quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

À La Recherche du Temps Perdu II

O verão era de sol violento,
mas hesitava-se entre sol e chuva.
O mundo nascia naquele momento,
feito, para nós, como uma luva.
 
Emigrados do palmar para a praia,
o mar imenso a nosso comando!
Afrontando aquele líquido Himalaia,
éramos, ali, quero-posso-e-mando.
 
Alguém mais, já viu o mundo nascer,
naquele paraíso vegetal?
Era um Big-Bang a acontecer,
 
um começar de tudo, auroral!
Do palmar à praia, dava-se um salto,
e era tudo um imenso sobressalto!
                             30.11.2022
Eugénio Lisboa

Sofrer e morrer por um ideal

Adaptação ao cinema de “As Vinhas da Ira” por John Ford , 1940.

“Porque o homem, ao contrário de qualquer coisa orgânica ou inorgânica do universo, cresce para além de seu trabalho, galga os degraus de suas próprias ideias, emerge acima das próprias realizações. É isto o que se pode dizer a respeito do homem. Quando teorias mudam e caem por terra, quando escolas filosóficas, quando caminhos estreitos e obscuros das concepções nacionais, religiosas, económicas  se alargam e se desintegram, o homem  arrasta –se para diante, sempre para a frente, muitas vezes cheio de dores, muitas vezes pelo caminho errado. Tendo dado um passo à frente, pode voltar atrás, mas não mais que meio passo, nunca o passo todo que já deu. Isto se pode dizer do homem, dizer-se e saber-se. Isto se constata quando as bombas caem dos aviões negros sobre a praça do mercado, quando prisioneiros são tratados como porcos imundos, e os corpos esmagados se consomem imundos na poeira. Pode ser constatado desta forma. Não tivesse sido dado esse passo, não estivesse vivo no pensamento o desejo de avançar sempre, essas bombas jamais cairiam e nenhum pescoço seria jamais cortado. Tenha-se medo de quando as bombas não mais caem, enquanto os bombardeiros ainda existam, pois que cada bomba é uma demonstração de que o espírito não morreu ainda. E tenha-se medo de quando as greves cessam, enquanto os grandes proprietários estão vivos, pois cada greve vencida é uma prova de que um passo está sendo dado. E isto  pode saber-se — tenha-se medo da hora em que o homem não mais queira sofrer e morrer por um ideal, pois que esta é a qualidade básica da humanidade, é a que a distingue entre tudo no universo.”
"As vinhas da Ira", com Henry Fonda, Jane Darwell, John Carradine

” – Olha, mãe… Tenho passado os dias e as noites sozinho, aqui escondido. Sabe em quem eu tenho me entretido a pensar? No Casy! Ele falava muito. Ás vezes aborrecia-me. Mas agora tenho pensado e repensado no que ele dizia.  E lembro-me, lembro-me bem de tudo. Ele disse que uma vez tinha ido para o mato , à procura da própria alma, e que, por fim, descobrira que não tinha uma alma que fosse só dele. Disse que tinha unicamente uma  pequena parte de uma alma enorme. E ele achava que não servia de nada andar em lugares desertos, porque aí, a tal pequena alma que ele tinha já não servia de nada. Só tinha utilidade quando estava junto às outras, com as quais formava um todo. É engraçado como me lembro de tudo isso ! E, no entanto, tinha nessa altura a impressão de que mal o ouvia… Mas, agora, sei que um indivíduo solitário não tem préstimo nenhum.
– Era um bom homem, Casy. – Comentou a mãe.
Tom continuou:
– Um dia ele citou-me um trecho das escrituras, mas que nem parecia de lá. Disse-me duas vezes e eu decorei. Dizia que era do livro do pregador.
– E como é, Tom?
– [Dois valem mais que um, porque ambos terão recompensa melhor pelo seu trabalho. E, se um cair, o outro erguerá o companheiro. Mas, aí do que estiver só, pois quando cair não haverá ninguém junto de si que se prontifique a levantá-lo] . Isso é só um pedaço.
– Continua – pediu a mãe. – Continua, Tom.
–  É só mais um pedacinho. [ E, se dois se deitarem juntos, aquecerão. Mas como se aquecerá o homem solitário? E, se um qualquer o pretende dominar, serão dois a resistir e uma corda reforçada se parte com mais dificuldade.]
– E isso é das Escrituras?
– Casy assim disse. Chamava-lhe o livro do pregador.
– Shiu.. Escuta!
– É o vento, mãe. É o vento, que eu bem sei.  E deu-me cá a pensar, mãe. Uma grande parte dos sermões é a respeito dos pobres e da pobreza. Se a gente nada possuir, que junte as mãos e não pense mais em coisa nenhuma, que no céu nos darão sorvetes em pratos de ouro. E o tal livro do pregador diz que dois são melhor compensados pelo seu trabalho.
– Tom- perguntou a mãe – o que pretendes fazer?
A resposta dele demorou um bom bocado,
– Estive pensando em como eram as coisas naquele acampamento do governo. Em como as pessoas sabiam resolver seus assuntos. Se havia uma desordem, eles lá apaziguavam tudo. E não havia policiais ameaçando as pessoas com revólveres na mão, e , apesar disso,  via-se por lá mais ordem e sossego do que se por lá andasse a polícia.  E tenho pensado em por que razão o mesmo não se dá em outros lugares. Corram com os policiais, que não são gente da nossa. Deveríamos trabalhar todos para o bem comum. Deveríamos cultivar a nossa própria terra.
– Tom – repetiu a mãe – que pretendes tu fazer?
–  O que fez Casy.
Foi a resposta.
–  Mas deram cabo dele.
– Pois deram – concordou Tom – porque ele não soube safar-se a tempo.  Ele não esteve a fazer nada que fosse contra a lei. Mãe, tenho pensado um bom bocado na nossa gente, que vive como os porcos, enquanto se deixa por aí destratada uma terra excelente, enquanto há sujeitos com um milhão de hectares, perto de cem mil fazendeiros bons que vivem a estalar de fome. E pus-me cá a matutar que se nós nos uníssemos todos, e nos puséssemos a gritar como aqueles fulanos do Rancho Hopper…
– Tom, eles vão te perseguir e encurralar como fizeram àquele rapazinho, ao Floyd.- Disse a mãe.
–  Eles hão de perseguir-me de qualquer maneira. Perseguem todas as criaturas como nós.
– Mas tu não estás com ideias de matar ninguém,  não, Tom?
– Não. Estive simplesmente a pensar que uma vez que já estou fora da lei poderia…Que diabo, mãe. Ainda não sinto as ideias bem claras dentro de mim! Agora não me atormente, mãe!  Não me atormente!
Permaneceram sentados, sem falar, na cavidade negra formada pelas videiras. Depois a mãe continuou.
– Mas como eu hei de ter notícias tuas? Podem matar-te, que eu nem sequer virei a saber. Podem  ferir-te e maltratar. E eu sem saber de nada!
Tom riu, com certo embaraço.
– Bem, talvez o Casy tenha acertado quando disse que uma pessoa não possuía uma alma própria, mas apenas uma pequena parte de uma grande alma… E então…
– Então O QUÊ, Tom?
– Então nesse  caso todas as coisas deixam de ter importância. Eu estarei em qualquer lugar, na escuridão.  Estarei em todas as partes, em qualquer lugar para onde a senhora possa olhar. Onde quer que haja uma luta para que pessoas com fome possam comer. Eu estarei lá. Onde quer que a polícia esteja a bater numa pessoa, eu estarei presente. Imagina se o Casy soubesse disso! Estarei  em qualquer lugar em que se veja criaturas gritarem de raiva.  E estarei onde as crianças sorriem, porque têm fome mas sabem que a comida  não demora;. E quando nosso povo comer aquilo que tiver plantado, e morar nas casas que tiver construído, então também eu estarei presente. Consegue ver? Olha que eu já  estou a falar como o Casy. Isso é de tantas vezes pensar nele. Há ocasiões em que me parece que o estou  a  ver.”
John Steinbeck, in As Vinhas da Ira, ( Prémio Pulitzer), Livros do Brasil, Lisboa.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Recomendações para a estação chuvosa


Recomendações para a estação chuvosa,
da minha amiga Roberta Fox

 
A minha querida amiga Roberta,
também Fox, mas não, de todo, raposa,
que tem uma mentalidade aberta,
recomenda, nesta estação chuvosa,
 
que nos recolhamos, quentes, em casa,
rodeando-nos de livros e gatos:
enquanto, lá fora, a chuva arrasa,
os livros entretêm os pacatos
 
e os gatos fazem, de todos nós,
activos e alegres serviçais
deles, não nos deixando, nunca, sós!
 
Aprendemos coisas essenciais,
ao manipularmos livros e gatos:
uns e outros não fazem desacatos!
                                    14.12.2022
Eugénio Lisboa

Roberta Fox é actriz, intérprete e radiosamente bela. Tem tudo, incluindo uma grande cultura e um fino sentido de humor. É de Cape Town, onde vive, que nos envia este sábio conselho.

A actualidade em cartoon

Qatargate
Le vignette di Italia Oggi

Qatar World Cup 2022 Scandal
Enrico Bertuccioli, Italia
Qatargate 
Paolo Lombardi, Italia
Le vignette di Italia Oggi

Elephant gun
Glen Le Lievre, Australia
Me the Trump,
Leopold Maurer, Áustria
Trump's Candidacy for 2024
Marian Kamensky, Áustria

Populism
Thiago Lucas, Brasil

Putin Santa
Ramses, Suíça

Putin bombs Poland
Ramses, Suíça

Fascist  Christmas Terror
Marian Kamensky, Áustria
Mariah Kamensky, Áustria

New dictator, China's zero covid
Agus Widodo, Indonésia

Iran abolish morality police?
Stellina Chen, Taiwan

Plop&Kankr, França

Merry Christmas, Ukraine!
Marian Kamensky, Áustria



Chapatte, Le Monde
Made in China,
Chappatte, Le Temps, Genève.

La baguette de pain consagrada pela UNESCO,
Chappatte, Canard Enchainé

Água pelos cotovelos,
Henricartoon.

O composto,
Henricartoon.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Começar a perguntar

Lá muito ao longe, o mar acabava
e, se o planeta era esférico,
queria dizer que o mar se entornava,
para lá do horizonte, homérico,
 
caindo todo, como uma cascata!
Assim, secretamente, eu pensava,
achando a geografia muito chata,
porque, coitada, não congeminava
 
em todas as coisas que eu ruminava!
Mas eu não tinha resposta pra tudo:
se, por outro lado, o mar se entornava,
 
para onde ia cair o seu conteúdo?
Dúvidas terríveis pra um miúdo,
metido a sério em coisas de estudo!
                              13.12.2022
Eugénio Lisboa 

O medo que tolhe a liberdade

"A gente habitua-se à noite, tanto quanto os pássaros acabam por habituar-se a viver nas gaiolas suspensas das empenas. Se acontece de alguém erradamente os soltar, conhecem apenas a tristeza de umas asas sem préstimo. Perderam o sentido da orientação. Não sabem que as árvores servem para nelas pousarem. Remam no ar, contra o vento, embatem em obstáculos súbitos e inevitáveis. Desconhecem um mundo e recusam-se a aprendê-lo de novo. Cheios do tédio do infinito, permanecem atónitos e dificilmente escapam às doenças que existem só nos desertos. Se os não voltam a fechar nas gaiolas, morrem facilmente, perdidos da alegria. E já não têm idade. E nada sabem a respeito dos outros pássaros de voo largo e horizontal que, sendo livres, pousam tão devagar na alegria. Até medo lhes ganham. Afigura-se-lhes que os objectos que eles se tinham habituado a olhar à distância, por detrás da sua prisão de canas fictícias, estão agora para os devorar.”
João de Melo, in A Divina Miséria de Entre Pássaro e Anjo , Publicações  Dom Quixote, 1987, p.157 
Este livro de contos foi galardoado com os  prémios literários Grande Prémio do Romance e da Novela da APE, Prémio Fernando Namora, Prémio Eça de Queiroz e Prémio Antena Um.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Descobrir a leitura

 
Os livros que lemos na adolescência
marcam-nos para toda a vida:
devoramo-los com grande envolvência,
com fome saciada e repetida.
 
A magia de Wilde e de Voltaire,
a ferina ironia de France,
a paixão atrevida de Jane Eyre
e Stendhal, esse mago do romance!
 
Tantas e tão duráveis descobertas!
O fundo, fundo da tragédia grega
e o O’Neill que, escancarava, abertas,
 
as paisagens da humana refrega!
Foi um mergulho intenso e muito fundo
no que constitui este nosso mundo!
                                    12.12.2022
Eugénio Lisboa

Com Poesia e Música


O Poeta e o seu Poema

Um poema é uma pedra no caminho?
Ou é só um fulgor que logo passa?
Apagar-se-á ele devagarinho?
Será só breve momento de graça?

Porém, o poeta que o escreve
julga sempre apostar na eternidade:
por mais que o poema seja breve,
há no poeta, sempre, veleidade.

O poema dura só o que dura
e dá-nos apenas a luz que tem.
Não pode ir além da sua altura

e a humildade fica-lhe tão bem!
Mas o poeta ama-o, como filho,
e vê nele, portanto, eterno brilho!
                       06.12.2022
Eugénio Lisboa

Um regresso prometido pela ponte que nos trouxe a casa. Ao longe, ficou mundo . Um mundo sempre surpreendente de tanta beleza a descobrir. Por vezes, o homem teima em tingi-lo e dar-lhe cores  que não lhe são afins.  
Há poetas que sabem, com primor e talento,  dar às palavras a  singular e rara beleza, o eterno brilho, que se pode conjugar com a magia dos sons de um grande concerto.
Eis a poesia de Eugénio Lisboa e a música de  Rachmaninov ,  em jeito de saudação a todos os que nos esperaram.

 
De Rachmaninov , Concerto para Piano e Orquestra nº 3, por Martha Argerich ao piano e Orquestra Sinfónica da Rádio de Berlim, sob a direcção do Maestro Riccardo Chailly.

O Concerto para Piano e Orquestra nº 3 foi composto por Rachmaninov em Dresden, em 1909, e estreado em Nova York no mesmo ano. Rachmaninov tinha especial predilecção pela segunda apresentação da obra, que aconteceu em Janeiro de 1910, tendo Gustav Mahler como maestro. Mahler ensaiou o Concerto até à perfeição. O último ensaio deveria terminar à 12h30, mas estendeu-o para além do horário, sem protestos dos músicos da Filarmónica de Nova York.
O pianista Joseph Hofmann, a quem o Concerto nº 3 foi dedicado, nunca o tocou em público, dizendo, “isto não é para mim”.