sexta-feira, 25 de março de 2022

Por toda a parte tinham crescido muros

Roquebillière
A Música da Fome I
por J.M. Le Clézio
"Rolos de arame farpado encerravam os parques , as colinas de mimosas, as praias . Muros de blocos de cimento aramado impediam o acesso ao mar. Nos promontórios onde , outrora, Ethel gostava  de observar a sucessão das vagas , antes de ir mergulhar entre os rochedos, avistou, um dia, soldados que cimentavam uma espécie de plataforma para um canhão que girava sobre carris. As janelas  do grande seminário tinham sido entaipadas, os padres de sotaina substituídos por soldados  e convalescentes. Um pouco por toda a parte tinham crescido muros, redes de camuflagem cobriam os telhados. Os olivais tinham sido minados. Um painel escrito em duas línguas ameaçava os transeuntes exibindo uma caveira. A partir das dezoito horas, começava o recolher obrigatório. numa tarde  em que Ethel  se atrasou, subia a pé as escadas do prédio quando um tiro cavou um orifício no olho-de-boi do quinto andar e a bala foi espetar-se na parede. A partir daí, sempre que descia as escadas, Ethel não conseguia deixar de introduzir o dedo no orifício para tocar na ponta metálica que não a matara por um triz. 
Quando as sirenes ressoavam sobre todos os telhados da cidade, era preciso descer à cave com uma vela acesa, até ao fim do sinal de alerta. Nos  primeiros tempos, Justine conseguira arrastar o marido, mas este, depois começou a afundar-se na poltrona, agarrando-se aos braços. « Vão, se quiserem, por mim, prefiro morrer ao ar livre a ser enterrado como um rato» 

Não se morria debaixo das bombas dos Ingleses e dos Americanos. Mas morria-se aos poucos, sem comer, sem respirar, sem liberdade, sem poder sonhar. O mar resumia-se a um traço azul, ao longe,  entre as palmeiras , por cima dos telhados  vermelhos. Ethel passava horas a contemplá-lo da janela do quarto dos pais, como se esperasse  alguma coisa.  O calabre inclinado de uma grua emergia dos telhados dos hangares, imóvel, inútil. Os barcos haviam naufragado  à entrada do porto, já nada podia entrar nem sair. O farol já não se acendia à noite. Nas bancas do mercado, não havia nada, quase nada. As mesmas sombras continuavam a circular em redor dos vencedores , mas agora as cascas e as raízes também se vendiam.  Nos jardins, os gatos vadios devoravam-se uns aos outros. Os pombos  haviam desaparecido, e as armadilhas que Justine dispunha nas goteiras só serviam para apanhar ratos.

Certa manhã, no mês de Maio, ouviu um barulho desconhecido. A terra tremia, os vidros das janelas , os copos em cima das mesas. Sem perder tempo a vestir-se , correu para a janela. Afastou a cortina. Pela estrada, ao longo do rio, avançava uma coluna , faróis acesos. Camiões, viaturas blindadas, motas, seguidas de tanques. Cobertos de poeira, ar de insectos em marcha  para um novo território. Avançavam lentamente, apertados uns contra os outros. Passaram em frente da casa, subiam para norte, em direcção às montanhas. Ethel  permanecia imóvel, quase sem respirar. Atrás dos camiões, os tanques abalavam a terra com o barulho das lagartas. As torres blindadas dos canhões apontavam para a frente. Pareciam brinquedos inúteis.
O barulho acordou Justine. Aproximou-se da janela em camisa de noite, braços ligeiramente afastados  do corpo, pés descalços encolhidos nas lajes frias. Ethel proferiu, num sopro: « Eles vão--se embora.» Não estava muito certa de quem seriam «eles», mesmo depois de, atrás dos tanques , terem aparecido os camiões de caixa destapada onde se encontravam os soldados, e o barulho  dos motores se ter tornado ainda mais preocupante. Justine puxava pelo braço  de Ethel. « Vem!» Sussurrava como se os soldados nos camiões pudessem ouvi-la. Mas Ethel  resistia. Queria vê-los todos, até ao último. Homens envergando sobretudos pesados, apertados  uns contra outros, na sua maioria sem capacete, ar extenuado de fadiga. Nem um ergueu a cabeça para observar as janelas.  Talvez tivessem medo. Aquela imagem de vazio penetrou no espírito de Ethel , expulsou todas as recordações anteriores. Mais tarde , virá a saber que os homens que avistou da janela da cozinha, em Roquebillière, eram os restos do exército de África do marechal  Rommel, a caminho do Norte, na esperança de alcançar a Alemanha pelos Alpes. Ficará a saber que o chefe não ia na coluna, já regressara a Berlim de avião, deixando as tropas  abandonadas num território hostil. Tentará imaginar que teriam sentido aqueles homens , na plataforma dos camiões, quando se dirigiam para a barreira  crescente das montanhas, com a vibração das lagartas dos tanques que os ensurdecia, no maior dos silêncios, sem chefe, sem ordens, para transpor  a pé as montanhas de neve do Boréon, perseguidos pelos lobos."
(a continuar amanhã)
J.M.G. Le Clézio, in A Música da Fome , Publicações Dom Quixote, Julho de 2009, pp.146, 147, 160, 161

quinta-feira, 24 de março de 2022

PUTINE E A HISTÓRIA


PUTINE E A HISTÓRIA
Pequena meditação sobre os usos e abusos da História
 
As palavras mais sonoras
servem só, algumas vezes,
com bons efeitos, embora,
pra velar obscuras teses
 
e vícios bem mal cheirosos.
Dizia um velho francês
que os homens muito ardilosos
enganam bem o freguês:
 
a História dá pra provar,
usando-a com cautela,
que se pode validar
quase tudo com ela!
              24 03.2022
Eugénio Lisboa, que desde os seus anos de adolescência, nunca esqueceu
este aforismo de Voltaire:
A História serve para provar que tudo pode ser provado com ela. 

A vergonha destes dias

Um mês de destruição, maldade, crime decretado por Putin contra a Ucrânia.

 







O mundo pode e deve parar Putin.

Um mundo em desagregação

 

 IV - Um mundo em desagregação
por Amin Maalouf
" Uma das minhas grandes tristezas de hoje diz respeito à Europa. Quando falo disso, respondem-me invariavelmente que sou demasiado exigente, que deveria ter em mente o que foi este continente durante séculos e até uma data não muito longínqua: um campo de confronto entre nacionalismos desenfreados, um terreno de experimentação para as piores barbáries... Estas páginas sombrias não foram viradas agora e para sempre? Atravessa-se a fronteira franco-alemã sem sequer nos darmos conta, como se ainda estivéssemos no mesmo país, como se nunca tivesse havido combates sangrentos pela posse  da Alsácia-Lorena. E em Berlim passa-se de um bairro ocidental para um bairro no leste  sem prestar atenção  ao traçado do antigo Muro. Em que outra parte  do mundo se viu algo semelhante? Certamente, não na minha região natal, que seguiu o caminho inverso, a ponto de muitas das suas regiões  e cidades, que na minha juventude  podia percorrer sem grandes riscos , se terem tornado impraticáveis.
Não gostaria de minimizar os extraordinários progressos alcançados pelos europeus desde o final da Segunda Guerra Mundial. Aplaudo-os de todo o coração. Mas não posso negar que sinto hoje um certo desencanto. Porque eu esperava outra coisa do meu continente de adopção: que ele oferecesse a toda a humanidade uma bússola, que evitasse que se perdesse, que a impedisse  de se desagregar em tribos, em comunidades, em facções e em clãs.
Quando olho para a turbulência deste século lamento que não exista nenhuma autoridade política e moral para a qual os nossos contemporâneos possam voltar-se com confiança e esperança; nenhuma que seja ao mesmo tempo portadora de valores universais  e realmente capaz de influenciar o curso da história. E quando passo o olhar sobre o mundo e me pergunto, não sem angústia, quem poderia desempenhar hoje essa missão, parece-me que só a Europa estaria em condições de o fazer , se dispusesse dos meios necessários.
Porquê a Europa?  Na verdade, não é " a candidata natural"  a esse papel. Logicamente, este deveria antes caber aos Estados Unidos da América. Eles têm desde há muito o desejo de exercer uma liderança global e possuem o essencial das qualidades necessárias. Os princípios sobre os quais a União foi fundada revelam, desde o início, uma inegável preocupação com a universalidade, e a sua composição étnica reflecte a diversidade do mundo; de forma imperfeita , é certo, mas  mais  do que  outros grandes  países. Acima de tudo, acenderam , durante  o século XX,  ao primeiro lugar entre as Potências,  e em todos os domínios: produção industrial, força militar, investigação científica, influência política e intelectual, e assim por diante. Tendo vencido três grandes  confrontos  planetários, a Primeira Guerra Mundial, depois a Segunda e a seguir a Guerra Fria, adquiriram, entre as nações, um primado que ninguém pode seriamente  contestar. Seria lógico que se constituíssem, para toda a humanidade, na autoridade de referência, e por muito tempo. Mas não souberam estar à altura de cumprir essa missão.
O mais surpreendente  é que o seu fracasso, hoje manifesto, não se deve à perda do poder - que, no momento da redacção deste livro, permanece formidável - nem à acção dos seus adversários, mas à incapacidade de os seus líderes sucessivos assumirem de forma coerente a supremacia que adquiriram."
Amin Maalouf, in O Naufrágio das Civilizações, Editorial Presença, Março 2020, pp,196, 197

quarta-feira, 23 de março de 2022

Não há guerras boas

NÃO HÁ GUERRAS BOAS
por Eugénio Lisboa

Os poetas odeiam o ódio
e fazem guerra à guerra.
           Pablo Neruda


Nunca houve uma guerra
boa nem uma paz ruim.
           Benjamin Franklin

“Eis um problema que tem angustiado os homens, de não há muito tempo a esta parte. As mulheres, que, durante muitos séculos, não tiveram de participar activamente na carnificina, mas tiveram de a sofrer, na sombra, sem poder intervir, mas arcando, depois, com as consequências da destruição, dos ferimentos e da morte dos seus, reagiram, desde muito cedo, à folia bélica com que os homens se entretinham a resolver problemas, muitas vezes de lana caprina. Mais ligadas à terra e à vida (são elas que geram vida), mais sensatas, menos dadas a fantasias com pés de barro, as mulheres opuseram-se, desde cedo, à folia mortífera da guerra. Já no ano de 411 A. C. o famoso comediógrafo grego Aristófanes pôs em cena uma hoje famosa comédia, intitulada LISISTRATA, criticando a guerra de uma maneira muito imaginativa e provavelmente eficaz. Nessa peça, as mulheres gregas, lideradas pela dinâmica Lisistrata, fartas das guerras entre Atenas e Esparta, resolvem trancar-se num templo e fazer greve sexual, enquanto se não pusesse termo à guerra. Aristófanes dava certamente voz, na sua comédia, ao sentimento que as suas conterrâneas gregas deviam andar a tornar bem visível e audível. Contudo, até tempos relativamente recentes (vésperas da primeira guerra mundial), aceitava-se, sem grandes estados de alma, o conceito de Clausewitz: “A guerra é a continuação da política por outros meios”. A guerra era o último recurso, quando a diplomacia esgotava os seus. Não havia, por assim dizer, um problema ético. Grandes fazedores de guerras, como Napoleão, eram admirados por gigantes como Goethe, Stendhal e Beethoven, não necessariamente, por causa da guerra, mas, pelo menos, apesar dela.
Quando se tornou claro, nos primeiros anos do século XX, que se estava à porta de um novo grande conflito europeu – que viria de facto a começar em Agosto de 1914 – vozes corajosas de alguns grandes escritores começaram a erguer-se, com grande coragem e eloquência, contra a insensatez e a imoralidade da guerra, como modo de resolver conflitos de interesses. De entre os intelectuais europeus, que se destacaram nesse destemido e arriscado combate, citarei três: Romain Rolland, Bertrand Russell e Stefan Zweig. Romain Rolland provocou, com os textos pacifistas depois recolhidos no seu famoso e vituperado livro AU DESSUS DE LA MÉLÉE, uma reacção violenta, da parte dos belicistas, que o levou a emigrar para a Suíça, de onde continuou a lutar pela paz. Bertrand Russell pagaria com a prisão o seu credo pacifista.
Curiosamente, dois dos maiores escritores do século XX, Anatole France e Thomas Mann alinharam, por esta altura, com os arautos da guerra, mas não demorariam a mudar de opinião, tendo-se o escritor alemão voltado contra a emergente peste nazi, que lhe valeu o exílio e a perda do título académico que lhe fora dado por uma universidade alemã, para não falar na queima dos seus livros, na praça pública.
A carnificina nas trincheiras da Europa foi de tal natureza e dimensão, que originou em vários escritores europeus, que tinham vivido o horror da guerra, de um lado e do outro do conflito, o desejo de produzirem obras de ficção, centradas naquele morticínio, com o objectivo de fazer com que ele se não voltasse a repetir: por reacção dos leitores à dramatização daquela monstruosidade. Henri Barbusse, Roger Vercel, Roland Dorgelès, Erich Maria Remarque, Georges Duhamel, Roger Martin du Gard, Ernest Hemingway, na ficção, ou Rupert Brooke e Siegfried Sassoon, na poesia, foram impressionantes testemunhos. Nalguns, como Roger Martin du Gard, a impressão causada por aquele inferno de mortos e mutilados – ele trabalhou no serviço de ambulâncias – foi tal, que ficou irredutivelmente contra a guerra, fosse ela qual fosse. De tal maneira que, sendo um homem de esquerda, quando Hitler começou a devorar a Europa, Martin du Gard disse aos amigos, que tudo era melhor do que resistir ao ditador alemão, originando uma reedição da carnificina de 1914 – 1918. Nada era, para ele, tão mau como uma nova guerra. Mais adiante, mudaria de opinião, quando se apercebeu do que Hitler representava e de que se tornava tragicamente necessário resistir-lhe. O mesmo se passou com Bertrand Russell, que pôs entre parêntesis o seu pacifismo, reconhecendo que esta guerra era inevitável. Todavia, outro enorme escritor francês, Jean Giono, que percorrera os anos da primeira guerra mundial a carregar uma espingarda que nunca disparou, mas a ver o lado mais monstruoso da condição humana, jurou e cumpriu, que nunca mais voltaria a participar numa nova guerra. Pacifista radical, recusou-se a combater os exércitos nazis e escreveu porquê. Para Russell e Martin du Gard, não havia guerras boas, mas havia guerras inevitáveis. Para Giono, havia só guerras más, ponto final. Pertencendo ao Mouvement du Contadour, que se opunha a qualquer conflito armado, pagou-o com a prisão. Pode-se não concordar com a decisão dele, mas não se pode deixar de respeitar a coerência do seu radicalismo. Não há, de facto, guerras boas: são todas más, embora algumas sejam inevitáveis. A corajosa resistência da Ucrânia ao monstruoso poder militar de Putine originou uma guerra má, mas inevitável, ainda que desnecessária. São pessoas como Hitler e Putine que cometem o pecado supremo de originarem guerras inevitáveis. E más como a peste.”
Eugénio Lisboa, 23.03.2022

Sobre a Vida

 
Life , de Ludovico Einaudi (Official Music Video)

terça-feira, 22 de março de 2022

A vergonha destes dias

 




O mundo pode e deve parar Putin.

Morrer por uma ideia, por uma visão ou por uma utopia


Morrer por uma ideia, por uma visão ou por uma utopia
por Eugénio Lisboa
“Perguntaram um dia ao filósofo Bertrand Russell se seria capaz de morrer por uma ideia. Como filósofo cristalino e frontal, que era, respondeu sem hesitar: “Não, porque poderia estar errado.” Irrefutável. Qualquer não fanático, com a mente asseada, sabe que pode sempre estar errado. Só os fanáticos acreditam em “verdades”. Os cientistas e os filósofos, não. Mesmo o mais notável pensador pode estar errado e o mais provável é estar. Portanto, se uma ideia pode estar errada, morrer por ela é um rotundo disparate. Mas, se não se deve morrer por uma ideia, muito menos se deve matar por ela. No entanto, é o que mais se tem visto por aí, desde tempos imemoriais. Muitos muçulmanos ainda hoje matam “infiéis”, isto é, gente que não acredita no que eles acreditam, como "verdade". Os jihadistas fazem-no com grande profusão e de boa consciência. Esses, ao menos, fazem-no pela medida grande: matam e matam-se, por uma crença, que teria alegadamente sido bichanada por Alá ao ouvido do seu profeta Mahomé. A Igreja Católica fê-lo também, com abundante derramamento de sangue – as cruzadas foram uma ignomínia – e puseram de pé um aparelho repressivo, chamado Inquisição, que torturou e matou, com sinistra eficácia, milhares de seres humanos a quem não fora dada a felicidade de acreditarem no mesmo em que ela acreditava e impunha que se acreditasse. Outras religiões, como o comunismo de Staline ou a revolução cultural de Mao fizeram o genocida Hitler quase parecer um menino de coro. Pol Pot, líder do Cambodja, liquidou, a bem da sua “verdade”, 1.5 a 2 milhões de compatriotas (um quarto da população do país). A dissidência tem sido um mau negócio para os que insistem em pensar pela sua cabeça. Mais recentemente, apareceu Putine, com a desculpa esfarrapada de que estava a usar apenas uma “missão especial” devido ao desconforto de umas populações russas no sudeste da Ucrânia. A tal “missão especial” tem consistido em destruir um país lindíssimo, dotado de duas belíssimas cidades – Kiev e Odessa - , arrasando prédios de habitação, hospitais, maternidades, armazéns de alimentos e milhares de pessoas, mortas, além de para cima de três milhões desalojadas e exiladas. Um filósofo usando uma lógica simplista, sugeriria que em vez de uma guerra dantesca, ficava mais barato e destruía menos, enviarem os russos, de acordo com os ucranianos, uns transportes que levassem os ditos russos do sudeste da Ucrânia, para se estabelecerem nos vastos espaços desocupados da grande Rússia. Mas isto, além de ser demasiado simples, ia obviamente contra o “orgulho” próprio da utopia imperialista de Putine, uma das tais “ideias” pelas quais os tiranos não se importam de mandar matar, aos milhões, e destruir até perder de vista. Eu acho que deve haver, nos habitáculos e labirintos da psiquiatria, um nome, para esta doença de que sofre o actual czar da Rússia. Há quem diga que não, que o rapaz é só muito “determinado”. Chamem-lhe o que quiserem. Uma junta médica não faria mal nenhum ao mundo. Para ele e outros que andam por aí. Há vários e são todos muito desnecessários.”
Eugénio Lisboa, 21.03.2022