segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A solidão dos idosos


O Lugar

"Quando voltou ao salão de convívio  teve pela primeira vez consciência  plena da segregação   etária que as novas gerações estavam a impor. O convívio e a coabitação intergeracionais estavam, efectivamente, em processo de regressão, senão mesmo em declarada extinção.
O quadro com que deparou nessa manhã, naquele salão, impôs-lhe abruptamente a dolorosa  assunção dessa realidade chocante que nunca se dispusera sequer a formalizar.
O Lugar era  a morada de uma só geração: a geração dos velhos.
Apesar do conforto discreto que a decoração emprestava ao salão, sentia-se no ar o silêncio frio e mudo da tristeza que enferma a solidão.
Estariam aí cerca de quinze pessoas. Algumas estavam confortavelmente sentadas em cadeirões reclináveis junto a uma grande televisão que estava ligada com o som no mínimo, quase inaudível. Outras, que teriam problemas locomotores,  estavam acomodadas em cadeiras de rodas perto das grandes portas envidraçadas que davam para o terraço. Entre elas, distribuíam-se mesas intercaladas com jornais e revistas. No canto direito, oposto ao da televisão, havia duas mesas de jogo: uma com um tabuleiro de xadrez  e  a outra com baralhos de cartas. Ambas estavam vazias.
Dois grandes sofás de cabedal castanho completavam o “decors “ do salão , onde dormitavam ostensivamente  duas senhoras com os cabelos brancos muito alisados. Pelas semelhanças do porte    pareciam irmãs gémeas, já que era impossível ver os rostos que estavam pendidos sobre o peito .
No terraço, existiam algumas cadeiras de madeira forradas com grossas almofadas amarelas  e foi lá que conheceu o único casal do Lugar: os Lacerda.
Estavam sentados em frente de uma pequena mesa, onde havia sido colocado um tabuleiro com duas chávenas de chá. Falavam um com o outro olhando para o jardim. Assim que deram pela sua presença, o Dr. Lacerda levantou-se e convidou-a a sentar-se numa cadeira vaga da mesa.
- Tenha a bondade de nos fazer companhia  neste dia em que se estreia nesta casa. Esta é a minha mulher, Sofia Lacerda e eu sou Carlos Lacerda. Somos hóspedes antigos do Lugar.
Uns grandes olhos pretos sorriam para ela num rosto sulcado pelas marcas do tempo ( forma eufémica e costumeira de designar as rugas), mas que irradiava simpatia. A mulher continuava sentada, indicando-lhe com gentileza a cadeira. Tinha também um rosto agradável .
Sentou-se. Uma empregada surgiu repentinamente,  trazendo outra chávena de chá , desaparecendo quase tão misteriosamente como tinha aparecido.
(...)- Já sabemos que chegou ontem à noite e que está no quarto 12. Nós estamos no quarto 10, logo no mesmo corredor. Somos o único casal deste Lugar. Havia outro, os Pereira Gonçalves,  mas infelizmente já  cá não  estão.
- O meu marido é um grande conversador. Prepare-se que ele vai saturá-la com tanta verbosidade, não lhe dando oportunidade de responder. O que vale é que neste sítio ninguém quer falar quanto mais conversar. - ia avisando Sofia Lacerda.
(...) - Já estão avisando que vai ser servido o almoço . Ver-nos-emos mais tarde. Bom apetite. - rematou  a mulher, Sofia.
Carlos levantou-se e gentilmente puxou a cadeira onde estava sentada. Em seguida, dando a mão à mulher foi carinhosamente amparando-a até que  ela acabasse de se erguer e dando-lhe o braço  dirigiram-se para a sala de refeições.
Quando entrou, viu-os sentados no fundo da sala em frente de  uma mesa rectangular que se distinguia das outras não só pelo formato, mas também pelo tamanho. Era, ostensivamente,  bastante maior que todas as restantes mesas. Estavam sozinhos, embora houvesse lugares para mais pessoas.
Algumas mesas já estavam completas , mas o silêncio continuava imperando apesar da esplendorosa  luminosidade natural que invadia  aquela sala magnifica, realçando a beleza sóbria das paredes e o minucioso trabalho em relevo que preenchia o tecto.
Sentou-se na mesa que lhe fora atribuída e foi analisando o que a rodeava. Verificou que as mesas tinham lugares para  quatro pessoas e que as empregadas, com fardas cor-de-rosa e touca da mesma cor, iam trazendo os hóspedes com deficiência locomotora, empurrando as respectivas cadeiras de rodas ou auxiliando aqueles  que se moviam com alguma dificuldade, muitos deles apoiados em bengalas. A maioria apresentava um olhar vago e perdido como se o corpo fosse apenas a matéria visível  de uma ausência voluntária. "                               
 Maria José Vieira de Sousa, in " O Lugar, memórias de um romance", Junho de 2008

2012 ANO EUROPEU DO ENVELHECIMENTO ACTIVO E DA SOLIDARIEDADE ENTRE GERAÇÕES
"O Ano de 2012 foi  designado "Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre as Gerações” e pretende promover a vitalidade e a dignidade de todos. Segundo a Decisão N.º 940/2011/UE do Parlamento Europeu e do Conselho de 14 de Setembro de 2011, o objectivo global do Ano Europeu é facilitar a criação de uma cultura de envelhecimento activo na Europa, baseada numa sociedade para todas as idades".
Vários eventos sob a forma de Congressos , Conferências, Palestras, Colóquios , Encontros e outras Actividades têm acontecido ao longo do ano. Entretanto, a  exclusão social da grande maioria dos idosos continua, o internamento compulsivo de tantos e tantos  em Lares onde acabam por morrer pouco tempo após a entrada aumenta, o abandono nos corredores de hospitais, nas ruas de cidades inóspitas , nas casas em ruínas permanece. Num país que não protege os seus idosos de nada serve  comemorar , se  não for implantada uma política que promova efectivamente a dignidade de todos  e provoque a mudança  numa sociedade que se recusa a projectar-se no seu próprio devir.

O Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações é assinalado nos dias 19 e 20 de Novembro na Fundação Gulbenkian com uma conferência internacional que reúne alguns dos principais especialistas mundiais para debater as práticas e políticas inovadoras no campo do envelhecimento e os principais desafios que enfrentam na Europa e no mundo.O painel dedicado ao caso europeu é presidido por Manuel Villaverde Cabral, responsável pelo Instituto do Envelhecimento.O segundo painel, dedicado aos desafios do envelhecimento no mundo, é presidido por António Nóvoa, reitor da Universidade de Lisboa.  Há ainda um workshop aberto ao público sobre práticas intergeracionais, coordenado por Alan Hattan-Yeo (Beth Johnson Foundation). Trata-se de uma área que tem vindo a ser explorada pela Fundação, desde 2009, através do projecto Entre Gerações, criado em simultâneo em Portugal e no Reino Unido com o objectivo de encontrar iniciativas originais para fomentar o encontro de jovens e seniores.




Campanha pretende alertar para solidão dos idosos

Assinalando o Dia Internacional do Idoso, a Cáritas Portuguesa lançou, em Outubro, a campanha nacional "E esta semana, já visitaste os teus avós?", com o intuito de alertar para as situações de isolamento e solidão em que muitos idosos vivem.Para 2012, declarado pelo Parlamento Europeu e a Comissão Europeia como o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre as Gerações, a instituição portuguesa destacou uma equipa com o objectivo de analisar as questões associadas ao envelhecimento.Em comunicado enviado à agência Ecclesia, Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa, salienta "a importância e alertar a sociedade para este drama" sendo necessário o empenho e dedicação de toda a comunidade. Esta campanha nacional também contará com um anúncio publicitário que irá passar no canal RTP.Segundo os dados da Operação Censos Sénior da GNR, em Portugal existem cerca de 23 mil idosos que vivem em condições de isolamento e exclusão social. In “ Boas Notícias

domingo, 18 de novembro de 2012

Ao Domingo Há Música

Há momentos em que os acordes apenas nos tocam pela originalidade , pela harmonia e pelos sons que os impregnam. Mas há inesperados  segundos   que nos ultrapassam pela profundeza da melodia que, sem licença,  se apropria de nós e nos leva comovidamente  imersos. Eis o que pode acontecer com a inédita e sentida interpretação de  " If I Should Fall Behind "  por Bruce Springsteen  e pela  The E Street Band, nas vozes de Steven  Van Zandt, Nils Lofgren, Patti Scialfa  e  Clarence Clemons.



 If I Should Fall Behind

We said we'd walk together baby come what may
That come the twilight should we lose our way
If as we're walkin a hand should slip free
I'll wait for you
And should I fall behind
Wait for me

We swore we'd travel darlin' side by side
We'd help each other stay in stride
But each lover's steps fall so differently
But I'll wait for you
And if I should fall behind
Wait for me

Now everyone dreams of a love lasting and true
But you and I know what this world can do
So let's make our steps clear that the other may see
And I'll wait for you
If I should fall behind
Wait for me

Now there's a beautiful river in the valley ahead
There' neath the oak's bough soon we will be wed
Should we lose each other in the shadow of the evening trees
I'll wait for you
And should I fall behind
Wait for me
Darlin' I'll wait for you
Should I fall behind
Wait for me

sábado, 17 de novembro de 2012

Novos Livros para Novembro


“Uma Obra Enternecedora de Assombroso Génio “é o quinto livro do norte-americano Dave Eggers editado pela Quetzal e à venda desde  16 de Novembro.
Sobre o livro: «Livro-sensação e livro-revelação do enorme talento de Dave Eggers, "Uma Obra Enternecedora de Assombroso Génio" redefine a família e a narrativa para o século vinte e um: as memórias de uma família normal, que, num ápice, com a morte violenta dos pais no espaço de um mês, se desfaz (ou, pelo menos, se torna tudo menos normal); e as de um jovem em idade universitária que tem de criar um irmão de oito anos.Uma história verdadeira contada como uma ficção ou uma ficção que pretende o estatuto de verdade, a estreia literária de Eggers consegue ser como a vida: pungente, triste, truculenta, hilariante, dramática, selvagem e extraordinariamente inventiva.»

“Poemas para Leonor “, de Maria Teresa Horta é lançado pela Dom Quixote  a 19 de Novembro.
Sobre o livro: «Poemas para Leonor é muito mais do que um livro de versos dedicado a Leonor de Almeida Portugal. Estes poemas, mais do que inspirados na mulher que foi a 4.ª Marquesa de Alorna, fazem parte do processo de escrita do romance "As Luzes de Leonor". Escritos ao mesmo tempo que o romance e ao longo dos mais de  dez anos que durou a sua preparação, falam sobre a experiência da criação da personagem central, interrogam-na, acompanham-na, espelham-na, dialogam com ela.» 
 
“Os Enamoramentos”, do escritor espanhol  Javier Marías,  foi agora lançado com a chancela Alfaguara, pela editora Objectiva. Esta obra tem merecido óptimas críticas  e ganhou, em Espanha,  o Prémio Nacional de Narrativa 2012.Em Portugal este autor  já tem  publicadas as obras ” O Teu Rosto Amanhã “ e “ Febre e Lança”. Javier Marías é membro da Real Academia Espanhola.
Sinopse: «Todos os dias, María Dolz toma o pequeno-almoço no mesmo café de Madrid. Entretém-se a observar um casal que cumpre a mesma rotina. Parecem formar o casal perfeito, profundamente enamorado. Até que um dia o casal não aparece no café, o que deixa María com uma estranha sensação de perda.
Só mais tarde, quando vê uma fotografia do homem numa página de jornal – deitado no chão, esfaqueado, minutos antes de morrer – é que descobre que os amantes que tanto gostava de contemplar se chamavam Luisa e Miguel. Quando a mulher volta ao café, alguns dias depois, María aborda-a para lhe apresentar as suas condolências e entra assim numa espiral que a levará a descobrir mais sobre a morte aparentemente acidental de Miguel.
Partindo do mistério em redor da morte de Miguel, Os Enamoramentos revela-nos muito mais do que a verdade sobre esse trágico evento. É, acima de tudo, uma investigação metafísica sobre a vida, a morte, o amor e a moralidade. E um fascinante tratado sobre o estado de enamoramento, um estado positivo e redentor que parece justificar quase todas as coisas: acções nobres e desinteressadas, mas também as maiores crueldades.»

“ Os Que Vieram de África”
de Rita Garcia
I978-989-55-6010-3
15,5cm x 23,5cm - 272 páginas
PVP C/ IVA 14,90€
Editora - Oficina do Livro
Chegou às livrarias o livro “Os Que Vieram de África”, da jornalista Rita Garcia, autora de “S.O.S. Angola – Os Dias da Ponte Aérea” publicado o ano passado pela Oficina do Livro. “Os Que Vieram de África “ é um livro de investigação empolgante e minucioso que reconstitui o regresso, nos anos 70, de meio milhão de portugueses das ex-colónias, um dos episódios mais conturbados do nosso passado recente.
Sobre o livro – “Cerca de quinhentas mil pessoas chegaram a Portugal com a independência das colónias africanas. Para elas, acabava dessa forma abrupta uma vida próspera construída no ultramar e começava um futuro incerto numa sociedade que desconheciam e que chegava a revelar-se hostil à sua presença. Se os que vinham de África preferiam lá ter ficado, os que cá estavam receberam-nos com desconfiança. Nos primeiros tempos os colonos passaram fome e frio, enfrentaram o desemprego e viveram amontoados em quartos ou casas degradadas. Alguns preferiram emigrar a sujeitar-se à discriminação e à falta de perspectivas; outros encontraram no suicídio a única saída. “Os Que Vieram de África “ é um livro de investigação empolgante e minucioso, que reconstitui tempos conturbados do nosso passado recente. Traçando o retrato de um pequeno país a braços com uma tarefa colossal, revela histórias comoventes de sobrevivência protagonizadas por homens e mulheres atirados para um lugar distante chamado Portugal - um lugar radicalmente diferente da terra que amavam e que o curso dos acontecimentos lhes retirou.”
Sobre a autora
Rita Garcia nasceu em Lisboa em Julho de 1979. Licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa, trabalhou na Focus e, como freelancer, colaborou com publicações como o«DNa», «Notícias Magazine» e Pais & Filhos. É repórter da Sábado desde 2005. Recebeu o 2º prémio Henrique de Barros, atribuído pelo Parlamento Europeu em 2003, e o Prémio de Jornalismo Novartis Oncology em 2008. É co-autora do livro "INEM 25 Anos". Em 2011 publicou, na Oficina do Livro," S.O.S. Angola – Os Dias da Ponte Aérea ".
 
 
"Nocturno Indiano", obra de Antonio Tabucchi, volta às Livrarias numa nova edição da Dom Quixote. Tabucchi,  que faleceu com nacionalidade italiana e alma portuguesa, deixou-nos um grande património literário.
Sinopse: «Acreditou o autor que este livro poderia ser um guia para um amante de viagens improváveis. E não deixa de ser improvável esta demanda de um amigo desaparecido, sombra de um passado enigmático, numa Índia que apenas entrevemos em quartos de hotel, hospitais, estações ferroviárias.Uma Índia que no entanto se revela em diálogos com profetas nómadas, jesuítas portugueses, prostitutas de Bombaim, uma fotógrafa da miséria de Calcutá. Mas este misterioso ballet de sombras é sobretudo um hino à força criativa da linguagem, pois é graças a uma palavra evocada em várias línguas que o viajante se aproxima daquele que procura. E é graças à escrita que a viagem se torna livro, da insónia passa a sonho e do sonho ao texto.»
 “Histórias do Tejo”, obra do jornalista Luís Ribeiro  que resulta de uma grande investigação sobre o rio  Tejo, rio que «criou Lisboa, viu chegar os fenícios, e os romanos, foi fundamental para a conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques, viu sair caravelas e naus que nos levaram a conhecer novos mundos». A obra foi lançada pela Editora Esfera dos Livros.
Sobre o livro: «O rio Tejo tem mil quilómetros de histórias para contar. Um ser vivo, o maior rio ibérico foi testemunha e protagonista de episódios marcantes e cruciais da História de Portugal. Foi o rio Tejo que criou Lisboa, rodeado de fábulas e mistérios. Acolheu os primeiros agricultores, viu chegar os marinheiros fenícios, os romanos e foi fundamental para a conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques. As suas águas assistiram a grandes e sangrentas batalhas navais, revoltas e atentados – nomeadamente em 1910, quando da queda da monarquia, ou na revolução dos Cravos. Devoraram barcos, sem dó nem piedade, e enfureceram-se em tempestades e cheias que fustigaram quem vivia nas suas margens. Centro da actividade económica da cidade, pelo Tejo saíram caravelas e naus que nos levaram a conhecer novos mundos e chegaram princesas que se tornaram rainhas. D. Maria Pia ou D. Estefânia admiraram-se perante o colorido e a beleza do rio que as acolhia na sua nova casa. Ali morreram reis e rainhas suspiraram de melancolia. Nas suas margens, as calhandreiras despejavam os dejectos dos lisboetas. O povo amontava-se para ver chegar visitas reais e admirar um Tejo engalanado, cheio de barcos e faluas, tornado numa verdadeira passadeira de sangue azul. Lendas nasceram na sua corrente e poetas, como Camões, Bocage ou o inglês Lord Byron, nela se inspiraram. Glória e tragédia. Mistério e intrigas. Vitória e derrota. São tudo ingredientes de uma história contada ao longo destas páginas pelo jornalista Luís Ribeiro.»

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

90º Aniversário de Saramago



“À aldeia chamam-lhe Azinhaga, está naquele lugar por assim dizer desde os alvores da nacionalidade ( já tinha foral no século décimo terceiro) mas dessa estupenda veterania nada ficou, salvo o rio que lhe passa mesmo ao lado(…).
Foi nestes lugares que vim ao mundo, foi daqui, quando ainda não tinha dois anos, que meus pais, migrantes empurrados pela necessidade, me levaram para Lisboa, para outros modos de sentir, pensar e viver, como se nascer onde eu nasci tivesse sido consequência de um equívoco do acaso , de uma casual distracção do destino, que ainda estivesse nas suas mãos emendar. Não foi assim.
(…) Durante toda a infância , e também os primeiros anos da adolescência , essa pobre e rústica aldeia (…) foi o berço onde se completou a minha gestação, a bolsa onde o pequeno marsupial se recolheu para fazer da sua pessoa , em bem e talvez em mal, o que se só  por ela própria , calada, secreta, solitária, poderia ter sido feito.”
José Saramago, in “ As Pequenas Memórias”, Ed. Caminho, 2006

A Fundação José Saramago vai celebrar hoje os 90 anos do nascimento do escritor promovendo o primeiro "Dia do Desassossego", que a entidade pretende transformar numa festa cívica e da cultura.
A programação para celebrar o 90 aniversário, desenhada pela Fundação, instalada na Casa dos Bicos, em Lisboa, pretende "desassossegar" os leitores, incentivando-os a saírem à rua com a obra "O Ano da Morte de Ricardo Reis".
Nascido em 1922, na Azinhaga, José Saramago - distinguido com o Nobel da Literatura em 1998 - viria a falecer em Lanzarote, em 2010, com 87 anos.
Para a celebração dos 90 anos de Saramago - que coincide com o 30 aniversário da edição do "Memorial do Convento" - a Fundação José Saramago organizou uma série de eventos, que começam a partir das 12:00 de hoje.
O grupo de teatro Éter vai recriar nessa altura algumas passagens do romance "Memorial do Convento", em frente à Casa dos Bicos, e Jorge Baptista da Silva cantará árias de Domenico Scarlatti, o compositor da corte de D. João V, a que a obra de Saramago se refere, num espectáculo dirigido por Vera Barbosa.
A Fundação José Saramago, que tem hoje e sábado entradas gratuitas, apela aos leitores que devem recordar e inspirar-se nas palavras do Prémio Nobel: "Escrevo para desassossegar os meus leitores".
Com esse espírito, os apreciadores da obra de Saramago, e também de Fernando Pessoa, autor de "O Livro do Desassossego", são convidados a sair à rua com as obras para ler e partilhar.
As janelas e varandas da sede da Fundação José Saramago vão estar decoradas pelo pintor José Santa Bárbara, com figuras do romance, como Blimunda, Baltazar ou frei Bartolomeu de Gusmão e, no interior, estará uma exposição de retratos do escritor, da autoria de nove ilustradores portugueses e espanhóis.
Ainda no âmbito da programação dedicada à data, excepcionalmente, o Teatro Nacional de São Carlos vai abrir as portas no ensaio geral, às 18:00 de hoje, do concerto da Orquestra Sinfónica Portuguesa e do coro do teatro, que reúne no programa o "Requiem", de Fauré, e "Sinfonia Fantástica", de Berlioz.
O sítio online Bookoffice, da Booktailors, um grupo de consultores editoriais que atribuem prémios no sector, associa-se às comemorações dos 90 anos do nascimento de Saramago publicando um conjunto de conteúdos para "homenagear o legado do único autor português galardoado com o prémio Nobel de Literatura".
Lusa

1962, o ano da literatura Latino-Americana


1962, el año prodigioso
"Un congreso y ocho libros en ese año fueron el primer gran fulgor de un momento feliz para la literatura latinoamericana
El año del deslumbramiento fue 1962. El primer gran fulgor. Como si todo se hubiera estado preparando para coincidir ese año en una especie de pirotecnia literaria, del comienzo de una década irrepetible en la literatura latinoamericana.
En ese año publicaron autores prestigiosos que aún no gozaban de una gran resonancia internacional junto a otros relativamente jóvenes en el mundo de la literatura. Todos dieron el fogonazo que permitió iluminar el pasado literario del continente y avistar el futuro de sus letras. Una mirada telegráfica sobre esa fecha arroja lo siguiente:
1- Congreso de Intelectuales de Concepción (Chile)
2- El siglo de las luces. Alejo Carpentier
3- Historias de Cronopios y de Famas. Julio Cortázar
4- Sudeste. Haroldo Conti
5- La muerte de Artemio Cruz. Carlos Fuentes
6- La ciudad y los perros. Mario Vargas Llosa
7- La mala hora. Gabriel García Márquez
8- Los funerales de la Mama Grande. Gabriel García Márquez
9- Aura. Carlos Fuentes
A partir de 1962 se rescatan y se hace justicia sobre algunos grandes nombres que desde comienzos del siglo XX y hasta los años cincuenta venían publicando con reconocimiento en sus países pero no con la suficiente relevancia transcontinental. Ellos fueron los continuadores de una ruta exploratoria a través del idioma español abierta por Rubén Darío desde finales de siglo XIX. Es así como en 1918 empezaron a aparecer obras clave ya no solo para la literatura latinoamericana, sino en español. Es el año del poemario Los heraldos negros, de César Vallejo, y del libro de relatos Cuentos de la selva, de Horacio Quiroga. Y así medio centenar de títulos ya clásicos hasta 1961.
Cuando llega 1962, el año lo inaugura Chile en enero con el Congreso de Intelectuales de Concepción. Lo que significa que ya entonces había una conciencia clara del valor de lo que se había hecho, se estaba haciendo y se podía hacer en el ámbito de la creación literaria en América Latina.
El periodo de maduración fue tal que si entre 1918 y 1961 se editó medio centenar de obras importantes, entre 1962 y 1970 aparecieron casi cuarenta libros inolvidables y escritores que pasaron a la historia de la literatura.
Los años del boom son un momento milagroso en el cual, si al comienzo destacaron 4 o 6 autores, la verdad es que pueden ser 15 o 20 nombres los que aparecieron o se fortalecieron para enriquecer la literatura en español. Más allá de si eran amigos entre ellos, participaban en reuniones, compartían editorial o comulgaban con las ideas de la revolución cubana.
José Donoso escribió en 1972 Historia personal del boom, donde ya analizaba lo ocurrido y ofrecía una mirada panorámica. Coincidencia de intereses, inquietudes, ambiciones y formas diversas de ver, asumir y vivir el mundo y la literatura. Donoso establecía círculos del boom. Las cuatro sillas principales eran para Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Carlos Fuentes y Mario Vargas Llosa, mientras que reconocía que una quinta, según decían, la adjudicaban a él o a Juan Carlos Onetti. Luego se refería a otro círculo de autores y tras este otro. Pero el tiempo ha confirmado el valor y aportación de todos ellos.
El 62 fue el año donde prendió la mecha del boom con ese congreso y esos ocho libros. A partir de entonces, todo fue cuesta arriba. Como una carrera en la que cada año intenta superar al anterior en cantidad y calidad de títulos. Obras que confirmaron el buen destino de sus escritores en el mapa internacional.
¿De dónde viene todo eso? Del mestizaje del idioma, de la pérdida del miedo a manejar el lenguaje en lecciones dejadas por autores como Rubén Darío, del ánimo de sus escritores por conocer sin prejuicios el legado literario universal clásico y prestar especial atención a los autores más contemporáneos tanto en otros idiomas como en el propio: Faulkner, Sartre, Cervantes, Rulfo, Kafka, Homero, Woolf, Carpentier, Hemingway… Los leyeron, los comentaron y los asimilaron. En un segundo bloque estaría el contacto físico de los escritores con el mundo. Es su espíritu cosmopolita y de exploración por voluntad propia u obligados por las circunstancias. Pero siempre atentos y abiertos a explorar y dejarse sorprender."
Winston Manrique Sabogal, Madrid, em artigo publicado no Jornal “El País”, 11/Nov./2012

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Sonhar um impossível


"La quête"

Rêver un impossible rêve
Porter le chagrin des départs
Brûler d'une possible fîèvre
Partir où personne ne part

Aimer jusqu'à la déchirure
Aimer, même trop, même mal,
Tenter, sans force et sans armure,
D'atteindre l'inaccessible étoile

Telle est ma quête,
Suivre l'étoile
Peu m'importe mes chances
Peu m'importe le temps
Ou ma désespérance
Et puis lutter toujours
Sans questions ni repos
Se damner
Pour l'or d'un mot d'amour
Je ne sais si je serai ce héros
Mais mon coeur serait tranquille
Et les villes s'éclabousseraient de bleu
Parce qu'un malheureux

Brûle encore, bien qu'ayant tout brûlé
Brûle encore, même trop, même mal
Pour atteindre à s'en écarteler
Pour atteindre l'inaccessible étoile.
Jacques Brel

A poesia e a voz de Jacques Brel têm a marca da intemporalidade. Escutá-lo é sentir quão actuais são os sonhos, as buscas e as promessas que "La Quête" encerra. 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A arte reinventa o real

Procissão de Amadeo de Souza-Cardoso
Assinala-se , hoje, o 125 º aniversário do nascimento de Amadeo de Souza-Cardoso  natural de  Manhufe, freguesia de Mancelos, Amarante , um dos maiores pintores portugueses. Apesar de ter vivido pouco tempo ( 1887-1918) deixou uma extensa obra que se imortalizou e tem um lugar de relevo na história da Arte Moderna.
"O cubismo em expansão por toda a Europa foram influências marcantes no seu cubismo analítico.Amadeo de Souza-Cardoso explora o expressionismo e nos seus últimos trabalhos experimenta novas formas e técnicas, como as colagens e outras formas de expressão plástica.
Prémio Souza-Cardoso
            Em 1925, a França realizou uma retrospectiva do pintor, com 150 trabalhos, bem aceites pelo público e pela crítica. Dez anos depois, em Portugal, foi criado um prémio para distinguir pintores modernistas, que recebeu o nome de "Prémio Souza-Cardoso".
Amadeo de Souza-Cardoso era um visionário, vivia fora de seu tempo, tal como outros tantos, pagou um alto preço por isso.       A sua obra é caracterizada por paisagens exóticas com estilizações prodigiosas e aspectos decorativos e surpreendentes com desenhos cubistas que transmitem: elegância; mistério; imaginação; emoção; poesia e simbolismo."

Num dia em que se festeja a Arte, transcrevemos uma crónica de Ferreira Gullar, poeta, escritor, cronista brasileiro e grande amante de Arte. 


A magia da imagem
Por Ferreira Gullar
"Em finais do século 19, a linguagem figurativa da pintura --então predominantemente académica - começa a se desintegrar. Isso se dá nas telas de Cézanne (1839-1906), que, contrariamente, ao espírito do impressionismo --que diluía as formas em pequenas pinceladas ("petites sensations")--, constrói o quadro com manchas.
Ele dizia que sem a natureza não havia a pintura; não obstante, o que de fato fez foi mudá-la em pintura, deixando evidente, com suas manchas e pinceladas soltas, que aquilo não pretendia ser a paisagem real, mas, sim, pintura, expressão pictórica.
Esse primeiro passo na direcção da autonomia da expressão pictórica provocará a revolução cubista, que rompeu com a relação natureza-pintura ao fazer do quadro uma invenção arbitrária, isto é, composição de imagens inventadas pelo artista e já não copiadas do mundo real.
Daí para a desintegração da própria linguagem pictórica faltava pouco. Os próprios inventores do cubismo, Pablo Picasso (1881-1973) e Georges Braque (1882-1963), se encarregaram disso, chegando mesmo a pôr em seus quadros recortes de jornal, envelopes de carta, barbante, areia, arame etc. Fazer um quadro não era mais simplesmente pintá-lo e, sim, compô-lo com todo tipo de coisa do mundo real.
Costumo dizer que as experiências cubistas --como usar recortes de jornal na tela-- são precursoras do "ready-made" de Marcel Duchamp (1887-1968), que fez dele um instrumento de negação da arte. Estava aberto o caminho para o que hoje se chama de arte contemporânea --a substituição da criatividade artesanal do pintor por objectos e até seres vivos, como gente, urubus, cães, tubarões etc.
Noutras palavras, a linguagem gráfico-pictórica --que nascera 18 mil anos antes nas cavernas paleolíticas-- foi então abandonada: em lugar de coisas desenhadas ou pintadas, o artista contemporâneo usa as próprias coisas e seres, como a dizer que um casal nu dispensa a escultura da "Vênus de Milo", o David de Michelangelo (1475-1564), o touro pintado por Goya (1746-1828). Como tais obras da chamada arte contemporânea só se tornam arte quando exibidas em galerias ou museus, eu, de gozação, chamei-as de "realismo high society".
Mas, veja bem, como não paro de pensar sobre essas coisas, terminei descobrindo relações entre essa arte contemporânea e o grafite que surgiu nos muros de Nova York e hoje se espalha por tudo quanto é cidade.
A sacação é a seguinte: como vimos, de Cézanne a Picasso, chegou-se à desintegração da linguagem da pintura. Picasso esteve no limite, com suas figuras pateticamente desfiguradas. Já Marcel Duchamp, radical e niilista, embora continuasse a pintar, inventou o "ready-made" que, como o nome está dizendo, dispensa o fazer artístico. Noutras palavras, pintar seria desnecessário, pois o objecto real diria mais do que sua imagem pintada. Pura bobagem. A imagem pintada não diz mais nem menos do que o próprio objeto: diz outra coisa, porque o que a pintura diz o mundo real não diz. Por isso mesmo, afirmei certa vez que, se a arte existe, é porque a vida, a realidade, não basta. A arte não copia, e sim reinventa o real.
Mas tudo isso é para concluir que o grafite, na verdade, é o renascer da pintura, que as vanguardas desintegraram a ponto de usar, como arte, a coisa real em lugar da imagem da coisa. Com o grafite ressurge a pintura figurativa.
E é curioso que esse ressurgimento se deu nos muros da cidade, não no ateliê, não na tela, indicando que o grafiteiro não pretendia fazer arte no sentido que a crítica e o mercado consagraram. Não faz aquilo para vender: o grafiteiro desenha e pinta para se expressar, para se comunicar num mundo iminentemente urbano e massificado.
Parece inspirar-se nas histórias em quadradinhos e, sem compromisso com o mundo artístico, inventou sua própria linguagem, a partir do instrumento que tornou possível essa nova pintura mural: o spray. Assim como a música pop nasceu da guitarra elétrica, o grafite começou como pichação feita com spray.
Mas a verdade é que, das cavernas aos dias de hoje, a imagem das coisas nos fascina e, por isso, a arte da imagem não morre. E, como o artista do paleolítico, o grafiteiro faz renascer nos muros da cidade a magia da imagem pintada.”
Ferreira Gullar em Crónica publicada na Follha de S. Paulo, 2012

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Sobre a Poesia XV


«Não abras a porta, / se for o sublime diz que não estou, / já temos palavras de mais, sentimentos demais.»Manuel António Pina , in " Todas as palavras",Ed. Assírio&Alvim

Manuel António Pina, jornalista, poeta e escritor nasceu no Sabugal. Licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Vivia no Porto e foi jornalista do "Jornal de Notícias" durante três décadas. Morreu aos 68 anos, em 19 de Outubro deste ano. Galardoado em 2011 com o Prémio Camões, o mais importante da Língua Portuguesa, tinha mais de 50 livros publicados e muitos dos seus livros nasceram da leitura de ensaios, conforme declarou na entrevista que deu ao PÚBLICO, após ter recebido o Prémio.  Sentia-se, primordialmente e acima  de qualquer género, um poeta,  embora a sua actividade literária seja vasta e  diversificada,   abrangendo  a novelística, a dramaturgia , a literatura infantil,  o ensaio . Durante anos foi um excelente cronista de que é exemplo a  crónica diária, “Por outras Palavras”, que  mantinha na última página do “JN”.   
A sua obra está publicada em Espanha, França, Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Croácia, Bulgária, Rússia e Estados Unidos.
O último livro de originais de Manuel António Pina, "Como se desenha uma casa", publicado pela Assírio & Alvim , acaba de ser anunciado, ontem, 12 de Novembro, o vencedor da 8.ª edição do Prémio de poesia Teixeira de Pascoaes 2012. O Prémio, de periodicidade bienal, foi instituído pela autarquia de Amarante, em 1997 e será entregue a título póstumo, a 15 de Dezembro.
"Todas as palavras – Poesia reunida” é o livro mais recente  de Manuel António Pina, publicado este ano, também pela Assírio & Alvim que já editara, em 2001,  a primeira edição da Poesia Reunida deste grande poeta. Nessa altura, escreveu Eduardo Prado Coelho, no Público: «Talvez agora, no momento em que a Assírio & Alvim publica a "Poesia Reunida" de Manuel António Pina, estejamos em condições de poder afirmar que nos encontramos perante um dos grandes nomes da poesia portuguesa actual. Uma extrema delicadeza pessoal, uma discrição obsessiva, uma cultura ziguezagueante e desconcertante, mas sempre subtil e envolvente, um sentido profundo da complexidade da literatura, e também, sobretudo, da complexidade da vida, têm talvez impedido a descoberta plena e mediática deste jornalista e homem de letras também voltado para os jogos mais leves e embaladores da literatura infantil. Contudo, torna-se imperioso dizê-lo agora: este tom deliberadamente menor sustenta uma obra maior da literatura portuguesa». A edição que saiu no corrente ano, apresenta-se numa belíssima edição encadernada e substancialmente ampliada, onde está incluído todo o trabalho poético do autor de 1974 a 2011."
Para a XVª edição de "Sobre a Poesia",   espaço onde os poetas reflectem sobre Poesia, retomamos as palavras que Manuel António Pina utilizou numa entrevista concedida ao Jornal de Notícias , "Onde sinto meu sangue é na poesia", bem como aquelas que fizeram a crónica «Persistência da Poesia», publicada na Revista Visão. 

Persistência da poesia
Por Manuel António Pina

"Talvez, quem sabe?, a poesia seja alguma espécie obscura de religião. 
A poesia é um mistério incompreensível. Porque escrevem as pessoas poesia? E porque a lêem ou ouvem outras pessoas? Eu sei que pode escrever-se poesia (o que quer que "poesia" signifique) por muitos motivos, nem todos respeitáveis.
Ao longo da História, a poesia tem servido um pouco para tudo, seja ut doceat, ut moveat aut delectet, que é como quem diz "para ensinar, comover ou deleitar" (a fórmula tem 500 anos e é de Rudolfo Agrícola) seja para enaltecer e louvar ou, se não para ganhar a vida, ao menos para fazer por ela.
Hoje, como provam os programas de Língua Portuguesa da dra. Maria de Lurdes Rodrigues, a poesia é coisa perfeitamente dispensável no ensino e qualquer telenovela comove e deleita mais gente que um poema de Cesário ou de Herberto; por outro lado, já ninguém encomenda um poema para eternizar os seus feitos (a verdade é que também faltam feitos que mereçam ser eternizados) nem nenhuma dama se deixa seduzir com protestos de amor decassilábicos e metáforas. Quanto a ganhar a vida estamos falados; com raras excepções, os livros de versos vendem umas poucas centenas de exemplares e só editores suicidas se metem em tal negócio. Há tempos, um editor punha a uma selecta audiência de poetas a seguinte pergunta: como se edita poesia e se tem uma pequena fortuna ao fim de uns anos? A resposta é: começando com uma grande fortuna. No entanto, continua a haver gente a escrever poesia e gente a editá-la. E gente a ler ou a ouvir poesia.
Na semana passada realizou-se em Maiorca o Festival de Poesia do Mediterrâneo (outro mistério: por todo o lado continuam a realizar-se festivais de poesia). Havia poetas catalães, castelhanos, asturianos, árabes, portugueses.
Na última noite, 500 ou 600 pessoas ouviram ler poemas em línguas que não conheciam. Muitas vezes (pelo menos no caso do árabe e do português) não faziam a mínima ideia do que falavam os poetas. Mas escutavam como se participassem numa celebração cujo significado estivesse além (ou aquém) das palavras.
Que procuravam ali aquelas pessoas? Só a "música das palavras"? Mas a poesia não é música, é um pouco menos e um pouco mais que música. É certo que também não é apenas sentido mas algo entre uma coisa e outra ou ambas ao mesmo tempo, "música do sentido", como diz Castoriadis, e talvez, quem sabe?, alguma forma de sentido que a música possa fazer. Como os outros, também eu escutava. Às vezes julgava reconhecer uma palavra e agarrava-me a ela como um náufrago até a perder algures fora e dentro de mim, ou percebia uma sonoridade dolorosa, uma inflexão irónica, uma invectiva (em árabe, meu Deus!, que mais podia eu perceber?), e isso me bastava para, por um momento, me sentir absurdamente feliz.
Talvez, quem sabe?, a poesia seja alguma espécie obscura de religião, talvez ela própria seja uma língua estrangeira falada em regiões distantes e interiores, talvez escrevendo poesia e lendo e ouvindo poesia estejamos perto de algo maior do que nós ou do nosso exacto tamanho. Porque alguma razão há-de haver para a persistência da poesia mesmo em tempos tão pouco gloriosos como os nossos."
Manuel António Pina  em Crónica publicada na VISÃO,  Junho de 2007
Fotogaleria: Manuel António Pina (1943-2012)


Farewell Happy Fields

Entre a minha vida e a minha morte mete-se subitamente
A Atlética Funerária, Armadores, Casa Fundada em 1888.
A esse sítio acorrem então, aflitíssimos, o teu vago sorriso
e a vaga maneira como dizes os esses;
vêm de muito longe e chegam incompletamente
ao pequeno vulnerável sítio entre
toda a minha vida e toda a minha morte,
quando a minha última recordação atirou já com a porta
e tudo está acabado até a tua respiração
na cama ao meu lado,
e também tu estás morta,
duma forma que já não me importa.

Vamos então os dois outra vez
ao longo de certas ruas sombrias e de certos dias
e sorris e falas alto; está calor mas tens as mãos frias,
compramos coisas, visitamos
talvez algum último amigo
sem sabermos que eu já não estou vivo.

Poderia ter sido de outro modo?
Poderiam ter sido outras duas pessoas
vivendo a minha e a tua vida, morrendo a minha e a tua morte?
(Mesmo o armador, poderia ter sido outro?)
Aparentemente foi por pouco;
se fosse um pouco mais tarde ou um pouco mais cedo,
se eu não tivesse chegado a casa cansado
se a louça não estivesse por lavar
e a janela da sala de jantar
não estivesse fechada, se o mundo não tivesse acabado,
nem eu tivesse ido ao supermercado,
e se eu não estivesse cheio de medo.

Agora estou voltado para cima,
para onde cantas ainda há muito tempo.
Se calhar isto (alguma coisa) vai demorar mas já não me impaciento.
Voltamos, tu eu, ao mesmo jardim desflorido
onde eu morro sozinho
e conversamos comigo
como com um desconhecido.
Que diremos agora um ao outro?

É tarde. Ainda há um momento
me apetecia conversar, agora estou outra vez cansado!
Reparaste como o Outono este ano veio por outro lado,
como se fosse pelo lado de dentro?

Manuel António Pina, «Farewell Happy Fields» in “Poesia Reunida”, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001