sábado, 18 de maio de 2024

Uma questão infinita

A pergunta por Deus: uma questão infinita
por António Borges
“Tem-se frequentemente a ideia de que, à partida, o ateu, quando nega a existência de Deus ou quando afirma que, com a morte, acaba tudo, tem do seu lado a razão, ficando o crente sob a suspeita de não-racional, de tal modo que é a ele apenas que compete ter de apresentar razões da sua fé.
Ora, as coisas não são assim, de modo nenhum. Por paradoxal que pareça, também o ateu assenta a sua negação da existência de Deus ou da vida depois da morte num acto de fé, melhor, numa crença. “Em qualquer das suas formas, o ateísmo é uma crença e não uma evidência, escreveu o filósofo Pedro Laín Entralgo, um ‘creio que Deus não existe’ e não um ‘sei que Deus não existe’.”
O chamado crente e o ateu encontram-se exactamente no mesmo plano: o crente não pode demonstrar a existência de Deus, nem a vida eterna, exactamente como o ateu não pode demonstrar que Deus não existe ou que a morte é o termo definitivo da existência da pessoa. No que se refere a Deus ou à vida depois da morte, as posições do crente, do agnóstico ou do ateu assentam na crença.
Evidentemente, sendo humanos e, portanto, racionais, todos - o crente, o agnóstico, o ateu - têm de apresentar razões para a sua crença, pois esta, se quiser ser verdadeiramente humana, não pode ser cega. Sublinhe-se, porém, que se trata, para todos, de um acto de fé, certamente com razões, mas sempre de um acto de fé, e não da conclusão de uma demonstração.
Assim, o crente, o agnóstico, o ateu, em vez de se excluírem, devem encontrar-se e enriquecer-se mutuamente num conflito dialógico de razões, e, por paradoxal que pareça, num diálogo sincero e aberto, concluirão que há entre eles muito mais sintonias do que poderiam supor à primeira vista. Quantos crentes, por exemplo, não ficarão surpreendidos ao ler em Santo Tomás de Aquino que o saber da fé, não podendo ser evidente, convive com a opinião, a dúvida...
Fé religiosa e dúvida não se excluem. Pelo contrário, a fé está sempre acompanhada de perguntas. Estas perguntas humanizam a religião, pois impedem todo o tipo de fundamentalismo, abrem ao diálogo não só com os crentes de outras religiões, mas também com os ateus e agnósticos, obrigando a uma reformulação constante das fórmulas doutrinais, que ao mesmo tempo que tentam dizer o Mistério também o ocultam. Por outro lado, é bem possível que também ateus e agnósticos aceitem que há um Mistério inominável que a todos envolve...
Aprofundando a conhecida diferença entre problema e mistério, estabelecida por Blondel e sobretudo por Gabriel Marcel, Pedro Laín Entralgo distinguia entre problema, enigma e mistério.
Problemas são aquelas questões que, mais tarde ou mais cedo, o Homem pode resolver. Assim, concluiu-se que a Terra é redonda e que gira à volta do Sol, e pode encontrar-se solução para uma crise financeira...
O enigma está referido àquelas questões que nunca serão completamente resolvidas, mas de cuja solução racional o Homem se vai aproximando cada vez mais, ainda que apenas assintoticamente.
Enigmas são, por exemplo, a realidade da matéria ou o pensamento. Hoje, sabemos muito mais sobre o que é a matéria do que Aristóteles ou mesmo Galileu ou Newton, mas isso não significa que tenhamos uma intelecção plena ou que algum dia venhamos a possuí-la. Neste domínio, há um saber cumulativo, mas num horizonte assintótico, na medida em que, como escreveu H.-G. Gadamer, o horizonte não é uma fronteira fixa, mas algo para onde viajamos e que ao mesmo tempo se desloca connosco, de tal modo que o não alcançamos...
Finalmente, o mistério refere-se a uma realidade na qual se crê, mas cuja intelecção racional estará para sempre vedada ao Homem. O mistério refere-se às perguntas últimas, como: Qual o sentido último do universo e da existência? Por que é que existo precisamente eu? Por que é que há algo e não nada? A vida continua depois da morte? Deus existe?
Estas perguntas colocam-nos perante o que é, por si mesmo, misterioso, pois relacionam-se com a ultimidade, que não é objecto do saber de evidência, mas do saber de crença. Daí, um dos dramas maiores da existência, pois, como não se cansava de repetir P. Laín Entralgo, o objecto da ciência é penúltimo, mas o último é objecto de crença, seguindo-se daí que “o certo é penúltimo e não pode não ser penúltimo, será sempre penúltimo, e o último é incerto e não pode não ser incerto, será sempre incerto”.
Mas, por outro lado, repetindo, a crença, para ser autêntica e verdadeiramente humana, não pode ser cega, o que significa, portanto, que tem de ser argumentativa, isto é, tem de dar razões de si mesma. A fé não demonstra, mas tem de argumentar, de tal modo que mostre que é razoável. As razões que tem a capacidade e o dever de apresentar têm de mostrar a sua plausibilidade.
Concretamente quanto à questão de Deus e da vida depois da morte, isto é, com a morte, o Homem acaba definitivamente ou, pelo contrário, entrará na sua plena realização na Realidade Última e Primeira a que chamamos Deus? Quanto a esta questão, nem o não-crente nem o crente podem demonstrar a sua respectiva posição, pois é de uma crença que, em última análise, se trata. No entanto, um e outro apresentarão razões a que ambos serão sensíveis. Ser ser humano é levar consigo esta questão. Melhor: ser esta própria questão. E o que, em última instância, une os homens é esta procura sem fim e o diálogo à volta desta questão infinita.”
António Borges, Padre e Professor de Filosofia, em artigo de Opinião, publicado no DN, em 11 de Maio de 2024 

sexta-feira, 17 de maio de 2024

A Felicidade

Toda felicidade é uma obra-prima: o menor erro a distorce, a menor hesitação a altera, o menor peso a estraga, a menor estupidez a debilita.
Marguerite Yourcenar

Homem nenhum pode ser feliz sem um amigo, nem pode estar certo desse amigo  enquanto não for infeliz.
Thomas Fuller 

Não há nada de mais belo do que distribuir a felicidade  por muitas pessoas. 
Ludwig Beethoven

A única coisa  sem mistério é a felicidade porque ela se justifica por si só.
Jorge Luís Borges

O mais feliz dos felizes  é aquele  que faz outros felizes.
Alexandre Dumas

Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.
Ghandi

Quanto mais se é feliz menos se presta atenção à felicidade.
Alberto Moravia

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Diários e Confissões

Diários e Confissões
por Eugénio Lisboa
“Os homens (e as mulheres) sempre gostaram de falar de si e das suas façanhas. A confissão, dizia não sei quem, é uma tentação irresistível. Vem isto, repito, de muito longe. Júlio César, por exemplo, não deixou por mãos alheias o relato das suas campanhas na Gália: escreveu o seu próprio panegírico no famoso De Bello Gallico, para tormento dos alunos de latim dos liceus do meu tempo. Rousseau deliciou-se a falar de si e das suas misérias, nas sumarentas Confissões que nos legou. O mesmo fez Santo Agostinho e tantos outros depois dele. Magníficos diários não faltam, por exemplo, na grande literatura francesa: Delacroix, os Goncourt, André Gide, Jules Renard, Julien Green, por exemplo. O Diário de Gide é suavemente indiscreto e o de Julien Green foi-o também, até ter saído, há muito pouco tempo, a sua versão integral, isto é, não expurgada, na qual podemos ver o escritor a deliciar-se na descrição minuciosamente indiscreta e muito crua das suas orgias sexuais: não resistiu à tentação de contar tudo…
Falarmos de nós próprios, com maior ou menor indiscrição, é, repito, uma enorme tentação. Oscar Wilde era muito dado a isso. Conta-se que, estando ele, uma vez, num restaurante, em Londres, lhe apareceu um jovem admirador, que queria conhecê-lo pessoalmente. Wilde aproveitou logo a ocasião para falar de si com abundância e fê-lo durante uma boa meia hora. Por fim, deteve-se e, voltando-se para o jovem, disse-lhe mais ou menos isto (cito de memória): “Basta. Estive muito tempo a falar de mim. Basta. Agora é a sua vez de falar de mim.” O autor de O Retrato de Dorian Gray estava longe de ser um caso isolado, no seu tempo e no seu país. Tinha um bom rival, em egotismo e em espírito acerado, no pintor James Whistler. Quando, em certa altura, a célebre revista Punch publicou um elogio ditirâmbico dirigido à actriz Sarah Bernardt, atribuindo a autoria do texto a Oscar Wilde, este reagiu, enviando um telegrama a Whistler, nestes termos: “O Punch é demasiado ridículo. Quando eu e tu estamos juntos, nunca falamos de nada a não ser de nós próprios.” Whistler não perdeu tempo a responder-lhe: “Não, não, Oscar, estás a esquecer-te. Quando tu e eu estamos juntos, nunca falamos de nada a não ser de mim.” Wilde encerrou a conversa com um terceiro telegrama: “É verdade, Jimmy, que nós estávamos a falar de ti, mas eu estava a pensar em mim.”
O pendor confessional é, às vezes, tão forte, que o autor faz entrega de si, às mãos cheias: Gide, para além de um extenso  diário, ainda nos deixou uma substanciosa autobiografia intitulada Si le grain ne meurt. Julien Green também, além de um muito volumoso diário, igualmente nos deixou belíssimas páginas de memórias. E o nosso Miguel Torga somou aos dezasseis volumes do seu saboroso diário uma lomga autobiografia disfarçada, em cinco volumes: A Criação do Mundo. Sem falar no que, de confissão, pôs na sua poesia. Como se vê, o autor de Bichos, embora discreto, era obstinado a falar de si e da sua circunstância. E estava tão seguro  de si e do seu estatuto, que se não deixava facilmente abater, como o demonstra a seguinte anedota verdadeira. Estava o escritor a gozar as suas habituais férias, no Gerês, quando lhe apareceu um colega dos tempos da universidade, em Coimbra. O antigo companheiro de estudos fez-lhe uma grande festa: havia que tempos que não se viam e mais isto e mais aquilo, até que o inevitável aconteceu: tirando do bolso um manuscrito, explicou ao autor de Novos Contos da Montanha, que também ele tinha escrito uns Poemas Ibéricos. E, já agora, se o amigo os quisesse ler… Torga, sem uma palavra, meteu os papéis no bolso. E, poucos dias depois, devolveu-lhos, sem dizer uma palavra. O colega, afrontado, reagiu: que o Rocha era de força, que podia, ao menos, dizer se gostara ou não dos seus poemas e que até, por acaso, a sua mulher preferia os seus Poemas Ibéricos aos do Torga. Este respondeu-lhe curto e final: “Estime-a!”.»
                                                                                  20.10.2019
Eugénio Lisboa , em Crónica publicada na rubrica Ipsissima Verba, da Revista LER.

terça-feira, 14 de maio de 2024

Num compasso imperecível

 
Mitsuko Uchida interpreta e dirige a Camerata Salzburg ,  
em  Mozart's piano concerto K. 415 in C major.

Há tantos dias

 
Há tantos dias que não sei de ti.
Escrevias. Muito. 
Palavras douradas que cintilavam.
Esperava-as. Sempre.
Era a tua escrita que vinha acender
o dia. Que começava.

Compostas  num compasso imperecível
chegavam. De longe.
Palavras luminosas que  esplendiam
um brilho. Intenso.
E era na luz e no  som que traziam 
que te achava. Em mim.

Há tantos dias que se hauriram
de silêncio. Surdas.
Perderam-se  na forma e no sabor que 
lhes vestias.  Ausentes, 
os dias  deixaram de crescer  em mim. 
Aqui. Sem ti.
M. de Verrières, in "Dias de Poesia", Dezembro, 2016

segunda-feira, 13 de maio de 2024

As palavras de Manoel de Andrade


ECCE HOMO (*)

Levam ao Sinédrio o humilde nazareno
para que se julgue o amor e a inocência
e diante da judaica prepotência
o Mestre se mantém doce e sereno.

Por ser blasfemador é réu de morte
diz Caifás com desprezo ao acusado
e depois de cuspido e maltratado
aos romanos entregam a sua sorte.

No pátio do palácio a massa se aglutina
e um prenúncio sinistro percorre a multidão
traído e abandonado à própria provação
aguarda o prisioneiro a sua sina.

– É um visionário, um sonhador somente
– e me comove sua mansidão, sua pobreza...
diz Pilatos..., convicto da certeza
de estar frente a um homem inocente.

Diante da injustiça e do impasse
transfere a Antipas a sentença
mas o tetrarca devolve-lhe a presença
com os espinhos ensanguentando a face.

Coberto com o manto da ironia
e como cetro uma cana retorcida
nessa imagem de realeza escarnecida
trazem novamente o Rabi à pretoria.

Tenta Pilatos um último artifício
para acalmar a plebe alucinada
e espera que a espádua açoitada
salve o Galileu do sacrifício.

Rasga-lhe a carne o látego cruel
e nem um murmúrio de dor ante o flagelo
envilecido e ultrajado, invencível e belo
cumpre a Trágica Figura o seu papel.

Mas ainda assim a turba em desatino
exige que a condenação seja mantida
e Pilatos propõe à massa ensandecida
que delibere sobre o seu destino.

Diante do pretório e amotinado
o povo absolve Barrabás
e movido pelos asseclas de Caifás
exige o Galileu crucificado.

Ante a sentença e os gritos do estrupício
e entre a verdade e o interesse dos seus atos
lava as suas mãos Pôncio Pilatos
e entrega o Cordeiro ao sacrifício.

Na mais ingrata e suprema solidão
maltrapilho, descalço e abatido
para o meio da escória é conduzido
sob o escárnio cruel da multidão.

Passos cambaleantes, dor, delírio
toda a ignomínia no símbolo da cruz
o madeiro infame nos ombros de Jesus
e o lancinante caminho do martírio.

Ergue-se o holocausto ao amor crucificado
na dor que esmaga, na sede insaciável
no estóico silêncio, no deboche intolerável
no lento suplício de um homem sem pecado.

E na agonia do Calvário, rumo à glória
roga a Deus perdão para os algozes
por tanto amor recebe os golpes mais atrozes
e o julgamento mais iníquo da história.
                      Curitiba, 26.02.04
Manoel de Andrade, in Cantares, Escrituras Editora, São Paulo, Brasil, 2007, pp.94,95,96

(*) “Eis o homem” - Palavras de Pilatos ao apresentar Jesus aos judeus

Prece de gratidão

Eu te agradeço, Senhor,
ser filho do Teu amor
e herdeiro do Universo.
Ser cantor dessa beleza,
ter um lugar nessa mesa,
pelo sabor do meu verso.

Senhor, muito obrigado,
pelos pais bons e honrados
e pelas lições da pobreza.
Pelo café com farinha,
por tudo que eu não tinha
e que fez minha riqueza

Pelo meu corpo perfeito,
pela poesia em meu peito
e os anos da minha idade.
Por todo dever cumprido,
pelo amparo recebido
e o céu da imortalidade.

Eu Te agradeço também
pela semente do bem
plantada no meu pomar.
Pela doçura desse fruto
não ter me tornado um bruto 
e ter aprendido a amar.

Pela água da minha fonte,
pela linha do horizonte
e um sonho de marinheiro.
Pelo meu mar de criança
e o meu barco de esperança
percorrendo o mundo inteiro.

Pelo pão, pelo abrigo,
pelo abraço do amigo,
por Teu carinho invisível.
Agradeço-Te com veemência
esta paz na consciência
e a minha fé invencível.

Pela luz que me ilumina
desde a antiga Palestina
na alegria e na dor.
Por quem sou, pelo que sei,
por Moisés trazendo a Lei,
por Jesus trazendo o amor.

Senhor, eu Te agradeço
pela dor e o tropeço
quando ensinam uma lição.
Ninguém paga sem dever
e a Lei obriga a colher
o efeito da nossa ação.

Pela sapiência contida
no pergaminho da vida,
na magia e na razão.
Agradeço-Te a minha parte,
pela ciência, pela arte
e pela Grécia de Platão.

Por Cabral no rumo certo,
pelo Brasil descoberto,
pela pátria e o cidadão.
Pelo herói da Inconfidência,
o Grito da Independência
e a bênção da Abolição.

Pelas lições da História,
pelo povo e a sua glória
na busca da liberdade.
E pela Humanidade inteira,
quando erguer sua bandeira
pela paz e a verdade.

Grato sou por ter um sonho,
sonhar com um mundo risonho
numa paz contagiante.
Ver este Brasil fecundo,
como o coração do mundo,
em um porvir deslumbrante

Agradeço o bom combate,
e ter encarado esse embate,
com o coração despojado.
Com Tua luz nos meus passos,
a fraternidade em meus braços
e o meu sonho preservado.

Contigo, Senhor, sou forte,
tenho um fanal, tenho um norte:
amor, sensibilidade.
Eu moro na melodia,
na música, na poesia
e no farol da verdade.

Muito obrigado, Senhor
pelo trabalho e o suor,
pelo que dei e recebi.
Quando chegar meu momento,
se eu tiver merecimento,
me leva pra junto de Ti.
                                      Curitiba, Dezembro de 2002

Manoel de Andrade, in  As palavras no Espelho, Editora Escrituras, São Paulo, Brasil, 2018, pp. 255-258

domingo, 12 de maio de 2024

Ao Domingo Há Música

(...)
Caminhei, brumas densas, atraquei
Num mar suspenso, terno, fico aqui
Tenho a lua cheia no meu colo
E nos braços, as rosas que te dei
Tenho a lua cheia no meu peito
E nos braços, as rosas que te dei

Que o amor te ilumine os passos
Que as rosas que te dei
Perfumem os teus braços
Foste acaso, foste rei
Por ti rasguei ribeiros
Foi por ti que amei inteira
Tanta água e tanta vez

Foste acaso, foste rei
Por ti rasguei ribeiros.
Mila Dores

É assim o amor. Leva onde nunca se foi . É Lua. É  Sol.  Estrela que norteia, mar que afaga, rosa que perfuma, sorriso que luz.
É crepúsculo no ocaso , raiar na madrugada. De tudo se enche , de nada se suspende. 
São dias. São noites.
Cantado, sonhado, o amor é a vida, a imortal saudade de Futuro.
Em Portugal, há quem o cante na justa medida.
Eis algumas vozes femininas que encontraram, no Fado, a expressão exacta desse sentir que vem da alma.

Sara Correia, em Madrugou, acompanhada à  Guitarra Portuguesa por Ângelo Freire. O Fado é de Mila Dores  (Música e Letra). Produção: Diogo Clemente. Gravação: Diogo Clemente. Mistura: Diogo Clemente, Ivo Costa. Masterização: Nelson Canoa nos Canoa Estúdios.VÍDEO. Realização: João Pedro Moreira. Meios técnicos: ZOF Direção de arte: Carlota Sempere MUA: Ana Rita Costa Pereira. Stylist: Ana Fontinha. Assistente de Styling: Madalena Café. Fotografia: Rita Seixas .

   

Inês de Vasconcellos, em Fado das Amarguras , ( Poema de Vasco Graça Moura e Música de Rogério Charraz).  Acompanhada por : Guitarra portuguesa : Luís Guerreiro. Viola de fado: Bernardo Viana. Baixo português: Ricardo Cruz.
Produzido por Ricardo Cruz. Gravado na  Casa Agrícola da Levada e nos Estúdios Pé de Vento. Misturado e masterizado por Fernando Nunes.
 
Triste e só anda meu coração Como anda a folha perdida no vento Procuro a luz nesta escuridão Procuro a luz no pensamento Busco a perdida oração Que minha mãe me ensinou Quero gritar a verdade Quero gritar a verdade Mas o vento me calou Pareço a madrugada molhada e fria Que vagueia como louca pela cidade Nada me aquece a alma vazia Estou sem tempo mas com idade Busco a perdida oração Que minha mãe me ensinou Quero gritar a verdade Quero gritar a verdade
Mas o vento me calou

Mariza , em  Oração [ Official Music Video ], canção com Letra de Mariza e Música de Tiago Machado.o
 
Cuca Roseta e Daniel Casares,  em  "LA LA LA (Disco RAYANA) .
Cuca Roseta (Voz) Daniel Casares (guitarra clássica) Video por André Tentugal. Gravado em 10.05.2023, em Cascais.
Disco "Rayana" é uma homenagem a Massiel, Ramón Arcusa e Manuel de la Calva.
  
Gisela João , em  Tempestade, no palco de Confessions.
"Não é fadista quem quer, mas sim quem nasceu fadista." São as últimas palavras da última música do seu primeiro disco e as que melhor descrevem Gisela João." 

sábado, 11 de maio de 2024

TARASS BULBA

TARASS BULBA
por  Nikolai Gógol
I
 
“— Ora vira‑te para cá, filho! Que cómico que tu estás! Que sotainas de padre são essas que vocês trazem? É assim que andam todos lá na academia?
Foi com estas palavras que o velho Bulba recebeu os dois filhos, que haviam estudado no seminário em Kiev e que voltavam para casa do pai. Os filhos acabavam de desmontar dos cavalos. Eram dois jovens alentados, que ainda olhavam de soslaio, como dois seminaristas acabados de formar. Os seus rostos vigorosos, saudáveis, estavam cobertos das primeiras penugens da barba, ainda não tocadas pela navalha de barbear. Muito embaraçados por serem recebidos desta maneira pelo pai, mantinham‑se imóveis, de olhos pregados no chão.
— Deixem‑se estar, deixem‑se estar! Deixem‑me olhar bem para vocês — continuou o velho, virando‑os. — Que longas sotainas! Que sotainas! Pensei que não existiam sotainas como essas neste mundo. Estou a olhar, a ver se elas não vos caem, se não se arrastam pelo chão.
— Não te rias, não te rias, paizinho! — disse, por fim, o mais velho dos dois.
— Olha tu, que pomposo! Porque é que não hei de rir?
— Porque, embora sejas meu pai, se te ris de mim, palavra que te bato!
— Ai, que filho me saíste! Como assim, bater no teu pai? — disse Tarass Bulba, recuando alguns passos, surpreendido.
— Ainda que sejas meu pai. Por uma ofensa, não olho nem respeito ninguém.
 — E como é que tu queres lutar comigo, com os punhos? — De qualquer maneira. — Bem, pois seja com os punhos! — replicou Tarass Bulba arregaçando as mangas. — A ver que homem és tu com os punhos.
E pai e filho, ao fim de uma longa separação, em vez de se saudarem, puseram‑se a desferir murros um no outro, nos flancos, na cintura e no peito, ora recuando e observando, ora voltando a atacar.
— Vejam, boa gente. O velho endoideceu! Perdeu completamente o juízo! — dizia a mãe, pálida, magra e bondosa, de pé à porta de casa, que nem conseguira abraçar os seus filhos. — Vêm os filhos para casa, não os víamos há mais de um ano, e ele deu‑ ‑lhe para fazer sabe‑se lá o quê: lutar aos murros.
 - Mas ele luta muito bem! — dizia Bulba. — Muito bem, palavra! — continuou, recompondo‑se um pouco e parando. — De tal maneira que o melhor é não experimentar! Vai ser um bom cossaco! Ora muito bem, filho! Beijemo‑nos! — E o pai e o filho trocaram beijos. — Muito bem, meu filho! É assim que deves bater a qualquer um, como me surraste. Não desculpes ninguém! Em todo o caso, tens uma vestimenta ridícula: que corda é essa aí pendurada? E tu, palerma, para que estás aí parado, de braços caídos? — disse ele, dirigindo‑se ao filho mais novo. — Filho de um cão, não me dás uns murros?
— Vejam só do que mais se havia de lembrar! — dizia a mãe, que, entretanto, abraçava o mais novo. — Que o filho batesse no pai. Ao que isto chegou agora, que um filho jovem, cansado depois de percorrer um tão longo caminho… (este filho tinha um pouco mais de vinte anos e apenas uma braça de altura), o que precisava agora era de dormir e comer alguma coisa, e ele obriga‑o a lutar!
— Ei, mas, ao que vejo, tu és um maricas! — disse Bulba. — Não dês ouvidos ao que a tua mãe diz, filho: ela é mulher, não sabe nada. De que carinho é que vocês precisam? O vosso carinho é um campo aberto e um cavalo: esse é que é o vosso carinho! E estão a ver esta espada? Esta é a vossa mãe! E isso com que vos enchem a cabeça, são disparates: as academias, e todos esses livros, essas cartilhas, e as filosofias, tudo é lixo! Isso não me podia interessar menos! — Neste momento, Bulba soltou uma palavra que nem se deve pôr por escrito. — O melhor é que já na próxima semana eu vos mande para Zaporójie. Ali é que está a ciência. Essa é que é a vossa escola; só ali vocês ganharão juízo.
 — E vão ficar em casa só uma semana? — disse a velha mãe, lamentosa, com as lágrimas nos olhos. — Nem têm tempo para se divertir um pouco, nem para conhecer a casa paterna, nem eu tenho tempo para olhar bem para eles!
- Chega de gemer, velha, já chega! Um cossaco não é para andar atrás das mulheres. Tu querias era escondê‑los aos dois debaixo da saia e ficar sentada em cima deles, como a galinha em cima dos ovos. Anda lá, anda lá, vai‑nos pôr a mesa com tudo o que temos. Não precisamos de filhós, nem de bolos de mel, de papoila ou outras delicadezas; traz‑nos carneiro e hidromel! E vodca com fartura, não poupar na vodca, mas de branca espuma, para que espumeje e fervilhe como doida.
Bulba conduziu os filhos para a sala de visitas, de onde saíram a correr duas bonitas criadas, vestidas de vermelho, que estavam a arrumar as salas. Pelos vistos, assustaram‑se com a chegada dos jovens senhores, não gostavam de deixar entrar ninguém, ou simplesmente queriam manter o seu costume feminino: gritar e fugir à pressa, ao ver um homem, e depois ficarem longamente a espreitar, cobrindo‑se com a manga do vestido. A saleta estava decorada ao gosto daquela época — de que restam vivos indícios apenas nas canções e nas baladas populares, que já não são cantadas na Ucrânia por velhos barbudos e cegos, acompanhadas por uma bandurra dedilhada, diante do povo em redor — ao gosto daqueles tempos guerreiros, difíceis, em que começaram a desencadear‑se na Ucrânia as pelejas e batalhas pela união*. Tudo era limpo, pintado em cores claras. Nas paredes havia espadas, látegos, redes para pássaros, redes para pesca, espingardas, um chifre muito bem preparado para a pólvora, um freio dourado para o cavalo e peias com chapas de prata. As janelas da sala eram pequenas, com vidraças redondas e baças, como as que hoje só se encontram nas velhas igrejas e através das quais só era possível olhar soerguendo os vidros móveis. Em torno das janelas e das portas havia faixas vermelhas pintadas. E sobre as prateleiras, aos cantos, jarras, garrafas e frascos de vidro verde e azul, taças de prata lavrada, cálices dourados de toda a espécie: venezianos, turcos, circassianos, que foram parar à sala de Bulba de maneiras várias, através de segundas, terceiras e quartas mãos, o que era habitual naqueles tempos distantes. Havia bancos de entrecasca de bétula a toda a volta da sala; ao canto anterior, uma mesa respeitável sob os ícones; um grande fogão, decorado com azulejos de padrões multicores em relevo. Tudo isto era muito bem conhecido dos dois jovens, acostumados a voltar a casa todos os anos nas férias escolares, a pé, porque ainda não tinham cavalos e porque habitualmente não era permitido aos alunos viajarem a cavalo. Tinham apenas longas madeixas, pelas quais qualquer cossaco armado lhes podia puxar. Só quando eles terminaram o curso, Bulba lhes enviou da sua manada uma parelha de jovens garanhões.
Para festejar o regresso dos filhos, Bulba mandou reunir todo o esquadrão e todos os graduados do regimento que estivessem disponíveis, e quando chegaram dois deles com o capitão Dmitro Tovkatch, seu velho camarada, apresentou‑lhe de imediato os filhos, dizendo «Ora vejam, que rapagões! Vou mandá‑los à Sietch**, não tarda nada». Os convidados deram os parabéns a Bulba e aos dois jovens e disseram‑lhes que essa era uma boa decisão, e que não havia melhor ciência para um jovem do que a fortaleza de Zaporójie.
— Ora bem, meus senhores e irmãos, sentai‑vos à mesa, cada qual onde achar melhor. Bem, filhos! Antes de mais nada, bebamos uma pinga de vodca! — disse Bulba. — Deus nos abençoe! Saúde, meus filhos: tu, Ostap, e tu, Andrei! Deus permita que sejam sempre bem‑sucedidos na guerra! Que derrotem sempre os infiéis, os turcos e os tártaros, quando eles começarem a tramar ações contra a nossa fé. Vá, ergue o teu cálice; que tal, é uma boa vodca? E como se diz vodca em latim? Ora bem, os latinos eram uns tolos: nem sabiam que havia vodca no mundo. Como é que se chamava aquele que escrevia versos em latim? Eu não sou lá muito letrado, por isso não sei: Horácio, não era?
 «Vejam como é o pai!», pensou para consigo o filho mais velho, Ostap. «Sabe tudo, o velho cão, e ainda se finge ignorante.»
 — Penso que o arquimandrita não vos dava vodca nem a cheirar — confirmou Tarass. — Mas confessem, filhos, que vos açoitaram bem com varas de bétula e de ginjeira nas costas e em tudo o que um cossaco tem. Ou talvez, quando se tornaram demasiado espertos, vos tenham surrado com o látego; provavelmente, não apenas aos sábados, mas também às quartas e quintas‑feiras?
 — Não há nada para lembrar, paizinho — respondeu Ostap. — O que houve já passou!
— Que experimentem agora — disse Andrei, que alguém tente agora experimentar; que algum tártaro experimente agora, e ficará a saber o que é um sabre cossaco!
 — Está bem, filho! Muito bem, palavra! Mas quando chegarmos a isso, eu próprio irei convosco! Palavra que vou. De que diabo fico eu aqui à espera? Havia de ficar para aqui como um agricultor, a olhar pela casa e cuidar das ovelhas e dos porcos e atrás das saias da mulher? Que vão para o diabo: eu sou um cossaco, não quero isso! E o que tem que não haja guerra? Vou com vocês para Zaporójie, dar um passeio; palavra que vou! — E o velho Bulba excitou‑se pouco a pouco, excitou‑se, e finalmente irritou‑se por completo, levantou‑se da mesa e, armado em valente, bateu o pé. — Amanhã mesmo partimos! Porquê adiar? De que inimigo podemos ficar aqui à espera? Para que precisamos desta cabana? Para que queremos tudo isto? Para que queremos estes potes? — Dizendo estas palavras, começou a arremessar e a quebrar os vasos e as garrafas.
A pobre velha, já acostumada a tais procedimentos do marido, olhava com tristeza, sentada num banco. Não se atreveria a dizer nada; mas, ao ouvir aquela horrível decisão, não pôde conter as lágrimas; olhou para os seus filhos, com os quais a ameaçava uma tão rápida separação — e ninguém poderia descrever a força silenciosa da sua amargura que parecia palpitar‑lhe nos olhos e nos lábios, convulsivamente cerrados.
Horrivelmente teimoso, Bulba tinha um daqueles caracteres que só podiam surgir no difícil século XV, em algum recanto meio selvagem da Europa, quando toda a Rússia meridional primitiva, abandonada pelos seus príncipes, estava devastada, completamente assolada pelas constantes incursões dos rapinantes mongóis; quando, privado de casa e de teto, o homem se ergueu aqui intrépido; quando na terra queimada, à vista dos vizinhos ameaçadores e ao perigo eterno, ele se estabeleceu e se habituou a olhá‑los a direito nos olhos, se desacostumou de querer saber se existe algum medo neste mundo; quando, como uma chama guerreira, alastrou o espírito eslavo do mundo antigo e se organizaram os cossacos, esse modo generoso e desenfreado da natureza russa, e quando todos os vales, todas as passagens, todas as zonas ribeirinhas e todos os lugares propícios ao povoamento se cobriram de cossacos, cujo número ninguém conhecia, e os seus camaradas audaciosos se sentiram no direito de responder ao sultão, que quis saber o número deles: «Quem é que sabe?! Estamos espalhados por toda a estepe: em cada cabeço, há um cossaco». E era de facto uma manifestação invulgar da força russa: a pederneira das desgraças fê‑la eclodir no peito do povo. “
Nikolai Gógol , in TARASS BULBA, Relógio D’Água Editores, Março de 2024, pp.7-12
 
* Os polacos pretendiam unificar as igrejas católica e ortodoxa, com predomínio dos católicos e obediência ao Vaticano. (N. T.)
** Sietch (Sietch de Zaporójie): Organização dos cossacos da Ucrânia nos séculos XVI - XVIII . Até 1654 assumiu a designação de «república», dirigida por uma assembleia (Rada) e por um atamane. (N. T.)

Sobre o Livro:
TARASS BULBA, de  Nikolai Gógol
Tradução (do russo) de António Pescada.
"Tarass Bulba descreve a vida de um antigo cossaco de Zaporójie, Tarass Bulba, e dos seus dois filhos, Andrei e Ostap. Os filhos, que estudam na academia de Kiev, regressam a casa, de onde os três homens partem numa jornada para a Sietch de Zaporójie (a sede dos cossacos de Zaporójie, localizada no sul da Ucrânia), onde se juntam a outros cossacos e vão para a guerra contra a Polónia.
A personagem principal é baseada em várias personalidades históricas, e o enredo pode ser entendido no contexto do movimento de nacionalismo romântico na literatura, que se desenvolveu em torno de uma cultura étnica histórica.
«Um dos dez melhores livros de todos os tempos.» [Ernest Hemingway]"
Autor: Nikolai Gógol 
Editora: Relógio D’Água
Data de publicação: 18/03/2024
Nº de páginas: 160
Acabamento: capa mole
Peso: 256 gramas
Preço: 17,00€-15,30€
Sobre o autor:
"Nikolai Gógol nasceu em 1809, na cidade de Sorotchintzii, situada na Pequena Rússia, atual Ucrânia. Estudou no Liceu Nejin. O pai, proprietário de terras, faleceu quando ele tinha dezasseis anos.
Em 1828, partiu para São Petersburgo. Segundo uma das lendas, que ele próprio criou, a primeira coisa que fez ao chegar à cidade foi visitar Púchkin. Ao certo sabe-se que gastou cerca de 350 rublos em roupas novas, deambulou em busca de emprego e publicou dois poemas que escrevera dois anos antes. Hanz Kuechelgarten foi recebido com silêncio apenas interrompido por uma impiedosa crítica no Telégrafo de Moscovo. Gógol e o seu criado foram às livrarias comprar todos os exemplares disponíveis e queimaram-nos.
Em agosto desse ano, Gógol viajou pelo norte da Alemanha, de onde regressou em finais de setembro para ingressar na função pública.
No início de 1830, publicou o seu primeiro conto, com a assinatura «OOOO».
Em 1834, com o apoio de alguns amigos literários, é nomeado professor assistente de História Mundial da Universidade de São Petersburgo, matéria em que era bastante ignorante. Em 1835, publicou dois volumes de contos com o título Mirgorod e Tarass Bulba.
É nessa época que escreve O Nariz, a história dum infeliz cujo nariz se separou dele. É também nesse período que escreve O Inspetor-Geral, cuja representação em 1836 foi autorizada por Nicolau I, sendo ainda hoje considerada por alguns a maior peça de teatro escrita em russo.
Em junho de 1836, Gógol parte para o estrangeiro, onde viverá até 1848, regressando à Rússia apenas por breves períodos.
É já na Suíça, em outubro de 1836, que começa a Primeira Parte de Almas Mortas, que continuará nos anos seguintes, em Paris. Em 1837 e 1838, está em Roma, onde conclui O Capote. Em 1842, publica a Primeira Parte de Almas Mortas (da Segunda Parte apenas deixou os primeiros capítulos).
Entre 1842 e 1848, viaja de um lado para o outro à procura de inspiração e saúde. Depois regressa a Moscovo, Odessa, Vassilevka e, em 1852, novamente a Moscovo, onde acaba por falecer.
Como escreve Nabokov, «Nikolai Gógol, o mais estranho poeta prosador que jamais produziu a Rússia, morreu numa quinta-feira de manhã, um pouco antes das oito horas, a 4 de março de 1852, em Moscovo. […] O esgotamento físico total resultante duma greve de fome voluntária (com a qual a sua melancolia mórbida tentara opor-se aos desígnios do Diabo) culminou numa anemia aguda do cérebro (associada, provavelmente, a uma gastroenterite devida à inanição), e o tratamento de purgas e sangrias vigorosas a que foi submetido apressou a morte dum organismo já gravemente diminuído pelas sequelas da malária e da má alimentação».