Os meus romances preferidos
por Luiz Ruffato
“Não sei quando
começou a necessidade de fazer listas, mas posso imaginar o nosso antepassado
mais remoto riscando na parede da caverna, à lua de uma tocha, signos que
indicavam quanto de alimento havia sido estocado para o inverno que se
aproximava ou, como somos competitivos, a relação entre os nomes da
tribo e o número de caças abatidas por cada um deles.
Se formos propor uma
hermenêutica acerca do tema, talvez possamos afirmar que existem dois tipos de
listas: as necessárias e as inúteis, sendo que em muitos casos, dialeticamente,
as necessárias tornam-se inúteis e as inúteis, necessárias. Tomemos dois
exemplos. Todo mês, enumero as coisas que faltam na despensa de minha casa
antes de me dirigir ao supermercado: essa lista arrolo na categoria das
necessárias. Por outro lado, há pessoas que anotam as suas metas para o ano que se
inicia, começar a fazer ginástica, parar de fumar, cortar em definitivo o
açúcar, ser mais solidário, menos intolerante: essa, elenco na categoria das
inúteis...
Feitas as compras, a
lista do supermercado, necessária, torna-se então inútil. A lista contendo
nossos desejos de sermos melhores para nós mesmos e para os outros, embora
inútil, pois dificilmente as cumprimos, convertem-se em necessárias, porque
estabelecem um vínculo com o futuro, e projectarmo-nos é uma forma de vencer a
morte.
Tudo isso, para
justificar o que se segue. Ninguém me perguntou, mas resolvi organizar uma
lista dos melhores romances que li em minha vida – escolhi o número vinte, não
por motivos místicos, mas porque talvez, pela amplitude, alinhave, mais que
preferências intelectuais, uma história afectiva das minhas leituras. Enquadro-a
na categoria das listas inúteis, mas quem sabe, se consultada, municie
discussões, já que toda escolha é subjectiva e aleatória, ou, na melhor das
hipóteses, suscite curiosidade a respeito de um título ou de um autor.
Ocorresse isso, me daria por satisfeito.
Os 20 melhores romances, por
ordem alfabética:
Anna Karenina, de Liev
Tolstói (1828-1910) – Publicado em 1877, traça um painel da
sociedade russa do século XIX. Tem a melhor frase de abertura de uma narrativa
de ficção, verdadeira aula de teoria literária: “Todas as famílias felizes são
iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”.
Berlin Alexanderplatz, de
Alfred Döblin (1878-1957) – Lançado em 1929,
acompanha a trajectória do desajustado Franz Biberkopf pelas ruas de uma Berlim
caótica do período entre guerras,. A vertigem de um mundo em colapso expressa-se
de maneira magnífica numa narrativa que se quer, ao mesmo tempo, objectiva e
subjectiva.
Cem anos de solidão, de
Gabriel García Márquez (1927-2014) – Em 1967, o povoado
de Macondo, situado num país qualquer da América Hispânica, torna-se universal.
Ali, se desenvolve a saga dos Buendía, um ciclo interminável de histórias cujos
protagonistas vivem no ténue limite entre real e fantástico.
Dom Quixote, de Miguel de
Cervantes (1547-1616) – Composto por dois
tomos, o primeiro lançado em 1605 e o segundo dez anos depois, trata-se da obra
mais completa da história da literatura universal. Paródia dos romances de
cavalaria, ilustra à perfeição o eterno embate entre racionalismo e idealismo.
Enquanto agonizo, de William
Faulkner (1897-1962) – Embora não seja a
mais conhecida das obras do autor, este romance, publicado em 1930, lança luz
sobre os Bundren, família pobre do sul dos Estados Unidos, que busca cumprir o
último desejo da matriarca.
Ilusões Perdidas, de Honoré de
Balzac (1799-1850) – Lucien de Rubempré é um dos mais fascinantes
personagens da literatura. Intelectual provinciano, busca firmar-se em Paris no
início do século XIX. Egoísta e arrogante, mas também ingênuo, vê seus sonhos
ruírem, após descartado pela mesma sociedade que o adotara. Publicado em 1837,
possui seis diferentes traduções disponíveis.
Memórias póstumas de Brás
Cubas, de Machado de Assis (1839-1908) –
Dedicado “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”, este
romance, de 1881, marca a entrada de Machado de Assis no rol dos maiores
autores da literatura universal. Cínico e sarcástico, Brás Cubas fala ao Brasil
de todos os tempos. Há inúmeras edições disponíveis, das excelentes às
péssimas.
Moby Dick, de Herman Melville
(1819-1891) – Publicado em 1851, este verdadeiro compêndio de
possibilidades narrativas possui uma dimensão épica que nos remete à própria
criação do mundo – o tema ultrapassa, em muito, a perseguição da grande baleia
branca pelo capitão Ahab.
No coração das trevas, de
Joseph Conrad (1857-1924) – Neste libelo
anticolonialista, lançado em 1902, acompanhamos o narrador Charles Marlow
penetrando no âmago da África Central em busca de um enigmático personagem
chamado Kurtz. O que ele encontra é apenas o horror.
O Grande Gatsby, de F. Scott
Fitzgerald (1896-1940) – Romance da era do
jazz, publicado em 1925, mostra os bastidores da vida luxuosa da classe média
endinheirada da Costa Leste dos Estados Unidos. Por trás da futilidade e da
loucura, a solidão e o vazio que prenunciam a tragédia.
O leopardo, de Giuseppe Tomasi
di Lampedusa (1896-1957) – Somente publicado
dois anos após a morte do autor, este é o depoimento do fim de uma época, a da
decadente aristocracia refinada e parasita. Tem uma das frases mais
emblemáticas do exercício da política: “Para que as coisas permaneçam iguais, é
preciso que tudo mude”.
O monte dos vendavais,
de Emily Brontë (1818-1848) – O amor entre a
complicada Cathy Earnshaw e o rancoroso Heathcliff ultrapassa as convenções
sociais, o tempo e até mesmo a morte. Publicado em 1847, é a narrativa da
paixão cega e da vingança a qualquer preço, desenvolvida nos grotões de uma
Inglaterra selvagem. Disponível em pelo menos sete versões diferentes.
O mundo se despedaça, de
Chinua Achebe (1930-2013) – A chegada do homem
branco a uma remota área habitada pela etnia ibo, às margens do rio Níger,
desestabiliza a sociedade local, de religião anímica e regras próprias. A
introdução do cristianismo desintegra rapidamente algo que durava desde tempos
imemoriais. A edição original é de 1958.
O processo, de Franz Kafka
(1883-1924) – Romance antecipatório da aniquilação da
subjetividade, que caracterizaria o século XX. A força de sua ficção engendrou
até mesmo um adjetivo, kafkiano, para designar situações absurdas.
O vermelho e o negro, de
Stendhal (1783-1842) – Egoísta e
ambicioso, Julien Sorel usa, sem escrúpulos, seu charme e simpatia para galgar
um lugar na exclusivista sociedade francesa pós-napoleônica, com resultados
trágicos. Lançado em 1830, é um monumento do realismo psicológico. .
Oblómov, de Ivan Goncharóv
(1812-1891) – Publicado em 1859, é um retrato da derrocada da
sociedade russa. O aristocrata Iliá Ilitch Oblómov, incapaz de tomar qualquer
atitude prática na vida, até mesmo de se levantar da cama, assiste seu mundo
sucumbir à inércia e à indiferença.
Os Irmãos Karamázov, de Fiódor
Dostoiévski (1821-1881) – Lançado em 1879,
narra a complexa relação do avaro Fiódor Karamázov com seus três filhos:
Dmitri, o primogênito, e seus meio-irmãos, o intelectualizado Ivan e o místico
Aleksiei. Esse romance antecipa vários temas que seriam depois discutidos pela
psicanálise.
Pedro Páramo, de Juan Rulfo
(1917-1986) – “Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia
meu pai, um certo Pedro Páramo”. Comala e Pedro Páramo, aos poucos, se fundem
nesta narrativa a um só tempo realista e fantástica, construída em fragmentos
aparentemente desconexos. Lançado em 1955, é editado no Brasil pela Record, com
tradução de Eric Nepomuceno.
Uma Viagem sentimental, de Laurence Sterne (1713-1768) –
Publicado em 1768, é uma narrativa satírica que coloca em xeque a própria forma
do romance. Inicia-se abruptamente e termina com uma vírgula, sem sequer
alcançar a Itália, objectivo aparente do personagem, se levarmos a sério o
título. Tem uma edição pela Antígona, com tradução de Manuel Portela.
Viagens de Gulliver, de
Jonathan Swift (1667-1745) – Numa época em que
pululavam livros de naturalistas que descreviam terras desconhecidas, o autor
imagina seu personagem, Lemuel Gulliver, visitando lugares improváveis,
criando, assim, uma poderosa sátira sobre a sociedade europeia. Tem edição portuguesa pela Relógio D'Água, com tradução de Luzia Maria Martins.”
Luiz Ruffato, em artigo do Jornal El País, de 2.12.2014
Sem comentários:
Enviar um comentário