sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Sobre a Poesia XVIII


Falar de Jorge Cândido de Sena, Jorge de Sena, é invocar uma obra maior de um dos mais notáveis nomes da Literatura Portuguesa. Poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário, nasceu em Lisboa no dia 2 de Novembro de 1919. Licenciado em Engenharia Civil (1944) pela Universidade do Porto, vê-se obrigado a emigrar para o Brasil, em 1959, devido ao seu envolvimento  no fracassado  golpe de estado de 11 de Março contra a Ditadura. No Brasil, o golpe militar de 1964  fá-lo recordar um  passado recente em Portugal, pelo que se muda para os Estados Unidos com a família, Mécia de Sena e os seus  nove filhos. A par de uma carreira universitária, Jorge de Sena nunca deixou de levantar a voz contra a ditadura quer através da escrita , quer   de uma forma activa. Integrou o conselho de redacção do jornal Portugal Democrático até 1962, foi co-fundador da Unidade Democrática Portuguesa e participou em acções promovidas pelo  Centro Republicano Português de São Paulo. Nos Estados Unidos, prossegue uma carreira académica e uma vasta produção literária. A revolução dos cravos não o trouxe de volta  porque  tal como aconteceu com outro poeta, Ruy Belo, o país não soube oferecer-lhe  uma oportunidade de trabalho em  condições de digna sobrevivência. A Pátria foi-lhe roubada. Morre a 4 de Junho de 1978, em Santa Bárbara da Califórnia, nos Estados Unidos. 
"Roubam-me Deus / outros o Diabo /- quem cantarei?
 roubam-me  a Pátria / outros ma roubam / -quem cantarei? "Jorge de Sena em "Fidelidade", Obras de Jorge de Sena-Antologia Poética, Edições Asa
 "Sobre a Poesia" é um espaço que se produz  pelas palavras dos poetas. São eles que reflectem sobre a própria arte. Nesta XVIII edição, transcrevemos uma carta de Jorge de Sena que responde ao pedido feito por Sophia de Mello Breyner Andresen e pelo poeta Walmir Ayala (1933-1991), que pretendia inclui-lo numa antologia temática (Cartas aos jovens poetas brasileiros), conforme relata carta de 27 de Junho de 1966 em " A Correspondência entre Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena" (3. ed, Lisboa, Guerra & Paz, 2010) 
"Do Brasil vim com a incumbência de reunir colaboração portuguesa para o volume organizado pelo Walmir Ayala. O Walmir Ayala vai incluir "uma carta a um jovem poeta" que a Cecília Meireles deixou inédita. Encarecidamente lhe peço para este volume a "sua carta a um jovem poeta". Creio que é a primeira vez que no Brasil se publica um livro escrito simultaneamente por portugueses e brasileiros. A ideia parece-me óptima." (p.99)
Datada de 29 de Agosto de 1966, o texto foi publicado pela primeira vez no JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias, de Lisboa, a 10 de Novembro de 1981.
Do Wisconsin, a 30 de Agosto de 1966, responde Sena: "Só agora me foi possível compor a carta que me é solicitada pelo seu convite e do Walmir Ayala. Aqui lha mando -- é uma coisa muito amarga e muito rude, mas por certo temperará o conjunto. Espero que lhe agrade como sincera coisa minha .
Meu caro jovem poeta
Pedem-me que lhe escreva, como se o amigo tivesse começado por enviar-me poemas seus, solicitando a minha opinião. Pedem-me também que o considere o jovem poeta ideal, aquele que imaginamos o certo para escutar-nos. Pedem-me enfim — embora isso não seja dito — que eu me suponha o Rilke escrevendo a um jovem que não seja o medíocre a quem ele dizia tão belas coisas. Creio que é pedir demasiado.
De um modo geral, os poetas de reputação firmada, ou que se julgam ou são julgados tais (ninguém tem a sua reputação firmada em literatura, nem depois de séculos de ninguém nos ler e de todos repetirem que somos génios, a não ser que isso importe aos interesses ou desinteresses de alguns professores e críticos), costumam receber poemas ou poetas jovens que solicitam opinião. O poeta "velho" toma tal facto como uma vénia, um reconhecimento, que ele teme perder, por parte da juventude. Mas o que o poeta jovem na verdade procura não é bem uma opinião de alguém mais experiente (qual o poeta jovem que, no fundo, se não sente superior a qualquer mesmo admirado poeta "velho"?), mas sim uma oportunidade de entrar, pela mão de alguém, naquele mundo maravilhoso dos poetas vivos, da poesia pessoalmente, etc., que ele descobrirá ser um sórdido e torpe mundo, inteiramente igual, se não pior (porque se sustenta de uma importância que realmente não tem), àquele, tão comum e familiar, que, nas suas frustrações juvenis, o poeta jovem julga que detesta. Instintivamente, ele sabe que, se não pedir a bênção de alguém, dificilmente fará sem amarguras o seu caminho. Porque a vida literária é uma maçonaria como qualquer outra, onde é escusado imaginar-se que alguém entra forçando as portas. Tudo, na vida, funciona por camarilhas que oferecem a seus membros a tranquilidade de se imaginarem importantes ou, mais ainda, a ilusão de que estão vivos.
Se um conselho, ab initio, se pode e deve dar a um jovem poeta, é o de que perca a inocência juvenil, se venda, se prostitua (o próprio corpo, se necessário for, porque às vezes lho cobiçarão), se dedique à adulação da mediocridade triunfante, ouça respeitosamente as opiniões dos críticos mais influentes porque mais cretinos, e receba em troca a paz triunfal dos sucessos mundanos e literários. Se, depois disto, puder continuar a ser o poeta que havia nele ou que ele sonhava que seria, é um outro caso — mas, por esse segredo, poderá estar certo que ninguém perguntará. Forçar as portas, com um livro, dois livros, uma crítica, duas, muitas, dirigidas contra a infecta pesporrência dos estabelecidos; pedir justiça, em vez de amabilidade; exigir inteligência, em lugar de um comércio de retribuições; procurar a camaradagem limpa, e não aceitar os gestos dúbios; enfim, tudo o que diz respeito à dignidade humana e da poesia, em vez da complacência com tudo e todos — não rende. Nem em vida, nem na morte. Porque as histórias literárias, com raras excepções arquivo de tudo o que a mediocridade alguma vez disse sem ter lido, guardarão longamente, em benefício da posteridade, todo o veneno que os contemporâneos lançaram sobre aquele que, por pretender ser uma pessoa, e um poeta, lhes ameaçava, só por isso, a segurança. Ao jovem poeta, é preciso dizer-se que desconfie do grande poeta vivo que receba consagração geral. Se a recebe, é porque algo está podre naquele reino da Dinamarca.
Quanto aos seus poemas, meu caro poeta, como V. é um poeta inexistente, cujos poemas são imaginários, e como eu não acredito na Poesia, com maiúscula, preexistente aos poemas em que ela exista, que lhe direi? Eu não faço ideia alguma da espécie de poeta que o meu amigo é. Cultiva as imagens e as metáforas, no seu anseio juvenil de seguir uma das modas, e de parecer que diz coisas extremamente profundas, sem na verdade dizer nada? Ou prefere as palavras despedaçadas, uma letra para cada canto, ou os graciosos joguinhos do pata, peta, pita, pota, etc? Isso também se usa muito, e granjeia grande prestígio. Acaso faz ou não faz sonetos, pelo melhor modelo (que é o que funda a tradição parnasiana, um pouco erótica, para a masturbação em família, com os ornamentos do mais safado mas sempre brilhante gongorismo)? Ou está preocupado com os destinos do mundo ou os da pátria, e confunde-os com aquela inacabável tradição que manda os poetas imitar os Nerudas & Ca? Ou a sua poesia é extremamente vaga e diáfana, confortavelmente distante de qualquer afirmação excessiva, neste duvidoso mundo? Ou, pelo contrário, é amplamente discursiva, transbordante de riqueza (termo este muito usado pelos críticos em petição de matéria substantiva)? Como vê, meu amigo, não posso mais que aventar hipóteses, segundo as linhagens mais ilustres do momento. Oh, mas esquecia-me de outra: acaso será herdeiro do surrealismo, com alguma tintura de beatniks e de psiquedélicos da Califórnia e arredores, e compraz-se em insultar o mundo, insinuando perversões horríveis, e despejando sobre ele os palavrões sagrados, por extenso? Não? Não?! Então, meu caro amigo, das duas uma: ou a sua poesia é um regresso aos velhos padrões arcádico-românticos, e sem dúvida terá êxito ainda nos salões de uma profunda província, ou, na verdade, o senhor é um poeta. E, sendo poeta, é-o de tal modo, que a sua poesia não pode ser reconhecida, nem o senhor tem o direito de esperar que ela o seja. Daqui a vinte ou trinta anos, quando estiver alquebrado, exausto, esgotado, descrente da poesia a que sacrificou a sua vida e a de quantos tiveram a desgraça de depender de si, talvez então comecem a reconhecer que o senhor existe. Claro que muito a contragosto, muito de má vontade, com muita reticência... Eles, meu caro, serão sempre os génios; o senhor será também um génio, um génio imenso, um génio enorme, mas um génio mas, um génio adversativo. E pode ter a certeza de que assim ficará nas histórias literárias: sempre com um mas tanto maior, quanto pior seja o génio que não possam negar-lhe.
A poesia, querido amigo, não é o que pensa, não. Ela não lhe pode trazer, se verdadeira for, essa satisfação que transparece da sua tão trémula confiança em si mesmo. Isso, se me permite que lhe diga, é uma ilusão da sua juventude. A poesia não é essa alegria de fazer alguma coisa que nem todos os outros fazem, e que eles aliás desprezam. Não é também esse prazer enganoso de que possui com palavras o amor que lhe escapa, as coisas que não consegue, as ideias que perpassam na sua cabeça, antes ou depois da solidão. A poesia, caríssimo, é a solidão mesma: não a que vivemos, não a que sofremos, não a que possamos imaginar, mas a solidão em si, vivendo-se à sua custa. Já pensou no que isso é? Por ela, o senhor será egoísta, sendo altruísta; será mesquinho, sendo nobre; trairá tudo, para ser fiel a si mesmo. Por ela, o senhor ficará completamente só. E, quando, de horror, penetrar lá onde supõe que o "si mesmo" está para lhe fazer companhia, verificará, em pânico, a que ponto ele não existe, ou já não existe, ou nunca existiu senão como uma miragem, ou existiu, sim, mas também ele o senhor vendeu à poesia, a isso que não tem qualquer realidade senão como abstracção do que o senhor pensa e escreve, e que, por sua vez, é já uma abstracção do que o senhor viveu ou não. Medite um pouco no significado terrível deste ou não, e nunca mais escreva versos ou prosa poética, ou lá que é que escreve para se julgar poeta.
Se for um poeta de verdade, meu caro, o melhor é com efeito não escrevê-los, e deixar de o ser. Porque a única alternativa é pavorosa: ou prostituta, dando à cauda, entre as madamas; ou monstro solitário, rangendo os dentes na treva, ainda quando só tenha visões de anjos tocando flauta, numa apoteose (ou epifania, que é mais elegante, e era o que o Joyce dizia). Guarde os versos, rasgue os versos, esmague os versos, arrase com eles. É isso o que pretende: ranger os dentes, mesmo postiços, pelo resto da vida? Se é, meu caro amigo, então não mande os seus versos a ninguém, não peça opiniões que ninguém pode dar-lhe, não espere conselhos de uma experiência que é pessoal e intransmissível, não solicite uma atenção que não haverá quem lha conceda. A menos que, para fim de festa, pretenda tirar, para seu uso, a contraprova de que a humanidade como humanidade, os povos como povos, as nações como nações, as classes como classes, os grupos como grupos são sempre colecções mais ou menos numerosas de infames bestas. Ou a contraprova de que, individualmente, ninguém vale para além do orgasmo, ou do olhar de simpatia, ou do gesto de ternura. Ainda quando sejam poetas, meu caro, ainda quando o sejam.
Não lhe estou dizendo que não publique os versos, uma vez que tenha ânimo e força para aguentar-se no equilíbrio instável entre a condição de prostituta e a condição de monstro. Na verdade, se a tentação que sente é irresistível de escrevê-los, se não procura a fama ou o proveito, se a dor de escrevê-los só se cura com a dor maior de escrever outros, se se sente vazio e triste quando eles estão escritos, e sofre de sentir-se vazio quando vai escrevê-los, e não sabe nunca o que vai escrever, e acha horrível tudo o que escreveu mas não é capaz de destruí-lo, então publique-os, publique-os sempre. E mande-os a toda a gente. Toda. Mas não peça opiniões ou conselhos a ninguém. Deixe que eles todos fiquem amarrados, para sempre, à culpa de o não terem lido, de o não terem sentido, de o não terem admirado. Dê-lhes, se a glória tiver de ser sua, o castigo da sua glória, implacavelmente. No fim das contas, lá onde nas trevas os dentes lhe rangem furiosamente, que isto lhe sirva de alguma consolação: todos eles passarão, como os ratos passam. Mas alguma coisa não passará, por mais que na morte, no silêncio, na paz dos túmulos ou das histórias literárias, se desfaçam em tranquila cinza: essa culpa que, dentro de alguns anos, será tudo o que se recordará deles todos tão poetas, tão aplaudidos, tão queridos das damas e/ou dos efebos, e tão estudados, tão bibliografados, tão comemorados, tão tudo o que lhe terão recusado entre dois abraços e dois sorrisos. Outros ratos virão — mas a culpa fica. Bem sei, meu caro, que não adianta muito, sobretudo se a gente não acredita na imortalidade, ou mesmo que acredite. Consola porém alguma coisa. E dá coragem à gente até ao poema seguinte. É quanto basta. Ou tem de bastar, porque não há mais nada.
Sempre seu (que o manda para o Inferno que é nossa província)
Jorge de Sena"

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Os sons de Itália

Houve um tempo em que a canção italiana rivalizava com a canção francesa . Ambas eram procuradas e ouvidas pela maioria dos europeus. Em França, nomes que se tornaram lendários levaram a música francesa ao topo das audiências. Em Itália, o festival de San Remo lançava artistas que perduravam.  Muitos artistas e muitas composições estão inscritos nas linhas da História da Canção Europeia. 
Na actualidade , novos valores se afirmam  numa dimensão diferente. 
Fomos ouvir e trouxemos a forte presença de Mario Biondi nos sons de Itália.
Ei-lo com  Karima  e Burt Bacharach ,em " Come in ogni ora"


E com Amalia Grè   na 57ª edição do Festival de San Remo, em 2007.




 "Amami per sempre"  pertence ao segundo Álbum de Amalia Gré intitulado” Per Té”.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Uma Lista de Leitura para o Verão

Hoje deixamos a lista de livros de verão proposta pelo  CNC ( Centro Nacional de Cultura).
"Como sempre, é um rol aleatório – com uma única característica: a qualidade.
Atribuímos a todos cinco estrelas. São muito bons conselhos. Dez escolhas, dez. E certamente que os leitores darão por bem empregue a leitura.
Ei-los:

- "Ideologia e Razão de Estado – Uma História de Poder" de Jaime Nogueira Pinto (Civilização).
- "Os Militares e o Poder, seguido de O Fim de todas as Guerras e as Guerras do Fim" de Eduardo Lourenço (Gradiva).
- "Viagens e Outras Viagens" de António Tabucchi (D. Quixote).
- "Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes" de Mathias Énard (trad. Pedro Tamen) (D. Quixote).
- "A Chave dos Profetas" do Padre António Vieira (2 volumes), organização José Eduardo Franco e Pedro Calafate (Circulo de Leitores).
- "História e Criação – Textos Filosóficos Inéditos" de Cornelius Castoriadis (Antígona).
- "Tudo é e não é" de Manuel Alegre (D. Quixote).
- "Poderes Invisíveis – O Imaginário Medieval" de José Mattoso (Temas e Debates).
- "Os Transparentes" de Ondjaki (Caminho).
- "A Felicidade em Albert Camus" de Marcello Duarte Mathias (D. Quixote).

Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há quase sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!” CNC

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Para onde foi o pensamento livre?


A Europa dos intelectuais:
 Para onde foi o pensamento livre?

Mais do que um projecto político, a Europa deve ser um projecto moral, um paraíso da liberdade de expressão e da tolerância. Os intelectuais desempenham, nisso, um papel fundamental, mas infelizmente também eles, muitas vezes, têm mentes pouco abertas, escreve a filósofa Alicja Gescinska.

Por Alicja Gescinska

"Tal como a Europa é mais do que uma entidade geográfica, a UE é mais do que um simples corpo político. Vejo-a, antes de qualquer outra coisa, como um projecto moral. Se estamos a lutar por uma sociedade aberta na Europa, isso implica a necessidade de apoiarmos valores específicos, como a liberdade, a tolerância e a responsabilidade individual e interpessoal. Esses são os valores morais que têm de estar política e institucionalmente enraizados. Caso contrário, esses mesmos valores desmoronam-se.
Quase sempre damos por garantidos os valores que defendemos. Só quando estamos em risco de os perder percebemos que não é assim. Há algumas semanas, o internacionalmente famoso sociólogo Zygmunt Bauman foi ameaçado por 100 cabeças-rapadas polacos durante uma conferência na Universidade de Vroclav. Este turbulento incidente lembrou-me a necessidade de liberdade intelectual e o papel dos intelectuais na sociedade.
Os intelectuais contrabalançam o extremismo político
O conceito de intelectualismo tem, muitas vezes, conotações negativas. Evoca-nos a imagem de um velho de cabelos brancos encerrado na sua torre de marfim que pensa que tem uma melhor ideia sobre a sociedade do que as pessoas à sua volta. No entanto, os intelectuais são indispensáveis a uma sociedade saudável. A história ensina-nos que o primeiro alvo dos regimes totalitários – de direita e de esquerda – são as mentes inquiridoras dos pensadores.
O debate intelectual pode proporcionar um grande contrapeso ao extremismo político e à retórica populista. Por isso, não é uma simples coincidência que os mais ferozes ataques ao espaço intelectual livre venham de fontes populistas e extremistas.
É a isso que estamos a assistir na Hungria de Viktor Orbán, onde a liberdade de imprensa e de oposição são controladas, onde os intelectuais são empurrados para a sombra e onde o antissemitismo, a intolerância e a falta de liberdade estão a aumentar. O ataque de Vroclav à liberdade intelectual veio, igualmente, de um lugar pouco democrático. O bando de arruaceiros acabou por ser retirado da Universidade por polícias fortemente armados e por membros da unidade antiterrorista polaca. Ficou salva a liberdade intelectual, poderíamos pensar. Mas se a liberdade de pensamento e de expressão se estão a tornar uma questão central para os serviços anti-terrorismo, então, não está qualquer coisa ameaçadoramente errada na Europa? É difícil haver liberdade de pensamento com uma camisa-de-forças.
As ideias são mercadorias
A liberdade intelectual é, talvez, menos evidente por si só, internamente, do que seria de supor. Há muitas maneiras de cercear a liberdade; não tem necessariamente de envolver a força. Manipulação, pressão implícita, conformismo e até o cultivar-se qualquer coisa de tão vago como o “zeitgeist”, são maneiras eficientes de fazer as pessoas pensarem de determinada maneira.
Hoje em dia, existem vários factores constritivos do espaço intelectual. A pressão sobre os académicos para publicarem, por exemplo, segundo a compulsão dos números de vendas do mercado editorial, orienta o conteúdo e a forma de pensar numa direcção específica. As ideias são mercadoria e não nos pagam para expressarmos uma ideia que não vende.
Esta pressão económica é a força motriz por trás do crescente radicalismo e da excessiva simplificação. Tem de se ser notável para vender. Uma verdade moderada em breve será pisada pela investida das opiniões extremas. As nuances raramente são impressionantes. São necessárias afirmações ousadas.
Auto-exame crítico
Esse é também o efeito do populismo no debate político e social: uma crescente reivindicação argumentativa e agressiva que se levanta no caminho não apenas do diálogo mas também do auto-exame crítico. E sem diálogo e auto-exame crítico, o espaço intelectual é muito apertado.
Um verdadeiro filósofo é alguém que questiona tudo e, antes de mais e acima de tudo, que se questiona a si próprio.
O relativismo próprio é indispensável a uma mente aberta. A liberdade de pensamento só existe quando podemos questionar as nossas próprias opiniões. Mesmo que o auto -questionamento e o auto-relativismo, por vezes, nos leve a sentirmo-nos como um charlatão, como o filósofo polaco Leszek Kolakowski disse uma vez.
Kolakowski foi o verdadeiro modelo de um espírito livre. Foi a antítese do filósofo que está continuamente de pé, com o punho levantado, a proclamar a sua verdade. Kolakowski evidenciou tanto a sua ignorância como a ignorância dos outros. Ao fazê-lo, fez, sem dúvida, mais justiça à verdade do que as auto-proclamadas mentes críticas, que são sobretudo críticas dos outros e não de si próprias.
A Europa beneficiaria com os sucessores de Kolakowski
A 10 de Julho, eu estava em Varsóvia, a participar num debate sobre os valores europeus e como interpretá-los politicamente. O debate foi organizado pela Comissão Europeia, partindo do princípio de que a interacção entre intelectuais e políticos conduz a uma melhor política. No entanto, vários membros da delegação polaca aproveitaram a oportunidade para criticarem o presidente da Comissão, Durão Barroso, e culpá-lo pelo (alegado) empobrecimento cultural da Europa. O seu tom arrogante era sintomático da teoria que eu defendi, ou seja, que os intelectuais são demasiadas vezes culpados de asserção reivindicativa e de auto-satisfação. Ao fazê-lo, eles próprios obstruem o debate aberto que precisam que funcione.
Entretanto, eu estava sentada ao lado de György Konrád, o escritor húngaro que, tal como Kolakowski, é a encarnação da liberdade de pensamento, tão subtil quanto modesta. Vi-o revirar os olhos quando o debate tomou o rumo da acusação e disse-me que estava a ficar com dores de cabeça. A Europa beneficiaria com mais descendentes espirituais de Kolakowski e de Konrád. Mesmo que alguns achem que ao dizer isto, por si só, já estou a ser arrogante e vaidosa. Por outras palavras, é tempo de me retirar e de me questionar.” 8  de Agosto de 2013,De Morgen, Bruxelas,Presseurop
Traduzido por Isabelle Rosselini

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

106º Aniversário de Miguel Torga

Miguel Torga nasceu a 12 de Agosto de 1907. Há 106 anos. Após uma longa vida de produtividade literária intensa , faleceu em 1995. Foi um dos maiores da Literatura Portuguesa do Século XX. 
A sua obra é diversa; expande-se desde o Conto, Romance, Teatro à Poesia. Registou em Diário ( 16 volumes) a sua visão do Mundo e um conjunto de poemas que traduzem o génio singular deste grande escritor. Desde que o descobri, era ainda adolescente, nunca mais deixei de o ler e,  em cada abordagem de qualquer página da sua obra, há sempre um novo encantamento que me surpreende. 
Hoje, visitei-o e retirei o registo que fez no Diário XIII, no dia do seu 62º aniversário, neste Algarve de tanto Mar.
"Albufeira, 12 de Agosto de 1979 - Durar muito. É a única maneira de se poder perspectivar capazmente todos os altos e baixos da vida. Saber que a razão chega, que os sentimentos têm vários lados, que por detrás de cada aparência se oculta uma inaparência, que há defeitos bons e virtudes más, que tudo é complexo e vão...
É verdade que quem parte cedo deixa de si a imagem de uma esperança frustrada, e que quem fica se sujeita   a ser uma frustração patenteada. Mas vale a pena correr o risco. Mesmo quando se falha redondamente, leva-se para a sepultura um tesoiro inestimável: a conformidade com os nossos limites, o conhecimento desabusado da realidade. O que eu teria perdido se não tivesse amado tanto, visto tanto, sofrido tantas desilusões, sido tão controverso, lido tantos livros, e me faltassem na experiência emotiva e mental as guerras, as descobertas e as catástrofes a que assisti! Durar muito. Durar o bastante para não ter pena de deixar o saber e a prática do mundo." Miguel Torga, in " Diário XIII", Círculo de Leitores

domingo, 11 de agosto de 2013

Ao Domingo Há Música

Quando os corpos se fundem com os sons, nasce a dança. Ravel criou um Bolero que ficou na história da Música e da Dança. Inúmeras são as interpretações realizadas por dançarinos célebres aos mais desconhecidos. Todos eles dão vida à melodia que cresce e se prolonga até nos esmagar num auge apoteótico. É nesse crescendo que  reside  a força de toda a obra que jamais nos deixará indiferentes. 
Nos BBC Proms deste ano ,  os dançarinos da Companhia de Antonio Marquez apresentaram,  nos dias 25 e 29 de Julho, esta peça acompanhados pela Orquestra Filarmónica da BBC , dirigida pelo Maestro Juanjo Mena.



sábado, 10 de agosto de 2013

Urbano Tavares Rodrigues

Urbano Tavares Rodrigues  nasceu em Lisboa a 6 de Dezembro de 1923 e morreu, ontem, com 89 anos. Escritor consagrado , com uma vasta obra dispersa por vários géneros literários, foi um excelente crítico literário, cronista, ensaísta,  professor entre várias actividades desenvolvidas ao longo de uma laboriosa vida. Conheci-o na época em que trabalhava  na Agência Latina, no tempo da Ditadura, quando muitos dos nossos intelectuais estavam proibidos de exercer a sua normal actividade e se refugiavam nas agências de publicidade , nas editoras e afins  que aproveitavam o génio e o talento desses escritores proscritos por um tenebroso governo totalitário.
Urbano Tavares Rodrigues , além de um dos mais destacados escritores portugueses , era um amante da vida. Saboreava-a e trazia-a no rosto. Perdeu-a ontem, mas a imagem de um pleno  vivente  permanecerá.
 Segundo António José  Saraiva, Urbano Tavares Rodrigues é o mais respeitado e dotado ficcionista  proveniente do existencialismo de 50. Com uma enorme e excelente produtividade, pode ser caracterizado sumariamente pelo enlace entre os temas  do sexo,  da coragem e de uma combatividade em riste contra a burguesia, cuja necrose  psíquica vem denunciando, desde o Baixo Alentejo até além-fronteiras.
Entretanto Jacinto Prado Coelho , na " Problemática da História Literária" (Edições Ática,pag. 267) referia " O que permanece , como pedra de toque  de uma personalidade admirável, é a tensão interior que dinamiza um estilo poderoso, por vezes muito belo, aliciante pela expressão plástica, pelo metaforismo poético e pela fluência musical."
Urbano Tavares Rodrigues nunca parou. Escreveu e viveu em plenitude até ao fim.
Entre os últimos livros publicados,  destacam-se "Os Cadernos Secretos do Prior do Crato" (2007), "A Última Colina" (2008), "A Natureza do Acto Criador" (2011) ou "A Imensa Boca Dessa Angústia e Outras Histórias", publicado neste ano, em Abril.
Ao Urbano de todos os tempos,  com o nosso até sempre , transcreve-se um excerto de um dos seus romances considerado uma Obra-Prima do Século XX, " Bastardos do Sol". 
"Romance do amor  e do ódio num clima  de frustração , " Bastardos do Sol" é também  o romance  da dignidade em revolta (...) canto mítico que mergulha  as suas raízes vigorosas nas realidades do Alentejo. ",  escreveu Alcides de Campos em " Le Monde"
"Nesse preciso instante, quando ela sentia desejo de largar ali mesmo todo aquele pessoal, que a enjoava mais do que a feria, aparecera o Delfino, à volta de uma esquina, e juntara-se ao grupo. Ficaram os dois para trás. Tinham dançado cinco vezes, muito enlaçados, mas sem violência e, no fim, ele sorrira, insistente, buscando-lhe os olhos, disfarçadamente, com uma ternura irónica. Agora acompanhava-a. E foi então, como um aviso do destino, que aquela velha cantiga jorrou na noite - nem se sabia de onde vinha a voz, nem a quem pertencia. Se aquele povo triste e parado tudo cantava, até a fome e a morte, porque não haveria de comparar as rosas da Primavera aos prazeres e às desgraças do amor?! Só a cantar eles não tinham vergonha de dizer o que lhes ia na alma.
E, enquanto as palavras da canção plangiam arrastadamente os dedos dele, magros e duros, apertavam-lhe a mão, numa doce e terrível cumplicidade com o que tinha de acontecer. E a quadra, repetida, tornava a anunciar:
"À  entrada desta rua,
 À saída desta estrada,
 Terás a rosa de sangue
 Qu'inda não foi desfolhada."
E desde que se lhe dera , em Maio, tempo de rosas, nunca , no dia sete, ele olvidava esse rito da restituição da flor sagrada que os unia à margem de todas as leis por que os outros se governavam. Trazia-lho sem ênfase, quase silenciosa, quase timidamente. Quando as rosas se acabavam, arranjava outras flores, mensagens de segundo grau ( do tempo intervalar que menos lhe pertencia), mas onde ainda pudessem  encontrar alguma sugestão  de carne, ou mesmo de ferida, e de paixão.
Como é que aquilo sucedera? Ficara tão aturdida naquela noite, a querer pôr as ideias em ordem e a confundi-las cada vez mais! Depois, o encontro que lhe consentira. E a sua retracção, o pânico, a dúvida. Delfino era tão diferente dos outros e tão mansamente perigoso! Começara logo a chamar-lhe " meu bicho" e a verdade é que aquela expressão lisonjeava a sua consciência de ser arisca, de conservar, nos movimentos e nos gestos, alguma coisa de fulvo e primitivo. " Urbano Tavares Rodrigues, in " Bastardos do Sol " , série " Romances Portugueses, Obras-Primas do Século XX,coordenada e dirigida por David Mourão- Ferreira, Círculo de Leitores

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Pode acontecer a qualquer um ( cont.)

David Ramos / Getty Images 


Espanha: Sou a despejada que fala (3/3)
31 de Julho 2013
Libération Paris
 
Até 2008, Cristina Fallaras vivia uma existência estável, como escritora e subdirectora de um jornal. Depois, foi despedida e ficou com o estatuto de mãe desempregada sem domicílio fixo. Um percurso tragicamente banal numa Espanha em crise. Eis o seu testemunho
Por Cristina Fallarás
Recordemos o momento quando tudo tremeu. “Mãe, é um senhor.” Enquanto o som dos helicópteros se junta ao ruído da greve geral iminente, eu espalho papéis de tribunal numa mesa e preparo-me para escrever um artigo para o sítio de El Mundo – é preciso contar, denunciar é uma necessidade que nos vai salvar -, para o meu blogue, mas isso ocupou a minha página principal demasiado tempo, praticamente o dia todo. Chamava-se Chegou o dia do meu despejo.
De manhã quando estou a trabalhar em casa não abro a porta a ninguém. Abrir a porta de manhã traz sempre más notícias. Mas quem toca à porta às 19:40 são geralmente vizinhos ou amigos.
Quando cheguei à porta percebi o que aquele homem trazia.
"Venho entregar uma notificação do tribunal."
Com um maço de papel debaixo do braço direito, estende-me um papel com a mão esquerda.
"É a ordem de despejo?"
É a sensação dos adolescentes quando são confrontados com os “assuntos dos crescidos”.
Há algum tempo que a aguardava, desde que o banco me tinha dito que, se quisesse saber a situação do meu crédito, tinha de contactar os serviços jurídicos. Quando a banca nos fala em “serviços jurídicos”, sabemos que o assunto transitou para um departamento onde se fala uma língua diferente. É a sensação dos adolescentes quando são confrontados com os “assuntos dos crescidos”. Vão ter de passar por isso, compreendem, mas escapa-lhes o essencial.
"Bem, mais ou menos – hesita – Tem de se apresentar no tribunal e assinar isto."
"E se eu não assinar?"
"Vai acontecer à mesma."
Ouvem-se os primeiros petardos que aquecem uma greve geral que um espírito iluminado chamou de “greve política”, como se existisse outro tipo de greve.
"Crianças, venham à sala."
O despejo
Assino tudo e fico sem alternativa. O tribunal de primeira instância número 4 de Barcelona no nº 111 da Gran via dos tribunais da Catalunha. Processo de execução da garantia hipotecária xxx/2012, Secção 2C. Requerente Banco Bilbao Vizcaya Argentaria, SA. Procuradora Irene Sola Sole. Devedor Cristina Fallarás Sánchez. Os nomes do requerente e da procuradora estão em maiúsculas, o meu em minúsculas.
De repente do Facebook e o Twitter ficam loucos, os rádios e as televisões também, e anda toda a gente à minha procura. O telefone toca. É o produtor de um programa da noite de grande audiência.
"Olá Cristina, já sabemos da tua história que queríamos convidar-te para vir à emissão a um debate."
"Estou em Madrid para participar no festival Eñe de literatura."
"Preciso que estejas no estúdio às 8 da noite."
"É impossível. Isso é a hora a que acaba a minha mesa redonda. Na realidade tudo me parece complicado porque ainda por cima não tenho bilhete."
"Não faz mal. Enviamos-te um táxi, pagamos uma noite de hotel e fazemos-te chegar um bilhete."
Chego aos estudos da estação privada. Sentam-me ao lado de dois casais. O casal mais velho andará pelos 70 anos. Ela está preocupada com o cabelo e alisa o vestido num tique nervoso, está do outro lado do ecrã que se habitou a ver durante horas a fio durante uma reforma que sempre imaginou agradável. O marido, apesar do excesso de peso e da tez corada de macho rural instalado na cidade, parece já ter desistido. Vejo uma lágrima discreta cair-lhe da face.
O casal mais jovem inclui um homem já bem entrado nos quarenta, com uma mulher talvez uns cinco anos mais nova. No rosto a emoção de estarem num estúdio de televisão, um lugar quase mítico, reflecte-se no seu ar espantado.
“Fomos despejados", explica-me o homem no seu sotaque da Andaluzia. "Primeiro despejaram-nos a nós e agora vão despejar os meus pais porque eles foram fiadores quando comprámos o nosso apartamento". E, com um movimento do queixo aponta para o pai. "Estamos os quatro a viver na rua com as crianças. A única coisa que nos resta é vir à televisão contar a história.”
A aceitação
Senti um murro no estômago. Um murro na cabeça. Que transparece na minha cara. Subitamente já não sei o que estou a fazer ali, com estas quatro pessoas cuja provação me parece distante e estranha. “Isto é a última coisa que nos resta.” Como explicar que ainda não estamos todos no mesmo barco? Como explicar esta vontade súbita de fugir, chamar um táxi e voltar para casa?
Procurei desesperadamente um assistente de produção. Tenho de ter a certeza que não me vou sentar à beira de um precipício, à beira do qual pendem as pernas destas pessoas que olham para mim e perguntam porque estou aqui. Até aquele momento não tinha verdadeiramente percebido o que eu era. E sou assaltada pela dúvida: também serei um sem-abrigo? Estaria entre as centenas de milhares de pessoas que já não têm nada? Foi isso que me trouxe a este bairro dos arredores de Madrid?
"Desculpe, menina, pode dizer-me o que estou aqui a fazer?", pergunto eu à assistente de produção. Na minha voz um sentimento de irritação mal disfarçado. A jovem olha para mim, surpreendida.
"Participar no debate! Fica sentada entre fulano e fulano, que dão a sua opinião e..."
Quase me desprezo por não ter conseguido, vou lutar, mas como tantos outros fui despejada de casa. Mas ainda posso contar a minha história e isso ajuda-me. E depois, às vezes, vomito.”31 de Julho, PressEurop
Este artigo foi publicado pela primeira vez em espanhol a 12 de Dezembro de 2012, na revista digital argentina Anfibia