quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Song of India

"I wanna go where the mountains are high enough to echo my song
I wanna go where the rivers run deep enough to drown my shame
I wanna go where the stars shine bright enough to show me the way
And I wanna go where the wind calls my name
The wind is calling India India India"  Song of India

Rimsky- Korsakov escreveu inúmeras óperas. Algumas ficaram famosas. "Sadko" confirma-o. " Song of India" é uma ária que faz parte dessa ópera. Ei-la, numa excelente interpretação pelo Coro e  Orquestra Sinfónica de Kingsway,  regida pelo Maestro Tutti Camarata.



quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

CONTIGO


Acordo na manhã de oiro
entre o teu rosto e o mar.

As mãos afagam a luz,
prolongam o dia breve.

Entre o teu rosto e o mar
ninguém deseja ser neve.

Ninguém deseja o veneno
da noite despovoada.

Acorda-me a tua voz,
nupcial, branca, delgada.

Eugénio de Andrade, in " Até amanhã", Assírio& Alvim



terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A VIDA INTEIRA

A  VIDA  INTEIRA
Por  Eugénio Lisboa 
"Quando tinha dezasseis anos e vivia em Lourenço Marques, capital de Moçambique e capital da memória (a Maria de Lourdes Cortez que explique), comprei, na Minerva Central ou na Progresso, um romance intitulado, na tradução portuguesa de Tomás Ribeiro Colaço, A Vida Inteira (Katrina), cujo autor era uma autora, para mim desconhecida: Sally Salminen. O livro aparecia publicado numa boa colecção da Guimarães & Cª. Editores, intitulada: “Obras Primas Contemporâneas” e ganhara, cerca de dez anos antes, um prémio de 50.000 marks, dado por uma editora sueco-filandesa ao melhor manuscrito de romance enviado a concurso. O  texto de Sally Salminen (sueca) era um de entre 76 submetidos à competição e o prémio tornou instantaneamente famosa a sua autora. Em seis meses, venderam-se, na Suécia (país pequeno), 50.000 exemplares. “Para encontrar um êxito comparável com este”, dizia a nota do editor português “seria necessário remontar a 1890 – data da revelação de Selma Lagerlöf”.
Eu estava numa fase em que o feitiço exercido em mim pelo Stendhal de Le Rouge et le Noir me criava uma espécie de inapetência por tudo quanto não fosse parecido com aquilo. O estilo seco, agudo e voltaireano do autor da Chartreuse permitia-me ler com gozo o Candide ou O Ingénuo, do dito Voltaire, mas tornava-me, de momento, difícil o acesso a prosa menos ágil. Seja como for, meti mãos ao romance sueco – e foi um deslumbramento.
A simplicidade, a espontaneidade da escrita de Sally Salminen, a desenvoltura narrativa e, sobretudo, a densidade soberba de experiência transfiltrada para a escrita subjugaram-me por completo. Havia também, é claro, o fascínio daquelas paisagens nórdicas e estranhas, para um adolescente que nunca saíra do Índico soalheiro, quente e húmido. Mas foi, sobretudo, aquele compacto de vida (“arrumada” em cerca de duzentas e cinquenta  páginas despretenciosas e cheias) que me cativou. Dizia Charles du Bos, de Guerra e Paz, que era como se fosse a própria vida a falar. A Vida Inteira era também a vida a falar: mas fazendo-o em voz baixa e carregada de ensinamentos, alegrias e decepções, em voz humilde mas sábia e persuasiva. Stendhal dera-me, para sempre, uma imensa desconfiança em relação às vozes empoladas. Sally Salminen, embora em registo diferente (que tem Sibelius a ver com Voltaire?), agravava em mim a mesma desconfiança.
A Vida Inteira ficou-me sendo, pela vida fora, um desses tesouros preciosos e um pouco secretos, de que prefiro não falar, a não ser a muito poucos. Abro hoje uma excepção (e o meu exemplar não sai de casa, aviso). Nunca perdi o livro: de Lourenço Marques para Lisboa, de Lisboa para Lourenço Marques, para Cape Town, para Lourenço Marques, para Johannesburg, para Estocolmo, para Lisboa, para Londres, para Lisboa, finalmente, perdi muita coisa mas guardei, cuidadosamente, o livro dos meus dezasseis anos. Cinquenta e poucos anos depois e vários baldões pelo meio deixaram intacta – inteira – A Vida Inteira. Tenho-a aqui, ao pé de mim, enquanto escrevo esta crónica.
A que vem tudo isto? Porquê falar hoje de uma fulgurante experiência de leitura que tive há 50 anos? Porque estas experiências, às vezes (não muitas), se repetem. Tive há pouco uma quase semelhante. E não digo igual, porque já não tenho dezasseis anos e as emoções que certas descobertas me dão já não encontram os neurónios com a mesma frescura. Mas, se o encontro não foi igual, foi, pelo menos, tão parecido quanto é possível. Trata-se, aqui vai, da leitura de um romance que me fora enviado pela autora e que fui criminosamente pondo de lado, à espera de vez. Até que, ao fim de mais de um mês, peguei nele e meti-o na pasta, para o ir lendo a caminho de Aveiro (e volta). O livro a que me refiro é um romance, como disse, e tem sido incompreensivelmente negligenciado pela crítica (a sofisticada e a outra): talvez devido ao facto de a autora escrever também versinhos ligeiros para “shows” televisivos (é preciso ganhar a vida). Foi com preconceitos destes que Gide (bom leitor) começou por lixar a vida ao Proust, visto não acreditar que um snob lambedor de rabo de marquesas pudesse fazer boa literatura. Em geral, não consegue mas, às vezes, acontece... Enfim, chega de suspense: estou aqui a referir-me ao belo romance de Rosa Lobato de  Faria          ,Romance de Cordélia. O livro é uma beleza: de desenvoltura narrativa, de escrita, de vigor, de humor, de malícia, de conhecimento (vasto e profundo) da vida. Espreme-se aquele fluxo imparável e encantatório de palavras e não saem palavras: saem histórias fabulosas, capitosas, cheias de bons e maus cheiros, sai experiência, sai um relato prodigioso de uma avó e de uma inesquecível relação com uma neta, saem horrores e coisas sublimes, o céu e o inferno, a cloaca da vida e o que a vida tem de melhor e mais puro. E tudo com um enorme talento, com brio, com inapagáveis golpes de asa, com uma energia que não exclui um fluir alado, com uma invejável capacidade de pairar sobre abismos sem que isso lhe envenene nem o sangue nem a caneta. E com a noção, sempre presente e de tantos outros tão ausente, de que a grande arte do romance é também eminentemente, uma arte de entretenimento: O Romance de Cordélia responde a um amplo leque de exigências, incluindo o nosso milenar desejo de não nos aborrecermos.
Rosa Lobato de Faria publicou, entre 1995 e 1998, quatro romances que se têm vendido, mesmo quando a crítica displicentemente os desatende. Deles disse o meu velho e ágil amigo (de olho de águia), João Bettencourt da Câmara: “Êxito espantoso para quatro breves anos nas letras nacionais – e que só deve à crítica nacional o favor de ter ficado calada (exceptuando, que eu saiba, o discernimento da Vértice e da Brotéria)”. Grande João! Tão grande, que te vou citar mais uma vez, para gozo meu e vexame deles (nos quais estive quase a ser incluído, embora com a desculpa de não ser crítico nem colunista regular e encartado). Aí vai e é do bom: “Livro que se constrói, em ficção, sobre uma série de histórias de vida reais, cuidadosamente recolhidas pela autora e por ela sabiamente recontadas, sem que se perca o drama, a violência, a ternura, a linguagem de um submundo forçado a ocultar-se sob as abas da nossa vergonha colectiva. (...) Mas mais vale experimentá-lo do que julgá-lo: quem tendo-o começado, for capaz de o abandonar merece um doce. O cianeto é por minha conta.” Meu caro João, como diria o Montherlant, c’est ça. C’est bien ça.
Dizia E. M. Forster que a prova final de um romance será sempre o nosso afecto por ele. Fiquei, ainda não tinha chegado ao fim da leitura, amigo do Romance de Cordélia. E em tal pânico de cessar de estar com a sua autora que, no intervalo de duas intervenções, em Aveiro, corri a uma livraria a comprar o que ali houvesse dela: havia dois romances! Estava salvo. Comprei-os e fui para a Universidade, para o combóio, para o Porto, para Lisboa, sossegado. Estava governado. São estes afectos que contam e que ficam. Não gosto de ir para um país qualquer, por muito tempo, sem levar comigo Os Maias, Le Rouge et le Noir, um Tolstoi, um Montherlant, algum Thomas Mann, as Conversações de Goethe  com Eckermann, algum volume de A Velha Casa, alguma lírica de Camões, Montaigne... Não estou a falar dos melhores (há outros tão bons). Estou a falar dos que me fazem companhia. Dos que me aquecem a alma. Dos amigos com quem gosto de falar, à bâtons rompus. Na Vida Inteira estava a vida inteira. No Romance de Cordélia também. Acrescento-os, com gosto, ao pelotão dos amigos.

P.S. – Quando falo na desatenção da crítica, não quero deixar de mencionar aqui uma incomensurável consolação: o conhecimento que tive do notabilíssimo texto de apresentação do romance, lido por ocasião do lançamento do livro pela editora ASA, e da autoria da minha boa Amiga e grande ensaísta, Teresa Martins Marques (outra que também pertence, de direito, ao pelotão acima referido)." Eugénio Lisboa

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O sonho da Fada

" Eu sei o belo segredo do mundo.
...  ... ...
Melusina flutua na sua irrealidade. De inviolável ignorância e de ar secreto é feita  a gaze do seu vestido. E solitária, ignorada, verdadeira apesar de sozinha, Melusina, sem esperança de regresso, cria a sua vida e o seu mundo através do seu sonho. Ofício de fada.
Sem ligações, sem razões, passam estranhas imagens que ela recompõe na unidade do seu sonho - Melusina, a ignorada, que se revela. A sua pura solidão essencial canta e manifesta-se, entrega-se sem causa, apenas pelo prazer de se dar. Eis Melusina revelada.
Apenas conhecida, ela não se contenta com admirar-se  e eis que, ornado de flores e insectos o mundo se abre, demasiado belo, ignoto porque o vemos mal, mal amado sobretudo.
Tornada real, de irreal mas verdadeira que era, Melusina saboreia o íntimo gosto dessa transformação - saboreia-o lentamente à medida que o descobre. Ordenada por fim, obediente, a música do sonho continua. Mas que faz o sonho da fada, realidade nossa? O sonho espaça-se - Melusina revelada, em seguida amor puro, e terra, e água, e ar - os animais mamados, altivos, adoráveis, impudicos. Do sonho brota a existência, mas nela mora Melusina cada vez menos. Na alegria da música , do amor e das cores se esconde Melusina, lentamente degradada, conhecendo-se cada vez menos. O sonho prossegue lentamente, até se inclinar na adoração da terra. O mundo brota ainda. Génese irreal cujo verbo é Melusina. Porque sonhou ela a nossa realidade?
Indigno,impuro, brota do sonho enfim aquele que fala para dizer: Melusina - único meio de se aproximar dela. Tudo continua. Melusina flutua agora na nossa realidade.
Depois, tudo retrocede, tudo regressa ao morno desespero e à tímida revolta. Melusina está cansada. Aquele que fala regressa à  terra; ao ar, à água. E a água ao Amor, a todo o universo, às flores, magnólias, juncos , acónitos. E o próprio Amor abismado regressa a Melusina revelada, que por sua vez vai adormecer em si própria.
O sonho esvai-se. O esforço é vão: nada se pode criar unicamente com a força do amor. Apenas uma caricatura. No mundo  que desaparece lembro-me  que, sobre um lago, cintilava a prata de um nevoeiro - o vestido de Melusina.
... ... ... ... ...
É esse o belo segredo do mundo." Albert Camus, in " escritos de juventude", Edição " Livros do Brasil" - Lisboa

domingo, 15 de dezembro de 2013

Ao Domingo Há Música

Amor, amor, amor, como não amam
os que de amor o amor de amar não sabem,
como não amam se de amor não pensam
os que de amar o amor de amar não gozam.
Amor, amor, nenhum amor, nenhum 
em vez do sempre amar que o gesto prende
o olhar ao corpo que perpassa amante
e não será de amor se outro não for
que novamente passe como amor que é novo.
Não se ama o que se tem nem se deseja
o que não temos nesse amor que amamos,
mas só amamos quando amamos o acto
em que de amor o amor de amar se cumpre.
Amor, amor, nem antes, nem depois,
amor que não possui, amor que não se dá,
amor que dura apenas sem palavras tudo
o que no sexo é o sexo só por si amado.
Amor de amor de amar de amor tranquilamente
o oleoso repetir das carnes que se roçam
até ao instante em que paradas tremem
de ansioso terminar o amor que recomeça.
Amor, amor, amor, como não amam
os que de amar o amor de amar o amor não amam.
Jorge de Sena, in "Peregrinatio Ad loca infecta" , 16.06.1965,  "Antologia Poética", Edições Asa , pgs.157-158

A Poesia, a Música e a Dança são artes maiores que  podem dar forma a qualquer sonho. Quando o amor  anda no ar , o Homem sonha . E se as convoca , os milagres acontecem, explodem , materializam-se , revelando-lhe a magnitude desse sentimento.
Eis como  Thomas Feiner  o sentiu  em " For Now (Love in Thoughts )".

E, num desenho de corpos, intenso,  audacioso onde imperam a volúpia e a sedução , Aurélie Dupont e Manuel Legris resplandecem na  celebração do amor . A dança e a música fundem-se nos labirintos da descoberta e da entrega dos amantes." Le Parc"  é uma obra de 1994, com coreografia de  Angelin Preljocaj, criação sonora de Goran Vejvoda  e a espantosa música de Wolfgang Amadeus Mozart  que se transformou num ícone do Ballet da Ópera de Paris.  Eis o último acto,   "3º  Abandon  pas de deux" ,  numa excelente interpretação. 

sábado, 14 de dezembro de 2013

Assim vai o Mundo

Michelle Bachelet: entre “os mercados” e o clamor das ruas 
 Por Frederico Füllgraf,  de Santiago do Chile
"A poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais no Chile, ninguém mais, dentro e fora do país, duvida que Michelle Bachelet será a mandatária do país andino até 1º. de Janeiro de 2018.
A direita, que em menos de um ano escalou três candidatos, dos quais dois renunciaram – o último deles, o pinochetista Pablo Longueira, afetado por grave crise de depressão – disputa o páreo com Evelyn Matthei, filha de um general que durante catorze anos integrou a ditadura Pinochet, e que nada fez para impedir a prisão e a morte de seu colega de farda, Brigadeiro Alberto Bachelet, pai da candidata de centro-esquerda, falecido nas masmorras da ditadura chilena em Março de 1974. Indiferente à derrota que sua candidata sofrerá no próximo domingo, 15, Sebastián Piñera, dono de patrimônio avaliado em 2,5 bilhões de dólares, retorna aos seus negócios, distribuídos entre línhas aéreas, o clube de futebol Colo Colo, administradora de cartões de crédito e supermercados.
Para Evelyn Matthei o páreo se encerra em 15 de dezembro, já para a virtual Presidente Bachelet a arrumação do país começa no dia seguinte. Seus desafios são enormes: o Chile não apenas vive sob uma democracia amordaçada pelo legado pinochetista, com uma Constituição e leis ordinárias permeadas pelo estado de exceção, mas é também um país assimético, ultra-centralizado em Santiago, com notável dívida à diversidade e autonomia das províncias, e sobretudo um país imensamente desigual.
As 50 medidas dos primeiros 100 dias de governo
A duas semanas de assumir o poder, Bachelet terá que arrebatar a Sebastián Piñera e sua bancada direitista no Congresso, a garantia de disponiblidade orçamentária para financiar as primeiras 50 medidas que pretende implementar nos primeiros 100 dias de seu governo. A grosso modo, seu programa de governo, dilatado em quatro anos, está focado em três grandes eixos: as reformas tributária, do ensino e da Constituição. Contudo, um amplo leque de medidas emergencias tem por objetivo reduzir imediatamente parte da dívida social acumulada. Entre elas estão a entrega dos primeiros 500, de um total de 4.500 novos berçários em todo o Chile; a criação de duas novas universidades públicas regionais, uma delas na explosiva província de Aysén; convênios para criação das 5 primeiros escolas públicas regionais de Formação Técnica; implementação do Fundo Nacional de Medicamentos, conveniado com todas as municipalidades do país; contratação de 750 novos médicos especialistas para o sistema de saúde pública; projeto de lei que cria, a partir de 2014, o Aporte Familiar Permanente, subsídio de combate à pobreza no valor mensal de 40.000 Pesos (equivalente a R$ 175,00) que beneficiará 2,0 milhões de famílias; programa de Formação e Capacitação Profissional para aumentar a participação feminina no mercado de trabalho, beneficiando 300.000 mulheres, e assim por diante."Frederico Füllgraf 
Leia o artigo completo em : Füllgrafianas
Temporal no Brasil 
Rio de Janeiro. Além das vítimas no Rio de Janeiro, as enchentes provocadas por fortes chuvas desde a última quarta-feira deixaram um morto e desabrigados em cidades do interior e das regiões metropolitanas em Goiás e Espírito Santo
Chega a 2.563 o número de famílias afectadas pelas chuvas na baixada fluminense. De acordo com balanço divulgado ontem pela Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos, a maior parte das famílias desalojadas por causa das chuvas já retornou às suas casas ou foi para a residência de familiares ou amigos."


Rodrigo Leão na lista dos nomeados  para os Óscares 
"Rodrigo Leão que compôs a banda sonora para o novo filme de Lee Daniels, O Mordomo, está entre os 114 compositores escolhidos para uma possível nomeação aos Óscares. A Academia Americana de Artes e Ciências Cinematográficas divulgou esta quinta-feira a lista dos compositores candidatos à nomeação para melhor banda sonora original, onde surge Rodrigo Leão.O nome do português está entre candidatos bem conhecidos da Academia e já habituais nesta lista, incluindo os cinco compositores nomeados ontem para os Globos de Ouro: Hans Zimmer (12 Anos Escravo), Steven Price (Gravidade), John Williams (A Rapariga Que Roubava Livros), Alex Ebert (Al lis Lost) e Alex Heffes (Mandela: Longo Caminho Para a Liberdade). E escreve a imprensa especializada que é muito provável que estes três primeiros compositores (Zimmer, Price e Williams) cheguem mesmo à nomeação final." Público

Maria Mota, galardoada com o Pessoa 2013

Público.pt - ‎Há 1 hora‎

"Há quase 19 anos que investiga o parasita da malária. Nesta sexta-feira, Maria Mota viu o seu trabalho reconhecido com a atribuição do Prémio Pessoa 2013, no valor de 60 mil euros. Maria Mota, de 42 anos, há mais de dez que lidera uma equipa que...Leia o artigo AQUI
A guerra fratricida na República Centro-Africana 
"Os confrontos armados entre muçulmanos e cristãos na República Centro-Africana deixaram pelo menos 600 mortos em uma semana, sendo 450 só na capital, Bangui, de acordo com um relatório publicado nesta sexta-feira pelo Alto Comissariado para Refugiados das Nações Unidas (Acnur). Pelo menos 159 mil pessoas deixaram as suas casas nos últimos sete dias.
Muitos dos que fugiram estão em condições absolutamente precárias. Quase 110 mil buscaram campos de refugiados na capital, e outras 38 mil alojaram-se no aeroporto da cidade - onde não há banheiros ou abrigo. O local, no entanto, representa segurança: é a base dos 1.600 soldados franceses deslocados, que, junto aos 3 mil da Missão Internacional Africana (Misca), não conseguiram pôr fim ao conflito.
Há ainda uma grande concentração de deslocados em Bossangoa, onde fica parte do exército francês.
"Espontaneamente e em busca de vagas, 40 mil cristãos de Bossangoa e das aldeias próximas foram-se juntando ao redor do arcebispado da cidade, de apenas quatro hectares", conta a ONG Acção contra a Fome. "Do outro lado da cidade, as famílias muçulmanas procuram, há pelo menos seis dias, a escola Liberté."
Em visita à capital na manhã desta sexta-feira, o ministro da Defesa da França, Jean-Yves Le Drian, falou sobre o "início de uma crise humanitária". Ele viajou para apoiar o contingente da Operação Sangar, tendo declarado:"A República Centro-Africana é um país à deriva. Temos que ficar atentos ao perigo de que reine a anarquia e a situação acabe desestabilizando toda a região, atraindo grupos criminosos e terroristas." DP
Papa Francisco, Figura do ano
"O Papa Francisco foi eleito a figura do ano de 2013 pela revista americana Time, que justifica a escolha do líder da Igreja Católica por este ter assumido uma "nova voz de consciência".
Destacando a "humildade" e a "compaixão" do papa Francisco, eleito a 13 de Março de 2013, a revista americana justifica que "raramente um novo actor da cena mundial captou tanto e tão rapidamente a atenção dos mais novos e dos mais velhos, dos crentes e dos cépticos".
O papa Francisco derrotou outros candidatos a personalidade do ano, entre os quais o ex-consultor informático Edward Snowden, que denunciou programas de vigilância de comunicações levados a cabo pelos Estados Unidos, e o Presidente da Síria, Bashar al-Assad, que lidera uma das frentes de combate da guerra civil sangrenta que se prolonga há mais de dois anos.
Na lista de candidatos estava também a activista Edith Windsor, que conseguiu que o Supremo Tribunal dos Estados Unidos decretasse a inconstitucionalidade de restringir o casamento a pessoas heterossexuais; e Ted Cruz, senador republicano ligado à facção mais conservadora Tea Party, que foi uma das mais fortes vozes de bloqueio à reforma do sistema de saúde dos Estados Unidos." Sol

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

De Pessoa como pura virtualidade

476.
"Parecerá a muitos que este meu diário, feito para mim, é artificial de mais. Mas é de meu natural ser artificial. Com que hei-de eu entreter-me, depois, senão com escrever cuidadosamente estes apontamentos espirituais? De resto, não cuidadosamente os escrevo. É, mesmo, sem cuidado limador que os agrupo. Penso naturalmente nesta minha linguagem requintada. 
Sou um homem para quem o mundo exterior é uma realidade interior. Sinto isto não metafisicamente, mas com os sentidos usuais com que colho a realidade. 
A minha frivolidade de ontem é hoje uma saudade constante que me rói a vida.
Há claustros na hora. Entardeceu nas esquivanças. Nos olhos azuis dos tanques um último desespero reflecte a morte do sol. Nós éramos tanta coisa dos parques antigos; de tão voluptuoso modo estávamos incorporados na presença das estátuas, no talhado inglês das áleas. Os vestidos, os espadins, as perruques, os meneios e os cortejos pertenciam tanto à substância de que o nosso espírito era feito! Nós quem? O repuxo apenas, no jardim deserto, água alada indo já menos alta no seu acto triste de querer voar." Livro do Desassossego

Quando se celebram os 125 anos do autor de Livro do Desassossego, a Casa Fernando Pessoa reuniu mais de quarenta investigadores, críticos, tradutores e criadores de variados países que encontram neste escritor universal alento e inspiração para os seus percursos académicos ou artísticos. O III Congresso Internacional Fernando Pessoa realizou-se nos dias 28, 29 e 30 de Novembro, no Teatro Aberto em Lisboa, conforme anunciámos. No segundo dia, entre as 10 e as 11 da manhã, no painel Narrei-me à sombra e não me achei sentido, Eduardo Lourenço leu De Pessoa como pura virtualidade, texto que constitui um prefácio inédito, escrito para uma obra de Leyla Pérrone-Moisés . Participaram também nesta sessão, moderada por Maria Manuela Viana, Teresa Rita Lopes e Fernando Cabral Martins.
Eis o registo dessa apresentação.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A minúscula Europa

Europa, quantas divisões?
10 Dezembro 2013 Les Echos  Paris 
"A sociedade contra as elites, o Norte contra o Sul, a Alemanha contra a França, a Grã-Bretanha contra todos os outros: o nosso continente multiplica as divisões que o fragilizam face ao novo rumo do mundo. Devemos voltar a mostrar coragem e continuar a acreditar na Europa, afirma o politólogo Dominique Moïsi.
"Europeus, abram os olhos. Em 2050, constituirão apenas 6% da população mundial, quando representavam 20% no início do século XVIII. Juntos, sois pequenos. Isolados no seio das vossas nações, sois minúsculos! Até a Alemanha, o novo gigante económico e demográfico da União Europeia representa, hoje em dia, apenas 1% da Humanidade, um número que virá a diminuir no futuro. Entretanto, o continente africano passou de 180 milhões de habitantes em 1950 para mais de mil milhões hoje em dia, e ultrapassará muito provavelmente os dois mil milhões dentro de trinta anos. A demografia não é, de facto, o único factor a ter em conta: a influência de Singapura não se mede pela dimensão da sua população. Mas não deixa de ser importante.
Os europeus precisam cada vez mais da União Europeia, não apenas pelo facto de serem cada vez menos, como também pela maior incerteza que rege o mundo.
Sérias preocupações
A América tem vindo a afastar-se, cansada das suas aventuras militares dispendiosas e incertas no Médio Oriente. Provavelmente, o país também se sente mais tranquilo por saber que, em 2020, irá tornar-se independente a nível de recursos energéticos, graças ao gás e ao petróleo de xisto. A Rússia aproxima-se cada vez mais, mas não no bom sentido da palavra, não a nível dos valores mas das suas ambições imperiais. Nunca renunciou à Ucrânia e investe todas as suas forças em Kiev. Não estamos perante uma nova Guerra Fria, a Rússia não é a URSS, mas, no leste, surgiram novos acontecimentos que geram sérias preocupações.
As revoluções árabes podem suscitar uma dupla analogia, com a Revolução Francesa e com as guerras religiosas
No sul, o Médio Oriente entrou num processo de fragmentação, desde o início da Primavera Árabe. As revoluções árabes podem suscitar uma dupla analogia, com a Revolução Francesa e com as guerras religiosas que ensanguentaram a Europa de meados do século XVI até meados do século XVII: com os xiitas e os sunitas no papel dos protestantes e dos católicos. Mas, na realidade, são os acordos Sykes-Picot de 1916 [sobre a divisão do Médio Oriente após a Primeira Guerra Mundial] que estão a colapsar perante os nossos olhos e, à medida que se desmoronam, fracturam a unidade de países como o Iraque, a Síria e a Líbia, a fundação sobre a qual assentava o Médio Oriente.
Por fim, temos a Ásia, que se encontra em pleno clima de tensão. De Tóquio a Pequim passando por Seul, as elites asiáticas perguntam, preocupadas, se 2013 não será para o continente o equivalente ao que foi 1913 para a Europa, o ano que precedeu a guerra. Nenhum deles quer iniciar um conflito armado, mas também não fazem esforços suficientes para evitar que uma guerra inesperada rebente no mar da China.
Europa fecha-se
O que faz a Europa perante um ambiente internacional cada vez mais perigoso? Fecha-se sobre si mesma, criando todas as condições para o reforço do populismo no seio da UE.
Em 1994, foi lançado um filme na Grã-Bretanha, que teve muito sucesso: Quatro Casamentos e um Funeral*, com Hugh Grant como protagonista. Hoje em dia, para descrever a realidade europeia, poderíamos falar em: “Quatro divórcios e nenhum funeral”.
Na verdade, existe um quadruplo divórcio que tem vindo a aprofundar-se no seio dos países membros da União Europeia. O primeiro, e o mais importante, é o que existe entre a sociedade e as elites, quer se tratem das elites nacionais ou “bruxelenses”. Este divórcio precedeu a crise económica e financeira que começou em 2007. Os referendos negativos sobre o Tratado constitucional na França e na Holanda, em 2005, provam-no. A crise só veio aumentar o fosso que se abriu entre o projecto europeu que já não convence ninguém – à excepção dos não europeus e dos não membros da União Europeia, como a Ucrânia – e os cidadãos desiludidos pela política e os seus políticos.
O segundo divórcio, o geográfico, é o que existe entre o sucesso da Europa do norte, com a Alemanha na linha da frente, e o fracasso da Europa do sul, representada pela Grécia, ainda que Atenas, felizmente, continue sozinha na sua categoria. A esta divisão norte-sul, convém doravante adicionar uma dimensão este-oeste. De facto, à excepção da Polónia, os países de leste e do centro da Europa que entraram para a União entre 2004 e 2005 estão mal, tanto de um ponto de vista económico como político.
Uma crise ética
O terceiro divórcio é um “divórcio de situação” entre os dois países que formavam os pilares da União Europeia: a França e a Alemanha. Por outras palavras, Paris já não se encontra na mesma categoria que Berlim. De facto, a impotência calculada da Alemanha no plano internacional tende a restabelecer um certo equilíbrio entre estes dois países. No entanto, trata-se de um equilíbrio artificial. Desde 1995 e da morte de François Mitterrand que nenhum Presidente da República se equipara a um chanceler da Alemanha. Não é de estranhar, portanto, que a França se aproxime seriamente do sul da Europa e dos seus problemas e que se afaste da Europa do norte e dos seus sucessos.
O quarto divórcio, entre a Grã-Bretanha e a Europa, torna o terceiro ainda mais problemático. Paris já não pode contar com Londres para fazer frente a Berlim, uma vez que Londres se está a afastar cada vez mais do continente, o que irá muito provavelmente levar à realização de um referendo sobre a Europa em 2017.
Se a Europa, que viveu muito acima das suas possibilidades de um ponto de vista material, e muito abaixo das suas possibilidades de um ponto de vista político, intelectual ou espiritual, recuperar a lucidez e a coragem perante uma crise que é, antes de mais, ética, não haverá funerais. Agora, mais do que nunca, os europeus precisam de continuar a acreditar na Europa e na sua combinação excepcional de unidade e diversidade." Presseurop, 10/12/2013

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