domingo, 19 de julho de 2020

Ao Domingo Há Música


                                            A  música é a língua  das emoções
                                                                           Emmanuel Kant

                                         Sei que canto. E a canção é tudo.
                                         Tem sangue eterno a asa ritmada.
                                         E um dia sei que estarei mudo:
                                         – mais nada.
                                                 Cecília Meireles, Antologia Poética

Roubámos esta estrofe ao poema "Motivo",  de Cecília Meireles. Quer a poesia  quer a música são sempre um motivo maior para nos rendermos. E se traz consigo a sonoridade de uma voz límpida e ritmada , a música expande-se   e sublima-se em  linguagem de emoções.  
Ilse de Lange & New Amsterdam Orchestra, em I still cry.
 Ilse de Lange & New Amsterdam Orchestra, em Miracle

sábado, 18 de julho de 2020

O Preconceito Linguístico

Preconceito de linguagem 
Por  António Torres
"Na Roménia, segundo dizem os jornais franceses, que agora muito se interessam por tudo quanto diz respeito aos moldo-valáquios, na Roménia há certas palavras que em todas as outras línguas cultas têm significação nobre e que entre os romenos têm significação pejorativa. Chamar, por exemplo, a algum romeno marquês, ou condessa a alguma romena, é cometer injúria e grande. Entre eles, não se diz príncipe em romaico, porque esta palavra tem a significação analógica de jogral; de sorte que adoptaram lá a palavra francesa prince, para designar qualquer membro da família real. A palavra rei também é injuriosa. Tanto assim que, na tradução do livro bíblico dos Reis, escrevem os romenos Livro dos Imperadores!
Em português há também palavras de significação primitivamente honesta e que entretanto agora não podem ser pronunciadas diante de pessoas de respeito. No norte de Minas, por exemplo, como no Norte de todo o país, chamar dama a uma senhora é arriscar a pele. Dama, lá por aquelas plagas, é “mulher perdida”.
A palavra moça pode ser pronunciada diante de quem quer que seja. “Esta menina está ficando moça” — “Sua filha é uma bela moça” — são expressões correntes. Entretanto, querendo alguém referir-se à amásia de alguém diz: “A moça de Fulano”!
Rapariga! É uma das palavras mais lindas da nossa língua. Em Minas, entretanto, rapariga aplica-se mais às mulheres do serviço doméstico, isto é, amas, cozinheiras, arrumadeiras, etc. Aqui, já vai tendo significação pejorativa: casa de raparigas é o mesmo que bordel. Ora, é um absurdo isso. Rapariga é simplesmente feminino de rapaz. Seria encantador poder toda gente dizer, como ainda há dias ouvi dizer a um espírito eminente, que me dá a honra da sua amizade: “V. não imagina que rapariga valente é a  minha mulher”.
Mãe! Não se discute a beleza desta suavíssima palavra. Pois também a palavra mãe vai assumindo significação equívoca. Em certas locuções é um vocábulo pelo menos suspeito. Os jornais já começam a substituí-lo por progenitora. É incrível! Que qualquer palavra possa derrancar com o tempo compreende-se; mas a palavra mãe? O noticiário elegante tem receio de dizer: “Faz anos hoje a Sra. Dona Fulana, muito digna mãe do nosso amigo Sr. Beltrano”. Em vez de mãe, escrevem progenitora, que é uma palavra erudita, seca, como todas as coisas eruditas, fria e pernóstica. Mãe é alguma coisa tépida, doce, nobre como o colo materno. Progenitora é simplesmente uma delicadeza de moleque bem-falante."
Mãe, colegas, mãe! Devemos escrever “a mãe do Sr. Fulano”, da mesma forma que escrevemos “O pai do Sr. Beltrano” e “o filho de Dona Sicrana”. Ninguém diz na intimidade — “vou beijar minha progenitora”, mas simplesmente — “vou beijar minha mãe”.
É para desejar que os jornais abandonem de uma vez a palavra progenitora, que é, etimologicamente, muito mais grosseira do que mãe. Progenitora compõe-se do prefixo pro e da raiz genite, de gigno, gignis, genui, genitum, gignere, que quer dizer gerar. De maneira que, posta em bom vernáculo, progenitora é a pró ou antegeradora do Sr. Fulano. Não sei onde está a delicadeza desta expressão…. Por conseguinte, de uma vez para sempre, estabeleçamos que os homens têm virtuosas e dignas mães, e não ridículas e pernósticas progenitoras." 
António Torres, em António Torres:Uma antologia, Rio de Janeiro, Topbooks, 2002, pp.153

sexta-feira, 17 de julho de 2020

A poesia e a vida

A poesia e a vida
por Edgar Morin
“Para mim, o problema da felicidade é subordinado àquilo que chamo de “O problema da poesia da vida” ou seja, a vida, a meu ver, é polarizada entre a prosa- ou seja, as coisas que fazemos por obrigação, que não nos interessam, para sobreviver e a poesia – o que nos faz florescer, o que nos faz amar, comunicar. E é isso que é importante.
Então, eu digo que o verdadeiro problema não é a felicidade – é a questão que faço a mim -, porque a felicidade é algo que depende de uma multiplicidade de condições, e eu diria mesmo que o que causa a fragilidade é frágil, porque, por exemplo, no amor de uma pessoa, se essa pessoa morre ou vai embora, cai-se da felicidade à infelicidade. Não se pode sonhar com uma felicidade contínua para a humanidade.
É impossível porque a felicidade, repito, depende de uma soma de condições. Então, por outro lado, o que se pode dizer, pode-se tentar favorecer tudo o que permita a cada um viver poeticamente a sua vida e, se  vive poeticamente  encontra momentos de felicidade, momentos de êxtase, momento de alegria e, na minha opinião, é isso.”
Edgar Morin, Revista Prosa Verso e Arte

quarta-feira, 15 de julho de 2020

A homenagem de Barbara Hendricks a Claude Nobs


Barbara Hendricks  presta homenagem a Claude Nobs, no concerto organizado no Auditorium Stravinski de Montreux, a  8  de Fevereiro de  2013. Mathias Algotsson acompanhou-a ao piano.
A  24 de Dezembro de  2012, na véspera do Natal, Claude Nobs  sofreu um acidente de ski. Mergulhando num  coma, acabou por morrer aos 76 anos,  a 10 de Janeiro de 2013, em Lausanne, Suiça. Foi fundador e director do Festival de Montreux, um dos mais importantes do mundo não só na cena do jazz, mas principalmente por ter levado, pela primeira vez à Europa, uma lista de artistas importantes de todo o mundo desde os  Estados Unidos, África, Ásia ao Brasil. Era o jovem Secretário de Turismo de Montreux, quando visitou a gravadora Atlantic, em Nova Iorque, e de lá saiu com uma ideia. Em Junho de 67, os jazzistas Keith Jarrett e Jack DeJohnette foram as principais atracções da primeira edição do que se tornou um dos maiores festivais do planeta: o Festival de Jazz de Montreux.
L'hommage du Montreux Jazz Festival:
"Cher Claude,tu nous a quitté ce jeudi 10 janvier, quelques jours après ton accident à Caux-sur-Montreux, dans ces montagnes que tu aimais tant, surplombant un lac que tu as si bien mis en valeur. Dans ton regard, il y a toujours eu cette étincelle lorsque tu surprenais les gens. Pour nous qui t'avons croisé, tu resteras celui qui a remis en question les certitudes.
Pourquoi pas? Ta question revenait sans cesse lorsque nous t'expliquions ce qui empêcherait un projet de se concrétiser. La réalité n'est jamais à la hauteur des rêves mais tu préférais les seconds. Le Festival en est la preuve la plus visible, mais pas la seule. En chacun de nous résonne cette audace, mélange d'envie et de partage, qui t'a permis de donner et de recevoir au-delà du raisonnable.
erci de nous avoir amené là où nous ne pensions pas pouvoir aller. Et comme il se doit, tu es parti par surprise pour nous rappeler que dans la vie comme dans la musique, chaque jam peut être la dernière. Tu voulais une sortie à l'image de ta vie, tu as réussi. Nous portons et porterons en nous tout ce que tu nous a appris.
Merci Claude.
Ton équipe d'hier, d'aujourd'hui et de demain.
Montreux, le 10 janvier 2013"

terça-feira, 14 de julho de 2020

Saudação a Che Guevara


Che Guevara
Saudação a Che Guevara
                                                   
No sonho da liberdade
onde cada mártir renasce,
onde não há homem sem terra
onde não há povo sem face.
Num tempo..., gesto de sangue
no sangue..., gesto de amor,
no amor de quem se deu
como um perfume de flor.
E nessa flor de montanha
aberta pro continente,
nesta beleza tamanha
na minha fé deslumbrante
tu estás, meu Comandante,
numa saudade bem clara
dos que morrem e que renascem
contigo, Ernesto Guevara.

No nosso ódio indigesto
na voz da  rebelião,
na passeata de protesto
em cada homem sem pão,
em cada cidadão livre
que é metralhado na rua,
no seio de cada greve
no salário de quem sua,
na opressão e na fome
nesse mal que nos consome
como farol claro e forte
surge tua imagem, teu nome
teu braço de guerrilheiro
teu sonho e tua verdade
nos apontando o roteiro
em busca da liberdade.

Nas pátrias negociadas
desta América sofrida,
na ditadura instalada
na terra não repartida,
em toda prisão injusta
em todo estudante morto
em cada homem sem rosto
de quem outro vive à custa.
No massacre dos mineiros
e na luta que liberta.
Nos punhos do militante
e na rubra flor do combate,
tu estás, meu Comandante.

Enquanto a noite se escorre
na garganta da ampulheta
as gerações se preparam
para a estação da colheita.
A semente está brotando                                                                
na flor da revolução
e a consciência do povo
vai tomando posição.
Tu semeaste a bom tempo
os grãos dos frutos por vir
que levados pelo vento
no estampido dos metais
brotam nos campos ao sul
das terras continentais.

Adios, adios, hasta siempre
meu imortal Comandante...
na terra há flores se abrindo
no peito a fé triunfante
no tempo um caminho aberto
e nele os homens sorrindo
num largo gesto de hermano
na busca de um mundo novo
da pátria purificada
para a alegria do povo.
                                 Curitiba, Outubro de 1968
Manoel de Andrade, in " Poemas para a Liberdade, Edição Bilíngue, Editora Escrituras, São Paulo Brasil

Nota de Livres Pensantes
Manoel de Andrade foi perseguido após a divulgação deste poema. A ditadura militar, que martirizava o Brasil,  não permitia quem saudasse Che Guevara e  ainda menos quem aspirasse  à Liberdade. Manoel de Andrade foi obrigado a abandonar o Brasil, a exilar-se e iniciar  uma longa diáspora pela América Latina. 

Vende-se a casa de Che Guevara

Casa natal de Che: vende-se
O apartamento em Rosário, onde o guerrilheiro nasceu em circunstâncias confusas, é oferecido após falhar a tentativa de criar um memorial
por Enric González
"A casa natal de Ernesto Che Guevara está à venda. Trata-se de um apartamento de mais de 200 metros quadrados em um dos edifícios mais elegantes de Rosário. Os proprietários pedem  400.000 dólares (cerca de 2,15 bilhões de reais). Queriam transformar a residência em um espaço cultural, mas os vizinhos bloquearam o projeto. Ninguém sabe o que vai acontecer agora. O edifício de estilo francês localizado na esquina das ruas Urquiza e Entre Ríos foi construído em 1927 por Alejandro Bustillo, o mais célebre arquiteto argentino.
Era praticamente novo em 1928, quando Celia de la Serna deu à luz o  primeiro filho nesse apartamento no segundo andar. As circunstâncias são confusas. Por que Celia de la Serna e Ernesto Guevara Lynch, residentes de uma fazenda agrícola em Caraguatay (Misiones) e em Buenos Aires, estavam em Rosário? Mesmo a data oficial de nascimento, 14 de Junho, está em questão.
Segundo a versão oficial, os pais do futuro guerrilheiro estavam viajando da fazenda para a capital pelo rio Paraná quando ela começou a sofrer as dores do parto e tiveram que deixar a embarcação em Rosário. John Lee Anderson, biógrafo de Che, oferece uma explicação alternativa e que se opõe à da própria família. Como a gravidez começou três meses antes do casamento, o casal de classe alta preferiu se esconder numa cidade onde não eram conhecidos. A data real de nascimento seria, na realidade, 14 de Maio, mas eles só foram ao cartório em 14 de Junho, para que a criança pudesse passar por nascida de sete meses.
O pequeno Ernesto Guevara morou bem poucos meses no apartamento de Rosário. Em Dezembro de 1928, a família já residia em Buenos Aires e, anos depois, em Córdoba. A lembrança do local de nascimento do revolucionário foi apagada com o passar do tempo. Mas, após a queda da última ditadura militar, em 1983, foi reavivada. A proprietária do apartamento, de sobrenome Repetto, começou a receber visitantes ilustres. Em 2002, após o colapso económico da Argentina, o empresário ítalo-argentino Francisco Farruggia viu no Corriere della Sera um anúncio da venda da casa onde nasceu Che. Em parceria com o empresário espanhol Manuel de la Rica (chefe de publicidade do EL PAÍS nos anos 80), ele encarregou o advogado local Horacio Baldoni de comprar o apartamento. E este fez isso.
Farruggia e De la Rica tinham grandes projectos para a residência. Queriam criar um centro cultural e envolveram pessoas ilustres de Rosário, como o escritor Roberto Fontanarrosa e a cantora Mercedes Sosa. Mas Fontanarrosa morreu em 2007, Sosa, em 2009, e os moradores do prédio se recusaram a aceitar a abertura de um museu ou centro cultural no local. Com o apartamento transformado num santuário, cheio de fotos icónicas, mas sem possibilidade de acesso ao público em geral, apenas alguns privilegiados puderam visitá-lo nos últimos 18 anos. Pessoas como os próprios filhos de Che, o bioquímico Alberto Granado (que morreu em 2011), com quem o jovem Che percorreu de motocicleta a América Latina, e o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica. O escritor Ernesto Sábato foi convidado, mas preferiu ficar no portal da rua, diante da placa comemorativa, como qualquer cidadão que percorre o chamado “circuito Che” em Rosário.
Os dois proprietários dizem que já se sentem idosos e querem  livrar-se de um apartamento vazio e caro de manter. Francisco Ferruggia disse à Infobae que já haviam recebido várias ofertas e que, apesar de não poderem fazer exigências ao futuro comprador, favoreceriam quem se comprometesse a preservar "a memória histórica do apartamento".
A agência imobiliária apresenta assim a residência: “Um edifício de categoria, com estética elegante de época. Possui um hall de recepção, um amplo living, sala de estar com espaço de trabalho, cozinha separada com móveis debaixo da bancada e despensa, sala de jantar. Quatro quartos de dormir  amplos com guarda-roupas, banheiro completo. Aquecimento central”. Não faz referência a quem nasceu naquele “edifício de categoria."
Enric González, El País, Buenos Aires - 13 Jul 2020 -
Leia mais sobre este tema:
El Che, um argentino incômodo
Che Guevara, um leitor compulsivo em plena selva

domingo, 12 de julho de 2020

Ao Domingo Há Música

Tu me acostumbraste

Tu me acostumbraste
A todas essas cosas,
Y tu me enseñaste
Que son maravillosas.

Sutil llegaste a mi
Como una tentación
Llenando di inquietud
Mi corazón.

Yo no concebia
Como se queria
En tu mundo raro,
Y por ti aprendi.

Por eso me pregunto
Al ver que me olvidaste
Por que no me enseñaste
Como se vive sin ti.

Neste domingo quente de Julho, vamos ouvir  Alma Nuestra , uma banda criada por dois amigos, Salvador Sobral e Victor Zamora, que partilham uma paixão pelos doces sons da América Latina e, em simultâneo, pelo Jazz. Posto isto, chamaram outros dois companheiros e deram uma volta às já bem conhecidas e intemporais canções de Cuba, Argentina e de outras terras sul americanas reinventando-as e tornando-as únicas e pessoais.
O disco homónimo foi lançado em Portugal no final de 2019 e internacionalmente, pela Warner Music Spain, em Junho de 2020.
Salvador Sobral explica-nos  como foi o percurso até à formação de Alma Nuestra:  “Na vida fui passando por várias obsessões musicais temporárias: Stevie Wonder na infância, Hip-Hop na adolescência, mais recentemente a Chanson Française, etc.... Todavia, existem duas correntes musicais que, depois de terem entrado na minha vida, não mais me abandonaram - o Jazz e a Musica Cubana. Ora, numa bela noite de Primavera lisboeta conheci, no "Onda Jazz", um verdadeiro filho destas duas sonoridades, Victor Zamora, pianista cubano com colcheia de jazzman, que viria a revelar-se o cúmplice idóneo para criar um projecto que juntasse estas duas paixões. E assim foi, Alma Nuestra foi crescendo a par com a nossa amizade. Sentávamo-nos os dois ao piano e dávamos início ao nosso processo criativo: pegar num bolero antigo e destruí-lo completamente, sem vergonha nenhuma na cara. Mais tarde juntaram-se outros dois parceiros a este crime tropical - Nelson Cascais e André Sousa Machado que, com as suas ideias cheias de sensibilidade e musicalidade, trouxeram o que faltava para definir a identidade desta alma nossa.”

Salvador Sobral &Alma Nuestra apresentam Tu me acostumbraste.
Voz - Salvador Sobral
Piano - Victor Zamora
Contrabaixo - Nelson Cascais
Bateria - André Sousa Machado
Salvador Sobral & Alma Nuestra apresentam “Tú mi delirio”.
"Compuesta originalmente por César Portillo de la Luz, es el segundo single del inminente nuevo proyecto de Salvador Sobral titulado ALMA NUESTRA, que verá la luz el 26 de Junio en todo el mundo. Un disco íntegramente interpretado en castellano, que aúna dos de sus pasiones musicales: el jazz y la música cubana. Salvador se ha aliado en esta ocasión con el pianista cubano Victor Zamora, el cómplice perfecto para este proyecto, en el que llevan los grandes boleros al terreno del jazz. El duo se completa con el contrabajista Nelson Cascais y el baterista André Sousa Machado quien, con sus ideas llenas de sensibilidad y musicalidad, aportaron lo que faltaba para definir la identidad de nuestra alma."