quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Provocações do dia

 Crê nos que buscam a verdade. Duvida dos que a encontraram.

André Gide
 
O apetite de saber nasce da dúvida. Deixa de acreditar e instrui-te.
André Gide
 
"A dúvida é o melhor motor de arranque para o conhecimento. A certeza é o melhor caminho para o inferno na terra. Vale a pena meditar nos dois aforismos de Gide, esse grande inquietador."
Eugénio Lisboa, 09.12.2021

Pausa com The Beatles

Documentário sobre The Beatles: "Get Back"

 

There's nothing you can do that can't be done
Nothing you can sing that can't be sung
 Nothing you can say, but you can learn how to play the game
 It's easy 
Nothing you can make that can't be made 
No one you can save that can't be saved 
Nothing you can do, but you can learn how to be you in time 
It's easy 

All you need is love 
All you need is love 
All you need is love, 
love Love is all you need
     The  Beatles

Dizia o poeta que as palavras estão gastas . Será uma grande verdade, quando apenas ficam no domínio da intenção. Apropriá-las  e dar-lhes vida é esse o fascínio da poesia. Quem o faz com magnificência é a música. 
Motivados pelo novo e longo  documentário sobre os Beatles, Get back, fomos ao retábulo da memória e descobrimos estas três peças deste fascinante grupo. Reinterpretadas ou reinventadas , todas exemplificam a grandeza de uma banda que nunca deixa de surpreender.
A Day in The Life  , dos  Beatles,  com arranjos de Sam Haug  para orquestra e coro. Uma bela e diferente interpretação.
   
Eleanor Rigby e Strawberry fields forever, dos Beatles,  em arranjo sinfónico. A interpretação pertence à Mitteleuropa Orchestra e ao Coro del FVG, sob a direcção do Maestro Ernest Hoetzl. Uma produção DueErre Produzioni Multimediali.
  
Paul McCartney, Joe Cocker, Eric Clapton ,  Rod Stewart e outros, em  All You Need Is Love,  dos Beatles .O registo pertence ao Concerto realizado a  3 de Junho de  2002, nos jardins do Buckingham Palace, em Londres , Inglaterra.
 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Eleição da Palavra do Ano


PALAVRA DO ANO
Qual será a Palavra do Ano 2021 para Portugal ? Uma iniciativa da Porto Editora.
2021 EM DEZ PALAVRAS
"Até 31 de Dezembro, está aberta a votação para eleger a PALAVRA DO ANO
São agora conhecidas as candidatas a PALAVRA DO ANO® 2021. Numa lista fortemente marcada pela realidade pandémica e pelos seus impactos no tecido económico e social, há ainda espaço para as questões políticas que marcaram este ano.
Construída com base nas sugestões feitas através do site www.palavradoano.pt, nas pesquisas efectuadas no Dicionário da Língua Portuguesa em www.infopedia.pt e no trabalho permanente de observação e acompanhamento da realidade da língua portuguesa, levado a cabo pela Porto Editora, esta lista de dez palavras contribui para traçar um retrato dos acontecimentos que vão marcando a vida coletiva do país.
A votação decorre até ao último segundo do dia 31 de Dezembro em www.palavradoano.pt e a grande vencedora será divulgada nos primeiros dias de janeiro de 2022.
APAGÃO
Este termo foi usado para descrever o período em que milhões de utilizadores ficaram sem acesso às principais redes sociais, com impacto social e económico a nível mundial.
BAZUCA
Esta palavra foi utilizada pelo primeiro-ministro António Costa para designar o pacote de ajuda europeu destinado a fomentar a recuperação da economia, na sequência da pandemia.
CRIPTOMOEDA
As moedas virtuais encriptadas multiplicam-se e crescem em popularidade e valor, o que tem levado vários países a estudar mecanismos de regulamentação das mesmas.
MOBILIDADE
O agravamento do trânsito automóvel (especialmente nos centros urbanos) e a preocupação com a sustentabilidade e acessibilidade dos transportes originaram múltiplos debates sobre a mobilidade.
MORATÓRIA
Criadas pelo governo em Março de 2020, as moratórias de crédito ajudaram muitas famílias e empresas afetadas pelo impacto da pandemia da COVID-19.
ORÇAMENTO
A rejeição da proposta de orçamento do Estado para 2022 no Parlamento levou o Presidente da República a dissolver a Assembleia, convocando eleições antecipadas.
PODCAST
O podcast ganhou popularidade entre os portugueses e têm-se multiplicado os novos conteúdos difundidos neste formato.
RESILIÊNCIA
O impacto da pandemia na saúde, economia e bem-estar, a par das sucessivas medidas tomadas no seu combate, colocaram à prova a resiliência dos portugueses.
TELETRABALHO
Tradicionalmente associado a empresas do setor tecnológico, o teletrabalho foi determinante para assegurar a continuidade de diversas atividades económicas no contexto pandémico.
VACINA
Desenvolvidas em tempo recorde, as vacinas tornaram-se a maior arma contra a COVID-19 e Portugal é um dos líderes mundiais na sua inoculação.

ACONTECIMENTOS EM ANGOLA REFLECTIDOS NAS CANDIDATAS A PALAVRA DO ANO® 2021
À semelhança do que acontece em Portugal com a Porto Editora, a Plural Editores Angola faz a monitorização e acompanhamento dos acontecimentos e da realidade local e, por isso, a lista de candidatas inclui vocábulos como «inflação», «seca» (a pior das últimas quatro décadas) ou «zungueira». É de notar que, pelo segundo ano consecutivo, as palavras «agricultura» e «manifestação» marcam presença entre as dez finalistas.
Em Angola, esta votação decorre também até 31 de Dezembro através do site www.palavradoano.co.ao e a vencedora será divulgada nos primeiros dias de 2022.
AGRICULTURA
O governo reforça a aposta no desenvolvimento da agricultura, anunciando programas de financiamento e empréstimos com juros bonificados para o sector privado.
CESTA BÁSICA
A subida generalizada dos preços teve impacto na cesta básica, cujo custo foi subindo mensalmente, obrigando o governo a tomar medidas para minimizar o impacto da inflação.
CRIME
O sentimento de insegurança tem crescido por todo o país e especialmente em Luanda, onde a taxa de criminalidade aumentou ao longo do ano.
INFLAÇÃO
O aumento da inflação teve impacto na economia, fazendo subir os preços em geral, incluindo os do arroz, carne de porco, grão de milho, leite em pó e outros da cesta básica.
LIXO
Os vários meses passados sem recolha de lixo em Luanda apresentaram sérios riscos para a saúde pública e provocaram o descontentamento da população.
MANIFESTAÇÃO
Foram muitas as manifestações de protesto ao longo do ano, por motivos tão diversos como algumas medidas governamentais, os direitos civis e o valor das propinas do ensino superior.
PRIVATIZAÇÃO
O governo anunciou a privatização de 100 empresas até ao final do ano, em vários sectores como a banca, agricultura, turismo e telecomunicações.
SECA
A pior seca das últimas quatro décadas está a deixar perto de 2 milhões de pessoas com dificuldade de acesso a alimentos no sul do país.
VACINA
O número de pessoas a tomar a vacina contra a COVID-19 aumentou por todo o país, causando enormes filas de espera à porta dos centros de vacinação.
ZUNGUEIRA
Estas mulheres, que dependem do comércio ambulante para obter sustento, queixam-se da perseguição e modo de actuação dos fiscais.
A iniciativa PALAVRA DO ANO® decorre também em Moçambique, com as dez candidatas a serem conhecidas a 27 de Dezembro e a grande vencedora a ser anunciada em Fevereiro de 2022. "
Artigo publicado no Site da Porto Editora 

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Pensamento do dia


O interesse que temos em acreditar numa coisa

não é prova da existência dessa coisa.

Voltaire

 “À meditação dos crentes de todas as religiões, incluindo os crentes de todas as utopias políticas. Como dizia Bertrand Russell, morrer por uma crença é um disparate, porque essa crença pode muito bem não ter fundamento. Se morrer por uma crença é idiota, matar por ela é um crime sem redenção, além de ser também uma refinada idiotice. As religiões e as utopias políticas, isto é, o domínio do inverificável, têm cometido, ao longo da história, este crime, em gigantesca escala. E nunca faltam eruditos, muito amantes da humanidade, a justificá-lo. A pior forma do assassinato é o assassinato, de boa consciência. O assassinato promovido por religiões e utopias políticas é um assassinato desta natureza. Quanto menos argumentos existem a favor de uma crença ou utopia, mais violentamente se tenta impô-la. À direita e à esquerda, o século XX documentou-o, de maneira singularmente sinistra. A intensidade e sinceridade com que se acredita não é indício de nada a não ser dessa intensidade e dessa sinceridade, nunca da validade daquilo em que se acredita.”

Eugénio Lisboa,  07.12.2021

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Pensamento do dia

Por que repetir os velhos erros, com tantos erros novos que há para cometer?

Bertrand Russell


“Vale a pena meditar nesta pequena mas grande amostra de sabedoria, agora que o mundo se está a virar para a extrema-direita, esquecido do que aconteceu entre as duas grandes guerras. Não vale a pena repetir os erros cometidos e a forma de o não fazer NÃO é o apaziguamento: é ter a coragem de cortar o mal pela raiz: não permitir que se aproveitem da democracia para a destruir. Coisas que as ideologias totalitárias, de esquerda e de direita, sempre fizeram. Os ditadores vêm-nos dos longes da história, porque nos apanham desprevenidos, sempre da mesma maneira: abrimos-lhes as portas e eles entram, sem pedir licença. Damos-lhes o palco todo, porque gostamos de os ver fazer e dizer palhaçadas, e eles multiplicam-se, como cancros assanhados. Já está a acontecer de novo. E já estamos a cometer os mesmos erros que permitiram que, no passado, à esquerda e à direita, se produzissem dezenas de milhões de mortos e todo um património destruído. Visitem com frequência o aforismo de Russell, que teve a coragem de ir para a prisão, quando se opôs à primeira grande guerra, e, depois, avisou cedo contra o nazismo e o comunismo soviético. Destemido inimigo de ditadores, não o foi menos de uma América de infame promiscuidade entre políticos, militares e industriais (da guerra). Espíritos intrépidos como Russell são os heróis que verdadeiramente ficam. Os outros são mais ou menos cúmplices, por omissão, dos assassinos.”
Eugénio Lisboa, 06.12.2021 

domingo, 5 de dezembro de 2021

Ao Domingo Há Música


We are not alone 
Good news for my heart.

Nem sempre os sonhos se tornam realidade. Há alguns que ficam por aí: no reino do sonho. Num mundo em constante instabilidade, sonhar é cada vez mais a forma de ultrapassar a estreiteza do espaço em que se confina  a dolorosa realidade  de muitos. Poder dizer a todos que não mais estarão  aprisionados  é o  sonho mais urgente para que sejam derrubados  os muros e se fixe  o verdadeiro  mote para uma real  mudança. 
Hoje, o espaço  é dedicado a um belíssimo documentário “La Panthére des Neiges” ,  que retrata a viagem ao Tibete do fotógrafo de vida selvagem Vincent Munier e do escritor Sylvain Tesson,  numa tentativa de avistarem a esquiva pantera-das-neves , também designada  por leopardo da neve  . Viagem que resultou em duas excelentes obras que se catapultaram  para o mundo.
O livro de Sylvain Tesson, La Panthére des Neiges,   foi distinguido com o Prémio Renaudot 2019, um dos mais prestigiantes prémios literários de França.
"La Panthère des Neiges é uma viagem contemplativa no silêncio sublime de uma paisagem selvagem que ameaça desaparecer e que dá ao homem uma lição de humildade e respeito." Este filme estreou no Festival de Cinema de Cannes de 2021 e acontecerá, nos cinemas, neste mês de Dezembro.
Nick Cave & Warren Ellis participaram  na banda sonora de “La Panthère des Neiges”,  com uma nova faixa chamada “We Are Not Alone”. A banda sonora sai a 17 de Dezembro (via Invada/Lakeshore). Esta versão de “We Are Not Alone” é exclusiva para o lançamento do single.

Nick Cave & Warren Ellis , em  We Are Not Alone,  da banda  sonora do  filme La Panthère des Neiges.
   
"No coração das montanhas tibetanas, a natureza permaneceu intocada e de uma beleza deslumbrante. Aqui vivem iaques selvagens, lobos e muitos outros animais. O fotógrafo Vincent Munier e o escritor Sylvain Tesson percorrem essa região e escalam os picos em busca de um ser excessivamente discreto, o leopardo da neve. Os dois aventureiros seguem os seus passos, enfrentam o frio e aguardam pacientemente o seu aparecimento. E é realmente um momento mágico,  quando o animal majestoso finalmente aparece e dirige seu olhar atento para os seus observadores. Carregadas pelas composições melodiosas dos dois músicos Warren Ellis e Nick Cave, essas imagens de natureza poderosa implantam uma magia visual que cativa o público. "
Em comunicado Warren Ellis conta: «Há algo no coração deste filme que te atrai. Percebi, após um dia, que queria fazer o que fosse preciso para compor toda uma partitura original. O filme merecia ter a sua própria voz musical. Reservei cinco dias e perguntei ao Nick se ele poderia estar presente por um dia para escrever uma canção temática e tocar um pouco de piano. Ele viu o filme e ficou durante quatro dias. No final, fizemos o que penso ser um dos filmes mais bonitos em que já trabalhámos. Uma das minhas experiências favoritas de sempre a trabalhar num projecto. As estrelas são os animais em toda a sua glória selvagem, como nunca os vimos antes, e o homem em reverência e admiração.»
 
E, num outro registo, retomo à belíssima interpretação de Nick Cave e Warren Ellis, em "Push the Sky Away", num espectáculo na Sydney Opera House ,acompanhados pela soprano  Julie Lea Goodwin, pela Sydney Symphony Orchestra e pela Sydney Philharmonia Choirs, sob a direcção do Maestro Nicholas Buc .

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

CENTENÁRIOS


Centenários 
por Eugénio Lisboa

Recordar: Do latim “re-cordis”,
voltar a passar pelo coração.
       Eduardo Galeano

O que foi perdido pode, entretanto,
viver na nossa memória.
      Christopher Paolini, EREGON

"Notámos já, neste mesmo espaço, a gulosa precipitação com que se está a começar a celebrar um centenário que só se consuma de aqui a um ano. Provincianamente, pomos os trunfos todos no cesto de um Prémio Nobel, idolatrando, deslumbrados, como selvagens, um ídolo com pés de barro: o galardão sueco, alvo de uma luta parola em que, durante anos, se engalfinharam dois escritores portugueses. Para gáudio e alimento de uma comunicação social que tanto alento tem dado à fofoquice, mesmo pacóvia.
Entretanto, ignorou-se quase por completo e, em muitos casos, por completo, centenários que passam neste ano quase findo, de figuras da nossa cultura, com notoriedade suficiente para serem lembradas, nem que fosse discretamente. A idade intelectualmente adulta de um povo mede-se também pela sua capacidade de não esquecer quem, com muita dignidade, contribuiu para acrescentar o nosso património cultural. As envergonhadamente discretíssimas sinalizações que tiveram lugar dentro dos muros de uma ou outra universidade nada têm que ver com uma chamada a público nos grandes periódicos de referência ou mesmo nas televisões. Lembrarei, por ordem cronológica, alguns nomes que teria sido bonito não esquecer, fugindo àquele jogo muito mundano e radical, que consiste em afirmar que, num século, só ficarão dois ou três nomes. É muito “chic” dizê-lo, mas até não costuma ser verdade. Como disse, num ou noutro caso, o nome aqui lembrado teve um aceno envergonhado e quase pedindo desculpa, mas o público, em geral, não deu por nada.

1) – MÁRIO BRAGA (1921 – 2016) – Foi Director-Geral da Secretaria de Estado da Comunicação Social, Membro do Conselho Consultivo das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Gulbenkian. Foi dramaturgo e, sobretudo, um apreciadíssimo contista, autor, por exemplo, destas colectâneas: SERRANOS, QUATRO REIS, LIVRO DAS SOMBRAS, CORPO AUSENTE. Como Director-Geral da Sec. de Est. da Comunicação social, fez, no início da nossa democracia, um porfiadíssimo trabalho, propiciando aos promotores da nossa diplomacia cultural, inestimáveis ferramentas.

2) – JORGE BORGES DE MACEDO (1921 – 1996) – Historiador e Professor, deixou vasta e importante bibliografia. Só alguns poucos títulos: A SITUAÇÃO ECONÓMICA NO TEMPO  DE POMBAL (1951); HISTÓRIA DIPLOMÁTICA PORTUGUESA. CONSTANTES E LINHAS DE FORÇA. ESTUDO DE GEOPOLÍTICA; OS LUSÍADAS E A HISTÓRA; CONSTANTES DA HISTÓRIA DE PORTUGAL.

3) – LEONEL NEVES (1921 – 1996) – Meteorologista e escritor, discretíssimo e não frequentador da feira literária, deixou-nos belíssimas adições ao nosso cânone lírico: JANELA ABERTA (1940); NATURAL DO ALGARVE (1968); ONTEM À NOITE (1989); MEMÓRIA DE TIMOR-LESTE (1990).
Deixou também livros para crianças e para jovens. Como poeta, merece bem ser lembrado, pela autenticidade de uma fina sensibilidade veiculada por uma notável oficina poética.

4) -  AMÉRICO DA COSTA RAMALHO (1921 – 2013) – Grande humanista, distinguiu-se como latinista, helenista e lusitanista. Foi Professor Catedrático da Universidade de Coimbra. Deixou uma vasta e importante bibliografia, de que assinalamos apenas alguns títulos: ALGUNS ASPECTOS DO CÓMICO VICENTINO (1973); ESTUDOS SOBRE O SÉCULO XVI (1980); ALGUNS ASPECTOS DA LEITURA CAMONEANA DE VIRGÍLIO (1986); ESTUDOS SOBRE A ÉPOCA DO RENASCIMENTO (1987); PARA A HISTÓRIA DO HUMANISMO EM PORTUGAL (1988); CAMÕES   NO SEU TEMPO E NO NOSSO (1992); LATIM RENASCENTISTA EM PORTUGAL (1994).

5) - VÍTOR DE SÁ (1921 – 2004) – Foi historiador, Professor universitário e activista político contra o Estado Novo, de formação marxista. Doutorou-se em Paris, na Sorbonne, em 1969, com uma tese sobre A CRISE DO LIBERALISMO E AS PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES DAS IDEIAS SOCIALISTAS.

6) - ARQUIMEDES DA SILVA SANTOS (1921 - 2019) – Figura importante do movimento neorrealista, formou-se em medicina, fez o curso de Ciências Pedagógicas e especializou-se em neuropsiquiatria infantil.
Obras: POESIA: VOZ VELADA (1958); CANTOS CATIVOS (1967), ENSAIO CIENTÍFICO:  LE VOL CHEZ LE GARÇON: CONTRIBUTION À L’ÉTUDE DE LA DÉLINQUANCE JUVÉNILE, Paris (1963).

7) - ANTUNES DA SILVA (1921 – 1997) – Nasceu e faleceu em Évora. Escritor neorrealista, deixou várias obras, entre as quais: VILA ADORMECIDA (1948); O APRENDIZ DE LADRÃO (1954); O AMIGO DAS TEMPESTADES (1958); SUÃO (1960); DIÁRIO I (1987); DIÁRIO II (1990).

8) - ERNESTO DE SOUSA (1921 – 1988) -  Fotógrafo, cineasta, crítico de arte, foi fundador do movimento cineclubista. Foi, com o filme DOM ROBERTO (1962), um dos fundadores do chamado NOVO CINEMA.

9) - NEVES E SOUSA (1921 – 1995) – Poeta e pintor português, foi muito cedo viver para Angola, de onde só saiu para o Brasil, em 1975. A sua obra reflecte muito a temática africana, tendo-se tornado conhecidas as suas abundantes QUEIMADAS. POESIA: MOTIVOS ANGOLANOS (1946); MOHAMBA.

10) - FRANCISCO JOSÉ TENREIRO (1921 – 1963) – Poeta e geógrafo. Foi aluno excepcional do Professor Orlando Ribeiro, que o estimulou a doutorar-se com uma dissertação sobre a Ilha de S. Tomé, de onde era original e onde veio a falecer. POESIA: ILHA DO NOME SANTO (1942); CORAÇÂO EM ÁFRICA (1962).

11) - CARLOS DE OLIVEIRA (1921 – 1971) – Ligado inicialmente ao neorrealismo, este escritor notabilizou-se na poesia e na ficção. Nesta última, com o romance FINISTERRA (1978), desviar-se-ia determinadamente do protocolo neorrealista, visando, malavisadamente, um público universitário, mais interessado, frequentemente, em “estudar” obras do que em fruí-las. O romance é de uma opacidade visada, conseguida e desnecessária. Mas deixou um acervo de romances notáveis: CASA NA DUNA (1943); ALCATEIA (1944); PEQUENOS BURGUESES (1948); UMA ABELHA NA CHUVA (1953). POESIA: MÃE POBRE (1945); COLHEITA PERDIDA (1948); TERRA HARMONIOSA (1960); CANTATA (1960); MICROPAISAGEM (1968); SOBRE O OMBRO ESQUERDO (1968); ENTRE DUAS MEMÓRIAS (1971); PASTORAL (1977).

12) - NATÁLIA NUNES (1921 – 2018) – Notável romancista, feminista e corajosa antifascista, esta lindíssima mulher foi casada com o poeta António Gedeão e deixou-nos, entre outras, as seguintes obras, nas áreas do memorialismo e da ficção: AUTOBIOGRAFIA DE UMA MULHERB ROMÂNTICA (1955); A MOSCA VERDE E OUTROS CONTOS (1957); ASSEMBLEIA DE MULHERES (1964); O CASO ZULMIRA L. (1967); AS VELHAS SENHORAS E OUTROS CONTOS (1992)."

Eugénio Lisboa, 02.12.2021

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Mário Quintana

Mario Quintana, por Santiago

O auto-retrato

No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...
às vezes me pinto coisas

de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e, desta lida, em que busco

- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,
no final, que restará?

Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!
Mario Quintana, in Apontamentos de História Sobrenatural, 1976.

Mario Quintana por ele mesmo:
" Nasci em Alegrete, em 30 de Julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas... Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade.
Mario Quintana - foto: Dulce Helfer -acervo/AE
Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro - o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu... Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! Sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?
Exactamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o facto de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Veríssimo - que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras."
______
Texto escrito pelo poeta para a revista IstoÉ , de 14/11/1984.

Eu escrevi um poema triste
Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza…
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel…
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves…
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

Mario Quintana, in “A Cor do invisível”, 1989.

§

Obsessão do mar oceano
Vou andando feliz pelas ruas sem nome…
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano…
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas… e moças na janelas
Com brincos e pulseiras de coral…
Búzios calçando portas… caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos…
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su’alma perdida e vaga na neblina…
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos…
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas…
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.
Mario Quintana, in “O Aprendiz de feiticeiro”, 1950.

§

Confissão
Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece…
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!
Mario Quintana, in “Velório sem defunto”, 1990.

Mario Quintana - foto: Dulce Helfer

Mario Quintana: um retrato biográfico do poeta
Poeta foi jornalista e traduziu Marcel Proust
por Moacyr Scliar* – (especial para a Folha**)
"Mario Quintana nasceu a 30 de Julho de 1906, na cidade de Alegrete (que os gaúchos preferem dizer: do Alegrete, no sotaque de fronteira). Uma noite muito fria, como são as noites do inverno gaúcho: um grau negativo.
Para comemorar, os irmãos resolveram comprar rapadura no mercadinho da esquina: “Quer dizer, eu fui saudado com duas rapaduras de quatro vinténs”, diz o poeta. Menos prosaicamente, ele lembra que “…no calendário chinês sou cavalo; no ocidental, leão, e no asteca, chuva”.
De um gaúcho da fronteira – região que foi conquistada a ferro e fogo aos espanhóis– se esperaria que preferisse os dois primeiros símbolos; mas Mario é poeta, e prefere a chuva, que lhe lembra o arco-íris e a sua composição favorita, a “Quarta Sinfonia”, de Gustav Mahler.
O pai enviou-o a Porto Alegre, para estudar no Colégio Militar. Gostava de português, francês e história, e era sempre reprovado em matemática: detestava a raiz quadrada e (mais anda) a cúbica, mas gostava de álgebra porque “lida com letrinhas”. Lidar com as letras: uma vocação que se manifestou cedo: aos 13 anos publica seus primeiros textos na “Hyloea”, revista dos estudantes do Colégio Militar.
Mas os fracassos escolares acabaram exasperando o pai. O farmacêutico Celso de Oliveira Quintana era um homem severo: “Filho vagabundo, não quero”.
Apesar de Mario estar empregado como caixeiro na tradicional livraria do Globo, exigiu que ele voltasse ao Alegrete para trabalhar na farmácia. Queria que o filho se tornasse doutor, não poeta.
Anos depois, Mario escreveria em memória do pai o poema “O Velho no Espelho”:
“Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse/que me olha, e é tão mais velho que eu?/ (…) Parece/meu velho pai –que já morreu!/(…) Nosso olhar –duro– interroga:/”O que fizeste de mim/” Eu, Pai/ Tu é que me invadiste./ Lentamente, ruga a ruga… Que importa/ Eu sou ainda /aquele mesmo menino teimoso de sempre/ e os teus planos enfim lá se foram por terra/mas sei que vi, um dia –a longa, a inútil guerra!– vi sorrir nesses cansados olhos/um orgulho triste…”
Em 1926, morre a mãe, Virginia de Miranda Quintana, e no ano seguinte, o pai; em 1927, ele tem um poema publicado na revista “Para Todos” do Rio dirigida pelo cronista (gaúcho) Alvaro Moreyra.
Voltou para Porto Alegre e passou a trabalhar num jornal político-partidário, “O Estado do Rio Grande”: “Eu achava muito chato. Então resolvi fazer um título em três colunas, rimado: um alexandrino, um decassílabo, um setissílabo”. Raul Pilla, dono do jornal, ficou irritado: “O título nada tinha a ver com a matéria –por acaso Mario não lia o jornal?” “Eu não lia mesmo. Afinal, trabalhava nele.”
Em 1930, começa a colaborar para a tradicional “Revista do Globo”. No mesmo ano estoura a revolução: alista-se como voluntário no Sétimo Batalhão de Caçadores e parte para o Rio, onde fica seis meses. Lá conhece Cecilia Meirelles, “a poesia em pessoa”.
1934 é um ano importante. Mario começa a trabalhar na Editora Globo, que era um importante centro intelectual. Sob a direção de Henrique Bertaso, que tinha a assessoria de Erico Veríssimo e outros escritores, a Globo lançava no Brasil os grandes autores da actualidade.
Excelente tradutor, Mario teve aí uma grande oportunidade. Fluente em inglês e francês, traduziu Somerset Maugham, Joseph Conrad, Aldous Huxley, Virginia Woolf, Guy de Maupassant, e sobretudo Marcel Proust com “aqueles períodos que dão volta à esquina”.
Em 1940, vem a consagração com os sonetos de “A Rua dos Cataventos” (Ed. Globo) Em 1943 outro passo importante: Mario introduz a poesia no jornal, criando uma secção chamada “Do Caderno H”. Publicada a princípio na revista “Província de São Pedro” e depois no tradicional “Correio do Povo” (1953) cativa o público leitor.
E os livros se sucedem: “Canções” (Ed. Globo, 1946), “Sapato Florido” (prosa e verso, Ed. Globo, 1948). “O Batalhão das Letras” (infantil –  Mario sempre teve um enorme público infantil– Ed. Globo, 1948) “O Aprendiz de Feiticeiro” (Ed. Fronteira, 1950), “Espelho Mágico” (Ed. Globo, 1951, com orelha de Monteiro Lobato), “Caderno H” (Ed. Globo, 1973) “Pé de Pilão” (infantil – Ed. Globo, 1975), “Apontamentos de História Sobrenatural” (Ed. Globo, 1976) “Esconderijos do Tempo” (Ed. L&PM, Porto Alegre, 1980).
E também se sucedem os prémios e homenagens, aos quais reagia com bom humor. Recebendo o título de cidadão honorário de Porto Alegre na Câmara de Vereadores (1967): “Antes, ser poeta era uma agravante, depois passou a ser uma atenuante e agora é uma credencial”.
Palavras suas, no busto com que a Prefeitura de Alegrete o homenageou (1968): “Um engano em bronze é um engano eterno”.
Pessoa muito simples, afável (costumava passear, quando tinha mais saúde, pelo centro de Porto Alegre, recebendo as homenagens dos porto-alegrenses) foi amigo de Drummond, Paulo Mendes Campos, Vinicius de Moraes e Manuel Bandeira, que sobre ele escreveu um poema famoso:
“Meu Quintana, os teus cantares/não são, Quintana, cantares/ são, Quintana, quintanares./ Quinta-essência de cantares/insólitos, singulares…/Cantares? Não! Quintanares!”
E Érico Veríssimo, na introdução a “Pé de Pilão”: “Descobri outro dia que o Quintana é na verdade um anjo disfarçado de homem. Às vezes, quando ele se descuida ao vestir o casaco, suas asas ficam de fora. Ah! Como anjo, o seu nome não é Mario e sim Malaquias…”

*MOACYR SCLIAR, gaúcho, foi escritor e médico sanitarista. Entre seus livros mais importantes estão os romances “A Guerra no Bom Fim” (1972), “Cenas da Vida Minúscula” (1991) e os volumes de contos “Histórias da Terra Trêmula” (1977) e “A Orelha de Van Gogh” (1989). Saiba mais AQUI!
**Originalmente publicado em Folha de S. Paulo, 6 de maio de 1994.