sexta-feira, 19 de julho de 2013

Palavras

"Quando aonde foi em que país?
Que vento faz quebrar nas costas destes dias
as ondas de uma antiga música que ouvida
obriga a recuar a noite prometida
em círculos quebrados para além das dunas
fazendo regressar rebanhos de alegrias
abrindo em plena tarde um espaço ao amor?
Que morte vem matar a lábil curva da dor?
Que dor me faz doer de não ter mais que morrer?" Ruy Belo, in “ Todos os Poemas”, Ed. Assírio &Alvim, 2004


Ane Brun, cantora e compositora norueguesa,  em " Words", música com estória.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Celebrar Mandela

"Eu aprendi que a coragem não é a ausência de medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas aquele que conquista por cima do medo."Nelson Mandela

Mundo comemora os 95 anos de Nelson Mandela
"Coros infantis, uma subida ao Kilimanjaro e bandeiras na Volta à França são algumas das acções organizadas para assinalar hoje o 95.º aniversário do líder histórico sul-africano Nelson Mandela, que continua hospitalizado em Pretória em estado crítico.
As Nações Unidas declararam em 2010 18 de Julho como o "Mandela Day" e, nesta data, a organização apela a todos os cidadãos para que façam uma boa acção em honra do antigo presidente sul-africano e consagrem simbolicamente 67 minutos à memória dos 67 anos de militância política e pela paz de Nelson Mandela.
As Nações Unidas realizam, em Nova Iorque, um reunião informal da sua Assembleia Geral que terá como oradores o ex-presidente norte-americano Bill Clinton, o reverendo Jesse Jackson, o actor e activista Harry Belafonte e Andrew Mlangeni, 87 anos, amigo próximo de Mandela e que com ele esteve preso.
Elementos da missão sul-africana na ONU e do consulado da África do Sul em Nova Iorque irão ainda ajudar a reconstruir casas destruídas em Outubro pelo furacão Sandy e distribuirão fruta e postais comemorativos do Dia Internacional Nelson Mandela numa das principais avenidas da cidade.
Na África do Sul, um coro de milhares de crianças sul-africanas cantará os parabéns a Nelson Mandela logo pela manhã.
Pintura de escolas, oferta de roupas aos mais pobres, limpeza de sepulturas dos veteranos da luta anti-apartheid, conferências e debates são outras actividades previstas para assinalar o dia de aniversário do Prémio Nobel da Paz.
Segundo uma sondagem divulgada na quarta-feira, 89 por cento dos jovens sul-africanos afirmaram que planeiam participar nas iniciativas.
As autoridades sul-africanas, nomeadamente o Presidente Jacob Zuma, programaram igualmente um conjunto de iniciativas oficiais, que incluem a inauguração de uma ponte e escolas.
Zuma, que está em campanha para as eleições de 2014, deverá ainda presidir a uma cerimónia de entrega de casas em Pretória.
As autoridades escolheram também o dia de aniversário do ícone da democracia sul-africana para entregar os primeiros cartões de identificação biométricos, que serão entregues aos veteranos da luta anti-apartheid, nomeadamente o arcebispo Desmond Tutu ou Ahmed Kathrada, amigo de Mandela que passou 26 anos com ele na cadeia.
Fora da África do Sul, várias celebridades, como o magnata britânico Richard Branson, prometeram envolver-se nas iniciativas "e dar 67 minutos para tornar o mundo melhor".
Richard Branson oferecerá uma sessão de formação profissional a jovens empreendedores.
Cerca de uma vintena de cidades norte-americanas promovem vários eventos.
Em Melbourne, na Austrália, realizar-se-á um megaconcerto de música africana, enquanto um festival de música programado para breve na Noruega deverá ser dedicado a Mandela.
Em Manila, 50 crianças abandonadas vão visitar um estúdio de televisão e assistir à actuação de artistas locais.
Enquanto o mundo celebra o 95.º aniversário de Nelson Mandela, o primeiro presidente negro da África do Sul continua internado numa clínica privada em Pretória e o seu estado continua a ser considerado crítico, apesar das declarações de optimismo, nomeadamente do ex-presidente Thabo Mbeki.
Thabo Mbeki deu a entender, em declarações recentes, que a saída de Nelson Mandela do hospital poderia estar próxima, mas a presidência sul-africana reafirmou na terça-feira que não se registaram mudanças no estado de saúde de "Madiba", como é conhecido na África do Sul.
Nelson Mandela mantém-se em estado "crítico, mas estável" desde 27 de Junho, respira com a ajuda de uma máquina e continua a comunicar com o olhar com a sua família, referiu a presidência.
Hospitalizado há mês e meio, Mandela sofre de uma infecção pulmonar recorrente, uma sequela dos 27 anos de prisão.
Nascido a 18 de Julho de 1918, Nelson Rolihlahla Mandela foi eleito em 1994 o primeiro presidente negro da África do Sul, depois de décadas de luta contra o regime segregacionista da minoria branca que governou a África do Sul.
Herói da luta anti-apartheid, liderou com o último presidente imposto pela minoria branca, Frederik de Klerk, uma transição para a democracia baseada na reconciliação nacional, o que lhe valeu a atribuição do prémio Nobel da paz em 1993.” Diário Digital/Lusa

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Porto, invicta cidade

A cidade do Porto, debruçada sobre o rio, espalha-se por uma área rendilhada por inúmeros monumentos e vestígios arquitectónicos de  diferentes épocas que a tornam singular e majestosa. Cidade e rio confundem-se na história. As pontes que o atravessam são o retrato do devir e progresso do tempo. Com uma zona ribeirinha marcante , o centro histórico faz parte do Património mundial da Humanidade. 

Esta fotografia merece toda a atenção dada a sua particularidade de mostrar a extinta Ponte Pênsil a par da Ponte Luís I, o que deverá fazer dela uma raridade fotográfica visto que as duas pontes coexistiram durante um curto período de tempo, entre 1886 e 1887. A imagem foi obtida por George Tait, a partir do local onde é hoje o Jardim do Morro.
Em baixo, a Ponte Luís I já com as luzes de um Porto da actualidade.

"Corre um rio para o mar
E há um prenúncio de morte"

Vozes do Porto que cantam a  pronúncia do Norte.  Rui Reininho (GNR) e Isabel Silvestre na conhecida canção " Pronúncia do Norte".


"Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
Vê um velho casario
Que se estende ate ao mar"
Rui Veloso em "Porto sentido", uma composição de que é autor e que se tornou um sucesso, um ícone da cidade. Uma das mais completas descrições da cidade do Porto feita com o coração, arte e melodia.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Com um grito

GRITAR

Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e escreviam

Demasiado baixo

Fiz retroceder os limites do grito

A acção simplifica-se

Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhes destinava um lugar perante mim

Com um grito

Tantas coisas desapareceram
Que nunca mais voltará a desaparecer
Nada do que merece viver

Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trémulos de tão semelhantes serem

E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria

E esse fogo nu que pesa
Torna a minha força suave e dura

Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos

Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito
Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.

Paul Éluard, in "Algumas das palavras" Dom Quixote, 1977, trad. António Ramos Rosa e Luisa Neto Jorge

GRITO

De ti que inventaste
a paz
a ternura
e a paixão
o beijo
o beijo fundo intenso e louco
e deixaste lá para trás
a côncava do medo
à hora entre cão e lobo
à hora entre lobo e cão.

De ti que em cada ano
cada dia cada mês
não paraste de acender
uma e outra vez
a flor eléctrica
do mais desvairado
coração.

De ti que fugiste à estepe
e obrigaste
à ordem dos caminhos
o pastor
a cabra e o boi
e do fundo do tempo
me chamaste teu irmão.

De ti que ergueste a casa
sobre estacas
e pariste
deuses e linguagens
guerras
e paisagens sem alento.

De ti que domaste
o cavalo e os neutrões
e conquistaste
o lírico tropel
das águas e do vento.

De ti que traçaste
a régua e esquadro
uma abóboda inquieta
semeada de nuvens e tritões
santidades e tormentos.

De ti que levaste
a volupta da ambição
a trepar erecta
contra as leis do firmamento.

De ti que deixaste um dia
que o teu corpo se cansassse
desta terra de amargura e alegria
e se espalhasse aos quatro cantos
diluido lentamente
no mais plácido
silente
e negro breu.

De ti
meu irmão
ainda ouço
o grito que deixaste
encerrado
em cada pétala do céu
cada pedra
cada flor.
O grito de revolta
que largaste à solta
e que ficou para sempre
em cada grão de areia
a ressoar
como um pálido rumor.
O grito que não cansa
de implorar
por amor
e mais amor
e mais amor.
José Fanha, in "Breve tratado das coisas da arte e do amor" Edições Ulmeiro, 1995. 1ª Edição

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Vozes da luta pela liberdade


Os comunistas na luta contra a ditadura 
O Brasil viveu um tempo negro sob a ditadura. Tempo de perseguições, de infâmia e de bocas amordaçadas. As vozes que se levantavam eram silenciadas pela força dos algozes que se multiplicavam por um país imerso nas teias da repressão. Portugal viveu igualmente, durante 4 décadas,  uma dolorosa ditadura . Tempos de muita resistência em que a luta pela liberdade foi o lema de muitas vidas. 
No Brasil, o livro recém lançado em São Paulo, Repressão e Direito a Resistência: Os Comunistas na luta contra a ditadura (1964-1985) traz o relato de militantes do PCdoB  e da Acção Popular na luta contra a ditadura". Prosa Poesia & Arte publicou  o texto de abertura desse documento de leitura fundamental que se transcreve.



Por Adalberto Monteiro e Augusto César Buonicore (*)
Vozes da luta pela liberdade
"Esta publicação é resultado de uma importante iniciativa do projeto Marcas da Memória, vinculado à Comissão da Anistia do Ministério da Justiça. Ao tomar conhecimento da “Chamada Pública” para o programa, a Fundação Maurício Grabois, através de seu Centro de Documentação e Memória, apresentou o projeto e recebeu a aprovação da Comissão, cujo presidente, Paulo Abrão, é um entusiasta do restabelecimento da verdade sobre os fatos ocorridos no período da ditadura militar entre 1964 e 1985. Em diversos momentos, ele destacou a importância de trabalhos como este “para a construção de uma memória oficial sobre a ditadura que vitimou o país por mais de duas décadas”. Segundo Abrão, esses são passos importantes para a criação de “um movimento nacional pela memória”. Movimento que ajuda a combater a cultura do esquecimento, uma cultura que provoca duplo dano: colabora para que os fatos criminosos e hediondos relacionados à repressão política não sejam desvendados e, em consequência, desarma a sociedade da necessária vigilância para que não se repitam.
O livro que o leitor tem em mãos abarca, basicamente, os depoimentos de militantes que pertenceram à Ação Popular (AP) e ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), duas organizações de origens diferentes que se aproximaram no final da década de 1960, processo que culminaria na incorporação da AP ao PCdoB, em 1973.
As entrevistas trazem informações originais sobre o processo de transformação da AP – uma organização juvenil originalmente ligada à igreja católica que se converteu numa organização marxista-leninista – e sobre os intensos debates ocorridos durante esse período. Contam a saga de dezenas de jovens – a maioria pertencente às camadas médias, provinda do movimento estudantil – que pagaram alto preço por sua atitude contestadora ao regime militar. Muitos foram presos e torturados, outros mergulharam na mais profunda clandestinidade ou tiveram de, em algum momento, abandonar o país.
Em seus depoimentos não há sinais de arrependimento ou rancor, mas apenas o sentimento de dever cumprido e a exigência de que se faça justiça histórica. No fundo, sabem que com sua ação decidida, ao lado do povo brasileiro e nas mais variadas frentes de luta, eles contribuíram para que a democracia pudesse retornar em 1985, quando a ditadura militar brasileira finalmente foi derrotada. E que a democracia então conquistada era mais avançada do que a existente nos períodos anteriores ao golpe militar, ainda que estivesse bastante aquém daquela com que eles sonhavam. Por isso, estes lutadores do povo têm a clara consciência de que a luta ainda não chegou ao fim.
Os ideólogos oficiais do regime militar, acuados pelas crescentes denúncias de abusos e de desrespeito aos direitos humanos, buscam vender a ideia de que travaram uma guerra em nome dos interesses nacionais e que combateram “terroristas”. Dizem que a anistia deveria significar esquecimento dos abusos cometidos “dos dois lados”. Não distinguem a violência do opressor da justa resistência dos oprimidos por sua liberdade. O direito à rebelião contra governos despóticos é reconhecido por todas as Cartas democráticas. É como diz os versos de Bertolt Brecht: “Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas ninguém diz violentas as margens que o oprimem”.
Sabemos que resgatar os fatos ocorridos no transcorrer da ditadura imposta em 1964 é uma tarefa nem sempre fácil. Ainda hoje muitas portas continuam fechadas. As dificuldades para a construção de uma história da esquerda brasileira sempre estiveram ligadas aos longos períodos de falta de liberdade em que fomos obrigados a viver. Geralmente, e com certa razão, nessa hora, sempre lembramos o Estado Novo (1937-1945) e a Ditadura Militar (1964-1985), momentos em que a repressão política agiu de maneira mais desenvolta e violenta. Contudo, mesmo fora desses dois períodos históricos, o povo teve de conviver com uma democracia bastante restrita, pelo menos até 1985. Fiquemos apenas num único exemplo: nos seus primeiros 62 anos de existência (entre 1922 e 1984), o Partido Comunista do Brasil conheceu menos de dois anos de legalidade.
Para reconstituir essa luta subterrânea contra o arbítrio em nosso país, as fontes orais são imprescindíveis. Afinal, a repressão política dificultou a produção de documentos que descrevessem o cotidiano e as ações da resistência. O pouco que foi produzido perdeu-se nos ataques da repressão a casas de militantes e aparelhos clandestinos.
Devolver essa documentação a seus legítimos proprietários ou disponibilizá-la para o conhecimento do grande público seria um ato justo e democrático. Contudo, não há por que ficarmos lamentando. Na ausência de registros documentais, os realizadores deste livro foram ouvir militantes da causa democrática daquele período de chumbo.
Felizmente, o governo brasileiro vem – ainda que com dificuldades – tentando colaborar para este necessário resgate da história. Dentro desse espírito de jogar luzes sobre um passado sombrio, cabe destacar a atuação da Comissão da Anistia e a recente criação, pela presidenta Dilma, da Comissão da Memória e da Verdade. Aliás, as forças democráticas e progressistas devem apoiar e impulsionar essa Comissão para que ela, superando as resistências existentes, consiga apresentar o painel de desrespeito aos direitos humanos durante a ditadura e vá construindo os elementos para que os criminosos possam ser processados, a exemplo do que vem ocorrendo de forma exitosa em diversos países da América do Sul, onde também vigoraram ditaduras militares brutais.
O exemplo de vida dos militantes ouvidos nesta publicação iluminará os caminhos das novas gerações que ingressam na luta política e desejam ver nossa democracia ampliada, atingindo a mídia monopolizada, o poder Judiciário e a própria legislação eleitoral, que busca prender os partidos políticos aos interesses das grandes empresas privadas. E mais do que tudo, deseja ver mais direitos sociais ser agregados a essa democracia. A nossa esperança é que livros como este ajudem a reforçar as energias das correntes progressistas que no país ainda travam duras batalhas. Uma nação forte e socialmente justa se constrói valorizando os gestos, as condutas, as opções em defesa dos fundamentos sobre os quais ela deveria ser erigida: liberdade, soberania e bem-estar para todos
. "

(*) Adalberto Monteiro é jornalista e presidente da Fundação Maurício Grabois; Augusto César Buonicore é historiador e secretário-geral da Fundação Maurício Grabois

domingo, 14 de julho de 2013

Ao Domingo Há Música

Há vozes que recriam velhas canções com novas interpretações, apresentando-as com um  diferente encanto. Esta é uma delas . " Close to you",  uma melodia de todos os tempos, na voz que vem de Itália: Mário Biondi, um grande cantor.

sábado, 13 de julho de 2013

A queda de um mundo

“ Um dia , Ângela dissera-me : “ Nas alturas de crise surgem as pessoas mais inesperadas; aqueles que pensávamos que tinham desaparecido para sempre vêm  ter connosco e falam-nos como se os tivéssemos deixado na véspera.” E eu, que queria  falar com alguém sobre o presente, a Europa, a crise, encontrara no sósia de Lenine o interlocutor ideal. Pertencíamos à mesma geração; tínhamos lido os mesmos livros; talvez tivéssemos acreditado nos mesmos ideais. Agora, era como se a História voltasse para trás. Nos países ocupados, os nazis tinham descoberto a solução para se verem livres dos judeus: metê-los em guetos: E para os enganar, faziam-nos eleger chefes que, muitas vezes, porque pensavam que assim protegiam o grupo, cumpriam as ordens do Reich: reduzir rações, confiscar os bens,  deixar morrer os velhos, os doentes, as crianças. Era nisto que a nova Europa se estava a tornar: os guetos eram os países sob confisco, e em cada um deles tinham arranjado governos dóceis que cumpriam as ordens que vinham do centro de decisão. Não chegáramos à perfeição desses guetos, ao encerramento dos países dentro de muros de onde ninguém podia sair  nem entrar; mas era uma questão de tempo, pensava eu, enquanto ia passando por criaturas deitadas debaixo de portas, enroladas em mantas, alguns deles com um rádio ligado, sinal que não se tratava já dos tradicionais pobres, os que vinham do nada e só tinham o nada para onde ir; estes vinham de meios em que havia o hábito de ouvir rádio, de ver televisão, só que não tinham outra hipótese senão adormecer , na rua, com uma estação de música clássica a dar-lhes o “ Hino à alegria” em cima , para que eles agradecessem à Mãe Europa por essa dádiva do céu; ou então a alternativa que tinham, se não tivessem umas moedas para se sentarem num café, era esperar que nalguma montra estivesse um televisor ligado e ficar em frente, a ver o que se passava no ecrã, mas sem o som que o vidro abafava. Assim, ao menos não tinham de ouvir as notícias , de estar a par da queda de um mundo, que era o que estava a acontecer à vista de todos. “ Nuno Júdice, in “ A Implosão “,Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 2013

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Fazer arte é soprar espírito na matéria

Obra de Marcelo Grassmann
À margem das vanguardas
Por Ferreira Gullar
“A morte de Marcelo Grassmann, ocorrida no dia 21 de Junho  significa uma enorme perda para a arte brasileira, já que ele foi, além de gravador e desenhista de extraordinária qualidade, uma personalidade original, criador de um mundo imaginário único e fascinante.
Grassmann começou como aprendiz de metalúrgico, para depois matricular-se na Escola de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, onde aprendeu a técnica da gravura em metal.
Logo em seguida, isto é, no começo da década de 1950, a arte brasileira sofre uma mudança radical com o surgimento da arte concreta, de linguagem geométrica e construtiva. Esse fato determinou uma ruptura drástica com a tradição modernista brasileira, surgida nos anos 20 e caracterizadamente figurativa e de temática nacional, ainda viva, àquela época, na pintura de Lasar Segall, Di Cavalcanti e Portinari.
A partir de então, a nova geração de artistas plásticos abandonou a arte figurativa e voltou-se para um tipo de expressão essencialmente geométrica, construtiva e objectiva.
Era, portanto, um tipo de expressão no extremo oposto à gravura de Marcelo Grassmann, àquela altura um jovem de 20 e poucos anos.
A nova tendência tomou conta do ambiente artístico, mas, apesar disso, o jovem gravador não se afastou um milímetro da opção artística que fizera: enquanto os demais pintavam formas geométricas, ele desenhava e gravava cavaleiros medievais, munidos de armadura, lança e capacete.
Eu que, àquela época, era também um jovem e interessado nas artes plásticas, não cansava de admirar a firmeza de Grassmann, que mergulhava num universo arcaico, demoníaco, figurativo, tido então como um anacronismo estético e ideológico, mas, apesar disso, fascinante.
Conheci Marcelo Grassmann em 1952, no apartamento de Mário Pedrosa, o principal defensor do movimento concretista, mas que tinha sensibilidade e amplitude intelectual suficientes para reconhecer o valor de manifestações diversas daquela, como a arte do jovem gravador paulista. Magrinho, alto, com o queixo levemente torto, sorria irónico das ideias da vanguarda. Mário não discutia com ele, mas simplesmente elogiava a qualidade e expressividade de suas gravuras. Embora, por seu físico, distante da prática esportiva, teve, na época, como namorada, uma moça musculosa que praticava boxe.
Os anos se passaram, aliás, décadas. A arte concreta esgotou sua proposta, em seu lugar nasceu a arte neoconcreta, audaciosa e inventiva, com os "Bichos" de Lygia Clark, as esculturas de Weissmann e Amílcar de Castro. Mas, logo, no lugar dela, surgiu a pop arte e, depois, a chamada arte contemporânea, que dispensa linguagem e critérios estéticos.
Tudo isso aconteceu sem abalar em nada a persistência de Grassmann na exploração de seu mundo imaginário, habitado por seres estranhos e satânicos, que mais parecem delírios que coisas reais.
Dizem que sua arte tem raízes no gótico, talvez por evocar o mundo nocturno das gárgulas e das harpias. Na verdade, sua linguagem de formas sumptuosas e estranhas está impregnada de certa malignidade e requinte, como se observa naquela gravura em que dois guerreiros medievais parecem arrastar para as profundezas da noite uma figura angelical de adolescente, enquanto seus capacetes metálicos relampejam como jóias malditas.
Semelhante contraste parece constituir a matéria poética de sua arte perturbadora. Mas a essência dela não se limita a essa temática visionária; reside, de fato, na qualidade gráfica, que identifica linguagem e tema: é que aqueles seres estranhos, sejam demónios ou bestas satânicas, nascem dessa linguagem, do emaranhado de traços, das manchas negras, dos lampejos inusitados, que constituem seu universo imaginário. E é essa expressividade estética e visionária que torna sua arte surpreendentemente actual, enquanto muita obra daquelas vanguardas já não nos diz nada.De certo modo, fazer arte é soprar espírito na matéria. Se isso é verdade, Marcelo Grassmann, em seus melhores momentos --ou quase sempre--, alcança esse nível de transmutação. Ali, cada linha, cada zona de luz ou treva, vira expressão, que assimilamos integralmente. É que a obra-prima não deixa resto.” Ferreira Gullar em Artigo de opinião publicado na Folha de S. Paulo , em 7/07/2013