómicas tinham essa veneração no código genético e os avanços técnicos da época tornaram realidade os seus sonhos idólatras.
O  fascismo italiano, como em muitas das formas exteriores do socialismo, foi o primeiro. Mussolini revestiu-se de uma autoridade inspirada no culto dos antigos césares. Os uniformes, os desfiles, o passo de ganso, as saudações romanas, tudo isso marcou um estilo que os nazis rapidamente adoptaram. Os bolcheviques distanciaram-se ligeiramente da estética fascista, mas reforçaram ainda mais a veneração do líder. Isso aconteceu já nos tempos de Lenine, mas, como ele não viveu o suficiente para completar a sua obra, foi na era de Estaline que o culto da personalidade atingiu a sua máxima expressão.
A loucura começou com os nomes do inominável. Ninguém no seu perfeito juízo se referia a ele como Joseph, o seu nome próprio, mas como Estaline, o seu cognome revolucionário, que em russo quer dizer qualquer coisa como “feito de aço”. Os aduladores depressa começaram a arranjar-lhe sobrenomes grandíloquos, como Pai dos Povos, Líder e Mestre dos Trabalhadores do Mundo, Titã da Revolução Mundial, Corifeu da Ciência, Jardineiro da Felicidade Humana, Brilhante Génio da Humanidade, Grande Arquitecto do Comunismo ou Sábio Timoneiro. Utilizavam esses vários epítetos grandiosos, consoante a época e a ocasião.
A princípio, a designação que mais lhe agradava utilizar para ganhar legitimidade era a de Discípulo Predilecto do Camarada Lenine, depois, quando o seu poderio se tornou incontestável, passou a preferir a de Pai dos Povos, que foi muito utilizada fora da URSS após a Segunda Guerra Mundial, ou a especialmente cómica designação de Amigo Benevolente de Todas As Crianças.
Não parou aqui a megalomania. Dezasseis cidades de diversos países mudaram de nome em homenagem ao líder de aço. A maior e mais famosa foi Estalinegrado, à qual a História reservou um papel especialmente heroico.”
 
De todos os títulos grandiosos, escolhi, para encabeçar esta transcrição, o de O JARDINEIRO DA FELICIDADE HUMANA, por razões de ferina ironia. Quando, ainda na vigência do regime soviético, visitei Moscovo e Leninegrado (hoje, de novo, S. Petersburgo), achei tudo aquilo tão tenebroso, tão soturno, tão absurdamente cruel
( não encontrei rigorosamente nada que me apetecesse trazer como recordação), que cogitei, com os meus botões, nunca ter visitado nada de onde a felicidade humana estivesse tão arredada.»
Eugénio Lisboa, 21.10.2023

Trasladação dos restos mortais de Eça de Queiroz

TRASLADAÇÃO DOS RESTOS MORTAIS
DE EÇA DE QUEIROZ PARA O PANTEÃO
por Eugénio Lisboa

“O Supremo Tribunal Administrativo decidiu a favor dos herdeiros de Eça de Queiroz, que desejam a trasladação dos seus restos mortais para o Panteão Nacional. A lei, bem ou mal interpretada por esse tribunal, deu-lhes razão. A razão dos herdeiros, apoiada na lei jurídica, ganhou. A justiça à memória do escritor, não. A lei escrita obriga, muitas vezes, à injustiça. Não é a primeira vez que lei e justiça se opõem. E não será a última. E já vem, pelo menos, dos tempos remotos de Antígona.
O funeral do autor de O CRIME DO PADRE AMARO vai, provavelmente, ter os ritos da trasladação abençoados, com a aprovação comovida dos que herdaram o nome, mas não o espírito, do grande escritor, por um qualquer dignitário da Igreja. E o criador do Conselheiro Acácio vai ter de ouvir, lá no assento etéreo, onde se encontra, as beatas e conselheirais palavras de um qualquer orador que ali vai buscar os seus quinze minutos de glória. Espero que, na urna onde os seus ossos se encontrarem, haja espaço suficiente para ecoar o som da inconfundível gargalhada que ali se vai percutir.
É bem verdade: os grandes homens nem sempre têm os herdeiros que os conhecem e os merecem. Por isso, o grande George Steiner propunha que as viúvas desses grandes homens – no sentido muito lato de “viúvas” – deviam, à cautela, ser lançadas à pira, para evitar desacatos. É uma proposta que merece a mais séria consideração das mentes legislativas.”
Eugénio Lisboa, 20.10.2023 

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

UMA VERGONHA CULTURAL

Centro de Estudos Regianos - Vila do Conde 
 
UMA VERGONHA CULTURAL
A CÂMARA MUNICIPAL DE VILA DO CONDE

por Eugénio Lisboa
“Vila do Conde teve o privilégio de lá ter nascido uma das maiores figuras literárias de Portugal, de todos os tempos. Grande poeta, grande dramaturgo, grande ficcionista, no conto, na novela e no romance, notabilíssimo ensaísta e crítico literário, diarista e autobiógrafo, artista plástico e empenhado colecionador de arte popular, sacra e profana, que soube preservar, José Régio é um excepcional ícone daquela terra que cantou em versos imortais e em inesquecíveis páginas de prosa. Quando se tem um ícone desta dimensão e desta projecção, há que acarinhá-lo, divulgá-lo, preservando-lhe dignamente a memória. Isso tem sido feito pelo CENTRO DE ESTUDOS REGIANOS, da Câmara Municipal de Vila do Conde, mas graças ao esforçadíssimo empenho, admiravelmente desinteressado, de competentes e devotados regianos, de que saliento o nome de Isabel Cadete Novais, a todos os títulos digna da admiração dos vilacondenses e dos portugueses, em geral. Preservando e divulgando o espólio e organizando, incansavelmente, colóquios, congressos, exposições, por todo o país, Isabel Cadete tem desenvolvido uma admirável obra de perpetuação da memória de um grande e singularíssimo escritor português. A propósito, ficaria bem, à Presidência da Câmara Municipal de Vila do Conde reconhecer esta obra de grande valor com uma mais do que merecida medalha de Mérito concedida a esta notável trabalhadora. E também, daqui a recomendo ao Senhor Presidente da República, para que o seu trabalho seja reconhecido com uma adequada comenda.
Porém, à Câmara de Vila do Conde, recomendo algo de igualmente urgente: a reparação, cuja necessidade se arrasta há anos, do tecto da Biblioteca do Centro de Estudos Regianos, porque a chuva que dentro dela cai já destruiu espécies bibliográficas valiosíssimas. Os apelos repetidos e angustiantes feitos pela directora do Centro, à Câmara, têm caído em ouvidos moucos. Tratar assim um símbolo cultural desta estatura é uma vergonha, porque expõe de maneira gritante o pouco ou nenhum valor que essa Câmara ou a sua vereação da cultura a esta atribui.”
Eugénio Lisboa, 19.10.2023

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

O enviesado valor terapêutico da ideologia

O enviesado valor terapêutico da ideologia
por  Eugénio Lisboa
 
A paz é o único combate
que vale a pena travar.
                Albert Camus
 
“Há quem viva só de ideologia e esteja completamente anestesiado para a sensibilidade, não sendo capaz de reagir ao horror da destruição e preferindo refugiar-se na abstracção fria das estatísticas e dos clichés ideológicos.
A ideologia é um colete que os protege do sentir e simpatizar com a dor verdadeira: a dor que doe aos de um lado e aos do outro. A ideologia é, muito frequentemente, um escudo contra a dura realidade. É uma ideologia fria e calculista, sem ouvido nem simpatia para o adversário e que, diante de uma vala comum de cadáveres apodrecidos, pergunta, primeiro, quem matou, para saber se deve ou não condenar. Porque há, como já se tem ouvido, assassinos maus e assassinos bons. Os actos dos bons escondem-se debaixo do tapete e a sempre prestável História que os absolva.
Há guerras boas e guerras más, dizem os ideólogos amigos destas dicotomias confortáveis. Mas Hemingway, que chafurdou em três guerras tremendamente mortíferas e, numa delas, se feriu, sabendo portanto bem do que falava, avisou-nos de que mesmo as guerras boas eram obviamente más. Porque viu o sangue, a lama e a urina, o vómito, os corpos estropiados e os piolhos em escala apocalíptica e, em face de tal visão, não havia lugar para finas destrinças ideológicas: era tudo infame, de um lado e do outro. O “não matarás” não se aplica só ao outro lado, aplica-se também ao nosso. E, para este mandamento, não pode haver “mas”.
O ideólogo frio e manietado por clichés é um assexuado do sentir, um estropiado da sensibilidade. A filologia leva ao crime, mostrou Ionesco, numa peça célebre. O ideólogo agarra-se à filologia, como boia de salvação que lhe permite flutuar no mar do não sentir. Diante de um amontoado de mortos anónimos, só lhe interessa saber se são mortos do lado certo ou do lado errado. O espectáculo do massacre não o arranha minimamente, o importante é receber o recado certo, do mandante seguro: que lhe diga, sem pestanejar, se deve ou não condenar.
O ideólogo refugia-se em clichés mortos, porque estes não sangram nem doem. Três milhões de mortos não têm importância, se o morticínio estiver do “lado certo da História”, signifique isto o que significar. O horror justificado não cria pesadelos. Substituir a fotografia de uma cidade destruída por uma frase desinfectada e maravilhosamente abstacta dá garantias de sonos bem dormidos. Enquanto debitam parágrafos sobre os ventos da História e sobre a inescapável justiça que esta fará aos da “boa doutrina”, não se é obrigado a reparar no Holocausto vigente. Há enormes promessas de conforto na filologia que, não só leva ao crime, como serve para o esconder debaixo do tapete.
Entretanto, vamo-nos inclinando cada vez mais para a convicção de que não há nada tão reles como a boa consciência dos patifes. Para estes, a razão serve para justificar que tudo pode ser justificado com ela.”
Eugénio Lisboa, 18.10.2023

Manhã cinzenta

 

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Manhã Cinzenta
Faz me chorar
A chuva lembra
O teu olhar
 
As folhas mortas
Caem no chão
A dor aperta
O coração
 
Quanto eu não daria
Para poder voltar atrás
Volta pra meu peito
Daqui não saias mais
 
Perdi-me Amor
Pra te encontrar
Na solidão
Do teu olhar
 
No teu olhar
Se perde o meu
Também o mar
Se perde no céu
 
Quanto eu não daria
Para poder voltar atrás
Volta pro meu peito
Daqui não saias mais
Música: Rodrigo Leão. Letra: Ana Carolina

O génio musical de Rodrigo Leão aliado à magnífica voz de Ana Vieira enchem momentos de puro prazer.
Rodrigo Leão & Ana Vieira, em voltar . solitude . la féte.
 
0:00 - Voltar 
4:50 - Solitude
8:25 - La féte

Da igualdade e desigualdade dos tiranos

 

Há quem pense, de boa consciência,
que há quem faça guerras que são boas,
com farta retórica e flatulência,
que enchem o tesouro de coroas.
 
As guerras custam milhares de mortos,
mas, pondo de parte esse pormenor,
as guerras são magníficos desportos,
se feitas pelo tirano em vigor.
 
Bons tiranos há-os de várias cores,
esquerdos e direitos, à la carte.
São todos bons a produzir horrores,
 
mas uns fazem-no com engenho e arte.
Se os tiranos são todos iguais,
há-os que são bastante mais iguais!
                                 18.10.2023
Eugénio Lisboa

terça-feira, 17 de outubro de 2023

OS FAUTORES DA GUERRA

 
 As guerras são todas más, mesmo as boas:
as guerras só sabem produzir horrores.
Os horrores bons da esquerda são loas,
os da direita prós comendadores.
 
Os horrores não têm qualquer cor,
a cor das guerras é sempre o preto.
Os políticos não têm pudor
e tornam sempre o morto obsoleto.
 
Quem ordena a guerra é delinquente,
sobretudo se acha que é necessária:
só a acha necessária quem mente
 
ou antes afaga conta bancária!
O fautor da guerra boa ou má
mais cedo ou mais tarde pagará.
                        16.10.2023
Eugénio Lisboa
 
Pagará ou receberá: é conforme.