sábado, 15 de agosto de 2026

Gostar de aprender

Gostar de aprender
por Eugénio Lisboa
"No final do 6.º ano, tivemos exame de ciclo e obtive, neste, a classificação final de 18 valores, o que me valeu o “Prémio Müller”, dado ao melhor aluno do liceu, nesse ano. Em Matemática, tivera 19, em História, 18, em Inglês, 17 e, nas restantes, 16. Fiquei, entre eufórico e assustado, até porque o Liceu Salazar, o único existente em toda a colónia (Moçambique), era conhecido pela sua exigência e, em matéria de “notas”, era como o seu patrono, em relação às outras notas: não gostava de abrir os cordões à bolsa... 
Os meus pais, orgulhosos (mas, disfarçando o melhor que podiam), perguntaram-me que presente gostaria eu de receber. Eu tinha namorado, numa livraria modesta da Praça Sete de Março, no “Prédio Fonte Azul”, na baixa, dois grossos volumes de um escritor francês, Roger Martin du Gard: Os Thibault, na edição brasileira da “Globo”. Já lera outro romance deste escritor, O drama de João Barois (Jean Barois, no original), na tradução portuguesa da “Inquérito”, e ficara profundamente comovido e estimulado, embora o problema religioso não tivesse nunca existido, para mim. 
Quando a minha mãe foi à livraria, o livro tinha desaparecido: foi uma desilusão. Deram-me, como compensação provisória, os Emigrantes, de Ferreira de Castro, que li, com bastante interesse (no começo do ano lectivo descobrira A Selva, do mesmo autor, e a Tempestade, de que também gostara...), mas não era o “presente” com que tinha sonhado... Algumas semanas depois, ainda em férias, a livraria recebeu novo exemplar dos Thibault e avisou os meus pais. A leitura empolgou-me e abriu-me as portas de uma Europa, de uma Paris, que passaram, desde então, a viver, de uma forma intensa, dentro de mim. Os amores “difíceis” de Jacques e Jenny ecoavam, dolorosamente, os meus “labirintos”, no que dizia respeito às “jeunes filles en fleur” – que me acenavam, no horizonte, mas de que eu receava não corresponderem àquele amor – único – que me estava reservado. Mais tarde, leria, no poeta irlandês, William Butler Yeats, uns versos belíssimos, que traduziam esta aspiração – impossível – ao infinito: “It is love that I am seeking for / But of a beautiful unheard of kind / That is not in the World.”
 Em Os Thibault, tudo me interessou: o registo e sondagem precisos, penetrantes e dolorosos dos conflitos humanos, no plano individual e colectivo. A descrição minuciosa (e tumultuosa) das semanas que precederam a 1.ª Guerra Mundial, a caracterização magistral dos meios da Internacional Socialista – é claro que me atingiram. Mas foram sobretudo as relações entre os personagens individuais (Jacques e Antoine, Jacques e Jenny, Antoine e o pai, Jacques e Gise, Antoine e Rachel, Madame de Fontanin e Antoine, Antoine e Philipe) que profundamente me tocaram, revelando-me, com inexcedível mestria e uma espécie de humildade exemplar, todo um mundo até aí apenas pressentido. Roger Martin du Gard tinha como modelo supremo, a seguir, o Tolstoi de Ana Karenina e de Guerra e Paz. A sua grande saga, em que pese aos alados cultores do “genial” e do “brilhante”, ficará como um grande romance do século XX, que não desmerece das duas grandes obras do conde russo. 
(...)
(Deixo aqui, do grande escritor francês, Roger Martin du Gard, algumas pérolas, todas colhidas nos Thibault:
– “Não há verdade, a não ser provisória... Tactear, hesitar. Não afirmar nada, definitivamente. Todo o caminho em que nos lançamos a fundo torna-se um impasse. Curarmo-nos do gosto da certeza.”
– Jacques: “Um dos dias decisivos da minha vida foi aquele em que compreendi que o que, em mim, era, pelos outros, julgado repreensível, perigoso, era, pelo contrário, o melhor, o mais autêntico de mim.”
– “O orgulho é a minha alavanca, a alavanca de todas as minhas forças. Sirvo-me dele. Tenho perfeitamente esse direito. Será que se não trata, antes de mais nada, de utilizar as nossas forças?”
– “Armadilha do diabo. Disfarçar o orgulho não é o mesmo que ser modesto. Mais vale deixar saltar à vista os defeitos que se não soube vencer, fazer disso uma força, do que mentir e enfraquecer, dissimulando-os.”
– “Nunca se está só, quando se está à mesa de trabalho.”
– “É tentador desembaraçarmo-nos do fardo exigente da nossa per sonalidade! É tentador deixarmo-nos englobar num vasto movimento de entusiasmo colectivo! É tentador acreditar, porque é cómodo, e porque é supremamente confortável! Saberás resistir à tentação?”
– “É preciso escolher as virtudes que engrandecem. Virtude suprema: a energia.”
Eugénio Lisboa, in Acta Est Fabula, Memórias I , Lourenço Marques. 1930-1947 , Opera Omnia Editora, Novembro de 2012, pp.155, 154, 158

Sem comentários:

Enviar um comentário