onde ser não dura mais que um instante onde cada instante
se verte no vazio no esquecimento de ter sido
sem esta onda onde por fim
corpo e sombra juntos se consomem
que faria eu sem este silêncio onde murmúrios se despenham
ofegantes fogosos rumo ao amparo rumo ao amor
sem este céu que se eleva
acima da poeira do seu lastro
que faria eu faria como ontem como hoje
quando busco pela minha vigia um outro como eu
vagueio na corrente longe de toda a vida
num espaço viciado sem voz entre as vozes fechadas comigo .
Samuel Beckett, Poema originalmente escrito em francês, do período entre 1947-49, correspondente à escrita de À Espera de Godot, in Selected Poems: 1930-1989. Faber and Faber, 2009.
Samuel Bckett (Dublin, 13 de Abril de 1906 — Paris, 22 de Dezembro de 1989) |
"Samuel Beckett (1906-1989) nasceu perto de Dublin. Estudou francês e italiano no Trinity College de Dublin, foi professor em Paris, conheceu Joyce, regressou à Irlanda em 1931, voltou a Paris quando rebentou a guerra, fez parte da Resistência. É no pós-guerra que vive o período mais intenso da sua produção literária, com a escrita, em francês, das peças “À Espera de Godot” e “Fim de Partida”, além de uma trilogia de romances composta por "Molloy", "Malone Morre" e "O Inominável". Começa a traduzir os seus textos para inglês e volta a escrever também nesta língua. Constrói assim uma obra bilingue, cada vez mais depurada. Recebe o Nobel em 1969, distribuindo o dinheiro pelos amigos."
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