sábado, 29 de agosto de 2026

Viver para contá-la I

Viver para contá-la
por Gabriel García Márquez
"Uma viagem ocasional de Álvaro Cepeda a Bogotá distraiu‑me por uns dias da condenação das notícias diárias. Chegou com a ideia de fazer um filme do qual apenas tinha o título: La langosta azul. Foi um erro certeiro, porque Luis Vicens, Enrique Grau e o fotógrafo Nereo López o levaram a sério. Não voltei a saber do projecto até que Vicens me mandou um rascunho do guião para que pusesse algo da minha lavra sobre a base original de Álvaro. Pus qualquer coisa de que hoje não me lembro, mas a história pareceu‑me divertida e com a dose suficiente de loucura para que parecesse nossa.
Fizeram todos um pouco de tudo, mas o pai por direito próprio foi Luis Vicens, que impôs muitas das coisas que lhe restavam dos seus primeiros passos de Paris. O meu problema era que me encontrava no meio de uma daquelas reportagens prolixas que não me deixavam tempo para respirar e quando consegui libertar‑me já o filme estava em plena rodagem em Barranquilla.
É uma obra elementar, cujo principal mérito parece ser o domínio da intuição, que era talvez o anjo tutelar de Álvaro Cepeda. Numa das suas numerosas estreias domésticas de Barranquilla esteve o realizador italiano Enrico Fulchignoni, que nos surpreendeu com o alcance da sua compaixão: o filme pareceu‑lhe muito bom. Graças à tenacidade e à boa audácia de Titã Manotas, a esposa de Álvaro, o que ainda resta de La langosta azul deu a volta ao mundo em festivais temerários.
Essas coisas distraíam‑nos de vez em quando da realidade do país, que era terrível. A Colômbia considerava‑se livre de guerrilhas desde que as Forças Armadas tomaram o poder com a bandeira da paz e da concórdia entre os partidos. Ninguém duvidou de que algo tinha mudado, até a matança de estudantes na Carrera Séptima. Os militares, ansiosos por razões, quiseram provar‑nos a nós, jornalistas, que havia uma guerra diferente da eterna entre liberais e conservadores. Andávamos nessas quando José Salgar se aproximou da minha secretária com uma das suas ideias terroristas:
‑ Prepare‑se para conhecer a guerra.
Os que fomos convidados a conhecê‑la, sem mais pormenores, apresentámo‑nos pontuais às cinco da madrugada para irmos à povoação de Villarrica, a cento e oitenta e três quilómetros de Bogotá. O general Rojas Pinilla estava pendente da nossa visita, a meio do caminho, num dos seus repousos frequentes na base militar de Melgar, e prometera uma conferência de imprensa que terminaria antes das cinco da tarde, com tempo de sobra para regressarmos com fotografias e notícias de primeira mão.
Os enviados de El Tiempo eram Ramiro Andrade, com o fotógrafo Germán Caycedo; mais uns quatro que não consegui recordar, e Daniel Rodríguez e eu por El Espectador.
Alguns levavam roupa de campanha, pois fomos avisados de que talvez tivéssemos que dar alguns passos dentro da selva.
Fomos até Melgar de automóvel e ali nos distribuímos por três helicópteros que nos levaram por um vale apertado, estreito e solitário, da cordilheira central, com altos flancos aguçados. O que mais me impressionou, no entanto, foi a tensão dos jovens pilotos, que se desviavam de certas zonas onde a guerrilha tinha derrubado um helicóptero e avariado outro no dia anterior. Ao fim de uns quinze minutos intensos, aterrámos na praça enorme e desolada de Villarrica, cujo tapete de caliça não parecia bastante firme para suportar o peso do helicóptero. Em volta da praça havia casas de madeira com lojas em ruínas e residências de ninguém, salvo uma, recém‑pintada, que tinha sido o hotel da aldeia até se ter implantado o terror.
À frente do helicóptero divisavam‑se as faldas da cordilheira e o telhado de zinco da única casa pouco visível entre as brumas do cume. Segundo o oficial que nos acompanhava, estavam ali os guerrilheiros com armas de suficiente poder para nos derrubarem, de modo que devíamos correr até ao hotel aos ziguezagues e com o torso inclinado, como uma precaução elementar contra possíveis disparos vindos da cordilheira. Só quando lá chegámos nos apercebemos de que o hotel estava transformado em quartel.
Um coronel com farda de guerra, de uma elegância de artista de cinema e uma simpatia inteligente, explicou‑nos sem alarmes que na casa da cordilheira estava há várias semanas a guarda‑avançada da guerrilha e dali tinham tentado várias incursões nocturnas contra o povoado. O exército tinha a certeza de que tentariam algo quando vissem os helicópteros na praça, e as tropas estavam preparadas. No entanto, ao cabo de uma hora de provocações, inclusive desafios com alto‑falantes, os guerrilheiros não deram sinais de vida. O coronel, desanimado, enviou uma patrulha de exploração para se assegurar de que ainda estava alguém na casa.
A tensão diminuiu. Nós, os jornalistas, saímos do hotel e explorámos as ruas vizinhas, inclusive as menos guarnecidas em redor da praça. O fotógrafo e eu, junto com outros, iniciámos a subida à cordilheira por uma tortuosa cornija em ferradura. Na primeira curva, havia soldados estendidos no meio do mato em posição de tiro. Um oficial aconselhou‑nos a que regressássemos à praça, pois podia suceder qualquer coisa, mas não fizemos caso. O nosso propósito era subir até encontrar alguma guarda‑avançada guerrilheira que nos salvasse o dia com uma notícia grande.
Não houve tempo. De repente, ouviram‑se várias ordens simultâneas e, em seguida, uma descarga cerrada dos militares. Deitámo‑nos por terra perto dos soldados e estes abriram fogo contra a casa da cornija. Na confusão instantânea, perdi de vista Rodríguez, que correu em busca de uma posição estratégica para o seu visor. O tiroteio foi breve mas muito intenso e em seu lugar ficou um silêncio letal.
Tínhamos voltado à praça quando conseguimos ver uma patrulha militar que saía da selva trazendo um corpo numa padiola. O chefe da patrulha, muito excitado, não permitiu que se tirassem fotografias. Procurei com a vista Rodríguez e vi‑o aparecer, uns cinco metros à minha direita, com a máquina pronta para disparar. A patrulha não o tinha visto. Então vivi o instante mais intenso, entre a dúvida de lhe gritar que não tirasse a fotografia por temor que disparassem sobre ele por inadvertência, ou o instinto profissional de tirá‑la a qualquer preço. Não tive tempo, pois no mesmo instante ouviu‑se o grito fulminante do chefe da patrulha:
‑ Essa fotografia não se tira!
Rodríguez baixou a máquina sem pressa e veio para o meu lado. O cortejo passou tão perto de nós que sentíamos a lufada ácida dos corpos vivos e o silêncio do morto. Quando acabaram de passar, Rodríguez disse‑me ao ouvido:
‑ Tirei a fotografia.
Assim foi, mas nunca se publicou. O convite tinha terminado em desastre. Houve mais dois feridos da tropa e estavam mortos pelo menos dois guerrilheiros, que já tinham sido arrastados para o refúgio. O coronel trocou a sua boa disposição por uma expressão tétrica. Deu‑nos a informação simples de que a visita estava cancelada, que dispúnhamos de meia hora para almoçar, e que em seguida seguiríamos para Melgar por estrada, pois os helicópteros estavam reservados para os feridos e os cadáveres. As quantidades de uns e de outros não foram nunca reveladas.
Ninguém voltou a mencionar a conferência de imprensa do general Rojas Pinilla. Passámos de largo num jipe para seis em frente da sua casa de Melgar e chegámos a Bogotá depois da meia‑noite. A sala de redacção esperava‑nos em peso, pois da Oficina de Información y Prensa (0) da presidência da República tinham telefonado para informar sem mais pormenores que chegaríamos por terra, mas não precisaram se vivos ou mortos.
Até então, a única intervenção da censura militar tinha sido por causa da morte dos estudantes no centro de Bogotá. Não havia um censor dentro da redacção desde que o último do governo anterior se demitiu quase a chorar quando não conseguiu suportar as primícias falsas e as piruetas de troça dos redactores. Sabíamos que a Oficina de Información y Prensa não nos perdia de vista e com frequência nos mandavam pelo telefone advertências e conselhos paternais. Os militares, que no princípio do seu governo evidenciavam uma cordialidade académica ante a imprensa, tornaram‑se invisíveis ou herméticos. No entanto, um fio solto continuou a crescer só e em silêncio e deu‑nos a certeza nunca comprovada nem desmentida de que o chefe daquele embrião guerrilheiro do Tolima era um rapaz de vinte e dois anos que fez carreira na sua lei, cujo nome não foi possível confirmar nem desmentir: Manuel Marulanda Vélez ou Pedro António Marín, Tirofijo. Quarenta e tantos anos depois, Marulanda ‑ interrogado sobre este dado no seu acampamento de guerra ‑ respondeu que não se lembrava se na realidade era ele.
Não foi possível conseguir nem mais uma notícia. Eu andava ansioso por descobri‑la desde que voltei de Villarrica, mas não encontrava uma porta. A Oficina de Información y Prensa da presidência estava‑nos vedada e o ingrato episódio de Villarrica jazia sepultado sob a reserva militar. Atirara a esperança para o cesto do lixo quando José Salgar se plantou em frente da minha secretária, fingindo o sangue‑frio que nunca teve, e me mostrou um telegrama que acabara de receber.
‑ Aqui está o que você não viu em Villarrica ‑ disse‑me.
Era o drama de uma multidão de crianças arrancadas das suas aldeias e veredas pelas Forças Armadas, sem plano preconcebido e sem recursos, para facilitar a guerra de extermínio contra a guerrilha de Tolima. Tinham‑nas separado dos pais sem tempo para estabelecer quem era filho de quem e muitos deles mesmos não o sabiam dizer. O drama tinha começado com uma avalanche de mil e duzentos adultos conduzidos para diferentes povoações do Tolima, depois da nossa visita a Melgar, instalados de qualquer maneira e depois abandonados nas mãos de Deus. As crianças, separadas dos pais por simples considerações logísticas e dispersas por vários asilos do país, eram umas três mil, de diferentes idades e condições. Apenas trinta eram órfãs de pai e mãe e, entre estas um par de gémeos com treze dias de nascidos. A mobilização foi feita em absoluto segredo, ao abrigo da censura de imprensa, até que o correspondente de El Espectador nos telegrafou as primeiras pistas de Ambalema, a duzentos quilómetros de Villarrica.
Em menos de seis horas encontrámos trezentos menores de cinco anos no Amparo de Ninos de Bogotá, muitos deles sem filiação. Helí Rodríguez, de dois anos, mal conseguiu ditar o seu nome. Não sabia nada de nada, nem onde se encontrava, nem porquê, nem sabia os nomes dos pais nem pôde dar nenhuma pista para serem encontrados. O seu único consolo era que tinha direito a permanecer no asilo até aos catorze anos. O orçamento do orfanato era alimentado por oitenta centavos mensais dados por cada criança pelo governo do departamento. Dez fugiram na primeira semana com o propósito de se esconderem como clandestinos nos comboios do Tolima e não conseguimos achar nenhum rasto deles.
Fizeram a muitos um baptismo administrativo no asilo, com apelidos da região para os poderem distinguir, mas eram tantos, tão parecidos e móveis que não se distinguiam no recreio, sobretudo nos meses mais frios, quando tinham que aquecer‑se correndo por corredores e escadas. Foi impossível aquela dolorosa visita não me obrigar a perguntar a mim mesmo se a guerrilha que matara o soldado no combate teria podido fazer tantos estragos entre as crianças de Villarrica.
A história daquele disparate logístico foi publicada em várias crónicas sucessivas sem consultar ninguém. A censura manteve silêncio e os militares replicaram com a explicação da moda: os acontecimentos de Villarrica eram parte de uma ampla mobilização comunista contra o governo das Forças Armadas e estas eram obrigadas a proceder com métodos de guerra. Bastou‑me uma linha dessa comunicação para que se me metesse na cabeça a ideia de conseguir a informação directa de Gilberto Vieira, secretário‑geral do Partido Comunista, que nunca tinha visto.
Não me lembro se dei o passo seguinte autorizado pelo jornal ou se foi por iniciativa própria, mas recordo muito bem que tentei várias diligências inúteis para conseguir um contacto com um dirigente do Partido Comunista clandestino que me pudesse informar sobre a situação de Villarrica. O problema principal era que o cerco do regime militar em torno dos comunistas clandestinos não tinha precedentes. Estabeleci então contacto com um amigo comunista e dois dias depois apareceu em frente da minha secretária outro vendedor de relógios que andava à minha procura para me cobrar as quotas que não consegui pagar em Barranquilla. Paguei‑lhe as que pude e disse‑lhe, como sem querer, que precisava de falar de urgência com algum dos seus dirigentes principais, mas respondeu‑me com a fórmula conhecida de que ele não era o caminho nem saberia dizer‑me quem era. No entanto, nessa mesma tarde, sem anúncio prévio, surpreendeu‑me ao telefone uma voz harmoniosa e despreocupada:
‑ Olá, Gabriel, sou o Gilberto Vieira.
Apesar de ter sido o mais destacado dos fundadores do Partido Comunista, Vieira não tivera até então nem um minuto de exílio nem de prisão. Correndo embora o risco de que os dois telefones estivessem sob escuta, deu‑me a direcção da sua casa secreta para que o visitasse nessa mesma tarde.
Era um apartamento com uma sala pequena, a abarrotar de livros políticos e literários, e dois quartos num sexto andar de escadas íngremes e sombrias onde se chegava sem fôlego, não só pela altura mas também pela consciência de estar a entrar num dos mistérios mais bem guardados do país. Vieira vivia com a mulher, Cecilia, e uma filha recém‑nascida. Como a mulher não estava em casa, ele mantinha ao alcance da mão o berço da bebé e abanava‑a muito devagarinho quando se esganiçava em pranto nas longas pausas da conversa, que tanto era de política como de literatura, embora sem muito sentido de humor. Era impossível conceber que aquele quarentão rosado e calvo, de olhos claros e incisivos e lábia precisa, fosse o homem mais procurado pelos serviços secretos do país.
De entrada, dei conta que estava ao corrente da minha vida desde que comprei o relógio em El Nacional de Barranquilla. Lia as minhas reportagens em El Espectador e identificava as minhas notas anónimas para procurar interpretar as suas segundas intenções. No entanto, concordou em que o melhor serviço que podia prestar ao país era seguir nessa linha sem me deixar comprometer por ninguém em nenhuma espécie de militância política.
Instalou‑se no tema logo que tive ocasião de lhe revelar o motivo da minha visita. Estava ao corrente, como se lá tivesse estado, da situação de Villarrica da qual não pudemos publicar nem uma letra devido à censura oficial. No entanto, deu‑me dados importantes para entender que aquilo era o prelúdio de uma guerra crónica ao fim de meio século de escaramuças casuais. A sua linguagem, naquele dia e naquele lugar, tinha mais ingredientes do próprio Jorge Eliécer Gaitán do que do seu Marx de cabeceira, para uma solução que não parecia ser a do proletariado no poder mas uma espécie de aliança de desamparados contra as classes dominantes. A utilidade daquela visita não foi só a clarificação do que estava a suceder, mas um método para o entender melhor. Assim o expliquei a Guillermo Cano e a Zalamea, e deixei a porta entreaberta, para o caso de alguma vez aparecer a cauda da reportagem por terminar.
Resta dizer que Vieira e eu estabelecemos uma muito boa relação de amigos que nos facilitou os contactos mesmo nos tempos mais duros da sua clandestinidade.
Outro drama de adultos crescia soterrado até que as más notícias romperam o cerco, em Fevereiro de 1954, quando foi publicado na imprensa que um veterano da Coreia empenhara as suas condecorações para comer. Era apenas um dos mais de quatro mil que tinham sido recrutados ao acaso noutro dos momentos inconcebíveis da nossa história, quando qualquer destino era melhor do que nada para os camponeses expulsos à bala das suas terras pela violência oficial. As cidades, superpovoadas pelos deslocados, não ofereciam qualquer esperança. A Colômbia, como foi repetido quase todos os dias em notas editoriais, na rua, nos cafés, nas conversas familiares, era uma república invisível. Para muitos camponeses deslocados e numerosos rapazes sem perspectiva, a Guerra da Coreia era uma solução pessoal. Para lá foi de tudo, misturado, sem discriminações precisas e apenas pelas condições físicas, quase como vieram os Espanhóis descobrir a América. Ao regressar à Colômbia, gota a gota, esse grupo heterogéneo teve por fim um distintivo comum: veteranos. Bastou que alguns protagonizassem uma rixa para que a culpa recaísse sobre todos. Fecharam‑se‑lhes as portas com o argumento fácil de que não tinham direito a emprego porque eram desequilibrados mentais. Por outro lado, não houve lágrimas suficientes para os incontáveis que regressaram transformados em duas mil libras de cinzas.
A notícia do que empenhou as condecorações mostrou um contraste brutal com outra publicada dez meses antes, quando os últimos veteranos regressaram ao país com quase um milhão de dólares em dinheiro, que ao serem cambiados nos bancos fizeram baixar o preço do dólar na Colômbia de três pesos e trinta centavos para dois pesos e noventa. Mas tanto mais baixava o prestígio dos veteranos quanto mais tinham que enfrentar a realidade do seu país. Antes do regresso tinham sido publicadas versões dispersas de que receberiam bolsas especiais para carreiras produtivas, que teriam pensões vitalícias e facilidades para ficarem a viver nos Estados Unidos. A verdade foi o contrário: pouco depois da chegada foi‑lhes dada baixa no exército, e a única coisa que restou no bolso a muitos deles foram os retratos das namoradas japonesas que ficaram à espera deles em acampamentos do Japão, para onde os levavam a descansar da guerra.
Era impossível que aquele drama nacional não me fizesse recordar o do meu avô, o coronel Márquez, na espera eterna da sua pensão de veterano. Cheguei a pensar que aquela mesquinhez fosse uma represália contra um coronel subversivo em guerra encarniçada contra a hegemonia conservadora. Os sobreviventes da Coreia, pelo contrário, tinham lutado contra a causa do comunismo e a favor das ânsias imperiais dos Estados Unidos. E, no entanto, no seu regresso, não apareciam nas páginas sociais mas na crónica vermelha. Um deles, que matou à bala dois inocentes, perguntou aos seus chefes: «Se na Coreia matei cem, por que não posso matar dez em Bogotá?»
Esse homem, tal como outros delinquentes, chegara à guerra quando já estava assinado o armistício. No entanto, muitos como ele foram também vítimas do machismo colombiano, que se manifestou no troféu de matar um veterano da Coreia. Não tinham passado ainda três anos desde que regressou o primeiro contingente e já os veteranos vítimas de morte violenta passavam de uma dúzia. Por diversas causas, vários tinham morrido em altercações inúteis pouco tempo depois do regresso. Um deles morreu apunhalado numa rixa por repetir uma canção numa máquina de discos de café. O sargento Cantor, que fizera honra ao seu apelido cantando e acompanhando‑se à guitarra nos repousos da guerra, foi morto à bala semanas depois do regresso. Outro veterano foi apunhalado também em Bogotá e para o enterrarem tiveram que organizar uma colecta entre os vizinhos. Ángel Fábio Góes, que perdera na guerra um olho e uma mão, foi morto por três desconhecidos que nunca foram capturados.
Recordo ‑ como se tivesse sido ontem ‑ que estava a escrever o último capítulo da série quando tocou o telefone na minha secretária e reconheci de imediato a voz radiante de Martina Fonseca:
‑ Alô?
Abandonei o artigo a meio da página devido aos saltos do meu coração e atravessei a avenida para me encontrar com ela no Hotel Continental, depois de doze anos sem a ver. Não foi fácil distingui‑la da porta entre as outras mulheres que almoçavam no restaurante repleto, até que me fez um sinal com a luva. Estava vestida com o gosto pessoal de sempre, com um casaco de camurça, uma raposa murcha ao ombro e um chapéu de caçador, e os anos começavam a notar‑se‑lhe demasiado na pele de ameixa maltratada pelo sol e nos olhos apagados, toda ela diminuída pelos primeiros sinais de uma velhice injusta. Ambos devemos ter dado conta de que doze anos eram muitos na sua idade, mas suportámo‑los bem. Tentara encontrá‑la nos meus primeiros anos de Barranquilla, até que soube que vivia no Panamá, onde o seu marinheiro trabalhava no canal, mas não foi por orgulho e sim por timidez que não tratei do assunto.
Creio que acabava de almoçar com alguém que a deixara só para receber a minha visita. Bebemos três chávenas fatais de café e fumámos juntos meio maço de cigarros fortes, procurando às apalpadelas o caminho para conversar sem falar, até que se atreveu a perguntar‑me se alguma vez tinha pensado nela. Só então lhe disse a verdade: nunca a esquecera, mas a sua despedida tinha sido tão brutal que mudou a minha maneira de ser. Ela foi mais compassiva do que eu:
‑ Não esqueço nunca que para mim és como um filho.
Lera as minhas notas de imprensa, os meus contos e o meu único romance e falou‑me deles com uma perspicácia lúcida e penetrante que apenas era possível pelo amor ou o despeito. No entanto, não fiz mais do que escapar às armadilhas da nostalgia com a mesquinha cobardia de que só os homens são capazes. Quando consegui por fim aliviar a tensão, atrevi‑me a perguntar‑lhe se tinha tido o filho que queria.
‑ Nasceu ‑ disse ela com alegria ‑ e já está a terminar a primária.
‑ Negro como o pai? ‑ perguntei com a mesquinhez própria dos ciúmes.
Ela apelou ao seu bom feitio de sempre. «Branco como a mãe ‑ disse. ‑ Mas o pai não se foi embora de casa como eu temia; até se aproximou mais de mim.» E ante a minha evidente perturbação, confirmou‑me com um sorriso mortal:
‑ Não te preocupes, é dele. E mais duas filhas igualzinhas como se fossem uma só.
Alegrou‑se por ter vindo, entreteve‑me com algumas recordações que nada tinham que ver comigo e tive a vaidade de pensar que esperava de mim uma resposta mais íntima. Mas também, como todos os homens, me equivoquei de tempo e de lugar. Olhou para o relógio quando pedi o quarto café e outro maço de cigarros e levantou‑se sem preâmbulos.
‑ Bem, menino, estou feliz por te ter visto ‑ disse. E concluiu: ‑ Pois, não aguentava mais ter‑te lido tanto sem saber como és.
‑ E como sou? ‑ atrevi‑me a perguntar.
‑ Ah, não! ‑ riu ela com toda a alma ‑, isso não saberás nunca.
Só quando recuperei o fôlego em frente da máquina de escrever me dei conta das ânsias de vê‑la que sempre tivera e do terror que me impediu de ficar com ela para todo o resto das nossas vidas. O mesmo terror desolado que muitas vezes tornei a sentir desde aquele dia quando tocava o telefone.
O novo ano de 1955 começou para os jornalistas a 28 de Fevereiro com a notícia de que oito marinheiros do destroyer Caldas da Armada Nacional tinham caído ao mar e desaparecido durante uma tempestade quando faltavam apenas duas horas para chegarem a Cartagena. Zarpara quatro dias antes de Mobile, Alabama, depois de permanecer ali vários meses para uma reparação regulamentar.
Enquanto a redacção em pleno ouvia, suspensa, o primeiro boletim radiofónico do desastre, Guillermo Cano voltara‑se para mim na sua cadeira giratória, mantendo‑me na mira com uma ordem pronta na ponta da língua. José Salgar, de passagem para as oficinas, parou também à minha frente com os nervos tensos pela notícia. Eu voltara uma hora antes de Barranquilla, onde preparei uma informação sobre o eterno drama das Bocas de Ceniza, e já começava outra vez a interrogar‑me a que horas sairia o próximo avião da costa para escrever a primeira notícia dos oito náufragos. No entanto, em breve ficou claro no boletim da rádio que o destroyer chegaria a Cartagena às três da tarde sem notícias novas, pois não tinham recuperado os corpos dos oito marinheiros afogados. Guillermo Cano descontraiu‑se.
‑ Que porra, Gabo ‑ disse. ‑ Afogou‑se‑nos a cabra (1)
O desastre ficou reduzido a uma série de boletins oficiais e a informação foi tratada com as honras da praxe aos caídos em serviço , mas nada mais. No fim de semana, no entanto a marinha revelou que um deles, Luís Alejandro Velasco, chegara exausto a uma praia  de Urabá, com insolação mas recuperável, depois de permanecer dez dias à deriva sem comer nem beber, numa balsa  sem remos. Concordámos todos que podia ser a reportagem do ano se conseguíssemos estar com ele a sós, nem que fosse por meia hora.
Não foi possível. A marinha manteve‑o incomunicável enquanto recuperava no hospital naval de Cartagena. Ali esteve com ele durante uns minutos fugazes um astuto redactor de El Tiempo, António Montaria, que se enfiou no hospital disfarçado de médico. A julgar pelos resultados, no entanto, apenas obteve do náufrago uns desenhos a lápis sobre a sua posição no barco quando foi arrastado pela tempestade e umas declarações descosidas com as quais ficou claro que tinha ordens para não contar a história. «Se eu tivesse sabido que era um jornalista, tê‑lo‑ia ajudado», declarou Velasco dias depois. Uma vez recuperado, e sempre apoiado pela marinha, concedeu uma entrevista ao correspondente de El Espectador em Cartagena, Lácides Orozco, que não conseguiu chegar onde queríamos para saber como foi que um golpe de vento pôde causar semelhante desastre com sete mortos.
Luis Alejandro Velasco, com efeito, estava submetido a um compromisso férreo que o impedia de se mover ou expressar com liberdade, mesmo depois de ser transferido para casa dos pais, em Bogotá. Qualquer aspecto técnico ou político era resolvido com uma mestria cordial pelo tenente de fragata Guillermo Fonseca, mas com igual elegância eludia dados essenciais para a única coisa que então nos interessava, que era a verdade da aventura. Só para ganhar tempo, escrevi uma série de notas de ambiente sobre o regresso do náufrago a casa dos pais, quando os seus acompanhantes de uniforme me impediram uma vez mais de falar com ele, enquanto lhe autorizavam uma entrevista insulsa para uma emissora local. Foi então evidente que estávamos nas mãos de mestres na arte oficial de arrefecer a notícia e pela primeira vez me perturbou a ideia de que estavam a ocultar à opinião pública algo mais grave sobre a catástrofe. Mais do que uma suspeita, recordo‑o hoje como um presságio.
Era um Março de ventos glaciais e a chuvinha pulverulenta aumentava a carga das minhas inquietações de consciência. Antes de enfrentar a sala de redacção, oprimido pela derrota, refugiei‑me no vizinho Hotel Continental e mandei vir uma bebida dupla ao balcão do bar solitário. Bebia‑a a lentos goles, sem tirar sequer o grosso sobretudo ministerial, quando senti uma voz muito doce quase no ouvido:
‑ Quem bebe só, morre só.
‑ Deus te oiça, linda ‑ respondi com a alma na boca, convencido de que era Martina Fonseca.
A voz deixou no ar um rasto de tépidas gardénias, mas não era ela. Vi‑a sair pela porta giratória e desaparecer com o seu inolvidável guarda‑chuva amarelo na avenida embaciada pela chuvinha. Depois de uma segunda bebida, atravessei eu também a avenida e cheguei à sala de redacção sustido a pulso pelos dois primeiros copos. Guillermo Cano viu‑me entrar e deu um grito alegre para todos:
‑ A ver que trapaça nos traz o grande Gabo! 
Respondi‑lhe com a verdade:
‑ Nada mais do que um peixe morto.
Apercebi‑me então de que os brincalhões inclementes da redacção tinham começado a ter pena de mim quando me viram passar em silêncio, a arrastar o sobretudo ensopado, e nenhum teve coragem para começar a troça ritual.
Luis Alejandro Velasco continuou a desfrutar a sua glória reprimida. Os seus mentores, não só lhe permitiam como até lhe patrocinavam todo o tipo de perversões publicitárias. Recebeu quinhentos dólares e um relógio novo para contar pela rádio a verdade de que o seu tinha suportado o rigor da intempérie. A fábrica dos seus sapatos de ténis pagou‑lhe mil dólares para contar que os seus eram tão resistentes que não tinha podido desfazê‑los para ter algo que mastigar. No mesmo dia, pronunciava um discurso patriótico, deixava‑se beijar por uma rainha de beleza e mostrava‑se aos órfãos como exemplo de moral patriótica. Começava a esquecê‑lo no dia memorável em que Guillermo Cano me anunciou que o tinha no seu escritório, disposto a assinar um contrato para contar a sua aventura completa. Senti‑me humilhado.
‑ Já não é um peixe morto mas podre ‑ insisti.
Pela primeira e única vez me neguei a fazer para o jornal algo que era meu dever. Guillermo Cano resignou‑se à realidade e despachou o náufrago sem explicações. Contou‑me mais tarde que depois de o mandar embora do seu escritório começou a reflectir e não conseguiu explicar a si próprio o que acabara de fazer. Ordenou então ao porteiro que mandasse o náufrago de volta e chamou‑me pelo telefone com a informação inapelável de que lhe tinha comprado os direitos exclusivos da história completa.
Não era a primeira vez nem havia de ser a última em que Guillermo se obstinava num caso perdido e acabava coroado de razão. Deprimido, mas no melhor estilo possível, avisei‑o de que apenas faria a reportagem por obediência laboral mas não lhe colocaria o meu nome. Sem ter pensado nisso, aquela foi uma decisão casual mas certeira para a reportagem, pois obrigava‑me a contar as coisas na primeira pessoa do protagonista, com a sua maneira própria e ideias pessoais, e assinada com o seu nome. Assim me preservava de qualquer outro naufrágio em terra firme. Quer dizer, seria o monólogo interior de uma aventura solitária, à letra, como a fizera a vida. A decisão foi milagrosa, porque Velasco revelou‑se um homem inteligente, com uma sensibilidade e uma boa educação inesquecíveis e um sentido de humor a tempo e bem colocado. E tudo isso, por sorte, controlado por um carácter sem falhas.
A entrevista foi longa, minuciosa, em três semanas completas e esgotantes, e fi‑la sabendo que não era para publicar em bruto mas para ser cozinhada noutra onda: uma reportagem. Comecei‑a com uma certa má‑fé, tentando que o náufrago caísse em contradições para lhe descobrir as verdades encobertas, mas em breve tive a certeza de que não as tinha. Nada tive que forçar. Aquilo era como passear por uma pradaria de flores com a liberdade suprema de escolher as preferidas. Velasco chegava com pontualidade às três da tarde à minha secretária da redacção, revíamos as notas precedentes e prosseguíamos numa ordem linear. Eu escrevia à noite cada capítulo que ele me contava e era publicado na tarde do dia seguinte. Teria sido mais fácil e seguro escrever primeiro a aventura completa e publicá‑la já revista e com todos os pormenores comprovados a fundo. Mas não havia tempo. O tema ia perdendo actualidade a cada minuto e qualquer outra notícia ruidosa podia derrotá‑lo.
Não usámos gravador. Tinham sido acabados de inventar e os melhores eram tão grandes e pesados como uma máquina de escrever e o fio magnético embrulhava‑se como fios de ovos. A simples transcrição era uma proeza. Ainda hoje sabemos que os gravadores são muito úteis para recordar, mas não podemos descurar nunca a cara do entrevistado, que pode dizer muito mais do que a sua voz e às vezes mesmo o contrário. Tive que conformar‑me com o método de rotina das notas em cadernos de escola, mas graças a isso creio não ter perdido uma palavra nem um cambiante da conversa, e pude aprofundar melhor a cada passo. Os dois primeiros dias foram difíceis, porque o náufrago queria contar tudo ao mesmo tempo. No entanto, aprendeu muito depressa, pela ordem e o alcance das minhas perguntas e, sobretudo, pelo seu próprio instinto de narrador e a facilidade congénita para entender a carpintaria do ofício.
Para preparar o leitor antes de o lançar à água, decidimos começar o relato pelos últimos dias do marinheiro em Mobile. Também combinámos não o terminar no momento de pisar terra firme mas sim quando chegasse a Cartagena, já aclamado pelas multidões, que era o ponto em que os leitores podiam seguir por sua conta o fio da narrativa com os dados já publicados. Isto dava‑nos catorze capítulos para manter o interesse durante duas semanas.
O primeiro foi publicado a 5 de Abril de 1955. A edição de El Espectador, precedida de anúncios na rádio, esgotou‑se em poucas horas. O nó explosivo surgiu ao terceiro dia, quando decidimos revelar a verdadeira causa do desastre que, segundo a versão oficial, tinha sido uma tempestade. Em busca de uma maior precisão, pedi a Velasco que a contasse com todos os pormenores. Ele estava já tão familiarizado com o nosso método comum que vislumbrei nos seus olhos um fulgor de picardia antes de me responder:
‑ O problema é que não houve tempestade.
O que houve ‑ precisou ‑ foram umas vinte horas de ventos duros, próprios da região naquela época do ano, que não estavam previstos pelos responsáveis da viagem. A tripulação recebera o pagamento de vários ordenados atrasados antes de zarpar e gastara‑o à última hora em todo o género de aparelhos electrodomésticos para levar para casa. Algo tão imprevisto que ninguém se alarmou quando encheram os espaços interiores do barco e amarraram na coberta as caixas maiores: frigoríficos, máquinas de lavar, aquecedores. Uma carga proibida num barco de guerra e numa quantidade que ocupou espaços vitais da coberta. Talvez tivessem pensado que uma viagem sem carácter oficial, de menos de quatro dias e com excelentes prognósticos de tempo, não era para ser tratada com demasiado rigor. Quantas vezes não tinham sido feitas outras e continuariam a fazer‑se sem que nada acontecesse? A pouca sorte para todos foi que uns ventos apenas um pouco mais fortes do que os anunciados convulsionaram o mar sob um sol esplêndido, fizeram inclinar o navio muito mais do que estava previsto e quebraram as amarras da carga mal estivada. Se não tivesse sido um barco tão bom navegador como o Caldas, teria ido a pique sem salvação, mas oito dos marinheiros de guarda na coberta caíram pela borda fora. De modo que a causa principal do acidente não foi uma tempestade, como tinham insistido as fontes oficiais desde o primeiro dia, mas o que Velasco declarou na sua reportagem: a sobrecarga de electrodomésticos mal estivados na coberta de um navio de guerra.
Outro aspecto que se mantivera debaixo da mesa era que tipo de balsas estiveram ao alcance dos que caíram ao mar e dos quais apenas Velasco se salvou. Supõe‑se que devia haver a bordo dois tipos de balsas regulamentares que caíram com eles. Eram de cortiça e lona, de três metros de comprimento por um e meio de largo, com uma plataforma de segurança no centro e dotadas de víveres, água potável, remos, caixa de primeiros socorros, apetrechos de pesca e de navegação e uma Bíblia. Nessas condições, dez pessoas podiam sobreviver a bordo durante oito dias, mesmo sem os apetrechos de pesca. No entanto, no Caldas fora também embarcado um carregamento de balsas menores sem qualquer espécie de instrumentos. Pelos relatos de Velasco, parece que a sua era uma das que não tinham recursos. A pergunta que ficará a flutuar para sempre é quantos outros náufragos conseguiram abordar outras balsas que não os levaram a parte alguma.
Estas tinham sido, sem dúvida, as razões mais importantes que retardaram as explicações oficiais do naufrágio. Até que se aperceberam de que era uma pretensão insustentável, porque o resto da tripulação estava já a descansar em suas casas e a contar a história completa em todo o país. O governo insistiu até ao fim na sua versão da tempestade e oficializou‑a em declarações terminantes num comunicado formal. A censura não chegou ao extremo de proibir a publicação dos restantes capítulos. Velasco, por seu lado, manteve até onde pôde uma ambiguidade leal e nunca se soube que o tivessem pressionado para que não revelasse verdades, nem nos pediu nem nos impediu que as revelássemos.
Depois do quinto capítulo, tinha‑se pensado fazer uma separata com os quatro primeiros para atender aos pedidos dos leitores que queriam coleccionar o relato completo. D. Gabriel Cano, que não tínhamos visto na redacção durante aqueles dias frenéticos, desceu do seu pombal e foi direito à minha secretária.
‑ Diga‑me uma coisa, homónimo ‑ perguntou‑me ‑, quantos capítulos vai ter o náufrago?
Estávamos na descrição do sétimo dia, quando Velasco comera um cartão‑de‑visita como único manjar ao seu alcance, e não conseguiu desfazer os sapatos à dentada para ter algo que mastigar. De modo que nos faltavam mais sete capítulos. D. Gabriel escandalizou‑se.
‑ Não, homónimo, não ‑ reagiu, crispado. ‑ Têm que ser pelo menos cinquenta capítulos.
Apresentei‑lhe os meus argumentos, mas os seus baseavam‑se em que a circulação do jornal estava quase a duplicar.
Segundo os seus cálculos, podia aumentar até uma cifra sem precedentes na imprensa nacional. Improvisou‑se uma reunião de redacção, estudaram‑se os pormenores económicos, técnicos e jornalísticos, e acordou‑se um limite razoável de vinte capítulos. Ou seja, mais seis do que os previstos.
Embora a minha assinatura não figurasse nos capítulos impressos, o método de trabalho transpirara, e uma noite em que fui cumprir o meu dever de crítico de cinema levantou‑se no vestíbulo do teatro uma animada discussão sobre o relato do náufrago. A maioria eram amigos com quem trocava ideias nos cafés vizinhos depois da sessão. As suas opiniões ajudavam‑me a clarificar as minhas para a nota semanal. Na relação com o náufrago, o desejo geral ‑ com muito raras excepções ‑ era que fosse prolongada o mais possível.
Uma dessas excepções foi um homem maduro e bem‑posto, com um soberbo sobretudo de pêlo de camelo e um chapéu de coco, que me seguiu uns três quarteirões desde o teatro quando eu regressava só para o jornal. Acompanhava‑o uma mulher muito bela, tão bem vestida como ele, e um amigo menos impecável. Tirou o chapéu para me cumprimentar e apresentou‑se com um nome que não fixei. Sem mais delongas, disse que não podia estar de acordo com a reportagem do náufrago porque fazia o jogo directo do comunismo. Expliquei‑lhe, sem exagerar demasiado, que eu não era mais do que o transcritor da história contada pelo próprio protagonista. Mas ele tinha as suas ideias próprias e pensava que Velasco era um infiltrado nas Forças Armadas ao serviço da URSS. Tive então a intuição de que estava a falar com um alto oficial do exército ou da marinha e entusiasmou‑me a ideia de uma clarificação. Mas parecia que apenas me queria dizer aquilo.
‑ Eu não sei se o senhor o faz com consciência ou não ‑ disse‑me ‑ mas, seja como for, está a prestar um mau serviço ao país por conta dos comunistas.
A sua deslumbrante esposa fez uma expressão de alarme e tentou levá‑lo pelo braço com uma súplica em voz muito baixa: «Por favor, Rogelio!» Ele acabou a frase com a mesma compostura com que começara:
‑ Acredite, por favor, que apenas me permito dizer‑lhe isto devido à admiração que sinto pelo que o senhor escreve.
Voltou a estender‑me a mão e deixou‑se levar pela esposa atribulada. O acompanhante, surpreendido, não se conseguiu despedir.
Foi o primeiro de uma série de incidentes que nos puseram a pensar a sério sobre os perigos da rua. Numa tasquinha pobre por trás do jornal, que servia os operários do sector até de madrugada, dois desconhecidos tinham tentado dias antes uma agressão gratuita a Gonzalo González, que tomava ali o último café da noite. Ninguém entendia que motivos podiam ter contra o homem mais pacífico do mundo, excepto que o tivessem confundido comigo pelos nossos modos e modas caribenhas e os dois g do seu pseudónimo: Gog. De qualquer forma, a segurança do jornal avisou‑me que não saísse só à noite numa cidade cada vez mais perigosa. Para mim, pelo contrário, era de tanta confiança que ia a pé até ao meu apartamento quando terminava o turno.
Numa madrugada daqueles dias intensos, senti que tinha chegado a minha hora com a granizada de vidros de um tijolo atirado da rua contra a janela do meu quarto. Era Alejandro Obregón, que perdera as chaves do seu e não encontrou amigos acordados nem lugar em nenhum hotel. Cansado de procurar onde dormir e de tocar a campainha avariada, resolveu a noite com um tijolo da construção vizinha.
Mal me cumprimentou, para não me despertar mais quando lhe abri a porta, e deitou‑se de barriga para o ar a dormir no chão até ao meio‑dia.
O tumulto para comprar o jornal na porta de El Espectador antes de sair para a rua era cada vez maior. Os empregados do centro comercial demoravam‑se para o comprarem e lerem o capítulo no autocarro. Penso que o interesse dos leitores começou por motivos humanitários, continuou por razões literárias e no fim por considerações políticas, mas sempre sustido pela tensão interna do relato. Velasco contou‑me episódios que suspeitei inventados por ele e descobriu significados simbólicos ou sentimentais, como o da primeira gaivota que não se queria ir embora. O dos aviões, contado por ele, era de uma beleza cinematográfica. Um amigo navegante perguntou‑me como conhecia eu tão bem o mar e respondi‑lhe que não fizera mais do que copiar à letra as observações de Velasco. A partir de um certo ponto, já não tive nada a acrescentar.
O comando da marinha não estava com o mesmo humor. Pouco antes do final da série, dirigiu ao jornal uma carta de protesto por ter manobrado com critério mediterrâneo e de forma pouco elegante uma tragédia que podia suceder onde quer que operassem unidades navais. «Apesar do luto e da dor que dominam sete respeitáveis lares colombianos e todos os homens da armada ‑ dizia a carta ‑ não houve da parte de cronistas neófitos na matéria qualquer inconveniente em chegar ao folhetim, cheio de palavras e conceitos antitécnicos e ilógicos colocados na boca de afortunado e meritório marinheiro que com coragem salvou a sua vida.» Por esse motivo, a armada solicitou a intervenção da Oficina de Información y Prensa da presidência da República a fim de que supervisionasse ‑ com a ajuda de um oficial naval ‑ as publicações que fossem feitas sobre o incidente no futuro. Por sorte, quando chegou a carta estávamos no penúltimo capítulo e pudémos fazer‑nos desentendidos até à semana seguinte.
Prevendo a publicação final do texto completo, tínhamos pedido ao náufrago que nos ajudasse com a lista e as direcções dos seus outros companheiros que tinham máquinas fotográficas e estes mandaram‑nos uma colecção de fotografias tiradas durante a viagem. Havia de tudo, mas a maioria eram de grupos na coberta e ao fundo viam‑se as caixas de electrodomésticos ‑ frigoríficos, aquecedores, máquinas de lavar ‑ com as marcas de fábrica em evidência. Bastou‑nos este golpe de sorte para desmentir os desmentidos oficiais. A reacção do governo foi imediata e terminante, e o suplemento ultrapassou todos os precedentes e os prognósticos de circulação. Mas Guillermo Cano e José Salgar, invencíveis, apenas tinham uma pergunta:
‑ E agora, que carago vamos fazer?
Naquele momento, embriagados pela glória, não tínhamos resposta. Todos os temas nos pareciam banais.
Quinze anos depois de publicado o relato em El Espectador, a editora Tusquets de Barcelona publicou‑o num livro de capas douradas que se vendeu como se fosse de comer (2). Inspirado num sentimento de justiça e na minha admiração pelo heróico marinheiro, escrevi no final do prólogo: «Há livros que não são de quem os escreve mas de quem os sofre, e este é um deles. Os direitos de autor, portanto, serão para quem os merece: o compatriota anónimo que teve de padecer dez dias sem comer nem beber numa balsa para que este livro fosse possível.»
Não foi uma frase vã, pois os direitos do livro foram pagos na íntegra a Luis Alejandro Velasco pela editora Tusquets, por instruções minhas, durante catorze anos. Até que o advogado Guillermo Zea Fernández, de Bogotá, o convenceu de que os direitos lhe pertenciam a ele (por lei), sabendo que não eram seus a não ser por uma decisão minha em homenagem ao seu heroísmo, talento de narrador e amizade.
A acção contra mim foi apresentada no Juzgado 22 Civil del Circuito de Bogotá ( 3). O meu advogado e amigo Alfonso Gómez Méndez deu então à editora Tusquets ordem para suprimir o parágrafo final do prólogo nas posteriores edições e não pagar a Luis Alejandro Velasco nem mais um cêntimo dos direitos até que a justiça decidisse. Assim foi feito. Ao fim de um longo debate que incluiu provas documentais, testemunhais e técnicas, o tribunal decidiu que o único autor da obra sou eu e não acedeu às petições que o advogado de Velasco apresentara. Por conseguinte, os pagamentos que foram feitos até então por disposição minha não tinham tido como fundamento o reconhecimento do marinheiro como co‑autor, mas a decisão voluntária e livre de quem o escreveu. Os direitos de autor, também por disposição minha, foram doados desde então a uma fundação docente." ( continua)
Gabriel Garcia Marquez, in Viver para contá-la, Publicações Dom Quixote, 2002, pp.548- 573

(0) (Gabinete de Informação e Imprensa. (N. T.) 
(1). (Ficámos sem notícia! (N. T.).
(2).(Relato de um Náufrago, na tradução portuguesa. (N. T.)
(3).Tribunal Civil 22 do Círculo de Bogotá. (N. T.)
(4).O conto «Monólogo de Isabel vendo chover em Macondo» foi publicado em tradução portuguesa na colectânea Olhos de Cão Azul. (N. T.)

Sobre o livro:
"Publicado originalmente em 2002, "Viver para Contá-la" de Gabriel García Márquez, Nobel de Literatura em 1982, cobre o período de 1927 a 1950, finalizando com o pedido de casamento à sua  futura mulher Mercedes.
“Viver Para Contá-la” é a fascinante autobiografia de Gabriel García Márquez, onde o mestre do realismo mágico desvenda as memórias de sua infância e juventude. Com a prosa lírica e envolvente que o tornou um ícone literário, Gabo  transporta-nos para os cenários e personagens que moldaram o  seu imaginário, revelando as raízes de obras-primas como “Cem Anos de Solidão”. Mais do que um relato cronológico, este livro é um mergulho profundo na alma do escritor, mostrando como a vida se transforma em arte através da recordação e da narrativa.
Uma jornada íntima e reveladora, esta obra é um convite para entender o processo criativo de um génio. Desde a chegada de sua mãe para vender a casa em Aracataca até os primeiros passos como escritor em Barranquilla, cada página é um vislumbre da Colômbia que inspirou  as suas histórias. É um testemunho da magia da memória, da importância das origens e da incessante busca por transformar a realidade em lenda.
Para os admiradores de García Márquez, “Viver Para Contá-la” é um guia essencial, iluminando passagens inesquecíveis de sua ficção e oferecendo uma nova perspectiva sobre a  sua obra. Para novos leitores, é a porta de entrada para um universo literário sem igual, narrado pela voz inconfundível de um dos maiores contadores de histórias de todos os tempos. Uma celebração da vida, da literatura e do poder transformador da memória."

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