quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Há dias

Há dias

Há dias que não sabemos como serão. O Sol nasce porque a Lua desapareceu. A noite acaba porque a alvorada  o impõe. A luz brilha porque as trevas se extinguiram.

E, então, as horas sucedem-se e o dia cresce. O Mar, os rios mergulham em movimento e a terra organiza-se em tempo e espaço. E é nesse entretanto que saímos na perplexidade do  acontecer.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Sobre o argumento de autoridade


SOBRE O ARGUMENTO DE AUTORIDADE
por Eugénio Lisboa

A verdade é filha do tempo,

não da autoridade.

Galileu Galilei

 

Quem discute, alegando autoridade,

não usa a inteligência mas sim a memória.

Leonardo da Vinci


“ É muito frequente, ao discutir-se um problema qualquer, um dos participantes, provavelmente com a melhor boa fé do mundo, tentar demolir o argumento do seu interlocutor, atirando para cima do debate com a opinião de uma “autorizada” e prestigiada figura que, nessa mesma área do conhecimento, parece abonar a sua própria opinião. É sempre uma tentação perseguir esse método aparentemente imbatível e demolidor. Será uma ardilosa artimanha, mas há muito que a lógica e o método científico moderno enviaram para a sucata este tipo de argumentação. Por muito tempo, ao longo de séculos, em vez de se observar e voltar a observar e se tentar verificar, contraditoriamente, um fenómeno qualquer, preferia-se consultar o parecer de uma antiga e muito venerada autoridade, como, por exemplo, Aristóteles, para este “certificar” uma falsa verdade. Foi preciso Galileu demonstrar, pelo método experimental, que corpos, de pesos diferentes, caem exactamente com a mesma aceleração, para se verificar que a asserção de Aristóteles, segundo a qual, eles cairiam com acelerações diferentes, estava errada e errada viveu inúmeros séculos. O argumento da autoridade ruiu estrondosamente e ainda hoje se ouve o barulho que isso fez. De resto, basta pensar um bocadinho. Se, sobre um mesmo assunto, duas autoridades igualmente prestigiadas tiverem opiniões opostas (acontece todos os dias), como escolher o parecer “autorizado”? Poderia dar inúmeros exemplos históricos, mas vou dar este. Em tempos, a muito prestigiada universidade de Harvard, depois de um estudo prolongado e feito por grandes especialistas, concluiu que a pena de morte provocava uma diminuição da espécie de crime que essa pena contemplava. Mas acontece que um estudo semelhante da prestigiadíssima universidade de Stanford chegou à conclusão diametralmente oposta. Os crentes no argumento de autoridade qual das duas conclusões aceitariam como boa? No campo da investigação científica, os exemplos abundam. Dois grandes inventores e responsáveis por inúmeras patentes no campo da electricidade, Edison e Tesla, tinham certezas diametralmente opostas em algumas coisas. Por exemplo, Tesla, um engenheiro electrotécnico, deu enorme contribuição no campo do transporte de energia eléctrica por corrente alterna, entre outras muitas coisas que fez. Já Edison, o grande inventor com mais do que mil patentes registadas, tinha a “autorizada” opinião de que a corrente alterna não tinha qualquer futuro. Para desacreditar Tesla e, abusando da sua enorme influência junto dos políticos, convenceu que se executasse um preso condenado à morte, usando-se a corrente alterna. Os carrascos, pouco calhados no uso daquela corrente, permitiram que a tensão eléctrica caísse drasticamente, de tal modo que o condenado, em vez de uma morte rápida, foi sendo “fritado” lentamente, com enorme sofrimento e emitindo um pavoroso cheiro a carne grelhada, além dos gritos pavorosos que foi emitindo… Edison ficou contentíssimo com a repercussão que esta ignomínia teve na imprensa. Aqui está um clamoroso desmentido do valor argumento de autoridade. De resto, uma consulta minuciosa mostrar-nos-á as enormidades que os cientistas, ao longo dos tempos, têm dito uns dos outros. O Professor de Física J. Le Roux, da universidade de Rennes, dizia, em 1923, este mimo sobre a teoria da Relatividade de Einstein: “Não é uma doutrina científica, é, antes, uma espécie de misticismo bizarro, quase uma religião nova de que Einstein é o profeta (…)”. Lá se vai o argumento de autoridade… E não só na ciência. O maior crítico francês do século XIX, Sainte-Beuve, disse as maiores barbaridades sobre gigantes como Balzac, Stendhal e outros. Ferdinand Brunetière, egrégio Professor de Literatura da eminentíssima École Normale Supérieure, editor principal da Revue des Deux Mondes, membro da Academia Francesa, galardoado com a Legião de Honra e eminência da crítica e do ensaísmo francês, disse barbaridades sobre Baudelaire, o mesmo tendo feito o não menos eminente Émile Faguet. O físico e astrónomo francês, François Arago, que chegou a ser primeiro ministro, desaconselhava o uso dos caminhos de ferro, como meio de transporte, porque as pessoas se arriscavam a contrair “fluxões” e pleurisias… O grande Lumière, pioneiro do cinema mudo, em que foi singular criador, não antevia qualquer futuro para o cinema falado.
Para os teimosos utentes do argumento de autoridade, deixo-lhes aqui esta pérola do autor da Teoria da Relatividade: “Para me punir pelo meu desprezo pela autoridade, o destino fez de mim mesmo uma autoridade.”
Um esclarecimento final: o signatário deste artigo é muitas vezes acusado de recorrer muitas vezes a citações de outros autores. Ora faço-o, não como uma invocação de autoridade, mas como formulações mais perfeitas dos meus próprios pensamentos e sempre convencido de que tanto eu como eles podemos estar errados.”
Eugénio Lisboa, 11.01.2022

Viagens: Colonia del Sacramento











Colónia do Sacramento
por Jorge Luis Borges
"Também por aqui andou a guerra. Escrevo «também» porque a frase pode aplicar-se a quase todos os lugares do orbe. Que o homem mate o homem é um dos hábitos mais antigos da nossa singular espécie, tal como a gestação ou os sonhos.  Aqui, do outro lado do mar, projectou-se  a vasta sombra de Aljubarrota e desses reis que são agora pó. Aqui lutaram os castelhanos contra os portugueses, que assumiram depois outros nomes.  Sei que, durante a guerra do Brasil, um dos meus antepassados sitiou esta praça.
Aqui sentimos de forma inequívoca a presença do tempo, tão rara nestas latitudes. Nas muralhas e nas casas  está o passado, sabor que se agradece na América. Não precisamos de datas nem de nomes próprios, basta o que imediatamente sentimos, como de música se tratasse."
Jorge Luís Borges, in Atlas, Quetzal  Editores, 2018, p.107








































"A história de Colonia del Sacramento, no Uruguai, é a história de um conflito entre Portugal e Espanha. A disputa por essas terras está marcada em cada telhado, em cada muro e em cada pedaço da cidade. Actualmente, a influência arquitectónica portuguesa predomina entre as construções e ruínas remanescentes dos primórdios desse recanto às margens do Rio da Prata. Mas o que se vê é apenas o que restou. No entanto , Colonia, a cidade mais antiga do país, é a que melhor conserva os seus monumentos históricos, alguns em pé desde o século XVII. Actualmente,  faz parte do  Património Histórico da Humanidade. 
A península de San Gabriel, sobre a qual se elevou a cidade, era um ponto estratégico já que desde ali se podia  exercer o controle sobre as entradas dos Rios Uruguay e Paraná. Portugal queria um porto para facilitar o comércio na região e estabelecer um ponto estratégico para fins bélicos, contra a Espanha. A mando da coroa portuguesa, a frota de Manuel Lobo, Governador de Rio de Janeiro, partiu no fim de 1679 e alcançou a bacia do Prata em Janeiro do ano seguinte. No dia 22 de Janeiro de 1680, os portugueses ancoraram e fundaram Colónia do Santíssimo Sacramento, mesmo em frente a Buenos Aires ,na margem oposta do rio. Foi a primeira colónia portuguesa da região, que deu à cidade um caráter singular entre as cidades de Río de la Plata, tanto no seu desenho como na  sua arquitetura.
A conquista portuguesa não durou muito tempo. Na madrugada do dia 7 para o dia 8 de Agosto do mesmo ano, tropas espanholas e indígenas invadiram, destruíram e tomaram a cidade. Após negociações, a posse de Colonia foi devolvida a Portugal pelo Tratado Provisional de Lisboa (7 de Maio de 1681). Portugal não poderia, no entanto, construir novas fortalezas e edifícios de pedra, que caracterizariam ocupação permanente. Em 1683, os lusitanos voltaram para Colónia. Houve então um período de grande reconstrução e mobilização de esforços para o povoamento e desenvolvimento da cidade. Até 1705, quando a Espanha voltou a atacar – e vencer. A cidade permaneceu desocupada durante 10 anos. Portugal só retornou Colónia em 1715, sob novo tratado diplomático, o Tratado de Utrecht, de 6 de Fevereiro de 1715. Ele previa que os portugueses não teriam permissão de ampliar os limites da cidade além do alcance de um tiro de canhão disparado dos muros da fortaleza.
Mais um período de reconstrução em Colónia: 1715 a 1735. Nessa época, a cidade se transformou em grande exportadora de couros, suprindo toda a demanda de Lisboa. E provocou novamente o desejo da Espanha, que voltou à carga em Outubro de 1735. Os espanhóis cercaram a cidade e batalharam durante dois anos, até que um armistício foi assinado. O sítio a Colónia foi tão intenso, que boa parte da cidade ficou destruída. Por isso, os portugueses optaram pela demolição e reconstrução completa da cidade. O trabalho mal havia terminado, em 1777, quando os espanhóis, liderados por Pedro Ceballos, invadiram novamente. Todas as fortificações e grande parte das construções foram destruídas.
Colonia del Sacramento voltou ao domínio de Portugal em 1817, com a incorporação de Cisplatina, (região que actualmente corresponde ao Uruguai), ordenada por D. João VI. Após a independência do Brasil, em 1822, o Uruguai (e consequentemente Colonia) passou a fazer parte do novo país - o Brasil. Seis anos depois, a República Oriental do Uruguai também ganhou a independência (e aí cessou a troca de governo e comando de Colonia)."

domingo, 9 de janeiro de 2022

Ao Domingo Há Música



Todos os dias fica um pouco
menos , mas com
as palavras acrescento mais.
          Maria Teresa Horta

 

O tempo passa na sua volatilidade imparável. Acrescenta dias , meses , anos à nossa vida. Poucos são glória, outros passagem e muitos somos nós apenas a viver cada dia . E a vida corre e leva-nos para onde nos deixamos ir. Acabamos por ser movimento. E é nesse movimento que entra o que nos acrescenta , o que nos empurra. Se por vezes, é apenas a força de viver, há dias que a música nos alimenta de tudo o que nos faz falta: magia, emoção,  sonho, esperança. 
Que seja um desses dias. 

Do compositor Jo Blankenburg, a magnífica peça musical The Architects of Cronos, do Álbum Cronos.