quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Viajar (2) - Uma viagem pela Costa Rica

  

Costa Rica - 4K Scenic Relaxation Film (4K Video UltraHD) - Calming Relaxing Music 
"A Costa Rica é um país da região centro-americana da América do Norte. Faz fronteira com a Nicarágua ao norte, o Mar do Caribe ao nordeste, o Panamá ao sudeste e o Oceano Pacífico ao sudoeste, bem como a fronteira marítima com o Equador , ao sul da Ilha dos Cocos. "

00:00 Flying Over Costa Rica 
11:13 Manuel Antonio Nationa Park 
20:03 Volcan Arenal 
24:24 Monteverde 
28:04 Dominical 
33:01 Tamarindo 
34:51 Jaco 
39:23 Tortuguero Nationa Park 
45:53 Osa 
48:28 Irazu Volcano 
49:58 Fortuna 
51:43 Cocos 
52:37 Puerto Viejo
57:56 Poás Volcano

AMÉRICA, AMÉRICA!

 
AMÉRICA, AMÉRICA!
por Eugénio Lisboa
 
                  Eu tremo pelo meu país quando penso que Deus é justo.
                                                Thomas Jefferson
 
“O poeta Heinrich Heine disse um dia esta coisa tremenda: “Quando, à noite, penso na Alemanha, perco o sono.” Tinha razão e o que depois foi acontecendo na Europa mostrou que o poeta era também um muito credível profeta. Thomas Jefferson, que cito em epígrafe, parece também ter perdido o sono, ao pensar numa justiça transcendente que porventura visitasse o seu país. Ele lá sabia. Jefferson foi, como se sabe, um estadista americano, advogado, diplomata, arquitecto, filósofo e veio a ser o terceiro Presidente dos EUA, sendo hoje considerado um dos dez melhores, no cargo. Foi também o fundador da Universidade da Virgínia. Na sua redacção da Declaração de Independência condenou o negócio da escravatura e, em 1807, promulgou uma lei proibindo a importação de escravos, apesar de ele próprio ter sido proprietário de escravos e ter tido vários filhos de uma escrava. Eis um dos sinais das profundas contradições que roem as entranhas deste país poderoso e altamente criativo. O qual, seja dito, em abono da verdade, é o primeiro, na sua arte do cinema e da literatura, a fazer uma implacável crítica aos seus deslizes e mesmo aos seus crimes, dentro e fora de fronteiras. Um só exemplo: Archibald Cox, advogado, Professor de Direito, advogado geral do governo de Kennedy e, mais tarde, Procurador Especial, no escândalo Watergate, não hesitou em fazer esta avaliação contundente do seu próprio país: “Confesso que não consigo compreender como podemos intrigar, mentir, fazer batota e cometer assassinatos no estrangeiro e permanecermos humanos, respeitáveis, dignos de confiança e levados a sério, no nosso país.” Outro exemplo é o do muito conhecido Robert Audrey, dramaturgo e ensaísta, no campo das ciências sociais, que deixou dois clássicos – AFRICAN GENESIS e THE TERRITORIAL IMPERATIVE – e fez esta avaliação dolorosa do comportamento americano: “Na América, imediatamente depois da Segunda Guerra Mundial, o antissemitismo atingiu cumes nunca antes atingidos, apesar de todas as contribuições nazis para a nossa consciência universal; e a literatura desse período dar-me-á razão.” Não só a literatura, mas também o cinema, que deixou poderosos testemunhos desse ódio milenar.
É desta América, grande na literatura, no cinema, na ciência e na tecnologia, nas artes plásticas, na astronáutica, na música, que nos vêm também, para esta Europa, que logo as absorve, gulosamente, as maiores idiotices ligadas ao politicamente correcto, autoproclamado defensor dos direitos e sensibilidades das minorias. Aí, vale tudo. Os maiores desconchavos e atropelos passam a ser alvo do maior carinho. A discriminação positiva, como solução barata e expedita de um problema real que requer solução mais profunda e dispendiosa, a “purificação” dos textos clássicos feita por leitores “sensíveis”, a introdução obrigatória, nos thrillers, de comandantes de polícia negros a darem ordens firmes a brancos obedientes, que são amigos do coração de uma raça que, aparentemente, nunca os incomodou (qualquer dia, temos um Hamlet negro e filho de um governador negro do Mississipi, amante de uma americana loira e irmã de um Laertes paquistanês) – tudo isto é o pão que quotidianamente nos chega da América de Mark Twain, de Henry James, de O. Henry, de Eugene O’Neill, de Faulkner, de Dorothy Parker e Robert Benchley, de Tennessee Williams, de Hemingway, de Phillip Roth, que devem estar a dar voltas no túmulo a pensarem no que esperam as suas obras, entregues às mãos dos “purificadores” castrados. Vou só dar um exemplo muito recente e termino. Um muito conhecido editor americano recusou recentemente publicar um romance, alegando ser impossível fazê-lo pelo facto de o protagonista ser branco e heterossexual. De facto, era uma verdadeira afronta ao politicamente correcto. Já o grande Jorge de Sena, há cerca de cinquenta anos, dizia que a melhor hipótese de um jovem sem grande mérito ter acesso a uma universidade americana, aproveitando da discriminação positiva, era ser negro, zarolho e lésbico. Pascal tinha razão: há que saber fazer um bom aproveitamento das doenças, sendo aqui “doença” pura metáfora operatória para “desvantagem” (não vão os leitores “sensíveis” crucificar-me, e eu não tenho vocação para Cristo!)”
Eugénio Lisboa, em 05.09.2023

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Viajar (1) - Uma viagem pela Turquia

  

Turkey 4K - Scenic Relaxation Film With Calm Music 
"Embarque numa viagem serena de 26 minutos pelas paisagens encantadoras da Turquia, onde a história antiga encontra a beleza natural. Delicie-se com  as belas e diferentes obras de  arquitectura  de Istambul, as formações rochosas surreais da Capadócia e as costas tranquilas de Antalya. Junte-se a nós enquanto atravessamos as ruas históricas, exploramos ruínas antigas e mergulhamos na cultura vibrante que define a Turquia. Deixe que as melodias suaves da música calmante o guiem através desta odisseia visual, criando uma fuga harmoniosa para relaxamento e reflexão." (Scenic Film- Epic Scapes)

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Património Cultural em Inglaterra

 Jaime Batalha Reis por Columbano Bordalo Pinheiro,
óleo sobre tela, 1892

Património Cultural em Inglaterra
Um exemplo e alguns nomes
por Eugénio Lisboa 

O Património Cultural de uma nação, de uma região ou de uma comunidade
é composto por todas as expressões materiais e espirituais que a constituem,
incluindo o meio ambiente natural.
Declaração de Caracas, 1992

"Em princípio de 2005, recebi do Dr. Diogo Pires Aurélio, então Director da Biblioteca Nacional, o pedido de um depoimento sobre património documental no estrangeiro, para o caso, baseado na minha estadia em Londres, durante 17 anos (1978 – 1995), como conselheiro cultural da nossa embaixada, ali sediada.
Escolhi o que se passara com o espólio de Batalha Reis e fiz um curto texto, que a seguir reproduzo, por me parecer que contém alguns ensinamentos sobre que vale a pena meditar. Devo dizer, sem falsa modéstia, que me orgulho de ter salvo de um provável desaparecimento este valioso espólio. Não foi o único. Também as cartas de Trindade Coelho dirigidas por este escritor à docente  alemã da universidade de Hamburgo, Louise Ey, que me foram enviadas de Hamburgo para Londres pela Dra. Fátima Brauer, daquela mesma universidade,  salvando-as, no último minuto,  de serem varridas para o lixo pelo pessoal da limpeza, foram por mim imediatamente remetidas para a Biblioteca Nacional, onde actualmente se encontram (foram recentemente publicadas). Segue-se o meu texto, publicado na Revista da Biblioteca Nacional:
 
Em Maio de 1978 fui colocado na Embaixada de Portugal em Londres, como Conselheiro Cultural. E, dois ou três anos depois, numa vinda a Lisboa, em férias, fui contactado pelo João Palma-Ferreira, então director da Biblioteca Nacional: queria alertar-me para a existência, em Inglaterra, do espólio do antigo diplomata, homem de letras e companheiro de geração de Eça de Queirós e Antero de Quental, Jaime batalha Reis. De facto, no seu périplo de diplomata, Batalha Reis residira largos anos no país de Dickens e chegara a ser eleito fellow da Royal Geographical Society. Os seus papéis estariam, naquela altura, entregues a um sobrinho-neto do diplomata, James Cinatti Burrell, a viver algures para os lados de Portsmouth, no sul de Inglaterra.
Os espólios (literários e outros) constituem quase sempre um enfadonho quebra-cabeças para os herdeiros e para os eventuais necessitados de a eles terem acesso. No processo – frequentemente kafkiano – muito se perde ou se destrói, por suspeição, por ressentimento, por inveja, por desleixo, por pudor, por provincianismo e até por pura ganância. Não, como se vai ver, no caso vertente. Aqui, o problema parecia, desde logo, ser outro. Onde localizar o detentor do espólio? Palma-Ferreira deu-me um palpite pouco auspicioso: o poeta Rui Cinatti, relacionado  com James Burrell, pelo lado dos Cinatti (a que pertencia a mulher de Batalha), teria, algures, entre os seus desarrumadíssimos papéis, o endereço de Burrell [solicitador algures para os lados de Portsmouth]. Desanimado, procurei o poeta: mostrou a melhor boa vontade do mundo e lembrava-se de ter o endereço entre as páginas de um livro qualquer. Prometeu procurá-lo e enviar-mo para Londres… Parti, mais ou menos convencido de que teria que seguir outras vias de pesquisa. Encontrar um papel entre as páginas de um livro entre desarrumados milhares deles… Mais valia nem pensar nisso. Todavia, para meu espanto e alegria, não muitos dias depois do meu regresso a Londres, recebi uma carta  [de Cinatti]com o endereço de James Cinatti Burrell:
 
11, Lower Quay Close
Fareham
Hants. PO 16 ORD
 
Tendo entrado em contacto com Burrell – cujo telefone obtive, a partir do seu nome e endereço – combinei com ele ir visitá-lo, para ver e receber o desejado espólio. Na data combinada, meti-me no meu carro e dirigi-me a casa do sobrinho de Beatriz Batalha Reis, no endereço que me fora facultado pelo co-fundador e co-director dos Cadernos de Poesia. O espólio que me foi mostrado continha-se todo no interior de uma daquelas enormes caixas de chapéus que se usavam em viagem no século  XIX [e, provavelmente, no começo do século XX]: cartas (entre outras, de Eça de Queirós), manuscritos (um tratado de estética, copiado com letra amorosamente desenhada), etc. E, fixada no tampo, cópia de uma carta que, em tempos, Beatriz Batalha Reis (filha do diplomata) dirigira ao nosso Ministério da Educação, oferecendo o espólio do pai. A carta, como não é difícil de imaginar, ficara sem resposta [assim mo disse Burrell]. Alguém em cuja secretária a missiva desaguara não sabia, talvez, quem era aquele «emigrante» cuja papelada sem valor a filha queria impingir… Entre os papéis, escrito em pequenas agendas e cintas de pacotes de jornais, o diário – interessantíssimo e até empolgante – que Beatriz Batalha Reis mantivera durante o período da revolução de 1917, em que Batalha Reis estivera como chefe de missão em S. Petersburgo.
Imediatamente me ofereci para ali voltar, acompanhado do nosso embaixador, Freitas Cruz, e levar a caixa para a embaixada – o que foi feito, alguns dias depois. Mas havia mais: pendurado numa das paredes de uma saleta sombria, um magnífico retrato de Batalha Reis por Columbano. Perguntei a James Burrell, que me parecia um «bom herdeiro, isto é, não ganancioso e mostrando um genuíno afecto e nostalgia por aqueles seus antepassados (e, muito em particular, pela sua tia Beatriz), se aceitaria vender o retrato de Batalha Reis ao Estado Português, mantendo o seu usufruto, enquanto vivo. Disse logo que sim e disse ainda que não iria pedir muito dinheiro, tal a satisfação que lhe dava saber que a obra de arte iria para o melhor destino possível. Escrevi, imediatamente, de regresso a Londres, uma informação de serviço, com a proposta de aquisição do quadro de Columbano e um ofício de cobertura assinado pelo Embaixador, que aderira, com entusiasmo, à ideia. A resposta ao ofício…ainda não chegou (isto é, não tinha chegado, até à minha saída de Londres, em Maio de 1995). Não sei se James Burrell é ainda vivo. E muito menos sei onde se encontra o belo quadro de Columbano. Ainda comigo em Londres, o retrato do companheiro de Eça esteve em exposição na Biblioteca Nacional por cortesia de Burrell e com o apoio logístico da embaixada, em Londres. O interessantíssimo diário de Beatriz Batalha Reis – a única parte do espólio que Burrell não doava à Biblioteca Nacional, pois queria ficar com ele – foi emprestado a Freitas Cruz, que o queria ler e estudar e o levou consigo para Madrid, onde foi colocado como chefe de missão. Tive o cuidado de verificar que o fazia com a anuência de Burrell. Freitas Cruz viria a falecer num acidente de automóvel, não muito depois da sua chegada a Madrid. Fiquei, naturalmente, inquieto com o destino do diário, o que me levou, antes de sair de Londres, a telefonar a Burrell, que me sossegou, dizendo que recuperara os apontamentos da tia.
Esta «novela exemplar» ilustra, por mais de um lado, o nosso desleixo patrimonial: o espólio de uma importante figura da famosa «geração de 70» é oferecido (sem contrapartida) ao Estado Português, nos anos 60 (se a memória me não falha, em 1964). Quase 20 anos depois, ainda não havia resposta. Até para receber nos fazemos caros! Por outro lado, um dos mais belos quadros de Columbano, retratando a figura do companheiro de Eça e Antero, poderia fazer hoje parte do nosso património cultural, a preço não muito elevado. Não foi julgado conveniente…responder sim ou não! (…)”
Eugénio Lisboa, in Acta Est Fabula, Memórias- IV - Peregrinação: Joanesburgo. Paris.. Estocolmo. Londres. (1976-1995), Editora Opera Omnia, Outubro de 2014, pp.443 -446

domingo, 3 de setembro de 2023

Cantiguinha de Escárnio e Maldizer

 

Cantiguinha de Escárnio e Maldizer
 
Quanto mais vivo, mais convencido fico de que este planeta
 é usado por outros planetas como um asilo de alienados.
                       George Bernard Shaw
                                  
Neste enorme asilo de lunáticos,
que é este planeta onde vivo,
onde se dá palco aos mediáticos,
sem nunca serem passados ao crivo,
 
onde as luzes são para os fanáticos,
sempre enormemente assertivos,
mesmo que sejam brutalmente asnáticos,
aldrabões e muito rebarbativos,
 
neste globo insano, irei morrer,
eu e mais alguns, sem culpa nenhuma,
a quem aconteceu aqui nascer
 
e aqui viver, como quem arruma
depressa a trouxa, para poder partir
desta bagunça que nem dá pra rir!
                                03.09.2023
Eugénio Lisboa

Ao Domingo Há Música

  

Creio que foi o sorriso,
O sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
              Eugénio de Andrade

Não sei se foi o sorriso quem abriu a porta  . Creio que foi a voz quem chamou o  sorriso. E,  através dela, se foi ficando , descobrindo, sonhando, num sorriso cheio de luz. 
E  é nisso  que reside a beleza dos sons. E é nisso  que apetece ficar, sem prazo, sem tempo, num encantamento  sem fim. 

Andra Day, em Rise Up,  (Live in KUTX Studio 1A).

   
Andrea Lykke Oehlenschlæger,  numa excelente interpretação de  Stand Up (de Harriet), composição de Cynthia Erivo, Gave Fox-Peck & Joshua Brian Campbell, acompanhada pela Danish National Symphony Orchestra ,  sob a direcção do Maestro Ludwig Wicki.
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sábado, 2 de setembro de 2023

Sesimbra

Sesimbra antiga

Sesimbra antiga
Sesimbra
por Raul Brandão
              
  Fevereiro -  1923

“Naquela manhã de Maio, na minha casa, a luz entrava por todas as janelas e não deixava margem para dúvidas: nessa manhã de Primavera, o sol lutava contra as nuvens que teimavam em aparecer aqui e ali, o vento ia soprando baixinho, e o mar da Baía, esse, nem mexia. Tudo estava como devia estar.
A vila aconchegada no regaço dos montes que a amparam e desce-lhes até aos pés — até ao grande areal exposto ao sul, que a ponta do forte Cavalo limita à direita, e o morro do Aguincho, acabando em focinho desmedido e brutal, limita à esquerda. A esta hora, seis da tarde, um está reduzido a sombra espessa, e o outro escorre ainda o vermelho do último sol. Um grande forte de Lippe, raso com o mar, ao meio da praia cheia de barcos encalhados e de rebuliço humano. Casas pobres, casas lacustres, armazéns, redes a secar nos varais. Anoitece, mas a vida não cessa. O peixe das caçadas é arrematado à noite, quando os barcos regressam da pesca. Pelo areal fora, em quatro ou cinco fiadas paralelas, cada caçada expõe o seu peixe, que reluz ao luar com um tom de prata antiga — gorazes a um lado, e pescada, chernes a outro, todos em quatro, cinco filas alinhadas, e o grupo de regatões à roda a disputá-los ao clarão dos archotes.
(…)São mais de quinhentas as embarcações varadas no areal — barcas, botes e aialas, e além destas o batel com uma trave saliente na proa, o gavete, que serve para levantar a testa da armação.
O pescador de Sesimbra, que vai às vezes muito longe, não conhece a agulha de marear. Regula-se pelas estrelas e pela malha encarnada da serra. Lá fora, quando veem o cabo ao nível de água, dizem que estão no mar do cabo raso, e, quando o farol desaparece, estão no mar do cabo feito. Conhecem a costa a palmo: o mar novo, que dá o peixe-espada, o mar da regueira, que dá a pescada, o mar da cornaca, que dá o goraz e o cachucho, e o do rapapoitas, que dá os grandes pargos, conhecidos por pargos de morro.
(…) Seis horas da manhã. Noite de luar claro e frio. Desço a rua ainda tonto de sono. Ao longe o moço chama: — Ó tio Julião, vamos embora… pra-a loja!… — Muitos homens dormem na barraca onde se guardam os apetrechos das artes. Entro. Uma luzinha fumega. Redes, remos, cabos, pedaços de velas, e sombras, tudo misturado. Remexem vultos no escuro. Sobre a tarimba mal distingo farrapos de homens deitados.
— Vá lá! Vá lá!… — diz o arrais.
Erguem-se, juntam-se e o grande barco começa a deslizar nos panais. Salto dentro e encolho-me ao pé do moço, na caverna. É noite, noite de lua redonda e gelada. Os homens remam em cadência e o panorama vai saindo do escuro à medida que o barco se afasta, todo em sombras empastadas e enormes, cortadas a pique, que se destacam pouco e pouco umas das outras em fantasmas de penedos, em morros salientes com buracos metidos lá dentro… Ao cimo da água, dum azul quase negro, escorre o luar em tremulina. São mil fios de luz que estremecem ao mesmo tempo…
Sete horas. Lua ainda muito alta aspergindo a terra de pó branco. O barco abriga-se do noroeste junto à costa, ao pé dum grande penedo donde se levanta uma revoada de corvos assustados. Ao nascente, sob a estrela de alva, distingue-se uma nódoa rosa. O moço vai dizendo o nome de todas as pedras e explica:
— Aqui estamos abrigados da lapeirada do vento…
Noto que a luz já não é a mesma. Não é a claridade do dia, é ainda o luar. Mas o pó branco sensibilizou-se e estremece.
— Vamos lá! Vamos lá às artes!
Os homens remam numa cantilena monótona: — Rema! Rema! Ceia agora!…
Ergo-me e vejo o mar coberto de embarcações iluminadas pelo fogaréu dos archotes. São as artes, que esperam o nascer do sol para o lanço; são as armações que começam a alar a rede: — Rema! Rema!… — Avermelha e alastra a mancha do nascente…
Momento único. Momento em que o branco desmaia e em que a luz do luar e a luz do sol se entranham e misturam. O grande manto branco escorre sobre as águas e já o nascente lhe ilumina a esteira mágica, que estremece toda. Olho para o céu: no céu, azul às enxurradas, lavando-o do luar. Aumenta e alastra a claridade. A lua teima, caem jorros brancos que não cessam, mas o nascente, num triunfo, enche tudo de luz. Os grandes morros emergem da tinta azul como colossos ensanguentados.
Mais fragas além -  toda a costa recortada. Cabos enormes e maciços, e ao longe o Pombeiro entrando de rompante pela água dentro. Panorama a vermelho. O sol escorre sobre as palhetas do grande manto branco, que vibram como se fossem levantar voo. E todo esse luar magnético e branco, ao mesmo tempo que estremece e reluz, doira. Doira um instante e morre…
É quase dia. Sobre o nascente duas nuvenzinhas como véus. Já distingo as silhuetas dos homens alando as artes contra a luz. Dois barcos puxam a rede e juntam-se à medida que se aproximam do saco.
— Leva arriba! Leva arriba!
— Agora! Agora!
O saco está à borda. Veem-se as bolhas cobrindo a superfície da água: o gorgolhido. A sardinha não tarda a vir com a cabeça ao de cima. Já os homens começam a tirá-la para dentro dos barcos com as xalavaras.
— É pouca…
— É uma teca — diz o moço, designando a pequena porção de peixe.
Sete e meia. É dia claro. Ao pé de mim mergulham dois patos pequenos de dorso escuro e peito branco, dois macorrilhões, e um roaz salta fora da rede. Os primeiros raios de sol batem em cheio em Sesimbra apinhada à beira- -mar.
— Vamos agora ao calhau.
É a armação valenciana, de que se veem as grandes boias de cortiça ao lume de água — construção complicada que se compõe de corpo, rabeira e legítima. O corpo compreende a câmara, o bucho e o copo, trapézios mais ou menos regulares, fechados por redes verticais que vão da superfície até ao fundo. A rabeira vem da terra até à boca da armação, de maneira que a sardinha, encontrando-a, caminha até à boca do copo, onde se mete.
Quando chego, já os homens, de avental de oleado, puxam o copo para a borda dos barcos, apertando pouco e pouco o cerco.
— Ou! Ou!
— Leva arriba! Leva arriba!
O movimento dos braços acentua-se. Curvam-se, agarram a rede, erguem-na até si.
O barco, cheio de água, adorna.
— Ou! Ou! Vai! Vai!…
Estamos quase à testa do copo e a rede metida no meio dos barcos. A sardinha salta. Mergulham as grandes xalavaras encabadas num pau dentro do saco, tirando-as cheias de vida.
— Venha de lá uma caldeirada!
Vamos regressar. A vaga estoira na areia.
O mar está corso. — À terra! À terra! À espia! — grita a companha. Aproximamo-nos. Agarram-se a um cabo fixo no mar e vão-no puxando a si: o barco corre direito à maresia. É o momento dramático: a onda apanha-o, impele-o, salpica-nos de espuma e atira-nos pela areia acima…”
Raul Brandão, in “Os Pescadores”, Publicações Europa-América, pp.128-132 

Sobre o livro:
Raul Brandão publicou este extraordinário registo de uma viagem pelo seu país, há cem anos.
Um livro em que cada página é uma tela do que se lhe vai descortinando ao longo do litoral português . Um hino  à costa portuguesa. 
Do Norte ao Sul , do Minho ao Algarve,  “esta nossa terra portuguesa vai pela costa fora sempre de braços abertos para o mar, estreitando-o amorosamente contra si”.
Traça  em magníficas  telas ricas de cor, de luz, os vários elementos colhidos na natureza. Desde o nascer do sol ao entardecer, nas suas várias cambiantes, conforme o lugar e o tempo.  
Além de  quadros paisagísticos, também  oferece sugestivos retratos – o do faroleiro, a velha da Foz do Douro, a sanjoaneira, a mulher da Afurada, de Mira “feia mas esbelta (que) tem ar grave e senhoril quase sempre”, a heroica Ti Ana Arneira da Gafanha, a mulher da Murtosa “baixa e atarracada”, a de Ovar “delicada e forte, alta e bem proporcionada, cheia de predicados domésticos e morais”, a poveira “a bem dizer – um homem”, a Rata da Foz. É evidente a simpatia de Raul Brandão pela sua dolorosa vida difícil, de trabalho, de explorados.
Essa  circunstância , a das mulheres que perdem os seus homens, maridos e filhos, para o mar, mas que continuam vivas e a viver desse mesmo mar que lhes roubou os seus, percorre todo este livro. Assim foi , com  a própria avó do autor, viúva aos 20 anos.
O livro é dedicado “ à memória do seu avô , morto no mar, nado e criado na Foz do Douro".

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

De Política conversemos um pouco

 

De Política conversemos um pouco
por Eugénio Lisboa
 
Os políticos são iguais em todo o lado. Prometem fazer uma ponte, 
 mesmo não havendo rio.
Nikita Krushev
 
“A leitura da nossa comunicação social pode ser muito elucidativa, nem sempre no melhor sentido. A normalidade de tom com que se fala de certas futuras candidaturas à Presidência da República, como se se tratasse de candidatos perfeitamente elegíveis, de gente competente, de uma seriedade à prova de bala, tendo dado provas de grande capacidade e eficácia, nos cargos públicos que antes desempenharam, deixa-me, a um tempo, perplexo e inquieto.
Um exemplo disso é o caso de Santana Lopes, que me faz lembrar aqueles bonecos “sempre em pé”: podemos deitá-los, que eles acabam sempre por se levantar. Mas, entre nós, ao contrário do que acontece em países com democracias amadurecidas, não existe a “morte política”. Um político, mesmo metido nas maiores trapalhadas, mesmo sendo um balão de ar, sem qualquer substância, nunca morre definitivamente para a vida política. Ele aposta – e com razão – na falta de memória dos eleitores. O infame Richard Nixon observava, com um saber de experiências feito, que os eleitores esquecem depressa o que um homem diz.
Santana Lopes foi um péssimo Secretário de Estado da Cultura que, de grande, tinha só o seu incomensurável ego e que, com a cultura, pouca ou nenhuma sintonia tinha. Foi um calamitoso Primeiro Ministro, a quem Sampaio deu relutantemente posse, de costas voltadas para ele, tendo acabado por demiti-lo, por indecente e má figura.
Como Presidente da Câmara é o que se sabe: basta falar-se com tantos que para ele trabalharam ou trabalham.
Há quem o ache um “grande orador”, o que só pode vir de pessoas que nunca ouviram um verdadeiro orador: Santana tem uma voz bem colocada e muita proa, mas em nada domina os segredos de uma verdadeira arte da oratória e o que diz não passa quase nunca de uma mão cheia de nada, outra, de coisa nenhuma. É um homem sem cultura, sem cultura política, sem capacidade de gestão e com uma autoestima de dimensões assustadoras. Está sempre mais preocupado consigo do que com o país. Não tem mundo, não tem a mais pequena noção do que se não pode fazer e não o vejo, nem de longe, capaz de respeitar e fazer respeitar a constituição.
Ora tudo isto não impede muita comunicação social de responsabilidade de o considerar um óbvio possível candidato, precisamente para o cargo para que não está minimamente qualificado. Pelo contrário, trata-se do cargo a que nunca deveria aspirar, se tivesse o mais pequenino sentido de autocrítica, coisa que nunca acontece às pessoas de autoestima exageradamente desfocada.
Infelizmente, Santana Lopes está longe de estar sozinho, quando se trata de não ser capaz de pôr sempre o interesse do país acima de quaisquer outros. Basta ver a calamitosa incapacidade de os partidos ditos do “arco da governação” fazerem os tão necessários “pactos de regime”, de que o desenvolvimento e estabilidade do país tanto necessitam. O grande escritor americano Gore Vidal, que conhecia a política americana, como poucos, dizia isto, que se aplica como uma luva aos políticos lusíadas: “Há sempre demasiados congressistas Democratas, há sempre demasiados congressistas Republicanos e não há nunca suficientes congressistas americanos.” Traduza-se para Portugal e dá certo.”
Eugénio Lisboa, em 31.08.2023