segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Distopia


Como será  o amanhã...!?
um itinerário sem destino?
um calendário de incertezas?
O que restará dessa anémica biosfera...!?
do fluxo agonizante das nascentes...
das bandeiras hasteadas pela vida!?
Dia a dia e esse palco inquietante...!
esse escasso oxigénio,
essa delgada água,
esse termómetro assustador.
Ano a ano e a ampulheta  do  caos escorrendo lentamente  nossas  vidas...!
nessa paisagem devorada,
nesse carbono letal,
nesse mapa pontilhado pela morte.

Como será o planeta do amanhã...!?
Um mar sem arquipélagos?
um oceano de migrantes?
uma praia de naufrágios?
Falo de uma temperatura cruel,
de paisagens derretidas,
de uma frota de icebergs navegando os sete mares.

Como será a terra do amanhã!?
um campo  calcinado?
uma lavoura sinistra?
Que sabor terão os frutos na próxima estação?
que surpresas nos escondem os segredos da ciência?
o que colheremos da alquimia da ganância?
Falo de patentes  criminosas,
de sementes suicidas,
dessa dinastia de flores virulentas polinizando a vida
e desse bizarro contrabando germinando sobre a terra.(...)
Manoel de Andrade, "Distopia", in "Cantares" ,Editora Escrituras, S. Paulo, Brasil


Este excerto do excelente poema " Distopia" do poeta brasileiro Manoel  de Andrade remete para um tema muito actual , o equilíbrio do Mundo e a sobrevivência das gerações futuras. Apesar dos representantes mundiais se reunirem em magnas cimeiras tendo em vista a aferição dos níveis que permitam uma prolongada sustentação da Terra, a poluição alarga e o homem continua a ser a mão cega que destrói, o agente que mata e transforma o mundo num areal negro. A espuma dos dias fica-se num mar de palha onde o quebrar das ondas se perderá num oceano de destroços. 
O desconcerto do mundo será sempre uma fonte de reflexão nas diversas áreas de expressão.
" Man" é  uma  expressiva animação criada por Steve Curts que retrata sumariamente a relação do maior predador vivo com a natureza. A música, "In the Hall of the Mountain King" , é  de Edvard Grieg.  

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Ao Domingo Há Música


"Fernão Capelo Gaivota (Jonathan Livingston Seagull) é um filme que marcou uma geração e transformou o livro de Richard Bach num best-seller que vendeu 40 milhões de cópias e o fez viajar por 70 países do mundo. Fernão Capelo Gaivota é uma ave que não se contenta em voar apenas para comer, ou em lutar para sobreviver. Fernão tem prazer em voar e esforça-se para aprender tudo sobre vôo. Por ser diferente do bando, é expulso. 
Com excelente trilha sonora de Neil Diamond e magnífica fotografia, o filme é uma parábola. Faz uma analogia entre o homem e a gaivota, no sentido de mostrar as dificuldades de superação dos limites, do encontro com a liberdade verdadeira e a espiritualidade, pautadas no amor e na compreensão do outro."
Num mundo  tão ameaçado  , recordar a saga desta gaivota, na voz  maior de Neil Diamond em " Lonely looking sky ", é um excelente pretexto para transformar o Domingo num grande momento.
"(...)escolhemos o nosso mundo através do que aprendemos neste. Se não aprendermos nada, então o próximo mundo será igual a este, com as mesmas limitações e obstáculos a vencer." Richard Bach, in  "Jonathan Livingston Seagull"

"

sábado, 16 de fevereiro de 2013

PALAVRAS


Vi trigo     vi fome
vi ferros     vi feras
vi ruas     vi nomes
vi grades     vi esperas
vi armas     vi muros
vi lutas     vi mortes
vi surdos     vi mudos
vi fracos     vi fortes
vi mares     vi terras
vi negros     vi servos
vi fardas     vi guerras
vi balas     vi nervos
vi corpos     vi cardos
vi fama     vi glória
vi punhos     vi cravos
vitória     vitória
vi abril     vi povo
vi rosto     vi espanto
vi nosso     vi novo
vi pouco     vi tanto
tão cedo     tão cedro
tão certo     tão perto
tão raiva     tão medo
tão mar     tão deserto
tão lua     tão leve
tão pobre     tão pouco
tão fúria     tão febre
tão longe     tão louco
tão alto     tão erva
tão raso     tão resto
conversa     conserva
tão lento     tão lesto
tão urze     tão hoje
tão zero     tão tojo
tão fica     tão foge
tão ontem     tão nojo
tão mata     tão morra
tão égua     tão água
tão pinho     tão porra
tão merda     tão mágoa
Joaquim Pessoa, in “ 125 poemas / antologia poética” - Litexa-Editora, 1989

Novidades literárias


A Revista Granta vai ser lançada em Portugal  e em português. A direcção será de Carlos Vaz Marques, com edição da Tinta da China e a  chegada ao mercado está prevista para Maio próximo. Entretanto, a assinatura estará em promoção até 31 de Março, com redução de 30% na subscrição de  dois anos e inclui, como oferta, o livro "Sob Céus Estranhos", de Daniel Blaufuks. Sobre o  primeiro número português da Granta, Carlos Vaz Marques informou de que sairá com  um tema original — o que aliás acontecerá em todas as edições. “A ideia de fazermos o primeiro número com o ‘EU’ marca o carácter irredutivelmente literário da revista, mesmo quando publicarmos uma reportagem. O ponto de vista de onde partimos para a Granta portuguesa é assumidamente subjectivo. Cada autor representar-se-á a si mesmo, o que já é imenso”, explica ." Leia mais em Granta Portugal

Blimunda8
O número 8 da revista Blimunda, da Fundação José Saramago, já está disponível para leitura. A descarga é gratuita e pode ser feita aqui.


Revista Colóquio N.º 182, Jan.-Abr. 2013
O número 182 de Colóquio/Letras promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian revisita os clássicos Gil Vicente e Camões, com textos de Maria do Amparo Tavares Maleval (“Revisitando o ‘Boosco Deleitoso’ com Gil Vicente”), Graça Videira Lopes (“Um caldo de berbigões: Portugal, a Europa e o Atlântico vistos do século XVI”), Luís Quintais (“Camões, Montaigne e a sensibilidade antropológica moderna”), António Carlos Cortez (“Luís de Camões ou os labirintos da exegese”) e Xosé Manuel Dasilva (“A recepção de Camões na Galiza”).Ainda na secção de ensaio, incluem-se artigos sobre Sá-Carneiro e Louise Bourgeois, Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes e Manuel António Pina.Neste número, em que a pintora convidada é Fátima Mendonça, publica-se uma crónica de Baptista-Bastos e poemas de Rita Taborda Duarte e de Lêdo Ivo, amigo e colaborador de longa data desaparecido em Dezembro passado, com a revista no prelo.

A 19 de Fevereiro, a Editora Dom Quixote lança " A Implosão”, o  novo romance de Nuno Júdice.
Sinopse: «Dois antigos conhecidos do tempo da Ditadura e das conspirações encontram-se, muitos anos depois, numa manifestação contra um governo que traiu as promessas feitas ao seu povo. Tudo se passa, portanto, num país imaginário de um continente também imaginário: uma Europa que se encontra em completa desagregação social e política. Um deles convida o outro para o acompanhar a uma igreja onde se encontra um caixão cujo conteúdo ele não revela.
A história acaba com a descoberta do segredo que o caixão esconde e com os dois amigos a partirem na madrugada do dia em que a igreja vai ser implodida.»


” Este é o Reino de Portugal” é o resultado de uma longa investigação efectuada por José Brandão onde se  revela a opinião sobre Portugal  de importantes viajantes que, nos últimos três séculos, visitaram o país. A Editora  Saída de Emergência lançou-o  em Fevereiro
Sobre o livro: «Este é o Reino de Portugal resulta de uma profunda investigação aos mais importantes relatos de estrangeiros que viajaram por Portugal. Focando-se principalmente nos últimos três séculos, oferece-nos um colorido únicos desse período, retratando as várias camadas sociais que compunham a nossa sociedade, do povo aos governantes, e admirando ou criticando copiosamente os seus hábitos, tradições, mentalidades e comportamentos.Com testemunhos de quase três dezenas de personalidades tão extraordinárias ou malévolas como William Beckford, Carl Israel Ruders, Giuseppe Baretti, Arthur William Costigan, José Pecchio, Hans Christian Andersen, Maria Rattazzi ou Miguel Unamuno, Este é o Reino de Portugal é uma oportunidade única para descobrir o que mudou no nosso país nos últimos três séculos. Ou talvez surpreender-se com o que, afinal, continua exactamente na mesma.
Do melhor…“O povo português, além da bondade de coração, da brandura de costumes, da alegria, da lealdade e bom humor, possui ainda duas outras qualidades: a docilidade e a paciência. Não é possível que exista gente mais tranquila, mais dócil, mais resignada.”
Ao pior…“Se os portugueses apenas tivessem os vícios de serem impostores e vaidosos seria agradável vê-los e conviver com eles […] Mas são também extraordinariamente altivos, orgulhosos, arrogantes, velhacos, traiçoeiros e desonestos. Poucos há que tenham escrúpulo de matar um inimigo à traição.”»

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

As belas fotografias

Lama
" O que faz um fotógrafo de nuvens e de estrelas , neste dia de chuva, de temporal desfeito, quase deitado no chão, fotografias espalhadas em volta,  no meio da lama? Há quem  se aproxime para o ajudar , quem apanhe as imagens  mais sujas e lhas devolva limpando-as com a ponta do casaco. Mas, uma a uma, ele volta a colocá-las onde estavam, tão meticulosamente  como se as dispusesse num desses tabuleiros  que usa para a revelação dos negativos. E, esfregando-as contra as pedras da rua, desenha mais sulcos no papel fotográfico - riscos , manchas negras.  " As belas fotografias ",  digo-lhe desolada , enquanto procuro salvar ainda as menos atingidas.  " Manchadas, estragadas. Porquê tudo isto? Eram tão leves as tuas nuvens,  foram tão demoradas  de fotografar na exacta medida de luz  e de sombra". Molhado até aos ossos, o fotógrafo celeste  parece estranhamente feliz com a sua obra. " Agora estão certas ", diz. " Continuam tão belas  quanto eram , mas têm também  aquela margem  de lixo e de desordem sem a qual nada pode ser verdadeiramente deste mundo". Rosa Maria Martelo, in "A porta de Duchamp", Lisboa, Averno

Meteorito espalha destruição

"Um meteorito caiu, esta sexta-feira de manhã, a cerca de 80 quilómetros da cidade de Tcheliabinsk, na região com o mesmo nome.
A queda de pedaços do meteorito, que se partiu ao atravessar a atmosfera, provocaram prejuízos em muitos edifícios de seis cidades dos Urais, sobretudo vidros partidos. Há mais de 400 feridos.
 Pouco depois da queda do meteorito na região dos montes Urais, na Rússia, esta sexta-feira de manhã, o portal de partilha de vídeos na internet YouTube já tinha alguns dos registos do momento disponíveis. Veja os vídeos.


Serguei Smirnov, cientista do Observatório de Pulkovski (São Petersburgo), afirmou que o peso do meteorito devia ser de várias toneladas.
Cientistas russos citados pela rádio Komkersant FM consideraram que a queda do meteorito nos Urais não está ligada ao meteorito que ao final da tarde (hora de Portugal continental) irá passar próximo da Terra, mas não excluem a ocorrência de chuvas de meteoritos noutras regiões da Rússia." JN e SiC


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Beijos


Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

Beija-mas bem!... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei prà minha boca!...
            Florbela Espanca, "Amiga", in "Livro de Mágoas" , Tipografia Maurício,Edição de Raúl Proença


Dia dos Namorados
Celebrar dias que nunca fizeram parte do calendário festivo tradicional é uma invenção dos tempos modernos essencialmente de carácter comercial, que acaba por arrastar outros sem quaisquer intenções especulativas. Assim, para assinalar esta data, o DN compilou uma série de beijos cinematográficos que retrata a  evolução da técnica osculadora no  cinema. 
Pela curiosidade e  pela originalidade do tema, transcreve-se o artigo:

Os beijos que nos fazem sonhar no cinema
"O primeiro beijo cinematográfico terá sido filmado em 1896 por William Heise para Thomas Edison. O filme chamava-se 'The Kiss' e o beijo foi dado por John C. Rice e a actriz May Irwin. Do primeiro beijo num filme de 1896 aos beijos escaldantes dos dias de hoje. Veja uma pequena selecção aqui." MJC, DN, 7/02/2013
Para finalizar,  visite uma FOTOGALERIA também preparada pelo DN.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A arte de falsificar arte


Quando falsificar se torna uma arte
"É o velho dilema da arte. Quanto vale uma cópia de um quadro de um grande mestre da pintura? Uma cópia, se for mesmo muito bem feita, tem valor artístico?
Talvez estas sejam perguntas sem resposta. Para a história, e na memória, ficam os nomes de mestres como Picasso, Modigliani ou Degas, e não os daqueles que sempre tentaram imitar a sua arte. Esta é a regra, Elmyr de Hory (1906-1976) é a excepção.Conhecido como um dos maiores falsificadores de obras de arte da história, o húngaro, que morreu em 1976, vai ter uma exposição em Madrid dedicada à sua obra. Elmyr de Hory, Proyecto Fake, que inaugura em Fevereiro no Círculo De Belas Artes, expõe ao público pela primeira vez os óleos e as aguarelas com que o falsificador se tornou conhecido. A proposta da exposição, curada por Dolores Durán, é pôr o público a reflectir sobre os conceitos de autoria e de verdade na criação artística. Onde está a originalidade da cópia? Como se identificam os traços de cada autor, o original e o falsificador? Muito recentemente, quando o Museu do Prado, também em Madrid, anunciou, no início do ano passado, a descoberta da cópia mais antiga de sempre da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, estas perguntas voltaram a estar em cima da mesa. Uma cópia mais bonita do que o original, escreveram então alguns jornais. Mas é possível que a cópia seja melhor do que o original? Que crédito merece o autor se não é dele a ideia, ainda que tenha conseguido imitar perfeitamente o mestre? Por ter posto tudo isto em causa, Elmyr de Hory sempre foi uma figura carismática na arte. Enganou curadores, artistas e directores de museus. Assinou como Picasso, Matisse, Renoir, Modigliani ou Degas. Conseguiu ter quadros expostos em alguns dos locais mais importantes do mundo e vendeu trabalhos a preços milionários. A sua vida e a sua arte despertaram primeiro a atenção do norte-americano Clifford Irving, que em 1969 publicou a biografia "Fake! The Story of Elmyr De Hory, the Greatest Art Forger of Our Time ", e depois do realizador Orson Welles, que contou a história de Elmyr de Hory no cinema em "F for Fake", de 1974. A exposição do Círculo de Belas Artes de Madrid estará aberta ao público de 7 de Fevereiro a 12 de Maio.” Cláudia Carvalho , Público 2/01/2013
Foto de Carolo López-Quesada
 "Dory-Boutin, Elmyr von Houry, Herzog, L. E. Raynal ou Louis Nassau. Tanto faz o nome pelo qual também era conhecido, e que utilizava para não deixar pistas de tinta. Elmyr de Hory, um rosto para várias caras, notabilizou-se por mascarar a realidade. Nascido na Hungria em 1906, numa família aristocrática, Elmyr viveu 16 anos em Ibiza, onde terminou os seus dias, em 1976, depois de uma vida repleta de experiências insólitas, entre as quais a capacidade de vender um milhar de obras da sua autoria a reputadas galerias de arte por todo o mundo. Clifford Irving, amigo do controverso pintor,que contou a sua trajectória pessoal e artística  no livro “Fraude! A História de Elmyr de Hory”,   admitiu ser difícil separar os factos genuínos das inverdades no que toca ao relato que o biografado faria dos seus primeiros anos.
Admite-se que o artista terá estudado pintura clássica em Munique, Alemanha, na escola de artes Akademie Heinmann; que se mudou para Paris em 1926, inscrevendo-se na Académie la Grande Chaumière, tendo voltado à capital francesa depois de ter sido aprisionado na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial, devido às supostas raízes judaicas e à sua homossexualidade. Foi de novo em Paris que descobriu que a cópia e a venda de telas famosas, para as quais descobrira a habilidade, lhe rendiam bem mais que os proventos da actividade de um profissional honesto. Muitos acreditaram ser genuínos os quadros que pintava, de tal forma que em 1946 vendeu uma falsificação de Picasso a um amigo que o tomou por original. Começava assim a alargar as vendas a galerias, crentes de que as telas pertenciam ao seu espólio de família. A prática recorrente só foi desmascarada nos anos 60.
A 11 de Dezembro de 1976, perseguido pelas autoridades judiciais e temendo ser extraditado para França,  Elmyr Hory  tomou uma dose letal de  remédios. As suas colecções  tornaram-se  famosas e muito valiosas, após a sua morte."Fontes: Jornal i e outras