CAPÍTULO
I
“Apressai
‑vos para o casamento”
por
Elizabeth Gaskell
"Cortejada,
casada e… “Edith!”, disse Margaret, com gentileza, “Edith!” Mas, como Margaret
já suspeitava, Edith adormecera. Tinha ‑se enroscado no sofá da sala de visitas
das traseiras, na casa em Harley Street, mostrando‑se adorável no seu vestido
de musselina branca e com as suas fitas azuis. Se alguma vez Titania se tivesse
vestido com musselina branca e fitas azuis, e se tivesse adormecido num sofá de
damasco em tons de carmesim numa sala de visitas das traseiras, confundir ‑se ‑ia
por certo com Edith. Margaret voltava a espantar ‑se com a beleza da sua prima.
Tinham crescido juntas, desde crianças, e desde sempre Edith havia sido por
todos notada pelo seu encanto, excepto por Margaret; mas Margaret nunca tinha
pensado nisto até há poucos dias, quando a perspetiva de se afastar em breve da
sua companheira parecia atribuir uma nova força a cada doce qualidade e a cada
encanto que Edith possuía. Tinham estado a conversar sobre vestidos de
casamento, sobre cerimónias de casamento, sobre o capitão Lennox e sobre o que
este tinha dito a Edith acerca da vida que partilhariam em Corfu, onde agora o
regimento dele se encontrava; sobre a dificuldade em manter um piano bem
afinado (dificuldade que Edith parecia considerar uma das mais terríveis que
poderiam decorrer na sua vida conjugal), e acerca dos vestidos que ela
preferiria nas suas viagens à Escócia, e que teriam lugar imediatamente após o
seu casamento; mas o tom sussurrado da conversa tornara‑‑se mais lânguido; e
Margaret descobriu, como aliás já calculava, após alguns minutos, que Edith,
apesar do ruído que vinha da sala ao lado, se tinha enroscado toda até se
assemelhar a uma bola muito leve de musselina, de fitas e de sedosos anéis de
cabelo, e caído numa curta e tranquila sesta após o jantar. Margaret estava
prestes a contar à sua prima alguns dos planos e ideias que ponderava quanto à
sua vida futura no presbitério na província, onde a sua mãe e o seu pai viviam,
e onde sempre passara as suas luminosas férias, ainda que nos últimos dez anos
tivesse considerado a casa da tia Shaw como o seu lar. Mas, à falta de uma
ouvinte, tinha de matutar acerca da mudança na sua vida tão silenciosamente
como outrora. Tratava ‑se de um matutar satisfeito, ainda que com uns laivos de
tristeza por se imaginar separada por um tempo indefinido da sua afável tia e
da sua querida prima. Enquanto pensava na felicidade que seria ocupar a
importante posição de única filha no presbitério de Helstone, chegaram aos seus
ouvidos algumas partes da conversa na sala ao lado. A tia Shaw estava a
conversar com as cinco ou seis senhoras que tinham jantado na sua companhia, e
cujos maridos ainda ocupavam a sala de jantar. Eram as visitas habituais lá de
casa, vizinhos a quem a Sra. Shaw chamava amigos, isto porque acontecia jantar
com eles com uma maior frequência do que com quaisquer outras pessoas, e também
porque se ela ou Edith precisassem de alguma coisa deles, ou eles de alguma
coisa dela, não sentiriam a menor hesitação em visitar a casa uns dos outros um
pouco antes da hora do almoço. Estas senhoras e os respetivos maridos tinham
sido convidados, na sua qualidade de amigos, para se juntarem num jantar de
despedida em honra do casamento vindouro de Edith. Por sua vez, Edith tinha ‑se
oposto em grande medida a estes preparativos, já que o capitão Lennox era
esperado nessa mesma noite, regressando num comboio tardio; mas, ainda que
tivesse sido uma criança mimada, Edith era demasiado negligente e preguiçosa
para ter uma vontade própria muito vincada, e acabou por ceder quando deu conta
de que a sua mãe tinha encomendado aquelas delícias especiais da estação que
são geralmente muito eficazes contra um sofrimento imoderado, propício nos
jantares de despedida. Edith contentara ‑se em recostar ‑se na sua cadeira,
somente brincando com a comida que tinha no prato e assumindo uma expressão
solene e ausente, enquanto todos à sua volta iam apreciando os ditos
espirituosos do Sr. Grey, o cavalheiro que ficava sempre à cabeceira da mesa
nos jantares da Sra. Shaw e que tinha pedido a Edith para lhes tocar um pouco
de música na sala de visitas. O Sr. Grey esteve especialmente afável durante
este jantar de despedida, e os cavalheiros permaneceram no andar de baixo mais
tempo do que era habitual. E fizeram eles muito bem, a julgar pelos fragmentos
da conversa que Margaret ouviu por acaso. “Eu própria sofri demasiado; não que
não me sentisse extremamente feliz com o meu pobre e querido general, mas, de
facto, a diferença de idades é um inconveniente, algo que eu tinha decidido que
Edith jamais teria de enfrentar. Claro que, e digo isto sem qualquer
parcialidade maternal, tinha previsto que a adorável criança viesse a casar
cedo; na verdade, dizia muitas vezes com toda a certeza que ela estaria casada
antes de completar os dezanove. Tive uma sensação profética quando o capitão
Lennox” — e aqui o tom da sua voz desceu até ficar somente um sussuro, ainda
que Margaret tivesse conseguido colmatar facilmente a lacuna. No caso de Edith,
o rumo do verdadeiro amor mostrara ‑se extraordinariamente pacífico. A Sra.
Shaw tinha concedido um lugar ao seu pressentimento, como ela mesma dissera, e
insistido bastante na realização do casamento, ainda que fosse abaixo das
expectativas que muitos dos pretendentes de Edith tinham projetado para o seu
caso, sendo ela uma jovem e atraente herdeira. Mas a Sra. Shaw afirmou que a
sua única filha só casaria por amor, e depois suspirou de um modo enfático,
como se o amor não tivesse constituído o motivo para se ter casado com o
general. A Sra. Shaw apreciava muito mais o aspeto romântico do noivado em
questão do que a sua filha. Não que Edith não estivesse profunda e
verdadeiramente apaixonada; ainda assim, preferiria por certo uma residência de
qualidade em Belgravia ao carácter mais pitoresco do estilo de vida que o
capitão descrevera ao falar de Corfu. Edith fingia estremecer e arrepiar‑‑se
exatamente com as mesmas partes da descrição que faziam Margaret ruborizar ‑se
quando as escutava; Edith fazia isto, em parte, pelo prazer que sentia em ser
aliciada pelo seu querido amante a abandonar o seu descontentamento, e em parte
porque qualquer coisa que se relacionasse com uma vida de boémia ou de
improviso lhe era verdadeiramente desagradável. Ainda assim, e mesmo que alguém
surgisse na sua vida com a promessa tentadora de uma bela casa, uma excelente
propriedade e um pomposo título de que pudesse tirar proveito, Edith
continuaria a manter‑‑se fiel ao capitão Lennox durante todo o tempo em que
essa tentação durasse; quando se dissipasse, é possível que ela acabasse por
ter algumas pequenas dúvidas resultantes de um sentimento de tristeza mal
disfarçada por o capitão Lennox não conseguir reunir na sua pessoa todas as
particularidades que seriam desejáveis. Nesse aspeto, Edith era tal e qual a
sua mãe, que, depois de ter casado diligentemente com o general Shaw, com
nenhum outro sentimento mais caloroso que não fosse o de respeito perante o caráter
e a situação social dele, lamentava constantemente, embora de um modo
reservado, o fardo pesado que carregava por se ter casado com uma pessoa que
não conseguia amar. “Não olhei a despesas quanto ao seu enxoval”, foram as
palavras se- guintes que Margaret pôde ouvir. “Tem todos aqueles belíssimos
xailes e lenços indianos que o general me deu, mas que nunca mais irei usar.”
“É uma rapariga de sorte”, respondeu uma outra voz, que Margaret sabia ser a da
Sra. Gibson, uma senhora que tinha um interesse redobrado pela conversa, já que
uma das suas filhas tinha casado há poucas semanas. “A Helen queria muito ter
um xaile indiano, mas, na verdade, quando me disseram o preço exorbitante que
pediam, vi ‑me obrigada a não lhe fazer a vontade. Irá ficar por certo muito
invejosa quando souber que a Edith tem xailes indianos. De que género são? Dos
de Deli? Com aquelas franjinhas amorosas?” Margaret voltou a ouvir a voz da
tia, mas desta vez era como se ela se tivesse erguido da sua posição meio
reclinada e estivesse agora à espreita na sala de visitas das traseiras, que
estava menos iluminada. “Edith! Edith!”, exclamava a tia; e depois voltou a afundar
‑se no seu lugar, como se esgotada pelo esforço. Margaret aproximou ‑se. “A
Edith está a dormir, tia Shaw. É alguma coisa que eu possa fazer?” Todas as
senhoras disseram ao mesmo tempo, “Coitadinha!”, ao tomarem conhecimento desta
informação desoladora acerca de Edith; e o minúsculo cãozinho de colo, que
estava nos braços da Sra. Shaw, começou a ladrar, como se excitado com esta
explosão de piedade. “Chiu, Tiny!, sua menina mal comportada! Assim vais
acordar a tua dona. Era só para perguntar à Edith se ela pedia à Newton que
trouxesse até aqui os xailes: talvez pudesses ir tu lá, querida Margaret?”
Margaret subiu ao antigo quarto das crianças, no cimo da casa, onde Newton se
mantinha ocupada a arranjar algumas rendas que seriam necessárias para o
casamento. Quando Newton se pôs a desembrulhar os xailes, não sem um resmungo
feroz, pois já era a quarta ou quinta vez que naquele dia os mostrava, Margaret
ficou a olhar em redor o interior do quarto. Tinha sido o primeiro quarto
naquela casa com que ela se familiarizara, há nove anos, quando a trouxeram,
toda bravia do bosque, para partilhar a casa, as brincadeiras e as lições com a
sua prima Edith. Lembrou ‑se do aspeto escuro e sombrio do quarto de crianças
em Londres, dirigido por uma ama austera e cerimoniosa que era terrivelmente
exigente no que respeitava a mãos limpas e batas com rasgões. Recordou ‑se da
primeira vez que tomara chá ali — longe do seu pai e da sua tia, que jantavam
algures lá em baixo, nas infinitas profundezas a que as escadas conduziam,
pois, a não ser que ela estivesse no céu (assim pensava a criança), eles deviam
estar mesmo no fundo das entranhas da terra. Lá em casa (antes de Margaret ter
ido morar para Harley Street), o quarto de vestir da sua mãe servira como
quarto das crianças. Como tinham hábitos madrugadores no presbitério da
província, Margaret habituara ‑se a partilhar a hora das refeições com o seu
pai e a sua mãe. Oh! Como a alta e robusta rapariga de dezoito anos feitos se
recordava tão bem das lágrimas derramadas com tamanho e descontrolado
sentimento de tristeza pela menina de nove, quando esta foi esconder o rosto
debaixo da roupa da cama nessa primeira noite; e de como a ama a mandou parar
com a choradeira, pois iria perturbar a Menina Edith; e de como ela tinha
depois chorado amargamente, ainda que de um modo silencioso, até a sua distinta
e bonita tia, que vira ainda há pouco, subir mansamente ao quarto com o Sr.
Hale para lhe mostrar a sua filhota adormecida. Então, a pequena Margaret
sossegara os soluços de choro e tentara permanecer quieta, como se estivesse a
dormir, com receio de que a sua dor deixasse o pai combalido, dor essa que ela
não se atrevia a expressar perante a tia e que considerava, afinal de contas,
imprópria, depois de todos os planeamentos, projeções e expectativas que tinham
entretido em casa, em família, antes que o seu guarda‑‑roupa pudesse ser
devidamente preparado para as grandiosas circunstâncias que a esperariam, e
antes que o papá pudesse deixar a sua paróquia, pelo menos por alguns dias,
para poder visitá‑la em Londres. Margaret achava ‑se agora a adorar o velho
quarto das crianças, ainda que o mesmo não passasse agora de um quarto
desarranjado; e continuava a olhar em redor, com uma espécie de pesar felino,
pensando na ideia de daí a três dias ter de abandoná‑lo para sempre. “Ah,
Newton!”, disse. “Acho que iremos ficar muito tristes por termos de abandonar
este velho quarto.” “Eu cá não, menina. Na verdade, os meus olhos já não são o
que eram, e a luz aqui é tão má que não consigo ver o suficiente para remendar
as rendas, a não ser quando me ponho à janela, por onde passa sempre uma
corrente de ar terrível, o suficiente para que uma pessoa morra de frio.” “Bom,
parece ‑me que irás ter luz e calor suficientes em Nápoles. Até lá, terás de
preservar as tuas habilidades de cerzidura. Obrigada, Newton, eu posso levá ‑los
até lá abaixo, tu estás ocupada.” Então, Margaret desceu as escadas carregada
de xailes, aspirando o seu aroma apimentado e oriental. Depois, a sua tia pediu
‑lhe que ficasse quieta, como uma espécie de silhueta móvel, sobre a qual ela
pudesse dispor os xailes, já que Edith ainda estava a dormir. Ninguém
imaginaria, mas a figura alta e bem ‑feita de Margaret, num vestido negro de
seda que ela ainda usava pelo luto respeitante a um familiar distante da parte
do seu pai, fez realçar as longas e bonitas dobras dos xailes deslumbrantes que
teriam, pelo menos em parte, apagado a figura de Edith. Margaret ficou quieta,
mesmo debaixo do lustre da sala, muito silenciosa e passiva, enquanto a sua tia
ia ajustando os drapeados. De quando em vez, ao virar ‑se, Margaret via de
relance a sua figura no espelho que se encontrava sobre a lareira, e sorria
perante a sua aparição ali — os traços que lhe eram familiares no traje
costumeiro de uma princesa. Tocava suavemen- te nos xailes que a cobriam,
procurando o máximo de prazer ao sentir o toque macio e as cores brilhantes dos
tecidos, e pensava como gostaria de poder vestir ‑se com todo aquele esplendor,
apreciando tudo como faria uma criança, com um sorriso recatado de satisfação
no rosto. Logo nessa altura, a porta entreabriu ‑se e anunciaram bruscamente a
chegada do Sr. Henry Lennox. Algumas das senhoras sobressaltaram ‑se, como se tivessem
ficado envergonhadas pelo seu interesse feminino no vestuário. A Sra. Shaw
estendeu a mão ao recém ‑chegado; Margaret manteve ‑se absolutamente quieta, a
pensar que talvez a sua presença fosse necessária para ocultar os xailes, mas
depois olhou para o Sr. Lennox com um rosto luminoso e divertido, como se
tivesse reconhecido a compreensão dele perante a sensação de absurdo que a acometera
ao ter sido surpreendida deste modo. A sua tia estava muito empenhada em
perguntar ao Sr. Henry Lennox (que não tinha conseguido comparecer no jantar)
todo o género de questões relacionadas com o irmão deste, que era o noivo, e
com a sua irmã, que era a dama de honor (e que tinha viajado de propósito da
Escócia com o capitão para a ocasião), e outras a propósito de vários membros
da família Lennox. Margaret percebeu que a sua presença como suporte de xailes
já não era requisitada, por isso dedicou ‑se ao entretenimento das outras
visitas, que a sua tia tinha momentaneamente esquecido. Edith apareceu quase
logo a seguir, vinda do quarto de visitas das traseiras, a pestanejar muito
face àquela luz mais intensa, atirando para trás os seus caracóis desgrenhados,
e no geral assemelhando ‑se a uma Bela Adormecida que tivesse acordado
estremunhada dos seus sonhos. Mesmo durante o seu descanso, ela sentira
instintivamente que a presença de um Lennox era merecedora do esforço de se
levantar, e além disso tinha um sem‑‑número de perguntas para lhe fazer acerca
da querida Janet, a sua futura (e ainda desconhecida) cunhada, por quem tinha
confessado tanta afeição que Margaret, se não fosse tão orgulhosa como de facto
era, poderia ter sentido ciúmes da sua adversária exponencial. Enquanto
Margaret ia deslizando a pouco e pouco para segundo plano e a sua tia tomava um
lugar preponderante na conversa, reparou que Henry Lennox apontava o olhar para
um lugar vago ao pé dela; e sabia muito bem que, assim que Edith o libertasse
do interrogatório que lhe estava a fazer, ele iria tomar posse daquela cadeira.
Não havia estado muito certa, de acordo com o relato bastante confuso da sua
tia sobre os compromissos dele, de que ele iria visitá ‑los naquela noite;
tinha sido quase uma surpresa encontrá ‑lo ali, e agora tinha a certeza de que
aquele seria um serão agradável. Ele gostava das mesmas coisas que ela gostava,
com poucas exceções. O rosto de Margaret iluminou ‑se, exibindo um brilho
evidente e genuíno. Ele foi ‑se aproximando aos poucos. Ela recebeu ‑o com um
sorriso que não mostrava qualquer traço de timidez ou de inibição. “Bom,
suponho que estejam totalmente embrenhadas nas profundezas dos vossos assuntos
— assuntos de senhoras, quero eu dizer. Muito dife- rentes dos meus assuntos,
que na verdade constituem o verdadeiro ofício da Lei. Brincar com xailes é um
ofício bastante diferente do dos acordos jurídicos.”
“Ah,
bem sabia que iria ficar encantado quando nos encontrasse tão ocupadas a
admirar estes berloques. Mas, de facto, os verdadeiros xailes indianos são, no
seu género, coisas muitíssimo requintadas.” “Não tenho dúvidas nenhumas disso.
Os preços deles são também muito requintados. Nada a apontar.” Aos poucos,
começaram a chegar os outros cavalheiros, e os murmúrios e o ruído subiram de
tom. “Este é o seu último jantar de convidados, não é? Não haverá mais nenhum
até quinta ‑feira?”
“Não.
Parece ‑me que depois desta noite poderemos finalmente descansar, o que na
verdade já não me acontecia há muitas semanas; pelo menos, esse tipo de
descanso em que as mãos não têm mais nada para fazer, quando todos os
preparativos estão prontos para um acontecimento que deverá ocupar tanto a
mente como o coração. Ficarei feliz por ter tempo para pensar, e tenho a
certeza de que a Edith também ficará.”
“Não
teria tanta certeza quanto a ela, mas acredito que a Margaret ficará feliz. Das
vezes em que a vi, nos últimos tempos, percebi que estava constantemente a ser
levada por um turbilhão de tarefas que diziam respeito a outra pessoa.”
“É
verdade”, disse Margaret, bastante abatida, lembrando ‑se das intermináveis
perturbações por insignificâncias que andavam a arrastar ‑se já há mais de um
mês: “Pergunto a mim mesma se um casamento deve ser sempre precedido por aquilo
a que chama um turbilhão, ou se em alguns casos não deverá existir um período
de tempo tranquilo e pacífico mesmo antes do acontecimento.”
“Com
a madrinha da Cinderela a encomendar o enxoval e o pequeno‑‑almoço de núpcias,
a endereçar também os convites para o casamento, por exemplo”, disse o Sr.
Lennox a rir. “Mas serão todos estes incómodos realmente necessários?”,
perguntou Margaret, olhando ‑o diretamente nos olhos, à espera de uma resposta.
Uma indescritível sensação de cansaço acometeu ‑a nessa altura, resultante de
todos os esforços que tinham sido necessários para um efeito final elegante, e
para o qual Edith tinha sido reconhecida como autoridade suprema durante as
últimas seis semanas; e agora Margaret precisava mesmo de que alguém a pudesse
animar com algumas ideias agradáveis e serenas associadas à noção de casamento.
“Oh,
claro que sim”, respondeu o Sr. Lennox com uma mudança no tom de voz, agora
mais ponderada. “Existe toda uma série de procedimentos e cerimónias pelos
quais se deve passar, não tanto para uma pessoa sentir satisfação, mas mais
para calar a boca do mundo, até porque não haveria grandes motivos de
satisfação se ela não se calasse. Mas que preparativos faria para um
casamento?”
“Oh,
nunca pensei muito sobre isso; gostaria apenas que se proporcionasse numa
magnífica manhã de verão; e gostaria de caminhar na direção da igreja através
da sombra das árvores; gostaria que não houvesse assim tantas damas de honor, e
não queria ter um pequeno ‑almoço nupcial. Atrevo ‑me a dizer que estou
absolutamente contra as mesmas coisas que me deram mais trabalho nestes últimos
tempos.”
“Não,
não acho que esteja. A ideia de uma simplicidade pomposa harmoniza bastante bem
com o seu caráter.” Margaret não apreciava muito este tipo de discurso; retraía
‑se agora mais quando o escutava, ao recordar ocasiões passadas em que o Sr.
Lennox tentara levá ‑la a discussões (em que ele assumira a parte lisonjeira)
acerca do caráter dela e da sua forma de viver. Margaret interrompeu o discurso
com prontidão, dizendo ‑lhe: “Parece ‑me muito natural que eu pense na igreja
de Helstone e no passeio que se faz até lá chegar, em vez de pensar em ir de
carruagem até uma igreja em Londres que fica a meio caminho de uma rua pavimentada.”
“Fale
‑me mais sobre Helstone. Nunca me descreveu essa localidade. Acho que gostaria
de ter uma ideia melhor acerca do sítio para onde vai viver, quando o número
noventa e seis de Harley Street ficar lúgubre e sujo, chato e mudo. Em primeiro
lugar: Helstone é uma aldeia ou uma cidade?”
“Oh, apenas uma aldeola, não acho que se lhe
pudesse chamar uma aldeia. Existe apenas a igreja e perto dela umas quantas
casas — casinhas de campo, vá — com rosas que crescem em redor.”
“E
que florescem durante todo o ano, especialmente pela altura do Natal — tem de
fazer o quadro completo”, disse ‑lhe ele.
“Não”,
respondeu Margaret, algo aborrecida, “não estou a fazer quadro nenhum. Estou
apenas a tentar descrever Helstone tal e qual como é. Não devia ter dito isso.”
“Já
estou arrependido”, disse ‑lhe o Sr. Lennox. “Só o disse porque a descrição se
parecia mais com uma descrição de uma aldeia de fábula do que com uma aldeia da
vida real.”
“E assim é, de facto”, respondeu Margaret, com
avidez. “Todos os outros locais que eu já tive oportunidade de visitar em
Inglaterra me pareceram vulgares e rudes quando comparados com New Forest.
Helstone é como uma aldeia num poema — num dos poemas de Tennyson. Mas também
não vou tentar descrevê‑la mais nenhuma vez. Rir ‑se ‑ia na minha cara se eu me
pusesse a dizer o que acho dela — como ela é, de facto.”
“Claro
que não ia rir ‑me. Mas parece ‑me que está bastante decidida a esse respeito.
Ora, então conte ‑me sobre o que eu gostaria ainda mais de saber, ou seja, como
é o presbitério.”
Elizabeth
Gaskell, in Norte
e Sul , Relógio D’Água Editores, 01/04/2026, pp.9-16
Sobre o livro:
"A acção de Norte
e Sul decorre em meados do século XIX, narrando o percurso da
protagonista desde o ambiente tranquilo mas decadente de uma Inglaterra sulista
até um norte vigoroso mas turbulento.
Neste romance, Elizabeth Gaskell fala-nos de um amor incomum, para
mostrar o modo como a vida pessoal e a pública se entrelaçavam numa sociedade
recentemente industrializada.
Esta é uma história de triunfos conquistados com enorme esforço, onde o
pensamento racional é mais valorizado do que o preconceito e o lado humano se
sobrepõe ao respeito cego pela atividade económica.
Os leitores do século XXI irão sentir-se absorvidos, à medida que a trama deste
romance vitoriano os transporta até às origens de problemas e possibilidades
que ainda hoje, cento e cinquenta anos mais tarde, subsistem: a complexidade
das relações, públicas ou privadas, entre homens e mulheres de diferentes
classes sociais."
«Uma história admirável.» [Charles
Dickens]
«Gaskell
viu as realidades emocionais e económicas da vida comum com grande
honestidade.» [The Times]
Elizabeth Gaskell nasceu em Chelsea, Londres, em 29 de Setembro de 1810, sendo a mais nova de oito filhos de William Stevenson e Elizabeth Holland. A sua mãe morreu quando ela tinha treze meses, pelo que Elizabeth foi criada por uma tia materna em Knutsford, cidade que haveria de inspirar o romance Cranford.
O seu futuro era incerto, já que não herdara qualquer riqueza e não tinha residência fixa, tendo o seu pai casado de novo em 1814 e tido dois filhos.
Em 1832, Elizabeth casou com William Gaskell, um padre protestante e mais tarde professor de História, Literatura e Lógica. Ambos se interessavam por literatura e pelas novas ideias científicas, e o casal instalou-se em Plymouth Grove, em Manchester, cidade de cujo processo de industrialização Elizabeth se tornaria crítica.
Dilacerada pela morte de um dos filhos em 1845, começou a escrever, tendo publicado anonimamente Mary Barton em 1848, um romance elogiado por Charles Dickens, que chamou à autora a sua “querida Xerazade”, convidando-a a colaborar no seu jornal.
Foi nessa época que Elizabeth conheceu Charlotte Brontë, quando passava férias nos arredores de Windermere. Tornaram-se amigas e Elizabeth Gaskell escreveu The Life of Charlotte Brontë (1857), que permanece uma das mais importantes biografias da literatura inglesa.
Publicado em 1855, Norte e Sul completou Mary Barton numa das mais impressivas descrições literárias da Revolução Industrial no século XIX.
Entre os romances principais de Elizabeth Gaskell, estão ainda Sylvia’s Lovers (1863) e Cousin Phillis (1864). A sua última obra, Wives and Daughters, permaneceu inacabada devido à morte da autora em 1865.”

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