quarta-feira, 13 de maio de 2020

Made in Portugal


Carlos Paredes , em  Verdes anos, peça de Carlos Paredes  que faz parte do Álbum "Guitarra Portuguesa", editado em 1967. 

TEMPESTADE, de Pedro Abrunhosa , por Pedro Abrunhosa e Carolina Deslandes. Ao Piano: Pedro Abrunhosa e na Guitarra: Bruno Macedo
Produção: Diogo Piçarra, João Bessa, Pedro Abrunhosa, Rui Paiva. Captação: João Bessa, assistido por Rui Paiva. Mistura e Masterização: João Bessa.
Pedro Abrunhosa, com Camané, em   "Para os Braços da Minha Mãe". Música e Letra - Pedro Abrunhosa. Produção - Pedro Abrunhosa e João Bessa. Gravação - Estúdio Namouche por João Bessa assistido por Quim Monte. Misturado e Masterizado nos Boomstudios por João Bessa.
Cantiga de Maio, canção de José Afonso, por Carlos Paredes, com Nuno Guerreiro e Natália Casanova nas vozes. Fernando Alvim na Viola e Manuel Paulo no órgão e acordeão. Registo efectuado em 1992, no Teatro São Luiz, em Lisboa.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Socorro

Socorro
por Gabriel Garcia Márquez
" Uma vez li um livro, ou vi um filme, ou alguém me contou um facto real, com o seguinte argumento: um oficial de marinha meteu de contrabando a sua amada no camarote de um navio de guerra, e viveram um amor desmesurado dentro daquele recinto opressivo , sem que  ninguém os descobrisse durante vários anos. A quem saiba quem é o autor desta belíssima história peço que mo faça saber com urgência, porque o perguntei a tantos e tantos que não o sabem, que já começo a suspeitar que se calhar me ocorreu a mim alguma vez e já não me lembro. Obrigado."
                                                 25 de Janeiro de 1984, El País, Madrid

Gabriel Garcia Márquez , in " Como se escreve um romance - O Escândalo do Século", Publicações Dom Quixote, Maio de 2019,  p 381

segunda-feira, 11 de maio de 2020

O poder das palavras em tempo de peste

Um magnífico e inédito  poema de Eugénio Lisboa, escrito neste tempo de peste,  que publicamos com singular deleite.

O PODER DAS PALAVRAS
EM TEMPO DE PESTE

As palavras o que podem? Se pesam
demais e vão além do que é preciso,
ofendem  a subtileza e lesam
o valor do que deve ser conciso.

Se ficam aquém do que é necessário
e dizem menos do que foi sentido,
se o pensamento dito sai precário,
todo o esforço de dizer foi perdido.

Face a uma grande calamidade,
dilúvio, peste, fome ou guerra,
as palavras perdem vitalidade
e tremem do mal que assola a terra.

As palavras podem só o que podem
e sugerem, das nossas emoções,
uma leve sombra – e mal acodem
ao tumulto das nossas aflições.

Porém, as palavras são o que temos
e só com elas ao nosso dispor
iremos fazer o que podemos:
dar ao nosso mundo alguma cor.
                                         8.05.2020
Eugénio Lisboa,
O Eça disse-o de outra maneira mais pícara:
Pilriteiros que dás pilritos
por que não dás tu coisa boa?
Cada um dá o que pode
conforme a sua pessoa!

domingo, 10 de maio de 2020

Ao Domingo Há Música

  
                        Depois do silêncio, aquilo que mais aproximadamente                                             exprime o inexprimível é a música.
                                  Aldous Huxley

Não que as palavras  sejam  aquelas que   escolheria, mas os sons e as vozes chegam em harmonia e deixo-me ir no ritmo que vão provocando . Murmuro, articulo, grito , expludo, calo-me, silencio-me  para  regressar, com outro fôlego, ao  ponto que já não  é o mesmo da partida.
A música é assim. Seduz-nos, transporta-nos, embala-nos e ,de catarse em catarse, purifica-nos, redime-nos. 
Tudo isso os Scala & Kolacny Brothers  fazem eclodir em nós,  na bela versão  de  Creep,  canção dos Radiohead , de 1992.

Os Scala & Kolacny Brothers,  em  Every Breath You Take , canção dos Police , de 1983.

sábado, 9 de maio de 2020

Hamlet

Laurence Olivier e Jean Simmons
 em Hamlet,1948
"Polónio para Laertes: "Não dês língua ao teu pensamento nem concedas o seu acto ao pensamento desmedido. Sê simples, mas de modo nenhum vulgar. Prende ao teu amor com ganchos de aço os amigos cuja escolha experimentaste. Mas não calejes a tua mão acolhendo cada novo camarada que te surja. Teme entrar numa questão, mas tendo entrado, porta-te de forma a que teu opositor te tema. Dá a muitos o teu ouvido e a poucos a tua voz. Acolhe cada censura mas reserva o teu julgamento."
Hamlet para um actor: "Também não te deves dominar demais, mas deixa que a tua discrição seja o teu guia. Ajusta a acção com a palavra e a palavra com a acção; com um cuidado especial em não forçar a modéstia da natureza. Pois tudo quanto é exagerado se desliga do objecto próprio do teatro, cuja finalidade, tanto no começo como agora, foi e é, por assim dizer, erguer um espelho em frente à natureza; para mostrar à virtude o seu próprio rosto, ao mal a sua própria imagem, e a cada século e a cada encarnação do tempo a sua forma e seu cunho..."
Rei: "(...)Para que serve a misericórdia senão para olhar de frente o rosto do pecado?"
William  Shakespeare, in Hamlet,  Assírio & Alvim Editores 
"Hamlet" de Shakespeare
“A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca” é da autoria de William Shakespeare (1564-1616) e foi escrita entre 1599 e 1601, tendo lugar no Reino da Dinamarca. Conta a história de como o Príncipe Hamlet tenta vingar a morte de seu pai, Hamlet, o rei, executado por Cláudio, seu irmão que o envenenou e em seguida usurpou o trono, casando-se com a rainha Gertrude.
A Dinamarca estava em luta com a Noruega e havia o risco de uma invasão liderada pelo príncipe Fórtinbras. O tema deriva da lenda de “Amleth”, preservada no século XIII pelo cronista Saxo Gramaticus, na sua Gesta Danorum. O reino da Dinamarca é o mais antigo da Europa e começou a consolidar-se no final do século VIII, numa história complexa e rica. Tudo começa numa noite fria no Castelo de Elsinore. As sentinelas dizem a Horácio, amigo de Hamlet, que viram o fantasma do rei morto. E Horácio encontra-se com o Fantasma. Então Hamlet deseja vê-lo com seus próprios olhos e consegue. O espírito revela a Hamlet que Cláudio matou o pai com veneno e pede que o filho vingue tal crime. Hamlet concorda, apesar das dúvidas, decidindo aparentar a loucura para não levantar suspeitas. Ocupados com os assuntos de Estado, Cláudio e Gertrude tentam defender-se da invasão norueguesa. Preocupados com o comportamento de Hamlet e com a sua profunda depressão pela morte do pai, pedem a Rosencrantz e Guildenstern, para descobrirem a causa da estranha mudança de comportamento de Hamlet. Polónio, o primeiro conselheiro de Cláudio, e Laertes, seu filho, de partida para França, não acreditam na sinceridade dos amores de Hamlet por Ofélia, filha de Polónio, dissuadindo-a dessa ligação. Ofélia também está preocupada com o comportamento estranho de Hamlet, mas confessa ao pai que o príncipe vai encontrar-se com ela no palácio. Polónio percebe que Ofélia ama Hamlet, e interpreta a loucura do Príncipe em virtude desse amor – e avisa Cláudio e Gertrude do que se passa. Hamlet mantém a dúvida sobre o segredo revelado pelo espectro e aproveita a chegada a Elsinore de uma trupe de cómicos para encenar a representação do assassinato, para tentar demonstrar a culpa ou a inocência de Cláudio. Quando ocorre a representação do crime, Cláudio ergue-se e abandona a sala, o que Hamlet interpreta como prova de sua culpabilidade. Cláudio teme pela própria vida e decide enviar Hamlet para Inglaterra, com Rosencrantz e Guildenstern, para ser eliminado. Gertrude chama o filho ao seu quarto. No caminho, Hamlet hesita em matar Cláudio, mas não o faz porque este está em oração. Polónio espia por detrás das cortinas, mas denuncia a sua presença. Hamlet julga tratar-se de Cláudio e mata-o com uma estocada certeira através do cortinado. O Fantasma volta a aparecer, continua a pedir vingança, mas pede que Hamlet trate a sua mãe com doçura. Conhecendo a morte do pai, Ofélia enlouquece. Laertes regressa de França e não duvida da culpa de Hamlet. Cláudio propõe a Laertes uma luta à espada com Hamlet onde o primeiro utilizará uma espada envenenada, enquanto a Hamlet será dada uma taça de vinho com veneno. Gertrude dá a notícia de que Ofélia morreu afogada. Junto da que será a sepultura de Ofélia, Hamlet aparece com Horácio e segura o crânio que deve ser do velho bobo Yorick, que conheceu na infância. “Ser ou não ser, eis a questão”. Quando o cortejo fúnebre surge liderado por Laertes, este envolve-se com Hamlet, mas os circunstantes separam-nos. No regresso a Elsinore, Hamlet é desafiado a lutar à espada com Laertes. O duelo inicia-se e Hamlet atinge Laertes três vezes sem ser atingido por ele. Cláudio oferece a taça envenenada a Hamlet, mas este recusa-a e é a Rainha que bebe o vinho. O duelo prossegue e Laertes atinge Hamlet, mas o príncipe da Dinamarca também atinge o antagonista num estoque fatal. A Rainha morre e Laertes também, revelando o plano de Cláudio. Então Hamlet consuma o pedido de seu pai e põe fim à vida do rei. Ao morrer, Hamlet pede a Horácio que viva para poder contar a todos a sua história e a verdade sobre o que havia de podre no Reino da Dinamarca.
(Sophia de Mello Breyner Andresen é autora de uma das mais belas traduções em português desta obra-prima).
Agostinho de Morais, in  Trinta Clássicos das Letras, CNC, 25 de Agosto de 2019

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Um vislumbre do fim


Um vislumbre do fim
"Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. O meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de ‘dois e dois são quatro’ é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até ao gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto...” 
Clarice Lispector,in " Aprendendo a viver", Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Correspondência entre Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner

Jorge de Sena «aqui no meio de nós» - Revista Caliban
Jorge de Sena
Muitos eventos assinalaram o centenário do nascimento de Jorge de Sena que ocorreu em Novembro de 1919, em Lisboa. Este grande nome da nossa Literatura  morreu em Santa Bárbara, na Califórnia, a 4 de Junho de 1978, com apenas 58 anos . Deixou uma importante obra distribuída por diferentes géneros literários. Entre os múltiplos livros, que foram publicados, está uma série de tomos dedicada à sua epistolografia devido à dedicação e árduo labor de sua mulher Mécia Sena.  
Mécia de Sena
Mécia de Sena, a viúva de Jorge de Sena, faleceu a 28 de Março passado, em Los Angeles, Califórnia, com 100 anos de idade.
Nascida em Leça da Palmeira, em 16 de Março de 1920, Mécia de Freitas Lopes Sena era filha do músico e compositor Armando Leça, investigador do “Cancioneiro Musical Popular Português”, e irmã do professor, crítico literário e historiador Óscar Lopes (1917-2013). Formada em Ciências Histórico-Filosóficas, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, detentora do curso do Conservatório de Música do Porto, foi professora, primeiro, e, depois do casamento, em 1949, “colaboradora literária” de Jorge de Sena, e “à altura dele”.A opinião é do próprio escritor, para quem, “sem o [seu] apoio, não teria sido possível realizar talvez metade do que realizou, quer como autor, quer como professor”, recordou Rui Silvino de Freitas Lopes, na sua crónica familiar, citada pela investigadora Maria Otília Pereira Lage, na obra “Mécia de Sena e a escrita epistolar com Jorge de Sena: Para a história da cultura portuguesa contemporânea”.
Mécia foi a companheira e a a presença atenta de Jorge de Sena, seu marido. Vamos transcrever três cartas  da Correspondência de Jorge de Sena com Sophia de Mello Breyner, sendo que nos apraz  transcrever uma carta em que Mécia reforça o que acabámos de afirmar. 

                                                             Lisboa, Abril de 1976
Caríssimo Jorge
Chegaram notícias de que estavas doente. Podes imaginar quanto me preocupo. Estou certa que já melhoraste, mas queria ter notícias concretas. Peço por isso uma palavra da Mécia ou de algum dos teus filhos.
É evidente que o teu trabalho contínuo e espantoso acabaria por te cansar.  Não seria possível que aí te dessem uma reforma para poderes  voltar a este país onde fazes tanta falta! Falta aos teus amigos e falta a tudo. Se estivesses aqui isto não correria tão mal.
O facto de não estares  em Portugal começa a tornar-se intolerável. Alguns anos de censura podiam suportar-se com desportivismo. Agora não. Agora está a tronar-se uma vida de ausência. Uma ausência  que é o nosso próprio desencontro com os nossos amigos e o desencontro deste país consigo próprio. 
Não será possível que aí te dêem qualquer reforma, não poderá invocar a doença, ou pedir ao menos um ano de férias?
O problema , a tragédia de toda esta revolução é a sua INCOMPETÊNCIA CULTURAL.  Desde  a descolonização onde tudo se fez com um despacho simplicíssimo, primário «ad hoc», até à reforma agrária falseada e demagógica! Passando pela constituição onde se lutou pela vitória da estupidez  com o maior sucesso salvo alguns pontos  que a muito  custo foi possível salvar.  Houve até um grupo parlamentar, numa reunião de discussão, respondesse à minha crítica  à má redacção  de um articulado, dizendo-me  que  « o povo não precisa de gramática».Vi  dia a dia como a esquerda se suicida.
Será ainda tempo de emergirmos de todos estes erros e demagogias soezes? Não podes imaginar como me tenho sentido sozinha!
Escrevi um artigo onde falo de ti. Dei-o à Luta, se sair amanhã meto-o dentro desta carta.
O PS tem gente óptima e válida que é normalmente marginalizada e perseguida excepto aqueles que como Mário [Soares] e o [ Francisco Salgado] Zenha têm tanta importância  para o partido  que só são atacados por via muito indirecta. Surgiu no PS uma pseudo ala -esquerda que, em parte, demagógica e inconsciente, é em parte oportunista e que chama a «ala direita» a todas as pessoas responsáveis.
Lembro-me muitas vezes do título do teu livro , No Reino da Estupidez.
Vou parar as lamentações.
Fui à Líbia que adorei. Estive nos Açores que são uma maravilha.
A minha filha Sophia casou com o filho do Gonçalo Ribeiro Telles, grande amigo nosso. O meu filho Miguel teve um filho que se chama Pedro e que faz amanhã um ano!
O meu filho Miguel parte em breve para a América para uma viagem de um mês, viagem de trabalho, à Califórnia. Se passar perto de ti irá ver-te.
Mil saudades para ti,  Mécia e filhos. Peço notícias.
Abraça-os a todos
                                                                                      SOPHIA

                                              Santa Barbara, 15 de Maio de 1976
Caríssima Sophia
Aqui vão as letrinhas que pede e me foi impossível enviar antes. Muito e muito obrigada pelo seu cuidado  e pelas palavras amigas que dirige ao Jorge e o deixaram comovido.
Quanto à saúde  dele ainda que esteja  tremendamente débil parece que vai melhorando a despeito  dos dias de tremenda depressão  e por vezes irritabilidade , por se sentir  tão incapaz do mínimo esforço. Claro que tudo isto foi a consequência do trabalho excessivo e mais ainda o envolvimento emocional  que cada vez mais punha em tudo. E, para agravar a situação, a frustração e o desgosto do que se foi passando aí, mais o nascimento do nosso neto que, embora lindo e gracioso, podemos perder a todo o instante porque tem o coração incrivelmente mal formado.
Eu não vejo maneira de voltarmos para Portugal e agora mais do que nunca. Ninguém se lembrou do Jorge para nada nem o chamou para nada e nós não tínhamos de que sobreviver para voltar sem nada, à espera que caísse do céu. Por outro lado o Jorge não tem ainda direito a uma reforma que nos permita sobreviver e difícil seria  conformarmo-nos  a não ter , ao menos, o decente nível de vida que aqui temos. E isto para não falar em que, realmente,visto de longe temos a impressão que nunca esse país foi tão sórdido e tão medíocre. 
Mas, a verdade é que neste momento  nem sequer podemos pensar noutra coisa  senão no restabelecimento do Jorge. O ataque de  coração que sofreu foi gravíssimo e eu nem  sequer sei exactamente o que o médico pensa, se é que pensa, das possibilidades futuras dele.  Se o Jorge  for melhorando e o médico concordar é possível que dê, com ele, um salto não sei aonde , na Europa, para lhe restabelecer a confiança nele mesmo, mas tenho tanto medo da reacção dele, a julgar pelo estado de desânimo e desgosto com que o vi regressar no Verão de 74, que nem sequer sei se iremos a Portugal.
Se o Miguel aqui aparecer recebê-lo-emos com imenso gosto, assim ele descubra que na América não há distâncias. A Los Angeles , 150 quilómetros daqui, vamos nós para ir ao cinema ou a um concerto.
O Jorge agradece-lhe a fotografia que está linda. E envia-lhe , bem como ao Francisco, as melhores lembranças. Um afectuoso abraço da 
                                                                                            MÉCIA

                            Santa Barbara , Cal., USA, 5 de Setembro de 1976
Querida Sophia

Deves ter recebido recentemente o meu livro de contos, que esperou anos para poder sair. Mas não é para isto que escrevo. Creio que não chegaste a saber que, em 25 de Março , fui quase fulminado por um ataque de coração, de que só agora começo a voltar a uma muito relativa normalidade, ainda que o especialista que me vigia se mostre muito satisfeito com o que ele acha uma extraordinária recuperação para a violência  do raio que me ia fazendo em cisco. Já antes , por meses, a minha vida, era aqui um inferno ( a que se somavam as angústias lusitanas). Sucede que , muito recentemente, fui expressamente convidado de Itália  a tomar parte , com especial discurso, num congresso internacional de escritores, que se reúne em Grado, cerca de Trieste, em fins deste mês. Desde o Verão de 1974 que n~qo piso a Europa, e é uma interessante oportunidade esta , que aceitei, depois que o especialista me autorizou, sob condição de que os voos se farão por etapas. Assim devo chegar a Lisboa no dia 17 pela manhã, creio eu, para partir para Itália a 20. A Mécia irá comigo, já que aquela gente italiana paga para mim e para ela., sabedores  de que não posso viajar só.  Quero muito ver-te eao Francisco. Ficarei em Lisboa aqueles dias , enquanto a Mécia vai ao Porto ver a família, coisa que não farei para descansar. Andar sozinho em Lisboa não poderei fazer. Os amigos que gostaria de ver - muito poucos - ou terão de vir buscar-me à minha casa (1) do Restelo ( telf. 610405)  aonde  ficarei,  ou combinar uma hora para nela nos encontrarmos. Será que tu sabes daquele congresso, e acaso estarás nele ( seria ouro sobre azul)?
Com as nossas saudades para vós, aqui vai o grande abraço muito amigo do 
                                                                                    JORGE
P.S. - Há tempos, como "visiting" dei aulas no "campus " de Los Angeles da Universidade da Califórnia a que pertenço. Espero poder levar-te uma cópia de um "paper" do seminário sobre poesia portuguesa do século XX, escrito sobre ti por um estudante avançado, e que me parece um belo estudo."
Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena, in Correspondência 1959 -1978, Guerra e Paz editores, pp. 145-150

Notas
(1) - Referência à casa de Mécia e Jorge de Sena que, além das tentativas de ocupação evitadas pelo vizinho, foi objecto de expropriação. Uma intervenção de Eduardo Lourenço , que terá apelado a conhecidos, e o regresso de Jorge de Sena acabaram por resolver o assunto a bem.                                                                  

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Os precursores

 
Os Precursores 
por Gabriel Garcia Márquez
" A primeira  notícia sensacional que aconteceu - depois da criação - foi sem dúvida  a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. Teria sido uma primeira página inesquecível : ADÃO E EVA EXPULSOS DO PARAÍSO ( a oito colunas). « Ganharás o pão com o suor do teu rosto», disse  Deus. - « Um anjo com a espada de fogo cumpriu ontem a sentença e monta guarda no Éden. - Uma maçã, causa da tragédia. »
Há quantos anos ocorreu essa notícia ? Tão difícil é responder  a essa pergunta como predizer quando chegará o momento de escrever a última grande reportagem sensacional: a do Juízo Final, que será uma espécie de balanço definitivo da humanidade. Mas antes que chegue essa hora,  quem sabe quantas modificações  sofrerá o jornalismo, essa incomodativa actividade que começou quando um vizinho contou a outro o que fez um terceiro na noite anterior, e que tem uma curiosa variante  nas nossas aldeias , onde um homem que lê os jornais  todos os dias comenta  por escrito a notícia, num artigo com inequívoco  tom editorial  ou no ligeiro e insignificante estilo de uma  crónica, segundo a sua importância , e o lê nessa tarde na farmácia,  onde a opinião pública se considera no dever de sentir-se orientada. 
Esse comentador do facto quotidiano, que pelo menos se pode encontrar em quarenta por cento das nossas aldeias , é o jornalista sem jornal, um homem que exerce a sua profissão contra a dura  e inalterável  circunstância  de não ter sequer uma prensa de mão para expressar as suas ideias   e as expressa na via pública, com tão evidentes resultados  que talvez essa seja uma demonstração  incontroversa de que o jornalismo  é uma necessidade biológica  do homem , que por isso mesmo está em condições de sobreviver inclusivamente aos próprios jornais.  Haverá sempre um homem que leia um artigo à esquina de uma farmácia, e sempre - porque é essa a graça - há de haver um grupo de cidadãos  disposto a escutá-lo, mesmo que seja para sentir o democrático prazer  de não estar de acordo."
                                        10 de Agosto de 1954, El Espectador, Bogotá
Gabriel Garcia Márquez , in " Como se escreve um romance - O Escândalo do Século", Publicações Dom Quixote, pp. 64, 65