sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O apelo tinha sido forte

O Afinador de Palavras


Quando se é jovem, tudo o que se vê parece próximo: é o futuro.
Quando se é velho, tudo o que se vê parece distante: é o passado.
                                                                               Anónimo

Houve um espaço de tempo feito de tempo, um tempo  terrivelmente  igual  a  si  próprio, nulo e,       no entanto,  apreendido   como uma   infinidade insuportável!...Quanto ao fim insolúvel , eis o que aconteceu.
Paul Valéry, O escravo-Fragmentos narrativos

Viera . O apelo tinha sido forte. E agora que chegara, perdera-se. Tudo havia mudado. Não sabia quem o chamara. Apenas lhe chegara um eco de vozes  filtradas pela distância. Repetira-se  em tons diferenciados que deixava distinguir uma amálgama de gente diversa. Palavras e palavras desarticuladas enchiam aquele eco de uma ressonância estranha. Num momento, quase  reconheceu o pesadelo de um tempo passado. Um tempo que julgara perdido na ruína do esquecimento.
Duas guerras mundiais tinham eclodido. Os homens tinham cegado logo que se esqueceram do horror primeiro  que tinham provocado, nos primórdios do século XX.  Num tempo curto,  revitalizaram  palavras  marginais para um uso  capital: uma  segunda guerra apanhou o mundo inteiro. De novo, as multidões em  fuga perante o furor das armas.
Da  loucura de um homem, nascera  um tenebroso projecto de destruição que se propalou rapidamente pelas mentes exacerbadas dos seus correligionários. Era a Europa a chamar as palavras impensáveis, proscritas, convertidas  em slogan da verdade. Uma verdade que levou   a fuzilamentos ignóbeis, a um extermínio  inominável. Fora o tempo da vergonha.
Laborara durante muitos anos. As palavras tinham adoecido. A enfermidade era tal que, de entre as ruínas , escapava um halo  tão fétido que lhe tolhia  os movimentos. Nem sempre fora capaz de o enfrentar. Esgotou-se na afinação. Reabilitara  um código de palavras  que tinha sido banido  e que seria regido por  um código de conduta que, para o efeito,  também fora elaborado.
Concluíram que a sua missão havia terminado. Partira há muitos anos. Despedira-se daquele mundo tão assimetricamente vulnerável. Quisera acreditar que não mais seria chamado.
As promessas , as amnistias, os tratados , os convénios tinham sido celebrados. Quase lhe fora imposta uma reforma antecipada. Sim , porque a miséria seria erradicada e novos desafios propiciariam outras práticas. A livre circulação do progresso, a mundialização da informação, a prática do espírito científico, a reformulação das teorias obsoletas que conduziram ao caos, a consciência de finitude como antídoto à desmesurada ganância da supremacia étnica e dos perigosos projectos eugénicos, a valorização e disseminação da arte  em todas as suas vertentes. Tudo convergia para o sucesso de um bem estar universal que nasce da trégua, que germina  na  paz. Da míngua antevia-se a estabilidade partilhada.
Que acontecera. Regressava.  O grito fora excessivo. Ruidoso. Dorido. Não fora capaz de resistir. Pisava o mesmo chão sem que pudesse enxergar aquele que havia abandonado. As cores rodavam dentro de si numa dança  lenta, sem melodia  para seguir.
Tinha de se concentrar. Encontrar o jeito de se deslocar. Perdera os poderes? Nunca. Os olhos ainda pestanejavam. Não cegara. Não. Era o mundo que estava cego. A escuridão apanhara-o . Pois , estava, agora, no reino da escuridão.
Adormeceu. O caminho tinha sido longo. E aquele negrume, aquele denso véu de uma noite escura era uma muralha. Pesava-lhe tanto como a surpresa do desencanto.
Teria o  homem perdido a capacidade de se espantar? Onde estaria o assombro? A revelação ? O mistério da descoberta? A consciência do não saber ?  A busca do  conhecimento? A magia da Arte?
E as palavras que não apareciam. Mas não eram elas que tudo nomeavam ? “In principio erat Verbum” - se no princípio era a Palavra, urgia encontrá-las. Por elas regressava.
Ergueu-se . Afinal o gesto e o caminho estavam nele. As palavras tinham cor. Tinha de decidir por onde começar. E vestiu-se de  todas as cores.
O horizonte emergiu. Fez- se luz. Via tão claramente que de horror se encheu . A devastação era aterradora. Nada estava como deixara. Um amontoado de palavras jazia  em convulsão continuada. O ruído era assustador.
Descortinou, de imediato, o que o esperava. Lançou-se. Teria de avaliar o percurso e  agir. Fora chamado.
E partiu para se apresentar. Era ele : o afinador de palavras. Vinha em missão porque fora requisitado . Oxalá nunca tivesse partido. O logro tinha sido terrível.
Correu  ruas,  caminhos,  campos ,  atalhos,  avenidas; pisou terra , calcorreou areia, sorveu mar,  bebeu poeira. Nada lhe falhou.  A tudo acorreu para lançar o desafio. E ninguém o temeu.
Ninguém o afrontava. Todos o procuravam. A crise das palavras estava institucionalizada. Não havia reestruturação que lhe valesse.
Por toda a parte, caíam novas e velhas palavras.
Sonantes, discretas;
redondas, agudas;
          estridentes, suaves;
       castas, obscenas;
                heroicas, cobardes;
       gloriosas, vilipendiadas;
                transparentes, opacas;
                           sérias, corrompidas;
                                                                        brilhantes, obscuras;
          velhacas, leais;
                                                                                      mórbidas, lúcidas.
                                                                                    Tombavam em série:
                                                      à unidade,  ao retalho,
                                  emparelhadas, desirmanadas,
               concatenadas, soltas,
humilhadas, desprezadas. Não tinham qualquer préstimo. Agoniavam aos magotes antes que tivesse iniciado o seu trabalho. Teria de as socorrer, com urgência.
Guardou as cores . Vestiria uma  cor diferente em cada dia. As palavras eram coloridas. Identificavam-se pela cor. Assim, todas  teriam igualdade de oportunidades, um conceito que fora tão valorizado, mas tão pouco aplicado." Maria José Vieira de Sousa, in " O Afinador de palavras", 2016

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

L’individualisme de Simone Weil

Simone Weil : vérité, justice et bien public contre les partis politiques 
Par Matthieu Giroux, le 07 Septembre 2016
"Les partis sont des organismes publiquement, officiellement constitués de manière à tuer dans les âmes le sens de la vérité et de la justice », estime Simone Weil dans sa Note sur la suppression générale des partis politiques écrite en 1940. Morte le 24 août 1943 à l’âge de 34 ans, elle ne prendra jamais conscience de l’ampleur des totalitarismes dont elle fut la contemporaine : hitlérisme et stalinisme. Cette Note est un manifeste lumineux  pour la pensée libre.
La radicalité de Simone Weil s’exprime tout particulièrement dans sa Note sur la suppression des partis politiques. Le terme même de « suppression » avait paru excessif à André Breton qui publia ce texte en 1950 dans la revue Combat sous le titre « Mettre au ban les partis politiques ». Jacques Julliard, grand amoureux de Simone Weil, préfère quant à lui parler de « dépérissement ». Qu’y-a-t-il de si problématique dans la notion de parti politique pour pousser la Vierge Rouge à une telle intransigeance ?
Pour Simone Weil, la notion de parti implique nécessairement la possibilité de la dérive totalitaire. « Un parti au pouvoir et tous les autres en prison », disait Mikhaïl Tomski, syndicaliste et révolutionnaire soviétique. Tout parti politique tend inévitablement vers le parti unique, une notion paradoxale puisque, par définition, les parties sont des éléments qui composent un tout. Avec le parti unique, le parti devient également le tout. Des partis politiques ne peut découler aucun bien puisqu’ils sont fondamentalement mauvais. Et Simone Weil de rappeler le vieil adage : « Un bon arbre ne peut jamais porter de mauvais fruits, ni un arbre pourri de beaux fruits. »
Un parti politique n’a pas pour but de dire la vérité, de rendre justice ou encore de se consacrer au bien public. Il se caractérise par trois traits essentiels. Premièrement, c’est une « machine à fabriquer de la passion collective ». Il ne cherche pas à éclairer le peuple par un discours de vérité, mais bien plutôt à persuader via la mise en place d’une propagande. Deuxièmement, il « exerce une pression collective sur la pensée de chacun des êtres humains qui en sont membres ». L’individualisme de Simone Weil ne supporte pas le formatage qu’opère le parti sur les esprits singuliers. L’adhésion à un parti implique le renoncement à la pensée libre. Nul ne peut penser par lui-même dès lors qu’il est lié à un parti. Le parti produit pour l’individu le contenu de sa pensée de manière exclusive. En dernier lieu, le parti vise avant tout « sa propre croissance ». Ce qui importe le plus ce n’est donc pas le bien public, mais le développement même du parti. Simone Weil dénonce un « retournement entre fin et moyens ». La conquête du pouvoir indispensable à l’extension d’un parti n’est plus seulement un outil nécessaire en vue du bien public. La conquête illimitée du pouvoir devient la fin même du parti. « Il est ainsi inévitable qu’en fait le parti soit en lui-même sa propre fin », écrit Simone Weil. On verse alors dans l’idolâtrie car « Dieu seul est légitimement une fin pour soi-même », ajoute-t-elle.
Parti et mensonge
La fidélité à un parti entraîne nécessairement la non fidélité à soi-même.« Si un homme, membre d’un parti, est absolument résolu à n’être fidèle en toutes ses pensées qu’à la lumière intérieure exclusivement et à rien d’autre, il ne peut pas faire connaître cette résolution à son parti. Il est alors vis-à-vis de lui en état de mensonge », note Simone Weil. Le parti est une machine à fabriquer du mensonge. La vérité du parti est une vérité qui transige, une vérité qui s’adapte. Par conséquent, la vérité du parti n’est pas la vérité. Selon elle, il faut désirer uniquement la vérité pour l’atteindre. La quête de la vérité exige une attention de chaque instant. Tout désir associé à la recherche de la vérité parasite la recherche en tant que telle. Il faut tout sacrifier à la vérité. Le partisan, lui, sacrifie la vérité pour le parti. Cette pureté de la démarche intellectuelle est typique de Simone Weil.
Les partis politiques ont pour modèle l’Église catholique. Ce sont de« petites églises profanes ». Ils se comportent vis à vis des dissidents comme l’Église se comportait vis à vis des hérétiques. Le parti réclame la soumission absolu au dogme et menace d’anathème ceux qui font entendre une voix discordante. Si donc l’esprit de parti s’inspire de l’Église catholique, c’est lui qui aujourd’hui « arrive à tout contaminer ». L’esprit partisan oblige à prendre position, oblige à penser « pour » ou « contre » , que ce soit dans le domaine de la science (pour ou contre Einstein), des arts (pour ou contre le cubisme / le surréalisme) et de la littérature (pour ou contre Maurras / Gide).  Cette maladie de la pensée, cette « lèpre » doit être combattue. La première étape de ce combat implique la suppression des partis politiques."~
Matthieu Giroux

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Podia ter sido amor

Labirinto ou não Foi Nada

Talvez houvesse uma flor
 aberta na tua mão.
 Podia ter sido amor,
 e foi apenas traição.

 É tão negro o labirinto
 que vai dar à tua rua ...
 Ai de mim, que nem pressinto
 a cor dos ombros da Lua!

 Talvez houvesse a passagem
 de uma estrela no teu rosto.
 Era quase uma viagem:
 foi apenas um desgosto.

 É tão negro o labirinto
 que vai dar à tua rua...
 Só o fantasma do instinto
 na cinza do céu flutua.

 Tens agora a mão fechada;
 no rosto, nenhum fulgor.
 Não foi nada, não foi nada:
 podia ter sido amor.
David Mourão-Ferreira, in "À Guitarra e à Viola - Obra Poética", Editorial Presença
Gisela João, em Labirinto ou não Foi Nada do seu novo Álbum " Nua".
Vídeo realizado, fotografado e editado por André Tentugal e produzido por João Nuno Brochado
Câmara - António Morais
Ass. Produção - Margarida Sá Coutinho
Actor - Fernando Santos / Deborah Kristal
Agradecimentos  a Jose Antonio Marquina, Luis Lobo Alves, Fabio Correia, Pedro Gaspar, Finalmente Club e Mãe D'Água.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Ser ou Não ...

"Não é o que construíram. É o que destruíram. Não são as casas. São os espaços entre as casas. Não são as ruas que existem. São as ruas que já não existem."
James Fenton, in " A german requiem ".

" Toda a  política se reduz a isto: aquele que tem a força ou que julga tê-la, pode fazer o que quiser." 
Paul Valéry, in "Les principes d'anarchie pure et appliquée".

domingo, 13 de novembro de 2016

Ao Domingo Há Música

"En mi juventud se hablaba mucho de la experiencia poética. Nunca entendí cabalmente lo que se quería  decir con esa expresión. Las experiencias  no son poéticas. Tampoco son realmente experiencias : son actos, sensaciones, pensamientos - vida. Sólo  después, recogidos por la memoria y la reflexión, esos momentos  se vuelven experiencias. Pero aquello que vemos con los ojos de la memoria no es idéntico a aquello que vivimos: la vida es irrecuperable. Poesía no es vida, es la transfiguración de la vida. No es vivir sino decir."
       Octavio Paz ,  De una palabra a la otra: Los pasos contados

As palavras sábias de Octavio Paz  e  o som prodigioso do violino são um excelente desafio para um intenso acto de transfiguración de la vida.
Nicola Benedetti interpreta a sempre bela Méditation da ópera Thaïs de Jules Massenet (1842-1912). A Philharmonia Orchestra é dirigida pelo Maestro Rainer Hersch.

Nicola Benedetti, em The Gadfly-Romance de  Shostakovich  (1906-1975) , acompanhada pela  BBC Symphony Orchestra, sob a direcção do Maestro Jiří Bělohlávek, no Royal Albert Hall,  em 8  de Setembro de  2012,  última noite do Prom nº 76.

sábado, 12 de novembro de 2016

Julio Cortázar e Edgar Alan Poe

Cortázar y un tal Poe
La publicación en español de las obras en prosa del escritor de Boston, traducidas por Julio Cortázar a lo largo de nueve meses de emocionante viaje por Italia, cumple su Literatura: 60ª sesenta aniversario
Juan Tallón   ,11 NOV 2016 - 00:06 CET  
En literatura a veces es bueno confundir trabajo y placer. Algunos escritores lo saben, y obtienen sus libros de esa mezcla peligrosa. En 1953, Julio Cortázar (1914-1984) se fue de vacaciones a Italia para traducir los cuentos y ensayos de Edgar Allan Poe (1809-1849), y después de nueve meses de viaje, regresó a París con casi dos mil páginas de traducción, prólogos y notas al pie. El idilio del autor de Rayuela con Poe, sin embargo, había comenzado mucho antes, casi como si no tuviese un principio. En su juventud, como recuerda Miguel Herráez en Julio Cortázar, una biografía revisada, el autor argentino, sin directrices ni maestros, empezó a «devorar toda la literatura fantástica que tenía a su alcance: Horace Walpole, Joseph Sheridan Le Fanu, Charles Maturin, Mary Shelley, Ambrose Bierce, Gustav Meyrink y Edgar Allan Poe, este en la edición española de Blanco Belmonte». Un buen lector acepta ser perturbado desde que es un muchacho todavía sin criterio. En La vuelta a Julio Cortázar en (cerca de) 80 preguntas, el escritor argentino confiesa a Elena Poniatowska que de niño despertó a la literatura moderna cuando leyó los cuentos de Poe, «que me hicieron mucho bien y mucho mal al mismo tiempo. Los leí a los nueve años y, por Poe, viví en el espanto, sujeto a terrores nocturnos hasta muy tarde en la adolescencia».
En realidad, cuando la traducción de Poe aún era un propósito lejano, Julio Cortázar y Aurora Bernárdez ya planeaban un viaje a Italia, que pensaban completar en Vespa. En el verano de 1952, harto de moverse en bicicleta por París, y en autoestop por las ciudades de los alrededores, Julio compró una moto de segunda mano a un médico argentino. Su plan incluía llevársela en tren hasta Milán, y desde allí recorrer el país durante un mes. Pero eso fue antes de que el 14 de abril de 1953 se cruzase una viejecita en su destino y, para no atropellarla, Cortázar se cayese de la Vespa y se rompiese una pierna.
En julio de ese año, aún convaleciente, recibió una carta en su apartamento de la Rue de Gentilly con lo que él denominó un «notición»: Francisco Ayala, profesor en la Universidad de Puerto Rico y director de su editorial, le comunicaba que la institución aceptaba su propuesta para la traducción de los relatos y ensayos de Poe. Le pagarían 2.500 dólares (que al final serían 3.000). «Es para que a uno se le caigan las medias, realmente», confesó lleno de felicidad a su amigo Eduardo Jonquières.
Cortázar y Ayala se habían conocido a finales de los años cuarenta en Buenos Aires, durante el exilio del español. En sus memorias, Recuerdos y olvidos, Ayala evoca cómo en aquellas fechas nadie hacía caso del joven Cortázar. «Yo tomaba café a veces con Daniel Devoto, Luis Baudizzone y algún otro, y Cortázar se nos sumaba, apresurado, jovial, irritado, asertivo». Años después, Ayala se acordó de sus conversaciones en Argentina y «me escribió preguntándome si yo quería hacer la traducción», le contó a Elena Poniatowska. Cortázar no lo dudó y, siguiendo las formalidades, se ofreció a la Universidad de Puerto Rico.
Su primera decisión, con la carta de Ayala aprobando su propuesta en la mano, fue dejar su trabajo matinal, en una distribuidora de libros, con el argumento de que Roma «bien vale un laissez-passer y dos o tres beneficios estudiantiles». Casi al mismo tiempo, se deshizo del bastón que le había legado la Vespa. Justo en ese instante, Cortázar quedaba atrapado en la «graciosa situación de un individuo que es millonario», ya que lo que cobraría por Poe andaría no muy lejos del millón de francos, «y al mismo tiempo se pregunta cómo se las va a arreglar para vivir durante esos meses intermedios», pues entre las tradiciones de la Universidad de Puerto Rico estaba no adelantar un céntimo hasta la entrega de la traducción. La salida, una vez más, fue pedir dinero prestado a los amigos.
Como si fuese una parte más del viaje, o un trámite de la traducción, el 22 de agosto Julio se casó con Aurora. Después desarrendaron su habitación de la Rue de Gentilly, vendieron la Vespa, almacenaron sus libros en un guardamuebles, y sin más, el 16 de septiembre partieron de París en tren hacia una Roma veraniega. Durante los primeros días se instalaron en el Albergo Pelliccioni, junto a la estación Termini, para después trasladarse a la Via di Propaganda Fide, a una pensión a cien metros de la Piazza di Spagna, cerca de la casa en la que vivió y murió su amado John Keats, circunstancia que hizo las delicias de ambos. Pagarían 20.000 liras al mes.
El otoño cabe en un bolsillo, de tan feliz que se siente, y en sus cartas a los amigos Cortázar les habla de la belleza de una Roma «llenísima de italianos que invaden las calles con las manos y la voz». Aurora y él no esperan un minuto para visitar los museos, de manera que al regresar a la pensión lo hacen tan cansados que se toman montones de mates amargos. «Yo estoy ya hasta las orejas en Poe. Hoy traduje diez páginas de los crímenes de la Rue Morgue. ¡Br…!», le escribe a Eduardo Jonquières, cuyas cartas son un relato directísimo para conocer su periplo italiano y su pulso con el escritor estadounidense. La ciudad les descubre otro milagro: la pizza romana. «Aparte de deliciosa, aparte de ser la locura más inconmensurable del sistema solar, es barata y nos deja repletos y felices como gatos».
Sólo se resignan a quedarse en casa los días de lluvia. Entonces, leen y corrigen lo que han traducido de Poe hasta el momento. En silencio y lentamente llega el primer problema serio de dinero. Dependen de los préstamos de Jonquières, desde Buenos Aires, y la remesa que tenían que recibir, por alguna razón que no alcanzan a entender, se retrasa. En su última carta, Eduardo, de hecho, afirmaba que «supongo ya las habrás recibido», en referencia a las liras.
Cortázar, inquieto, se preguntaba si se habría olvidado de hacer algún trámite, o ignorado alguna instrucción de su amigo, por lo que leyó varias veces la correspondencia. «Estuve a punto de ponerla al fuego, frotarla con vinagre, a ver si asomaban rojas letras como en “El escarabajo de oro”». Con sólo 36.000 liras, pocas para Roma, tomaron la decisión de racionar el dinero y vivir con mil liras diarias. Ello implicaba almorzar con modestia, traducir sin descanso, tratar al hambre con displicencia, y de noche comer un huevo pasado por agua y un sándwich de stracchino o de fontina. También inauguraron la era del café con leche, renunciando a la pizza y al autobús. No estaban los tiempos para poner en riesgo la felicidad. «Como simultáneamente yo andaba traduciendo las aventuras de A. Gordon Pym, el tema del canibalismo volvía muchas veces a nuestros diálogos, y se adecuaba lúgubremente a nuestra situación». Barajaron la posibilidad de llamar por teléfono a Argentina, y hablar con Jonquières para aclarar la situación, pero eso les costaba 9.000 liras; descartado. Restaba la opción del cable, que les permitía contar en unas pocas palabras su tragedia, por la mitad de precio. Pero el 9 de diciembre, cuando ya habían decidido sacrificar 4.500 libras en esa comunicación, el cartero tocó el timbre y, con un sobrecito azul, sus problemas económicos de disiparon.
Los días pasan, como si sólo fuesen hojas escritas que se mueven con un dedo, y Cortázar se consagra exclusivamente a Poe. Está a punto de llegar 1954 y admite que va con un poco de retraso. Quisiera escribir una novela, pero tendrá que esperar a concluir la traducción y esté de regreso en París. «Hasta ahora Europa me ha invadido de tal manera que no me deja ser yo mismo. Todo el tiempo estoy siendo otras cosas, el paisaje, los cuadros, los olores, la felicidad». No le importa no escribir: «Nunca creí en las “misiones” de los escritores». A veces éstos lo son también porque no escriben, o lo hacen sin horarios prefijados. Pese a todo, en Italia encuentra momentos salvadores «en una sala de espera, un banco de plaza, incluso una trattoria» para componer algún poema.
Cuando se cumplen cuatro meses de estancia en Roma, la traducción de Poe entra «en lo que un mal escritor llamaría el período crucial pero que yo, más purista, califico de quilombo desatado». No lleva la cuenta, pero las cuartillas se amontonan vertiginosamente sobre la mesa. «Poe se ha propuesto escribir conmigo su mejor cuento fantástico, el del escritor que no se deja traducir del todo. Hace dos meses calculé que me faltaban unas seiscientas páginas. Traduzco diez diarias como promedio. Anoche saqué cuentas y me falta unas… seiscientas (exagero un poco en beneficio de tu sonrisa, pero la verdad es que el Edgardo tiene una elasticidad que ya la quisiera mi cuñadísimo–escritor prolífico)», confiesa. Su previsión es que en febrero la traducción y la corrección estén listas, y entonces emprender un viaje por Italia a la espera de llegar a Florencia, y ahí escribir el estudio preliminar y las copiosas notas que proporcionen al trabajo «un airecillo universitario (sin pedantería)».
Edgar Allan Poe,
visto por Fernando Vicente
La vida de escritor es imprevisible, y en uno de sus salidas de placer a San Giovanni in Laterano, para seguir explorando el museo, a Cortázar se le ocurre que, si alguna vez tiene tiempo, escribirá un Manual de instrucciones. La idea la encuentra casi tirada en el suelo. El museo está cerrado y visitan el palacio de la Scala Santa, cuya escalera es tradición subir de rodillas. Entre las cosas que hay a la venta descubre un pequeño libro con instrucciones justamente para subir la Scala Santa. «Tan bien me pareció que me di cuenta hasta qué punto estamos huérfanos de buenas instrucciones para hacer cantidad de cosas importantes. Harían falta instrucciones para beber una tacita de café, por ejemplo, o para sentarse en una silla. Son cosas elementales, es decir, profundas, o sea malentendidas».
Pasan la Navidad en la intimidad de Poe y escuchando la misa del gallo en Santa Maria in Aracoeli. El día de fin de año vagan hasta tarde, y a las once de la noche vuelven a casa porque les han advertido del peligro que corren si los sorprende la medianoche en la calle. «Y no era cuento, porque los entusiastas romanos tiran carradas de botellas y platos a la calle, con lo cual no se ve un alma en las aceras».
Por fin llega febrero. Para entonces, tiene ante sí 1.400 páginas corregidas y casi listas para imprenta. La faena ha sido titánica. Sin embargo, quedan unas trescientas páginas, y las notas y el estudio preliminar. Pero el grueso del trabajo está hecho: setenta y cinco cuentos y casi treinta ensayos. En la última semana del mes envían su equipaje a Florencia, y con dos bolsas de mano emprenden un viaje en autoestop que los lleva a Nápoles, Salerno, Amalfi, Ravello, Roma, Orvieto, Perugia, Asís, Arezzo, Siena y San Gimignano, antes de recalar en Florencia. En una carta a su amigo el poeta Alfredo (Fredi) Guthmann admite que cruzar Italia en autoestop, en pleno mes de marzo, con poco turismo y frío, es una experiencia durísima. Las leyes del país impiden a los camioneros llevar a mujeres, y los coches de lujo no paran «ni a tiros, seguramente porque el dueño teme que uno le manche el tapizado»; en los automóviles pequeños, Cortázar simplemente no cabe.
Cuando se cumplen cuatro meses de estancia en Roma, la traducción de Poe entra «en lo que un mal escritor llamaría el período crucial pero que yo, más purista, califico de quilombo desatado»
En Florencia permanecieron dos meses y asistieron a la llegada de la primavera. Y, como estaba previsto, liquidaron a Poe en jornadas de nueve horas de trabajo. Por fin. Más de 2.000 páginas, incluidos prólogos, notas, biografías y otros adornos críticos, que enviaron a mediados de mayo a la Universidad de Puerto Rico. Entonces, emprendieron su giro final por Italia, a lo largo de veinte días. Después de facturar sus maletas a París, y quedarse con lo imprescindible, visitaron Pisa, Lucca, Prato, Bolonia, Rávena, Classe, Ferrara y Venecia, donde les sonrió la suerte y consiguieron una habitación barata, a 1.600 liras tutto compresso, en la Piazza de San Marco, en un quinto piso, en el ala izquierda del edificio de la Torre del Orologio, «de modo que los Reyes Magos que salen a adorar al Niño cuando da la hora desfilaban a dos metros de nuestras ventanas».~
Los diez días que pasaron en Venecia fueron felicísimos. Cortázar incluso tuvo ocasión de ver la góndola de la muerte, en la que embarcan los ataúdes para llevarlos a la isla de San Giorgio, custodiada por cuatro hombres de negro que reman lentamente. «La vimos una mañana de sol deslumbrante, cuando embarcaban a alguien que había muerto en el hospital. Te aseguro que quisiera tener talento para meter eso en un cuento alguna vez. Es de las cosas más terribles que me ha dado Europa», le confesó a su amigo Damián Bayón.
Tras abandonar Venecia viajaron a Padua y Verona. Los últimos cinco días italianos los pasaron en Milán. El 9 de junio regresaron a París, y Cortázar envió la traducción de Poe y, casi a continuación, los contratos firmados a la Universidad de Puerto Rico. Previó que la liquidación sería cuestión de un par de semanas. Tardaría cuatro meses. Entremedias, consiguió trabajo de traductor en la Unesco, y eso alivió sus apuros económicos. A comienzos de agosto recibió carta de Damián Bayón, que le advertía de la partida inminente del cheque hacia París. «Se me había ocurrido –le respondió Cortázar a vuelta de correo, mientras deshojaba las mañanas, a su espera– que quizá han hecho con él un barquito de papel y lo han puesto a la orilla del mar, para que llegue solito». Llegó tarde, pero llegó en forma de travelers cheque, lo que a Cortázar le permitió retirar el dinero en pequeñas cantidades, a medida que le hacía falta, en lugar de en un solo abono.
Faltaba mucho tiempo, sin embargo, para que la traducción adquiriese aspecto de libro. Esperar es uno de los trámites enojosos e inevitables de la vida literaria, como si para todo hubiese un invierno largo e inhóspito. La obra no estuvo lista hasta 1956, cuando apareció en dos tomos en la editorial de la Universidad de Puerto Rico en colaboración con la Revista de Occidente. En ese tiempo, Cortázar retomó la escritura y viajó a Argentina, Uruguay o la India, y siguió traduciendo a otros escritores. En mayo de 1957, en carta al escritor Jean Bernabé, le contó que «los libros me llegaron cuando ya ni me acordaba de todo el trabajo que me había dado esa traducción».Juan Tallón , Babelia, El País, 11.11.2016

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

It's au revoir

Traveling Light
I'm traveling light
 It's au revoir
 My once so bright, my fallen star
 I'm running late, they'll close the bar
 I used to play one mean guitar
 I guess I'm just somebody who
 Has given up on the me and you
 I'm not alone, I've met a few
 Traveling light like we used to do

 Good night, good night, my fallen star
 I guess you're right, you always are
 I know you're right about the blues
 You live some life you'd never choose
 I'm just a fool, a dreamer who forgot to dream of the me and you
 I'm not alone, I've met a few
 Traveling light like we used to do
Leonard Cohen , “You Want it Darker”, 2016



It is with profound sorrow we report that legendary poet, songwriter and artist, Leonard Cohen has passed away.
We have lost one of music’s most revered and prolific visionaries.
A memorial will take place in Los Angeles at a later date. The family requests privacy during their time of grief. 
A Sony Music Canada ao anunciar a morte de Leonard Cohen invocava-o como detentor de um  talento prolífico que se estendia por diversas áreas. Tinha sido galardoado com vários prémios , entre eles , o Prémio Príncipe das Astúrias de Letras, em 2011. 
Foi um cantor  presente ao longo destes anos , desde que lançou o seu primeiro Álbum. Carismático, inconfundível, cantava as palavras com uma  sonoridade peculiar . Com ele desaparece a expectativa de novos sons para dar aos dias  o prazer de o  redescobrir. 
It's au revoir!

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Parece impossível?

A filha da sereia
"Esta história foi contada:
Meu pai teve amores com uma sereia e eu deles nasci. Nunca conheci mãe. Fui criada sem carinho e sem amor e tive a má ventura de nascer com os pés soldados. Meu pai desapareceu com os remorsos da minha infelicidade e eu, deixada a estranhos, conheci todos os amargores da vida.
Diziam que sabia cantar e era habilidosa, até me gabavam as mãos e os olhos, mas nunca me amaram. Consumia a minha vida a chorar, a cantar e a trabalhar. Cada vez era mais triste e à roda dos olhos criei círculos negros. As minhas mãos pareciam de cera, nunca ria nem tinha esperanças. Sonhava muito, só os sonhos me animavam. E de uma vez com tanta fé sonhei que o meu sonho se realizou. Parece impossível? Mas não é, ides ouvir.
Eu tinha adormecido a pensar que havia de ser feliz. Não era um pensamento certo, era cansaço de dor.
Fui fechando os olhos até que caí num sono profundo. Noite alta sinto uma voz... chamava por mim e era tão terna como ainda nunca ouvi outra. Desperto. Entra-me pela porta um grande resplendor de luz e no meio uma figura linda a sorrir. Era ela que me falava. Trazia na mão uma bola de oiro que disse ser o pomo da boa sorte. E que mo entregava... sobre ele havia eu de correr mundo... que nunca parasse, os bons amantes me socorreriam.
Há tanto tempo! Corro, corro, corro. Tenho os pés colados ao pomo...
A filha da sereia ia falando e o príncipe e a namorada ouviam-na condoídos.
O príncipe desejava socorrê-la, sem saber como. A noiva coma as mãos descaídas parecia ansiosa. Assim que a outra se calou baixou-se e retirou-lhe o pomo dos pés, sem custo nenhum. A rir apresentou-o na palma da mão.
A filha da sereia atónita deu um grito. Começou a andar e a correr, voltou para trás, abraçou os namorados, chorou de gozo, abençoou-os e disse que para todo o sempre os queria servir e amar.
A noiva com os olhos brilhantes continuava com o pomo na mão. O noivo tomou-lho, por ela lho oferecia, e a filha da sereia ia dizendo:
Sêde felizes, bem o mereceis... a fada mo afirmou, sois os perfeitos amantes..."
Irene Lisboa, 13 Contarelos que Irene escreveu e Ilda ilustrou, p. 68 a 71