quarta-feira, 14 de março de 2012

Prece

Senhor, a noite veio e a alma é vil,
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda,
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia-,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa, in " Mensagem" , Colecção Poesia , Edições Ática, 1959

terça-feira, 13 de março de 2012

Arte e Ciência

formação de novo vaso sanguíneo

Arte e ciência juntam-se para criar "um novo mundo"
Fotografias, escultura e vídeos representam imaginário do conhecimento científico
Muito se tem falado sobre a arte imitar a ciência ou a ciência imitar a arte. No primeiro dia deste mês, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, em Lisboa, o artista austríaco Herwig Turk e o vice-presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia, Paulo Pereira, mostraram ao público o que acontece quando a arte e a ciência se juntam para criar algo novo.
Os trabalhos dos autores do «The Blindspot», resultam de uma investigação interdisciplinar que pretende avaliar o valor simbólico da percepção num contexto amplo, recorrendo a ferramentas do âmbito das ciências.
O que Herwig Turk e Paulo Pereira propõem com o projecto é uma reflexão sobre a representação social do conhecimento científico e do imaginário que a ciência transmite. A ideia é promover uma articulação integrada e construtiva entre arte e ciência enquanto actividades que partilham métodos, procedimentos e uma determinação em encontrar novas formas de representação da realidade.

Tools

Assim, quando os procedimentos e a linguagem dos laboratórios de investigação científica são retirados do seu contexto e deslocados para outros cenários criam uma metalinguagem que ultrapassa as fronteiras tradicionais entre a ciência e a arte. «Tools» e «Gaps» foram duas das obras  apresentadas que demonstram isso mesmo.
As fotografias da série «Tools» descrevem uma técnica de biologia celular que permite a detecção e a identificação de proteínas; desde a limpeza dos pratos até ao desligar da fonte de energia. Nestas fotografias, foi pedido a um cientista para reproduzir os diferentes passos desta técnica na ausência das ferramentas normalmente necessárias.
Gaps
A escultura «Gaps» é a reprodução tridimensional do modelo desenhado pelo cientista Steve Catarino, que investiga os mecanismos que regulam a degradação da conexina 43, para ilustrar a interacção entre duas conexinas de células adjacentes. As conexinas participam na formação das gap-junctions, canais que atravessam as membranas das células e permitem a passagem de nutrientes e de pequenas moléculas sinalizadoras assegurando a comunicação entre elas. A comunicação através de gap-junctions é fundamental para assegurar o bom funcionamento de diversos órgãos e sistemas. São, por exemplo, responsáveis pela coordenação da batida cardíaca ou, durante o parto, pela sincronização das contracções de todas as células do útero.
Ao "Ciência Hoje", o artista Herwig Turk explicou que criar arte no mundo científico e captar a atenção dos cientistas não é fácil. “Normalmente tenho que descobrir cientistas que são curiosos e que querem fazer experiências juntamente comigo. É algo muito pessoal. Mas isto não significa que consigo despertar neles interesse pela arte. A maior parte dos cientistas que estão interessados na troca e na arte interagem comigo”, afirma.
O encontro  de 1 de Março, no Jardim de Inverno, intitulado «A Arte de fazer Ciência», cuja discussão foi moderada por Carlota Simões do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC), também apresentou dois projectos de Pedro Miguel Cruz.
O jovem informático realizou, em colaboração com Penousal Machado, docente do Departamento de Engenharia Informática da UC, um mapeamento de dois milhões de registos GPS, de coordenadas e velocidades de mais de mil e quinhentos táxis que circularam em Lisboa ao longo de um mês. No vídeo «Lisbon's Blood Vessels», o autor condensou esses dados numa animação que representa a dinâmica da circulação automóvel durante um dia, como se o mapa da cidade fosse um organismo vivo.
A segunda obra de Pedro Miguel Cruz, distinguido em 2011 «Seeds of Science-Júnior» pelo "Ciência Hoje", intitula-se «Empires Decline». Trata-se de um trabalho de computação gráfica sobre a queda de quatro impérios marítimos: Portugal, Espanha, Grã-Bretanha e França.
Por Susana Lage, ” in CiênciaHoje”, 1/03/2012

segunda-feira, 12 de março de 2012

Congresso Internacional Vergílio Ferreira

O CEFi - Centro de Estudos de Filosofia da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, divulgando o labor de investigação no âmbito do “Seminário Internacional sobre Vergílio Ferreira”, organiza o Congresso Internacional “Da Ficção à Filosofia, no Cinquentenário de Estrela Polar e Da Fenomenologia a Sartre”, através do qual se possa reavivar a presença interpelante do infatigável escritor de “romances-problema”.
Num tempo de desnorte e de vazio antropológico, trazer uma vez mais ao debate um autor que não se cansa de procurar o “homem fundamental”, afigura-se tarefa urgente e necessária.
O CEFi endereça o convite à participação neste Congresso a todos os que se inquietam com o destino do ser humano.
Para mais informações sobre o evento e inscrições, visite o blog do Congresso em http://vergilioferreira.blogspot.com/

domingo, 11 de março de 2012

Ao Domingo há Música

O Domingo tem  uma dimensão diferente no calendário que  traz o  tempo de todos os dias. Nem sempre é possível viver essa diferença segundo as normas da Felicidade que cada um  ambiciona. Dar, porém, ao Domingo os sons que reproduzem  a paz e a leveza da serenidade é um exercício possível.
''Italia'' , na voz de Andrea Bocelli e no trompete de   Chris Botti, pode realizá-lo. Esta excelente actuação aconteceu num espectáculo ao vivo, na Toscânia, em 2007  . A peça é da autoria de  David Foster e de Chris Botti.

sábado, 10 de março de 2012

Celebrar Jorge Amado

“Capitães da Areia” é a primeira longa-metragem da neta de Jorge Amado. Cecília Amado tentou seguir o texto literário publicado em 1937 e considerou o avô ousado por mergulhar na temática da pobreza infantil, uma dura realidade que até então os autores brasileiros não se tinham atrevido a retratar.O filme estreou no Brasil em Outubro de 2011, antecedendo o centenário do nascimento de Jorge Amado , embora integrado nas festividades previstas. 

Capitães da Areia
Bahia de Todos os Santos, 1950. Um bando de meninos abandonados incomoda a sociedade. São chamados Capitães da Areia, porque o cais é o seu quartel general. Pedro Bala, o temido líder dos Capitães da Areia, é caçado como o pior dos bandidos, mas, na verdade não passa de um adolescente livre nas ruas. Ele é o herói de quase uma centena de meninos, que juntos vivem incríveis aventuras. (...) Quando uma epidemia de varíola invade a cidade, os Capitães da Areia  deparam-se com o conflito da morte, têm que tomar decisões de adulto, decisões impossíveis para a cabeça dessas crianças. Enquanto isso, nos bairros populares, a epidemia destrói famílias, fazendo novos órfãos. Dora, de apenas 13 anos, perdeu pai e mãe, e vê-se só nas ruas de Salvador. Mas quis o destino que os Capitães da Areia cruzassem o seu caminho. O bando nunca teve uma figura feminina e a chegada de Dora vem mexer com a vida dos Capitães. Pedro Bala logo se apaixona por ela. Professor, braço direito de Bala, mais tímido e inexperiente, apenas sonha com a sua pele macia, com os seus seios que despontam, seu jeito de que vai virar mulher a qualquer instante. O triângulo amoroso torna-se inevitável, os três estão mais adolescentes do que nunca, como adolescentes descobrem o amor.
"Como o vestido dificultava seus movimentos e como ela queria ser totalmente um dos Capitães da Areia, o trocou por umas calças que deram a Barandão numa casa da cidade alta. As calças tinham ficado enormes para o negrinho, ele então as ofereceu a Dora. Assim mesmo, estavam grandes para ela, teve que as cortar nas pernas para que dessem. Amarrou com cordão, seguindo o exemplo de todos, o vestido servia de blusa. Se não fosse a cabeleira loira e os seios nascentes, todos a poderiam tomar por um menino, um dos Capitães da Areia.
No dia em que, vestida como um garoto, ela apareceu na frente de Pedro Bala, o menino começou a rir. Chegou a se enrolar no chão de tanto rir. Por fim conseguiu dizer:
– Tu tá gozada...
Ela ficou triste, Pedro Bala parou de rir.
– Não tá direito que vocês me dê de comer todo dia. Agora eu tomo parte no que vocês fizer.
O assombro dele não teve limites:
– Tu quer dizer...
Ela o olhava calma, esperando que ele concluísse a frase.
– ... que vai andar com a gente pela rua, batendo coisas...
– Isso mesmo – sua voz estava cheia de resolução.
– Tu endoidou...
– Não sei por quê.
– Tu não tá vendo que tu não pode? Que isso não é coisa pra menina. Isso é coisa pra homem.
– Como se vocês fosse tudo uns homão. É tudo uns menino.
Pedro Bala procurou o que responder:
– Mas a gente veste calça, não é saia...
– Eu também – e mostrava as calças.
De momento ele não encontrou nada que dizer. Olhou para ela pensativo, já não tinha vontade de rir. Depois de algum tempo falou:
– Se a polícia pegar a gente não tem nada. mas se pegar tu?
– É igual.
– Te metem no Orfanato. tu nem sabe o que é...
– Tem nada não. Eu agora vou com vocês.
Ele encolheu os ombros num gesto de quem não tinha nada com aquilo. Havia avisado. mas ela bem sabia que ele estava preocupado. Por isso ainda disse:
– Tu vai ver como eu vou ser igual a qualquer um...
– Tu já viu uma mulher fazer o que um homem faz? Tu não agüenta um empurrão...
– Posso fazer outras coisa.
Pedro Bala se conformou. No fundo gostava da atitude dela, se bem tivesse medo dos resultados.
Andava com eles pelas ruas, igual a um dos Capitães da Areia. Já não achava a cidade inimiga. Agora a amava também, aprendia a andar nos becos, nas ladeiras, a pongar nos bondes, nos automóveis em disparada. Era ágil como o mais ágil. Andava sempre com Pedro Bala, João Grande e Professor. João Grande não a largava, era como uma sombra de Dora, e se babava de satisfação quando ela o chamava com sua voz amiga de "meu irmão". O negro a seguia como um cachorro e se dedicara totalmente a ela. Vivia num assombro das qualidades de Dora. Quase a achava tão valente como Pedro Bala. Dizia a Professor num espanto:
– É valente como um homem...
Professor preferia que não fosse assim. sonhava com um olhar de carinho dos olhos da Dora. Mas não daquele carinho maternal que ela tinha para os menores e para os mais tristes, Volta Seca, Pirulito. Tampouco um olhar fraternal, como os que ela lançava a João Grande, a Sem-Pernas, a Gato, a ele mesmo. Queria um daqueles olhares plenos de amor que ela lançava a Pedro Bala quando o via na carreira, fugindo da polícia ou de um homem que dizia na porta de uma loja:
– Ladrão! Ladrão! Me furtaram...
Daqueles olhares ela só tinha para Pedro Bala, e este nem reparava. Professor ouve os elogios de João Grande, mas não sorri.
Pedro Bala naquela noite chegou no trapiche com um olho inchado e o lábio roxo, sangrando. Topara com Ezequiel, chefe de outro grupo de meninos mendigos e ladrões, grupo muito menor que o dos Capitães da Areia e muito mais sem ordem. Ezequiel vinha com uns três do grupo, inclusive um que fora expulso dos Capitães da Areia por ter sido pegado furtando um companheiro.(...)Enquanto andava para o "14", Pedro Bala pensava em Dora. No cabelo loiro que caía no pescoço, nos olhares dela. Era bonita, era igual a uma noiva. Noiva... Nem podia pensar nisso... Não queria que os outros do grupo se sentissem com direito de pensar em safadezas com ela. E se ele dissesse a Dora que ela era como uma noiva para ele, outro poderia se julgar no direito de também dizer. E então não haveria mais lei nem direito entre os Capitães da Areia. Pedro Bala se recorda de que é o chefe...
Vai tão distraído, que quase esbarra com Ezequiel. Estão os quatro parados diante dele. Ezequiel é um mulato alto, fuma uma ponta de charuto. Pedro Bala fica parado também, esperando.
(...)Entrou no trapiche, Dora estava sozinha com o irmão, que dormia. os últimos raios do sol entravam pelo teto, dando uma estranha claridade ao casarão. Dora o viu entrar e andou para ele:
– Segurou os cobres?
(...)Mas enxergou o olho inchado de Pedro, o beiço partido(...)Ela o sentou, foi ao canto de Pirulito, trouxe água. Com um pedaço de pano limpou as feridas dele. Pedro arquitetava planos de vingança. Ela apoiou:
– A gente acaba com eles desta vez.
Pedro riu:
– Tu vai também?
– Se vou...
Agora limpava os lábios dele, estava curvada na sua frente, seu rosto bem próximo do de Bala, os cabelos loiros misturados com os dele.
(...)– Foi por causa de mim, não foi?
Ele abanou a cabeça afirmando. Então ela chegou os lábios para junto dos de Pedro Bala, os beijou e depois fugiu. Ele saiu correndo atrás dela, mas ela se escondia, não se deixava pegar. Aos poucos foram chegando os outros. Ela de longe sorria para Pedro Bala. Não havia nenhuma malícia no seu sorriso. mas seu olhar era diferente do olhar de irmã que lançava aos outros. Era um doce olhar de noiva, de noiva ingênua e tímida. Talvez mesmo não soubessem que era amor. Apesar de não ser noite de lua, havia um romântico romance no casarão colonial. Ela sorria e baixava os olhos, por vezes piscava com um olho porque pensava que isto era namorar. E seu coração batia rápido quando o olhava. Não sabia que isso era amor. Por fim a lua veio, estendeu sua luz amarela no trapiche. Pedro Bala se deitou na areia e mesmo de olhos fechados via Dora. Sentiu quando ela chegou e deitou a seu lado. Disse:
– Tu agora é minha noiva. Um dia a gente se casa.
Continuou de olhos fechados. Ela disse baixinho:
– Tu é meu noivo.
Mesmo não sabendo que era amor, sentiam que era bom.

(...)Vão alegres. Levam navalhas e punhais nas calças. Mas só os sacarão se os outros puxarem. Porque os meninos abandonados também têm uma lei e uma moral, um sentido de dignidade humana.
De repente João Grande grita:
– É ali.
Com a algazarra que fazem, Ezequiel sai de sob um barco:
– Quem vem lá?
– Os Capitães da Areia, que não engole desaforo... – respondeu Pedro Bala.
E arrancaram para cima dos outros.
A volta foi um triunfo. (...) Falavam na coragem de Dora, que brigara igual a um menino. "Igual a um homem", dizia João Grande. Era como uma irmã, exatamente igual a uma irmã...
Igual a uma noiva, exatamente igual a uma noiva, pensava Pedro Bala, estendido na areia. A lua amarelava o areal, as estrelas se refletiam no mar azul da Bahia. Ela veio, deitou ao lado dele. E começaram a falar de coisas tolas. Igual a uma noiva. Não se beijaram, não se abraçaram, o sexo não os chamava naquele momento.(...)
– Teu cabelo é bonito! – disse ele.
Ela riu, olhou o cabelo dele:
– O teu também.
Riram os dois e logo foi uma gargalhada. Era um hábito dos Capitães da Areia. Ela começou a contar coisas do morro, histórias dos vizinhos, ele relembrava fatos da vida agitada do grupo:
– Vim pra aqui com cinco anos. menor que teu irmão...
Riam inocentemente, felizes de estarem um ao lado do outro. Depois o sono veio. Estavam separados, Pedro tomou a mão dela, segurou. Dormiram como dois irmãos.
Jorge Amado, in “Capitães da Areia “ Edição “ Livros do Brasil ” , Lisboa.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Amai a sabedoria



A sabedoria deixa-se encontrar
Radiante e inalterável é a sabe­doria;
facilmente se deixa ver por aque­les que a amam,
e encontrar por aqueles que a buscam.
Antecipa-se a manifestar-se aos que a desejam.
Quem por ela madruga não se can­sará:
há-de encontrá-la sentada à sua porta.
Meditar nela é prudência con­su­mada,
e aquele que não dorme por causa dela
depressa estará livre de inquie­tação.
Pois ela própria vai à procura dos que são dignos dela,
pelos caminhos lhes aparece com benevolência
e vai ao encontro deles, em cada um dos seus pensamentos.
O princípio da sabedoria é o sin­cero desejo de ser instruído por ela,
e desejar instruir-se é já amá-la.
Mas amá-la é obedecer às suas leis,
e obedecer às suas leis é garantia de incorruptibilidade.
E a incorruptibilidade aproxima-nos de Deus.
Desta forma, o desejo da sabe­do­ria conduz à realeza!
Portanto, ó senhores dos povos, se quereis tronos e ceptros,
honrai a sabedoria e reinareis para sempre.
in "Livro da Sabedoria", Cap. Sb6

quinta-feira, 8 de março de 2012

Mulheres


Uma  bela melodia  composta, cantada  e tocada ao piano por Dulce Pontes. Mulher de excepcional voz  exprime, nesta composição, os sons que fazem da música uma linguagem  intemporal, mas universal. "Nu" foi retirado do álbum " Momentos" de 2009 .
"Waiting for food", Paula Rego
Paula Rego nasceu em Lisboa a 26 de Janeiro de 1935, onde foi educada. Entre 1952 e 1958, estudou na Slade School of Art em Londres .Tem  residência na capital do Reino Unido .  Desde os anos sessenta que lá passa longas temporadas , mas Portugal continua a estar no seu coração. Foi nomeada a primeira Artista Associada da National Gallery de Londres, em 1990 . Cascais criou-lhe o Museu Paula Rego, «Casa das Histórias e Desenhos - Paula Rego", já que nos seus quadros pretende narrar histórias .
Prémios
1971 - Prémio dos Críticos, Sóquil
1984 - Premiada, TWSA Touring Exhibition, Newlyn Arts Centre, Penzance
1987 - Prémio Benetton/Amadeo de Souza-Cardoso, Casa de Serralves, Porto
1989 - Prémio Turner 89, Londres
1998 - Prémio Bordalo da Casa da Imprensa 1997, Lisboa
1998 - Prémio AICA’97, Lisboa
2001 - Prémio Celpa/Vieira da Silva
Sleeper, Paula Rego
Poema destinado a haver domingo

Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.
Natália Correia, in " Passaporte" ,1958, in " Poesia completa", Publicações D.Quixote

Mon amie la rose

on est bien peu de chose
et mon amie la rose me l'a dit ce matin
à l'aurore je suis née
baptisée de rosée
je me suis épanouie
heureuse et amoureuse
aux rayons du soleil
me suis fermée la nuit
me suis réveillée vieille


pourtant j'étais très belle
oui, j'étais la plus belle
des fleurs de ton jardin


on est bien peu de chose
et mon amie la rose me l'a dit ce matin
vois le Dieu qui m'a faite
me fait courber la tête
et je sens que je tombe
et je sens que je tombe
mon coeur est presque nu
j'ai le pied dans la tombe
déjà je ne suis plus


tu m'admirais hier
et je serai poussière
pour toujours demain


on est bien peu de chose
et mon amie la rose est morte ce matin
la lune cette nuit
a veillé mon amie
moi, en rêve, j'ai vu
éblouissante et nue
son âme qui dansait
bien au-delà des nues
et qui me souriait


crois celui qui peut croire
moi, j'ai besoin d'espoir
sinon je ne suis rien


ou bien si peu de chose
c'est mon amie la rose
qui l'a dit hier matin.


 Cécile Caulier



Françoise Hardy em " Mon amie la rose" , letra de Cécile Caulier, Musique de  Jacques Lacome, 1964

Outro dia

"Montanhas longe alagadas de rosa pálido. O sol já se pôs aqui, as árvores estão mais escuras, os prédios indecisos parece que vão cair. Em baixo passa uma menina de branco, chapéu e vestido brancos, numa bicicleta. Um chapéu de abas largas. Ali mais para a esquerda os montes estão azuis. Uma tristeza enorme me torna prisioneira solitária de uma ilha e mesmo assim sinto-me senhora do mundo. A minha janela é alta e a beleza deste morrer do dia tamanha. Já a menina deslizou e sumiu-se como uma flor pelo asfalto cinzento a rolar. E eu fui assim como uma gota que de mim inteira resvalasse."
Matilde Rosa Araújo,  Páginas de Diário, in “Árvore - folhas de poesia - 1º fascículo, Outono de 1951”

Lucidez desnecessária

Diante das estrelas
E do sol
Sabendo a morte
E a vida aranha
Disconforme
E concordante
Pronta a parar na teia
Envelheci
Mas posso olhar ainda
Ainda
Cravos de sangue e rosas da estrada
Como se eterna fosse
Mas tão tarde.

Matilde Rosa Araújo,in “Voz Nua”, livros Horizonte, 1986