segunda-feira, 23 de março de 2015

Criação literária e coragem na intervenção política

 
O Poema

O poema não é o canto
que do grilo para a rosa cresce.
O poema é o grilo
é a rosa
e é aquilo que cresce.

É o pensamento que exclui
uma determinação
na fonte donde ele flui
e naquilo que descreve.
O poema é o que no homem
para lá do homem se atreve.

Os acontecimentos são pedras
e a poesia transcendê-las
na já longínqua noção
de descrevê-las.

E essa própria noção é só
uma saudade que se desvanece
na poesia. Pura intenção
de cantar o que não conhece.

Natália Correia, in "Poemas ", 
Porto: Edição de autor, 1955
Natália Correia – vida com sentido
Por António Valdemar
“Aliança da criação literária com a coragem na intervenção política.
Presença vigorosa na sociedade portuguesa, da segunda metade do século XX, Natália Correia (1923-1993) afirmou-se pela singularidade da criação literária e pela determinação e coragem na intervenção política. Justifica a homenagem,hoje (22 de Janeiro de 2015)  em Lisboa (às 18h), na Fundação Mário Soares – presidida pelo próprio Mário Soares, seu amigo e admirador de sempre – e integrada na série “Vidas com Sentido”, para distinguir figuras que prestigiaram a cultura e honraram a cidadania.
Tal como muitos outros intelectuais e artistas da sua geração, Natália Correia participou em grandes acontecimentos da oposição democrática – a fundação do MUD, as campanhas para a Presidência da República de Norton de Matos e Humberto Delgado. Apoiou outras comissões eleitorais, entre as quais a CEUD (1969) liderada por Mário Soares e que se encontra na génese do Partido Socialista. Associou-se aos protestos contra o assassinato de Humberto Delgado; insurgiu-se perante a reabertura do Tarrafal e com a perversa denominação Campo do Chão Bom, exarada no Diário do Governo; e contra o encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores por ter premiado a obra de Ludovino Vieira, preso no Tarrafal. Subscreveu documentos de solidariedade a presos políticos e às greves universitárias.
Teve livros proibidos pela censura como, por exemplo, Canto do País Emerso, a propósito da ocupação do paquete Santa Maria comandada por Henrique Galvão; a tragédia jocosa Homúnculo; e a Antologia da Poesia Erótica e Satírica que organizou e prefaciou, apreendida pela PIDE, e objeto de processo-crime e julgamento no Tribunal Plenário que a condenou a três anos de prisão, com pena suspensa.
Logo a seguir ao 25 de Abril, numa entrevista ao Expresso, Natália Correia revelou a disponibilidade para a ação política. No âmbito da Aliança Democrática presidida por Francisco Sá Carneiro e através do PRD foi eleita deputada. Proferiu intervenções memoráveis. A defesa da língua portuguesa, a valorização do património cultural, a defesa dos direitos humanos, os direitos das mulheres, o debate sobre o aborto assinalaram, entre outros temas, a sua passagem pelo hemiciclo de São Bento.
A política activa não afectou a trajectória literária. Teve um vínculo ao surrealismo, devido às relações pessoais com Mário Cesariny e António Maria Lisboa, Cruzeiro Seixas e Manuel de Lima. Integrou as publicações de Luís Pacheco, o editor do Contraponto, das obras e autores daquele movimento.
Nunca se submeteu à disciplina de escolas e às cartilhas de grupos. Quis ser ela própria. Todavia, conciliava à energia e originalidade da sua criação, a herança poética de Gomes Leal e de Mário Sá Carneiro; o impulso desencadeado pelas Odes de Álvaro de Campos, e a torrencialidade da Cena do Ódio de Almada Negreiros. Atingiu a partir dos seus livros Dimensão Encontrada (1957) e Comunicação (1959) momentos significativos da poesia portuguesa. Evidenciou-se pelo arrebatamento lírico, a exuberância barroca, o ímpeto romântico, a truculência satírica que se cruzam com a força dos símbolos, a profusão das metáforas, a incursão no herético e no erótico que afronta e estilhaça as convenções existentes.
Num dos seus poemas autorretratou-se: “Hoje quero a violência da dádiva interdita/ sem lírios e sem lagos/ e sem gesto vago/ desprendido da mão que um sonho agita./ Existe a seiva. Existe o instinto. E existo eu/ suspensa de mundos cintilantes pelas veias /metade fêmea, metade mar como as sereias.”
Entre os paradigmas intelectuais e éticos também incluía a figura tutelar e a obra emblemática de Antero Quental, um dos seus patrícios açorianos de eleição. Era o poeta que lhe desvendava as portas da utopia, e a sede de infinito.
Procurava, contudo, distanciar-se do Antero nocturno, do poeta e pensador carregado de pessimismo amargo que conduz à negação e à derrota e num dos seus Sonetos (indisfarçavelmente autobiográficos) confessou: que sempre o mal pior é ter nascido. Identificava-se com o outro Antero, o luminoso, que estimulava o exercício da liberdade e da justiça; e descobria: o meio-dia em vida refervendo, a tarde rumorosa e repousada, o claro sol amigo dos heróis; (...) tu pensamento não és fogo és luz.
Daí a categórica afirmação: "Não Antero, meu Santo, não me mato/ antes me zango até ficar num cato/quem me tocar (maldito!) que se pique." Assim, Natália Correia definia o seu comportamento humano e os itinerários da sua poesia. Em vez do mal pior da angústia e desespero do Antero nocturno, elegia um bem melhor, o privilégio de ter vivido e continuar a viver até à dádiva interdita. Para sentir todas as volúpias e todas as audácias. A vida, em plenitude." António Valdemar,Jornalista, membro da Academia das Ciências, em Artigo de opinião publicado no jornal Público em 22/01/2015.
A EXALTAÇÃO DA PELE
Hoje quero com a violência da dádiva interdita.
Sem lírios e sem lagos
e sem gesto vago
desprendido da mão que um sonho agita.
Existe a seiva. Existe o instinto. E existe eu
suspensa de mundos cintilantes pelas veias
metade fêmea metade mar como as sereias.
Natália  Correia, in Poemas , Porto: Edição de autor, 1955

domingo, 22 de março de 2015

Ao Domingo Há Música

“O herói tem de partir sozinho, abandonando o velho mundo e os velhos hábitos. Tem de aventurar-se na escuridão do desconhecido, onde não existe mapa nem caminho visível. Tem de combater seus próprios monstros – não os monstros de outrem -, explorar seu próprio labirinto, sofrer sua própria provação para poder encontrar o que lhe falta. Assim transfigurado, pode levar algo de valor para o mundo que ficara para trás. Todavia, se o cavaleiro percorre uma rota já estabelecida, está apenas seguindo pegadas alheias e não viverá uma aventura. Se quer triunfar, tem de entrar na floresta, diz o texto, em francês arcaico, de A busca do Santo Graal, ‘num ponto em que ele mesmo escolheu, onde a escuridão era maior e não havia caminho’. Na terra árida da lenda do Graal, as pessoas levam vidas inautênticas, cumprindo cegamente as normas da sociedade e fazendo só o que os outros esperam delas.” in  A escada espiral, livro de memórias de Karen Armstrong.

Ao reescutar esta peça musical, considerada a   magnum opus de  Hans Zimmer , o desejo de viajar surgiu com inopinada  intensidade.  Em plena realização  de uma grande e longa viagem , ocorreu-me legendá-la com palavras de uma escritora inglesa , Karen Amstrong. Na terra  árida do Graal acontece o que a nossa poeta, celebrada em Portugal, traduziu em poema:

                          Quando a pátria que temos não a temos 
                          Perdida por silêncio e por renúncia 
                          Até a voz do mar se torna exílio
                         E a luz que nos rodeia é como grades.
                                              Sophia de Mello Breyner Andresen

Acreditando que "O Sonho comanda a vida", talvez seja possível, neste início de Primavera, sonhar a aventura da viagem triunfal, sob os acordes de " Chevalier de Sangreal" de Hans Zimmer , da banda sonora do filme "O Código de Da Vinci".   

sábado, 21 de março de 2015

Sobre a Poesia XIX


            Um dos méritos da poesia, que muita gente não percebe, 
                                é que  ela diz mais que  a prosa e em menos palavras que a prosa.
                                                                                                              Voltaire 

No dia mundial da Poesia, publica-se a XIXª edição de Sobre a Poesia, espaço onde os poetas falam da própria poesia,  preenchida com as  palavras de um poeta maior  da literatura portuguesa, Eugénio Lisboa.
Quando se nomeia  Eugénio Lisboa  surge de imediato o vulto do credenciado e exímio ensaísta  e do crítico literário de excelência. Laborioso conhecedor e devotado intérprete de vasta poesia e de  incontáveis obras literárias, tem produzido , ao longo de décadas, páginas preciosas e únicas para estudo da Literatura Universal. Aprendemos e extasiamo-nos com as descobertas que  nos faz desvendar. A Literatura deixa de ser apenas um aglomerado de obras para ser, em cada registo eugeniano, a obra. A luminosidade que lhe vem do saber acumulado e do gosto profundo pela leitura tem o poder de nos contagiar, numa contaminação compulsiva e duradoura.  A palavra é nele uma ferramenta que manuseia com perícia e mestria. Resistir à escrita de Eugénio Lisboa é um acto impossível. Há uma sedução que nos prende e um glamour que nos deslumbra, embora como homem da ciência inclua  no discurso a clareza, o rigor e a precisa medida. É nesse habitat festivo e lúcido que a escrita de Eugénio Lisboa vive para nos encantar. 
Os recentes volumes publicados das suas memórias, "Acta est Fabula", são um hino à arte da escrita e  a afirmação de que é mestre em qualquer género literário. Obra de um riquíssimo fôlego narrativo vem demonstrar que não há  géneros nobres ou menores em Literatura. Com estes três volumes de memórias e um próximo no prelo, Eugénio Lisboa dá uma lição àqueles que menorizam  a escrita autobiográfica. O Grande Prémio de Literatura Biográfica 2012/2013, da Associação Portuguesa de Escritores (APE), que   foi atribuído ao volume I de Acta est Fabula é apenas um sinal da grandeza deste projecto memorialístico de Eugénio Lisboa. Com ele fica registado o caminho, o pulsar de uma criança de um bairro humilde  da  extinta  Lourenço  Marques ( Moçambique)  que se transformou num dos maiores intelectuais portugueses da actualidade. Através desse percurso , vislumbra-se  a   História Cultural dos séculos XX e XXI. Repositório de uma intensa diáspora , esta obra constrói-se de diferentes memórias onde a pátria é o lugar ou lugares que só  Eugénio Lisboa pôde escolher. E nessa escolha  está a dimensão humanista e universal deste escritor  e a irrecusável opção de fazer nossa esta  "Acta est Fabula". 
Poeta singular,   a par da sua imensa e variada obra, tem publicados dois livros de Poesia: Matéria Intensa,1985, Prémio Poesia Cidade de Lisboa, e  O Ilimitavel Oceano, 2001.
A poesia é, de facto, o fruto/de um silêncio que sou eu, sois vós,/por isso tenho que baixar a voz /porque, se falo alto, não me escuto. Palavras sábias do poeta brasileiro Ferreira Gullar que respeitarei para dar voz a Eugénio Lisboa, em dois magníficos registos sobre poesia. O primeiro extraído do livro "As vinte e cinco notas do texto" e o segundo da sua obra  em dois tomos, " Índicíos de Oiro II".
                                     
Eugénio Lisboa 
O trecho que se apresenta é um excerto do Prefácio de Eugénio Lisboa ao livro de Carlos Néjar, Os Viventes.
 "Tenho cada vez mais dificuldade em falar de poesia, sobretudo quando ela é grande poesia (o caso deste livro  de Néjar) , isto é , quando se situa naquela feliz e inquietante zona de ambiguidade entre a fala e o silêncio, entre o que diz e o que é, entre o que se lança no papel e o que se guarda nas gavetas  do indizível. Por outras palavras , compreendo cada vez melhor  ( com angústia, com má consciência, com alegria, com ironia e com medo) as palavras turvamente luminosas de Claudel: " O mon âme! le poëme n'est point fait  de ces lettres que je plante comme des clous, mais du blanc qui reste sur le papier". Sinto cada vez mais que se fala a pretexto de, à volta de, que se profana com a tepidez dos nossos comentários um tanto estéreis , essa  extrema corda tensa  que é um poema  (" Ça  a toujours kékechose  d'extrème/ un poème", dizia Raymond Queneau, numa das suas fulgurações sulfuricamente " cocasses"). Álvaro de Campos, que era um heterónimo de outro heterónimo chamado Fernando Pessoa-ele-mesmo, costumava duvidar  de que houvesse " grandes poetas  neste mundo fora do silêncio dos seus corações". Que dizer dos críticos  desses poetas , tecendo comentários sobre um silêncio reluntantemente  quebrado  e esticando, afinal de contas, uma corda mais flácida ( Sê-lo-á?). A poesia de Carlos Nejar não vem diminuir , vem, pelo contrário, acentuar a minha perplexidade. E o seu último livro , Os Viventes ( este cujo pudor violamos), com toda  a sua invasora necessidade discursiva de testemunhar ( " Vai , transeunte, contar em Lacedemónia...), com toda a sua densidade dura e compacta , com toda a sua retórica  contida e cantada, a um tempo presa e desencadeada, com todo o seu apetite  de dizer sibilinamente minado por uma vontade ainda mais forte de ser poema, sublinha ainda mais as interrogações milenárias que a poesia levanta.
(...) A música é sempre , em última análise, mesmo quando se esconde  e disfarça, a componente vital  da grande poesia. Os testemunhos , mesmo dos tempos  mais chegados, abundam, desde Verlaine (" De la musique  avant toute chose"), até Ezra Pound  ( " Music  rots when it gets  too far from the dance . Poetry atrophies  when it gets  too far  from music"). O canto preserva e redime. Pela  via do canto , " o nada"/é da mesma flor/ que tudo." Por isso informa, com simplicidade e orgulho:
Me procuram 
na cintura
deste canto.
E aludindo à dor, diz  distanciando-se 
Não fico nela, 
quando existe o canto.
Arte poética, portanto, destinada a durar. Música ao serviço de um falar poético que é um compromisso feliz  entre a nossa eliotiana conversa de todos os dias e aquele  " falar de certo modo como que acima de uma boca mortal", que Ben Jonson sugeria que a poesia deveria ser. E também um pacto entre um enorme e obstinado esforço e um resultado às vezes miraculoso:
és tua própria promessa,
és tua própria fadiga.
Londres, Janeiro  de 1979 ( Eugénio Lisboa,in As Vinte E Cinco Notas  Do Texto, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987) 
Estocolmo
A  Construção de um Poema
"Em Dezembro de 1976, saí definitivamente de África, rumo à Suécia, via Lisboa .(...)  A neve, o conforto, a calma – eu ia dizer: a apatia – de tal modo contrastavam com os tempos de vida, calor, criação e perigo que vinha de viver, que corria claramente o risco de me esquecer de toda uma parte importante da minha vida. A vivência desse contraste violento e a consciência dolorosa e forte desse iminente esquecimento desencadearam em mim uma vontade irresistível de registar, de imediato, tudo isso: Podia, eventualmente, desaparecer, em mim, dentro de mim, mas o texto ficaria para outros. Mesmo que eu próprio, que tão fortemente o vivera, mais tarde, ao lê-lo, já o não reconhecesse, ou o não reconhecesse com toda a força e evidência que em mim tivera, no momento de o viver – e de o escrever.
Que forma dar-lhe?, foi a pergunta que a mim próprio fiz. Uma carta a um amigo? Uma página de diário? Um pequeno ensaio? Um conto? Mais ambiciosamente: um romance? Um poema? Logo se impôs, como quase inevitável, a ideia de um poema; com a sua linguagem concentrada, intensa, alusiva, metafórica, um pouco (mas só um pouco) enigmática, de algo que se vela mesmo quando se desvela, opaco e transparente, provocador e sedutor. E logo me ocorreu um personagem com quem convivera em Moçambique e que, para mim, personificava esse mundo de “húmida, vegetal espessura” de que vinha para a “neve que faz mal”: José Craveirinha, de quem fora (e ainda sou) amigo, com quem conversara quase quotidianamente e sobre quem escrevera (e, na Voz de Moçambique, publicara o primeiro texto de fundo que, sobre a sua poesia se publicou). Craveirinha seria a referência, a imagem humana que me sustentaria na elaboração do poema e, mais ostensivamente, aquele a quem o poema seria dedicado para que melhor se descodificasse, no poema, o sentido um pouco secreto.
No mesmo momento em que tudo isto congeminava, lia, um pouco ao acaso, textos de Pessoa recolhidos por David Mourão-Ferreira no livro O Rosto e as Máscaras. Muito em particular, o poema “O último sortilégio”, de que um ou outro verso serviu, para mim, de motor de arranque. Pessoa perturba-me, às vezes repele-me, mas frequentemente estimula-me. Quem tem um verso (que provoca) e uma vontade irresistível de “fixar” qualquer coisa – tem um poema. A angústia de ter de escrever que precede o acto de realmente escrever começou a ser rapidamente substituída pela convicção (forte) de que o poema estava garantido. Uns versos propiciadores (ou fracções de versos) – os de Pessoa -, uma vivência forte e quase intolerável que se não podia perder nas fragilidades da memória, uma referência aglutinadora e simbólica (José Craveirinha), eis os principais fermentos de que dispunha para consumar a alquimia do poema. Enquanto o não realizasse não teria paz. A neve de um lado a e a verde espessura do outro criavam um diferencial propiciador que o medo do esquecimento (obliteração) ajudava a mover-se em direcção ao poema. Começava a sentir-me melhor, por outras palavras, quase indiscretas, começava a sentir que estava quase salvo. Certas palavras começaram a impor-se: “neve”, “mineral”, “gelado”, para simbolizarem o exílio, a emigração arrefecedora que me caíra em sorte; ou, do outro lado, a “chuva” que “fecundava” a “terra de ouro” e propiciava a “vegetal espessura” de um mundo que ficara para trás... Com esta vontade forte de me salvar, de me não deixar esquecer, apoiado no arranque que me propiciavam um ou dois versos de Pessoa (também, para mim, símbolo de um certo frio de que às vezes fujo), munido de alguns vocábulos que na minha cabeça e na minha sensibilidade se impunham obsessivamente, o poema, dentro de mim, construía-se. Construía-se no sentido de lhe faltar só o que era realmente importante: uma linguagem articulada capaz de produzir, nas palavras de Valéry, “algo de novo e de capital importância” (nem que só para mim). E construía-se com uma estranha pressa, como se tivesse receio de se desvanecer pelo caminho se rapidamente se não deixasse agarrar. E foi assim que, numa tarde branca mas sem luz, numa Estocolmo onde lambia feridas arranjadas num paraíso que acabava de perder, foi assim, digo, que, numa espécie de transe e com uma rapidez improvável, compus o poema que abaixo transcrevo e mais tarde (oito anos mais tarde) viria a incluir no meu primeiro livro de poesia. Parecia-me que tinha encontrado, para a minha obsessão, uma articulação necessária e a música adequada, uma espécie de balanço inevitável capaz de me salvar e salvar um pouco de um passado intenso que aquela peculiar e fria latitude ameaçara obliterar.

NO TEMPO EM QUE, FERNANDO

Era terra de sol e alegria,
de húmida, vegetal espessura:
ali a minha voz acontecia,
com o ritmo do sangue e da negrura.

Agora, a neve branca cobre a estrada,
com seu manto de noite e solidão.
Já, se o círculo traço, não há nada,
se não fora gelada vibração.

Era terra de ouro fecundada,
força macha, leal, apetecida.
Era chuva, magia visitada,
era sal, sugestão de força ardida.

Agora é só o branco que faz mal
ao filho cujo sal já emigrou.
A vida, agora, é lisa, mineral,
o coração, gelado, sossegou.

Estocolmo, 31. de Janeiro de 1977

Dizia Marcel Proust que " o tempo , que altera as pessoas, não altera as imagens que delas temos". É que a memória quer preservar, na sua  frescura inicial , aquelas pessoas, aqueles momentos de felicidade intensa, aqueles encontros, aquelas descobertas deslumbrantes  que o progredir implacável do tempo ameaça destruir ou apagar. Escrevemos , no fundo, para prolongarmos dentro de nós " a terra de sol e alegria" que um frio branco e posterior  ameaçaria  destruir . Ou para recuperarmos, de forma  mais perene, num dia de chuva, numa South Bank qualquer, na Europa, um cheiro a terra molhada que vinte anos antes nos enchera de estranha felicidade numa remota cidade do continente africano."
Eugénio Lisboa , in " Indícios  de Oiro, volume II" , Imprensa Nacional- 
Casa da Moeda, Lisboa 2009
Alguns poemas do livro O Ilimitável Oceano de Eugénio Lisboa

A Criação do Mundo

O ponto não tem dimensões, disse-o o grego
assim descobrindo a geometria que havia
antes que houvesse criação: porisso, o cego,
mas rigoroso, já tudo se construía.


Anaxágoras ou o Astrónomo

Qual o fim da vida?, foi-lhe alguém perguntar.
E ele: o sol, a lua, os céus investigar.

Euclides

Um percurso exacto.
Um discurso claro.
O rigor em acto.
O escuro raro.

Galileu

As leis do movimento perscrutaste,
com paciência e cândido olhar.
Com o mesmo olhar o vasto céu sondaste,
humilde mas altivo no ousar.

Copérnico

O céu que viste era o céu
de Ptolomeu. Mas diferente
foi a forma de o olhar.
No modo de julgar, teu,
a Terra, astro movente, demitiu-se de pensar
que era o centro do mundo:
assim ver, que abalo fundo!

Hipótese - II ( O Outro Inverno)

Um frio  estelar rouba à glória a memória.
Ao mais e ao menos uma fria brisa alisa.
Arrefecido o homem , já da sua história
fica só nada, que o fluir do tempo pisa.
Do que fomos, nem de nos termos esquecido
traço fica. Inocente , o tempo, liso ,flui,
nem sabendo que não sabe . O já ter sido
é nem ter chegado a ser: o passado alui.
Eterno, sem lembranças, o frio acontecido.

Eugénio Lisboa, in O Ilimitável Oceano, Edições Quasi, Março 2001

OBRAS DE EUGÉNIO LISBOA
–  José Régio. Antologia, bibliografia, introdução e notas. Porto: Livraria Tavares Martins, 1957. –  Cónica dos Anos da Peste – I. Estudos, ensaios e recensões. Lourenço Marques: Livraria Académica, 1973 (2.ª ed., Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1996). –  Crónica dos Anos da Peste – II. Estudos, ensaios e recensões. Lourenço Marques: Livraria Académica, 1975 (2.ª ed., Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1996). –  Versos e Alguma Prosa de Jorge de Sena, antologia e introdução, Lisboa: Arcádia e Moraes, 1978. –  José Régio – A Obra e o Homem. Ensaio, antologia, antologia crítica e bibliografia activa e passiva. Lisboa: Editora Arcádia, 1976 (2.ª ed. revista e aumentada, Lisboa: Dom Quixote, 1986). –  O Segundo Modernismo em Portugal. Ensaio. Lisboa: ICALP, 1977 (2.ª ed., Lisboa: ICALP, 1984). –  Jorge de Sena, antologia, introdução, antologia crítica e bibliografia, Lisboa: Presença, 1984. –  Estudos sobre Jorge de Sena, selecção e introdução, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984. –  José Régio – Uma Literatura Viva. Ensaio. Lisboa: ICALP, 1978 (2.ª ed., 1992).
–  A Matéria Intensa. Poesia. Baden: Peregrinação, 1985 (2.ª edição, Lisboa: Instituto Camões, 1999). –  Poesia Portuguesa – do «Orpheu» ao Neo-Realismo. Ensaio. Lisboa, 1980 (2.ª ed., Lisboa: ICALP, 1986). –  As Vinte e Cinco Notas do Texto. Ensaios e recensões. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1988. –  José Régio ou A Confissão Relutante. Ensaio, antologia e bibliografia. Lisboa: Rolim, 1989. –  Organização e prefácio de uma antologia de contistas portugueses dos séculos XIX e XX (em versão inglesa), em 2 vols: vol. I, The Anarchist Banker and Other Stories; vol. II, Professor Pfiglzz and His Strange Companion, Carcanet Press, Manchester, 1997. Com L. C. Taylor e Michael Schmidt, dirigiu, para a editora Carcanet Press, a série “Aspects of Portugal”, que incluiu, em traduções para inglês, obras de Camões, Fernão Mendes Pinto, Fernando Pessoa e Eça de Queirós (quase toda a ficção). De Fernando Pessoa, além de uma antologia com traduções de Keith Bosley, publicaram-se o Livro do Desassossego (The Book of Disquietude) e uma substancial antologia – A Centenary Pessoa –, incluindo poesia e prosa e um vasto aparato crítico (este livro foi da responsabilidade conjunta de E. Lisboa e L. C. Taylor). Na série “Aspects of Portugal”, incluem-se ainda vários livros de Charles Boxer; The Grand Peregrination de Maurice Collis; They Went to Portugal Too de Rose Macauley; In the Wake of the Portuguese Navigators de Michael Teague e A World on the Move de Russell Wood. Para esta mesma editora, co-dirigiu a série “From the Portuguese”, que inclui livros de Miguel Torga, José Rodrigues Miguéis, Jorge de Sena, David Mourão-Ferreira, José Régio e Teixeira Gomes.
Para a editora Dedalus, co-organizou (com Hélder Macedo), prefaciou e anotou uma antologia de contos fantásticos portugueses, em tradução, para inglês, de Margaret Jull Costa. – O  Objecto Celebrado. Ensaios e estudos. Coimbra: Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1999. –  Portugaliae Monumenta Frivola. Ensaios e crónicas. Lisboa: Universitária, 2000. –  O Essencial sobre José Régio. Ensaio. Lisboa: Imprensa Nacional- -Casa da Moeda Lisboa, 2001. –  O Ilimitável Oceano. Poesia. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2001. –  No Eça nem com uma Flor se Toca – Eça Visto por José Régio (organização, selecção e introdução de Eugénio Lisboa). Lisboa: Instituto Camões, 2002. –  Direcção da edição de 15 volumes da obra de José Régio (incluindo a Correspondência e o Diário Íntimo, inéditos), no Círculo de Leitores, 1993/1994. –  Edição em curso da Obra Completa de José Régio, na Imprensa Nacional-Casa da Moeda (direcção, coordenação e alguns prefácios). –  Indícios de Oiro. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2009. –  Ler Régio. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2010.
–  Acta Est Fabula. Memórias I - Lourenço Marques, 1930-1947.Opera Omnia, 2012.
– Acta Est Fabula. Memórias III - Lourenço Marques Revisited - 1955- -1976. Opera Omnia, 2013.
-  Acta Est Fabula.IV.Peregrinação: Joanesburgo . Paris . Estocolmo . Londres – 1976-1995: Opera Omnia, 2014
Prémios Literários
–  Prémio da Cidade de Lisboa, 1985, pelo livro de Poesia A Matéria Intensa. –  Prémio Jacinto do Prado Coelho (Associação Internacional dos Críticos Literários), em 2000, pelo livro Portugaliae Monumenta Frivola. -  Grande Prémio de Literatura Biográfica 2012/2013, da Associação Portuguesa de Escritores (APE), em 2014,pelo livro Acta Est Fabula. Memórias I - Lourenço Marques, 1930-1947
Distinções
–  Membro da Academia das Ciências de Lisboa –  Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Cascais. –  Doutor Honoris Causa pela Universidade de Nottingham –  Doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro –  Membro do Conselho Geral da Fundação da Universidade de Aveiro.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Muxima


" Foram direitos a Kalumbo, agora que conheciam bem os caminhos, não só de os vasculharem, mas das conversas com gente dos Kimbos e dos viajantes. De lá atravessaram o rio Kwanza na canoa de um pescador cooperativo e ladearam o rio a pé durante dias , o coração na boca com medo dos kissamas e dos jagas, até alcançarem o fortim da Muxima , chamado com toda a pompa de fortaleza. (...) A chamada fortaleza era na verdade um muro de taipa mal amanhado em cima do morro, protegido por dois baluartes em pedra virados para terra, para a Kissama, duas peças de artilharia cada um. Dentro do muro havia uma casa de pau-a-pique , onde vivia e comandava o capitão amarelado, várias cubatas e uma ermida , a de Nossa Senhora da Muxima.
Do alto, a vista sobre o rio era de facto fabulosa, um rio largo e cheio de curvas no meio do verde, correndo para oeste." Pepetela, in " A Sul . O Sombreiro", Publicações Dom Quixote, 2011




A vila da Muxima está situada na província do Bengo, a 130 Km de Luanda, Angola. É uma vila muito bela , enquadrada pelo rio Kwanza e local de grandes romarias. As margens deste enorme rio são explosivamente verdejantes, com recantos maravilhosos. Em traçado sinuoso, o  rio espalha-se  por terras de área protegida até ao Parque Nacional da Kissama, onde abraça o mar numa foz larga e imponente.
A igreja Nossa Senhora da Muxima remonta ao século XVI. A  transferência da imagem da Nossa Senhora foi efectuada pelos holandeses para o local. É considerada monumento nacional  desde 1924 e recebe anualmente milhares de peregrinos. A festa da Senhora da Muxima celebra-se em Setembro.








Porto e Lisboa preparam o Dia Mundial da Poesia

Sophia, Cesário e Pessoa homenageados no Dia Mundial da Poesia
Os poetas Fernando Pessoa, Cesário Verde e Sophia de Mello Breyner Andresen vão ser homenageados nas comemorações do Dia Mundial da Poesia, que vão decorrer no próximo sábado, no Porto e em Lisboa.
“O Teatro Nacional D.ª Maria II, em Lisboa, organiza, na data, 21 de Março, uma declamação de poemas de Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Mário de Sá-Carneiro, três dos fundadores e principais autores da "Orpheu", revista do modernismo português, que completa cem anos.
A sessão está integrada no projecto Orpheu 100, do teatro nacional, que assinala o lançamento da revista, em Março de 1915, e a edição de "A confissão de Lúcio", de Mário de Sá-Carneiro.
O programa conta com a actriz Paula Mora, que declama o "Manifesto Anti-Dantas", texto satírico de Almada Negreiros, e José Neves, que apresenta "Um rádio por Pessoa", a partir de "O Guardador de Rebanhos", de Alberto Caeiro, um dos heterónimos do poeta.
O actor João Grosso, por seu lado, declama "Manucure", de Mário de Sá-Carneiro, num "fôlego futurista de recital, concerto e plástica sonora", como se lê na apresentação do programa do Teatro D.ª Maria.
No Porto, Pessoa e os seus heterónimos também protagonizam a proposta do Teatro Sá da Bandeira, mas no dia 23, com o espectáculo "A Minha Pátria é a Língua Portuguesa".
A Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, organiza uma feira do livro, que vai até domingo, 22 de Março, nas suas instalações e no Jardim da Parada, em Campo de Ourique.
No mesmo bairro, os grupos CampOvivo e Oficina de Teatro da Universidade Sénior vão declamar, nos cafés, à hora de almoço e ao lanche, poemas de Fernando Pessoa, Cesário Verde, Alexandre O`Neill e Sophia de Mello Breyner Andresen.
A poetisa vai ser homenageada no Porto, sábado, Dia Mundial da Poesia, com o programa "Poesia em Sophia", que se realiza nos jardins do Palácio de Cristal, e com um espectáculo no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, que recupera a sua obra para crianças e vai contar com a participação da comunidade escolar.
Resultado da parceria entre a Fundação Inatel e a Câmara Municipal do Porto, a iniciativa engloba representações teatrais, sessões de música e mostras de artes plásticas, inspiradas na obra da escritora.
Em Lisboa, o Centro Cultural de Belém (CCB) abre o Dia Mundial da Poesia com uma palestra do investigador Fernando Cabral Martins, sobre a vida e obra do poeta português Cesário Verde. Os poemas de Cesário serão declamados por diversos convidados, numa maratona de leitura.
O CCB realiza ainda uma feira do livro, particularmente dedicada à poesia, e o espectáculo musical "De Lisboa para o Mundo", pela Lisbon Poetry Orchestra.
Os prémios do concurso "Faça Lá um Poema", organizado em parceria com Plano Nacional de Leitura, também serão entregues durante a jornada do CCB dedicada à poesia.
Da parceria com a Casa da América Latina, o CCB acolhe, na sala Almeida Negreiros, a 4.ª Festa da Poesia Latino-Americana, com a evocação de obras dos poetas Pablo Neruda, Vinicius de Moraes, Manoel de Barros, Octávio Paz e Ernesto Cardenal, entre outros.
No Dia Mundial da Poesia, a Chiado Editora apresenta o Volume 21 da antologia "Entre o Sono e o Sonho", no Casino de Lisboa, com os actores Custódia Gallego e Carlos M. Cunha. Este volume reúne mais de 700 dos 1500 autores da obra de homenagem à poesia portuguesa.
A pretexto da data, a Assírio e Alvim, que se afirmou em particular com o catálogo de poesia, retoma a publicação do "Anuário de poesia de autores não publicados", cerca de 30 anos após a edição original, e reedita "Rosto Precário" e "Matéria Solar", de Eugénio de Andrade. “ Lusa

quinta-feira, 19 de março de 2015

Vem cá, meu gato

Vem cá, meu gato 

Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço; 
Guarda essas garras devagar, 
E nos teus belos olhos de ágata e aço 
Deixa-me aos poucos mergulhar. 


Quando meus dedos cobrem de carícias 
Tua cabeça e dócil torso, 
E minha mão se embriaga nas delícias 
De afagar-te o eléctrico dorso, 


Em sonho a vejo. Seu olhar, profundo 
Como o teu, amável felino, 
Qual dardo dilacera e fere fundo, 


E, dos pés à cabeça, um fino 
Ar subtil, um perfume que envenena 
Envolve-lhe a carne morena.



Charles Baudelaire, in  “As Flores do Mal”, Editora Assírio &Alvim

Os novos oceanos e os eclipses solares

Ganimedes, a maior lua de Júpiter e do sistema solar, tem um vasto oceano de água salgada debaixo da espessa crosta gelada e maior do que todos os oceanos da Terra juntos, foi hoje revelado.
"As conclusões, que se baseiam nas observações do telescópio espacial Hubble, das agências espaciais norte-americana NASA e europeia ESA, confirmam o que os cientistas suspeitavam anteriormente.
"Um oceano profundo, sob a crosta gelada de Ganimedes, abre ainda mais possibilidades quanto à existência de vida para além da Terra", afirmou John Grunsfeld, responsável pela investigação na NASA, defendendo que a descoberta marca "uma etapa significativa".
Para o director da divisão de ciência planetária da NASA, Jim Green, este oceano "comunicou" com a superfície do satélite natural num passado longínquo.
Segundo os investigadores, o oceano tem uma profundidade de cem quilómetros, dez vezes maior do que a dos oceanos da Terra juntos, e está sob uma crosta de 150 quilómetros formada essencialmente por gelo.
Desde a década de 70 que os estudiosos de planetas suspeitavam, com base em modelos de estudo de grandes luas, que Ganimedes, descoberta em 1610 pelo astrónomo Galileu, poderia ter um oceano, lembrou um dos principais autores da investigação hoje divulgada, Joachim Saur, da Universidade de Colónia, na Alemanha.
As novas observações com o Hubble, a partir de raios ultravioleta, permitiram detectar e estudar as auroras nas regiões polares de Ganimedes, que, como as da Terra, são provocadas pelo campo magnético.
Ganimedes está sob influência do campo magnético de Júpiter, planeta gasoso do qual está próxima e que é o maior do sistema solar. Cada vez que o campo magnético de Júpiter muda, as auroras sobre Ganimedes também se alteram.
Observando o movimento das auroras, os cientistas conseguiram determinar a existência de um vasto oceano salgado debaixo da camada de gelo, que afecta o campo magnético do satélite de Júpiter.
Uma vez que a água salgada é condutora de electricidade, o movimento do oceano influencia o campo magnético.
Ganimedes possui um diâmetro de 5.262 quilómetros, sendo, por isso, maior do que Mercúrio (4.879 quilómetros).
A existência de um oceano líquido sob uma camada de gelo já foi confirmada em Europa, outra das quatro maiores luas de Júpiter.
Recentemente, a NASA anunciou o envio de uma missão robótica para Europa, considerada, por um dos responsáveis científicos da agência espacial, Robert Pappalardo, como um dos lugares do Sistema Solar onde há maior probabilidade de ser encontrada vida.
O cientista explicou que a maior Lua de Júpiter tem uma crosta de gelo relativamente fina, sob a qual existe um oceano líquido em contacto com rochas profundas, é geologicamente ativa e é bombardeada por radiações que criam oxidantes e formam, ao misturarem-se com a água, uma energia ideal para alimentar a vida.
Na quarta-feira, a revista Nature noticiou a descoberta, por parte de investigadores norte-americanos, de que Encelado, uma Lua de Saturno, tem uma atividade hidrotermal, o que abre a possibilidade da existência de vida.
Os peritos analisaram os dados enviados pela sonda Cassini, da NASA/ESA, que revelaram poeiras de rocha ricas em silício ejectadas por geiseres (nascentes em erupção que lançam jactos de água quente e vapor)." Lusa, 12.03.2015

Um oceano primitivo em Marte continha mais água do que o Oceano Ártico na Terra e cobria uma maior superfície do "planeta vermelho" do que a que é coberta pelo Oceano Atlântico no "planeta azul", revela  um estudo.
Em comunicado, o Observatório Europeu do Sul (OES) refere que os resultados foram obtidos a partir dos espectrógrafos dos telescópios VLT, do OES, e do ITF e do Observatório W. M. Keck, ambos da NASA, que operam no infravermelho e com os quais uma equipa internacional de astrofísicos conseguiu distinguir as assinaturas químicas de dois tipos de água atmosférica. 
Com estes instrumentos, os cientistas mapearam "as propriedades da água em diversas regiões da atmosfera" de Marte durante cerca de seis anos.
"O nosso estudo dá-nos uma estimativa robusta da quantidade de água que Marte teve no passado, através da determinação da quantidade de água que se perdeu no espaço", sustenta o autor-principal da investigação, Geronimo Villanueva, que trabalha no Centro de Voo Espacial Goddard da NASA, em Greenbelt, nos Estados Unidos.
Segundo a equipa de investigadores, a estimativa "baseia-se em observações detalhadas de duas formas ligeiramente diferentes de água na atmosfera de Marte". Uma, explica o OES, "é a familiar forma da água, composta por dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio", e a outra "é água semipesada, uma variação que ocorre naturalmente, na qual um dos átomos de hidrogénio é substituído por um átomo de deutério".
A nota do Observatório Europeu do Sul assinala que, há cerca de quatro mil milhões de anos (o Universo tem cerca de 14 mil milhões de anos) o jovem planeta Marte "devia ter água suficiente para cobrir toda a sua superfície com uma camada líquida de cerca de 140 metros de profundidade".
Contudo, adianta o OES, "o mais provável é que o líquido se tenha juntado para formar um oceano que ocuparia quase metade do hemisfério norte de Marte, onde algumas zonas teriam atingido uma profundidade de mais de 1,6 quilómetros".
No estudo, publicado hoje na revista Science, os cientistas fizeram, de forma repetida, os mapas da distribuição de água normal e água deuterada (esta última perde-se menos no espaço devido à evaporação) ao longo de quase seis anos terrestres, o equivalente a perto de três anos em Marte.
Ao compararem a razão de água deuterada para água normal, os astrofísicos "podem medir quanto é que aumentou a fracção de água deuterada e, assim, determinar quanta água é que escapou para o espaço, o que, por sua vez, permite estimar a quantidade de água que Marte tinha no passado".
Os mapas de distribuição revelaram "variações sazonais e microclimas" na água atmosférica, apesar de Marte ser actualmente um deserto, o que, para os investigadores, pode ser útil na procura de água subterrânea no planeta." Lusa, 5.03.2015
 

 No equinócio da Primavera, a Lua vai tapar o Sol e as marés vão ser maiores
Nicolau Ferreira, Público
19/03/2015 - 07:08
"O Sol vai ficar parcialmente tapado em Portugal na sexta-feira, no mesmo dia do equinócio da Primavera. Estes fenómenos conjugam-se para produzir marés anormalmente altas.
Por ano, há normalmente dois eclipses solares na Terra. O primeiro de 2015 é já sexta-feira de manhã e será total para quem o vir no Atlântico Norte, nas ilhas Feroé (Dinamarca) e nas ilhas Svalbard (Noruega), quando a Lua tapar completamente o Sol durante dois minutos e 47 segundos, e a noite cair subitamente naquela região. Em Portugal, o fenómeno não será tão evidente, já que o eclipse será apenas parcial, mas, se as nuvens deixarem, será possível sentir uma diminuição de luminosidade, garantem os astrónomos.
Nas ilhas da Terceira e do Faial, no arquipélago dos Açores, este fenómeno astronómico será mais espectacular: aí, a Lua vai tapar 74,7% da área do Sol, por volta 7h50. Enquanto na Madeira, só 57,2% do Sol ficará encoberto, às 8h45. No Continente, onde o ponto máximo do eclipse será por volta das 9h, o fenómeno será mais completo à medida que se caminha para norte: em Faro, apenas 62,3% do Sol ficará tapado, enquanto em Braga ficará escondido em 72,4%.
Mas tudo dependerá do tempo que fizer na altura. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera promete aguaceiros fracos para o Continente e a Madeira, e nuvens para os Açores. “Se fosse um dia de céu limpo, seria mais fácil de perceber [o efeito]”, disse ao PÚBLICO Rui Agostinho, director do Observatório Astronómico de Lisboa (OAL). Em Lisboa, acrescentou o astrónomo, 66,9% do Sol ficará ocultado, e “isto nota-se”.
Por isso, vários observatórios astronómicos e centros de ciência do país prepararam postos de observação para quem quiser — e provavelmente antes de ir para o trabalho ou para a escola — começar o dia de uma forma diferente.
O eclipse irá durar em média duas horas. Em Lisboa, inicia-se às 7h59, atinge o seu ponto máximo às 09h01 e termina às 10h08. Na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no Campo Grande, estarão quatro telescópios apontados para o Sol, com as devidas protecções para os olhos. Haverá postos de observação no Planetário do Porto, nos centros da Ciência Viva em Aveiro, Bragança, Coimbra, Constância, Faro e Tavira, no Observatório Astronómico de Santana, na ilha de São Miguel, e na Universidade da Madeira, entre outros.
“Nos Açores, temos realmente as melhores condições, as mais favoráveis, para observar este eclipse parcial”, disse Pedro Garcia, técnico do Observatório Astronómico de Santana, à agência Lusa. Neste observatório haverá material necessário para quem quiser observar o fenómeno celeste, com o custo de um euro para os maiores de 12 anos. “Irá notar-se uma ligeira redução da luz. Irá escurecer um pouco e será visível em todo os Açores.”
Para observar o eclipse fora dos locais preparados, é necessário ter óculos especiais para não pôr em perigo a visão.
Coincidências astronómicas
O Sol é 400 vezes maior do que a Lua, mas como a Lua está 400 vezes mais perto da Terra do que o Sol, consegue tapá-lo completamente quando passa entre o Sol e a Terra. De vez em quando, Vénus também passa entre a Terra e o Sol, mas estando muito mais longe de nós, o que se vê é apenas uma pequena bolinha escura a atravessar-se no meio da nossa estrela (como ocorreu em Junho de 2012 e agora só voltará a fazê-lo em 2117).
Mesmo assim, nem sempre a Lua produz um eclipse solar total. O fenómeno de sexta-feira é apenas o 10º eclipse solar total do século XXI, apesar de geralmente haver dois eclipses solares por ano. Parte deles são parciais, quando a Lua não fica completamente à frente do Sol, outros são anulares — quando a Lua tapa o centro do Sol, mas fica visível um anel de Sol.
Isto deve-se à variação da distância entre a Lua e a Terra durante a órbita elíptica do satélite natural. Os eclipses anulares ocorrem quando a Lua está mais longe. E vista a partir do nosso planeta, ela torna-se mais pequena e não consegue tapar o Sol na totalidade. Em Outubro de 2005, foi possível observar um eclipse solar anular no Norte de Portugal.
Mas no eclipse desta sexta-feira sucede justamente o contrário. Nesta quinta-feira, a Lua atinge o perigeu — o ponto da sua órbita mais perto da Terra, a apenas cerca de 362.600 quilómetros de distância. Por isso, vai conseguir tapar todo o Sol, produzindo uma região de eclipse total numa faixa com uma largura entre os 410 e 480 quilómetros, segundo o OAL, ao longo de uma linha de 5600 quilómetros no Atlântico Norte, avança a agência AFP.
Uma sonda que estivesse a filmar o fenómeno no espaço iria registar uma grande sombra a surgir a sul da Gronelândia e a deslizar pelo Atlântico, passando entre a Islândia e o Reino Unido, rumando depois para norte e galgando o arquipélago de Svalbard, até desaparecer no Pólo Norte, na região onde já será noite."