sábado, 8 de outubro de 2016

As palavras morriam em ti

As palavras morriam em ti - II

Ouvi-te mas nada disseste
As palavras morriam em ti
E eu olhava -te sem mim
O amor fora-se sem nós.

Era a tua imagem que chegava
Os teus olhos que me procuravam
As tuas mãos que me acenavam
Num adeus que não se soltava.

Levaram dos meus ouvidos
os sons surdos do teu chamar,
ténues, inaudíveis, doridos
em mil gemidos por decifrar.

Já não sei se ainda desejo  
ficar nas pregas da tua sombra
esperando-te  quando não vens
se não sou mais  quem  te sonhou

Adeus. Já não importam
esses sinais  que ficaram 
no longo  desenho dos beijos  
que  nos lábios se afundaram.

Maria José Soares de Moura , in " Poesias do Mar e da Terra"

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Os Madredeus

Os Madredeus, com  a magnífica voz de Teresa Salgueiro e  a companhia portuguesa , "Lisboa Ballet Contemporâneo," interpretando "ao vivo" a canção "Um amor infinito",no CCB.

O Paraíso  pelos  Madredeus interpretado pelo  Lisboa Ballet Contemporâneo numa  coreografia de  Benvindo Fonseca , no CCB - Centro Cultural de Belém, Lisboa-Portugal, 29 de Junho de 2006.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Traz-me de volta a mocidade

Poeta
Para isso terás de me trazer
Os anos do meu próprio devir,
Quando uma fonte de canções a nascer
Brotava em mim sem se extinguir,
Quando névoas me escondiam o mundo
E inda o botão milagres prometia,
Quando eu as mil flores colhia
Que enchiam o vale até ao fundo.
Não tendo nada, bastante tinha então:
A sede de verdade e o gosto da ilusão.
Dá-me de novo as paixões sem temor,
A funda e dolorosa felicidade,
Do ódio a força, o poder do amor:
Traz-me de volta a minha mocidade!
Johann Wolfgang von Goethe, em "Fausto". Tradução  de João Barrento. Lisboa: Relógio d'Água, 1999, p. 35.

O mistério supremo do Universo

O mistério supremo do Universo
O único mistério, tudo e em tudo
É haver um mistério do universo,
É haver o universo, qualquer cousa,
É haver haver. Ó forma abstracta e vaga
Que tão corrente haver em mim demora
Que pensar isto é-me no corpo um frio
Que sopra d'além terra e d'além-túmulo
E vai da alma a Deus.

Fernando Pessoa , in Fausto - Tragédia Subjectiva  . (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988

Prometeu
Cobre o teu céu, ó Zeus,
De vapores de nuvens!
E ensaia, como um rapaz
Que decapita cardos,
As tuas artes em carvalhos e cumes!
A minha terra, essa
Tens de deixar-ma,
E a minha cabana,
Que não construíste,
E o meu lume,
Cujo fogo
Me invejas.

Nada conheço de mais pobre
Sob o Sol que vós, deuses.
Mal conseguis alimentar
Com tributos de oferendas
E o sopro de orações
A vossa majestade,
E morreríeis à míngua se não
Fossem crianças e pedintes,
Loucos cheios de esperança.

Quando eu era criança,
Sem saber que pensar nem que fazer,
Voltava para o Sol os olhos
Perdidos, como se lá em cima houvesse
Um ouvido para o meu lamento,
Um coração como o meu
Para se compadecer dos oprimidos.

Quem me ajudou contra
A arrogância dos Titãs?
E da morte quem me salvou,
Da escravidão?
Não fizeste tu tudo sozinho,
Coração, com teu fogo sagrado?
E não ardeste tu, jovem e bom,
Enganado, dando graças de salvação
Aos deuses adormecidos lá em cima?

Eu, venerar-te? Para quê?
Aliviaste tu alguma vez
As dores dos que sofrem?
Alguma vez secaste as lágrimas
Dos angustiados?
E quem forjou em mim o Homem, se não
O Tempo todo poderoso
E o Destino eterno,
Meus e teus senhores?

Pensaste porventura
Que eu havia de odiar a vida,
Fugir para os desertos,
Porque não deram fruto todos os sonhos
Que despontaram na aurora da juventude?
Aqui estou eu, criando Homens
À minha imagem,
Uma estirpe igual a mim,
Que sofra e chore,
Goze e se alegre,
E te não respeite,
Como eu.
Johann Wolfgang von Goethe, in Obras Escolhidas de Goethe, vol. 8, Poesia,  trad. João Barrento, Círculo de Leitores, Maio de 1993, pp 22-23.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Manoel de Andrade vem a Portugal

Manoel Andrade, poeta  brasileiro, vem a Portugal. Visitará Portimão onde é esperado por amigos e leitores da sua obra. Aí, dinamizará, no dia 14 de Outubro, uma tertúlia que  junta, mensalmente,  um grupo diverso  à volta de uma mesa para discussão de ideias, temas culturais e literários numa abordagem livre , independente e plural. O acontecimento realizar-se-á no "Velocity Bar". Posteriormente, no dia 19 do mesmo mês de Outubro, pelas dezoito horas, proferirá uma Palestra, sob o título "A América Latina nos rastos de Manoel de Andrade", na Biblioteca Municipal Manuel Teixeira Gomes, em Portimão.
A sua viagem prosseguirá por Espanha e França.
Livres Pensantes, que tem publicado vários excertos da obra deste escritor, regozija-se com a sua presença no nosso país  e saúda-o com os melhores votos.
Publica-se, hoje, uma parte da  entrevista concedida à Revista Ideias que traça um breve percurso deste grande poeta da resistência, com um passado brilhante na luta pela Liberdade.
Nesta entrevista, o poeta falou sobre a luta contra a ditadura, contou um pouco da sua obra e relembrou a sua jornada pela América Latina, que, para o autor, é o melhor lugar para se viver.
"Mais do que um poeta, Manoel de Andrade considera que seus livros não são apenas poesia. São, segundo Andrade, “Um documento histórico, porque todos os poemas trazem uma consigna geopolítica de luta e, paradoxalmente, uma mensagem de paz e esperança”.
Levando em conta o histórico do autor, é coerente considerar que um livro de poesia pode representar mais do que uma reunião de poemas. Com a publicação de seus versos, Andrade sofreu perseguição política e enfrentou resistência militar em vários países da América Latina nos anos 1970. Com a publicação de Saudação a Che Guevara o poeta teve que deixar o Brasil.
A luta e a obra de Andrade fizeram com que o autor percorresse 16 países da América Latina. A jornada está agora reunida em seu mais recente livro Nos Rastros da Utopia (2014). Antes, já havia publicado outros livros onde se incluem Poemas para a Liberdade (1970) – com tiragem esgotada em diversos países, e Cantares (2007) – seu retorno à poesia.
Como  analisa o papel que a literatura teve na luta contra a ditadura?
Ela não teve o papel que deveria ter. Os comprometimentos foram poucos. Acho que o teatro foi o grande palco dessa luta e onde se destacaram o Grupo Opinião do Rio de Janeiro e o Teatro de Arena de São Paulo. Lembro-me que, em 1965, o Grupo Opinião chegou a Curitiba com a peça Liberdade, Liberdade, trazendo em seu elenco Jairo Arco e Flecha, Tereza Raquel e Paulo Autran, de quem me tornei amigo.
A peça marcou época no teatro brasileiro e citava textos em prosa e poesia de autores famosos, para protestar contra a repressão imposta pela ditadura. Depois de minha volta ao Brasil me afastei da vida cultural e da literatura, mas percebi que, sobretudo depois do AI-5, a criação literária vivia amordaçada e desiludida de seus próprios objectivos.
Não se editavam muitos romances naquela época e, apesar do meu distanciamento, li algumas obras como Quarup e Bar Don Juan, de Antonio Callado, e Pessach: A Travessia, de Carlos Heitor Cony.

O texto de apresentação do livro Nos rastros da utopia – uma memória crítica da América Latina dos anos 1970, apresenta-o como um caminhante incansável que fez uma fantástica peregrinação por 16 países da América. Fale um pouco dessa jornada.
Ela não teve o papel que deveria ter. Os comprometimentos foram poucos. Acho que o teatro foi o grande palco dessa luta e onde se destacaram o Grupo Opinião do Rio de Janeiro e o Teatro de Arena de São Paulo. Lembro-me que, em 1965, o Grupo Opinião chegou a Curitiba com a peça Liberdade, Liberdade, trazendo em seu elenco Jairo Arco e Flecha, Tereza Raquel e Paulo Autran, de quem me tornei amigo.
A peça marcou época no teatro brasileiro e citava textos em prosa e poesia de autores famosos, para protestar contra a repressão imposta pela ditadura. Depois de minha volta ao Brasil me afastei da vida cultural e da literatura, mas percebi que, sobretudo depois do AI-5, a criação literária vivia amordaçada e desiludida de seus próprios objectivos.
Não se editavam muitos romances naquela época e, apesar do meu distanciamento, li algumas obras como Quarup e Bar Don Juan, de Antonio Callado, e Pessach: A Travessia, de Carlos Heitor Cony.
Com a publicação de Cantares (2007), você retomou a publicação de poesia depois de um longo período. Por que este intervalo?
Realmente, foi um longo intervalo. Mais de 30 anos. Algo estranho na vida de um escritor. Meu último poema, da fase latino-americana, chamado Liberdade, foi escrito em 1971, no México. Depois disso, começa um intenso período de viagens com palestras, conferências e recitais nos Estados Unidos e depois no Equador, no caminho de minha longa volta ao Chile, em Dezembro de 1971, e, meses depois, para o Brasil, em meados de 1972.
Somente voltei a escrever poesia em 2002. Ou seja, depois de 31 anos. Porquê? Fortes razões de ordem familiar me fizeram voltar, justamente na época mais perversa do regime ditatorial, obrigando-me a entrar no anonimato literário, social e profissional.
A luta contra a ditadura foi um dos motivos por esse intervalo?
De 1972 a 1975, as operações militares para acabar com a Guerrilha do Araguaia, bem como a crueldade com que os DOI-Codi iam aniquilando os quadros da guerrilha urbana, geraram o pânico entre todos aqueles militantes ou intelectuais que haviam se posicionado, na acção ou no ideário, contra a ditadura. As detenções, torturas, execuções e desaparecimentos entraram em sua fase aguda em todo o país.
Alguns meses depois de minha chegada, estava sendo procurado pelo DOPS. Transferi meu registo da OAB para Santa Catarina, com o objectivo de advogar em meu Estado. Mas também lá senti que não poderia assumir publicamente qualquer trabalho. Foi neste contexto que encontrei, em Curitiba, uma forma de trabalhar sem que os agentes da ditadura nunca soubessem onde eu estava. Fui vender a Enciclopédia Delta Larousse, numa actividade itinerante, de cidade em cidade, de Estado em Estado. Tornei-me campeão estadual e nacional de vendas, cheguei ao topo na hierarquia dos títulos, à classe gerencial e palestrante em técnicas de marketing.
Como foi o processo de retomada?
Minha retomada à criação poética aconteceu numa misteriosa circunstância. Já expliquei algures que minha volta à poesia deu-se por uma intrigante inspiração das musas. Na campanha eleitoral para governador do Paraná, em 2002, Roberto Requião – velho amigo, colega da Faculdade de Direito e companheiro de ideais na juventude –, foi covardemente acusado de inverdades e calúnias pelos seus inimigos políticos. Indignado, comecei a escrever alguns versos, relembrando o tempo em que saíamos em passeatas de protesto contra a ditadura, dos sonhos de justiça e liberdade que partilhávamos e que ele brilhantemente colocava na sua afiada oratória e eu no lirismo dos meus versos.
Lembrei-me também do caminho que me indicou, e dos amigos a quem me recomendou, no Paraguai, quando, em Março de 1969, tive que sair do Brasil, num dos momentos mais difíceis de minha vida. Todo este gesto solidário se transformou no poema Tributo, tornado público num jornal da época e que consta do meu livro Cantares. Foi com este poema que voltei a escrever poesia, em Setembro de 2002, depois de 31 anos de abstinência literária.
Consegue enxergar uma marca na literatura produzida nesses países? O que caracteriza a poesia latino-americana?
Meu interesse, naqueles anos e ainda hoje, pela literatura latino-americana sempre foi dirigido para os autores comprometidos, sobretudo com o indigenismo e as lutas sociais, e o que caracteriza essa literatura, na prosa e na poesia, é a denúncia e a resistência.
Este espaço não me permite nomear todos os autores, cujas obras estudei – e tudo isso está amplamente analisado Nos Rastros da Utopia – e que se comprometeram com essas lutas, mas me lembro aqui de Mariano Melgar, Pablo Neruda, Armando Tejada Gómez, Ariel Danton Santibañez Estay, Eliodoro Aillón Terán, Javier Heraud, Cesar Vallejo, Luis Nieto, Leonel Rugama, Tirso Canales, Roque Dalton e Otto René Castillo entre os poetas, e Oscar Soria Gamarra, José María Arguedas, Roa Bastos, Ciro Alegria, Manuel Scorza, Jorge Icaza, Miguel Angel Astúrias e Carlos Fuentes entre os prosadores.
Poemas para a liberdade teve grande repercussão, com edições esgotadas em vários países. A que  atribui esse alcance?
Este livro nasceu espontaneamente pelas mãos dos estudantes peruanos de Arequipa, em Janeiro de 1970, que propuseram gratuitamente uma edição mimeografada de 1.500 exemplares. Dois meses depois, os estudantes de Cusco lançaram duas edições, respectivamente de 700 e 1.000 exemplares mimeografados e em Junho daquele ano, em La Paz, meu livro tem sua primeira edição, de 2.000 exemplares, lançada graficamente, e sem nenhum custo para mim, pelo Comitê Central Revolucionário da Universidad Mayor de San Andrés.
Na verdade, os factos que levaram à edição boliviana de Poemas para la libertad é uma história espiritualmente misteriosa e inacreditável do ponto de vista editorial e que é contada com todos os seus detalhes no meu livro Nos Rastros da Utopia, envolvendo o jornalista brasileiro Paulo Canabrava Filho, na época militante da ALN – Aliança Renovadora Nacional – e correspondente da France Press, exilado na Bolívia, e o poeta e jornalista boliviano Jorge Suárez.
E as edições em outros países, como aconteceram?
Na Colômbia, a obra foi editada pela Nova Era, cujos 1.500 exemplares se esgotaram em poucas semanas nas livrarias de Cali e Bogotá; duas edições norte-americanas editadas em 1971, em San Diego, pela Grandma’s Camera; a edição equatoriana editada pela Universidade Central do Equador, em 1971 e, finalmente, em 2009, a edição bilíngue brasileira editada pela Escrituras.
Meus Poemas para la libertad também tiveram edições parciais na Nicarágua, em plena ditadura de Somoza, editadas pela Universidade de El Salvador e publicados, declamados e debatidos em Tampico, no México, em Fevereiro de 1971, durante as comemorações do 37º aniversário de morte de Augusto Cesar Sandino, onde participei, a convite dos sandinistas exilados no México. Dois de seus poemas – Canção para homens sem face e Canção de amor à América – foram publicados pela Revista Civilização Brasileira e o último foi comentado pelo crítico Wilson Martins ao afirmar que “é, com certeza, um dos belos poemas do nosso tempo”.
Quanto ao seu alcance e repercussão, creio que se deve ao carácter libertário dos meus versos, à imagem revolucionária que se criou em torno de minha pessoa como um poeta desterrado e expulso de vários países por minhas convicções políticas, assim como pela minha incansável militância poética, peregrinando ao longo de toda a América Latina, num tempo em que a juventude estava  mobilizada ideologicamente e, diferentemente da juventude dos nossos dias, amava realmente a poesia.
Além do sucesso editorial, o livro teve grande influência política. Essa repercussão política já era esperada?
Na década de 1970, o continente estava semeado de sonhos e esperanças. A revolução cubana, a imagem heróica do Che, as repercussões das revoltas estudantis de 1968 na França, no Brasil e em quase todo o mundo eram os ingredientes que contagiavam politicamente a juventude. Meu livro não era apenas um livro de poesia. Era um documento histórico, porque todos os seus poemas trazem uma consigna geopolítica de luta e, paradoxalmente, uma mensagem de paz e esperança.
Há um poema chamado Requiem a um poeta guerrilheiro, dedicado ao jovem poeta peruano Javier Heraud, assassinado pelo exército em 1965, e que também foi uma das causas da minha expulsão do Peru, em 1969. Depois veio minha expulsão da Colômbia e por aí vai, para dizer que meu livro, muito mais que um livro de poesia, foi um gesto de convocação e resistência, uma trincheira de luta e uma bandeira desfraldada por um mundo melhor, tendo seus versos sido publicados em panfletos, jornais, grandes revistas, cartazes, publicações académicas, livros e antologias, ao lado de Mario Benedetti, Juan Guelmann, Jaime Sabines e outros grandes poetas hispano-americanos.
Há também um poema chamado Saudação a Che Guevara, que foi a causa da minha saída precipitada do Brasil, em 1969. Um outro poema, chamado O guerrilheiro, foi dedicado a Inti Peredo, lugar-tenente de Che Guevara na guerrilha boliviana, escrito em 1969, em Cochabamba, alguns dias depois do seu assassinato por militares em La Paz, e que foi um dos motivos porque fui “convidado” a deixar a Bolívia em 48 horas.
Conte um pouco mais sobre esse episódio de Saudação a Che Guevara.
Este poema foi escrito em Outubro de 1968 para comemorar o primeiro ano da morte de Che Guevara. Por iniciativa do livreiro José Ghignone (o Dude) foram mimeografadas 3.000 cópias e distribuídas, pelo pessoal do Partidão, em universidades, centros académicos, sindicatos e organizações de classe. A distribuição foi feita gradativamente entre o fim de Outubro e o começo de Dezembro, até o dia 13, quando foi publicado o AI-5. E daí tudo mudou. O que fazer se o poema já fora quase totalmente distribuído e pregava a luta armada?
Nos primeiros dias de Março de 1969, viajei ao Rio de Janeiro para um encontro com o poeta Moacyr Félix e o editor Ênio Silveira, a fim de entregar os originais para a publicação da série Poesia viva, que a editora Civilização Brasileira estava lançando e para a qual eu fora convidado, depois da boa repercussão que teve meu poema Canção para os homens sem face, recém-publicado no n° 21/22 da Revista Civilização Brasileira.
Ao voltar para Curitiba, no dia 12 de Março, encontrei no bar Velha Adega alguns amigos e entre estes o escritor e publicitário Jamil Snege e a estudante de sociologia Elci Susko. Ela me relatou, angustiada, que, por duas vezes, fora abordada na Faculdade, levada por agentes de segurança e interrogada pelo delegado regional da Polícia Federal sobre o meu paradeiro. Ele tinha em seu poder um exemplar do panfleto “Saudação a Che Guevara” onde constava a autoria do poema e me acusava de “comunista”, de “pregar a luta armada” e ser “um inimigo da pátria”.
Naquela época, a dois meses da publicação do AI-5, já havia começado a “caça às bruxas”, no Brasil inteiro. Os suspeitos de subversão eram presos, mantidos incomunicáveis e muitos começaram a sumir. Naquela mesma noite, já em pânico com o relato da Elci e preocupado com minha esposa e minha filha, fui aconselhado pelo Jamil a sair da cidade. No dia seguinte, pela manhã, fui à casa do Requião, e, como já adiantei, ele abriu o caminho para que, no dia 15 de março de 1969, eu rumasse para Assunção recomendado para seus amigos, o pintor e escultor Angel Higinio Iegros Semidei e os irmãos Francisco e Mario Rojas.
         Nascido em Rio Negrinho, SC, e radicado no Paraná onde se formou em Direito, Manoel de Andrade deixou o Brasil em Março de 69, quando os agentes da ditadura  o procuravam pela panfletagem de seu poema “Saudação a Che Guevara”, numa época em que sua poesia começava a ser conhecida nacionalmente através de jornais e revistas como a Civilização Brasileira.  Expulso da Bolívia em fins de 69, onde chegou em Setembro daquele ano (...) preso e expulso do Peru e da Colômbia em 70, seus Poemas para la Libertad tiveram uma trajectória política e uma aventura literária que dificilmente outro livro tenha tido. Como falam de luta armada e glorificam  a  saga   de grandes guerrilheiros,  numa América Latina então controlada pela “inteligência” dos regimes militares, tinham que, quase sempre, atravessar clandestinamente as fronteiras, como foi feito com uma mala de 200 exemplares da edição boliviana, a qual chegou a Quayaquil por via fluvial, trazida  da fronteira peruana por contrabandistas equatorianos.

  
       Apesar de editado há quase quarenta anos, o livro Poemas para la Libertad consta, na actualidade, de vários catálogos da literatura política latino-americana e muitos de seus poemas têm aparecido em várias antologias, destacando-se  a POESIA LATINOAMERICANA – Antologia Bilíngüe,  em espanhol e inglês, publicada em 1998 pela Epsilon Editores de México, onde é o único poeta brasileiro a partilhar suas páginas com o uruguaio Mario Benedetti, o argentino Juan Gelman, o mexicano Jaimes Sabines e outros consagrados poetas do continente.
      Até então inédito no Brasil o sucesso editorial deste livro foi quase tão grande quanto seu considerável alcance ‘político’. Com quatro edições no exterior, a obra estreou em Junho de 70, na Bolívia. A 2ª edição surgiu em Setembro de 70, na Colômbia e esgotou-se em algumas semanas nas livrarias de Cali e Bogotá. A  3ª edição, publicada em Abril de 70 en San Diego, espalhou-se pela Califórnia e pelo Sudoeste dos EE.UU. levados pelos estudantes e intelectuais chicanos. Por certo o sucesso destas e de outras edições está ligado aos  quatro anos de intensa actividade ideológica que seu autor realizou pelo Continente, lendo seus versos e promovendo debates sobre o significado político da literatura e da arte  nos inumeráveis recitais que deu  em dezenas de universidades, bem como em teatros, galerias de arte, festivais de cultura, congresso de poetas, instituições político-culturais, sindicatos, reuniões públicas, privadas e clandestinas e até no interior das minas de estanho bolivianas. As primeiras edições panfletárias, lançadas pelas Federações Universitárias  de Cuzco e Arequipa, em Janeiro de 70, ficaram conhecidas em todo o meio estudantil do Peru e percorreram a América nas mochilas de dezenas de estudantes latino-americanos. Seus poemas foram amplamente publicados em jornais, revistas, opúsculos, cartazes e panfletos. 
         Três mil cartazes do “Saludo a Che Guevara”, ilustrados pelo pintor boliviano Atílio Carrasco, foram editados, em Outubro de 69, pela Federação Universitária de Cochabamba, para comemorar o segundo ano de sua morte e distribuídos por toda a Bolívia. Um trecho de seu poema, Réquiem a um poeta guerrilheiro, dedicado ao poeta peruano Javier Heraud,  legendou o quadro Muerte, do  pintor chicano Malaquias Montoya.
O texto de apresentação do livro Nos rastros da utopia – uma memória crítica da América Latina dos anos 1970, apresenta-o como um caminhante incansável que fez uma fantástica peregrinação por 16 países da América. Fale um pouco dessa jornada.
É uma jornada que teve a dimensão gráfica de 912 páginas. É difícil resumir em poucas linhas essa imensa aventura. O que posso dizer é que na década de 1970 tudo estava no ar e bastava o compromisso de sonhar para que os caminhos se abrissem magicamente. Contudo, nem todas as portas da realidade se abriram aos ideais e nem todos os visionários que lutaram por uma nova sociedade conseguiram sobreviver às suas trincheiras.
Sinto-me um privilegiado por ter trilhado esse venturoso tempo e de poder resgatar num livro essa imensa memória colhida em tantos caminhos, numa profunda identificação com a história e as bandeiras revolucionárias desfraldadas pelo continente.
O meu livro é também uma reflexão sobre os sentimentos e as emoções que marcaram a agenda daqueles anos, dizendo da ventura de ter sido jovem nesse tempo e do desencanto de ver, actualmente, as utopias desterradas. Falo da trágica herança dos nossos dias, de um mundo sem norte, sem porto e de um tempo marcado pela perplexidade e os pressentimentos. Mas ainda que nesse impasse, minha alma de poeta não abdica de sonhar, imaginando que a misteriosa dialéctica do tempo nos reconduza a um amanhecer, a uma aldeia de esperança, a um mundo possível e melhor." Felipe Kryminice , Revista Ideias

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Primo Levi

The ethics of Primo Levi
IAN THOMSON
"In the mid-1950s, Primo Levi often travelled to Germany on business as an industrial chemist. It would have been bad for business if he could not, at some level, accommodate the country that had degraded him as a Jew at Auschwitz. In his memoir of his survival in the camp, If This Is a Man (1947), the Germans are addressed aggressively in the vocative: “You Germans, you have succeeded”. Any German who had shown Levi a scintilla of humanity in occupied Poland – and there were a few – is pointedly omitted. In a “judicial enquiry pervaded by indignation” (as Levi described his book), minor acts of German charity would have been a distraction. Yet the fact remains that there are not even half-decent Germans in If This Is a Man. Only in his later writing would Levi consider the exceptions that defied the stereotype: the good German, the charitable Kapo.
Levi displayed no obvious rancour during his first trip to Germany in 1953. On the contrary, he was keen to practise the German he had learned so imperfectly at Auschwitz, and loved to tear down the Autobahns with his boss Rico Accati at the wheel of his Maserati (which few German cars could overtake). By the time of his second visit in July 1954, however, Levi was in an antagonistic mood. He told Accati that he wanted to meet a former Nazi and went out of his way to ruffle sensibilities by introducing himself: “Levi, how do you do”, carefully articulating the Jewish surname first. Levi had already glimpsed an unpleasant instinct lurking beneath the polite surface of the Bayer headquarters outside Cologne, when an employee observed that it was “most unusual” for an Italian to speak German. Levi countered: “My name is Levi. I am a Jew, and I learned your language at Auschwitz”. A stuttering apology was followed by silence. Levi could hardly pretend that he was in a normal business relationship with post-Hitler Germany.
Levi’s most dramatic encounter – what he later called “the hour of colloquy” – took place one lunchtime at Bayer’s guesthouse on Kaiser-Wilhelm-Allee. He was seated at the dining table in shirtsleeves and making small talk when a director asked him about the 174517 tattoo exposed on his forearm. Levi instantly replied: “It’s a memento of Auschwitz”. Accati’s daughter Luisa, who was in Germany with her father to improve her spoken German, recalled the scene: “All one could hear was a polite clatter of forks on plates as ten Germans – all men – shifted awkwardly in their seats”. Levi’s forthright response did not suggest an attempt on his part to understand the Germans but rather to shame them.
However, as the 1950s gave way to the 1960s, Levi was able to treat the Germans as individuals, and make a distinction in his mind between Germans and Nazis. One German in particular helped to bolster his confidence: his German translator, Hans Reidt. In 1959 Reidt had written to Levi: “The publication of If This Is a Man in Germany seems to me to be extremely important and necessary”. So began an extraordinary exchange of letters – some twenty over a period of ten months – during which Levi learned that Reidt had not only fought in the anti-Fascist Italian Resistance but had done so in a “Justice and Liberty” formation just as he, Levi, had done. Reidt even shared Levi’s birthday: July 31, 1919. Moreover, his father-in-law, a non-Jew, had been an Auschwitz “red triangle”, or political prisoner.
Anxious to maintain control over the German translation on his book, Levi offered to help Reidt with queries. He was pernickety but beneficially so. In the final chapter, for example, the Jewish Hungarian prisoner Sómogyi dies while feverishly muttering Nazi commands. Where Levi had written, “he had finished”, Reidt substituted, “he had ceased to exist”. Levi vigorously objected. “When I wrote ‘he had finished’ I was referring to Sómogyi’s slow, terrible death-struggle”, explaining: “Ever obedient, here was a man who would only allow himself to die once he had ‘had finished’ saying Jawohl”. Such scrupulousness was understandable in a man who was about to be published in the country that had sought to annihilate him and his co-religionists; Levi had to be sure that his translated work said to the Germans exactly what he intended.
He was less fortunate with some of his other translations. A Spanish edition of If This Is a Man, published in Buenos Aires in 1956, turned out to be a ragged version of the original. “Traduttore traditore”, Levi complained. “The translator is a traitor.” Worse was the French translation, J’étais un homme, which appeared in 1961. Not only did the title come close to inverting the sense of the book, but the translation was filled with errors. Levi tried but failed to have copies withdrawn. Now we have The Complete Works of Primo Levi, a handsome, three-volume edition. Almost every book previously translated into English has been retranslated. One exception is If This is a Man, whose original translator, Stuart Woolf, has revised his 1959 version. In an afterword, Woolf tells of how he lived in a flat close to Levi’s in Turin during the 1950s. Woolf was then a young Oxford historian on a research fellowship sponsored by Hugh Trevor-Roper. Throughout 1958–9 he called on Levi twice a week with the latest pages of his translation. His dry humour and owlish English reserve appealed to the self-confessed Anglophile in Levi. By excising any ambiguities or solecisms from the translation he taught Woolf to “value” the weight of words and to choose them “meticulously”. When Woolf lent Levi a copy of the first volume of J. R. R. Tolkien’s The Lord of the Rings, the book came back to him the next day unopened. “I can see now that Tolkien must have stood for everything Primo despised: wilful obscurity, cod mysticism”, Woolf recollected. At all times, Levi tried to preserve the marvellously taut cadence of Woolf’s English; from this collaborative effort, rare in the history of modern translation, emerged a creative transformation.
It is difficult to see how Woolf might have improved on his original. In the afterword he talks of “improvements”, but in reality these are minor. A couple of examples may suffice. In the opening chapter, Levi writes of the German deportation trains waiting outside Modena at Carpi station: “There were twelve goods wagons for six hundred and fifty men”. In the new version, this becomes: “There were twelve cattle cars for six hundred and fifty of us”; “cattle cars” (vagoni, in Levi’s Italian) is preferable to “goods wagons”, but only just. Generally, Woolf has aimed in this new version for a more compressed and accurate English. “It had been by no means easy to flee into the mountains” is now “It hadn’t been easy for me to choose the mountains”. (“Non mi era stato facile scegliere la via della montagna”, Levi had written.) Woolf’s substitution of “flee” for “choose” (scegliere) in the original had suggested a blind dash away from the Germans into the mountains above Turin; in fact, Levi’s action had been carefully thought out.
In the United States, If This Is a Man and its sequel, The Truce, were published under the misleading titles Survival in Auschwitz and The Reawakening – misleading because The Truce is an intentionally ambivalent title, suggesting as it does that Levi’s rescue from Auschwitz and repatriation to Italy were a brief, queasy parenthesis before future troubles. In the final chapter, Levi describes a recurring dream in which he is back in the camp and “nothing is true outside” it. Under Ann Goldstein’s diligent editorship, the British titles have been retained. Goldstein (the translator of, among other Italian writers, Elena Ferrante and Pier Paolo Pasolini) has overseen a total of nine translators for this hefty 3,000-page collection. Three of the fourteen books have been translated by Goldstein herself (The Truce, The Periodic Table, Lilith and Other Stories); she has rendered Levi’s formidably concise Italian into a transparent and bracingly spare English.
The Complete Works has been fifteen years in the making, but not all Levi’s works are here. Notably absent is his anthology of favourite writings, La ricerca delle radici (1982, The Search for Roots), an unclassifiable yet darkly self-revealing work. The book was excluded on the grounds that not much of it was Levi’s own work, which seems a shame. Included in it was an extract from Thomas Mann’s novel Joseph and His Brothers. Why? At a time when Hitler was persecuting the Jews, Mann had published a book that portrayed Jews as the founding fathers of modern morality. The Romanian poet Paul Celan’s poem “Death Fugue” was also included. (“I carry this poem inside me like a virus”, Levi told his editor.) More problematic was Levi’s inclusion in this anthology of a “specification” paper on how to render an industrial varnish resistant to cockroach attack. Was the drily factual entomological text associated in Levi’s mind with the writhing dung-beetle of Kafka’s Metamorphosis?
In his essay “Translating Kafka”, included in Volume Three, Levi relates how his translation of The Trial in 1982 left him more terribly involved than he could have imagined. Originally he had hoped to improve his German, but found only bleakness in Josef K., who is arrested for a crime he probably did not commit. Levi wonders in the essay if he has any “affinity” at all with Kafka. Yet the more he immersed himself in the work of “St Franz of Prague”, the more he saw uncomfortable parallels. Kafka lived an unremarkable life as an insurance clerk in Prague, rarely travelling beyond his home or that of his parents; Levi believed he was similarly constricted in his own life as the manager of a paint and varnish factory outside Turin. Moreover, Kafka’s three sisters had all perished in the Nazi gas chambers – victims of a grotesque bureaucratically structured system foreshadowed by their brother two decades earlier in The Trial. Kafka must have had “astounding clairvoyance”, Levi comments, to have looked so accurately into the future.
More congenial to Levi were the anthropologists Claude Lévi-Strauss and Mary Douglas, whose work he translated in the 1970s and early 80s for the Turin publisher Einaudi. Unfortunately his English was not quite up to Douglas’s Natural Symbols; the eminent Italian anthropologist Francesco Remotti was therefore summoned to help with technical terms. In Remotti’s view, Levi himself was an “anthropologist – of the death-camp”. The view has more than neatness in its favour. Levi viewed Auschwitz as a giant laboratory experiment designed to transform the human stuff of mankind. In many ways, he was a writer of ethical meditation in the school of Montaigne, whose work stands as a marvel of luminous reflection on the ways of man. Writing itself was a moral act for Levi; his “crystalline” prose (as Goldstein calls it) served partly as an antidote to the language confusion – Yiddish, Polish, French, Hungarian – he had encountered at Auschwitz.
Toni Morrison’s introduction to this collection, oddly, has a flavour of the “wilful obs­curity” that Levi so distrusted. In solemn academic tones it lauds the Complete Works as “far more than a welcome opportunity to reevaluate and reexamine historical and contemporary plagues of systematic necrology; it becomes a brilliant deconstruction of malign forces”. Morrison speaks of the “Holocaust”, moreover, when Levi had made no secret of his dislike of the term. (“It seems to me inappropriate, it seems to me rhetorical, above all mistaken.”) From the Greek, “holocaust” means a sacrificial burnt offering to the gods: even by the barbarous standards of antiquity, Levi insisted, the Nazi genocide was not a ritual offering of victims.
Of course, Levi was more than a witness to contemporary barbarism. In much of the newly translated journalism, fiction and poetry he explores the border zone between science and literature. His great scientific memoir, The Periodic Table, published in Italy in 1975, was ahead of its time: only in recent years has science become, in publishing terms, popular and attractive. Long before Richard Dawkins, Stephen Jay Gould and others, Levi had sought to make science accessible to the layperson. The Periodic Table gathers up an extraordinary range of writing, from detective fiction to learned scientific commentary. Chronicled are the fumes, stinks, bangs and fiascos (as well as the occasional triumphs) of Levi’s early chemistry experiments in 1930s Turin, his deportation to Auschwitz and post-war recovery as a writer and chemist.
Over a quarter of a century has passed since Levi died in 1987, yet his fame has grown during this period. In certain quarters of the United States, nevertheless, his suicide provoked a degree of moral outrage. By taking his life, an anonymous diarist objected in the New Yorker, Levi had cheated his readers. So violent a gesture (he pitched himself down the stairwell of the block of flats where he lived in Turin) was seen to be at odds with the calm reason of his prose. The belief remains as vulgar as it is short-sighted: the manner of Levi’s death in no way diminishes the importance of his writing. In The Complete Works Levi portrays himself variously as courageous, cowardly, prophetic or naive, but usually well balanced; in reality he was not at all well balanced. Levi and his books are not one and the same. If anything, his suicide reminds us that the life of the artist does not run parallel to his art. The suicide was provoked by a clinical depression, which was compounded by a number of factors, among them the fear of memory loss and, possibly, guilt at having survived Auschwitz. These three volumes, appearing two decades after the two-volume Opere published in Italy in 1997, confirm Primo Levi as one of the most important writers of our time."TLS,15,June

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A Língua Portuguesa no Mundo

XII - DA EUROPA IMPERIAL AOS NOVOS IMPÉRIOS LINGUÍSTICOS

"Na época dos pioneiros da colonização, em que a língua devia ser a “companheira do império” (Nebrija) e em que nas colónias (periferias), à semelhança das metrópoles europeias, era necessário usar a língua do centro, a atitude dominante das soberanias europeias, até meados do século passado, era a de considerar que “a língua é nossa”, procurando implantá-la, ao mesmo tempo que transportavam com ela, para outros povos, a visão do mundo, dos valores e da vida que estruturalmente lhe eram inerentes. Era a política de assimilação.
Paulatinamente foram surgindo novas políticas com agrupamentos de vários países em blocos de poder, passando por diversas formulações até à formação de blocos linguísticos, aglutinados, no essencial, por uma língua aceite como comum. Surgem, neste contexto, organizações como o Instituto da Alta Cultura, o Instituto Camões, o British Council, a Alliance Française, o Instituto Cervantes, o Goeth Institut, o Instituto Confúcio, servindo não apenas para preservação e defesa das línguas a eles afectas, mas também para a sua expansão, invertendo-se a frase de Nebrija, uma vez que a partir daí é a língua que arrasta consigo o império, interpretando este num sentido simbólico.
Esta metamorfose deu-se em simultâneo com a ascensão de organizações internacionais e do Direito Internacional Público, superando a ideia tradicional de que os problemas linguísticos eram responsabilidade das academias, de acordo com a regra de que cada Estado soberano transportava esses modelos para os territórios de que era responsável. No que toca ao português, defendeu-se a existência de um organismo onde estejam em pé de igualdade todos os Estados que o adoptaram, visando a definição e prossecução de interesses comuns. Veio daí a ideia do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) e da criação de uma organização internacional, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), instituições de debilidade similar, até agora. O que corresponde à transição de “a língua é nossa” para o conceito de que “a língua também é nossa”, de que fala Adriano Moreira, invocando Eduardo Lourenço. Ao arrepio de puristas defensores de sistemas de imobilidade norteados por uma visão patrimonialista da língua, a que se contrapôs uma conceção não patrimonial, consequência da mestiçagem ou crioulização a que as línguas estão sujeitas, convivendo com a corruptela decorrente do seu uso mundial, de tendência crescente à medida que aumenta o seu uso global.
No caso português, uma política pluricontinental da língua portuguesa pôs de fora o monocentrismo homogeneizador da norma metropolitana em benefício de um policentrismo da chamada lusofonia ou mundo lusófono, baseado na sua variedade de factores geográficos, antropológicos, étnicos, culturais, linguísticos, económicos, sociais, onde dada a ausência de proprietários da língua, ninguém é senhorio dela, antes ela dona e senhora de quem a fala. De uma perspectiva lusíada chegou-se a uma perspectiva lusófona, também já insuficiente, a que acresce uma perspectiva lusófila e como língua de exportação. Trata-se de uma visão estratégica para dar maior unidade e visibilidade aos falantes de português, orientando-os para fazer frente à força globalizante de outros blocos geoestratégicos e histórico-linguísticos, como a anglofonia, francofonia, hispanofonia, iberofonia, falando-se recentemente em germanofonia, na sequência da queda do muro de Berlim.
Sendo a língua portuguesa um idioma intercontinental, transnacional e global, com centenas de milhões de falantes, na sequência da sua disseminação no decurso de séculos, verifica-se que tendo tido como ponto de partida Portugal, na Europa, está hoje predominantemente implantada fora da Europa, com especial incidência na América do Sul e África. Indicia-se, assim, que a maior consolidação e expansão da presente e futura globalização da língua portuguesa será revitalizada de fora da Europa para outros continentes, nomeadamente via Brasil, “o imenso Portugal”, cantado por Chico Buarque, país de escala continental e potência emergente.
Tendo como referência, no mundo ocidental, a liderança actual dos Estados Unidos da América, pode-se concluir que são e serão os descendentes da velha Europa imperial os novos impérios linguísticos do futuro. O que, por analogia, está a suceder com a língua portuguesa, com perspectivas de reforço."

Joaquim Miguel De Morgado Patrício
22 de Agosto de 2016
CNC

domingo, 2 de outubro de 2016

Ao Domingo Há Música

 
       
                                         Qualquer coisa de paz. Talvez somente
                                         a maneira de a luz a concentrar
                                         no volume, que a deixa, inteira, assente
                                         na gravidade interior de estar.
                                               Fernando Echevarría,  "Figuras"

A música portuguesa, cantada em português, tem sido destacada na rubrica musical. Uma celebração que  é exigida pela luz e pela clara amenidade  que nos têm vindo a brindar  estes dias portugueses.
Noticiou a imprensa que dois cantores portugueses estão nomeados para os Grammy latinos : Mariza e Marcos Rodrigues.
"A fadista portuguesa está nomeada na categoria de Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa, com "Mundo". O disco que inclui, entre outros, os temas "Paixão", "Melhor de Mim" e "Alma", editado em Portugal a 9 de Outubro do ano passado, foi eleito o melhor álbum do ano pela revista de música britânica "Songlines".
O mais recente trabalho de Mariza foi também editado nos Estados Unidos, pela discográfica Nonesuch, antecipando a digressão de 12 concertos da fadista nos EUA e Canadá que acontecem em Outubro e Novembro.
Mariza concorre contra Tiago Iorc, Céu, Larissa Luz e Thiago Ramil.
Já Marco Rodrigues concorre a “Melhor Álbum de Música Folk” com "Fados do Fado", disco constituído por recriações de êxitos de Max, Tristão da Silva e Tony de Matos, entre outros. O fadista vai disputar o Grammy com o Grupo Mapeyé, Los Huayra, Palo Cruza e Nahuel Pennisi.
Em declarações à Lusa, Marco Rodrigues afirmou que, “depois de ter gravado três discos de originais”, entendeu que “era altura de homenagear o legado de alguns homens, e, principalmente os homens, até porque as mulheres tiveram neste género um maior protagonismo”.
A cerimónia de entrega dos  Grammy Latinos realizar-se-á a 17 de Novembro na New T-Mobile Arena, Las Vegas, nos Estados Unidos. 
Julio Reyes Copello, Djavan, Fonseca, Jesse & Roy e Ricardo López Lalinde, receberam cada um  quatro nomeações , pelo  que lideram a lista."
É , pois, tempo  de os escutar.
Marco Rodrigues, em Noite , do Álbum  Fados do Fado.



Marco Rodrigues , em Guitarra, Guitarra do Álbum Fados do Fado, 2015.
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“Melhor de Mim”, letra escrita por AC Firmino e música composta por Tiago Machado, faz parte de "Mundo", o mais recente álbum de Mariza, editado a 9 de Outubro de 2015.


Mariza, em Sem ti, do  mesmo Álbum Mundo.

sábado, 1 de outubro de 2016

Correspondência entre Eugénio Lisboa e José Régio

A  mais bela respiração da vida
Pomos de lado cartas, para nunca mais as voltarmos a ler e, por fim, destruimo-las, por razões de discrição, e assim desaparece a mais bela , mais imediata respiração da vida, irrecuperavelmente, para nós e para os outros
Goethe,  As afinidades electivas 

"Conheci, pessoalmente, José Régio, por puro acidente. Quero com isto dizer que o não conheci por me ter posto à procura de o conhecer. Nunca fui de andar a correr atrás de glórias , mesmo de glórias que eu admirasse. Nunca fui, por outras palavras, um caçador de troféus  com que me fizesse fotografar. Nunca manejei uma máquina fotográfica, com que fosse preparando uma fotografia-a-haver. Nunca acreditei  em me dar hipotético acréscimo de estatuto, por uma estratégia de proximidade fotográfica ( ou outra) de outros de maior estatuto que o meu.  Trata-se, digamos, de uma questão de pudor e, também , se quiserem , de sentido estético. No meu  código de conduta, isso não se faz. É feio correr atrás da glória dos outros, para construir, com ela, um pouco da nossa própria. É, além do mais,  grotesco. Nenhuma glória durará excessivamente, porque a aventura humana, neste planeta  - e o próprio planeta - têm o seu fim garantido , a mais ou menos curto prazo. Nada ficará disto, nem sequer  a memória disto. Acho pois bem que alguma coisa  se preserve, para melhor instrução dos vindouros próximos, mas cabe  aqui,  ao pudor, uma função amaciadora. Nada de exageros de ambição: devemos estar conscientes de que trabalhamos  para herdeiros de um futuro de duração limitada. Convém ser modesto, isto é, realista. Deixemos, com carinho, mas sabendo muito bem que não há, para elas , eternidade.   Elas - com as nossas  visões , emoções, pensamentos, descobertas - irão  durar o que puderem durar e que não será , em termos galácticos , mais do que um instante.Tudo passa.
Conheci, pois, José Régio, por acidente. Se quiserem, por castigo. Fizera um curso  para oficial miliciano, em Mafra, onde fui um cadete rebelde, desobediente e desrespeitador  da disciplina militar. Acumulei castigos que me recusei a cumprir. Poderia ter pago uma factura pesada, mas não cheguei  a pagá-la porque o comandante  da unidade era um homem benigno ( encontrava-se, além do mais, seriamente doente). Tive boas   ( muito boas) classificações, nas disciplinas técnicas, mas fui  atirado para o fim da lista, em matéria de comportamento. Resultado: em vez de ser colocado em Lisboa , como me convinha ( e pedi), para concluir o último ano do curso de Engenharia,  mandaram-me  para um batalhão  perto da fronteira alentejana, a cinco horas  de comboio de Lisboa  ( O Batalhão  de Caçadores nº 1, em Portalegre). A notícia perturbou-me e, simultaneamente, acenou-me  com uma possível compensação. Perturbou-me porque estar longe de Lisboa  me iria dificultar muito as idas necessárias ao Instituto Superior Técnico, para trabalhos práticos, uma ou outra aula , exames, etc.. O aceno de esperança compensatória tinha que ver com José Régio, que vivia grande parte do ano em Portalegre , como professor de liceu,  e cuja obra eu admirava desde os meus dezasseis anos , em Lourenço Marques.  A Velha Casa - o que dela já existia, nessa altura:  os dois primeiros volumes - empolgara-me, pelo poder dramático, pela excelência  e minúcia da análise psicológica, pelo estilo, pela promessa de uma longa aprendizagem... Afinal , talvez o castigo militar  viesse a valer  a pena e eu fosse ao Alentejo fazer " le bon usage des maladies", como recomendara o grande Pascal. e , com efeito,  assim viria a ser.
 (...) Logo um  ou dois dias depois de ter chegado a Portalegre e de me ter  acomodado na espelunca que era o Quartel de S. Francisco, antigo convento a cair aos bocados , pertinho do cemitério, e da casa do Régio ( tudo aquilo algo sinistro e ventoso, como no Vento dos Vendavais de Emily Brontë), o meu colega  de tropa Rui Serrão ( a estudar Direito) veio, alvoroçado , perguntar-me: " - Queres conhecer o Régio? " Fiquei logo a abanar.  Claro que queria conhecer o Régio! Nem eu queria outra coisa! Como? Onde ? Quando? Aquilo realmente calhava-me : virem assim oferecer-me o Régio numa bandeja... a mim que não era nada dado a andar a correr atrás das eminências! O Rui esclareceu: tinha estado no Café Central, depois do almoço, com outros aspirantes milicianos da nova fornada, eis senão quando se aproximara da mesa deles um Dr. Feliciano Falcão, simpático e sorridente , que lhes perguntara se, por acaso, quereriam conhecer o José Régio.  O Rui dissera logo que sim e que tinha um outro colega ( eu) que, por certo, desejaria o mesmo. Combinamos , pois, a seguir ao jantar desse dia , darmos um salto ao Café Central, mais ou menos a meio da Rua Direita.
(...) Como pouco anos antes estivera ali um aspirante militar de nome David Mourão-Ferreira, que rendera  para tertúlias , literaturas, convívios e amizades, o Dr. Falcão , ao ver , agora, ali no Café, uns oficiais de conversa menos boçal, pensou que pudessem renovar os anos de ouro do David ou algo de mais ou menos semelhante. Daí a simpática aproximação.
(...) Seja como for, depois do jantar, eu e o Rui Serrão dirigimo-nos para o Café. Era inverno e o Régio já lá estava, sentado , de sobretudo, presidindo, com bonomia, à tertúlia, enrolando vagarosamente o cigarro, enquanto respondia às perguntas  daquela assembleia visivelmente suspensa das suas palavras: o  Dr. Falcão, o pintor Arsénio Rodrigues, o educadissimo Sr. Pombeiro e outros . Em noites subsequentes apareceria também, com frequência, o excelente capitão Saraiva e a sua simpática mulher, Luísa, que fora aluna do Régio no liceu de Portalegre. Não foi também  infrequente  a presença do meu colega  ( e hoje amigo) de Batalhão, Mário Carrinho ( apesar de um namoro intercidades, que lhe comia o melhor do tempo livre ao telefone...) .Feitas as apresentações, sentámo-nos, entrando com dificuldade naquele círculo já bastante apertado, eu, intimidado que baste, por ter à minha frente aquele monumento da literatura que me dera tantas horas de deslumbramento e descoberta. O Régio ia-nos deitando à sorrelfa um ilhar perscrutador , às vezes disparado, de soslaio, a partir daqueles "olhos sulfúricos, esfíngicos e belos", que narcisicamente  cantara no primeiro  dos Poemas  de Deus e do Diabo. De tal maneira, que , à dos do jogo da cabra cega, entornei, para começar, uma chávena de café! Bonito, disse eu com os meus botões: começas bem!  Nunca me esquecerei dessa noite: embora nervoso, lá procurei escorva a conversa, dirigindo ao grande escritor perguntas aos baldes. Ele era um conversador estimulante, extremamente articulado e procurando, visivelmente,  formular, diante de nós, um pensamento que ia construindo, com cuidado mas sem pretensões de brilho ( que , aliás, detestava) ou de originalidade rebuscada. Aquilo cheirava mesmo a seriedade, sem vestígios de trapaça. O Régio que ali nos falava  ficava igualzinho ao personagem que a obra inculcava. Vi logo que a minha estadia em Portalegre, com todos os seus inconvenientes ( eram de monta!) ia valer muito a pena .
Falar-lhe n' A Velha Casa, com o pormenor e a paixão com que lhe falei, obviamente agradou-lhe. Sentia-se, como ficcionista, um mal-amado da crítica. E com mais do que alguma razão.
Conversámos pela noite dentro e eu fui metendo a minha colher em minúcias da obra poética, ficcional, teatral e ensaística, que tanto me tinha cativado, perturbado e ensinado. Régio não se fazia rogado ao assalto  da minha curiosidade e percebia-se  que era sensível à minúcia  e ao cuidado das minhas leituras. À saída, eu, ele e o Rui Serrão fomos juntos: íamos , Rua direita acima, na mesma direcção, visto que, como já disse, o Quartei de S. Francisco ficava a dois passos da casa de Régio.
Daí em diante, as reuniões no Central tornaram-se diárias. 
(...) Falámos abundantemente de poesia, de teatro, de ficção, de filosofia... Régio andava a afastar-se cada vez mais da literatura francesa e, sobretudo, da Nouvelle revue française, que lhe parecia , na fase posterior à Segunda Guerra Mundial, dominada por uns peralvilhos  brilhantes, superficiais e irresponsáveis... Pendia mais para o romance inglês e russo e menos para o francês ( ressalvando, é claro, gigantes como Stendhal e Proust). O brilho e a facilidade  francesas incomodavam-no. A rapidez  com que faziam extrapolações e punham de pé, como dogma, uma teoria com pés de barro, encrespava-o. E o meio literário lisboeta, vastamente amamentado nas leviandades gaulesas,ia ser, no quarto volume d'A Velha Casa, submetido , por Lelito, a uma análise de uma crueldade implacável e demolidora.
(...) Daí a pouco tempo terminaria o meu serviço militar e iria para Lisboa, onde faria os estágios  que me faltavam para obter o diploma de engenheiro electrotécnico. (...) em 21 de Agosto , depois de ter recusado um bom emprego em Alverca, parti para Lourenço Marques, à la recherche du temps perdu.
(...)Fui mantendo com Régio um contacto epistolar não demasiado assíduo, mas, em todo o caso, continuado, acrescentado de duas visitas que lhe fiz , em idas minhas a Portugal, em 1963 e 1968. É esse acervo de cartas suas , a que junto as que lhe escrevi, que hoje aqui se fixa em livro, por me parecer de interesse humano e literário. Nele,  Régio dá eminente  testemunho da sua integridade, frontalidade, inteligência  e sensibilidade. E da sua fidelidade e amizade. A sua insistência amiga - e quase severa - para que eu levasse  " mais a sério"  a minha vocação de escritor  ficar-me-á , para sempre, como um remorso.  De facto , só comecei a sair de uma certa forma  - embora valorosa - de amadorismo literário, já depois da morte do escritor. E comecei a fazê-lo, pagando , assim,  a sua insistência amiga  e bem-intencionada, com a redacção  do meu volumoso José Régio - A Obra e o Homem.  (...) 
As correspondências de escritores podem ser  - e são-no muitas vezes - um retrato penoso de egos não domesticados e de vaidadezinhos torpes. Esta , de Régio, não envergonha o homem que fez a obra, o qual é, em tudo, igual ao homem que a obra faz supor. Dá-nos um discurso límpido, originado numa alma atormentada e rica. Por isso, faço questão de o não deixar esquecido.
                                            Eugénio Lisboa
                            S. Pedro do Estoril, Outubro de 2013
Eugénio Lisboa, em  Prólogo à " Correspondência com Eugénio Lisboa" "José Régio - Obra Completa", INCM,1ª edição, Maio de 2016, pp 9,10,11,14,17,19