domingo, 14 de novembro de 2021

Ao Domingo Há Música


Petit Art Poètique
De la musique avant toute chose,
disait le poète Verlaine.
Donc le poète propose
des vers que dance Carmen!
13.11.2021
Eugénio Lisboa 

A Música . O domingo não se desenha sem que chegue. Há quem nunca  deixe de  a reclamar avant tout, diz o poeta. E quando se faz ouvir , tudo passa a pertencer-lhe. E se é Mozart, o domínio  é total.
A soprano Sabine Devieilhe, numa extraordinária interpretação da Ária  Vorrei spiegarvi, oh Dio ,K. 418, de Amadeus Wolfgang Mozart, acompanhada  pela Orchestre de L'Opéra de Lyon, regida pelo Maestro  Daniele Rustioni,  no Lyon Recital - 2021.

WOLFGANG AMADEUS MOZART
Vorrei spiegarvi, oh Dio ,K. 418
"As árias de concerto para voz e acompanhamento orquestral constituem um capítulo importante e especialmente desconhecido da obra de Mozart. O compositor dedicou-se ao género desde a infância até o último ano de sua vida, deixando cerca de cinquenta títulos, entre os quais se encontram verdadeiras jóias do canto lírico.
Quando criança, Mozart compôs várias árias (a primeira, aos oito anos, em Londres) que lhe serviam tanto para se aperfeiçoar no ofício como para exibir seu talento, pois a facilidade do menino para adaptar a música aos Affekte (amor, raiva, ciúme…) de um texto poético era surpreendente. Escreveu também licenze, árias intercaladas a apresentações operísticas, com texto de louvor a uma pessoa ilustre da plateia, como o arcebispo de Salzburg.
As árias de concerto cumpriam funções diversas. Muitas eram concebidas para inserção em óperas de outros compositores, quando a ária original se mostrasse inadequada ao conjunto da obra ou às possibilidades de um determinado intérprete. Mozart escreveu árias para óperas de Cimarosa, Anfossi, Paisiello e Bianchi. Dificilmente ouvidas, hoje, em seu contexto original, essas árias, além do seu valor musical intrínseco, permitem uma abordagem das actividades operísticas sob um aspecto fascinante. Mozart escreveu a ária Vorrei spiegarvi para a apresentação vienense da ópera O curioso indiscreto, de Pasquale Anfossi, em 1783, quando o papel de Clorinda seria interpretado por sua cunhada, Aloisia Weber Lange. A cantora julgou dois números de Anfossi aquém de seus recursos e solicitou ao cunhado substituí-los por outros que mostrassem todas as possibilidades de sua voz extensa e delicada. Vorrei spiegarvi é uma ária extremamente difícil, com notas muito agudas em piano e, perto do final, um célebre e enorme salto do grave para o agudo. Divide-se em duas partes bastante distintas, cada uma com duas estrofes: no Adagio, o primeiro violino (com surdina), o oboé e o soprano alternam-se num diálogo comovente, sobre o acompanhamento das cordas em pizzicati. A segunda estrofe repete a primeira, mas tem sua cadência final modificada para introduzir o contrastante Allegro, no qual os violinos retiram a surdina."
Paulo Sérgio Malheiros dos Santos
Pianista, professor da Escola de Música da UEMG.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Inverno

INVERNO

O Inverno caminha devagar,
mas chega sempre ao seu destino:
Começa com a Primavera no ar
e a luz, cristalina como um sino.

Depois, veste-se de Verão que aquece
e põe os nossos demónios à solta,
mas o calor, por fim, desaparece
e um clima mais brando nos escolta.

Com melancolia e branda luz,
cai a folha, anunciando a morte
e dando ao chão multicolor capuz.

Se o calor da vida já fenece,
o Inverno é agora passaporte
para vida que por fim emudece.
                         11.11.2021
Eugénio Lisboa, ( Poesia inédita)

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Adeus às Armas


Adeus às armas
Um poderoso livro de Rui Teixeira:
O elogio da dureza
por Eugénio Lisboa

“Rui Teixeira, nascido em 1951, em Argivai, Póvoa de Varzim, abandonou os estudos universitários, que mal começara, e foi, aos vinte e dois anos, para Angola, como comando voluntário. A palavra “comando” era, por essa altura - agonia do Estado Novo – uma palavra pestiferada e, como tal, Rui Teixeira foi abundantemente vituperado pelos resistentes lusíadas residentes em Argel.
Leitor apaixonado de Camões e com infaustos fantasmas familiares, que não conseguira exorcizar, Rui Teixeira amava o conceito de império e de luta e partiu para a guerra, como quem busca uma solução para os demónios que o devoravam e lhe davam uma sede de aventura, que talvez beirasse um namoro com o suicídio, mas também com a liquidação de um adversário respeitado. Fê-lo também à boleia de um Hemingway, que leu com mão diurna e nocturna e outros que, tendo visto a guerra, por dentro, nos deixaram, depois, poderosos argumentos contra ela. Rui Teixeira, no seu poderoso romance autobiográfico – O ELOGIO DA DUREZA – não mente, não faz batota, não diz que foi para a guerra contra sua vontade e que até odiava o colonialismo. É isto que dá um particular e agudo significado a este pungente relato de uma aprendizagem. Não é um livro que sirva o simplismo dos a preto e branco. É, antes, um livro que rima com a condição humana, que é complexa, contraditória e perturbantemente rica. Não dá para juízos primários de leitores primários. Lembremo-nos de que o mesmo Montherlant, que adolescente, cantou liricamente, numa prosa soberba, a guerra, como território privilegiado da fraternidade e da luta que educa, deu-nos depois, implacável notícia do que ela realmente é: ”Nós amamos, nos animais, podermos matá-los, legalmente. Na guerra, também amamos poder matar legalmente. Bem entendido, os homens nunca o confessam.”
A diferença – de monta – é que Rui Teixeira – com uma coragem ímpar, confessa que partiu para a guerra, para convictamente matar e defender um império em que acreditava. Como diria Montherlant, não nos enterneçamos, mas também não ergamos já um dedo pedagógico e acusador. Montherlant trocou as voltas à interdição familiar para se ir juntar às trincheiras da morte, na carnificina de 1914 – 1918, antes que a idade a isso o obrigasse. Depois, contraditório, como são os homens, enviou o seu canto de louvor à guerra ao pacifista Romain Rolland, cuja coragem admirava, por defender, com risco de vida, que a paz prevalecesse contra a carnificina. Este, que tivera de se exilar para a Suíça, para que a sua impopular luta contra a guerra o não fizesse assassinar em França, saudou galhardamente a grandeza literária do jovem autor, apesar de, ideologicamente, se lhe opor. Há gente desta, capaz de não confundir pelouros e de encontrar um lugar onde se saudem, como adversários que se admiram e estimam. Aliás, Montherlant, como vimos, viria, com o tempo, a ver a guerra com outros olhos, bem como as touradas, que começara por venerar e praticar.
Rui Teixeira, apaixonado por grandes poetas, pelo império e por uma guerra que o defendesse e lhe permitisse, ao mesmo tempo, exorcizar demónios antigos, que o empurravam para a beira do abismo, partiu, no princípio de 1973, para Angola, apresentando, à superfície, o rosto do cavaleiro sans reproche.
Numa prosa descascada, enérgica e sem mentira, Rui Teixeira dá-nos destemidamente notícia das suas pulsões, sabendo muito bem o preço que por isso se paga. Talvez por isso este livro se destaca de muitos outros que a guerra colonial produziu: não há nele a mais pequena gota de política beata e facilmente premiável. O seu “franc parler” seria bem recebido por Stendhal. E é precisamente por este livro vir de quem vem, que esta lição de aprendizagem de vida nos parece tão poderosa e convincente.
Rui Teixeira, por cortesia do alferes Paulo, protagonista de O Elogio da Dureza, não nos presenteia com um sermão edificante sobre a descoberta dos malefícios do colonialismo e da guerra. Na boa esteira da narrativa moderna, cujos caminhos Hemingway desbravou como poucos, Rui Teixeira não gosta de pregar, prefere mostrar o que foi a guerra e o colonialismo. Em quadros curtos, sem ênfase, dá-nos a violência e o rosto sanguinário do combate, o encarquilhar obscenamente rápido do ser humano esvaziado de sangue, e, num episódio curto, situado em Luanda, num fim de semana de férias, Paulo depara, sempre sem ênfase, mas com uma inesperada e desorientadora iluminação, com o rosto verdadeiro do colonialismo. Para me não afundar em paráfrases ineptas, transcrevo literalmente a passagem do livro, que deveria ser antologiada para os livros das escolas e, no fim de contas, levada ao conhecimento de tantos leitores quantos possíveis: “Paulo descia [o passeio} e o homem preto subia. Ambos pelo mesmo passeio estreito. O preto tinha cerca de cinquenta anos, cabelo grisalho, fato coçado. Um ar sério, digno, de pequeno funcionário. Três ou quatro metros antes de se cruzarem, o homem olhou para Paulo, baixou os olhos, encurvou as costas e, automaticamente, desceu do passeio para Paulo poder passar à vontade. Baralhou-se a cabeça ao cadete. Caiu-lhe muito mal que um homem preto de meia idade se tivesse curvado, diminuindo-se, perante um jovem branco, perante si. Pela idade podia ser seu pai. Nenhum dos textos que tinha lido sobre o colonialismo teve em Paulo o mesmo impacto que esta cena muda numa rua de Luanda, em princípios de 1973. Tinha visto, sentido e percebido uma das faces do poliedro do Mal.” O apocalíptico cavaleiro da guerra e da morte e o defensor sanguíneo do império, entregava os trunfos todos, perante a humilhação inconcebível de um preto que poderia ser seu pai.
O resto do romance é a lenta mas profunda apreensão de que Paulo estava a travar uma guerra sem sentido e a desperdiçar os melhores anos da sua vida.
Ao fim de dois anos, Rui Teixeira regressou a Portugal, licenciou-se, doutorou-se sobre literatura da guerra colonial, especializou-se nessa área, conheceu o amor, de que estivera afastado, por feridas interiores que o tinham feito mergulhar em mitos de pés de barro, e julgo que aprendeu que pode haver verdadeira fraternidade, para além da fraternidade das armas, se é que esta não é também um mito demasiado celebrado. De todas as aprendizagens que fez, a talvez mais fecunda foi a do amor que encontrou, numa mulher rara, que foi uma docente emérita, que tive a felicidade de conhecer, porque, como leitora de português, em duas cidades europeias, por várias vezes me convidou para ir falar com os seus alunos. Foi, para mim, uma experiência inesquecível. Na contracapa deste romance de Rui Teixeira, aparece, como presença esfumada, mas intensa, o rosto admirável desta grande companheira do romancista. Mas, em lado nenhum se pode ver o seu nome, a não ser na dedicatória, onde uma delicada referência a uma Isabel, não chega a revelar a sua identidade. Eu escrevo-o, para que conste: Isabel Ravara. Obviamente, a Iza do romance.”
08.11.2021
Eugénio Lisboa

domingo, 7 de novembro de 2021

Ao Domingo Há Música

 

La bonne musique ne se trompe pas, et va droit au fond de l'âme chercher le chagrin qui nous dévore.
 Victor Hugo
L'amour de la musique mène toujours à la musique de l'amour.
Jacques Prévert 

A Música traz sempre aquilo que, no momento, nos faz falta :  nostalgia, saudade,  sonho,  alegria, amor ou  a felicidade de sentir a vida. Talvez tudo. Talvez muito. Talvez pouco.  Mas, e  apenas,   talvez o prazer do momento. É  assim a Música.

Lucie Silvas, em  Nothing Else Matters (Metallica) no Radio 2 concert (Studio 24, Hilversum Holland), acompanhada pela   Metropole Orchestra. Os autores desta canção, os Metallica, formaram-se como banda  em 1981. Nothing Else Matters foi publicada em 1991, há trinta anos.  
Lucie Silvas apresenta esta canção  em  diferente e talentosa versão.

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Ode ao Gato II

Ode ao Gato II

(A Ode ao Gato I foi escrita
por Pablo Neruda)

1

Os gatos não têm culpa
de nascerem tão perfeitos.
Para quê pedir desculpa?
Ser perfeito não é defeito.

2

Desenhou-os Leonardo,
nisso pondo grande empenho:
copiou o leopardo,
melhorando o desenho.

3

Não há maior ambição,
nesta vida, que ser gato,
mas, selectos, poucos são,
o resto é só candidato.

O4.11.2021

Eugénio Lisboa,
que dedica esta humilde mas sentida Ode aos milhões de admiradores do
bicho mais glorioso que a natureza produziu.

Que resta pois, Portugal?

 
Ler os clássicos é um slogan inteligente de quem sabe quão importante é essa leitura . E foi por o termos feito que, perante  a situação actual do nosso país, nos ocorreram algumas páginas  de Eça de Queiroz. Poderíamos citar outras e outros escritores.  No entanto, ficam estas  como  leitmotiv para  uma releitura pessoal que cada um possa fazer de outras fecundas e sábias páginas de clássicos que, por vezes, estão obscuramente  arredados  dos escaparates  das nossas Livrarias. 
A endemia é um mal que aflige Portugal . As crises sucedem-se e esse mal é nelas de uma cronicidade pura.

Novos Factores da Política Portuguesa
por Eça de Queiroz
III
" Assim viemos expondo , tais como  os compreendemos , os elementos da crise política  que se desenha, e que, nascendo da nossa crise crónica,  a crise económica, se vai ajuntar a ela ajudando a agravá-la por diversos modos.
A situação é esta.  Uma parte importante da Nação perdeu totalmente a fé ( com razão ou sem razão) no parlamentarismo, e nas classes governamentais ou burocráticas  que o encarnam; e tende, por um impulso que irresistivelmente a trabalha, a substitui-las por outra coisa,  que ela ainda não definiu bem a si própria. Qual poderá ser essa outra coisa? Que soluções se apresentam ?
(...) Que resta pois? Resta , como esperança, o sabermos  que as nações têm a vida dura, e que o nosso Portugal tem a vida duríssima. E se os que estão no poder porfiarem sempre em cometer a menor soma humanamente possível de erros  e realizar a maior soma humanamente possível  de acertos, muitos perigos podem ser conjurados e a hora má adiada. O interesse de quem tem o poder ( como dizia ultimamente, nestas mesmas páginas , tratando do Brasil, o Sr. Frederico de S.) está todo e unicamente em acertar.  Se não já por dever de consciência  e de patriotismo, ao menos por egoísmo, por vantagem própria e individual, por ambição mesmo do poder, o esforço constante dum governo deve ser acertar. Entre nós têm-se visto governos que parecem absurdamente apostados  em errar, errar de propósito, errar sempre, errar em tudo., errar por frio sistema.  Há períodos  em que um erro menos realmente pouco conta. No momento histórico a que chegamos, porém, cada erro , por mais pequeno, é um novo golpe de camartelo friamente atirado ao edifício das instituições; mas ao mesmo tempo tal é a inquietação que todos temos de do futuro e do desconhecido, que cada acerto, cada bom acerto, é uma estaca mais sólida e duradoura para estear as instituições. Toda a dúvida está em saber se ainda há, ou se já não há, em Portugal, um governo capaz de sinceramente se compenetrar desta grande , desta irrecusável verdade."
Um espectador.

Eça de Queiroz, in Novos Factores da Política Portuguesa, Editorial Nova Ática 

Prémios Literários de 2021

Sul-africano Damon Galgut vence prémio Booker 2021
"O Booker Prize 2021 foi atribuído , esta quarta-feira, ao romancista sul-africano Damon Galgut com a obra "The Promise", um romance que conta a história de uma família desde o fim do 'apartheid' até à presidência de Jacob Zuma.
Esta foi a terceira nomeação do dramaturgo e romancista Damon Galgut para o prémio, depois de 2003 e 2010. Neste ano tornou-se o favorito e arrebatou o prémio com o seu nono romance, "The Promise" ("A Promessa"), com uma história do seu país, que decorre no final do 'apartheid', em que  explora as relações entre os membros de uma família branca em decadência, através da sequência de quatro funerais.
Nascido em Pretória, em 1963, Galgut escreveu o primeiro romance aos 17 anos, "A Sinless Season". Entre as suas obras contam-se títulos como "Small Circle of Beings" e "The Beautiful Screaming of Pigs".
Como vencedor do Booker Prize, Damon Galgut recebe 50.000 libras (perto de 59 mil euros).
"Estou profundamente e humildemente grato pelo prémio", disse o autor de 57 anos ao aceitar o prestigioso prémio britânico numa cerimónia em Londres.
"Demorou muito tempo a chegar aqui e agora que cheguei, sinto que não devia estar aqui", acrescentou Galgut.
Homenagem a África
Após receber o prémio, Galgut prestou homenagem ao seu continente natal. "Este tem sido um grande ano para a escrita africana e gostaria de aceitar o prémio em nome de todas as histórias contadas e não contadas, os escritores ouvidos e não ouvidos, do notável continente de que faço parte", disse.
E ainda apelou: "Por favor, continuem a ouvir-nos. Há muito mais por vir". Em entrevista, Galgut salientou que o vencedor deste ano do Prémio Nobel da Literatura também foi para um escritor africano, o romancista nascido em Zanzibar, Abdulrazak Gurnah.
A vitória de Galgut chegou poucas horas depois da notícia de que outro escritor africano, o senegalês Mohamed Mbougar Sarr, de 31 anos, tinha sido galardoado com o Goncourt, o prémio literário mais importante da França.
Um livro sobre legados
"'A Promessa' espantou-nos desde o início como uma história incrivelmente bem construída. Em cada leitura sentimos que o livro crescia", frisou a historiadora Maya Jasanoff, presidente do júri. "Este é um livro sobre legados, aqueles que herdamos e aqueles que deixamos e, ao atribuir-lhe o Prémio Booker deste ano, esperamos que ressoe nos leitores, ao longo das próximas décadas.
Além de Maya Jasanoff, o júri da edição deste ano foi constituído pela editora Horatia Harrod, pela actriz Natascha McElhone, pelo professor e escritor Chigozie Obioma, também já seleccionado para o Booker em anteriores edições, e pelo antigo arcebispo da Cantuária Rowan Willians.

A norte-americana Patricia Lockwood, com a sua estreia em ficção, "No One is Talking About This", o autor Anuk Arudpragasam, do Sri Lanka, com "A Passage North", a britânica de origem somali Nadifa Mohamed, com o romance "The Fortune Men", o norte-americano Richard Powers, com "Bewilderment", e a sua compatriota Maggie Shipstead, com "Great Circle", eram os restantes finalistas do Booker Prize de ficção 2021."


Prémio Goncourt 2021
"O escritor senegalês Mohamed Mbougar Sarr, de 31 anos, é o vencedor  do prémio Goncourt de 2021, o mais importante prémio literário de França. É a primeira vez em mais de cem anos de Goncourt que o premiado é um autor da África subsaariana.
O anúncio foi feito nesta quarta-feira  e não se pode dizer que foi uma surpresa. Há dias as apostas da imprensa especializada indicavam que o romance "La Plus Secrète Mémoire des Hommes" (A mais secreta memória dos homens, em tradução livre) era o favorito para vencer. Com uma escrita ambiciosa, em que diversos géneros literários se  alternam , o livro conta a busca de um jovem escritor senegalês para resgatar a memória de um autor que ficou conhecido como o "Rimbaud negro" após publicar um livro que causou escândalo em Paris de 1938.  Diégane vai seguir o rasto do misterioso T.C. Elimane e, nesse percurso, enfrentar dois dos grandes apocalipses do século XX:  o colonialismo africano e o Holocausto. A história vai do Senegal à França passando pela Argentina, numa narrativa que explora a mais importante questão da literatura: porque, como e para quem escrevemos?
"É um livro de iniciação sobre a paixão pela literatura, a vontade de escrever, sobre a vontade de encontrar um sentido através da criação", resumiu o autor Mbougar Sarr numa entrevista em Agosto. Para o presidente da Academia Goncourt, Didier Decoin, o livro é um "hino à literatura.
Três décadas de vida e quatro livros
 Este é o quarto romance do jovem autor que publicou o primeiro título em 2014, quando tinha apenas 24 anos. Nascido em Dakar e o mais velho dos filhos de um médico, Sarr dedicou os seus estudos em Paris à literatura negra e abandonou o doutoramento  para abraçar a escrita. A escolha mostrou-se acertada. O seu primeiro romance, "Terre ceinte", sobre a vida num vilarejo, sob domínio de milícias jihadistas, ganhou três prémios literários. Com "Silence du choeur", seu segundo romance, Sarr levou duas outras condecorações pelo livro que aborda a vida dos imigrantes africanos na Sicília. Em 2018,  faz uma escolha ousada e lança "De purs hommes", um romance sobre a experiência homossexual no continente africano. Apesar dos prémios e da recepção favorável da imprensa, o senegalês até então era pouco conhecido do público em  França e no mundo.  A conquista do Goncourt por seis dos dez votos do júri deve mudar esta história. O prémio provoca sempre grandes vendas, , tendo alguns dos  títulos já premiados  ultrapassado a fronteira dos milhões de exemplares vendidos.  Ao chegar ao mítico restaurante Drouant, em Paris, onde acontece a cerimónia do Goncourt, o jovem poupou palavras à imprensa. "Eu sinto muita alegria", disse."
Prémio da crítica para a Bélgica - Prémio Renaudot para Amélie Nothomb
"Pouco depois de ser anunciado o prémio Goncourt, foi conhecida a vencedora do prémio Renaudot. "Primeiro Sangue", de Amélie Nothomb, ganhou o reconhecimento da crítica.
A primeira terça-feira de Novembro é tradicionalmente rica para os meios literários franceses desde 1926, ano em que foi criado o prémio Renaudot. Tradicionalmente apresentado como complementar ao prémio Goncourt é atríbuído no mesmo dia e sempre a escritores diferentes.
Nothomb tem estado nos finalistas tanto para o Goncourt como para o Renaudot há vários anos. Ganha desta vez com uma obra muito pessoal. No livro fala da morte do seu pai nos primeiros dias do confinamento, em 2020. Em apenas dois meses, vendeu mais de 230.000 exemplares." Fonte : artigos dos media

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Celebrar o 81º aniversário de Manoel de Andrade

Manoel de Andrade com a mulher (Neiva de Andrade), no Cabo de São Vicente
( Promontório de Sagres) , Portugal

Sobe à colina
olha o poente e o mar -
verás a eternidade.
Sorri à flor
capta o insensível do seu odor -
sentirás a eternidade.
Pára, escuta o inescutável do Ser
ausculta a melodia do Cosmos -
captarás a eternidade.
José Nuno Pereira Pinto,
Que Passem Sorrindo - Poesia reunida

A palavra , na poesia , foi e será sempre a mais bela forma de resistência contra um mundo desumano, e um profético aceno para um tempo melhor.
Manoel de Andrade, Poesia e Oralidade , in As Palavras no Espelho

Sempre que se celebra o aniversário de um poeta é a magia da palavra que se louva. E se esse poeta cantou a vida e promoveu a condição humana, é a força do verso que se homenageia.
Manoel de Andrade, o poeta brasileiro de Curitiba , faz hoje 81 anos. Como dizer-lhe em palavras o que as palavras não sabem dizer, se é ele o poeta.
Manusear a palavra, tecê-la em linha ou afundá-la num mar de tantas outras que, cadenciadamente, esperam o ritmo de uma melodia antiga , só ao poeta a musa permite. Um cântico secular , de um remoto passado que, de voz em voz , se difundia até  Gilgamesh, o primeiro registo, se revelar nas célebres e decifradas placas de argila.
Nos primeiros tempos da descoberta do alfabeto, afirma Vallejo,  os poemas ainda nasciam e viajavam pela via oral, mas alguns bardos aprenderam o traçado das letras e começaram a transcrevê-los em folhas de papiro ( ou ditaram-nos) como passaporte para o futuro. Talvez então alguns começassem a tomar consciência das inesperadas implicações daquela ousadia. Escrever os poemas significava imobilizar o texto, fixá-lo para sempre. 
Num magnífico ensaio, o aniversariante Manoel de Andrade acrescenta: Um fenómeno não pode excluir o outro e é tão  importante valorizar a tradição oral  da poesia , quanto reconhecer  que sem a escrita , parte de todo o acervo histórico se perderia com o tempo.
Os  poemas de Manoel de Andrade , longe dessa época primeva, brindam-nos pela beleza de vários registos. Estão fixados para sempre e traduzem o longo e rico itinerário de um grande poeta. Abrir um dos seus livros é soltar um poemário de infindo fascínio e de talentosa arquitectura. Há , no entanto, uma repetida e incessante melodia que nos convida. São sons de uma Sinfonia ou talvez de uma ininterrupta Cantata que nos capturam , nos intimam e nos revelam de quão importante é a poesia. Ela vai para além do imanente. Vê o que não é visível, desenha o que não se traça, descobre o que se esconde, sabe o que se desconhece. Ser arauto é a sua primeira e última função. Arauto de um tempo poético que fica e ficará como o gérmen de uma visão e de um sentir do mundo.
Ao poeta , que tanto me fascina, ficam, aqui, os maiores votos de continuado labor poético e a gratidão de me ajudar a decifrar o mundo.
Bem-Haja, Manoel!