quarta-feira, 9 de novembro de 2022

O irresistível perguntar

O que é ter nascido? Quem sou eu?
Porquê eu? Será uma lotaria?
Será que tudo isto aconteceu,
sem que houvesse qualquer harmonia?
 
Será o nascer uma fantasia,
um acaso desastrado, sem rumo,
que às vezes sai certo, quem diria,
sem qualquer destino, se bem presumo?
 
É tudo isto tão surpreendente
e tão despido de qualquer sentido!
Por que, de repente, vimos, ardente,
 
o sol, um corpo belo, apetecido,
o mar, a montanha, a lua cheia…?
Será tudo isto só uma ideia?
                         09.11.2022
Eugénio Lisboa

No Centenário de Reinaldo Ferreira


Mais Poemas de Reinaldo Ferreira

I
Na tarde erramos
Nós, tu e eu,
Mas três.
Tão sós que vamos
E não sou eu
Quem vês.
 
Discreto calo,
P’ra que o meu senso
Louves;
Em vão não falo,
Tanto o que eu penso
Ouves.
 
Melhor me fora
Que a outro assim
Levasses
E, longe embora,
Somente em mim
Pensasses.
 
ALGUNS “POEMAS DO BATAL E DA PAIXÃO DE CRISTO”
I
OS PROFETAS
Assombra, esta verdade que trazemos.
Aterra, a nitidez com que falamos.
Mas nós, mais do que vós, nos aterramos
Da certeza que temos.
Porque há distâncias que ninguém transpôs
E predizer é ser no tempo – Aquém.
Correm palavras como um rio, em nós:
A verdade é Belém.
 
II
VISITAÇÃO
 
Que é do anjo das asas rutilantes
Com que lutou Jacob, na madrugada?
Que é desse outro, das falas sussurrantes,
Que surgiu a Maria, a fecundada,
 
Tão casta e sem pecado como dantes?
Que é da estrela, pela mão de Deus lançada
A guiar os incertos caminhantes
Ao colmo da cabana consagrada?
 
Onde estão os sinais que Deus envia?
Onde estão, que os procuro noite e dia
Sem nunca ver cumprido o meu desejo?
 
Não os vejo e não sei se eu, que os procuro,
Os não encontro porque sou impuro,
Ou sou impuro porque os não vejo.
 
III
CANÇÃO DO PASTOR PERDIDO
 
Ia eu p’ra Belém
Com oferendas também
Por Babel me passava;
E, passando, hesitei,
Hesitando, parei
E, parando, ficava.
 
Mas nem lavas, nem lodos,
Nem os répteis todos
Da Paixão e do Mal
Terão força que possa
Afundar-me na fossa
Do Juízo final.
 
Outro dia, trarei a LP, mais uma pequena colheita da seara deste grande poeta.
Eugénio Lisboa
, 27.10.2022

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Os que vão morrer e os que vão viver

                   Claude Monet, Soleil couchant sur la Seine à Lavacourt.
                        
            Os que vão morrer
                          e
             Os que vão viver


O sol, dentro de mim, fez-se tão raro,
nem eu sei porquê! Fiz-lhe algum mal?
Ou desistiu de mim? Torna-se claro
que, afinal, é tristemente normal

que o sol se vá de mim afastando:
os que vão desaparecer repelem
- e são leis que nos foram ensinando –
os sóis que a outras vidas se atrelem.

Os que se apagam perdem vigor
e essa perda torna-se sinal
de que já os desertou o fervor.

Ir morrer parece que só faz mal
aos que ficam e não querem saber
nada, mas nada, dos que vão morrer.
                            08.11.2022
Eugénio Lisboa

Novos sons de Bruce Springsteen

 Yeah, c’mon let’s get the band on

Don't play that song for me
Though it brings back sweet memories
Of the days that I once knew
Of the days I spent with you

Oh no, don't you let it play
It fills my heart with pain
Please, stop it right away
'Cause I remember just what it’d say

Well, it said (darlin' I love you)
Oh, you know that you lied (darlin’ I love you)
Oh, you know that you lied (darlin’ I love you)
Darlin’, you know that you lied (you lied)
You lied (you lied)
You lied, lied, lied, lied
 
I remember on our first date
You kissed me then you walked away
You were only seventeen
I never thought you’d act so mean
 
But you told me that you loved me
And you told me that you cared
You said you'd go with me darlin’
Oh, anytime anywhere
 
But, darlin’ you lied (darlin’ I love you)
Oh, darlin’ you lied (darlin’ I love you)
Yeah, darlin’ you lied (darlin’ I love you)
Oh, you know that you lied
(You lied, you lied)
Lied, lied, lied, lied

Os USA vão a votos para duas grandes instituições. São as importantes “midterms”. Num mundo de exacerbados nacionalismos, onde o populismo comanda, o resultado destas eleições não só é relevante para a América como para o mundo. 
O americano e activo defensor dos direitos humanos Bruce Springsteen , The Boss, continua  a surpreender. Ei-lo   em  Don't Play That Song (Official Video).
Bruce Springsteen, em   Nightshift (Official Video)  

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Venerar o que não existe

 
Sumptuosas catedrais e mesquitas,
erguidas com fortunas e suor,
votadas a um deus que não exista,
servirão o fervor ou o terror?
 
Tanta pedra e também tanto luxo
votados àquilo que não tem prova,
alimenta-se em saber de bruxo
ou em arte que tal saber promova?
 
Aceitar o contraste perturbante
entre a fé que se não pode provar
e a pedra que a venera, triunfante,
 
mostra como se podem conjugar
a fé por que anseia o coração
com a recusa que vem da razão.
                          07.11.2022
Eugénio Lisboa

De Arthur Schopenhauer

Revisitamos Arthur Schopenhauer, (1788-1860), filósofo alemão  do século XIX, de quem transcrevemos alguns pensamentos que,    pela intensa actualidade,  se prestam a uma boa reflexão.  
 Saber Pensar
"A mais rica biblioteca, quando desorganizada, não é tão proveitosa quanto uma bastante modesta, mas bem ordenada. Da mesma maneira, uma grande quantidade de conhecimentos, quando não foi elaborada por um pensamento próprio, tem muito menos valor do que uma quantidade bem mais limitada, que, no entanto, foi devidamente assimilada"
Arthur Schopenhauer, in A arte de escrever (p. 18)

Sobre a escrita e o estilo

[…] há três tipos de autores: em primeiro lugar, aqueles que escrevem sem pensar. Escrevem a partir da memória, de reminiscências, ou diretamente a partir de livros alheios. Essa classe é a mais numerosa. Em segundo lugar, há os que pensam enquanto escrevem. Eles pensam justamente para escrever. São bastante numerosos. Em terceiro lugar, há os que pensaram antes de se pôr a escrever. Escrevem apenas porque pensaram. São raros. (p. 28)
 
[…] mesmo entre os escritores pouco numerosos que realmente pensam a sério antes de escrever, é extremamente reduzida a quantidade daqueles que pensam sobre as próprias coisas, enquanto os demais pensam apenas sobre livros, sobre o que outros disseram. Ou seja, para pensar, eles precisam de um forte estímulo de pensamentos alheios já disponíveis. (p. 28)
 
[…] aqueles que são estimulados pelas próprias coisas têm seu pensamento voltado para elas de modo directo. Apenas entre eles se encontram os que permanecerão e serão imortalizados. (p. 28)
 
[…] Apenas aqueles que, ao escrever, tiram a matéria directamente de suas cabeças são dignos de serem lidos. (p. 28)
 
[…] Não há nenhum erro maior do que o de acreditar que a última palavra dita é sempre a mais correcta, que algo escrito mais recentemente constitui um aprimoramento do que foi escrito antes, que toda mudança é um progresso. (p. 29)
Arthur Schopenhauer, in  A Arte de Escrever, L&M, 2011. 

domingo, 6 de novembro de 2022

Fábula bem disposta

Se uma vez um rei bateu na mãe,
pra ficar com um terreno chamado,
depois, Portugal, que mal tem
que um russo teimoso tenha queimado

o terreno de um vizinho? Francamente!
O vizinho andou a provocar,
querendo ter uma vida diferente,
sem pedir para o russo autorizar!

Logo o russo, senhor do seu nariz,
o atacou com blindados, com mísseis,
com drones e tudo quanto quis,

porque estas coisas são muito fáceis
de obter, cortando na paparoca
e também na dispensável pipoca!
                        06.11.2022
Eugénio Lisboa

Ao Domingo Há Música


A arte de viver
E quanto se vive, quando se vive?
E quanto se vê que não é declive
gozarmos o calor em que se vive?
O prazer é coisa que se arquive?
 
Será de contratar um detective,
para vigiar o quanto se vive?
Pois não é melhor que se reactive,
em Pisa, Florença ou Telavive,
 
o fogo que, com gosto, se adjective?
A verdade é que, até hoje, mantive
o gozo que, sem custo, entretive,
 
a mastigar os frutos que obtive,
a afagar a vida que em mim vive
e, com bom cuidado, sempre detive!
                            05.11.2022
Eugénio Lisboa

Nem sempre o mundo se concerta para celebrar a vida.  Há quem faça da vida apenas uma passagem e há quem a torne num hino.  Viver é uma arte. A Música também. Eis como poesia e música se  juntam em harmonia para puro deleite .
Cynthia Erivo, em At Last , numa excelente actuação no Legendary Voices, em The Proms, Agosto de 2022. Um belissimo espectáculo de tributos às grandes vozes que a inspiraram ao longo da  vida. Apresentado no Royal Albert Hall e apoiado pela BBC Concert Orchestra, Cynthia Erivo, vencedora do Grammy,  interpretou hits de artistas icónicos como Etta James, Nina Simone, Shirley Bassey, Billie Holiday e Gladys Knight.(© BBC Two.)
   
Cynthia Erivo, em  I (Who Have Nothing).
   
Cynthia Erivo, em Ne me quitte pas, do grande Jacques Brell, na versão de Nina Simone.