quarta-feira, 11 de março de 2020

As reencarnações da Peste

A biopolítica e o apocalipse em câmara lenta
Por Diogo Vaz Pinto
"Vasco Santos, psicanalista e editor, lê nas entrelinhas do estado de emergência que o coronavírus tem permitido uma oportunista intensificação da biopolítica, para controlar, vigiar e punir.
Parece que não passa um dia em que não sejamos ameaçados com crises e selvajarias. De algum modo, esse parece ser o ar que se respira, aquilo que se lê por toda a parte, desde os jornais aos cartazes publicitários que encontramos nas ruas. Sentimos que se tornou constante o cerco, cujo intuito parece ser o de gerar um estado de alarme, inquietar o espírito e livrar-se da inteligência. Vasco Santos, psicanalista e editor literário, está entre essas poucas vozes que têm procurado minar a campanha à volta da epidemia do novo coronavírus. Em seu entender, esta é, antes do mais, uma epidemia oportunista conduzida pelos media e que nos reenvia à “experiência medieval da praga”. Em declarações ao i, explica como funciona este discurso virtual que se produz a par da realidade, umas vezes sobrepondo-se-lhe, outras deturpando-a, transcrevendo os dados de tal modo que produzam um efeito perturbador. Substituindo a experiência, o efeito de uma comunicação que reduz a linguagem à simples mecânica do lugar-comum é o de lançar no ar uma “poluição moral, procurando-se, ontem como hoje, um objecto contra-fóbico oriental alheio às comunidades atingidas”. Assim, o Covid-19 é uma reformulação do bacilo da peste, que não morre nunca, mas apenas desaparece por uns tempos, fica a aguardar pacientemente por uma aberta, para de novo acordar os seus ratos e os mandar morrer numa cidade feliz.
Vasco Santos cita outro psicanalista, Wilhelm Reich, em tempos colaborador de Freud, que traçou um diagnóstico essencial deste tempo dizendo que “existe uma energia orgânica mortal” e que esta se respira na atmosfera. Tornou-se tão familiar a ideia expressa por Karl Kraus em Janeiro de 1917, num dos seus aforismos – “O estado em que vivemos é o verdadeiro apocalipse: o apocalipse estável” –, que, hoje, mesmo um fabulista tão popular como Murakami reconhece que “toda a gente alimenta o secreto anseio de que o fim do mundo chegue a tempo de o testemunhar”.
Já no final dos anos 1970, o poeta e ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger notava que o apocalipse era uma noção que tinha vindo a degenerar, sendo arrancado do território do sagrado, como uma visão profética e aterradora, para tornar-se mais um mito profano, desses que são traficados como “afrodisíacos”. Assim, o velho pesadelo, esse no sentido do qual a maçã que caiu da árvore do conhecimento parecia rolar, tornou-se mais outra metáfora para o colapso do capitalismo. E precisamente porque é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, torna-se evidente esse raciocínio que leva Enzensberger a encarar a ideia do fim do mundo como uma “utopia negativa”. Mas esta noção, quando processada no quotidiano e entregue às feras da imprensa e da opinião, com essa forma de senso comum que se materializa nos clichés, nessa corrupção da linguagem que, em última instância, torna-nos reféns de uma espécie de paranóia vazia, um abismo de falsificações, um manto de tagarelice que cobre o mundo inteiro e provoca em nós um estado permanente de ansiedade. Essa é a nova condição em que estamos a acompanhar a expansão de um vírus, “afinal, modesto e tímido”, como refere Vasco Santos, mas que “serve para impor a ordem, higienizar o corpo e a cidade e relativizar o contrato social”.
Há muito que os autores que lançaram um olhar impiedoso sobre o regime desta intriga nos dizem que o estado de excepção se torna revelador da normalidade social e acentua os mecanismos que permitem aos aparelhos de Estado “vigiar e punir”. “Se as fissuras que se abrem entre os factos não fossem preenchidas com maços de frases feitas; se a esquizoidia do laboratório não fosse dissimulada pela convicção de fazer o Bem, e um Bem cada vez mais avançado, se o raciocínio devastador não se considerasse a encarnação do Senso Comum, se... – a máquina deixaria de trabalhar, e a grande era da experimentação mergulharia num súbito, pesado silêncio”, escreve Roberto Calasso. E acrescenta: “O burburinho da Opinião Pública ajuda a evitar que tal aconteça. É agora este o insuperável combustível psíquico que impulsiona a vida. Como Kraus observou certa vez: ‘A vida continua. Mais do que é legítimo’”.
Mas estamos num plano em que a vida já não faz o sentido que fazia antes, em que o próprio mundo se nos torna estranho, e quanto mais avançamos, menos sabemos. Neste ponto, Vasco Santos recorre ao testemunho de Paulo Varela Gomes que, diante deste problema, propõe que se ponha de parte a biologia: “É evidente que o centro da questão não está nos factores biológicos da Peste, mas sim nos organismos sociais humanos que a contraem, a espalham (e a protegem?). Seguidamente, é necessário não procurar na infraestrutura das formações económicas e sociais a inserção directa da doença; a Peste é, com efeito, um fenómeno ideológico e político, isto é, pertence ao Estado e aos seus Aparelhos”.
No caso específico do Covid-19, Vasco Santos nota que este tem permitido pôr em prática “uma estratégia higienista, antipsicanalítica pela acentuada diminuição da empatia, pela distância social legitimada”. Esta intensificação da biopolítica leva a que se possa notar a tendência que há hoje para que, como refere o autor e editor italiano Roberto Calasso, nós próprios sejamos “uma entidade administrável, que poderá até permanecer por muito tempo na quietude de um armazém, mas que a qualquer momento pode ser chamada a contribuir para o reequilíbrio do massacre”. O que se diz sobre as medidas extraordinárias que a guerra exige vale também para as epidemias, . E Vasco Santos vê como o novo coronavírus e as medidas de contenção que este tem exigido acentuam “a ideologia da saúde (por falência da ideia de salvação) e forcluem a morte, esse tabu excelentíssimo de agora”.
“Desinfectamos magicamente as mãos porque somos contra a morte”, acrescenta, antes de nos remeter para o ensaio de Susan Sontag A Doença como Metáfora. É ali que a ensaísta norte-americana nos diz que “a doença é o lado sombrio da vida, uma espécie de cidadania mais onerosa”. “Todas as pessoas vivas têm dupla cidadania, uma no reino da saúde e outra no reino da doença. Embora todos prefiram usar somente o bom passaporte, mais cedo ou mais tarde, cada um de nós será obrigado, pelo menos por um curto período, a identificar-se como um cidadão do outro país”.
Neste momento, estando confusos, atordoados com a informação que nos sacode em rajadas, sucessivos balanços, números de vítimas, de mortos, não sabemos bem o que pensar das medidas de prevenção. Boa parte de nós acolhemo-las, satisfeitos porque alguma coisa está a ser feita, e, assim que as coisas se agravem, será natural que as medidas também se agravem. Seguimos as notícias da pandemia relatada em tom patético e apocalíptico como em tempos nos reuníamos no templo para que o cura nos abalasse diariamente com enormidades e ninharias. Enquanto esta “catástrofe permanente” se apossa de tudo, causando em nós habituação, fica muito claro que o apocalipse, que em tempos tinha algo de venerável, na sua constituição prodigiosa recorrendo a metáforas soberbas, terríficas, está cada vez mais distante de uma ideia do sagrado. Assim, como notava Enzensberger, esta catástrofe tornou-se um “fenómeno inteiramente secularizado”.
“O nosso monstro de sete cabeças responde por uma série de nomes: Estado-polícia, paranóia, burocracia, crise económica, corrida às armas, destruição do meio ambiente”, escreve o ensaísta alemão. “Em tempos, as pessoas viam o apocalipse como um ato da Justiça divina, ao passo que hoje parece um produto metodicamente calculado das nossas acções, e aos espíritos que tomamos como responsáveis pela sua abordagem chamamos comunistas, magnatas do petróleo, terroristas, multinacionais; os gnomos de Zurique e os Frankensteins dos laboratórios de biologia (...) O apocalipse costumava ser um evento singular, que nos acometeria sem aviso como um raio rasgando céus azuis: um momento inimaginável que apenas os visionários e os profetas poderiam antever – e, como é óbvio, ninguém quereria ouvir os seus avisos e previsões. O nosso fim do mundo, por sua vez, é cantado nos telhados até pelos pardais; falta-lhe o elemento surpresa; parece ser apenas uma questão de tempo. A desgraça que esperamos que se abata sobre nós é insidiosa e torturante de tão vagarosa na sua abordagem – é o apocalipse em câmara lenta”. Diogo Vaz Pinto, em artigo publicado no Jornal i, 9.03.2020

terça-feira, 10 de março de 2020

O apelo secreto dos acontecimentos

" Só  os deuses sabem o que reserva o futuro, só eles são possuidores de todas  as luzes.  Os homens sábios apenas percebem o futuro daquilo que está iminente. Por vezes, quando se encontram totalmente imersos  nos seus estudos , os seus  sentidos despertam.  Chega-lhes o apelo secreto dos acontecimentos que irão produzir-se e eles escutam-no com recolhimento..."
Konstantinos Kaváfis,(1863-1933),  in " Poemas”. [tradução de Haroldo de Campos; organização de Trajano Vieira],São Paulo: Editora Cosac Naify, 2012.

segunda-feira, 9 de março de 2020

Atar os sapatos

La esquina Steiner
El escritor francés elevó a la máxima potencia la máxima de Spinoza que su padre le había repetido en la infancia: “Todo lo excelso es tan difícil como raro”
por Enrique Vila-Matas
"Decidí a medianoche apostarme en una esquina del barrio y, de entre lo que alcanzara a ver allí a lo largo de cinco minutos exactos, ni uno más y ni uno menos, elegir lo más insignificante, o lo contrario. ¿Experimento oulipiano? ¿Homenaje al Perec de la Place Saint-Sulpice? Tal vez solo un intento de centrar mi atención en una esquina sin nombre y sin historia. Estuve plantado en ella más de cuatro minutos sin que ocurriera nada y, por no pasar, no pasó por allí ni un ser humano, hasta que en los últimos segundos dobló la esquina un tipo de mediana estatura, con sombrero y gabardina, que de pronto se detuvo para atarse los cordones de su zapato izquierdo.
Retuve la imagen del desatado zapato y, mientras regresaba a casa, no podía dejar de pensar en la mañana de verano en la que Ernst Jünger, siendo un niño, despertó con unas ganas inmensas de ir al bosque. Era muy temprano, aún no habían traído el pan y el silencio reinaba en toda la casa paterna. No había inconvenientes para escapar. Pero tenía un problema: aunque sabía ponerse las botas, no sabía hacer la lazada. “Pero querer es poder y todavía me acuerdo de la alegría que me entró cuando logré hacer la maniobra”, explicaba el longevo Jünger en Bilbao cien años después, orgulloso de no haberse contentado aquel día con hacer un nudo y haber preferido la lazada, algo que más adelante le había llevado a comprender que para escribir había que saber trenzar lazadas.
Lo que son las cosas: a Giorgio Manganelli, en cambio, ser un inepto para las lazadas le llevó directo a la escritura. ¡Manganelli! Me divertí una barbaridad el año pasado con él y con su restrictivo ejercicio o brevísima Vida de Samuel Johnson, publicada por Gatopardo. Fue un narrador de genio, hoy un tanto olvidado, quizás porque pertenece a la época en la que todavía se valoraba en el arte lo verdaderamente difícil, el libro excelente detrás del que había un intenso trabajo.
Para Manganelli fue decisiva su incapacidad para anudarse los zapatos: “No sabía atármelos. Ahora bien: no solo no es imposible, sino del todo razonable, suponer que en aquel entonces nació lo que por pura diversión podría llamar la vocación del escritor [...] ¿No sé atarme los cordones de los zapatos? Bien, escribiré libros”.
Jünger y Manganelli y la sombra de la medianoche me transportaron hasta George Steiner y la reveladora frase que cerró la “entrevista póstuma” que le hiciera su amigo Nuccio Ordine: “Uno de los logros más bellos de mi existencia fue cuando conseguí atarme los zapatos por primera vez con la mano impedida”. Creo que con esas palabras Steiner elevó a la máxima potencia la máxima de Spinoza que, a modo de consigna, su padre le había repetido en la infancia tantas veces: “Todo lo excelso es tan difícil como raro”. Frase que, por lo demás, me recuerda siempre a esa explosión de alegría que Steiner decía que solo se puede alcanzar cuando no te lo han puesto nada fácil, pero has vencido un buen número de dificultades: “Porque entonces, cuando llega el éxito, este es una risotada de alegría”.
Enrique Vila-Matas, em artigo publicado no jornal "El País", 2.03.2020

domingo, 8 de março de 2020

Ao Domingo Há Música

 
One love, one blood
One life you got to do what you should
One life with each other: Sisters, brothers
One life, but we're not the same
We get to carry each other, carry each other
One! One!

U2

Neste domingo feminino, Dia Mundial da Mulher, a voz  de McKenna Breinholt  numa magnífica interpretação da famosa canção dos U2 , ONE. É acompanhada pela  orquestra   e  pelo Coro da  Cinematic Pop. Os arranjos  e a direcção da orquestra são do Maestro Rob Gardner.

sexta-feira, 6 de março de 2020

A fina ironia de Jorge Luís Borges

Resultado de imagem para Fotos de José Luis Borges
40 frases desconcertantes de Jorge Luís Borges
Por Edival Lourenço
"Em 29 de Setembro de 1977, numa livraria de Brasília, comprei “Ficções”, de Jorge Luís Borges. Foi o meu primeiro contacto com a obra deste autor. Encantei-me perdidamente. Aquele mesmo exemplar, já esfarelando, está  na minha mesa de cabeceira e não passo mais de quinze dias sem que leia algum trecho. Além da paixão por “Ficções”, li toda a sua obra, que considero grandiosa. Seleccionei algumas frases do autor pelo seu aspecto desconcertante e surpreendente e pela fina ironia, embora ele diga ser incapaz de cometer uma ironia, o que já é uma ironia dentro da ironia. Algumas frases são de obras literárias. No entanto, a maioria foi retirada  de O Dicionário de Borges (O Borges Oral, o Borges das Declarações e das Polémicas), reunido por Carlos R. Stortini, Rio de Janeiro, Editora Bertrand, Brasil, 1990."
1.  Só os imbecis nunca mudam de ideia.
2. Quando chegar à minha idade, terá perdido a vista quase por completo. Verá a cor amarela e sombras e luzes. Não fique preocupado. A cegueira gradual não é uma coisa trágica. É como um lento entardecer de verão.
3. A gente publica para não passar a vida corrigindo o que escreve. A verdade é que se publica para se libertar do livro e pensar em outro. Quanto a mim, reli muito pouco do que escrevi. Ainda que de vez em quando me releiam passagens do que escrevi e às vezes elas me agradam. E digo: de onde tirei tudo isto? Na certa deve ser plágio, porque é bom.
4. Não releio, esqueço facilmente, mas tudo o que publico supõe dez ou doze versões, sendo que a última acrescendo um descuido evidente para que pareça espontâneo.
5. Os cárceres me parecem abomináveis… Certos homens deveriam ser mortos em vez de encarcerá-los directamente. Nem a meus inimigos posso desejar o cárcere, e sim a morte.
6. Um cego é um prisioneiro. Há muito tempo estou cego. Comecei a ficar cego quando comecei a enxergar
7. Acho que fazer um exame é muito menos penoso do que ir a um cocktail.Os cocktails são uma organização de chatice.
8. Como é que Deus que se fez homem, que é a favor dos pobres de espírito, dos humildes, dos deserdados da terra, vai se autoconceber como um ser belo? Seria um acto injusto de Deus. Seria um acto racista de Deus, impossível. Por isso, Cristo deve ter sido francamente feio, e todas as pinturas que o mostram formoso são pura mentira.
9. Na memória, tudo é grato, até a desventura.
10. A guerra é horrível, mas a vida também o é. Talvez seja melhor morrer num campo de batalha.
11. Agora existe uma ciência humana chamada informática. Que nome mais feio para uma ciência. É uma desgraça o facto de a informação substituir a cultura.
12. A vida não é outra coisa senão a morte que anda brilhando.
13. Para se escrever poemas tem-se que ser ingénuo e não muito inteligente.
14. O suicídio não me parece ruim; ao contrário, seria conveniente que mais gente se suicidasse; há excesso de população no mundo.
15. Pensei num labirinto de labirintos, num sinuoso labirinto crescente que abarcasse o passado e o futuro e que envolvesse, de algum modo, os astros.
16. No sonho do homem que sonhava, o sonhado despertou.
17. A verdadeira história não é o que sucedeu; é o que pensamos que sucedeu.
18. Não gosto do que escrevo; contudo, lamentavelmente não posso escrever outra coisa. Quando jovem, quis ser Chesterton, Lugones, Quevedo, quis ser Hugo, mas evidentemente não fui, ou o fui de um modo defeituoso. Então me resignei a ser Borges, e as pessoas se mostraram muito indulgentes para comigo.
19. Escrevi demais. Me daria por satisfeito se depois de minha morte ficasse, de tudo isso, um par de contos, um conto, um livro de poemas, um poema que seja.
20. Não sou modesto, apenas fico assombrado por ser conhecido. Deixei de ser um homem invisível aos cinquenta anos, e pode-se descobrir a qualquer momento que sou um impostor.
21. Sou céptico, mas não me felicito por isso. Desejo que os jovens tenham direito à esperança.
22. Che Guevara foi partidário de um tirano… Não me lembro o nome dele; Um senhor que mora em Cuba.
23. A cobiça é outra tolice, pois conheço gente rica e gente pobre, e não notei que alguém rico seja mais feliz do que o pobre. Entretanto cometem-se sequestros, roubos tudo feito por pessoas ingénuas que acreditam que se ficarem ricas, serão mais felizes, o que vem a ser um erro grave. Ainda que a indigência tampouco seja uma virtude nem uma coisa extraordinariamente vantajosa.
24. Uma crise monetária não é a causa, mas a consequência de uma má administração político-económica de um país. Dizendo bem… nossa crise económica — que também é ética — se origina, fundamentalmente, no dinheiro que foi roubado.
25. O escritor deve ser submisso e não convém que tente compreender demais o que está fazendo, porque qualquer acto consciente pode deitar a perder a obra.
26. Penso em George Bernard Shaw, em André Gide, em Robert Frost. Os melhores escritores vivos já morreram.
27. Odeio Carlos Gardel, porque seu sorriso se parece com o de Juan Perón.
28. Somos um sonho sem sonhador. Esse sonhar se chama história universal, e cada um de nós é um símbolo desse sonho.
29. O aborrecimento é mais terrível do que a violência.
30. Organizar uma biblioteca é um modo silencioso de exercer a arte da crítica.
31. Num jornal, geralmente, se escrevem notícias. Naturalmente, fúteis. As notícias que os jornais dão referem-se a temas que não me interessam.
32. Em várias oportunidades, tentei fumar marijuana, mas sempre fracassei; finalmente, optei pelas pastilhas de menta.
33. O Papa é um funcionário que não me interessa muito. Um funcionário da Igreja Católica.
34. "Ulisses" não foi escrito para ser lido, foi escrito para alguma coisa muito superior, foi escrito para que o autor ficasse famoso, fosse analisado, figurasse na história da literatura.
35. Se não repito os outros, repito-me eu mesmo e talvez eu não passe de uma repetição.
36. O rosto de uma pessoa é móvel e difícil de ser fixado numa lembrança.
37. Todos falam dos supostos benefícios que a saúde traz ao indivíduo, mas eu acho que a saúde é um estado precário que não pressagia nada de bom.
38. A vida é uma conjectura.
39. A tentação mais grosseira de um artista é a de ser um génio.
40. Ironia: uma coisa que aprecio e reconheço, e de que sou totalmente incapaz.
Edival Lourenço, in Revista Bula

quarta-feira, 4 de março de 2020

Educação Sentimental


Educação Sentimental

Na janela mais alta de Lisboa
és a ave chamada Todavia:
a que posta  no céu não se desvia, 
mas que perto do rio já não voa...

Hei-de ensinar-te, devagar ( perdoa!), 
a pressa com que Amor se pronuncia
e a conjugares a noite com o dia 
quando o corpo do corpo se condoa...

Fecha os olhos, e voa! Mas não queiras 
ao inferno do céu traçar fronteiras
nem ao céu do inferno pôr limites:

voar só vale a pena enquanto for 
uma forma de amar além do amor,
furor que todavia não habites...
David Mourão-Ferreira, in "Infinito pessoal [1959-1962] - Obra Poética", Assírio & Alvim ,  p 145

O Vento na Ilha 

O vento é um cavalo:
ouve como ele corre
pelo mar, pelo céu.

Quer levar-me: escuta
como percorre o mundo
para levar-me para longe.

Esconde-me em teus braços
por esta noite apenas,
enquanto a chuva abre
contra o mar e contra a terra
a sua boca inumerável.

Escuta como o vento
me chama galopando
para levar-me para longe.

Com tua fronte na minha
e na minha a tua boca,
atados os nossos corpos
ao amor que nos abrasa,
deixa que o vento passe
sem que possa levar-me.

Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e procure
galopando na sombra,
enquanto eu, submerso
sob os teus grandes olhos,
por esta noite apenas
descansarei, meu amor.
Pablo Neruda , in Os Versos do Capitão, Campo de Letras Editora, Abril , 2001, trad. Albano Martins, 

segunda-feira, 2 de março de 2020

George Steiner

George Steiner em sua casa
Estudioso insígne ,  expoente de uma erudição intelectual refinada, um dos maiores ensaístas  e críticos literários deixou, em luto,  a Cultura contemporânea. George Steiner faleceu aos 90 anos, no dia 3 de Fevereiro, em Cambridge,  onde foi também um ilustre professor universitário.
Li-o e releio-o sempre com redobrado e impaciente fervor. Nele existe  a palavra que traceja, com perfeito rigor, o raciocínio brilhante do pensador que nos obriga a pensar e a saborear o espanto que daí advém.
Creio possuir quase a totalidade da sua obra . Acompanho-o há muito. Nunca deixei de o procurar. O seu desaparecimento priva-nos, a todos nós, de esperar  uma outra obra iluminadora. Fica-nos o privilégio de o termos descoberto e de sempre o poder redescobrir.
Ao longo dos anos, George Steiner conversou  com o ensaísta italiano,  Nuccio Ordine, de quem ficou amigo. Com ele acordou uma entrevista póstuma , sob a condição de que viesse à luz , no dia seguinte à sua morte. 
Eis essa magnífica entrevista , publicada no Corriere della sera, a 4 de Fevereiro de 2020:
George Steiner à porta da sua casa, em Cambridge
"Faltou-me coragem para criar"
por Nuccio Ordine
"O segredo de uma boa velhice nada mais é do que um pacto honesto com a solidão”; não pude deixar de pensar nessa maravilhosa reflexão de Gabriel García Márquez ,quando soube do desaparecimento de George Steiner. Morreu na segunda-feira, às 14h, por complicações de uma febre aguda em sua casa em Barrow Road, em Cambridge. A última vez que falamos foi no sábado passado, por telefone, e ele me confidenciou com uma voz muito rouca: “Não aguento mais o cansaço da fraqueza e da doença”.
Assim, Steiner, um dos críticos literários mais agudos e importantes do século XX, viveu os últimos anos de sua vida longe do foco de atenção, dos meios de comunicação, dos congressos e conferências, de qualquer evento público. Tive o privilégio de estar com ele também nesta última fase de isolamento voluntário.
Depois de mais de vinte anos de encontros em Paris, na Itália e em outras cidades europeias, os telefonemas mensais e a visita anual a Cambridge tornaram-se um ritual. Mas o último encontro, marcado para 14 de Junho de 2018, não foi sucedido por nenhum outro: um dia antes George o cancelou porque não estava bem e não queria se mostrar cansado e desanimado. Foi em uma dessas reuniões (em 21 de Janeiro de 2014, há exactamente seis anos) que ocorreu a Steiner conceder-me uma entrevista póstuma: reunir algumas de suas reflexões e não publicá-las até o dia seguinte ao seu desaparecimento. Uma maneira discreta de romper o silêncio e se despedir dos amigos, alunos e numerosos leitores.
Voltou a este texto no ano passado, modificando algumas palavras aqui e ali e me pedindo para reescrever algumas frases. Quem sabe quantos aspectos desconhecidos de sua vida e seu pensamento virão à luz em 2050, quando for possível estudar as centenas de “cartas autobiográficas” agora lacradas nos arquivos do Churchill College de Cambridge.
Agora que ele se foi ―seu filho David me deu a notícia―, além da profunda dor pela perda de um amigo querido e de um verdadeiro mestre, nem quatro meses depois do desaparecimento de Harold Bloom, noto mais claramente as consequências desse silêncio forçado e o vazio intransponível que deixa entre os defensores dos clássicos e da literatura. Penso em seus livros, em seu conhecimento enciclopédico incentivado por uma curiosidade surpreendente. E penso, principalmente, em sua paixão pelo ensino, em sua capacidade de compartilhar o amor pela literatura e pelo conhecimento com os alunos e o público.
George não se destacou somente na palavra escrita. Também foi um grande orador: a sua eloquência elegante foi capaz de inflamar alunos e colegas.
Pergunta. Qual é o segredo mais importante que deseja revelar nesta entrevista póstuma?
Resposta. Posso dizer que durante 36 anos enviei a uma interlocutora (seu nome deve permanecer em segredo) centenas de cartas que representam meu “diário”, nas quais contei a parte mais representativa da minha vida e os eventos que marcaram meu quotidiano. Nessa correspondência falei sobre os encontros que tive, as viagens, os livros que li e escrevi, as conferências e também os episódios normais e comuns. É um “diário compartilhado” com minha destinatária, no qual é possível encontrar inclusive meus sentimentos mais íntimos e minhas reflexões estéticas e políticas. Será conservado em Cambridge,  num arquivo do Churchill College, juntamente com outras cartas e documentos que testemunham as etapas de uma vida talvez demasiado longa. Essas cartas-diário, em particular, serão lacradas e só poderão ser consultadas depois de 2050, ou seja, depois da morte de minha esposa e (talvez) de meus filhos. Em resumo, serão tornadas públicas somente quando muitas pessoas próximas a mim já não estiverem aqui. Alguém vai lê-las depois de tanto tempo? Não sei. Mas eu não poderia fazê-lo de outra maneira...
P. Por que uma entrevista póstuma?
R. A ideia sempre me fascinou. Algo que será tornado público precisamente quando eu não puder mais ler sobre isso nos jornais. Uma mensagem para aqueles que ficam e uma maneira de me despedir deixando que ouçam minhas últimas palavras. Uma ocasião para reflectir e fazer um balanço. Cheguei a uma idade em que cada dia mais ou menos normal deve ser considerado um valor agregado, um presente que a vida te dá.
Nesta fase as lembranças do passado se tornam o único e verdadeiro futuro interior. É uma viagem para trás baseada na memória, o que nos permite alimentar algumas esperanças. Não dispomos das palavras exactas para definir a lembrança que o amanhã encerra em si. Estou num momento da minha vida em que o passado, os lugares que frequentei, as amizades que tive, a impossibilidade de ver as pessoas que amei e que continuo amando e até a relação com você constituem o horizonte do meu futuro mais do que pode ser o futuro real.
P. Você se recrimina por algo em particular?
R. Claro. Por mais de uma coisa. Escrevi um pequeno livro, Errata, no qual falo dos erros que cometi. Não consegui captar alguns fenómenos essenciais da modernidade. Minha educação clássica, meu temperamento e minha carreira académica não me permitiram compreender completamente a importância de certos grandes movimentos modernos. Não entendi, por exemplo, que o cinema, como nova forma de expressão, poderia revelar talentos criativos e novas visões melhor do que outras formas mais antigas, como a literatura e o teatro. Não compreendi o movimento contra a razão, o grande irracionalismo da desconstrução e, em alguns aspectos, do pós-estruturalismo. Deveria ter percebido que o movimento feminista, que apoiei em Cambridge com grande convicção ao reconhecer a importância do papel da mulher, mais tarde assumiria, na luta para ocupar um lugar dominante em nossa cultura, uma função política e humana extraordinária.
P. No âmbito pessoal, que erros cometeu?
R. Essencialmente, deveria ter tido a coragem de me provar na literatura “criativa”. Quando jovem, escrevi histórias e também versos. Mas não quis assumir o risco transcendente de experimentar algo novo nessa área, que me apaixona. Crítico, leitor, erudito, professor, são profissões que amo profundamente e que vale a pena exercer bem. Mas é completamente diferente da grande aventura da “criação”, da poesia, de produzir novas formas. E, provavelmente, é melhor fracassar na tentativa de criar do que ter algum sucesso no papel de “parasita”, como gosto de definir o crítico que vive de costas para a literatura. É claro que os críticos (já enfatizei isso várias vezes) também têm uma função importante; tentei lançar, às vezes com sucesso, alguns trabalhos e defendi os autores que acreditava que mereciam meu apoio. Mas não é a mesma coisa. A distância entre aqueles que criam literatura e aqueles que a comentam é enorme; uma distância ontológica (para usar uma palavra pomposa), uma distância do ser. Meus colegas universitários nunca me perdoaram que eu apoiasse essas teses; muitos barões e certa crítica estritamente académica não aceitaram que eu zombasse de sua presunção de serem, às vezes, mais importantes do que os autores dos quais estavam falando...
P. A quem deseja enviar uma mensagem?
R. Penso em alguns alunos, mais brilhantes que eu, que estão concluindo trabalhos importantes; o sucesso deles é uma grande recompensa para mim. Penso com profunda gratidão em alguns dos meus colegas que me acompanharam no caminho académico. E penso, principalmente, em pessoas mais íntimas, como você, que entenderam o que tentei fazer e graças a elas pude viver uma intensa aventura intelectual e emocional. Mas, neste momento, sobretudo, tento entender por que a distância que me separa do irracionalismo moderno e, ouso dizer, da crescente barbárie dos meios de comunicação, da vulgaridade dominante, é cada vez maior. Acredito que estamos atravessando um período cada vez mais difícil...
P. O que mais te fez sofrer?
R. Me fez sofrer o facto de ser consciente de ter publicado ensaios que teria gostado de escrever melhor. É claro que há páginas do meu trabalho que defendi e defendo com convicção, e também com amargura. Mas sei que provavelmente não era isso o que teria gostado de escrever. E muitas vezes penso na injustiça do grande talento: ninguém entende como surgem esses dons supremos e como são distribuídos. Penso  num garoto de cinco anos e meio que desenha um aqueduto romano perto de Berna e então, de repente, representa um pilar com sapatos; desde então, graças a Paul Klee, esse é o nome dele, os aquedutos caminham por todo o mundo. Ninguém pode explicar as sinapses neurológicas que podem desencadear em um garoto essa “paixão” pela metamorfose, essa brilhante intuição que muda a realidade. Pensei que era uma injustiça que pudéssemos tentar, tentar novamente, nos esforçarmos de novo, só para podermos permanecer na esteira dos adultos, mas sem alcançá-los, porque são diferentes de nós.
P. E o que te fez mais feliz?
R. A felicidade de ter ensinado e vivido em muitos idiomas. A felicidade que tentei cultivar todos os dias, até o fim, tirando da minha biblioteca um poema para traduzi-lo nos meus quatro idiomas (francês, inglês, alemão e italiano). E, embora não tenha traduzido bem, tenho a impressão de ter deixado entrar um raio de sol no meu quotidiano.
P. Que desejos não pôde cumprir?
R. Muitíssimos: viagens que não ousei fazer, livros que queria escrever e que não escrevi, principalmente encontros cruciais que evitei por falta de coragem, disponibilidade ou energia. Poderia ter conhecido, por exemplo, Martin Heidegger, mas não me atrevi. E acredito que tinha razão. Sempre respeitei um princípio: não há necessidade de importunar os adultos, eles têm outras coisas para fazer. Além disso, nunca suportei aqueles que se consideram importantes porque coleccionam encontros com grandes nomes. As pessoas excelentes têm o direito de escolher com quais interlocutores querem “perder” seu tempo. Então acontece que um dia, ao abrir livros de memória, se lêem frases como: “Me importunou o senhor X, que insistiu em se reunir comigo, mas não tinha nada interessante a dizer”. Sempre tive medo de cair no erro grosseiro. Penso em Jean-Paul Sartre, por exemplo, especialista em revelar circunstâncias ligadas a “chatos” famosos. E tive dificuldade em renunciar, nos últimos tempos, à companhia de um cachorro. Depois da morte de Muz, percebi que, na minha idade, era muito arriscado ter outro. Adoro esses animais, mas no limiar dos 90 anos parece terrível oferecer-lhe uma casa para deixá-lo sozinho.
P. Qual é a vitória mais bela?
R. Insistir na ideia de que a Europa continua sendo uma necessidade importantíssima e que, apesar das ameaças e dos muros que se constroem, não devemos abandonar o sonho europeu. Sou antissionista (postura que me custou muito, a ponto de não poder imaginar a possibilidade de viver em Israel) e detesto o nacionalismo militante. Mas agora que minha vida está chegando ao fim, há momentos em que penso: talvez me tenha equivocado? Não teria sido melhor lutar contra o chauvinismo e o militarismo vivendo em Jerusalém? Eu tinha o direito de criticar, confortavelmente sentado no sofá da minha bela casa de Cambridge? Fui arrogante quando, do estrangeiro, tentei explicar às pessoas em perigo de morte como deveriam ter se comportado?
P. Você se lembra de ter chorado em sua vida?
R. Claro. Nos últimos tempos, muitas vezes me lembro de circunstâncias particulares. Penso, por exemplo, em grandes experiências humanas que terminaram sem que eu tivesse previsto o final. O desaparecimento repentino de algumas pessoas que nunca mais verá. Ou lugares que  não visitou e que já não poderá visitar. E também penso em mais coisas, simples, talvez banais: peixe e alimentos que  já não poderei experimentar. E, às vezes, encontrar na esquina de uma rua ou  num jardim a sombra de uma pessoa que  ama e de que precisa enormemente, mas que sabe que já nunca poderá alcançar.
P. Qual a importância que a amizade teve em sua vida?
R. Uma importância enorme. Ninguém sabe melhor que você. Eu teria vivido muito mal minhas últimas décadas sem você e sem outros dois ou três amigos com quem troquei uma correspondência abundante, interlocutores notáveis com os quais compartilhei uma profunda intimidade afectiva. Talvez a amizade seja mais valiosa que o amor. Defendo esta tese porque a amizade não tem nada do egoísmo do desejo carnal. A amizade, a autêntica amizade, se baseia  num princípio que Montaigne,  numa tentativa de explicar sua relação com Etienne de la Boétie, condensou numa frase belíssima: “Porque era ele; porque era eu”.
P. E o amor?
R. O amor teve muitíssima importância, talvez demasiada. Em primeiro lugar, a felicidade que meu casamento me deu e que não posso explicar com palavras, racionalmente. E depois um ou dois encontros que foram decisivos na minha vida. Acredito que, potencialmente, as mulheres têm uma sensibilidade superior à dos homens. Tive o enorme privilégio de ter relações amorosas em diferentes línguas (escrevi bastante sobre esse assunto). O donjuanismo poliglota foi uma enorme recompensa para mim, uma oportunidade de viver múltiplas vidas. E é curioso que nem a psicologia nem a linguística nunca tenham se ocupado desse fenómeno apaixonante. Por isso, em Depois de Babel cunhei uma definição original da tradução simultânea como um bom orgasmo. Sempre considerei como assunto capital o fenómeno das palavras e dos silêncios em relação com o erotismo.
P. Pensa alguma vez na morte?
R. Continuamente. Mas não só agora; também quando era jovem. Cresci à sombra da ameaça hitleriana e lembro perfeitamente que os únicos sobreviventes da minha turma na escola foram um colega e eu. Meu pai e a vida me prepararam para enfrentar a perda e o perigo da morte. Agora penso que o encontro com a morte talvez seja interessante; talvez se revele como uma maneira de entender melhor muitas coisas.
P. Acredita que existe algo depois da morte?
R. Não. Estou convencido de que não haverá nada. Mas o momento da passagem pode ser muito interessante. Acho infantil a reacção daqueles que, depois de ter pensado sempre no nada, na fase final da vida mudam e imaginam um “mundo” ultra terreno. Penso que não ter medo é uma questão de dignidade; não se deve perder o respeito pela razão, é preciso chamar as coisas claramente pelo nome. É verdade que se pode mudar a maneira de pensar. Tive a felicidade de viver sempre em contacto com grandes cientistas e sei que todos os dias se aprendem coisas novas e se corrigem outras. Na ciência, isso é normal. Agora, acreditar em uma vida além é algo muito diferente.
P. Nesta entrevista póstuma você gostaria de pedir desculpas a alguém com quem brigou?
R. Sim, gostaria de me desculpar com uma pessoa cujo nome não posso dizer. Acredito que ele também preferiria permanecer no anonimato. Trata-se de um homem eminente, durante muito tempo amigo íntimo, com quem discuti por causa de um assunto estúpido. Uma frase mal escrita  numa carta fez explodir pelos ares nossa relação de anos. Aprendi muito com essa experiência; como às vezes um instante insignificante pode se transformar  num facto decisivo na vida. É um risco que corremos frequentemente. Um gesto sem importância, uma simples palavra, em um único segundo, pode causar verdadeiras tragédias. E agora, depois de tantos anos, gostaria de dizer ao meu amigo: “Venha, vamos comer juntos e rir do que aconteceu”. Mas, com muita dor, percebo que já não há mais tempo. É demasiado tarde.
P. No entanto, você é famoso por sua irascibilidade. Sempre foi um ponto fraco do seu carácter?
R. Sim, é verdade, mas não só na idade adulta. Lembro-me de que quando era criança me alterava por coisas pequenas, às vezes sem uma verdadeira razão. Essa maneira de me comportar criou muitas inimizades. Depois, com os anos, tive de aprender a me moderar. Mas também paguei um preço pela minha ironia, frequentemente muito mordaz e nem sempre bem recebida. E talvez a tristeza, resultado da consciência da minha mediocridade, tenha incomodado não poucas vezes meus interlocutores. Infelizmente, ao longo de tantos anos, coleccionei muitas hostilidades e rompi muitas amizades. É triste reconhecer isso, mas é assim.
P. Você recebeu algum conselho que mudou sua vida?
R. É claro. Especialmente aqueles que minha mãe me deu com todo o seu amor. Devo a ela ter me incentivado a viver de maneira frutífera com minha deficiência. Quando era criança, para me fazer reagir em momentos de desespero, ela me dizia que a “dificuldade” era um “dom” divino. Além de me livrar do serviço militar, meu defeito me deu a oportunidade de aprender a melhorar, de tentar entender que, sem esforço, não se consegue nada na vida. Lembrei-me disso em diferentes circunstâncias. Uma das conquistas mais bonitas da minha existência foi quando consegui amarrar meus sapatos pela primeira vez com a mão paralisada."
Nuccio Ordine, em entrevista publicada no © Corriere della sera, em 4 de Fevereiro de 2020 e no Jornal "El País", Fev. 2020

domingo, 1 de março de 2020

Ao Domingo Há Música

Composição VII, de Wassily Kandinsky ,1913
Chave

Murmúrio longínquo, 
ininteligível 
voz remota, 
som indistintamente audível.

Voz que pára
e cala aflita
e se suspende
e como que medita.
(...) 
Rui Knopfli,  de " O país dos outros", in " Nada tem já encanto", Edições Tinta-da- China, Outubro 2017, p 41

O registo musical deste domingo é uma versão diferente da famosa canção dos Abba , "The winner takes it all". Uma prestação que me encantou. Num ritmo mais expandido , na largueza do arrastar dos sons, as palavras saem  firmes e desenhadas na voz de Joey Niceforo. No fundo, a orquestra é  o suporte , o leito ou o  balão   que  lhes dá força, acolhe  ou faz  voar. 
Um murmúrio longínquo, uma  velha canção,  vestida de nova e brilhante roupagem que merece ser revisitada.

Joey Niceforo , em  « The Winner Takes It All » . Registo gravado na  Abbey Road Studios, Londres ,UK.