sexta-feira, 6 de maio de 2016

Freud, um símbolo para a ideia de coragem moral

Sigismund Schlomo Freud 
Comemora-se , hoje , o 160º Aniversário de Sigismund Schlomo Freud (Freiberg in Mähren, 6 de Maio de 1856 — Londres, 23 de Setembro de 1939). O escritor Stefan Zweig conheceu e foi amigo de Freud. Ambos  são austríacos, judeus e vítimas da ira nazi. Tiveram de fugir da pátria .
No livro de memórias,“ O mundo de ontem, recordações de um europeu”, Stefan Zweig fala-nos da grandeza de Sigismund Freud.

" Foi em Viena que travei conhecimento com Freud, espírito grande e austero que,  como nenhum outro do nosso tempo, aprofundou e alargou o conhecimento da alma humana, numa época em que Viena o hostilizava, por ainda ver nele um indivíduo esquisito, obstinado , difícil. Fanático da verdade mas, ao mesmo tempo, plenamente consciente dos limites da mesma - disse-me certa vez: " Há tão pouca verdade a cem por cento, como álcool a cem graus!" -, tinha-se afastado da universidade e das ponderações académicas, pois ousara aventurar-se firmemente por zonas nunca dantes exploradas, e medrosamente evitadas, do mundo e do submundo das pulsões, ou seja , precisamente daquela esfera que a época tinha declarado solenemente "tabu". Inconscientemente, o mundo optimista e liberal sentia que aquele espírito que não aceitava compromissos minava inexoravelmente, com a sua psicologia das profundezas, a tese do crescente domínio exercido pala "razão" e pelo " progresso" sobre as pulsões, e que, devido à impiedosa técnica do desvelar, constituía um perigo para o método praticado por esse mesmo mundo, que consistia  em ignorar o que era incómodo. Mas não foi só a universidade, não foi só a claque dos neurologistas antiquados a defender-se em bloco contra este incómodo  "intruso" - foi o mundo inteiro , todo o velho mundo, a velha maneira de pensar, a " convenção" moral, foi toda uma época que receava o seu espírito revelador. A pouco e pouco, instituiu-se um boicote médico  a Freud, que perdeu o consultório e como,  do ponto de vista  científico,  nem as suas teses, nem mesmo as suas problematizações  mais ousadas  podiam ser refutadas , procurou-se dar cabo das suas teorias  sobre o sonho à boa maneira vienense : tratando-as ironicamente ou transformando-as num divertido e banal jogo de salão. Só um pequeno grupo de fiéis se reunia  em torno daquele homem solitário nos serões semanais de debate, onde a nova  ciência da psicanálise adquiriu os seus primeiros contornos.  Ainda antes  de eu próprio ter tomado consciência de toda a amplitude  da revolução de pensamento que ia sendo preparada lentamente a partir dos primeiros trabalhos fundamentais  de Freud, já tinha sido conquistado pela atitude forte  e moralmente inabalável  daquele indivíduo. Ali estava finalmente um homem de ciência, que qualquer jovem podia sonhar como modelo a seguir , cauteloso em cada afirmação, enquanto não tivesse obtido uma última comprovação e uma certeza absoluta, mas, a partir  do momento em a hipótese  se tivesse transformado em certeza  definitiva, irredutível no confronto com a oposição que lhe fosse feita pelo mundo inteiro; um homem modesto como nenhum outro no que se refere à sua pessoa , porém decidido a lutar por cada postulado  da sua doutrina e fiel até à morte  à verdade imanente  por ele defendida em cada descoberta. Não é possível imaginar homem intelectualmente mais destemido. Freud ousava  dizer sempre o que pensava, mesmo quando sabia  que as suas  afirmações claras  e implacáveis  eram inquietantes  e perturbadoras; nunca  tentava aligeirar a sua posição de força  através da mais pequena cedência - ainda que num plano meramente formal.  Tenho a certeza de que  Freud poderia ter exposto  quatro quintos  das suas teorias  sem encontrar oposição  por parte dos académicos, se se tivesse declarado disposto a velá-las  prudentemente, dizendo " erotismo" em vez de sexualidade , " eros" em vez de "líbido", se não tivesse estabelecido  sempre, inexoravelmente, as últimas consequências , em vez de  se limitar  a insinuá-las. Porém, no que dizia respeito aos seus ensinamentos e à verdade, mantinha-se intransigente; quanto mais forte a oposição, mais dura a sua determinação . Sempre que procuro um símbolo para a ideia de coragem moral  - o único heroísmo à face da Terra que não exige vítimas alheias - vejo sempre o belo semblante de Freud, na sua claridade viril, com os seus olhos escuros, fitando a direito e serenamente." Stefan Zweig, in “ O mundo de ontem, recordações de um europeu”, Ed. Assírio & Alvim, pp 489,490

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Na perplexidade do acontecer.

Há dias que não sabemos como serão. O Sol nasce porque a Lua desapareceu. A noite acaba porque a alvorada  o impõe. A luz brilha porque as trevas se extinguiram. 
E, então, as horas sucedem-se e o dia cresce. O Mar, os rios mergulham em movimento e a terra organiza-se em tempo e espaço. E é nesse entretanto que saímos na perplexidade do  acontecer.
Ondeia- Água , uma bela canção, na voz maior de Dulce Pontes.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Talvez seja isto a felicidade

" Se é verdade que os únicos  paraísos  são aqueles que se perderam, sei como hei-de chamar a esta qualquer  coisa de terno e de inunano que hoje reside  em mim. Um emigrante regressa à sua pátria. E eu recordo. Ironia, rigidez, tudo se cala e aqui estou repatriado. Não quero ruminar a felicidade. É bem mais simples  e é bem mais fácil. Porque destas horas que, do fundo do olvido, torno a trazer até mim, se conservou sobretudo a recordação intacta de uma pura emoção, de um instante suspenso na eternidade. Só isso é verdadeiro em mim e sei-o sempre demasiado tarde. Gostamos da curvatura de um gesto, da oportunidade de uma árvore na paisagem. E para recriar todo este amor não temos senão um pormenor, mas que basta : o cheiro  de um quarto fechado por demasiado tempo, o som singular de um passo na estrada. Assim é quanto a mim. E se eu amava  então  dando-me , eu era enfim eu mesmo, porque não há senão o amor para restituir-nos a nós mesmos.
Lentas, calmas e graves , voltam essas horas, do mesmo modo fortes, do mesmo modo comoventes - porque é à noite que a hora é triste  e que há uma espécie de desejo vago no céu sem luz. Cada gesto reencontrado me revela a mim próprio. Disseram-me um dia : «É tão difícil viver.» E lembro-me do tom. De outra vez , alguém murmurou: « O pior erro é ainda o de fazer sofrer.» Quando tudo está acabado, a sede da vida está extinta. Estará aí aquilo a que se chama  a felicidade? Ladeando estas recordações, revestimos tudo com o mesmo vestuário discreto e a morte aparece-nos como um pano de fundo de tons envelhecidos. Concentramo-nos. Sentimos o nosso infortúnio e gostamos mais  de nós  por sua causa. Sim, talvez seja isto a felicidade, o sentimento condoído da nossa desventura." Albert  Camus, in " Entre o sim e o não"  de " O avesso e o direito", Edição Livros do Brasil, pp 51,52

terça-feira, 3 de maio de 2016

Fotogramas de um Portugal de pernas para o ar

Frederico Füllgraff é jornalista, escritor, cineasta, tradutor. Já viveu na ilha grega de Creta, em Hamburgo, Paris e Lisboa. Antes, em 1969, trocou Curitiba ( Brasil) por Berlim, por pressão da família, que queria afastá-lo dos movimentos de resistência à ditadura. Actualmente, vive  e trabalha no Chile.
É com grande prazer que publicamos esta Crónica, memória de um tempo vivido em Portugal,  escrita para este Blog e dedicada a todos os portugueses. Ao Frederico o nosso bem haja.


Cine Peniche - Fotogramas de um Portugal de pernas para o ar
Por Frederico Füllgraff
"Há muitos anos venho empurrando com a barriga – e desde 2015, com a consciência pesada, devido a uma promessa só agora cumprida – uma tentativa de narrar, como vivi o 25 de Abril em Portugal. Isto porque minhas recordações são fragmentárias, talvez até algo confusas, com certeza, subjetivas.
Honestamente falando, meu maior medo de recordar aqueles tempos, era sucumbir ao saudosismo e sentimentalismo.
Não sou besta, conheço-me! Basta-me ver no Youtube os cinquenta “Ganhões de Castro Verde” cantando, braços entrelaçados, “Grândola, Vila Morena”, na cadência do seu terrenal passo alentejano (que Bernardo Bertollucci virtualmente roubou para aquela cena emblemática da marcha camponesa em “Novecento”), e não tem jeito: choro copiosamente! De saudades, luto e felicidade. Nesta ordem.
Mas pensando melhor: dane-se o medo!
Então vou começando minha estória já pela metade, ao estilo da antitrama, desprezando qualquer ordem cronológica.
Era final de tarde de um domingo ensolarado do verão de 1975, e foi uma das mais gratas surpresas da minha vida. Na verdade, um fugaz vislumbre do que viria a ser meu mergulho de cabeça no mundo das letras e imagens, que naqueles momentos meramente engatinhava.
Escrevia-se o “Verão Quente” de 1975, a esquerda do MFA ensaiando o roteiro – guião, dizem os lusitanos, imitando seus vizinhos hispânicos - de uma república socialista de democracia directa, e a OTAN, abismada, começando a tecer a  sua conspiração, que culminaria no famigerado “25 de Novembro”. Será maldade afirmar, que aquele foi o grande dia de Mário Soares, seu PS e o “Ocidente”?

Mas isto é História póstuma, pois naqueles dias, boa parte da Europa e nós, cineastas principiantes, estávamos convencidos de protagonizar a História viva, mais que sonhando: delirando com a possibilidade da “Revolução”, em cuja homenagem - e para pasmo de padres apostólico-romanos, púdicas mães de família e jejuados dirigentes comunistas - as libertárias ragazze da Lotta Continua italiana, acampadas entre praias e fincas expropriadas, arrancavam suas vestes, baloiçando suas curvas e seios nus para gáudio de camponeses e pescadores da Lusitânia.
Estávamos em Peniche, na costa atlântica, estreando o documentário “Queremos que esta terra seja nossa” - título de uma canção-tema de ingénuo panfletarismo, coerente com as nossas certezas de párvulos ávidos de aventura e justiça.
Pela manhã e no início da tarde, o então sindicato dos pescadores de Peniche enviara às ruas da tórrida vila à beira-mar um carro com altifalantes, mobilizando os moradores para a projecção do filme, logo mais à noitinha – uma “estreia mundial!”, alertava o megafone elétrico. E era a pura verdade!

Quarenta e tantos anos depois, leio uma notícia triste e velha, de 2011, pescada por acaso na internet: o divertido Cinemar, com seus 900 lugares, dos quais nem unzinho ficou desocupado naquela noite de 1975, não existe mais: sofreu um incêndio e foi demolido!
A mais de treze mil quilómetros de distância, às margens do Pacífico, sinto uma pontada no coração. Peniche perdeu a sua única sala de cinema, o que me soa como maldosa metáfora do que segue.
É que aquela imensa tela à nossa frente, que um dia foi alva como o leite das virgens, com o passar do tempo, impregna e energiza-se com tantas epopeias, tragédias, sonhos e estórias de amor, quantos foram os filmes nela projectados. Se não recebe mais o facho de luz saltitante, todas aquelas estórias vão murchando e descaindo do pano feito folhas mortas.
Alguma leitora e algum leitor devem lembrar-se do fervedouro na plateia da sala, toda vez que Alfredo, o projeccionista, preparava a exibição de um novo filme em “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore.
Pois essa foi a algazarra antes e durante a projeção no “Cinemar” de Peniche! Quando começaram a aparecer na tela os primeiros rostos de pescadores e suas famílias, filmados no verão de 1974, a sala encheu-se de burburinho, virou Babel: “Eia pá, olha aí o Manoel da Furninha!” - assobios e gargalhadas tonitruanntes. E assim sucessivamente, até o final da exibição.

Cinema é isso: não apenas a acção na tela, mas seu imediato processamento na plateia.
Na verdade, o filme começava na Alemanha, onde vivia o seu protagonista, o emigrante português Antoninho, de sobrenome que os anos apagaram, porque não lembro mais.
Eu o conhecera na Associação Portuguesa de Hamburgo, onde costumava matar as saudades de ouvir e falar o Português, apesar dessas tantas dissonâncias no mesmo vernáculo, pois uma frase lusitana tão prosaica como “um puto estava na bicha para comprar rebuçados”, no Brasil pode custar ao narrador uma queixa policial por  atentado ao pudor ou um dente quebrado.
Mas voltando ao Antoninho.
Era um metalúrgico especializado em soldas de oleodutos, criado na Amadora. Homem circunspecto, comunista com ares de desconfiado, quando tinha bebido uma bagaceira, saía-se com essa: “Por obrigação, sou do partido, mas se fore para brigare, prefiro a LUARE!” - e ria-se.
A LUAR era acrónimo de uma tal “Liga de Unidade e Acção Revolucionária”, criada por exilados portugueses na França, que se se celebrizara com algumas acções armadas contra a ditadura Salazar.
Fazia anos que Antoninho não pisara o chão de seu pais, onde anti-fascistas como ele não eram tratados propriamente com pão-de-ló. Por isso, a ideia subjacente ao filme, era deixar os seus olhos narrarem seu primeiro regresso à terra natal, três meses após o 25 de Abril. É o que dizia o plano de produção, mas seu olhar não se manteve perseverante sequer até a metade da acção, porque, uma vez em Portugal, as agendas do casting e as vontades do astro não mais coincidiram  - e a narrativa desandou ao sabor do acaso.
De manifestações em Lisboa, encabeçadas pelos velhos tanques do RALIS – o lendário regimento de artilharia de Lisboa – por cortadores de cortiça e cooperativas no Alentejo, do Baleizão de Catarina Eufémia aos pescadores de Peniche, o filme, rodado em película Super-8 e ampliado para 16mm, foi uma alegre colcha de retalhos, colectados no olho do furação lusitano.
Crónica da comédia anunciada, a sua apoteose, no entanto, foi a antecipação do enredo de um hilariante filme brasileiro de 1977: “Ladrões de Cinema”: durante o carnaval, no Rio de Janeiro, uma equipe de cineastas norte-americanos tem o seu material de filmagem roubado por um bloco fantasiado de índios, que os estrangeiros documentavam. Os ladrões, favelados do morro do Pavãozinho, resolvem então montar um filme tendo por tema a Inconfidência Mineira.  
Explico. “Queremos que esta terra seja nossa” era uma produção da Academia Alemã de Cinema e Televisão (DFFB), em Berlim, e valia nota ou crédito no curriculo. Tinha como co-diretores dois alunos. Um deles era eu, e meu sócio no projecto, um aluno alemão.
Durante as flmagens já tinhamos tido nossos “arranca-rabos”, pois o alemão simpatizava teimosamente com o PCP e a sua narrativa do 25 de Abril, enquanto meu olhar deslizava com afecto pelos movimentos sociais autónomos.
Fruto de um acordo, no verão de 1975 retornei a Portugal com o filme editado, para uma tournée de estreias, ou mais precisamente, de “devolução” às dezenas de personagens do filme, de suas próprias imagens. Era uma prestação de contas, sempre trabalhei assim.
E, então, ocorreu o inusitado.
Por intermédio de uma cidadã alemã, para mim ilustre desconhecida, em Lisboa recebi um bilhete do meu sócio, informando-me que mudara de planos e resolvera, ele também, passear em Portugal, pedindo-me emprestada por um dia a cópia do filme. Que prontamente enviei, sem nunca mais recebê-la de volta.
Mordido de ciúmes - ou saberão os deuses por que espécie de mosca - o “ladrão de cinema” retornara a Berlim, a cópia do filme debaixo do braço – episódio no qual logo intuí a continuação com um novo filme, algo assim como “A terra enfim é nossa, mas roubaram  a escritura”.
Expropriado de meu filme – perguntei-me: por que é o gajo não corta o carretel ao meio, metade para cada um? - durante semanas deambulei sozinho por fábricas, campos e quartéis, pedindo desculpas por ter que descumprir a projeção prometida.

Durante as minhas incursões em terreno revolucionário, fui “adoptado” pelo Quartel do Regimento de Engenharia da Pontinha, cuja guarda batia continência quando eu cruzava o arco de entrada da guarnição em meu Fiat 127, verde-oliva, sem jamais pedir-me qualquer documento de identificação - tratamento carinhoso da tropa e  de seu comandante, que certo dia compensei com um carregamento de melões, doces e fragrantes, colhidos e pagos a uma cooperativa do Alentejo – apertos de mão, risos e abraços que são indeléveis e não têm preço.
Mas é preciso advertir: apesar de homónimo, o elégico quartel nada tinha a ver com o risivel “Principado da Pontinha", uma extensão rochosa do Funchal, na ilha da Madeira, declarada “independente” em 2007, e regida pelo comprador e auto-proclamado “D. Renato Barros I, Príncipe do Ilhéu da Pontinha”.
D. Renato de Barros tem apenas 178 metros quadrados para defender, não precisa de forças armadas. bastam-lhe as presas de alguns Rottweilers.
É preciso admitir que os portugueses têm refinado senso de humor,  já o “Verão Quente” de 1975 não tinha graça nenhuma.
Embora pequemos, todos, com nossa memória curta, jamais esquecerei a imagem do porta-aviões “Saratoga” fundeado no Tejo.
Meses antes, chegara a Lisboa, para assumir o cargo de embaixador dos EUA em Portugal, o agente Frank Carlucci, acompanhado de 80 ex-funcionários dos serviços de inteligência brasileirois. Sua missão: evitar a radicalização  do  MFA,   infiltrando e dividindo-o.
A sua carreira pregressa  já o tornara personagem coadjuvante, digno de uma narrativa policial do quilate de “O espião que saiu do frio”, de John Le Carré.
Nos anos 1950, servira em Johannesburgo e em Leopoldville, que deixou em fuga como suspeito pelo assassinato de Patrice Lumumba. No início dos anos 1960, estava na Tansânia, de onde é expulso devido ao conluio com a tentativa fracassada de golpe contra o presidente Julius Nyerere.
Em 1965, Carlucci chegava ao Brasil como adido militar dos EUA e a missão do general Vernon Walters, de “supervisar a complicada situação política” após o golpe militar de 31 de Março de 1964, com a implantação da ditadura.
O comandante do quartel da Pontinha certamente não lembrava do portifolio do mal-afamado futuro director da CIA, disfarçado de embaixador, mas temia o pior. Talvez por isso, na manhã de outro domingo ensolarado, que jamais se apagará em minha memória, em assembleia com os moradores da freguesia e a Constituição Portuguesa na mão, o militar celebrava um acto inédito na história da Europa do pós-guerra: entregava armas ao povo, para a defesa de seu país.
“Extremista”, o comandante?
Respondo a insinuação com outra pregunta: E deveria esperar que os canhões do Saratoga, apontados sobre Lisboa, disparassem seu primeiro tiro?
Deveria, sim, pois era um bluff: o primeiro tiro saiu do cano de uma arma dos insuspeitos Comandos da Amadora.” Frederico Fülgraff

segunda-feira, 2 de maio de 2016

No sossego desta manhã de Maio


Galera / 2 de Maio / (1992)
“ Abro a janela e respiro.
O mar, sempre o mar onde a Ilha se perde e se alcança. Por onde a Ilha se alarga até ser maior que o nosso tédio.
Tudo tão íntimo, tão íntimo. Tão indefinidamente insular.
Esta manhã, por exemplo, com o mar todo cinzento, à excepção daquela mancha de luz sobre as águas. Lembro de ter pensado: mas é preciso que toda a gente saiba, venha ver como é estranha  a luz assim flutuante e misteriosa a sair do mar. Tão estranha, quase sobrenatural –talvez o espírito de Deus  a pairar sobre as águas.
Entretanto é muito manhã. E sábado . Os homens dormem ou, se não dormem, entretêm-se  com outras coisas miúdas e sérias. Nem toda a gente abre, de manhã, a janela  e se debruça a olhar o mar – embora todos os ilhéus  o tragam dentro de si como uma coisa religiosa, um canto gregoriano solene e ressonante.
Gota a gota, o tempo, na exactidão do destruir. Metodicamente, implacavelmente no destruir , salvo no que toca ao mar – tão atingido como Deus. A janela aberta no sossego desta manhã de Maio que já não é  dos maios, porque hoje é dia dois.  Eu na posse do silêncio primordial que vem das águas. Da luz sobre as águas. Da imensidade.
Do meu posto, olho a paz  das enseadas onde os navios largam âncora e ficam imóveis. Uma voz canta. É voz  de homem, rústica, um pouco roufenha que galga as sebes e os muros , alastra pelos campos. Não entendo o que diz nas palavras. Só ouço a toada trémula e áspera como um uivo no vento.  Não pode ser senão do homem do mar, aquela voz: sobe da garganta, longínqua, cheia das distâncias  dos litorais.
Estou como quem apenas deseja olhar e escutar. Um abandono ao ar fino da manhã. E aquela voz roufenha, quase selvagem, na toada primitiva que o mar espalha na Ilha desde o tempo em que não havia homens sobre a Terra.
Por um instante tive uma visão desse tempo primitivo – uma coisa desfocada , confusa, emaranhada de silvedos e urzes da serra. Uma coisa ainda sem nome e sem lugar nos mapas. “ Fernando Aires , in Era  uma vez o Tempo, Diário , Editora Opera Omnia, p. 458
Sobre o Autor :
“Fernando Aires nasceu em Ponta Delgada , São Miguel, Açores a 18 de Fevereiro de de 1928 e faleceu na mesma cidade em 9 de Novembro de 2010. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas , em 1958, na Universidade de Coimbra. Estagiou para  a docência na cidade do Porto. Regressado aos Açores, S. Miguel, exerceu  a actividade docente no Liceu Antero de Quental , na escola do Magistério Primário e posteriormente, durante duas décadas, até à jubilação (1995) , na Universidade dos Açores. 
Escritor, ensaísta , cronista  em muitos jornais e revistas iniciou muito cedo o seu percurso literário. Ainda estudante  , fez parte de uma tertúlia literária com outros nomes sonoros das Letras com quem viria a constituir ,em 1946, o Círculo Literário Antero de Quental  que pretendia agitar e acabar com o conservantismo que estagnava as letras açorianas.
Autor de uma obra variada, a sua escrita viria a desenvolver-se num género literário onde predomina o memorialismo, que se manifesta nesta vertente diarística, da qual resulta este Diário em cinco volume, reeditado em 2015, num  único e grosso volume.
No Prefácio a esta  obra, Eugénio Lisboa escreve : O diário é rico de meditações, de percepções, de visões , de assombros que surgem no decorrer dos dias  e que o escritor vai registando  com pathos variado.(…)
Mas porquê, afinal, escrever? A resposta dada pelo autor do diário é simples, cândida e pungente: porque é « um homem que escreve por puro prazer, porque não sabe de mais nada  que substitua esse prazer. Eis tudo». O prazer da escrita como antídoto  para o desespero de viver  e de verificar  que a vida é efémera e talvez sem sentido.(…) 
«Ponho –me a escutar os acontecimentos do passado , a reflectir sobre o que ficou escondido por detrás das aparências.” É um convite irresistível: façamos como o autor deste diário singularmente belo – ouçamos a música subtil das palavras, escutemos os acontecimentos ( ou nem tanto) deste presente que hoje é passado, reflictamos sobre o canto profundo que se esconde em passagens , às vezes, na aparência, tão anódinas…”

domingo, 1 de maio de 2016

Ao Domingo Há Música

 Today
 The minutes seem like hours...
 The hours go so slowly
 And still the sky is light.
 Oh, moon, grow bright
 And make this endless day
 Endless night. Tonight.
(Música de Leonard Bernstein; letra de Stephen Sondheim)

Há datas que marcam e outras que passam. Assinalam-se, neste dia, duas comemorações importantes , carregadas de diferente peso  mas de relevante medida : O dia da Mãe e  o dia do Trabalhador. Uma é a celebração do afecto , da maternidade que nos fez. A outra é a exortação da conquista do direito ao trabalho pelo Homem  e a luta pelas condições em que o deve exercer. 
Destacar uma e ofuscar outra seria uma injustiça. A música tem a capacidade de celebrar, com grandeza e sonoridade, qualquer data. Para o fazer, apresentam-se duas belas e grandiosas peças que todos nós recordamos. 
Que  a festa se faça.

Anna Netrebko  e Jonas Kaufmann ,em "TONIGHT" de West Side Story de  Leonard Bernstein, num concerto ao vivo, em 2015.


Tonight. Tonight
 Won't be just any night.
 Tonight there will be no morning star.
 Tonight. Tonight.
 I'll see my love tonight
 And for us, stars will stop where they are.

Novamente, Anna Netrebko & Jonas Kaufmann, num excelente e terno dueto,"O soave fanciulla", da  Ópera  La Bohème de Giacomo Puccini.


O Soave Fanciulla
soave fanciulla, o dolce viso
di mite circonfuso alba lunar
in te, vivo ravviso il sogno
ch'io vorrei sempre sognar!

sábado, 30 de abril de 2016

A Arte de Ser Avó

A Arte de Ser Avó
Conto de Rachel de Queiroz
"Quarenta anos, quarenta e cinco. Sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem as suas alegrias, as suas compensações – todos dizem isso, embora  pessoalmente, ainda não as tenha descoberto – mas acredita.
Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade.
Não de amores nem de paixão; a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que tinha e lhe fugiu subtilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas, que hoje são seus filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento e prestações,  não encontra de modo algum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres – não são mais aqueles que  recorda.
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua raça, da qual  morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino que se lhe é “devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito sobre ele, ou pelo menos o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo ou decepção, se não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.
Sim, tenho a certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes, que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis.
Aliás, desconfio muito de que netos são melhores que namorados, pois que as violências da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos. Se o Doutor Fausto fosse avô, trocaria calmamente dez Margaridas por um neto…
No entanto! Nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave maior, a grande rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não deixa por isso de ser a mãe do neto. Não importa que ela hipocritamente, ensine a criança a lhe dar beijos e a lhe chamar de “vovozinha” e lhe conte que de noite, às vezes, ele de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da amante nos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com ele, dá-lhe banho, veste-o, embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar e o ônus de castigar.
Já a avó não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora noutra casa. Traz presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, “não ralha nunca”. Deixa lambuzar de pirulito. Não tem a menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso dos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer croquetes, tomar café, mexer na louça, fazer trem com as cadeiras na sala, destruir revistas, derramar água no gato, acender e apagar a luz eléctrica mil vezes se quiser – e até fingir que está discando o telefone. Riscar a parede com lápis dizendo que foi sem querer – e ser acreditado!
Fazer má-criação aos gritos e em vez de apanhar ir para os braços do avô, e lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação moderna…
Sabe-se que, no reino dos céus, o cristão defunto desfruta os mais requintados prazeres da alma. Porém não estarão muito acima da alegria de sair de mãos dadas com o seu neto, numa manhã de sol. E olhe que aqui em baixo  ainda tem o direito de sentir orgulho, que aos bem-aventurados será defeso. Meu Deus, o olhar das outras avós com seus filhotes magricelas ou obesos, a morrerem de inveja do seu maravilhoso neto!
E quando você vai embalar o neto e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe reconhece, sorri e diz “Vó”, seu coração estala de felicidade, como pão ao forno.
E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe castiga, e ele olha para você, sabendo que, se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade.
Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menino – involuntariamente! – bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beicinho pronto para o choro; e depois o sorriso malandro e aliviado porque “ninguém” se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, vó? Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague." Rachel de Queiroz
Sobre a  Autora
Rachel de Queiroz nasceu em  Fortaleza (CE), em 17 de Novembro de 1910, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ) em 4 de Novembro de 2003. Tradutora, romancista, escritora, jornalista, cronista profícua e importante dramaturga brasileira. Autora de destaque na ficção social nordestina. Foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras.
Estreou em 1927, com o pseudónimo de Rita de Queiroz, publicando trabalho no jornal O Ceará, de que se tornou afinal redactora efectiva. Em fins de 1930, publicou o romance O quinze, que teve inesperada e funda repercussão no Rio de Janeiro e em São Paulo. Com vinte anos apenas, projectava-se na vida literária do país, agitando a bandeira do romance de fundo social, profundamente realista na sua dramática exposição da luta secular de um povo contra a miséria e a seca.
Foi membro do Conselho Federal de Cultura, desde a sua fundação, em 1967, até sua extinção, em 1989. Participou da 21ª Sessão da Assembleia Geral da ONU, em 1966, onde serviu como delegada do Brasil, trabalhando especialmente na Comissão dos  Direitos do Homem. Em 1988, iniciou  a sua colaboração semanal no jornal O Estado de S. Paulo  e no Diário de Pernambuco.
Recebeu o Prémio  Nacional de Literatura de Brasília pelo conjunto de obra em 1980; o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará, em 1981; a Medalha Mascarenhas de Morais, em solenidade realizada no Clube Militar (1983); a Medalha Rio Branco, do Itamarati (1985); a Medalha do Mérito Militar no grau de Grande Comendador (1986); a Medalha da Inconfidência do Governo de Minas Gerais (1989); O Prémio Luís de Camões (1993); o Prémio Moinho Santista, na categoria de romance (1996); o  Diploma de Honra ao Mérito do Rotary Clube do Rio de Janeiro (1996);  o título de Doutor Honoris Causa, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (2000). Em 2000, foi eleita para o elenco dos “20 Brasileiros empreendedores do Século XX”, em pesquisa realizada pela PPE (Personalidades Patrióticas Empreendedoras)." In Academia Brasileira de Letras

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Recordar Alfred Hitchcock

Hitchcock morreu há 36 anos
"Alfred Hitchcock nasceu em Londres, a 13 de Agosto de 1899. Foi um mestre do cinema, considerado um dos mais populares realizadores de todos os tempos. Hoje é dia de recordar Hitchcock, que morreu a 29 de Abril de 1980.
Alfred tem origens humildes. Era filho de um vendedor de frutas, William Hitchcock, um homem que teve grande importância na definição do seu carácter. Disciplinador, William entregou o filho a um polícia, que o colocou numa cela, quando Alfred tinha apenas 5 anos.
Frequentou um colégio jesuíta, que acentuou a disciplina imposta pelo pai. A educação disciplinadora viria a revelar-se nos filmes de Hitchcock, que como realizador apresenta a analogia entre pecado e redenção, entre inocência e culpa. O medo pelo proibido abriu espaço ao desejo de suspense, que marcaria a sua obra.
As origens do cinema macabro e criminal  derivam também da sua formação académica e das visitas recorrentes ao museu da Scotland Yard, bem como à sua paixão pela escrita de Charles Dickens. Estava criado o perfil do futuro realizador, mestre de suspense e da recriação do mundo do crime.
Prosseguiu a formação na área de Belas Artes da Universidade de Londres, enquanto ajudava o pai na loja de frutas. O cinema afirmava-se e cativava adeptos.
Hitchcock soube, através de uma revista, que uma empresa de cinema dos EUA, a Famous Players-Lasky Company, iria abrir um estúdio. Apresentou-se nos escritórios da Famous com esboços de letreiros para filmes mudos projectados por si e acaba contratado. Acabava de entrar no cinema.
Em 1925, recebeu uma proposta para dirigir uma coprodução de ‘The Pleasure Garden’, naquela que seria a primeira mostra como realizador, que agradou aos críticos e  lhe abriu as  portas para o futuro: a realização de grandes filmes.
Hitchcock muda-se para os EUA em 1939 e torna-se cidadão norte-americano, em 1955. A estreia de Alfred Hitchcock em Hollywood, ‘Rebecca’, em 1940, vence o Óscar de melhor filme.
Ao longo dos anos, foi produzindo verdadeiras obras de arte, coleccionando prémios, com seis nomeações para os Óscares, com os filmes Rebecca (1940), Lifeboat (1944), Spellbound (1945), Rear Window (1954) e Psycho (1960), como director; e Suspicion (1941), como produtor.
É considerado o maior realizador de todos os tempos. Morre de insuficiência renal, na sua casa em Los Angeles, a 29 de Abril de 1980." Adaptação de artigo  em PTjornal


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Título Original: Rebecca.
Género: Mistério, Suspense Psicológico.
País: Estados Unidos, 1940
Artistas: Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders.
Direcção: Alfred Hitchcock.