quinta-feira, 1 de março de 2012

Vergílio Ferreira, para sempre

«Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que
se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha
língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor,
como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do
deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação.
»
Vergílio Ferreira


Vergílio  Ferreira, 1916 - 1996,  nasceu  em  Melo (Gouveia), no  dia  28  de Janeiro de 1916. Após oitenta anos ,  morre em  Lisboa a   1 de Março de 1996, ou seja , há 16 anos. Concluiu a Licenciatura em Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em 1940. Foi  Professor de liceu, romancista , ensaísta, poeta. Ganhou vários prémios, entre os quais se destacam  o Prémio Camilo Castelo Branco (" Aparição" 1959), o Prémio da Casa da Imprensa ( " Alegria Breve", 1965), o Prémio Pen Clube ( " Para Sempre", 1984), o Prémio do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários (1985, pelo conjunto da sua obra), dois Prémios de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores ( " Até ao Fim ", 1988 e " Na tua Face", 1993), o Prémio Fémina (1990), o Prémio Europália (1991) e o Prémio Camões (1992).
Construiu uma grandiosa obra literária.O talento da sua escrita transformou-o num dos maiores escritores portugueses do século XX. Segundo o próprio Vergílio Ferreira  «um livro é um registo do nosso diálogo com o mundo». Esse longo e magistral  diálogo que tece com o mundo , quer ocorra de uma forma intimista, quer surja em tom provocatório, transporta sempre uma profunda reflexão sobre a condição humana. 
No dia em que  se entrega ao filósofo José Gil o galardão que detém o seu nome,  Prémio literário  Vergílio Ferreira,  dia em que se assinalam dezasseis anos  do seu desaparecimento, é o  tempo certo para voltar a   recordá-lo.  "Cartas a Sandra" de 1996 é uma obra  em registo epistolar, um romance de carácter  fortemente intimista que nos foi legado de forma inacabada. Paulo, também  personagem do romance  " Para Sempre", escreve a  Sandra, a mulher já morta,  e são essas cartas  que preenchem toda a obra. Eis um excerto da última carta: 

" Sandra.(...)Vou ver se ouço, não sei se serei capaz. Penso em ti mas tu não vens, como ouvir sem ti ao pé? É uma música de um prazer que não devia haver na sua dolência melancolia. Vem nela uma amargura terna do que passou, de um lugar incerto, talvez de uma tarde no jardim à beira-rio onde estivéssemos os dois em silêncio. Porque é curioso, raro me lembro do que tivéssemos dito alguma vez. E lembro-me é de te olhar e tu sorrires e não me dizeres nada. E sempre , quase sempre no tempo em que te conheci. Mesmo a tua morte que foi difícil, é muito raro lembrá-la. Também é raro pensar-te quando já envelhecias e eu atravessava a tua imagem até ao tempo do teu esplendor. Porque tu não nasceste para a velhice e a morte. Não franzas o teu rosto, deixa-me dizer. Até ao tempo da tua plenitude, que foi quando os deuses, como te disse, deram o seu trabalho por concluído e te entregaram à vida. A balada enche todo o espaço desta sala, ressoa ainda lá fora na noite. É uma balada de uma longa amargura sem razão, a mais difícil de suportar. E então fecho o aparelho. Mas logo sinto sobre mim a espessura de um silêncio que me aturde. E abro-o outra vez. Era bom que tu fosses mais compreensiva e te sentasses aqui um pouco ao meu lado. E eu prometeria não dizer nada, era só estares. Mas o espectáculo vai terminar. Ouço a balada de despedida nas guitarras como um dobre de sinos. Despedida de tudo, de  nada, é bom ouvir e ceder  um pouco ainda a uma certa dispersão de mim com esta música de um tempo antiquíssimo. E fecho definitivamente o aparelho, venho um pouco até à varanda. A aldeia adormece com a vigília das lâmpadas errantes pelas ruas, a montanha imobiliza-se no seu peso. Tento divisar os caminhos que a percorrem, imaginá-los para a excursão que um dia faríamos  até ao alto. Vejo o choupo ao lado do portão, agita-se  um pouco à aragem da noite. E de súbito, num curto-circuito da memória, lembro-me de quando aqui vieste comigo pela primeira vez. Era o fim do Verão, nós tínhamos ido à praia depois do casamento e eu prometera à Tia Joana estarmos com ela  alguns dias. Vai-nos perguntar se casámos pela Igreja e tu vais mentir-lhe, disseste. Não digas nada, disse eu, deixa o caso comigo. Rolámos no comboio, um em face do outro, tu olhavas os campos verdes com o ar sério e um pouco  distante que sempre te conheci. E eu olhava-te em silêncio, perturbado ainda de que te amava mas pouco depois recuperavas o teu mistério e impossível. E é onde agora te vejo, sempre, quando te penso. Podia pensar-te lembrar-te nos momentos de alguma desavença para que a tua fascinação recuasse para fora de ti. Ou quando simplesmente eu via em ti apenas , como dizer-te? a materialidade que te pertencia. Nunca lembro, estou cego para te ver assim. E o que flutua à minha volta é a tua irrealidade para te amar como nunca te amei." Vergílio Ferreira, in " Cartas a Sandra", Ed. Círculo de Leitores, Maio de 1997 

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Amen, Rossini

Rossini nasceu a 29 de Fevereiro de 1792 em Pesaro, Itália. Compôs uma enorme obra musical repleta de grandes  óperas que se tornaram imortais.
Em honra de tantas horas de intensa fruição musical, retoma-se o registo  de  ''Amen'' da obra "Stabat Mater", composta por Rossini entre 1832 e 1839,  numa excelente  interpretação do Coro e Orquestra da  Accademia Nacionale di Santa Cecilia dirigidos pelo Maestro Myung-Whun Chung.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Camus notre contemporain absolu

« Eu peço uma única coisa e peço-a humildemente, embora saiba que ela é exorbitante: ser lido com atenção.» Albert Camus


A obra de Albert Camus tem essencialmente uma dimensão humana. O aspecto mais singular centra-se na espiritualidade, na reflexão filosófica e na revisão constante entre a dinâmica temporal e a observação e compreensão da interioridade humana. Em " O Mito de Sísifo" Camus rotula o absurdo como o problema da humanidade : "Só há um problema filosófico verdadeiramente sério é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias vem depois. São apenas jogos; primeiro é necessário responder e ainda um mundo que se pode explicar, mesmo com más razões é um mundo familiar. Mas, pelo contrário, num universo subitamente privado de ilusões e de certezas, o homem sente-se um estrangeiro". Entretanto, é na procura de sentido para a sua existência que se encontra a alternativa que Camus propõe para se atingir a felicidade e a coerência: o homem tem de ser um homem social, construir-se com o outro, ser cúmplice de um bem partilhado.
"Continuo a pensar que este mundo não tem qualquer sentido superior. Mas sei que nele, se alguma coisa tem sentido é o homem (…) este mundo possui pelo menos a verdade do homem (…) é ele que fará com que seja salva, se quisermos, a ideia que fazemos da vida" . in "Cartas a Um Amigo Alemão"

Em 4 de Janeiro de 2012 , o filósofo Michel Onfray publicou, em França, a biografia de Albert Camus, "L’Ordre libertaire, la vie philosophique d’Albert Camus", Éditions Flammarion, uma biografia que fora longamente desejada.
Muito se escreveu sobre esta obra, nas revistas literárias e nos jornais da especialidade. Da leitura efectuada, deparámo-nos com vários artigos eivados de muito interesse, mas tendo em conta a especificidade deste espaço, optámos por transcrever apenas dois. O primeiro é de Joseph Macé-Scaron, em " Le Magazine Littéraire" de 5/01/2012 e o outro de François Busnel em "Lire, L'Express" de 18/01/2012.
Camus est plus que Camus ; et c’est pour cette raison sans doute qu’il est, aujourd’hui, encore injustement attaqué, moqué, vilipendé,discuté.

Il est fascinant de voir le nombre de nains qui le prennent de haut. Et curieux de constater que les controverses qui ont marqué ses relations avec les importants de son temps ne sont toujours pas éteintes. Les enseignements des philosophes sont comme des soleils d’hiver ou les conseils des anciens : ils éclairent mais ne réchauffent pas. Albert Camus, lui, rayonne. Et c’est cette lumière qui a attiré l’attention de Michel Onfray, qui y voit cette clarté du grand midi. L’essai qu’il consacre à l’auteur de "L’Étranger " s’ouvre, en effet, non sans raison, par l’apport de la pensée de Nietzsche à l’oeuvre de Camus. « L’un et l’autre communient dans le soleil, la lumière, la clarté méditerranéenne contre la lourdeur germanique, européenne, écrit Onfray. Le refus du socialisme despotique est refus du despotisme, pas du socialisme. »
L’oeuvre de Camus contient des trésors philosophiques, mais aussi des pépites politiques, des paillettes d’or, souligne Michel Onfray. Leur éclat est celui des idées libertaires que l’auteur rassemble dans ce bouquet : un anticolonialisme viscéral, vécu et non cérébral ; un sens aigu de la justice, là aussi éloigné de tout présupposé idéologique ; un souci de ne jamais séparer la pensée de l’action ; un désir d’« anarchie positive » qui viendrait contester le désordre établi. L’ordre. Mais quel ordre ? Celui d’Antigone n’est pas celui de Créon. La première est une anarchiste dans une cité gouvernée par le second. Dans "Qu’est-ce que la propriété ?" Proudhon écrit : « L’anarchie, c’est l’ordre moins le pouvoir. » L’ordre libéré de toute autorité comme la plus haute expression de l’ordre. Celui-ci a-t-il jamais existé ? Oui, nous dit Camus, au moment de la révolution libertaire espagnole. « De 1933 à 1936, nous dit Onfray, elle a obtenu ce qu’en plus d’un demi-siècle la révolution russe n’a pas conquis. »
Le livre d’Onfray est provocant et salutaire. Provocant parce que, fidèle à son habitude et à l’enseignement de Nietzsche, l’auteur donne du marteau contre les idoles.
C’est sans doute pour cette raison que son Camus est aussi un anti- Sartre. Des lecteurs s’agaceront sûrement de voir Sartre dépeint comme un Maurras de gauche en raison du magistère intellectuel qu’il voulut imposer à son époque. (Au passage, certains de ses défenseurs, quand ils le créditent d’avoir empêché une génération révoltée de basculer dans le terrorisme, se rendent-ils compte qu’ils mettent le pas dans ceux des disciples de Maurras, qui remerciaient le maître de l’Action française d’avoir contribué à écarter la tentation fasciste ?) Salutaire parce que cet essai montre à chaque page combien il est assez farce d’avoir pris Camus pour « le grand prêtre de la morale absolue », pour reprendre la formule imbécile de Francis Jeanson. «Fuyons la folie des extrémités qui n’ont d’issue que les abîmes», écrit Saint-Simon. Toute sa vie, Camus s’est employé à fuir cette folie, tout en s’engageant avec passion dans les combats «en temps de catastrophe». Cette expression est le titre de l’avant-dernier chapitre du livre de Michel Onfray. En lui-même, il montre pourquoi Albert Camus est notre contemporain absolu. Qui peut nier sérieusement que nous soyons, en effet, revenus «en temps de catastrophe» ?
Par Joseph Macé-Scaron, " Le Magazine Littéraire" publié le 5/01/2012
François Busnel a lu L'Ordre libertaire, de Michel Onfray
A travers une enquête détaillée, Michel Onfray réhabilite la pensée philosophique d'Albert Camus.
Quand il n'y a pas d'argument, la calomnie devient un argument. Albert Camus fut sans doute l'écrivain le plus calomnié de l'après-guerre. Par qui ? Sartre et les sartriens. Pourquoi ? Parce que ce romancier génial était aussi un philosophe clair, refusant le jargon autant que les aveuglements. Camus philosophe ? Oui, bien sûr. Et l'un des plus utiles "par temps de catastrophe", précise Michel Onfray dans un livre passionnant qui détaille la pensée de Camus et décortique la légende noire tissée par ceux que gênait la cohérence de sa vie philosophique. Car tout est là : Albert Camus s'appliqua à vivre une vie conforme aux options existentielles qui la sous-tendait.
Michel Onfray reprend les textes, les biographies, mais aussi les écrits de ses adversaires. Patiemment, il détruit la vision simpliste, haineuse et revancharde d'un Camus "philosophe pour classes terminales". Mais aussi celle d'un Camus défenseur des colons d'Algérie, "penseur des petits Blancs", forgée à la suite de son discours de réception du prix Nobel ( à l'âge de 44 ans). Onfray montre, en des pages magnifiques et particulièrement actuelles, que Camus fut avant tout un hédoniste, un homme de gauche, un libertaire, un anticolonialiste que révulsaient les totalitarismes - tous les totalitarismes. Pareille réhabilitation ne peut se faire sans casse : Sartre en prend pour son grade mais tous les reproches que lui adresse Onfray sont historiquement et philosophiquement fondés. Reste l'homme, fidèle aux paroles d'un père qu'il n'a jamais connu ("Un homme, ça s'empêche"), fidèle à une mère qui ne savait pas lire et faisait des ménages dans les quartiers pauvres d'Alger, fidèle à ses idéaux au point de s'engager dans la Résistance alors que son pays ne veut pas de lui et de sa tuberculose, fidèle à sa cohérence et quittant le Parti communiste après un bref compagnonnage, fidèle à sa Méditerranée et fuyant la "mafia parisienne", qui le mordra jusqu'à sa disparition et au-delà...
Ce livre est aussi un autoportrait de l'auteur : fils de pauvres, découvrant dans sa chair l'abîme ouvert par la perspective d'une mort qui arrivera très jeune, pratique d'un paganisme hédoniste et d'une philosophie populaire... En refermant cette enquête stimulante et iconoclaste, on se pose cette question (moins potache qu'il n'y paraît) : mais qu'est-ce qu'Onfray sans Camus ? Par François Busnel (Lire , L'Express), publié le 18/01/2012 à 08:00

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Destino

Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?

Quem diz à planta – “Floresce!” -
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?


Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?

Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem…
Ai! não mo disse ninguém.


Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino…
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.

Almeida Garrett, in " Folhas Caídas", Porto Editora

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Ao Domingo Há Música


"Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh! a ingénua alma tão desiludida!
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me adormentar!..."
                                 Guerra Junqueiro

A obra de Liszt tem sido interpretada por grandes pianistas. O encanto e o sonho que sempre provoca, convida a uma constante audição.
Hoje, é o talentoso Lang Lang que numa grande  interpretação  ao piano do  Concerto  Nº. 1  acompanhado pela BBC Symphony Orchestra dirigida pelo maestro Edward Gardner , no Royal Albert Hall, se predispõe a adormentar.

 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Canção



Dizem que esta cidade tem dez milhões de almas:
Umas vivem em mansões, outras em tugúrios;
Não há contudo lugar para nós, meu amor, não há contudo lugar para nós.

- Outrora tivemos uma pátria e pensávamos que isso era justo.
Olha o mapa, e ali a encontrarás.
Não mais podemos lá voltar, meu amor, não mais podemos lá voltar.

- O cônsul deu um murro na mesa e disse:
«Se não têm passaporte, estão oficialmente mortos.»
Mas nós ainda estamos vivos, meu amor, mas nós ainda estamos vivos.

- Aí em baixo, no adro da igreja, ergue-se um velho teixo:
Em cada primavera floresce de novo;
Velhos passaportes não podem fazê-lo, meu amor, velhos passaportes não podem fazê-lo.

- Fui a uma repartição; ofereceram-me uma cadeira;
Disseram-me polidamente para voltar no próximo ano;
Mas onde iremos hoje, meu amor, mas onde iremos hoje?

- Fomos a um comício público; o orador levantou-se e disse:
«Se os deixarmos aqui ficar, hão-de roubar-nos o pão de cada dia»:
Estava a falar de ti e de mim, meu amor, estava a falar de ti e de mim.

- Ouvimos um clamor que nem trovão retumbando no céu;
Era Hitler berrando através da Europa: «Eles têm de morrer!»
Oh, nós estávamos no seu pensamento, meu amor, nós estávamos no seu pensamento.

- Vimos um cachorro, de jaqueta apertada com um alfinete;
Vimos uma porta aberta e um gato a entrar;
Mas não eram judeus alemães, meu amor, não eram judeus alemães.

- Descemos ao porto e parámos no cais;
Vimos os peixes nadando como se fossem livres;
Apenas a dez pés de distância, meu amor, apenas a dez pés de distância.

- Passeámos por um bosque, havia pássaros nas árvores;
Não tinham políticos e cantavam despreocupados;
Não eram de raça humana, meu amor, não eram de raça humana.

- Sonhámos com um edifício de mil andares,
Com mil portas e com mil janelas;
Nenhuma delas era nossa, meu amor, nenhuma delas era nossa.

- Corremos à estação para apanhar o expresso;
Pedimos dois bilhetes para a Felicidade;
Mas todas as carruagens estavam cheias, meu amor, mas todas as carruagens estavam cheias.

- Quedámo-nos numa grande planura com a neve a cair;
Dez mil soldados marchavam para cá e para lá,
À tua e à minha procura, meu amor, à tua e à minha procura.

- W. H. Auden, in “Ten Songs”, tradução de David Mourão-Ferreira

Prémio literário Casino da Póvoa para Rubem Fonseca


No dia em que conquistou o prémio literário Casino da Póvoa/ Correntes d'Escrita pela sua obra "Bufo e Spallanzani" e a medalha de mérito cultural, que recebeu das mãos de um dos seus mais fervorosos admiradores e um dos responsáveis pela divulgação da sua obra em Portugal, o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, o escritor brasileiro conquistou também o público deste Correntes d"Escritas que decorre pelo décimo terceiro ano na Póvoa de Varzim.
A entrega da medalha aconteceu no auditório municipal da Póvoa, onde uma sala a rebentar pelas costuras aguardava para ouvir Rubem Fonseca.
Foi com um grande sorriso emocionado que o escritor declarou: "Estou muito, muito feliz de estar aqui em Portugal. Eu que sou filho e neto de portugueses, nasci no Brasil mas o meu sangue é português. Agradeço, por isso, ter recebido esta medalha mais do que merecida." A frase provocatória arrancou gargalhadas e aplausos de uma plateia já rendida.
Rubem Fonseca, 86 anos, escritor brasileiro também conhecido pela sua aversão a dar entrevistas, aparecer nos media ou participar em eventos literários mostrou ontem que afinal sabe, como poucos, estar sob as luzes da ribalta sendo, ao mesmo tempo humilde, irreverente e arrebatador. O tema sobre o qual lhe pediram para falar era "A escrita é um risco total", a frase pertence a Eduardo Lourenço que, tal como Hélia Correia, Ana Paula Tavares e Almeida Faria dividia com Fonseca a primeira mesa-redonda deste festival literário. E o escritor brasileiro assumiu todos os riscos: levantou-se da mesa e, de microfone na mão, foi andando pelo palco para explicar porque é que a escrita "é uma forma socialmente aceite de loucura" e porque é que todos escritores "incluindo Eduardo Lourenço" não passam de "loucos alfabetizados".O vencedor do prémio Camões em 2003 já tinha recebido vários convites para estar presente no evento, ao longo dos anos, mas hesitou, por ser avesso a aparições públicas. No ano passado esteve quase a vir a Portugal, mas problemas de saúde impediram-no à última hora.
Apenas este ano visitou finalmente a Póvoa de Varzim, para gáudio da plateia do Casino da Póvoa, à qual Rubem Fonseca confessou o seu amor pela língua portuguesa, pela poesia e por Portugal. "Amo a língua portuguesa, lindíssima, que vai durar pela eternidade. (... Estou) encantado com esta cidade e com as pessoas daqui", disse.
E foi com Luís de Camões que Rubem Fonseca encontrou a melhor maneira de encerrar a sua curta declaração de agradecimento, declamando, perante uma plateia emocionada, o soneto "Busca amor novas artes, novo engenho", rematando a sua leitura com um "viva, viva a língua portuguesa".
Na mesma ocasião, foi revelado o vencedor do prémio literário Correntes d'Escritas, no valor de 20 mil euros: Tomás Anjos Barão, sob o pseudónimo de Duplo Arco-Íris, com o trabalho "Vergílio Vagaroso".
Antes, na abertura do certame, o prémio Pessoa 2011, Eduardo Lourenço, reflectiu sobre Portugal, dizendo que é necessário neste momento "uma espécie de luz, qualquer coisa de luminoso".
"Portugal é um velho país, não vai morrer realmente como o Titanic e também espero que a Europa, onde nós entrámos, pensámos que enfim estávamos numa casa rica, uma casa dos outros, que não precisávamos de nos preocupar no futuro, que também não tenha esse destino que se começa a desenhar no horizonte", afirmou Eduardo Lourenço, lembrando que o continente já atravessou momentos piores.
Ainda assim, o pensador português afirmou acreditar que os problemas que a Europa atravessa neste momento se devem "ao facto de as nações europeias terem feito tudo o que podiam para se autodestruir apenas há 50 anos".
Correntes d'Escritas encerra hoje e cerca de meia centena de escritores estão presentes, desde ontem, nesta 13ª edição. Muitos já estiveram em edições anteriores, mas 18 deles rumam a este encontro organizado pela autarquia local pela primeira vez, para debater ou apresentar livros.
Rubem Fonseca, Salgado Maranhão e Bia Corrêa do Lago (Brasil), Care Santos, Rosa Montero, Uberto Stabile (Espanha), Valeria Luiselli (México), Daniel Mordzinski (Argentina), Manuel Rui (Angola) e os portugueses Joao Pedro Messeder, João Bouza da Costa, Eugénio Lisboa, Fernando Pinto Amaral, José Jorge Letria, Valter Hugo Mãe e Onésimo Teotónio de Almeida foram alguns dos convidados para esta iniciativa.Fontes: DN Artes e Expresso

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sobre a Poesia XIII

Sombra
Antes de sermos fomos uma sombra
Depois de termos sido que nos resta
É de longe que a vida nos aponta
É de perto que a morte nos aperta
David Mourão–Ferreira, in “Os Ramos Os Remos”
David Mourão-Ferreira ( 1927- 1996) poeta , novelista, crítico literário, ensaísta, professor universitário, dramaturgo, cronista é um nome superior, um mestre da Literatura Portuguesa. Traduzido em diversas línguas, a sua imensa obra literária é conhecida universalmente, colocando-o entre os grandes escritores da Literatura Universal. Criador magnânimo de uma escrita marcada por um forte rigor expressivo, ora a desvenda em abundante riqueza narrativa, ora a faz explodir em profuso fulgor e fascínio poéticos fazendo da sua obra uma perene singularidade literária. “ Mas é na poesia que o seu talento se desenvolve com incomparável mestria composicional ("A Secreta Viagem", 1950), aliando a experiência do sentimento (do tempo, do amor, da escrita, da cidade, da paisagem) ao virtuosismo da sua expressão poética, em obras como "Os Ramos os Remos", 1985, ou "Música de Cama", 1994. Pode dizer-se que a vida de David Mourão-Ferreira se estruturou quase inteiramente em torno de uma intimação literária bem cedo pressentida e revelada”
Nasceu há 85 anos. E quem teve, como eu, a possibilidade de o ter como Professor na disciplina de Teoria da Literatura, na Faculdade de Letras de Lisboa pertence, sem qualquer hesitação, ao círculo dos privilegiados. Foi um tempo de encantamento literário, de descoberta e de aprendizagem. A elegância verbal , a destreza vocabular e o conhecimento profundo das matérias abordadas marcavam eloquentemente cada aula. Era o poeta, o democrata, o professor gentil e exigente que transformava uma simples sala de Faculdade numa luminosa sala de aula, naqueles tempos escuros da Ditadura.
A XIII edição de "Sobre a Poesia " é preenchida com excertos da excelente Entrevista que David Mourão- Ferreira concedeu a Graziana Somai ,em Março-Julho de 1993.
« -Onde nasceu?
- Nasci em Lisboa , no extremo ocidental do bairro da Lapa, ao pé da Estrela, mas mais junto do rio. Da casa onde nasci e onde vivi até aos quinze anos, via-se o rio até à barra. Nasci em 24 de Fevereiro de 1927.
(…)
- A poesia representa para si uma via de acesso privilegiada ao seu íntimo mais profundo?
- Sim, sim, não é um exercício. É também a mesma coisa que a Natália Ginzburg diz do sexo: pode ser um jogo, pode ser um acontecimento: “un gioco o un evento”. Às vezes , pode parecer um jogo, eu gosto muito dos jogos verbais, mas são jogos em que vai sempre implícito um conteúdo, nunca é o jogo pelo jogo, é o jogo como meio de exprimir o acontecimento.
- A poesia é um meio para escapar à contingência quotidiana e atingir a essência da vida ou é também um meio para enfrentar melhor a vida?
- As duas coisas. É uma fuga ao contingente, pela esperança ou pela tentativa de criar, através de um objecto verbal, qualquer coisa que possa ser menos efémera; na poesia há sempre , como dizia Éluard , a expressão do “ dur désir de durer” – o duro desejo de durar. Mas evidentemente que as duas coisas não parecem ser antagónicas, para mim não são antagónicas, não é isto ou aquilo, não é um dilema. É as duas coisas, porque justamente quando julgo libertar-me um tanto das contingências – porque todas as poesias nascem de circunstâncias, mas ultrapassam-nas -, também isso me eslarece em relação a mim próprio. Como todas as pessoas que escrevem, acho que a mim tem-me acontecido muitas vezes conhecer-me através daquilo que escrevo; por isso, também é uma catarse, ou também é uma terapia. Ajuda-me a enfrentar melhor a vida , dentro do meu modesto plano vital.
- Falou de jogos verbais. Os seus poemas são fruto de uma longa elaboração temática e semântica?
- Não são, não são. Se fossem, eu era capaz de escrever, não digo todos os dias – há poetas que escrevem poesia todos os dias - , mas todas as semanas ou todos os meses; eu cheguei a estar meses e meses e até mais de um ano sem escrever uma única poesia. Tem de haver uma coisinha qualquer, um interruptor, e então, nessa altura, quando me sinto em estado de escrever poesia , essas coisas que parecem jogos fazem parte integrante desse estado poético porque…
- Nascem espontaneamente?
- Excepto raríssimos caso, uma poesia sai escrita e enquanto é escrita eu acho que há de facto um labor que é simultaneamente emocional e intelectual; depois, posso fazer uma pequena emenda, mais tarde, um acerto, porque a poesia queria ficar assim e não estava ainda como queria ficar, mas não tenho uma escrita lenta em poesia (a da prosa é mais lenta, muito mais lenta). Nem é uma escrita laboriosa para procurar este efeito ou aquele, porque os efeitos vêm plasmados no conteúdo, se assim me posso exprimir.
- A língua portuguesa permite-lhe exprimir-se como deseja?
- Permite; não tenho razões de queixa da língua portuguesa. O meu grande mestre, mestre na Faculdade e mestre em termos literários e em termos afectivos, Vitorino Nemésio, uma figura absolutamente extraordinária que conhecia a língua portuguesa como eu nunca conhecerei ( só encontrei mais duas pessoas assim: o Aquilino Ribeiro e o Tomaz de Figueiredo – este é praticamente ignorado , e é injusto), disse-me uma vez: “ Nunca apanhei a língua portuguesa em falta.” Isto a propósito duma tradução que tinha feito. Por mais difícil que seja aparentemente ou à primeira vista dar em português qualquer coisa que estava dada numa outra língua, consegue-se sempre; eu acho que isto acontece com todas as línguas, no fim de contas. O problema da proliferação ou da pluriexistência de línguas no mundo é um fenómeno muito estranho e foi objecto dum ensaio notabilíssimo do George Steiner chamado “After Babel” . Claro que o que eu disse só pode ser verdade dentro duma determinada família de línguas. Na família românica , eu creio que é verdade: o que se diz numa pode dizer-se noutra, sem ser uma tradução literal, que é quase sempre empobrecedora, redutora. Mas se formos comparar com outros sistemas linguísticos, talvez seja um pouco diferente. Há muitas línguas no mundo: hoje sabe-se que existem perto de cinco mil! Há muitas que não têm , por exemplo, o futuro, o que corresponde a uma mentalidade de determinadas comunidades que não podem exprimir o que virá. É claro que traduzir para uma dessas línguas qualquer texto duma língua românica ou mesmo duma língua germânica ou duma língua eslava deve ser particularmente difícil. Por outro lado , nós, que temos o futuro, não temos , por exemplo, o aoristo, que os gregos tinham; temos o singular e o plural, não temos o dual ou só o temos em raros casos como em “ ambos”…
- E o infinito pessoal que há em Portugal?
- Sim, é verdade , o infinito pessoal há só em português, mas pode ser perfeitamente traduzido em italiano ou em francês pelo infinito impessoal. E também não foi por acaso que chamei a um livro meu de poesia “Infinito Pessoal”. É realmente uma singularidade em que se reúne uma possibilidade infindável com uma subjectividade extrema, com uma grande pessoalidade.
- A um leitor que se aproxime pela primeira vez da sua poesia , como é que o aconselharia a lê-la, com que espírito?
- Com espírito de abertura, que é também aquele espírito com que eu leio a poesia dos outros. Ou por outras palavras, num espírito de, tanto quanto possível, absoluta receptividade. É preciso deixar que os poemas encontrem eco no espírito de quem os lê para aí se completarem, porque um texto poético ou mesmo narrativo, não está completo quando sai das mãos do seu autor: é o leitor que o completa.(…)»In “Entrevista de David Mourão- Ferreira conduzida por Graziana Somai em Março-Julho de 1993”,publicada em "Infinito Pessoal", edição especial da revista Colóquio totalmente dedicada a David Mourão-Ferreira.
XXV

Quantos em ti lagos e rios
Quantos em ti os oceanos

Água vermelha que aos ouvidos
traz o aviso
de nenhuns campos

É bom sondarmos os abismos
que nunca vão cicatrizando

E ao som da água pressentirmos
de onde provimos
aonde vamos
David Mourão Ferreira, in “O Corpo Iluminado”1987,Obra Poética 1948-1988, 4.ª Edição, Editorial Presença