terça-feira, 7 de novembro de 2023

Mais Pensamentos sobre a Guerra

A Face da Guerra, Salvador Dali ( 1940-1941)

Toda a gente, quando a guerra anda no ar, aprende a viver com um novo elemento: a mentira.
 Jean Giraudox
 
Temos o poder de fazer, desta, a melhor geração da humanidade, na história do mundo – ou fazer, dela, a última. 
John F. Kennedy
 
Mas, na guerra moderna… morrerás como um cão, por razão nenhuma.
Ernest Hemingway
 
A guerra existirá até ao momento em que o objector de consciência gozar da mesma reputação de que goza hoje o guerreiro.
John F. Kennedy
 
Eu lancei a frase – “A guerra para pôr fim a todas as guerras” – e esse não foi o menor dos meus crimes.
H. G. Wells
 
Desejamos lei mundial, na idade da autodeterminação – rejeitamos guerra mundial, na idade da maciça exterminação.
John F. Kennedy
 
A maneira de ganhar uma guerra atómica é fazer com que ela nunca comece. 
General Omar Bradley
 
A paz é não só melhor do que a guerra, mas infinitamente mais árdua. 
George Bernard Shaw
 
O que há de pior, logo a seguir a uma batalha, é uma batalha ganha.
Duque de Wellington (vencedor de Napoleão em Waterloo)

Seleccionados e traduzidos por
Eugénio Lisboa, 07.11.2023

Poemas do Silêncio

 Poema do Silêncio

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
- Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.
José Régio, in  As Encruzilhadas de Deus, Edição Inquérito, 1946

I- PLENILÚNIO
FICÇÕES DO INTERLÚDIO
I
PLENILÚNIO


As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,

Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada

Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar —

A expirar mas nunca expira
Uma flauta que delira,

Que é mais a ideia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranquila

Pelo ar a ondear e a ir...

Silêncio a tremeluzir...
Fernando Pessoa, in Ficções do Interlúdio. Poesias. . (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).


 O Silêncio

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.
Eugénio de Andrade, in Obscuro Domínio, Editorial Inova Limitada

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta. Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa,.
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada. Preparei minha máquina de novo. Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado. Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão. Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakoviski – seu criador. Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
Mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.
Manoel de Barros , in  Ensaios fotográficos. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.
Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
Miguel Torga , in Câmara Ardente, 1962,Coimbra Editora Ltda,

PEQUENO ESCLARECIMENTO
Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio - um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio... Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês.
Mario Quintana, in  A Vaca e o Hipogrifo, Editora Alfaguara

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Os livros de Novembro


“O romance vencedor do Pulitzer deste ano, um manifesto de James Baldwin contra a discriminação, a autobiografia de Angela Davis, poesia inédita de Júlio Pomar e um álbum documental dos Beatles, por Paul McCartney, são algumas novidades de novembro.
Entre os livros que chegam às livrarias no próximo mês conta-se “Demon Copperhead”, de Barbara Kingsolver, vencedor do Prémio Pulitzer de ficção e do Women's Prize for Fiction, que recria o “David Copperfield”, de Charles Dickens, através de um rapaz que cresce nas montanhas pobres dos Apalaches, na Virgínia, numa edição da Suma de Letras.
Igualmente do grupo Penguin Random House Portugal, mas na chancela Alfaguara, vai sair “Da próxima vez, o fogo”, de James Baldwin, nas vésperas do seu centenário, uma carta ao mundo, que é um manifesto contra todo o tipo de discriminação.
Pela mesma chancela, chega mais um livro de Charles Bukowski, “As matemáticas da escrita”, sobre a difícil arte da escrita e a ainda mais difícil arte de viver da escrita, e na Companhia das Letras será publicado um novo romance de João Tordo, “O nome que a cidade esqueceu", o seu 20.º livro em 20 anos, que marca o regresso do autor a Nova Iorque, cidade onde tudo começou.
Novembro marca também a chegada do segundo volume da “Septologia” do norueguês Jon Fosse, recentíssimo Prémio Nobel da Literatura, intitulado “O eu é um outro”, editado pela Cavalo de Ferro, chancela que vai também publicar uma novela gráfica que adapta a obra “Tamanhas eram as alegrias”, de George Orwell, em que o autor descreve os seus anos de formação, narra as injustiças e iniquidades que sofreu, enquanto tece uma implacável crítica ao sistema de ensino da altura.
A Iguana vai publicar “A espera”, de Keum Suk Gendry-Kim, uma novela gráfica coreana, que aborda as consequências da guerra da Coreia de 1950, que separou famílias inteiras, trazendo testemunhos do trauma de toda uma geração de coreanos que continuam à espera de um reencontro.
Outras novidades literárias da Penguin para o próximo mês são a publicação de “Nunca Jamais”, romance da autora líder de vendas Colleen Hoover, na Topseller, e “Meditações”, de Marco Aurélio, um dos clássicos mais lidos de sempre, agora na coleção Penguin Clássicos.
O grupo Almedina destaca, nas Edições 70, a publicação de “100 dos Melhores Planos do Cinema - 100 Autores, 100 Planos”, de Nelson Araújo, uma viagem pela história e a linguagem do cinema através de uma centena de planos icónicos, e a obra de filosofia política de Pierre-Joseph Proudhon “Que é a Propriedade? - ou investigações sobre o princípio do Direito e do Governo”, considerada a “Bíblia” do anarquismo.
Na área da ficção, a chancela Minotauro publicará “A Velha Senhora Webster”, de Caroline Blackwood, romance nomeado para o Prémio Booker, “A Mansão Minúscula de Myra Malone”, de Audrey Burges, e “Vingativo”, de V. E. Schwab, sequela de “Vicioso”.
Entre os destaques da Editorial Presença para o mês de novembro, inclui-se a publicação de um novo romance da autora francesa Valérie Perrin, “Os esquecidos de domingo”, bem como do esperado “Ao Paraíso”, de Hanya Yanagihara (autora de “Uma pequena vida”), que aqui atravessa três séculos, mostrando três versões da identidade norte-americana.
A Dom Quixote vai lançar “Tasmânia”, de Paolo Giordano, considerado o melhor livro publicado em Itália em 2022, um romance que aborda o tema do apocalipse em todas as suas nuances: as alterações climáticas, o terrorismo religioso, a cultura do cancelamento, a fragilidade da amizade, os casamentos desfeitos e a paternidade falhada.
A editora destaca também a publicação de “Antes Que Me Esqueça”, livro de crónicas de Francisco Seixas da Costa, que atravessam os seus 38 anos de atividade diplomática, testemunho de várias experiências internacionais, pelas quais passaram figuras como Oscar Niemeyer, Jean-Marie Le Pen, Charles Aznavour, Lech Walesa, Mikhail Gorbachev, Yasser Arafat, Sergey Lavrov, Jacques Chirac, Pelé, Salman Rushdie, Sérgio Vieira de Melo, Ariel Sharon, Joseph Stiglitz ou Leonardo Padura.
“Censura, o Lápis Azul do Silêncio” é uma das propostas da Guerra e Paz, obra organizada por Ana Aranha, com 20 entrevistas a quem sofreu nos textos os riscos azuis do lápis censório da ditadura, como é o caso de Adelino Gomes e Sérgio Godinho.
A editora lança também “Histórias de Jazz”, de Leonel R. Santos, com ilustração de Nuno Saraiva na capa, um livro que conta 13 histórias “inverosímeis” envolvendo sempre “um grande músico ou um inesquecível tema”.
A terminar o ano, a Porto Editora lança “1964: Olhos da Tempestade”, uma obra com 275 fotografias inéditas, resgatadas do acervo privado de Paul McCartney, que documentam, pelo próprio olhar do músico, a digressão dos Beatles por seis cidades europeias e norte-americanas.
A Assírio & Alvim edita “Prima Contradição”, livro inédito de Júlio Pomar, a partir de um espólio de milhares de poemas, alguns concebidos como letras de fados, deixado pelo artista plástico, numa edição organizada por José Alberto Oliveira e José António Oliveira.
Na mesma chancela será publicada toda a obra poética de Pedro Homem de Mello, em dois volumes, com o título “Poemas 1934-1961”, bem como uma antologia inédita de textos, desde o século XII até ao século XX, ‘re-imaginados’ pelo génio surrealista de Mário Cesariny, intitulada “Poetas do Amor, da Revolta e da Náusea + Poesia de Mário Cesariny: antologia”.
Preparado logo após o 25 de Abril de 1974, este projeto de Cesariny começou por ser um espetáculo de teatro, mais tarde reformulado como uma série de filmes para televisão, desejo nunca concretizado, que engloba prosa, poemas e peças de teatro, convocando nomes como Camões, Mariana Alcoforado, Bocage e Natália Correia, entre outros autores.
Junta-se a “Poesia de Mário Cesariny: antologia”, no ano do centenário do autor, que revisita toda a obra do grande poeta surrealista, pensada por Fernando Cabral Martins.
A Antígona tem previsto publicar “Autodefesa. Uma filosofia da violência”, de Elsa Dorlin, um ensaio político da autodefesa e a sua genealogia, seguido de “Carta aos Reis Magos”, de Fernando Arrabal, fundador do Grupo Pânico e mestre patafísico, autor de epístolas satíricas como “Carta ao General Franco” e “Carta a Fidel Castro”.
Outros destaques da editora são “Uma autobiografia” de Angela Davis, ativista e professora da Universidade da Califórnia, com prefácio da autora à edição norte-americana mais recente, publicada em 2022, e uma coletânea de poemas de Lawrence Ferlinghetti, intitulada “Uma manta rota da mente”, uma “obra maior da Geração Beat”.
Entre as novidades da Bertrand, incluem-se os romances “A Porta dos Traidores”, de Jeffrey Archer, “O Confronto”, de John Grisham, “Holly”, de Stephen King, e “Alguém Falou sobre Nós”, de Irene Vallejo.
Na Quetzal vão ser publicados a “Poesia Completa”, de Roberto Bolaño, e “A Mesa de Deus”, de Maria Lecticia Monteiro Cavalcanti, um livro que propõe uma releitura da Bíblia anotando todas as referências sobre os alimentos, a cozinha, a refeição, o prazer e a dádiva da comida, estudando os hábitos alimentares no Antigo e no Novo Testamento.
Outro destaque da Quetzal é a publicação de “Horácio. Poesia Completa”, a versão definitiva em português, traduzida e comentada por Frederico Lourenço, numa edição bilingue. Esta é a primeira edição completa de Horácio a ser publicada em Portugal desde o século XVII.”
Lusa, 31.10.2023 

A guerra anula o sentido da vida

 

A memória é o único paraíso do qual o homem não pode ser expulso.
Elieser Gelwerger ( 16 anos) , Mogilev, 1944
Yad Vashem

Render homenagem em memória daqueles que foram vítimas de atrocidades infames é contribuir para que as guerras acabem, sejam elas de um lado ou de outro. Guerra é sempre um horror. Preservar a vida de qualquer ser humano deve ser o maior e primeiro objectivo. A guerra anula o sentido da vida.
A peça musical, que se apresenta,  recai numa dessas situações que é um  dos possíveis  exemplos de como  a música é uma linguagem universal.
Uma já renomada  jovem compositora, violinista   e pianista (18 anos) publicou o seguinte:

Em Memória das vítimas de 7 de Outubro de 2023
"Compus este movimento a partir do meu concerto para piano, em memória da minha avó em Israel. É  também à memória das crianças, das mulheres e dos homens, jovens e idosos, que foram assassinados no sul de Israel, em 7 de Outubro de 2023."
Alma Deutscher

Alma Deutscher: piano concerto in E-flat major. ii: Adagio (in memoriam of the victims of October 7, 2023) com  a Orchestra of St. Luke's , regida pelo Maestro Jane Glover e Alma Deutscher, ao piano.


  

domingo, 5 de novembro de 2023

O aconchego das certezas

As certezas confortam corações
inseguros e cheios de temor.
Buscam tudo, mitos, religiões,
regimes de dogma e de terror.
 
Tudo, excepto o desassossego,
que não temem os que sondam mistérios.
Eles preferem o doce aconchego
das certezas dos que têm impérios!
 
Acreditar, em vez de descobrir
é bem mais suave e sossegado.
Para quê passar noites sem dormir,
 
desvendando o segredo blindado,
em vez de se acomodar, tranquilo,
em silente postura de pupilo?
                       05.11.2023
Eugénio Lisboa
 

Ao Domingo Há Música

Oh meu amor
Eu nunca te esqueço.
O meu amor 
É uma linha que meço 
Sem termo nem guia, imagem, nem chão,
A praia deserta é a tua mão.
    Carminho

Num Outono que corre incerto, mas sem praias ainda desertas, é tempo para descobrir a produção nacional que acaba de lançar novos sons . Uma selecção de grandes vozes que dão aos sons tonalidades peculiares e de grande encanto. Vozes portuguesas para ouvir ao jeito de cada um.

Ricardo Ribeiro, em  Tirai os Olhos de Mim [ Official Music Video ].
Guitarra Portuguesa: José Manuel Neto ; Viola: Carlos Manuel Proença; Baixo: Daniel Pinto. Gravado por Nuno Simões.Misturado e masterizado por André Tavares. Produção musical e arranjos por Carlos Manuel Proença.Produção  executiva por Becas do Carmo.
 
Ana Moura, em  Lá Vai Ela (Official Video).
   
Sara Correia, em  Madrugou , no Programa  A Nossa Tarde (RTP1-25.10.23)
   
Carminho, em  Praias Desertas - [Official Music Video. ]
Letra: Carminho. Música: Carminho. Produzido por Carminho. Gravado por Joaquim Monte, assistido por Rúben Baião e Rodrigo Lopes, nos Estúdios Namouche, em Lisboa. Misturado por Joaquim Monte e Carminho. Masterizado por Ars Lindberg Mastering.
 

sábado, 4 de novembro de 2023

Gente zangada



Gente zangada
por Eugénio Lisboa
 
Se não formos autorizados a rir
 no Céu, não quero ir para lá.
            Martinho Lutero
 
“Há gente, talvez bem intencionada, com bons propósitos de querer salvar o mundo, mas que está sempre zangada. Talvez por estarem zangados consigo próprios, não conseguem estar de bem com quase ninguém. O notável poeta e crítico inglês, do século XIX, Matthew Arnold, era por toda a gente considerado uma excelente pessoa, mas estava sempre zangado com tudo e com todos, de modo que se dizia, dele, que, boa pessoa que era, iria com certeza para o céu, mas que não iria gostar de Deus. São pessoas que, em vez de se rirem com uma boa piada, se zangam. Querem salvar o mundo e os homens, mas, no fundo, não gostam nem do mundo nem dos homens que querem salvar. Parafraseando o pérfido e brilhante Wilde, diria que é preciso termos um coração de pedra, para não desatarmos a rir com tanta zanga.
Lido com gente assim, há muito tempo. Visam a felicidade da Humanidade, mas são incapazes de a construir em casa. Não sabem rir, coisa perigosa. Mesmo, quando o fazem, como não foram formatados para isso, fazem-no com um rictus de sofrimento. Woody Allen dizia de si próprio: “A maior parte do tempo, não tenho muita graça. O resto do tempo não tenho graça absolutamente nenhuma.”  Esta gente zangada de que falo vive sempre no resto do tempo de Woody Allen. Repito, são perigosos. Como não sabem rir, não são capazes de se rir de si próprios e, por isso, não sabem fazer autocrítica. Acreditam em projectos grandiosos, mas não são capazes de resolver pequenos problemas domésticos. Têm visões planetárias, mas tropeçam na primeira pedra que lhes saia ao caminho. E, normalmente, riem-se quando não devem. São gente para fazer grandes purgas, quando não se pensa como eles. Diga-se, de passagem, que “pensar” não é o seu forte. Não gostam de pensar e odeiam visceralmente quem pensa pela própria cabeça. Preferem receber “directivas” de autoridades reconhecidas. Bertrand Russell dizia, com imensa graça, que, quando nos cortam a cabeça, a nossa capacidade de pensar diminui consideravelmente. É o que se passa com esta gente zangada, que pulula nas redes sociais: andam por aí, dando pulos desorientados, como galinhas decapitadas.”
Eugénio Lisboa, 04.11.2023

O Terramoto de 1755

Zona do Palácio e arredores , descendo até ao rio ,
antes do terramoto de Lisboa 

"Na manhã de 1 de novembro de 1755, Dia de Todos os Santos, em Lisboa houve um sismo de enorme magnitude, sucedido de um tsunami e de uma colossal destruição de vidas e bens. Agora, 268 anos após o grande terramoto de Lisboa, e tendo presente os ainda recentes terramotos da Turquia e de Marrocos, nunca a questão da prevenção e proteção no caso de se dar este tipo de fenómeno natural esteve tão presente. Na atual Legislatura, e no âmbito da Comissão de Administração Pública, Ordenamento do Território e Poder Local, foi constituído o Grupo de Trabalho – Prevenção e Proteção Sísmica que solicitou pareceres a várias entidades e individualidades e tem estado a efetuar diversas audições.
Neste contexto, incluem-se nesta edição excertos de «O Pequeno Livro do Grande Terramoto» 1, escrito, em 2019, pelo Deputado Rui Tavares, com a descrição do terramoto de 1755.
«Ouviu-se um ruído cavo e grave - «rugido tao medonho como o de hum espantoso Trovão» - e em simultâneo a terra tremeu. De imediato sentiu-se uma vibração apenas suficiente para fazer dançar as folhas de papel em cima de uma mesa, mas de contínuo aumentou «com tão violento, e estranho movimento, que logo indicou não ser puramente tremor». Objetos maiores caíram das prateleiras, molduras e crucifixos pregados às paredes balançavam como se fossem barbatanas de um peixe fora de água (…). Os próprios edifícios começavam já a balançar para trás e para diante. A terra vibrava como se fosse atravessada por uma onda, disseram depois várias testemunhas - e muito corretamente, uma vez que o sismo é de facto uma onda de energia. (…)
Aparentemente os edifícios começaram a ruir a partir do segundo minuto de sismo. O vaivém das paredes tinha deixado os telhados sem sustentação. As telhas caíam, e depois delas os travejamentos e tudo o que neles estava suspenso, incluindo os candelabros acesos das igrejas. A queda dos telhados matou, feriu ou imobilizou imediatamente grande parte dos fiéis que se encontravam nas igrejas - além de por vezes lhes ter tapado as saídas - enquanto as chamas dos candelabros se propagavam rapidamente às madeiras. Nas ruas, as pessoas eram atingidas por pedaços de revestimento, telhas soltas, até varandas e paredes inteiras.
Diz-se que trinta segundos de abalo sísmico parecem, à pessoa que os vive, intermináveis. Mas vieram trinta segundos e passaram trinta segundos, e mais trinta e mais trinta. A determinada altura o abalo deteve-se por um pouco, permitindo uma certa respiração aos lisboetas. Mas esta interrupção, e mesmo uma segunda, duraram apenas alguns segundos. O regresso dos abalos era mais forte ainda e a reação das pessoas, que no primeiro embate parece ter sido mais de espanto, deve ter passado rapidamente ao pânico. O que se passava afinal? Os sismos fortes em Lisboa não eram tão comuns que permitissem a uma geração ter disso memória recente. Havia, evidentemente, uma reminiscência coletiva do terramoto de 1531 – o outro grande terramoto de Lisboa -, mas 1531 estava a uma distância quase tão grande como a que nos separa de 1755. O terramoto de 1531 tinha sido coisa do tempo dos avós dos avós dos avós dos lisboetas de 1755.
O terramoto durou mais de sete minutos, com duas curtas paragens. Esta é uma estimativa de compromisso: existem testemunhos que dão como duração do terramoto dez ou quinze minutos; a maioria aponta para abaixo de dez minutos. Há quem garanta apenas uma interrupção ou até quem não se refira a nenhuma; seja como for, as paragens devem ter sido muito breves, porque todos se referem a este sismo como tendo sido apenas um (ocorreram, contudo, réplicas durante o resto do dia e os abalos sísmicos passaram a fazer parte do quotidiano nos meses e até anos seguintes).
Já não há acordo, contudo, sobre o tempo por que se prolongou o ruído de trovão durante o sismo, mas testemunhos aparentemente fiáveis dizem que ele se fez sentir apenas durante o primeiro minuto, sendo depois substituído pelos estrondos das quedas de mobiliário,telhados, paredes e edifícios inteiros - sempre acompanhados pelos gritos da população. A derrocada dos edifícios levantava ondas de poeira em seu redor. Essas nuvens tapavam o sol, tornavam o ar irrespirável, e cobriam já uma grande parte do centro da cidade, «uma cerração tão forte que parecia querer sufocar todos os viventes».
O primeiro choque - de entre dois a três minutos? - teria sido suficiente por si só para provocar danos excecionais. Através da poeira, os sobreviventes puderam observar durante a breve interrupção que ruas inteiras tinham deixado de existir: todos os edifícios de determinadas áreas estavam por terra. A pausa não deu para mais do que tentar encontrar os sobreviventes mais à mão. Não houve tempo para começar a procurar haveres ou verificar o estado em que tinham ficado as habitações das vítimas. O segundo e o terceiro choques provocaram um tal pânico que muitas pessoas deixaram sequer de prestar atenção aos efeitos físicos do terramoto. Muitos acreditavam, certamente, que era chegado o fim do mundo - e há disso testemunhos incontáveis. (…)
Quando o abalo se suspendeu, os lisboetas ficaram atarantados pela cidade, perdidos uns dos outros. Alguns procuravam os seus parentes ou haveres, outros ainda não tinham compreendido completamente o que havia sucedido. As nuvens de poeira continuavam a dificultar a visibilidade. De uma parte da cidade não se via a outra, do próprio alto do Castelo não se conseguia distinguir os detalhes de destruição na Baixa. É possível, também, que alguns incêndios estivessem já ateados, embora não houvesse ainda informação sobre eles. O grande pânico dos incêndios ocorreria umas horas depois. Para já, os lisboetas parecem ter pensado que o pior tinha passado - se é que conseguiam pensar em alguma coisa. Muitos desceram até à ribeira, ao Tejo e às suas praias. O nível do mar estava abaixo do normal na maré baixa. Houve até quem escrevesse, mais tarde, que se tinha visto o fundo do rio.
Estas condições não ajudam a ter grandes certezas sobre o maremoto e as ondas tsunami que atingiram Lisboa. Nem toda a gente se encontrava junto ao rio, e os que não se encontravam parecem não ter tido contacto visual com as ondas, embora tenham por vezes participado de correrias coletivas, em fuga das ondas reais ou de simples rumores. (…)
Sabemos certamente que o maremoto provocado pelo deslocamento do fundo marinho no epicentro foi sentido inequivocamente pelos navios em alto-mar. Meia hora depois do sismo já um tsunami de cerca de 15 metros de altura fizera enormes estragos nas costas marroquina, andaluza, algarvia e alentejana. Certas cidades algarvias, como Lagos, Portimão e Faro, foram mais danificadas pelo tsunami do que pelo terramoto, embora se encontrassem também perto do epicentro. Em Albufeira, parte da população foi arrastada para o mar. Em Lagos, as ondas destruíram muralhas e partes de fortalezas, mas foi na cidade andaluza de Cádis que os efeitos das ondas foram mais notados, uma vez que a cidade se encontra ligada ao continente por um istmo que foi completamente varrido pelas águas.
A parte central de Lisboa encontra-se semi-resguardada de fenómenos deste tipo pelo formato da embocadura do Tejo. Apesar de tudo, quando a onda gigante chegou à capital do reino tinha ainda seis metros de altura, o que foi suficiente para causar estragos consideráveis. Arrastou consigo um grande número de embarcações. Recordemos que num dia comum o porto de Lisboa contava com entre a meia centena e a centena de navios de grande porte, aos quais se deveriam juntar embarcações menores, botes, etc. Toda essa madeira, inteira ou despedaçada, deve ter entrado pelas ruas da cidade, principalmente nas freguesias de São Paulo, mais baixas e expostas ao rio, rangendo e estalando à passagem.
Quando a onda regrediu deixou estes desperdícios que mais tarde serviriam de combustível para as chamas. E quem se encontrava por perto não teve tempo para recobrar o fôlego. Passado um par de minutos, outra onda chegou e se abateu sobre a parte ribeirinha da cidade. Desta vez não só trouxe destroços de navios e destroços de destroços provenientes da própria ruína da cidade, como levou consigo embarcações que se encontravam ancoradas ou mesmo em terra firme e que desapareceram quando esta onda regrediu.
Segundo alguns testemunhos, a maré subiu e desceu por três vezes em pouco mais de cinco minutos, e o mar continuou alterado depois disso (o termo maré é utilizado para descrever a visão rara de uma parede de água avançando sobre a cidade). Não se sabe quanta gente morreu, em Lisboa, por ação das ondas tsunami, nem até que ponto da cidade penetraram as águas. (…)
Até ao megatsunami de 2004 seria difícil acreditar em alegações exageradas sobre a força destas ondas. Hoje sabemos que uma onda de seis metros avança até encontrar oposição ou altitude superior. No caso de Lisboa, o maremoto e as ondas tsunami que dele resultaram fizeram os seus estragos principais na margem que vem desde Belém até à Rocha do Conde de Óbidos, em Santos-o-Velho, e daqui até à freguesia de São Paulo. Pereira de Figueiredo afirma que as ondas penetraram até 5 estádios (ca. 1 km) no interior da cidade. Nesta face da cidade, menos resguardada no estuário - e que, como vimos, era bem mais próxima do rio do que hoje em dia - a onda terá varrido toda a zona ribeirinha, arrastando com ela pessoas, embarcações e detritos. Só escapou quem correu para lugares altos e especialmente quem, por se encontrar a cavalo, pôde galopar para longe da onda gigante.
Ao fim da manhã os incêndios tornaram-se a preocupação principal. (…)
Muitos edifícios arderam completamente. Praticamente toda a Baixa de Lisboa foi afetada.»
ComunicAR | Boletim da Assembleia da República | novembro 2023

[1] Tavares, Rui (2009). O Pequeno Livro do Grande Terramoto. Ed. Tinta-da-China 

                                        Lisboa - O Terramoto de Novembro de 1755 - RTP1