sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Só por ti clamo

“Tudo vem ao chamamento. Penso mar, e o mar enche-me a alma e as mãos. Balbucio cal, e na pele do tempo cresce uma casa onde não viverei, ergue-se uma cidade de melancolia na incerteza dos punhos, e nela nos ferimos.
Digo sol, e quase cego consigo tocar-lhe. Só por ti clamo, e não te acendes, nem regressas, e me queimas.”
Al Berto, em  Lunário, Assírio & Alvim, Julho 2017

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

"One more Yard", a homenagem

"À voz grave do actor Cillian Murphy, que nos lê uma carta do tenente Michael Thomas Wall, do regimento real irlandês, junta-se a voz inconfundível da cantora Sinéad O'Connor, para nos trazerem o sofrimento dos homens que, há 100 anos, celebraram a paz nas trincheiras da Europa. Michael não sobreviveu à guerra, mas as suas palavras inspiraram o projecto da nova editora Evamore, que homenageia todos aqueles que caíram tombados.
"Deus me conceda que chegue em segurança", escreve o jovem irlandês à sua mãe, que esperava regressar a casa. "Ainda aqui estou na terra dos vivos", nota Michael. "Eu vi os olhos cansados de homens duros cheios de lágrimas e nunca vi uma carnificina como esta, nem um único corpo humano foi deixado intacto", descreve numa leitura comovente de Cillian Murphy, o actor de Dunquerque.
A papoila da capa não engana: este é um disco de homenagem aos homens mortos na I Guerra Mundial, assinado por Sinéad O'Connor, com o produtor e músico Brian Eno, o guitarrista dos Roling Stones, Ronnie Wood, o baterista dos Pink Floyd, Nick Mason, os coros de Imelda May e a narração de Cillian Murphy, numa produção de John Reynolds. 
Editado em EP, que disponibiliza quatro versões para o tema One More Yard - uma expressão que era usada pelos soldados nas suas cartas e diários referindo-se aos avanços através da chamada terra de ninguém - este projecto conta com a composição de Brian Eno para as palavras lidas por Murphy e o poema da canção interpretada por Sinéad inspira-se também nas palavras do soldado morto.
Eis One More Yard , a homenagem aos homens caídos nas trincheiras da I Guerra Mundial,  com  Sinéad O'Connor, Brian Eno, o rolling stone Ronnie Wood , o pink floyd Nick Mason, o actor Cillian Murphy  e Imelda May

As verbas angariadas com a venda deste disco serão para apoiar a investigação de cancro. No jornal britânico The Independent , Nick Mason explicou que o projecto One More Yard (disponível nas plataformas de streaming, como o Spotify), fundado  pelo professor Sir Chris Evans Obe,  "permite que pessoas como eu prestem homenagem aos jovens que há 100 anos lutaram pela nossa liberdade, mas também para fazer algo para ajudar os jovens que enfrentam hoje o cancro".
Já Ronnie Wood invocou a sua própria experiência com a doença. "Como alguém que teve de lidar com o cancro, estou muito feliz por fazer parte desta nova iniciativa de consciencialização - é uma óptima ideia apoiada por algumas pessoas, cientistas brilhantes", disse. Eu adoro a canção One More Yard, uma triste história verdadeira com uma melodia assombrosa. Foi um prazer tocar neste tema."Miguel Marujo,DN,12, Nov. 2018

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Alvorecer em Novembro






Procurava. A neblina, ainda húmida da noite, pesava  e restringia-lhe os movimentos. Deveria colocar-se a oriente. Era lá o seu lugar. Mas hesitava.  As nuvens agregavam-se em cerco. Rompê-las, obrigava -o a deslocar-se num novo movimento. E espreitava. Direita, esquerda, ao centro. A manhã tinha de raiar.   O caminho era espesso . Denso . A Lua dormia no Além . Era ele a Luz. A escuridão era devassa . Sabia-o . Desde o tempo do não tempo que a conhecia. Sagaz e renitente, fugia-lhe,  após um incessante  saracotear  faceiro , em jeito de sedução  e de  pungente lamento.   Resistia-lhe. Sempre se negou. Não se subjugava aos vislumbres de quaisquer promessas vãs .  A luz e o calor do seu corpo estendiam-se apenas em Liberdade. O espaço que lhe pertencia não tinha muros. Nem sempre se mostrava com nitidez. Talvez, por isso, lhe tenham atribuído  esse sublime desígnio:  o Sol quando nasce é para todos. Esse era realmente o seu lema, a sua vontade, a sua utopia. Sim. Também a tinha. Queria e sonhava alimentar o mundo.  Iluminá-lo  e dar-lhe o fulgor  que esclarece a mente e pacifica o coração.
Encheu-se de força  e rompeu. O alvorecer estava completo. Iniciava um novo dia. Uma clara e luminosa manhã de Novembro.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

A estética faz parte da alma italiana


A estética faz parte da alma italiana, no tempo dos Medici como hoje
Por Leonídio Paulo Ferreira
"Conversa com Stefano Casciu, académico que veio a Lisboa falar da excelência da arte italiana, sobretudo do caso de Florença, onde uma família de comerciantes, depois grão-duques, patrocinou nomes como Botticelli e Miguel Ângelo.
"Florença deve muito à última dos Medici. Anna Maria Luisa fez algo único. Deixou todo o património artístico da família ao novo grão-duque da Toscana, um Habsburgo-Lorena, mas com a condição de que ficasse em Florença", afirma Stefano Casciu, que esteve em Lisboa para uma conferência intitulada "I musei della Toscana riuniti nel Polo Museale: una assoluta eccellenza italiana".

O académico, desde 2015 responsável pela gestão do património cultural toscano, explica que através dessa decisão os Medici garantiram um lugar na história que outras grandes famílias de mecenas não alcançam, como é o caso dos Gonzaga, que viram um dos seus vender a colecção aos réis de Inglaterra, ou dos Este, que cederam às ofertas do príncipe-eleitor da Saxónia e assim pagaram dívidas. "Por isso hoje a colecção Gonzaga não está em Mântua mas sim na National Gallery de Londres e a dos Este pode ser vista em Dresden e não em Modena." Há também os Farnesi, que de duques de Parma passaram a vice-réis de Nápoles, levando a colecção familiar para os novos domínios, mas nesse caso, depois da reunificação italiana de 1861, pelo menos as obras de arte continuam património do país e não estão expostas num museu estrangeiro.

A conversa decorre no Instituto Italiano de Lisboa. A directora, Luisa Violo, fez questão de nos apresentar como anfitriã que é, e está presente também Paola d'Agostino, da embaixada italiana, que faz a tradução. Antes, o professor Casciu, um sardo (nasceu em 1959 em Cagliari) apaixonado pela Toscana, foi fotografado por Diana Quintela, que procurou como pano de fundo uma obra de arte contemporânea para fazer o contraponto com o classicismo que serviria de tema à entrevista. "A estética faz parte da alma italiana, no tempo dos Medici como hoje", sublinha o académico. Voltaremos a esta ideia.

Ora, em termos de estética é quase impossível competir com o legado dos Medici. "Em Florença, ainda na Idade Média, já se produzia muita arte. Sempre se sentiu na cidade a herança greco-romana, como se houvesse uma continuidade. É certo que aconteceu isso um pouco por toda a Itália, mas uma convergência de factores geográficos, culturais e económicos tornou especial esta cidade de ricos comerciantes. A sociedade exigia arte e patrocinava-a. E havia competição entre a sociedade civil e a eclesiástica na produção de palácios, catedrais, monumentos. Os Medici, família riquíssima de mercadores que acumulou tanto dinheiro que se tornaram banqueiros, percebeu melhor do que ninguém o valor da arte. E no final do século XV, quando assumem o governo da cidade, na época de Lourenço, o Magnífico, patrocinam grandes artistas como Botticelli e Gianbologna", contextualiza Stefano Casciu. E se Botticelli é florentino, já Gianbologna é flamengo, o que mostra a capacidade dos Médici para atrair artistas de grande qualidade.

Pergunto se Miguel Ângelo, filho da Toscana, também não é outro grande nome a associar aos Medici. O professor, que é também membro do conselho de administração da famosa Galleria degli Uffizi, ri-se. "Era uma relação complicada, pois Miguel Ângelo era republicano e os Medici queriam ser nobreza", explica entre risos. Aliás, na sua ascensão a duques e depois grão-duques, os Medici vão usar a cultura, fazendo até uma espécie de diplomacia enviando artistas pela Europa fora. Miguel Ângelo, que fará algumas obras em Florença, nomeadamente na Capela dos Medici, acabará por acolher-se à protecção do Papa Leão X, "que é um Medici", relembra o académico, de novo entre risos. Ao longo do século XVI a família dará quatro papas.
Sendo Botticelli e Miguel Ângelo tão geniais, porque se tornou Leonardo da Vinci, também filho da Toscana mas que fez carreira sobretudo em Milão e na França, o mais icónico dos artistas italianos do Renascimento, pergunto. "Leonardo era o verdadeiro homem do Renascimento. Fez tudo. Era um grande inventor. Um homem completo, total. Como pintor foi importante, e todos conhecemos a Gioconda, mas pintou pouco", responde o académico. Mas isto de ícones tem muito que ver também com as épocas, nota Stefano Casciu. "Caravaggio só se tornou de novo reputado no século XIX", acrescenta. Graças à sua biografia de brigão, de assassino mesmo, o artista nascido no ducado de Milão, já bem dentro do século XVI, afirmou-se assim na modernidade.
Argumentando que o projecto nacional italiano tem fortíssima base cultural, assente na língua e no património artístico, Stefano Casciu destaca as leis do novo Estado para proteger a arte e como isso tem antecedentes em Roma, nos próprios papas, que em 1734 inauguraram os Museus Capitolinos, "os primeiros abertos ao público no mundo". E relembrou que na sua maioria eram papas capazes de apreciar obras profanas, nomeadamente estátuas pagãs vindas dos tempos greco-romanos.
Ora, essa herança greco-romana, associada à posição central da Península Italiana, explica muito do génio artístico, admite o académico, que fala também do clima agradável, das influências várias, desde os fenícios aos árabes, da tradição artesã que na Idade Média fazia de cidades como Lucca o grande centro de produção de seda do Ocidente. "Ainda hoje os artesãos italianos são dos melhores do mundo. Nos tecidos e não só. A moda italiana impõe-se. E mesmo as grandes marcas de luxo francesas quando querem garantir a melhor qualidade buscam produção italiana", diz Stefano Casciu.

Voltamos à estética, que faz parte da tal alma italiana. "Durante muitos anos fomos o único país que ensinava História da Arte ao longo dos anos escolares. E todas as cidades exibem obras de arte. Não existem só nos museus, mas nas ruas também. As crianças italianas crescem a ver arte."
Leonídio Paulo Ferreira, 05 Novembro 2018 , DN

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Sobre cães

Pensamentos  sobre cães
       " Um homem muito sábio, escrevendo recentemente sobre o surgimento e o desenvolvimento da nossa espécie, sugere que a domesticação do cachorro teve a mesma importância que o uso do fogo para o primeiro homem. Pela associação com o cachorro, o homem dobrou a  percepção e, além disso, o cão - dormindo aos pés do homem primordial - permitiu-lhe descansar um pouco sem ser perturbado por animais sorrateiros. Os usos do cachorro mudam. Um dos primeiros tratados sobre cães em inglês foi escrito por uma abadessa ou prioresa num grande convento religioso. Ela lista o cão de guarda, o de caçar coelhos, o cão da Espanha chamado spaniel e usado para encontrar aves feridas, o cão "venatório" etc. e, finalmente, diz: "Existem aqueles pequenos cães brancos levados por damas para afastar delas as pulgas". Quanta sabedoria havia aqui. O cãozinho de colo não era um enfeite, mas uma necessidade.
        O cachorro em nossos dias, mudou de função. É claro que ainda temos cães usados para a caça e os galgos para as corridas, e os pointers, setters e spaniels para as complicadas profissões, mas,  na população total de cachorros, estes são minoria. Muitos cães são usados como enfeite, contudo a maior parte serve de consolo para a solidão. O confidente de um homem ou de uma mulher. Uma plateia para os tímidos. Um filho para quem não tem filhos. Nas ruas de Nova York, entre as sete e nove da manhã,  vê-se a lenta procissão de cachorro e dono seguindo da rua para a árvore, para  a boca de incêndio, para o caixote de lixo. São cães de apartamento. São levados à rua duas vezes por dia e, embora seja um cliché, é espantoso como dono e cachorro se parecem. Chegam a andar igual, a ter o mesmo tipo de cabeça.
        Nos Estados Unidos, estilos e cães mudam. Há  alguns anos o airedale era o mais popular. Agora é o cocker, mas o poodle está quase  lá. Há uns mil anos consigo lembrar de que havia boxers por toda a parte.
        Nos Estados Unidos, tendemos a levar ao extremo raças de cães que não trabalham. Criamos collies com cabeça tão comprida e estreita que não conseguem mais encontrar o caminho de casa. O dachshund ideal é tão comprido e baixo que sua espinha cede. Nossos dobermanns são paranóicos. Desenvolvemos um boston bull com a cabeça tão grande que os filhotes só podem nascer por cesariana.
        Não é sensato lamentar o cão de apartamento. Sua expectativa de vida é quase o dobro do cachorro do campo. O seu tédio, provavelmente, é muitas vezes maior. Certo dia entrei num táxi e dei o endereço de uma loja de animais. O motorista perguntou:
        - O senhor quer um cachorro? Porque eu posso lhe arrumar um cachorro. Arranjo cachorros.
            - Não é um cachorro, mas como é isso de arranjar cachorros?
       - É assim - disse o taxista. - Sábado à noite, num apartamento, tem um sujeito e a mulher secando uma garrafa de gin. Aí pela meia-noite começam a brigar. Ela diz: "Esse seu cachorro é danado. Quem é que limpa a sujeira  , o leva a passear e dá comida, e quando  chega  apenas  lhe faz um carinho na cabeça. E o sujeito diz: "Não fale assim do meu cachorro". "Odeio-o",  diz ela. "Tá bom colega", diz ele, "Se é assim que  quer... Venha Spot", e ele e o cachorro vão para a rua. O sujeito senta-se num banco, pega o bicho ao colo e chora. Em seguida,  os dois vão para um bar e o sujeito conta para todo mundo que mulher nenhuma pode tratar seu amigo assim. Bem, dali a pouco eles fecham o bar e já é tarde e o efeito do álcool começa a passar e o sujeito quer ir para casa. Aí,  entra num  taxi e dá o cachorro ao motorista. Acontece comigo todas as  noites de sábado.
        Já tive alguns cachorros espantosos. Um que recordo com prazer foi um english setter enorme. Via coisas incompreensíveis. Latia durante horas para uma árvore, mas só para aquela árvore. Na estação das uvas só comia uvas, que colhia da parreira, uma uva de cada vez. Na estação das peras vivia de peras derrubadas pelo vento, mas não tocava em maçãs. Com o passar dos anos foi ficando cada vez mais transcendental. Acho que finalmente acabou desacreditando das pessoas. Pensava que eram um sonho seu. Reunia todos os cães da vizinhança e fazia-lhes conferências ou sermões silenciosos e certo dia concentrou a atenção em mim por uns bons cinco minutos e depois foi embora. Ouvi falar dele em diferentes partes do estado. As pessoas tentavam fazê-lo ficar, mas num ou dois dias ele partia. Minha opinião era que tinha visões e tornou-se missionário. O seu nome era T-Dog. Muito tempo depois, a mais de cem quilómetros de distância, vi um letreiro pintado numa cerca que dizia “T-God”. Estou convencido de que ele trocou as letras de seu nome e desde então saiu pelo mundo para levar sua mensagem a todos os cães.
        Tive todos os tipos de cachorro, mas há um que sempre quis e nunca tive. Nem sei se ainda existe. Costumava haver no mundo um english bull terrier branco. Era atarracado, mas rápido. O seu focinho era pontiagudo e os seus olhos eram triangulares, de forma que a expressão era de um riso cínico. Era amigável e nada brigão, mas se fosse  forçado a lutar era óptimo. Fazia uma ideia favorável e decente de si mesmo e nunca era covarde. Era um cão pensativo, voltado para si mesmo, mas ainda assim tinha uma curiosidade enorme. Era pesado de ossos e ombros.O pescoço fazia um belo arco. Às vezes cortavam a orelha, mas nunca o rabo elevado. Era um bom cachorro para um passeio. Um cachorro excelente para dormir ao lado da cama de um homem. Era delicado em seus sentimentos. Sempre quis um deles. Pergunto-me se ainda existe no mundo. "
John Steinbeck,  in A América e os americanos. Tradução de Maria Beatriz de Medina. organizado por Susan Shillinglaw e Jackson J. Benson. São Paulo: Record, 2004, pp. 173-175

domingo, 11 de novembro de 2018

Ao Domingo Há Música

      
                   
Todos os sonhos são um pouco misteriosos, e é nisso que reside a sua beleza; mas alguns são muito misteriosos, ou seja , não se percebe nada; são como os enigmas. Mas enquanto os enigmas  têm solução, os sonhos não têm. Podemos atribuir-lhes uma  centena de significados diferentes, cada um deles tão bom como o outro. 
                                                         Luigi Malerba, Il serpente

Há sonhos que atravessam o tempo. Outros nascem quando a utopia deixou de alimentar o Homem. Alguns refazem o mundo, outros são apenas fantasmas de uma noite e outros são para uma vida. 
Há quem  os espalhe  e  os cante nos palcos do  mundo.
A talentosa soprano Barbara Hendricks, na famosa canção I have a dream, no espectáculo de tributo aos  ABBA, em 2002.
Barbara Hendricks e Miguel Poveda , em  El cant dels ocells, canção catalã.

sábado, 10 de novembro de 2018

Kamala

«- Eu sou Kamala.
O som da sua própria voz pareceu-lhe romper o encanto que a dominava, e estremeceu toda, deixando cair a cabeça sobre o peito sem poder dar um passo, se bem que a fuga lhe parecesse a única salvação possível. Tinha despendido toda a sua força naquelas três palavras; não lhe ficou nenhuma para suportar a sua vergonha. Estava à mercê de Nalinaksha, estava à mercê da sua bondade.
Lentamente, Nalinaksha levou as mãos de Kamala aos lábios, e disse-lhe:
- Eu sei!
Atraiu-a a si, pôs-lhe ao pescoço uma das grinaldas que ela tinha entrelaçado no dia anterior, e murmurou:
- Inclinemo-nos diante d'Ele...
Enquanto os dois, lado a lado, tocavam com as frontes o branco pavimento de mármore, o Sol da manhã abençoou-lhes as cabeças inclinadas.
Erguendo-se, Kamala prosternou-se uma vez mais diante de Nalinaksha. A sua penosa timidez tinha-a abandonado. A sua alegria nada tinha de exuberante, mas sentia-se invadida por uma calma infinita. Cada recanto do seu coração estava cheio de um sentimento absoluto de dedicação, e pareceu-lhe que oferecia, com o seu respeito, a sua vida inteira. De repente, as lágrimas jorraram dos seus olhos, brotadas de uma fonte desconhecida: eram as lágrimas da alegria submergindo por completo a lembrança dos desgostos passados.
Não lhe falou mais, e, depois de ter desviado da jovem fronte os cabelos ainda húmidos, o marido saiu do escritório.
Kamala entregou-se aos seus trabalhos quotidianos, como se se entregasse ao serviço de um deus. A tarefa mais ínfima representava para ela uma prece, subindo ao céu na mais confiante alegria. Ao cair da tarde, Nalinaksha entrou no quarto de Kamala com uma braçada de grandes flores de aruns.
- Kamala – disse ele –, põe estas flores na água para as conservar frescas: esta noite iremos pedir a bênção a nossa mãe.
- Mas – disse ela timidamente – eu não vos disse nada...
- Eu sei tudo.
Kamala, corando, velou o rosto com o sari... »
Rabindranath Tagore , in "O Naufrágio", Editorial Inquérito, 1942

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A actualidade em cartoon

Le vignette d'Italiaoggi

Le vignette d'Italiaoggi
Paradas e Fake news, José Bandeira, DN

Revisitar os Clássicos,José Bandeira, DN
ovac1.jpg
Web summit: o ovacionado, Henricartoon 
arte1.jpg
Arte taurina,Henricartoon
Chapatte, The New York Times
Chapatte, Le temps, Suisse

EL Roto, El País

José Bandeira, DN

Carta a Baudelaire, José Bandeira, DN