sexta-feira, 8 de julho de 2022

Saudades do romance com história dentro

Estátua de Camilo Castelo Branco , na cidade do Porto, da
autoria do Mestre Francisco Simões


SAUDADES DO ROMANCE
COM HISTÓRIA DENTRO

 
Mas que saudades tenho dos romances
de Camilo, cheios de bacamartes,
de amores proibidos e de transes,
de pais tiranos e de malasartes,
 
romances em que tudo acontecia,
que não tinham vergonha de contar
histórias com imensa gritaria,
intrigas a nunca mais acabar!
 
O romance, agora, não tem pistolas,
é uma chatice e nada acontece!
Os romances já não são estarolas
 
e o que não contam só aborrece.
Falta-lhes não temer o bumerangue
nem as páginas cheiinhas de sangue!
                                    08.07.2022
Eugénio Lisboa

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Os bichos

Ziggy


    É, eu me acostumo, mas não amanso, por Deus! Eu me dou melhor com os bichos do que com gente [...] e quando acaricio a cabeça do meu cão sei que ele não exige que eu faça sentido ou me explique.
                                                        Clarice Lispector

Desde que me conheço que me habituei à companhia de bichos. Não para escrever sobre eles  como  Torga o fez , mas porque habitavam o meu espaço. Nasci no Norte. Numa cidade ancestral em que muitas das habitações eram quintas . Tinham , além de grandes casas , terrenos frondosos a rodeá-las. Nesse tempo, havia espaço , tempo e afeição pelos bichos, que carinhosamente eram assim  designados nessas terras nortenhas. Muitas das nossas brincadeiras infantis estão pejadas de lembranças com animais. Desde o galo a lançar o grito matinal, ao cortejo colorido das galinhas que nos  ofereciam, em  desafio aliciante,  a descoberta  dos ovos, escondidos num circuito labiríntico. Mas o animal, que nunca me deixou,  foi o cão. Ao conhecê-lo, uma afeição imediata eclodiu. Nem sei nomear todos os que fizeram parte da minha já longa vida. Sei que nasci e que  já lá estavam à minha espera. Eram vários. O meu pai era caçador. Juntava matilhas de lindos e elegantes exemplares. Comecei a conhecê-los e eles a mim. E iniciámos uma parceria que perdura. Não sei viver sem um cão. Faz parte integrante do meu agregado familiar. Não é mais um. É apenas um: ele, o meu cão. Também não sei quantas lágrimas verti pela morte de alguns. É tamanha a dor que me toma um pesado luto prolongado. Sair desse torpor doloroso é sempre violento. Por mais que tente, a dor permanece e a lembrança  está por todo o lado.  A morte é a ausência que não cessa de se evidenciar, de reclamar.
Quando a mágoa abranda , há sempre alguém que me traz um cachorro. Vê-lo, faceiro,  a sorrir , liberta qualquer resistência ao possível retorno a uma nova perda. A parceria é reatada de imediato. E começa aquele enlevo que rodeia um novo amor. Um animal  pequenino que depende de nós e se entrega sem reservas. Tem sido sempre assim. 
Vive-se com algum sobressalto. Há dias de indisposições, de leves doenças, de alguns sustos por precárias fugas. Mas há a certeza de um sentimento único que afaga o coração. 
Hoje , o dia é de muita incerteza . Ziggy, o meu doce cão, adoeceu. Está internado , numa luta pela vida. A casa ficou vazia. Não sei  como suprir esta dor porque nunca  é a mesma .  A espera pesa e alonga-se. No entanto, e apesar de todos os receios, acredito que se restabelecerá e regressará ao lugar onde sempre pode  ser feliz. 
Que Deus o proteja, pois também é dele o reino dos céus.
MJVS

Perda de Poderes

No início, era só o assombro:
o espanto era o motor de arranque,
que roncava com todo o desassombro,
olhando o universo de palanque.
 
Tinha olhos de gato espantado
e todo o deslumbramento era pouco:
corria, sedento, por todo o lado
e gritava, cheio, até ficar rouco!
 
Mas fui-me habituando ao espanto,
amaciando, aos poucos, a surpresa.
E o motor de arranque, entretanto,
 
perdeu, pouco a pouco, a destreza.
Habituarmo-nos ao que cintila
tira poderes à nossa pupila.
                        07.07.2022
Eugénio Lisboa

Vozes da resistência

 Zeca Afonso , em  Canção de Embalar.

                                     Dorme meu menino a estrela d'alva
                                    Já a procurei e não a vi
                                    Se ela não vier de madrugada
                                    Outra que eu souber será p'ra ti
Manuel Freire, em  Pedra Filosofal  e Pedro Barroso, em Menina dos olhos d´água .
"Pedra Filosofal" é um poema de António Gedeão, pseudónimo do professor e poeta português Rómulo de Carvalho (1906 - 1997). O poema foi publicado no livro "Movimento Perpétuo", em 1956. Aproveitando a sua musicalidade, Manuel Freire apresenta, em 1970, o poema musicado, que se tornou uma bandeira da resistência contra a ditadura. 

                                                Eles não sabem que o sonho
                                               É uma constante da vida 
                                               Tão concreta e definida 
                                               Como outra coisa qualquer
                                                         António Gedeão
Pedro Barroso, em  Menina dos olhos d´água , composição de Pedro Barroso.

Menina em teu peito sinto o Tejo  
E vontades marinheiras de aproar 
Menina em teus lábios sinto fontes
De água doce que corre sem parar

José Mário Branco , em Queixa das almas jovens censuradas. Poema de Natália Correia. Música de José Mário Branco ,sobre um desenho de Jean Cocteau (1889-  -1963).

                                     Dão-nos um lírio e um canivete
                                     e uma alma para ir à escola 
                                     mais um letreiro que promete
                                     raízes, hastes e corola

                                    Dão-nos um mapa imaginário
                                   que tem a forma de uma cidade 
                                   mais um relógio e um calendário
                                   onde não vem a nossa idade
                                                    Natália Correia

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Serventias do Amor

Será que o amor consegue tudo?
Não consta que o amor evite a guerra,
com homens de espingarda e sobretudo
e não evita os tremores de terra
 
nem as doenças muito prolongadas.
O amor não impede a pandemia,
que mata, mata gente às carradas.
E o amor também não alumia
 
a vida dos que a tirania pisa.
Mas que seria a vida sem amor?
O amor, com muita doçura, avisa
 
que a vida, sem ele, não tem valor.
Não é sua função salvar o mundo,
tão só, dar à vida um sabor profundo.
                                      06.07.2022
Eugénio Lisboa

Sophia II

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004),
foto de João Cutileiro, Lagos, 1960
Sophia de Mello Breyner Andresen  foi filmada pelo  cineasta português João César Monteiro (1939-2003). Eis  o resultado:
 O ENCONTRO DE SOPHIA E DE JOÃO CÉSAR MONTEIRO
« João César Monteiro disse que a poesia não é filmável e que é inútil persegui-la, mas demonstrou que é possível uma aproximação numa das suas obras referenciais - «Sophia de Mello Breyner Andresen» (1969).
É um dos mais belos filmes da história do cinema português e é uma homenagem serena não apenas à poesia, mas ao mar português, à nossa costa fantástica.
Em cada momento desta obra, nós encontramos a sensibilidade do cineasta e o carisma de Sophia.
E quando Xavier estranha o tom de voz de sua mãe a ler «A Menina do Mar» ele está a dizer-nos que a poesia prolonga e completa a realidade.
Do mesmo modo, como quando a Mãe Sophia ralha com os filhos, o que encontramos é a vida vivida, imperfeita, dada a perturbações, que são o melhor elogio à liberdade de ser que nos leva directamente à Dignidade do Ser.
As minúsculas e as maiúsculas não são indiferentes… Sophia e João César aqui estão, em memória de Carl Dreyer…
A memória e o elogio do génio poético.
A poesia não é filmável, mas o cinema pode levar-nos à essência da palavra…
"E o Rei do Mar estava sentado no seu trono de nácar, rodeado de cavalos-marinhos, e o seu manto de púrpura nas águas"…»
Artigo publicado no Blog do CNC,  em Tempo de  Férias, em 19.08.2014

 Veja o Filme aqui

terça-feira, 5 de julho de 2022

Eufonia


Lang Lang interpreta  Feed The Birds,  de “Mary Poppins”,(arr. Stephen Hough),  gravado em frente do  Sleeping Beauty’s Castle, no  Disneyland Park,  California.

Do Nada Falemos

Eu sei muito bem o que é o nada.
Como todos vós, já por lá passei.
Não é coisa que possa ser explicada,
nem se pode dizer que o experimentei.
 
O nada pode ser um intervalo
entre ser e, depois, voltar a ser.
Nesse intervalo, eu não assinalo
traços de vida que possa haver.
 
Mas tenho, para vós, boas notícias:
é que o nada não incomoda nada,
mesmo não sendo o jardim das delícias.
 
Nada não é vida dissimulada,
com as chatices que a vida tem:
ele não incomoda, mas não entretém.
                             05.07.2022
Eugénio Lisboa