segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Infância


 Infância


                                                Ao meu  pai

Lá vai a Dona Biloca levando uma corvina...
Levei uma surra porque peguei um ovo no galinheiro dela
e disse pra minha mãe que achei na rua...
Lá vem a Odair e o Udinho...
Eu sei que eles querem brincar na piscina que eu fiz  
                                                                               [sooozinho..
- Ei Lelo, lá  vem o Seu Badico lavar os cavalos na praia...
- Eu sei, mas depois ele vai  encher a carroça de tainhas,
vai pôr folhas de bananeira em cima  e vai vender lá em 
                                                                             [Medeiros.
-Paaaai!... deixa eu ir com o senhor lá em Medeiros???.
Como eu gosto de lavar o Sanho....ele é tão mansinho...
- Pai... o senhor já nadou até a ilha?
- Pai... depois o senhor me leva até o fundo?
- Pai... eles vão pôr de novo a rede hoje?
- Pai... depois vamos tomar garapa lá no Seu Bebé?

Infância... a indelével imagem da vida
o território mágico da alma
lembrança viva e peregrina que  flutua pelo tempo.
Ah! essa salgada saudade dos braços fortes de meu pai
a levar-me sobre os ombros entre as ondas.
O salto, o mergulho, o torvelinho das águas
minha festa, meu delírio.
Meu mar, meu céu, meu pão de liberdade
meus sete anos correndo atrás das gaivotas
perambulando entre as canoas que chegavam
meus pés vestidos com  pantufas de espuma
a chutar seus densos flocos pelo ar.
As estrelas do mar semeadas ao longo dos meus passos
os siris entrando em seus buracos
os maçaricos andando ligeirinhos pela praia
as redes chegando lentamente com o  cardume aprisionado

                                                               
arraias, bagres, cações
espadas, águas vivas, caranguejos
os pescadores repartindo os peixes agonizantes
os baiacus mortos na areia
os restos do arrastão espalhados sobre a praia
meu samburá repleto de peixinhos.

Ah, a canção intermitente das ondas
o poético itinerário das velas levadas pelo vento
o vôo vagabundo das  aves litorâneas
o dorso escuro dos botos surgindo de quando em quando 
                                                                          [ sobre as águas.
a maré alta da tarde apagando  as marcas da manhã
a minha lagoinha lá perto da ponte
o meu mangue povoado de siris-goiá
meu pai tirando ostras
o rio desembocando lá na barra
a chegada das tainhas no inverno.

Ali morava minha infância
ali, e na imensurável morada do horizonte...
Meus olhos despertavam nas pálpebras entreabertas
                                                                         [ da aurora
e partiam com os mastros que sumiam na distância.
Vagavam no caminho melancólico do crepúsculo
no ocaso das tardes e na penumbra
na sedução da lua cheia sobre o mar.
Ah, Piçarras!... Piçarras!...............................
Não eras ainda esse moderno balneário
e a tua praia era somente  minha o ano inteiro.

......................................................................................

As velas da minha infância,
arriadas pelo tempo, já não saem pra pescar.
As redes daqueles anos,
abertas qual flor nas águas, chegam vazias do mar.
Os cardumes de tainhas,
ligeiras como corisco, já não chegam pra invernar.
As águas vivas do rio,
hoje carregam chorando,  seu veneno para o mar.

Meu manguezal de menino,
berçário de tantas vidas, foi inteiro loteado.

                                                                 
       Minhas canoas à vela,
poemas soltos ao vento, hoje navegam roncando.
O lago era um ovário
cujo canal dava ao rio, e tudo foi aterrado.
Progresso... que desencanto!!!
  sou um estranho nesse ninho, sou uma infância
                                                                       [ chorando.

............................................................................................

Ó mar, ó mar
procuro em vão meus rastros na areia
e por isso meus passos já não serão como um regresso...
Me restará, contudo, sempre  a tua eterna imagem,
tua beleza amanhecida e retocada pelo sol e pela brisa,
tuas verdes planícies que espraiam o mundo.
Resta-me o teu sabor primordial
“o sal da vida”
linfa incorruptível
ventre profundo que dia a dia reinaugura a maternidade 
                                                                                [planetária.
Restam-me tuas noites  pontilhadas pelos faróis do mundo
por Sírius, Antares,  Aldebarã...
por todo o firmamento constelado
e pelo  esplendor dos plenilúnios.

Volto saudoso aos meus mares
porque sempre haverá um leste e um sul magnético no 
                                                                                  [meu peito
apontando-me  o encanto desses íntimos recantos.
Aqui, uma pequenina praia entre pedras e penhascos,
ali, a visão imensa da baía com seus barcos e canoas, 
além,o grito alado das plumagens que voam lentamente 
                                                                                  [sobre as ondas
ao longe, o pesqueiro solitário que demanda as águas fundas.
Relembro este molhe de pedra que avança sobre o mar
do farol da barra  e  desta paisagem soberana
e da minha adolescência cruzando a nado esta corrente.
É o meu Itajaí-Açu desembocando calmamente no oceano
neste mar tão verde desta manhã de sol.
Meu olhar ancora ao longe, nos navios fundeados
e navega, mais além,  pousado no mastro esbelto de 
                                                                               [um veleiro.

Mar, ó mar
restará sempre o teu murmúrio a embalar o mundo
a voz inaudível das profundidades orientando a  rota 
                                                                             [dos cardumes

                                                              
a tua gestação incessante de criaturas
a força imponderável das correntes
a pontualidade das marés
os teus ciclos arquétipos que sustentam a vida.

Mar, ó mar
basta-me hoje o que já me deste desde sempre...
a tua imensidão tatuada nos meus olhos,
verde enseada onde aportou meu lírico destino.
Esses teus encantos, as tuas extensões,  essa totalidade...
todas as tuas medidas eu quisera ter na suprema síntese 
                                                                                 [dos meus versos,
para dá-la ao mundo na  expressão mais bela da poesia:
a face deslumbrante da esperança.
                                                        Piçarras-Itajaí, fevereiro de 2005

Manoel de Andrade, in " Cantares", Escrituras Editores, São Paulo, Brasil, pp. 52-56

domingo, 13 de novembro de 2022

Ao Domingo Há Música

Estrada do Sol

É de manhã vem o sol
Mas os pingos da chuva
que ontem caiu
Ainda estão a brilhar
Ainda estão a dançar

Ao vento alegre
Que me traz esta canção
É de manhã vem o sol
Mas os pingos da chuva
que ontem caiu
Ainda estão a brilhar
Ainda estão a dançar
Ao vento alegre

Que me traz esta canção
Quero que você me dê a mão
Vamos sair por aí
Sem pensar no que foi
que sonhei

Que chorei, que sofri
Pois a nossa manhã
Já me fez esquecer
Me dê a mão
vamos sair prá ver o sol
É de manhã vem o sol

Mas os pingos da chuva
que ontem caiu
Ainda estão a brilhar
Ainda estão a dançar
Ao vento alegre
Que me traz esta canção

É de manhã vem o sol
Mas os pingos da chuva
que ontem caiu
Ainda estão a brilhar
Ainda estão a dançar

Ao vento alegre
Que me traz esta canção
Quero que você me dê a mão
Vamos sair por aí
Sem pensar no que foi
que sonhei
Que chorei, que sofri

Pois a nossa manhã
Já me fez esquecer
Me dê a mão
vamos sair prá ver o sol
            Dolores Duran e Tom Jobim.

Neste domingo , recordamos Gal Costa, uma das vozes mais brilhantes do Brasil. Ouvi-la é um dos grandes prazeres que  nunca deixará de nos proporcionar. Escolhemos algumas das canções  mais emblemáticas da sua carreira.
Gal Costa, em  Força Estranha,  de Caetano Veloso.
   
Gal Costa e Tim Maia, em Um dia de domingo .Canção  composta especialmente para as vozes de Gal Costa e Tim Maia por Sullivan e Massadas. 
Gal Costa  e Elis Regina , duas grandes vozes , interpretam  Estrada do Sol,  de Dolores Duran e Tom Jobim.
 
E, por fim , Gal Costa, na inesquecível Modinha para Gabriela , de Dorival Caymmi.
 

sábado, 12 de novembro de 2022

FAMA VOLET


A fama é frágil e desaparece
e quase não deixa rasto que fique.
Com o tempo a fama empalidece,
não havendo nada que a fortifique.
 
Por ela, porém, queimam-se amizades,
traem-se valores e até fervores:
a fama transfigura lealdades
e troca sentimentos por favores!
 
Quem luta pela fama é vigilante,
cauteloso, astuto e calculista:
alia-se, até, ao meliante
 
e usa o vestuário do lobista.
A fama até rima com a lama
e tece rendosa mas frágil trama!
                          12.11.2022
Eugénio Lisboa

Bandeiras e máscaras


Bandeiras e máscaras1
 
Esse é o tempo cruel que antecede o amanhecer.
Em seu rastro marcham os filhos das estrelas e os herdeiros
                                                                   [da penumbra.
Na moldura das horas as intenções se partem.
Ali, os justos ensaiam seus passos.
Acolá, nos becos, os ânimos crepitam
e engatilham seus gestos.
Nas ruas as faces empunham bandeiras,
as máscaras escondem punhais.
 
Passo a passo, portando consignas e estandartes, a multidão
                                                                              [caminha...
ocupam estradas, bloqueiam rodovias, paralisam cidades,
avançam no seio da tarde denunciando os charcos do poder e
                                                          [os leilões da mais-valia.
É o nosso “Dia de Lutas”, gritam os sindicalizados.
São cinquenta, são cem mil pedindo tarifas justas,
terras repartidas, quarenta horas semanais...
Faixas, cartazes, coros e gritos:
“Prisão para os corruptos”, “Punição para os crimes da
                                                                    [ditadura”.
“O povo acordou, o povo decidiu, ou para a roubalheira, ou
                                                                 [paramos o Brasil”
 
Eis o espaço do povo,
eis as ruas virtuais,
é a nova democracia,
pelas redes sociais.
Salve moças e rapazes,
salve as faces descobertas,
salve as bandeiras e os sonhos,
erguidos com transparência.
 
De repente as fronteiras são rompidas,
sobre as cores da paisagem as máscaras armam seus braços,
quais abutres insaciáveis atacam os cristais e escarram na
                                                                             [decência.
 
Atrás dos grandes escudos os uniformes avançam.
Voam coquetéis e pedras, explodem gazes, morteiros,
soam tiros e foguetes entre o fogo e as barricadas.
Salve os agentes da ordem, salve os bons pretorianos.
O verde-oliva e o negro já cruzam suas espadas,
barras, paus e cassetetes
e as razões abaladas.
 
Chegou a tropa de choque nos trajes da truculência.
Surge o gesto inconfessável,
surge a fraude na vergonha e o flagrante forjado.
Asco aos falcões do cinismo algemando a inocência.
 
Eis o palco dos tumultos,
eis as cinzas da batalha,
eis o saldo do espanto
e a multidão dispersada.
Restou o ato incompleto,
sem o hino dos professores,
e sem o eco das promessas
na voz dos governadores.
Massacraram a primavera
e a magia da cidade.
Assustaram os pardais,
retalharam a liberdade.
Eis a cultura que herdamos
a esfolar nossas almas.
Abatido por tantos golpes,
o amor é um silêncio
e as avenidas soluçam,
qual um salgueiro de lágrimas.
 
E agora, eis-me aqui, diante da poesia,
assistindo desabar as velhas torres do encanto...
Perplexo, que posso ainda?
sou apenas um olhar melancólico diante da esperança.
Indignado ante a mística do horror,
quero transformar em versos os protestos, o confronto, as
                                                                     [cicatrizes.
A realidade é um idioma intraduzível,
e eu impotente, ante o mistério sinuoso das palavras.
As palavras, oh! as palavras em sua essência,
elas não se revelam a qualquer poeta...
habitam em seu próprio enigma,
são silentes como os hinos do entardecer...
Nesse impasse, entre as imagens e o lirismo,
ante a sensibilidade e a violência,
sei de um roseiral em flor no caminho que me resta,
alhures há um campo de espigas que cantam, balançando
                                                                            [ao vento
e, nesta palmeira esbelta, a vida é reproclamada nos trinos de
                                                                [um ninho em festa.
                                                                            Curitiba, outubro de 2013
 
Manoel de Andrade, in As palavras no espelho, Escrituras Editora, São Paulo , Brasil, 2018, pp.239-241
 
(1)   - Este poema foi declamado em 9 de dezembro de 2013 pelo radialista Paulo
Branco com imagens de Wasyl Stuparyk e pode ser ouvido nos links: <http://
www.paulobranco.com/2013/12/bandeiras-e-mascaras.html> e <https://www.
youtube.com/watch?v=HNGVfk4FhQ

Do humor de George Bernard Shaw

George Bernard Shaw  foi um famoso dramaturgo, romancista, ensaísta, crítico e activista político, que nasceu a 26 de Julho de 1856, em Dublin, e faleceu em Ayot St. Lawrence, Hertfordshire, Inglaterra, a 2 de Novembro de 1950. Em 1925 , foi o vencedor do Prémio Nobel da Literatura. Viveu em Londres a maior parte da sua vida ,  criticando a política inglesa sobre a Irlanda. Foi cofundador da London School of Economics e da Fabian Society, uma “sociedade socialista reformista". Autor de 52 peças, 5 novelas, inúmeros ensaios e crónicas sobre quase tudo que se podia escrever de sua época. É quase impossível medir a magnificência da sua estatura produtiva. Na Primeira Guerra Mundial, colocou-se contra a guerra sugerindo o absurdo da paz e da diplomacia. Argumentou que todos eram igualmente culpados pela guerra. Na Segunda Guerra Mundial, largou inconformado o pacifismo diante da ideia de que não era possível outra saída, criticando abertamente  a neutralidade dos States (USA) e convocando o resto do mundo a lutar contra o fascismo. Morreu aos 94 anos produzindo até ao final.

A sua peça  "Pigmaleão" foi adaptada para o cinema com o título de "My Fair Lady", sob a direcção de George Cukor e a participação de Andrey Hepburn
George Bernard Shaw convidou Winston Churchill, por telegrama, para a estreia desta peça . Eis o resultado: 
"Shaw:
– Reservei duas entradas para a primeira noite da minha nova peça. Venha e traga um amigo, se tiver.
Churchill respondeu:
– Não poderei ir à primeira apresentação, mas irei à segunda, se tiver."

Transcrevemos algumas frases famosas, retiradas de um dos seus livros Socialismo para Milionários  publicado em 1901.   Livro de um humor sarcástico. Uma sátira à cegueira dos milionários que vivem oprimidos pelo dinheiro. A extracção das frases foi feita da edição da Ediouro, do Rio de Janeiro.

“O verdadeiro artista prefere deixar a mulher morrer de fome, os filhos andarem descalços, a mãe septuagenária trabalhar para sustentá-lo, a trabalhar em qualquer coisa que não seja a sua arte.”

“Um homem moderadamente honesto com uma esposa moderadamente fiel, sendo ambos bebedores moderados numa casa moderadamente saudável, eis o verdadeiro tipo da classe burguesa.”

“Não deveis supor, só por eu ser um homem de letras, que nunca tentei ganhar a vida honestamente.”

“A nomeação de uma pequena minoria corrompida é substituída, na democracia, pela eleição por uma multidão incompetente.’

“Quando um tolo pratica um ato de que se envergonha, declara sempre que fez o seu dever.’

“A escravidão atingiu o seu ponto culminante em nossa época sob a forma do trabalho assalariado livre.”

“Uma vida inteira de felicidade? Ninguém a aguentaria: seria o inferno na Terra.”

“Um gentleman não é um homem, pelo menos não um homem comum – pois o homem comum não passa de um escravo que alimenta e veste o gentleman melhor que os demais.”

“O pior crime para com os nossos semelhantes não é odiá-los, mas demonstrar-lhes indiferença: é a essência da desumanidade.”

“Há duas tragédias na vida: uma, a de não alcançarmos o que o nosso coração deseja; a outra, de alcançá-lo.”

“O que realmente lisonjeia uma pessoa é que a julguemos digna de ser lisonjeada.”

“É claro que um romance não pode ser ruim demais para não ser publicado… Mas é decerto possível que um romance seja bom demais para ser publicado.”

“Sabeis o que é um pessimista? Um homem que julga os demais tão sórdidos como ele próprio e por isso os detesta.”

“A ideia de que houve qualquer progresso desde a época de César (menos de 20 séculos) é absurda demais para entrar em discussão. Toda a selvajaria, a barbárie, o obscurantismo e todo o resto de que nós guardamos lembrança, no passado, existe no presente momento.”

“O homem razoável adapta-se ao mundo; o desarrazoado insiste em tentar adaptar o mundo a si mesmo. Por isso, todo progresso depende do homem desarrazoado.”

“Há apenas uma religião, embora dela exista uma centena de versões.”

“As igrejas têm que aprender a praticar a humildade tão bem quanto pregá-la.”

“O sacrifício de nós próprios permite-nos sacrificarmos sem vergonha os outros.”

“Não gosto de sentir-me em casa enquanto estou no estrangeiro.”

“A vida é uma pedra de amolar: desgasta-nos ou afia-nos, conforme o metal do qual somos feitos.”

George Bernard Shaw, in  Socialismo para Milionários, Rio de Janeiro, Ediouro, 2001.

David e Golias no dia em que Kherson foi reconquistada



David e Golias
no dia em que Kherson foi reconquistada
 
David lixou Golias,
reeditando a História!
Putin, o das tropelias,
foi mandado para a escória,
a seguir a arrelias
e mui patetas vanglórias.
Golias usa o tamanho,
David tem só a manha:
aquele chora baba e ranho
e este chega-lhe com sanha!
Golias pisga-se à pressa,
para ir “reagrupar”:
fala assim quem não confessa
que está mesmo a “levar”.
É história bem bonita,
quando o pequeno David,
só com a sua fisguita,
aquele gigante agride!
O tamanho é só força
e a força não é vitória:
ter razão é que reforça
o poder ficar na História!
                    12.11.2022
Eugénio Lisboa

 HOJE SOMOS TODOS UCRANIANOS!

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Emergir para respirar


Emergir para respirar
por George Orwell

 

Ele está morto, mas não se quer deitar 
               Canção popular 
Parte I 
Capítulo I
"A ideia ocorreu‑me no dia em que fui buscar a minha dentadura nova. Lembro‑me bem daquela manhã. Levantara‑me por volta das oito menos um quarto e chegara à casa de banho mesmo a tempo de fechar a porta na cara dos miúdos. Estava uma manhã de Janeiro horrenda, com um céu sujo, de tons cinzento‑amarelados. Pela janelinha da casa de banho podia ver o relvado de dez metros por cinco, rodeado por uma sebe de alfena e com uma parte pelada ao centro, a que chamamos o nosso jardim traseiro. Há um jardim idêntico, com a mesma sebe e a mesma relva, em todas as casas de Ellesmere Road. A única diferença é a parte pelada ao centro, que não existe nas casas onde não há crianças. Estava a tentar barbear‑me com uma lâmina meio romba, enquanto a água corria na banheira. O meu rosto olhava‑me do espelho, por baixo do qual, numa pequena prateleira acima do lavatório, dentro dum copo com água, estavam os dentes que correspondiam a essa cara. Tratava‑se da dentadura provisória que o doutor Warner, o meu dentista, me havia dado enquanto a nova estava a ser feita. Não sou propriamente feio. Tenho uma daquelas caras cor de tijolo que costumam vir acompanhadas de uma tez cor de manteiga e olhos azuis‑claros. Felizmente, não tenho cabelos brancos nem me tornei calvo, e quando usar a dentadura nova, é provável que não aparente a idade que tenho, quarenta e cinco anos. Enquanto anotava mentalmente a urgência de comprar lâminas de barbear, entrei na banheira e comecei a ensaboar‑me. Ensaboei os braços (que são rechonchudos e sardentos até aos cotovelos), depois peguei na escova das costas e ensaboei as omoplatas, às quais, de outro modo, não consigo chegar. É uma maçada, mas há várias partes do meu corpo que actualmente já não consigo alcançar. A verdade é que tenho uma certa propensão para a obesidade. Não estou a dizer que sou uma dessas aberrações de feira popular. Peso pouco mais de noventa quilos, e da última vez que medi a minha cintura, o resultado foi um metro e vinte, ou vinte e dois, já não recordo ao certo. E não sou aquilo a que se costuma chamar um gordo “repugnante”, não tenho uma daquelas panças que descaem quase até aos joelhos. Acontece simplesmente que sou um bocadito barrigudo, com tendência a ganhar a forma dum barril. Estão a ver aquele tipo de gordo enérgico e robusto, de porte atlético, vigoroso, que costuma ser alcunhado de Bucha ou Gordalhaço e é sempre o centro e a alma de todas as festas? Sou eu. A mim, chamam‑me sobretudo Bucha. Bucha Bowling. O meu nome verdadeiro é George Bowling. Mas naquele momento eu não me sentia o centro e a alma da festa. E ocorreu‑me que, nos últimos tempos, quase sempre me sentia meio rabugento ao acordar, apesar de dormir bem e não ter problemas de digestão. Eu sabia qual era o motivo, claro — a maldita dentadura postiça, que surgia ampliada dentro do copo com água e me sorria como os dentes duma caveira. É desagradável sentir as nossas gengivas a tocarem‑se, uma sensação meio opressiva, de recuo, como quando mordemos uma maçã excessivamente ácida. Além disso, uma dentadura postiça, digam o que disserem, representa um marco divisório. Quando se vão os últimos dentes naturais, termina em definitivo a época em que podemos alimentar a ilusão de sermos uns galãs de Hollywood. De resto, eu era gordo e estava com quarenta e cinco anos. Enquanto me endireitava para ensaboar o entrepernas, não pude deixar de olhar para a minha figura. É um disparate dizer­‑se que os gordos não conseguem ver os pés, mas não deixa de ser verdade que, quando estou de pé, só consigo ver a metade dianteira dos meus. Enquanto ensaboava a barriga, pensei que nunca mais mulher alguma olharia para mim duas vezes, a não ser que lhe pagasse. Não é que naquele momento eu desejasse particularmente que alguma mulher olhasse para mim uma segunda vez. Mas lembrei‑me de que naquela manhã tinha razões para me sentir mais animado. Para começar, não ia trabalhar. O meu velho automóvel, com o qual “cubro” o meu sector (devo dizer que estou no negócio dos seguros; trabalho na Flying Salamander: vida, incêndios, roubo, gémeos, naufrágios — tudo), estava na oficina e, embora tivesse de passar pelo nosso escritório de Londres para deixar uns papéis, eu ia tirar o dia para ir buscar a dentadura nova. Além disso, havia uma outra questão que, nos últimos tempos, me bailava na mente. Essa questão era o facto de eu ter dezassete libras de que não havia falado a ninguém — ou seja, a ninguém da família. O que acontecera fora o seguinte. Um tipo da nossa firma, chamado Mellors, tinha arranjado um livro intitulado A Astrologia Aplicada às Corridas de Cavalos, no qual se provava que tudo dependia da influência dos planetas nas cores usadas pelo jóquei durante a prova. Bom, numa corrida qualquer havia uma égua, chamada Corsair’s Bride, pela qual ninguém dava nada, mas o seu jóquei trajava de verde, que aparentemente era a cor certa para os planetas que se encontravam em ascensão naquele momento. O Mellors, que andava profundamente embrenhado nas coisas da astrologia, ia apostar umas libras naquela égua e implorou­‑me que fizesse o mesmo. Tanto insistiu que eu, sobretudo para o calar, decidi arriscar dez xelins, apesar de não ter por hábito jogar. E a égua, claro, ganhou a corrida. Já não me recordo ao certo quais eram as probabilidades, mas o certo é que ganhei dezassete libras. Movido por uma espécie de instinto — assaz bizarro, e que provavelmente indicava outro marco na minha vida —, depositei o dinheiro no banco e não contei nada a ninguém. Nunca tinha feito nada do género. Se fosse um bom marido e um bom pai, tê‑lo‑ia gastado num vestido para a Hilda (a minha mulher) e em calçado para os miúdos. Mas após quinze anos a desempenhar o papel de bom marido e bom pai, começava a ficar farto disso."
George Orwell, in "Emergir para respirar" , Relógio D'água Editores, Setembro de 2022, pp.11-13
Sobre o livro:
George Bowling, de quarenta e cinco anos, casado, com filhos, é um vendedor de seguros com um desejo desesperado de escapar à sua vida monótona. Receia os novos tempos — em 1939, a guerra estava iminente —, as filas para as senhas de alimentação, os soldados, a polícia secreta e a tirania. Por isso, decide voltar para o mundo da sua infância, a vila que recorda como um paraíso rural de paz e tranquilidade. Mas o que irá encontrar quando lá chegar?
“Muito divertido, e ao mesmo tempo de um realismo estimulante. Mil Novecentos e Oitenta e Quatro está aqui em embrião. O mesmo se pode dizer de Rebelião na Quinta. […] Muito poucos romances trazem consigo as sementes de dois clássicos sendo, ao mesmo tempo, bem agradáveis de ler.” [John Carey, Sunday Times]

George Orwell

Sobre o autor:
Nascido em Junho de 1903, no início de um século marcado por duas guerras mundiais, o estalinismo e o nazismo, George Orwell resume na sua obra os sonhos e pesadelos do mundo ocidental nesse período. Nasceu Eric Arthur Blair em Motihari, na Índia Britânica. O pai era um funcionário subalterno inglês e a mãe tinha origem francesa. Após o regresso dos pais a Inglaterra, estudou numa escola na Henley-on-Thames, onde se distinguiu pela relativa pobreza e pelo brilhantismo intelectual. Frequentou depois duas importantes escolas inglesas, Wellington e Eton College, onde teve como colegas Cyril Connolly e Anthony Powell. Aldous Huxley foi seu professor. Mais tarde Orwell resumiu essa experiência como “cinco anos num banho tépido de snobismo”. Mas foi nessa época que conheceu duas obras que o influenciaram, A Ilha do Doutor Moreau, de H. G. Wells, e O Tacão de Ferro, de Jack London. Ao abandonar Eton, decidiu não ir para Oxford e entrar na polícia birmanesa, embarcando para as Índias. Nos cinco anos que se seguiram, descobriu a realidade do imperialismo e recolheu material para Dias Birmaneses e para ensaios tão originais como “Matar Um Elefante” e “Um Enforcamento”. Regressado à Europa, frequentou os bairros pobres de Londres, instalando-se em Paris na Primavera de 1928. Atingido por uma pneumonia, foi internado num hospital, cujas condições terríveis inspiraram o ensaio “Como Morrem os Pobres”. A convivência com os pobres e os vagabundos forneceu-lhe material para Na Penúria em Paris e em Londres, que publicou em 1933 com o pseudónimo George Orwell. Em 1936, o Left Book Club propôs-lhe escrever um livro sobre as condições dos operários no Norte do país. Partilhou a vida dos mineiros e confirmou as suas convicções socialistas. Escreveu numerosos artigos numa abordagem que considerava “semi-sociológica”, casou com Eileen O’Shaughnessy e correspondeu-se com Henry Miller, que apreciava a sua obra e ironizava com o seu idealismo. Em 1937, decidiu combater em Espanha ao lado dos republicanos, mas, em vez de se juntar às Brigadas Internacionais, ingressou na milícia do POUM, um grupo marxista heterodoxo, lutando na frente de Aragão. Foi ferido, assistindo na convalescência à eliminação pelo Partido Comunista, apoiado pela URSS, das milícias anarquistas e do POUM. Descreveu essa experiência em Homenagem à Catalunha (1938), que lhe valeu inúmeras calúnias. Em 1939, começou por se opor à participação da Grã-Bretanha na guerra, mas depressa se voltou contra os pacifistas, acusando-os de fazerem o jogo de Hitler. A partir de 1940, fez crítica teatral e de cinema, colaborou na Partisan Review e escreveu notáveis ensaios literários sobre Dickens, Tolstoi e Shakespeare. Em 1942-43, trabalhou para o serviço indiano da BBC, uma experiência que acabaria por o decepcionar. Em 1945, publicou Rebelião na Quinta, que, com Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, seria um libelo contra o totalitarismo estalinista que ameaçava a Europa. Em Junho de 1944, o seu apartamento foi destruído nos bombardeamentos de Londres. Em 1945, após a derrota de Hitler, foi correspondente do Observer em França e na Alemanha. Foi nesse período que a sua mulher faleceu durante uma operação. Em 1948, terminou Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, escrito ao longo de vinte e sete meses, marcados por internamentos em sanatórios por causa da tuberculose. Em Outubro de 1949, casou com Sonia Brownell. Morreu no ano seguinte. Tinha 46 anos."

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

A arte de insistir

Quando se pensa nisso o tempo todo,
alguma descoberta se consegue.
Que uma ideia venha ao engodo
e o espírito desassossegue,
 
nela se concentrando, sem parar,
e talvez um dia se faça luz,
permitindo, enfim, iluminar
um mistério debaixo de um capuz.
 
Uma ou duas ideias, numa vida,
desde que sejam ideias das boas,
valem bem uma vida investida
 
numa ideia que, certeira, arpoa!
Mesmo não acertando, insistir
é o melhor modo de conseguir.
                         10.11.2022
Eugénio Lisboa
 
O grande físico Isaac Newton, tendo-se-lhe perguntado como se descobre a lei da gravitação, respondeu: “Pensando nisso o tempo todo.”