sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Talvez

Talvez

 Talvez não ser,
 é ser sem que tu sejas,
 sem que vás cortando
 o meio dia com uma
 flor azul,
 sem que caminhes mais tarde
 pela névoa e pelos tijolos,
 sem essa luz que levas na mão
 que, talvez, outros não verão dourada,
 que talvez ninguém
 soube que crescia
 como a origem vermelha da rosa,
 sem que sejas, enfim,
 sem que viesses brusca, incitante
 conhecer a minha vida,
 rajada de roseira,
 trigo do vento,

 E desde então, sou porque tu és
 E desde então és
 sou e somos...
 E por amor
 Serei... Serás...Seremos...

 Pablo Neruda, in “Cem Sonetos de Amor” Ed. Campo das Letras

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

São as cores do sol

 O Espírito da paz

Ao cair da tarde
Penso sempre mais
É a luz que me invade
São as cores naturais

Cada figura
que passa por mim
nem me perturba
e eu fico assim

Longe me leva este silêncio
e o sentir que se altera
são as cores do sol

E eu fico encantado
e eu sinto-me a arder
quando o dia se apaga
deixa tanto por ver
Madredeus ,in CD: O Espírito da paz
Lisboa, 1994

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Solidão é não precisar

"E agora não estou tomando tua mão para mim. Sou eu quem está te dando a mão.
Agora preciso de tua mão, não para que eu não tenha medo, mas para que tu não tenhas medo. Sei que acreditar em tudo isso será, no começo, a tua grande solidão. Mas chegará o instante em que me darás a mão, não mais por solidão, mas como eu agora: por amor. Como eu, não terás medo de agregar-te à extrema doçura enérgica do Deus. Solidão é ter apenas o destino humano.
E solidão é não precisar. Não precisar deixa um homem muito só, todo só. Ah, precisar não isola a pessoa, a coisa precisa da coisa: basta ver o pinto andando para ver que seu destino será aquilo que a carência fizer dele, seu destino é juntar-se como gotas de mercúrio a outras gotas de mercúrio, mesmo que, como cada gota de mercúrio, ele tenha em si próprio uma existência toda completa e redonda.
Ah, meu amor, não tenhas medo da carência: ela é o nosso destino maior. O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.»

Clarice Lispector, in «A Paixão Segundo G.H.», Relógio D'Água, p.136

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Em defesa da Língua Portuguesa

«Vergílio Ferreira escreveu «Defesa da Língua», com o qual contribuiu, a pedido de Vasco Graça Moura, para a colectânea Estão a Assassinar o Português, publicada pela editora pública em 1983, reunindo depoimentos de 17 autores «acerca da sua experiência de escritor[es] preocupado[s] com a principal ferramenta do ofício, a língua em que se exprime[m].».
DEFESA DA LÍNGUA
«Defender a língua é, de um modo geral, uma tarefa ambígua e até certo ponto inútil. Mas também é quase inútil e ambíguo dar conselhos aos jovens de uma perspectiva adulta e no entanto todo o adulto cumpre o que julga ser de seu dever. (...) no que se refere à língua o choque ou oposição situam-se normalmente na linha divisória do novo e do antigo. Mas fixar no antigo a norma para o actual obrigaria esse antigo (...) a recorrer a um mais antigo até ao limite das origens da língua. (...) Que se imagine um bom caturra do século XXIII em face de uma transgressão de hoje que o uso venha a consagrar. Naturalmente a valorizaria justamente pela consagração de tal uso, emendando por ela as transgressões de então. Assim a própria língua, como ser vivo que é, decidirá do que lhe importa assimilar ou recusar. Porque a inúmeros giros de frase e vocábulos a língua mastiga-os e deita-os fora. E a outros absorve-os e integra-os no seu modo de ser. (...) Hoje que a facilidade de comunicação é total, compreendemos como é inglório o combate contra a infecção. Ela é menos, aliás, também por isso, uma fatalidade que se sofre do que um cosmopolitismo que se procura. (...) A língua viva, como o jovem, realiza-se no equilíbrio ou no confronto de duas forças que o dinamizam — a da regra e a da infracção. Há casos em que o erro é evidente e assim quem nele persiste é excluído do convívio geral. (...) E todavia, algo de fascinante (direi de «útil»?) há, apesar de tudo, nessa marginalidade. Ela faz-nos ao menos propedeuticamente relativizar o que pressupomos como absoluto, ela apela para a transgressão que é uma voz audível no marasmo e na rotina, ela compõe a diversificação humana, ampliando-lhe o espectro da sua realidade. E só quando o crime a limite nós a recusamos drasticamente. (…)
Toda a língua tem o seu código próprio que é genericamente inviolável. Esse é o que na escola se procura ensinar e preservar. (…) os limites extremos desse código são de um modo geral intransponíveis. E toda a disciplina da língua tem aí a sua razão de ser. Não podemos todavia esquecer que além de um código uma língua é de si uma matéria «plástica» como o sabem os «estilistas» e nós com eles. Há uma «norma» e mil «desvios» possíveis. Saber, todavia, em que media esses desvios podem ou não tocar os limites do código, só o próprio artista o sabe — e nós com ele, se o seu desvio nos atingiu. Eça de Queirós é o exemplo conhecido do artista que infringiu certas normas da língua mas que com essas infracções, ou apesar delas, conseguiu efeitos estéticos profundamente inovadores. De todo o modo, incomodando os puristas da língua, Eça não transpôs nunca os limites do código. Mas e se um artista os transpusesse? Se com essa transposição ele criasse também efeitos estéticos? Se eles se tornassem impressivos para nós a tal ponto que só numa análise minuciosa nos déssemos conta da transgressão? Porque enfim todo o artista é em potência um assassino da língua para que ela viva mais forte; como na palavra evangélica só perdendo a alma nós a podemos salvar.
(…) Assim entendemos que o tratamento plástico da linguagem codificada não implica o desconhecimento do código mas sim a tentativa da sua superação. Como um pintor começa normalmente pelo desenho académico, pelo código de uma pintura «clássica» (e assim sabemos como facilmente ele retorna a esse desenho, se o desejar) também o escritor que pretenda sublimar ou violentar o código de uma língua sabe como se escreve adentro das regras estritas desse código e o pode provar — e o prova — numa simples carta ou exposição «normal» que escreva ou realize.
(…) Assim as relações com uma língua são múltiplas e várias e o problema da sua «defesa» difícil de solucionar. Fácil é, todavia, opor a isto — que é uma questão de criatividade artística — o uso fácil e medíocre de fórmulas, vocábulos, giros de frases que têm que ver, (…) não com uma reacção activa, mas com uma total passividade e falta de dignidade na afirmação do que é nosso, ou seja do que é nós. Vale-nos que a própria língua, que é a profundidade de nós próprios, reage normalmente a esse desapossamento ou invasão de elementos intrusos, reafirmando-se a si como individualidade autónoma e implícito orgulho ofendido. E se tais elementos acabam por fixar-se é porque a língua os acabou por reconhecer como úteis ou indispensáveis. Assim a nossa luta será sempre entre a permanência e a renovação, entre o antigo e o novo. E do tempo dessa luta, desejável e necessária, só o tempo, como se disse, ou seja, a própria língua poderá decidir.”
Vergílio Ferreira, in Estão a Assassinar o Português, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1983.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Roteiro "Do rio ao Mar, até à Cidade"


Jardim Botânico da Universidade de Coimbra
Um percurso que se inicia no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, onde existe a estátua de Soares dos Reis (1847-1889) esculpida pelo seu discípulo Teixeira Lopes.
1 - Seguir pela Estrada 222 até à Barragem de Lever, passando pelo miradouro da Igreja de Crestuma.
2 - Passagem por Olival até ao Mosteiro de Grijó fundado no século X, mas cujo aspecto actual é dos séculos XVI-XVII. Nele se admira, no claustro, o túmulo de D. Rodrigo Sanches, filho do rei D. Sancho I e de D. Maria Pais Ribeiro, morto numa batalha dada em Gaia em 1245.
3 - Partida para a Granja, passando pelo novo hotel e visitando os chalés desta praia onde veranearam reis, príncipes, nobres, banqueiros e escritores (Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro) e onde Pablo Casals conheceu (e se enamorou) de Guilhermina Suggia.
4 - Passagem pelas praias de Aguda, (centro piscatório) Miramar, Francelos, retomando a estrada 109 em direcção ao Candal.
5 - Passagem pelo Centro Histórico, onde se localizam as Caves de Vinho do Porto, para apreciar os barcos Rabelos fundeados no rio Douro, as esplanadas e as pontes.
6 - Depois de subir a Rua General Torres, onde se poderá admirar a enormidade dos armazéns do Entreposto do Vinho do Porto, o passeio terminará no Mosteiro da Serra do Pilar, construído nos séculos XVI e XVII e de onde se poderá ter uma soberba vista das cidades de Vila Nova de Gaia e do Porto.  
Pontos de Interesse
Barragem de Crestuma-Lever
A poucos quilómetros da cidade do Porto, a Barragem de Crestuma-Lever aproveita, desde 1985, os caudais do rio Douro e dos seus afluentes.
Com o nome Crestuma-Lever, alusivo a duas localidades vizinhas, esta barragem tem 25,5m de altura e 470m de comprimento.
Possui uma potência instalada de 117mw.
Numa altura em que o abastecimento público de parte significativa da população portuguesa é feito ou perspectiva-se que venha a ser feito a partir de albufeiras, torna-se muito interessante conhecer o funcionamento destes sistemas de produção de energia e os pormenores destas grandiosas obras de arquitectura.

Jardim Botânico da Universidade de Coimbra 

Mandado construir pelo Marquês de Pombal, em 1772, para funcionar como laboratório de botânica (“história natural”) da Universidade de Coimbra e desenhado por artistas italianos (Vandelli e Della Bella), tem uma parte de mata e seis socalcos com várias estufas, lagos, tanques e fontes. À entrada do Jardim está a estátua de Avelar Brotero, primeiro director do Botânico, da autoria de Soares dos Reis. 
Mosteiro da Serra do Pilar
Considerado pela UNESCO, Património da Humanidade, o Mosteiro da Serra do Pilar, verdadeiro ex-libris de Gaia, é o monumento de maior relevo na freguesia de Santa Marinha. A primeira pedra foi lançada em 28 de agosto de 1538 (dia de Santo Agostinho) pelo Bispo D. Baltazar Limpo, no reinado de D. João III.
A Igreja actual foi iniciada em 1598 e acabada apenas em 1672, ficando do antigo convento a torre sineira e o dormitório que atualmente pertence ao Regimento de Artilharia.
A Igreja é circular, bem como o claustro, e são uma cópia da igreja de Santa Maria Redonda, de Roma. O claustro, com 36 belas colunas jónicas, é também circular e foi concluído em 1692.
Mosteiro do Grijó

Cerca do ano 922 foi erguido um Mosteiro que ficou a chamar-se Eclesiola. Pelo decorrer do tempo denominou-se Mosteiro de Egrejinha, de Egrijó e mais tarde de Grijó. Em 3 de Outubro de 1093, o Bispo de Coimbra pôs ao convento o nome de Mosteiro de S. Salvador de Eclesiola. Em 1549 passa a chamar-se S. Salvador de Grijó. O Mosteiro serviu de hospital aquando da batalha com as tropas francesas no Picôto. Existe ainda uma cruz que passa despercebida, num recanto à entrada do terreiro. Ai foi o cemitério dos vivos e mortos, dado que naquele tempo, o inimigo não era poupado. Os feridos portugueses vinham para o Mosteiro transformado em hospital. Os mortos e feridos estrangeiros eram lançados em valas abertas naquele terreno. Daí, o cemitério de vivos e mortos. Criminoso que se refugiasse em terras de Grijó, ficava sob a justiça do Mosteiro e só com o beneplácito deste é que lá podia ser procurado por outras justiças." CNC

domingo, 14 de agosto de 2016

Ao Domingo Há Música


Ao Domingo Há Música
A estrada da montanha

Nessa estrada que vai à montanha
Há uma casa pequena
Onde um dia eu hei-de ir morar



Encanta e vale a pena
Ver a montanha serena contra o azul profundo 
do mar

É lá,
É lá que eu vou sentir o vento
E posso provar a tempo todos os frutos de 
cada estação

Nessa estrada que vai à montanha,
Lá na casa branca,
Já deixei o meu coração


- Ai é, Ai é,
- Pois é, eu também quero ir nessa estrada,

 qual é?

- Ai é, Ai é,
- Pois é, eu também quero ir aí!

 Madredeus

O verão é o tempo propiciador de concertos, festivais  e arraiais em que a música é soberana. Na povoação junto à montanha, na vila que no mapa se localiza, na grande cidade ou na praia populosa montam-se palcos que trazem vozes repletas de diferentes sonoridades. 
Quem dera que a música anulasse todas as tragédias que neste verão nos apanharam. Mas ameniza , reconforta e, quando  a força dos acordes é a medida justa , a catarse ocorre sem pejo e  temor parcimoniosos.
Compor, poetar e cantar em português é celebrar o talento que nasce e se produz entre nós. Assim o fazem  os  Madredeus. 
A estrada da montanha , com  a voz de Beatriz Nunes, os Madredeus  nos  AVO Sessions, Basel, Suiça, Essencia Tour, 30 de Outubro de 2012.

sábado, 13 de agosto de 2016

Só há um mundo

"Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade. “Acho que tudo está bem”, diz Édipo e essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem. Ensina que nem tudo está perdido, que nem tudo foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto das dores inúteis. Faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe."
 Albert Camus, in  O Mito de Sísifo ,Ed. Livros do Brasil
Felicidade

A felicidade  sentava-se todos os dias no peitoril da janela.

Tinha feições  de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas  de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.

E, como menino que era,
achava um grande mistério no seu próprio nome.
Jorge de Sena,  Perseguição,1942 in Poesia I ,Moraes Editores

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Algarve

ALGARVE

O mistério do mar,
O milagre do sol
E a graça da paisagem
Na moldura dos olhos.
E a paz feliz de que tenho o que é meu.
Ah, a terra bem-amada!
Benção da natureza
Caiada
De pureza
E nimbada
De saudade.
Algarve.Liberdade
Dos sentidos.
Férias ao sul
Da imaginação.
Ainda a mesma nação, 
Mas com outros sinais.
E a memória também
De que todo o além
Começa neste cais.

Albufeira, 27 de Julho de 1982
Miguel Torga, in Diário XIV, Círculo de Leitores

As praias do Algarve espalham-se pela costa sul e pela costa ocidental de Portugal. Uma costa alcantilada ou feita de alguns areais abertos que encanta pela beleza das águas ou pelo desenho de vetustos rochedos.