sábado, 4 de junho de 2016

Para ti

Bilhete
Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...
Mario Quintana, em "Esconderijos do tempo", Porto Alegre: L&;PM, 1980.


Para ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida
Mia Couto, em  "Raiz de orvalho e outros poemas". Lisboa: Editorial Caminho, 1999.

Sem Ti

E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti.,
sem álamos,
sem luas.

Só nas minhas mãos
oiço a música das tuas.
Eugénio de Andrade, in " Coração do dia", (1956-1958), Editora Limiar, Actividades Gráficas, Lda., Porto
Joaquín Sorrolla (1863-1923)

Recado à mulher amada
  
Eu te juro, amor meu 
que eu amava o canto das cigarras em dezembro,        
o aroma dos bosques e da chuva,
mas o tempo, como uma lança,
fez sangrar minha ternura
e era preciso devolver os golpes cara a cara.
Era preciso partir
e inaugurar a vida novamente.

Era preciso partir
eu te asseguro.
Partir de busca em busca até morrer.

Agora..., eis-me  aqui,
entre a poesia e um estandarte;
e contudo, desde o primeiro dia,
tu conheceste esse pedaço de minh’alma.
Tu sabias do meu despojamento
e da minha esperança;
sabias das minhas navegações
e que eu vinha com uma infância de barcos e marinheiros.

Sim... é verdade...
por algum tempo tu me fizeste ancorar por tanto amor,
mas eu sempre fui um habitante do vento e da distância
e somente te pude amar com um coração feito caminhos.
Ai amada...
eu nunca aprenderei a regressar...
a vida me ensinou a partir sempre
e a dizer adeus ao que amei.
Meu próprio canto é uma despedida...
é sempre um passo a mais para o combate.
Talvez eu volte quando comece a florescer a rubra messe
quando sentir que cessaram os tambores
e que regresso entre os sulcos de uma aurora.

Mas agora... amor
eu sou a voz e o sangue de um guerreiro
e bem quisera incendiar-te com esse sol que trago dentro.
Eu bem quisera 
 e já quis tanto
que além desta ternura
e da espera,
fosses também a companheira do meu sonho
e uma península do meu punho
e do meu canto.
                                          Cali, Setembro de 1970
Manoel de Andrade, in " Poemas Para a Liberdade", Edição bilíngue, Escrituras Editora, São Paulo, Brasil ,( 2009).

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Para ler em Junho

 
Pela editora Tinta-da-China, irá sair este mês Os Vampiros, de Filipe Melo e Juan Cavita, autores da saga de banda desenhada Dog Mendonça e Pizzaboy. O novo romance gráfico dos dois autores fala sobre a Guerra Colonial e chega às livrarias a 17 de Junho.
Pela Casa das Letras, serão publicados Ouve a Canção do Vento e Flíper, 1973, do japonês Haruki Murakami. Os dois romances foram publicados pela primeira vez em 1978 e saem agora pela primeira vez na Europa. Estarão à venda a partir de 14 de Junho. Pela Jacarega irá sair Jumanji, do escritor e ilustrador norte-americano Chris van Allsburg. A história foi adaptada ao cinema por Joe Johnston, em 1995, num filme protagonizado por Robin Williams.
A Relógio d’Água irá editar os dois primeiros volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust — Do Lado de Swann (volume 1) e À Sombra das Raparigas em Flor (volume 2), no âmbito da colecção “Clássicos para Leitores de Hoje”. Em Junho, a editora irá ainda lançar A Praia de Noite, de Elena Ferrante (com ilustrações de Mara Cerri), Os Anjos Bons da Nossa Natureza, de Steven Pinker, e Karen, de Ana Teresa Pereira.
A Relógio d’Água tem ainda previstas para este mês o lançamento de duas obras de Philip K. Dick — Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, romance publicado originalmente em 1968 e que serviu de inspiração ao clássico do cinema Blade Runner e O Homem do Castelo Alto.
A Assírio&Alvim irá estrear este mês a colecção “Almada Breve”, dedicada à obra modernista de José de Almada Negreiros, com dois volumes — Ficções Escolhidas e Manifestos. Pela mesma editora, irá ainda sair uma reedição de Estranha Forma de Vida, de Enrique Vila-Matas, considerado o “melhor narrador espanhol no activo”.
Pela Livros do Brasil, outra editora com chancela da Porto Editora, será publicado O Falcão de Malta, de Dashiel Hammett, o terceiro título da icónica colecção “Vampiro” que regressou às livrarias recentemente, e Viagens com o Charley, do Prémio Nobel John Steinbeck. Com o selo da Porta Editora, Junho irá trazer-nos Um Novo Amanhã, de Dorothy Koomson (que estará na Feira do Livro de Lisboa entre 11 e 13 de Junho) e Victor e Macha, da israelita Alona Kimhi.
Pela ASA, irá sair em Junho A Vida dos Outros, o novo policial da britânica Sophie Hannah, autora de Os Crimes do Monograma — Um Mistério de Poirot, que trouxe de volta o famoso detective privado de Agatha Christie. A Planeta irá reeditar A Sombra do Vento, o romance inicial da série O Cemitério dos Livros Esquecidos, de Carlos Ruiz Zafón. O livro estará nas livrarias a partir de 1 de Junho.
A 14 de Junho, a D. Quixote vai reeditar A Mulher de Porto Pim, do italiano (e professor de português) Antonio Tabucchi e, a 28 de Junho, uma reedição de A Festa do Chibo, de Mario Vargas Llosa.
Do mesmo autor peruano, a Quetzal lança já dia 3 o novo Cinco Esquinas.
A Guerra e Paz, vai lançar a 15 de Junho Dom Casmurro, de Machado de Assis e, no final do mês, vai inaugurar uma nova colecção — a “Livros Amarelos”. Os dois primeiros títulos — Banqueiro Anarquista/A Alma do Homem Sob a Égide do Socialismo, de Fernando Pessoa e Oscar Wilde, e Portugal, Um Povo de Suicidas/Pessimismo Nacional, de Miguel de Unamuno e Manuel Laranjeira — saem a 29 de Junho.
Na Tinta-da-China, o mês de Junho será dedicado sobretudo à não-ficção. No dia 3 de Junho, irá sair o primeiro de vários ensaios — Putinlândia, de Bernardo Pires de Lima. O livro é o primeiro grande ensaio português sobre o presidente russo Vladimir Putin. O livro chega na mesma altura que Chega de Saudade, de Ruy Castro, sobre a história e as histórias da Bossa Nova.
Um clássico no Brasil, o livro chega agora pela primeira vez a Portugal, numa altura em que se comemora o 25º aniversário da edição brasileira. Chega de Saudade chega às livrarias a 3 de Junho e será lançado na Feira do Livro de Lisboa a 10 de Junho, às 16h.
Também na Feira do Livro irá decorrer a apresentação de Racismo em Português: O Lado Esquecido do Colonialismo, de Joana Gorjão Henriques, a 11 de Junho. Partindo de numerosas entrevistas e de uma pesquisa realizada nas cinco ex-colónias portuguesas, Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Moçambique, Joana Gorjão Henriques construiu aquele que poderá ser considerado o primeiro grande documento sobre o racismo ainda prevalecente. O livro estará disponível nas livrarias a partir de 24 de Junho.
Pela Tinta-da-China, irá ainda sair Direito a Ofender: A Liberdade de Expressão e o Politicamente Correcto, de Mick Hume. No ensaio, o autor britânico defende que se pode dizer tudo, incluindo incitações ao ódio, à violência, insultos ou difamações, e contesta os limites que o politicamente correcto tem vindo a impor à liberdade de expressão. O livro estará à venda também a partir de 24 de Junho.
Pela Casa das Letras, será publicado D. Pedro IV, de Paulo Rezutti. Partindo de cartas e manuscritos inéditos, Rezutti reconstruiu a história não contada do monarca português que se tornou no primeiro rei do Brasil. Pela Sextante Editora, irá sair A Rota da Porcelana, do oleiro e professor universitário Edmund de Wall. A Rota da Porcelana é uma viagem pela história da porcelana, desde a sua origem como matéria-prima à sua transformação em peças intricadas.
Este mês, a Planeta irá também editar o guia Lisboa à Mesa, do crítico gastronómico Miguel Pires. O guia inclui 50 lugares para comer, 35 lugares para comprar e um sistema de pontuações de 3 (“mínimos olímpicos”) a 5 (“ouro”) e outro de índices que permite encontrar tudo o que precisa." observado
Gallimard
Ce mois-ci :
Sophie Chauveau (La fabrique des pervers) nous livre un témoignage d'une force inouïe sur le mal qui a gangrené sa famille sur plusieurs générations. En fiction, Gérard Guégan (Tout a une fin, Drieu) met en scène un Drieu la Rochelle face à son destin et ses contradictions à la Libération, et Lise Chasteloux (Un destin russe) entremêle petite et grande histoire dans un premier roman généreux inspiré par la vie de son arrière-grand-père.
En littérature étrangère, Erri De Luca (Le plus et le moins) signe un livre inclassable qui éclaire l'ensemble de son œuvre, quand Rodrigo Blanco Calderon (The Night), figure montante de la littérature sud-américaine, nous plonge dans les ténèbres de Caracas et l'histoire récente du Venezuela.
Redécouvrez en Quarto 50 ans d'écrits littéraires de Régis Debray (Carnet de route), agrémentés de documents d'époque, insolites ou inédits.
Enfin, célébrez avec la Pléiade les 400 ans de la disparition de Shakespeare et laissez-vous tenter par l'Album Shakespeare, écrit par Denis Podalydès, qui vous est offert par votre libraire pour l'achat de trois volumes de la collection.
Bonnes lectures
Toutes les nouveautés
Chauveau
SOPHIE CHAUVEAU
La fabrique des pervers
Feuilletez le livre
De Luca
ERRI DE LUCA
Le plus et le moins
Feuilletez le livre

Guegan
GÉRARD GUÉGAN
Tout a une fin, Drieu
Feuilletez le livre
Calderon
RODRIGO BLANCO CALDERON
The Night
Feuilletez le livre
Debray
RÉGIS DEBRAY
Carnet de route
En savoir plus
Chasteloux
LISE CHASTELOUX
Un destin russe
Feuilletez le livre
Daeninckx
DIDIER DAENINCKX
Un parfum de bonheur
En savoir plus
Rythmes
JEAN-CLAUDE SCHMITT
Les rythmes au Moyen Âge
En savoir plus
ZOOM Shakespeare
Livraria Almedina:
IÊNCIAS ECONÓMICAS
A Grande Evasão
A Sociedade de Custo Marginal Zero

Euro - E Se a Alemanha Sair Primeiro?

À Pesca de Tolos - A Economia da Manipulação e do Logro

O Dinheiro das Nossas (DÍ)Vidas
A Grande Evasão
Angus Deaton
PVP: €19.90  |  €17.91
A Sociedade de Custo Marginal Zero
Jeremy Rifkin
PVP: €24.40  |  €21.96
Euro - E Se a Alemanha Sair Primeiro?
António Goucha Soares
PVP: €16.60  |  €14.94
À Pesca de Tolos - A Economia da Manipulação e do Logro
Robert J. Shiller, George A. Akerlof
PVP: €19.90  |  €17.91
O Dinheiro das Nossas (DÍ)Vidas
Mendo Henriques
PVP: €12.50  |  €11.25
CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS

Cuidar do Futuro: Os mitos do estado social português

A Educação e o Significado da Vida

Ensaios: antologia

Os Segredos da Censura

Futuro com Memória
Cuidar do Futuro: Os mitos do estado social português
Pedro Adão e Silva, Mariana Trigo Pereira
PVP: €13.50  |  €12.15
A Educação e o Significado da Vida
J. Krishnamurti
PVP: €12.90  |  €11.61
Ensaios: antologia
Michel de Montaigne
PVP: €10.00  |  €9.00
Os Segredos da Censura
César Príncipe
PVP: €12.00  |  €10.80
Futuro com Memória
Adriano Moreira
PVP: €16.00  |  €14.39

quinta-feira, 2 de junho de 2016

A imagem ainda dói

A imagem ainda dói. Um barco apinhado de gente inclina-se. Os passageiros caem no mar, qual ramo partido de uma árvore fustigada por um vento inesperado. E diante dos olhos,  nos écrans das televisões, desaparecem nas águas centenas de pessoas que vinham apenas naquele barco. É real. Não é uma ilusão de uma imagem montada. Pessoas a serem engolidas pelas águas mansas do Mediterrâneo. Aconteceu o mês passado. Aquele era  talvez o barco maior , com mais refugiados que naufragou. Todos os dias há relatos de mortes, de perdas de vida. Aquelas esmagaram todos os écrans. Enchiam de choque e de repúdio. Como foi possível encher um barco com tanta gente? Como foi possível prometer um lugar ao sol após uma travessia tempestuosa, na precariedade de um barco velho sem condições? Como foi possível acreditar que há uma terra prometida para lá do inferno?
E há quem engane todos os dias e há quem acredite e tente alcançar o falso paraíso  em cada dia deste nosso cruel tempo. O mundo é cada vez mais desigual e injusto.O homem teima em mantê-lo cruel e a povoá-lo  de desespero. É assim há alguns anos e essa tragédia  aumenta diariamente. 
Rokia Traoré foi embaixatriz dos refugiados. Ouçamos o que nos conta de 2014. Passaram dois anos e o mundo não soube estancar tanta guerra , tanta mortandade.

Rokia Traoré: Né So - Home

quarta-feira, 1 de junho de 2016

A Língua das Coisas


E, aquele que não morou nunca em seus próprios abismos nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas, não foi marcado. Não será exposto às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.
Manoel de Barros
"A Língua das Coisas" é uma curta-metragem seleccionada pelo programa Curta Criança do MINC e TV Brasil, livremente inspirado na obra de Manoel de Barros, exibido e premiado em festivais de cinema no Brasil e no exterior.
Sinopse
Num sítio, distante de tudo, vivem o menino Lucas e seu avô. O avô só sabe a língua do rio, dos bichos e das plantas. Lucas está cansado da rotina de pescar e das histórias inventadas pelo avô, que diz pescá-las no rio: palavra por palavra. Um dia, a mãe de Lucas vem buscá-lo para morar na cidade. Mesmo contrariado, o avô o encoraja a ir para aprender a falar língua de gente. Na escola, a nova língua não entra na sua cabeça. Não cabe. E para piorar, ele começa a escrever uma língua inventada, só dele. Todos pensam que ele tem um parafuso a menos. Em seguida, a mãe recebe a notícia da morte do avô. De volta ao sítio, Lucas corre em desespero na esperança de encontrá-lo, na ilusão daquela notícia ser uma história inventada. Mas não é. Desolado, ele se senta na margem do rio, e sem se dar conta, dezenas de palavras são trazidas pela correnteza.