terça-feira, 16 de agosto de 2011

"Pare, Escute, Olhe"


DOCUMENTÁRIO "PARE, ESCUTE, OLHE" VENCE GRAND PRIX
NO CERVINO CINE MOUNTAIN EM ITÁLIA
"Pare, Escute, Olhe" de Jorge Pelicano, recebeu o Grande Prémio XIV Cervino CineMountain Conseil de la Vallé, em Itália, o nono prémio da carreira deste documentário sobre o encerramento da linha ferroviária do Tua.
Neste festival, dedicado na sua maioria a filmes de montanha, estiveram a concurso 27 filmes de vários países. Durante a entrega de prémios, na noite de sábado, o júri referiu que a decisão "reuniu o consenso porque se trata de uma obra completa, apaixonante, delicada e subtil, que reune uma boa investigação, um trabalho jornalístico exaustivo na área social, ecomomica e política de uma território de montanha. O filme é ainda dotado de uma elevada qualidade artística, uma sólida dramaturgia, imagem cuidada da vida nas montanhas. Uma obra cinematográfica de óptima qualidade".
Apesar de reconhecer "sentir uma grande tristeza pelo facto de a barragem do Tua já estar a ser construída", o realizador adiantou que este prémio "prova que a causa do Tua é compreendida e sensibiliza além fronteiras. É sempre uma nova oportunidade para repensar não só o futuro da linha ferroviária mas também o futuro de Trás-os-Montes cada vez mais abandonado e isolado"
Depois do reconhecimento em Portugal (DOCLISBOA, CINE ECO e Caminhos do Cinema Português), este é o oitavo prémio para "Pare, Escute, Olhe", um documentário que pretende ser um grito de alerta na defesa da identidade de uma região transmontana.
SINOPSE :Dezembro de 91. Uma decisão política encerra metade da centenária linha ferroviária do Tua, entre Bragança e Mirandela. Quinze anos depois, o apito do comboio apenas ecoa na memória dos transmontanos. A sentença amputou o rumo de desenvolvimento e acentuou as assimetrias entre o litoral e o interior de Portugal, tornando-o no país mais centralista da Europa Ocidental.
Os velhos resistem nas aldeias quase desertificadas, sem crianças. A falta de emprego e vida na terra leva os jovens que restam a procurar oportunidades noutras fronteiras. Agora, o comboio que ainda serpenteia por entre fragas do idílico vale do Tua é ameaçado por uma barragem que inundará aquela que é considerada uma das três mais belas linhas ferroviárias da Europa.
PARE, ESCUTE, OLHE é uma viagem por um Portugal profundo e esquecido, conduzida pela voz soberana de um povo inconformado, maior vítima de promessas incumpridas dos que juraram defender a terra. Esses partiram com o comboio, impunes. O povo ficou, isolado, no único distrito do país sem um único quilómetro de auto-estrada."In e-Cultura.pt, 8/08/2011




"Pare, Escute, Olhe" de Jorge Pelicano, vencedor de 7 prémios nacionais, incluindo Melhor Documentário Português no DocLisboa 09, agora numa edição dupla de DVD. Mais de duas horas de extras, onde se inclui imagens antigas da linha ferroviária do Tua, mini-documentários sobre a ferrovia, making of, banda sonora original, fotos, entre outros.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A literatura em tempos de repressão

Identidade e memória em “Andamios” de Mario Benedetti
por Neiva Fernandes(1)
As especificidades de cada país latino-americanos leva-nos a reflectir sobre a manutenção da lembrança de factos traumáticos através da representação literária, como as ditaduras do Cone Sul, por exemplo. Ao contrário dos demais países, o Brasil tem-se ocupado de outras questões que não esta. Temos vivido sempre de costas a nós mesmos e aos nossos vizinhos quando se trata de um assunto tão pertinente quanto o é a repressão política. Revolver o passado não faz parte de nossa reflexão cultural, embora há que se dar mão a palmatória para eventos como o “V Fórum de Literatura Brasileira da UFRGS” que, segundos seus organizadores, buscam “avaliar com certo distanciamento o impacto do autoritarismo sobre a literatura”. A manutenção da memória e a consciência de que ela serve como um alerta para que tais regimes não se instalem nunca mais na América Latina, é algo que submete os escritores em geral, ao compromisso com a verdade e com o passado que não pode ser apagado tão facilmente. Portanto, obras como Andamios de Mario Benedetti não podem ser lidas como somente parte de sua história recente, nem como registos ficcionais inócuos à nossa condição de latino-americanos, mas sim como uma constante dessa mesma condição. E, não se trata aqui de nenhuma patologia individual ou social , mas simplesmente não se esquece porque não se quer esquecer. O presente trabalho visa a discussão a respeito da (re)construção do ‘eu’ mediante a memória como cumpridora de um papel fundamental no resgate de um ‘si mesmo’ e também de um ‘vir a ser’ como sujeito social. Lacan destaca a memória como reveladora de alguns espaços importantes da história deste sujeito, mesmo que isso venha a gerar-lhe conflitos internos. A personagem, Javier Montes, após a volta do exílio a sua cidade natal, Montevidéu, depara-se com um país que já não é mais o mesmo, nem no espaço geográfico — como não poderia deixar de ser —, nem no âmbito social, posto que a máquina repressora empenhou-se em manter silenciada uma identidade coletiva por meio de uma desmemória pretendida como voluntária, induzida, a princípio, pela ditadura e, depois, por uma memória seletiva levada a cabo pelo governo de Julio María Sanguinetti, cujo discurso convida os uruguaios ao esquecimento total. Cabe ressaltar que identidade e memória são inseparáveis, até porque, nesta última, as imagens atuam como co-autoras de uma identidade pessoal e intransferível; no entanto, na impossibilidade da rememoração, a memória opera no indivíduo como processo de desidentificação, posto que seu script não o conduz a lugar nenhum e nem o inscreve como ator principal de seu contexto. Nas palavras de Benedetti, “el olvido está lleno de memória” e, nesse caso, acrescento que quem esquece seu passado está, de uma certa forma, condenado a revivê-lo em outras esferas, como a literatura, por exemplo. Os anos 60 representaram, para a América Latina, uma nova consciência continental. O florescimento das letras hispano-americanas na segunda metade do século XX deveu-se, em parte, a um posicionamento sócio-político por parte de autores como Mario Benedetti, por exemplo, um dos representantes da generación de 48 que, entre tantos, compreendeu o que realmente queria dizer o termo latino-americano e suas relações com liberdade de expressão e comprometimento. Frente a uma literatura anterior que caracterizava-se pela dominação europeia, não havia como dissociar literatura e transformações sociais. À problemática do individualismo, somou-se a do coletivismo. Consequentemente, as obras revelam um pacto entre a nação e o escritor, entre diversidade e identidades e, por extensão, entre a obra, o leitor e o contexto social de seu país. Nas palavras de Benedetti, A América Latina continua sendo hoje um tema para seus artistas e intelectuais, porém ademais, constitui-se num problema. Problema para aqueles que o eludem; para aqueles que o afirmam e para aqueles que o negam; para aqueles que o assumem em seu ser mais íntimo e para aqueles que o examinam de longe; embora o binóculo seja parisiense, londrino ou romano, o olhar continua sendo inevitavelmente latino-americano. (1972, p. 366) Considerando esta inevitabilidade, vale lembrar que, em Andamios, o autor não contradiz seu ponto de vista. A angústia do exilado, o retorno ao seu país, o sentimento de busca pelo que já foi e a atuação da memória são elementos de um mesmo tema: a (re)construção de um eu que insiste em não ser mais o mesmo. O inevitável aparece quando, em determinadas partes do livro, o autor situa suas personagens no contexto espanhol embora com o olhar voltado para a América Latina, conferindo-lhes um caráter que, se, por um lado, os desestabiliza como sujeitos, por outro leva-os a procurar seu ponto de referência e o fazer parte de algo que está distante e momentaneamente inacessível.
Para quem conhece a obra de Mario Benedetti e está informado a respeito de sua vida, Andamios não surpreende por permanecer coerente com seu posicionamento como escritor latino-americano em termos do resgate da memória e das instabilidades identitárias decorrentes da própria formação e do processo histórico de nosso continente. Andamios trata do retorno de um exilado político ao seu país de origem, o Uruguai. Após a permanência de doze anos em Madri, Javier Montes volta a Montevidéu trazendo consigo uma bagagem de lembranças, solidão e esperança, retomando suas velhas amizades e tentando resgatar, através delas e da paisagem citadina, uma identidade que, a duras penas, percebe já não ser a mesma. Em Madri deixou a ex-mulher Raquel e a filha Camila com quem se corresponde regularmente. Depois de algum tempo, Javier revê seus irmãos que residem nos Estados Unidos, Gervasio e Fernanda e que, por sua vez, provocam-lhe um sentimento de tristeza, e repulsa pelo fato de tornarem-se cidadãos norte-americanos implicando, daí, na perda não só no sentido legal, mas também moral de sua condição de latino-americanos. Nesse ínterim, apaixona-se por Roccío, sua antiga companheira de clandestinidade e, mantém com ela, um relacionamento amoroso que só acaba com a morte desta personagem num trágico acidente de carro e do qual Javier sobrevive. Esta é uma história que narra o exílio e o desexílio de alguém que procura resgatar seus papéis sociais por meio da rememorização, e, consequentemente, retomar suas identidades. No entanto, o retorno é um processo difícil e doloroso pois, é inevitável o reencontro com uma Montevidéu, que por sua vez, não é mais a mesma cujas lembranças e imagens permaneceram em sua memória. A dicotomia com a qual Javier tenta conviver resulta num estado angustiante de conflitos internos. Afinal, quem foi ele, na época da ditadura? Que cidade é essa que não o reconhece mais como sujeito social, o que para ele, significa estar em permanente luta pelos direitos fundamentais do homem e pela liberdade de expressão? O que encontra é uma Montevidéu desmemoriada onde as pessoas silenciam dando-lhe a impressão de que simplesmente esqueceram do que passou? Portanto, quem é agora Javier Montes? O que lhe cabe cumprir como novo cidadão de um mundo estranho e ao mesmo tempo conhecido e permanente nas imagens rememoradas? O que vale a pena recordar que possa contribuir para um outro dasein? Como conciliar memória válida com os traumas da separação e da volta? Buscando evitar um choque frontal com a nova realidade, a personagem busca refúgio numa casa de praia e de lá, aos poucos, vai reconstruindo, através das visitas dos antigos companheiros de luta e dos fragmentos do passado, um Javier militante e uma Montevideu conhecida para, depois, no processo inverso, construir-se a si próprio neste novo mundo, andaime por andaime: "...tratar de asimilar un país que no es el mismo, y sobre todo comprender por qué yo tampoco soy el mismo." (p.15). Aos poucos, Javier vai recuperando a cidade através do seu país. Dá-se conta do distanciamento que ele mesmo se imputou, de que os antigos amigos ajudaram-no neste processo de reencontro e lentamente a construção se expande em direção a uma nova vida. Assim, “las voces del regreso y los rostros del regreso”(p. 47) estabelecem as pontes necessárias para as pazes consigo e com a cidade. Como o Angelus Novus de Klee, seu olhar volta-se para o passado, para a catástrofe desencadeada durante a ditadura, mas de uma certa forma o impulsiona a olhar para a frente, a um futuro que agora Javier está disposto e preparado a enfrentar. Benedetti, em seu prólogo, explica o significado do título. Andaimes e construção são indissociáveis porque sugerem compartilhamento; nesse sentido, a personagem valeu-se do passado e nele inscrevem-se os amigos, obviamente, para consolidar o processo de repatriação que lhe permitisse descobrir seu país pessoal. A narrativa surge como uma tentativa, por parte do autor, de retomar as origens de seu país e da América Latina face ao fenómeno globalização. Benedetti estabelece o diálogo que comporta a aceitação do outro, do estrangeiro fora e dentro do país. A personagem Javier experimenta a vivência de um novo estado de ‘vir a ser’ num país que agora se define como democrático; não sabe muito bem como conviver com a liberdade e, inclusive, na revisão que obriga-se a fazer ao reencontrar seu antigo torturador, o coronel Berenjano, depara-se com mais um dos fantasmas com os quais deve de exorcizar para, por fim, retomar a ação construtora. Segundo o autor, a democracia é um estado em construção contínua, cujo edifício jamais estará terminado. Um sistema sem um final possível. A inquietude em torno dos temas de identidades e de memória ressalta o pertencer a algum lugar, à manutenção de uma unidade, embora diversa, uma possibilidade de mudança e recriação e também, por que não dizer, de reação contra a anulação de si e dos referentes identitários. Participar dessa inquietude não deixa de ser uma maneira que Mario Benedetti encontrou para reafirmar seu comprometimento social com a América Latina. Toda a construção identitária por meio da memória implica na discussão preliminar do comprometimento. Portanto, Benedetti, com Andamios, resgata essa discussão. Assim, o retorno de Javier é o retorno interior e/ou geográfico de cada latino-americano quando tem em mente a necessidade de assumir seu lugar no continente ou fora dele.
Referências
BENEDETTI, Mario. Andamios. Madrid: Santillana, 1997.
Temas e problemas. In: MORENO, César Fernandes. América Latina em sua literatura. São Paulo: Perspectiva, UNESCO, 1972.
(1)Neiva Fernandes é professora de Língua e Literaturas de Língua Espanhola na UNIJUI. Também é tradutora e professora de tradução. Suas últimas publicações são: "El no-lugar del yo en Mario Benedetti y Eduardo Galeano" Estudos de literatura brasileira contemporânea, Brasília, n.22, Brasília, jul./dez. 2003; "Primavera con una esquina rota, de Mario Benedetti e o exílio de cada um". Expressão: Memória, literatura e identidade nos países do MERCOSUL, [Santa Maria], n.2, jul/dez. 2002.
Artigo publicado em “ Nau Literária” Vol. 01, N. 01 – Jul/Dez 2005

domingo, 14 de agosto de 2011

Há Música ao Domingo

U2 e o Soweto Gospel Choir  num grande concerto. "Where the streets have no name" é uma excelente melodia  para esta época estival em que as vozes se podem soltar  ao ar livre. A Esperança num Futuro melhor é uma aposta ancestral que se reacende sempre que o Homem quer. A harmonia destas vozes pode ser a pausa que antecede esse momento.



Where the streets have no name
I wanna run, I want to hide
I wanna take down the walls
And touch the flame
Where the streets have no name.


I wanna feel sunlight on my face.
I see the dust-cloud
Disappear without a trace.
I wanna take shelter
From the poison rain
Where the streets have no name
Where the streets have no name
Where the streets have no name.


We're still building and burning down love
Burning down love.
And when I go there
I'll go there with you
(It's all I can do).


The city's a flood, and our love turns to rust.
We're beaten and blown by the wind
Trampled in dust.
I'll show you a place
High on a desert plain
Where the streets have no name
Where the streets have no name
Where the streets have no name.


We're still building and burning down love
Burning down love.
And when I go there
I'll go there with you
(It's all I can do)
Composição: U2

sábado, 13 de agosto de 2011

Roda Viva

Video da apresentação de Chico Buarque  e MPB4 cantando "Roda Viva" no 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1967.Memória de um passado, onde a liberdade estava coarctada por uma poderosa Ditadura , obrigando, então,  os brasileiros tal como os portugueses à denúncia do flagelo da perseguição através da Música ,da Arte,  da Literatura. Tempo sujo de um passado que não deve ser esquecido para que nunca mais se repita. 
 

Roda Viva
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...

A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...

No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas rodas do meu coração...(4x)


Chico Buarque

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Aniversário de Miguel Torga


Terra , minha medida!
Com que ternura te encontro
Sempre inteira nos sentidos!
Sempre redonda nos olhos,
sempre a cheirar a fermento!
Terra amada!
Em qualquer sítio e momento,
enrugada ou descampada,
Nunca te desconheci!
Berço do meu sofrimento,
Cabes em mim, e eu em ti.
                           Miguel Torga, in " Diário XI"

Miguel Torga, pseudónimo de  Adolfo Correia da Rocha, nasceu a 12 de Agosto de 1907 em S. Martinho de Anta e faleceu em Coimbra, a 17 de Janeiro de 1995.  Assina uma extensa e notável obra com este nome literário  porque torga é a urze, planta humilde, brava e ignota do reino vegetal , que nasce livre e espontânea na agrura das terras, mas predominantemente  nas serras nortenhas, tal como ele , homem transmontano.
“ Inicialmente, ainda com o nome de Adolfo Rocha, Miguel Torga fez parte do grupo da Presença. Dirigiu, depois, com Branquinho da Fonseca, a revista Sinal (1930) e, mais tarde, a revista Manifesto. Mas , com a independência quase agressiva do seu temperamento, cedo se colocou à margem de todos os clãs literários. A sua posição, nas nossas letras, continua a ser a de um grande isolado - que , no entanto ( ou por isso mesmo), consubstancia e representa, da forma mais directa ou através de inevitáveis símbolos , quanto há de viril, vertical, insubornável , no homem português”(1)
“Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós” -,escreveu Miguel Torga.
Hoje, dia em que se deve comemorar o  aniversário deste grande poeta, revisitamos o seu Diário e destacamos o que registou no dia em que atingiu os sessenta anos.
"Miramar, 12 de Agosto de 1967 – Sessenta anos. Felizmente que ninguém deu pela conta, e pude calmamente, secretamente, meditar na significação deste dia crucial. Até há pouco, ia contando. Trinta, quarenta, cinquenta… Não era a juventude , evidentemente, mas havia ainda pano para mangas. Mais vinte , mais quinze…Tempo de sobra, enfim. Agora é que toda a ilusão se desvaneceu. Nem quarteirão, nem dúzia. Inexorável, a razão apenas me promete a decadência e o desenlace, no molho amargo de que tudo está feito e por fazer. É essa, de resto, a grande lição de humildade que a vida nos dá , se a esclerose não lavrou de mais e consente ao espírito o resgate duma lúcida contrição. Vamos seguindo confiados pela estrada fora. De repente, olhamos para trás , e que terramoto de ilusões! O que parecia grande mede um palmo, o que julgávamos sólido abana, o que dava a impressão de voar, patinha. Incrédulos, esfregamos os olhos. Mas não há dúvida. Desacertos sobre desacertos, erros palmares, ingenuidades confrangedoras. O saco de viagem abarrotado de falências. E de nada vale perguntar se as coisas se poderiam passar de outra maneira. Os factos são irreversíveis. No meu caso, então, só por milagre. Comecei mal e tarde. Enquanto outros partiram do saber, eu parti do sofrimento. Nenhuma porta se me abriu sem eu a arrombar. Lutei contra a pobreza, lutei contra a ignorância , lutei contra a idade, lutei contra os homens, lutei contra Deus, lutei contra mim. Uma infância rolada, de bola à mercê dos pontapés do mundo, uma juventude esfalfada, de estafeta atrasado na maratona da cultura , uma maturidade crispada, de indesejável na pátria. A criança desaninhada e perplexa nas encruzilhadas do destino, o rapaz a tentar a ferro e fogo fazer-se gente , o homem cercado de incompreensões. De maneira que era praticamente impossível que a árvore desse outros frutos. Tudo se conjugou nela e fora dela para um Outono sáfaro, que verifico nesta singeleza despida de ilusões. E triste , mas não há voltas a dar-lhe. Resta-me apenas uma consolação: embora derrotado, consegui chegar ao fim da aventura na pureza com que a iniciei, e remir pela consciência dum velho poeta a sangrar a inocência dum jovem poeta de versos de pé quebrado."
Miguel Torga, in “ Diário X “, Círculo de Leitores
(1) in “ Dicionário de Literatura, Direcção de Jacinto Prado Coelho, 4º volume, Editora Figueirinhas /Porto, 1987

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Para onde vamos?

Há perguntas que não se fazem, quando não se pretendem respostas. E este é o lema dos governantes que não se entregam à gestão de um país , mas antes à gestão da sua carreira política. Das entrevistas anunciadas ou ocasionais são excluidas quaisquer questões perigosas   sobre a real situação do país. Apenas se eximem artificiosos anúncios de um país em recuperação dos nefastos erros praticados por  políticas de anteriores governos ou pela hodierna crise internacional.  Aos outros se devem colocar essas questões. E de ilusão em ilusão, o desnorte foi crescendo, a miséria grassando e  o país está em derrocada com as  diferentes fragilidades a eclodir.  Hoje,  é o anúncio de uma assustadora dívida acumulada pelas famílias  em créditos vários que se verifica em incumprimento crescente. Leia-se a notícia:
"O incumprimento dos portugueses está a disparar com o agravamento da crise económica e financeira. Só no primeiro semestre deste ano, 31 959 famílias deixaram de pagar as prestações do crédito à habitação e ao consumo, noticia o "i".
Isto significa que, por dia, 176 famílias entraram em incumpri-mento, mais 29% que no primeiro semestre do ano passado - ou mais 40 famílias por dia, refere o jornal, citando dados do Banco de Portugal.

No total, 660.762 famílias tinham prestações de crédito em atraso em Junho, ou seja, 14,3% do total de portugueses com empréstimos contraídos junto da banca (4,62 milhões de famílias) não conseguia honrar os seus compromissos, um agravamento face aos 13,8% do final de 2010." In Jornal de Negócios

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Notícias do Mundo



"Milhares de polícias juntavam-se esta noite aos que já vinham ocupando as ruas de Londres numa tentativa de pôr um ponto final à violência que assola algumas das principais cidades inglesas. Em Londres as coisas estiveram mais calmas, mas nesta quarta noite de violência o rastilho chegou a cidades onde até agora estava adormecido. Manchester era uma das que ainda não tinham sido afectadas. Desde o fim-de-semana foram detidas mais de 1100 pessoas. (em actualização)
Grupos de jovens repetiram cenas de pilhagens a lojas, incendiaram carros e atingiram prédios, enquanto parte da população atemorizada exigia uma actuação mais firme da polícia.
Na capital, carros blindados e colunas de carrinhas com agentes patrulharam as ruas e os 16 mil polícias deverão continuar a mostrar-se durante pelo menos mais um dia. O patrulhamento parece ter surtido algum efeito.
Cenário bem diferente vive-se fora de Londres. Em Manchester, centenas de jovens – a Associated Press diz que alguns parecem ter cerca de 10 anos – tomaram o centro da cidade de assalto, atirando garrafas e pedras à polícia, e vandalizando lojas.
Garry Shewan , um dos responsáveis políticos de Manchester diz que são cenas sem precedentes: «Queremos deixar bem claro que não têm nada por que protestar».
Na origem da onda de violência e vandalismo que se estende já pelo terceiro dia consecutivo em Londres têm sido erguidas várias justificações. Duas jovens britânicas que têm participado nos motins explicaram: «Estamos a mostrar aos ricos que fazemos o que nos apetece».
As primeiras reacções à violência que alastra pela capital inglesa colocava a origem dos motins na morte de Mark Duggam, jovem que foi baleado pela polícia no sábado, mas as justificações têm-se sucedido à medida que a violência cresce a cada dia que passa.
Desta feita, duas jovens entrevistadas pela BBC, enquanto bebiam vinho pilhado logo pelas nove horas da manhã desta terça-feira, justificaram a sua participação nos motins ao dizerem: «Estamos a mostrar aos ricos que fazemos o que nos apetece».
A cadeia de televisão britânica recolheu as declarações das duas jovens em Croydon, um dos bairros que tem servido de epicentro aos actos de violência e vandalismo em Londres."por SOL/AP
O Jornal "The Independent" na habitual retrospectiva fotográfica apresenta-nos as imagens dos acontecimentos que marcaram o mundo nos últimos sete dias.
Assim vai o nosso mundo. Surpreendente  e assustador no seu devir.
Seven Days

terça-feira, 9 de agosto de 2011

O Verão das Livrarias de Paris

L´EXPRESS.fr publicou, em Julho,  reportagens em vídeo sobre o Verão nas Livrarias de Paris. A pertinência das questões colocadas justifica a sua reprodução.  
"L'été des libraires s'annonce-t-il fructueux? Sont-ils en colère, comme leur collègue Emmanuel Delhomme? Quel livre nous conseillent-ils? LEXPRESS.fr est parti en reportage dans trois librairies parisiennes.
Les préoccupations des libraires débordent le cadre de la profession.
D' un Virgin Megastore à la Scop Envie de lire à Ivry, en passant par Les Cahiers de Colette en plein coeur de Paris, que nous disent les libraires?"


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