quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Tornado de fogo


Tornado de fogo capturado por realizador
“O raro fenómeno da natureza, um tornado de fogo, aconteceu segunda-feira na Austrália e o momento foi captado pelo realizador Chris Tangey.
O australiano, de 52 anos, estava a procura de um local para filmar o seu filme perto de Curtin Springs Station, a cerca de 80 km de Uluru, no norte do país quando virou a câmara para o que parecia um pequeno fogo num arbusto.
Afinal era um tornado de fogo com 30 metros de altura que durou 40 minutos. Sendo que nas raras vezes em que o fenómeno ocorreu durou cerca de dois minutos. O realizador descreveu que estavam 25º C e não estava vento apesar do jacto de fogo.
David Matthews, do Darwin Weather Bureau, explicou aos media australianos que o fenómeno, também conhecido como 'diabo de fogo' acontece quando o solo se torna instável, criando rapidamente uma coluna vertical de chamas.
Embora raro, o aparecimento de um tornado de fogo costuma ficar marcado pela morte. Em 1923, no Japão, um tornado matou 38 mil pessoas em apenas 15 minutos. Desta vez não são conhecidas vítimas “DN 19/09/12

O nosso desacerto


"No meio dos regimes totalitários e das incompletas e frágeis democracias do século XX havia esperança acalentada por várias ilusões, pulsava uma tensão para um futuro que a prática efectiva tornava inexequível. Um poema de Rodolfo Alonso (que a Revista Brasileira acaba de republicar, n° 50, 2007, p. 6o), "Coda a los ganados y a las mieses", traduz bem o nosso desacerto perante a derrocada dessas miragens. Houve um tempo de esperança, mas perdemos o que ontem era amanhã; então sonho de porvir, para nós já é passado que não se realizou. Estamos sem futuro nem horizontes; nem sequer podemos sonhar os sonhos que sonhávamos.
«De haber sido futuro
hemos solo pasado.
Pasado del futuro.»"

Vitorino Magalhães Godinho, in “A Europa como Projecto”, Edições Colibri, 2007

A flor da solidão


Vivemos convivemos resistimos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário silencioso
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos.

Ruy Belo, in " Todos os Poemas II ", Ed. Assírio & Alvim, 2004

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Sons de Espanha

Espanha, país ibérico, sempre foi palco de grandes músicos e de promissores talentos. Todos os anos se revelam novos cantores que semeiam a musicalidade pelo mundo. Marcados pela especificidade que distingue as diversas regiões, enformam as melodias com os sons da região de onde são oriundos. Assim, Pablo Alborán, um jovem cantor, traz nas suas melodias o arrastar do flamenco andaluz. Ei-lo  em " Tanto", uma canção do seu novo álbum, divulgada neste mês de Setembro.


Monica Naranjo  não foge às suas raízes e impregna na sua excelente voz todas as marcas da iberidade que lhe são próprias. Em " Perra Enamorada "  apresenta uma primorosa interpretação. 

Roteiro das Figuras de Lisboa

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FIGURAS DE LISBOA

Descrição

Propomo-nos evocar figuras de Lisboa o que é sempre como que fazer uma espécie de arqueologia da memória.
Efetivamente, «aqueles que se foram da lei da morte libertando» deixaram na cidade, em termos físicos, poucos vestígios mas o eco do seu exemplo e da sua obra persistem. E são eles que vamos procurar evocar.
Vamos convidar-vos a colocarem-se no centro da Praça do Rossio e ali, rodando em torno da estátua de D. Pedro IV, assistiremos à passagem dos séculos e dos seus grandes homens. Veremos passar o Dr. João das Regras, o advogado da causa de D. João I, que vivia atrás de São Domingos, vigiado por Dom Nuno Álvares Pereira lá de cima do seu bastião, no Carmo, onde se tinha enclausurado numa atitude ao mesmo tempo de modéstia e de arrogância ao fazer frente ao próprio Rei que habitava na colina fronteira.

Praça D. Pedro IV, Rossio
Um século depois, poderemos ver o lançamento da primeira pedra da construção do Hospital de Todos os Santos pela mão do próprio D. João II e da sua fantástica mulher, a Rainha D. Leonor. Esta monumental construção vinha-se juntar a um complexo que ocupava todo um canto da praça, formado pelo Palácio dos Estaus e pelo Convento de São Domingos. Eles seriam, até ao terramoto de 1755, um dos ex-libris da cidade tendo passado por aí todos os grandes viajantes que se sentiram atraídos pela cidade das Descobertas.
No século XVI as cavalariças dos Estaus albergavam elefantes, girafas e outras alimárias espantosas, servindo ao mesmo tempo de atração e espelho de um rei que queria associar a sua imagem às muitas partidas do Mundo. Por aí passaram Clenardo, Cataldo Parísio Sículo, Alexandre de Medicis, os embaixadores que vieram preparar o casamento da futura Imperatriz Isabel com Carlos V, os de Saboia quando levaram a Infanta D. Beatriz, e tantos e tantos outros que se espantavam com as justas entre rinocerontes e elefantes, os negros de África, os indianos, os japoneses e a miríade de gente que fazia de Lisboa a primeira cidade verdadeiramente cosmopolita do planeta. Mas também por cá se pintava, cantava e, acima de tudo, fazia-se poesia. Ali a par de São Domingos, morava o pintor régio Gregório Lopes e toda a sua parentela que fizera uma verdadeira escola de pintura. Nos Estaus representavam-se pela primeira vez algumas peças de Gil Vicente que com muita propriedade ocupa hoje o vértice do frontão do Teatro D. Maria II. Em São Domingos, escrevia e predicava Frei Luís de Granada que ali foi sepultado. Um pouco mais à frente, na Rua das Portas Santo Antão, foi aprisionado o maior vulto da poesia portuguesa, o grande Camões.
Dando mais uma volta à estátua, veremos os conjurados de 1640 reunidos no Palácio dos Almadas conspirando contra os «usurpadores» espanhóis. Passados alguns anos veremos o Duque de Cadaval, um dos heróis da restauração, mandar construir o seu palácio do outro lado do Rossio. Com sorte, poderemos assistir à saída festiva de um «auto de fé» de São Domingos em direção ao Terreiro do Paço sob o olhar indignado do Padre António Vieira. As pompas do ouro brasileiro e os excessos cometidos parece terem atraído castigo quando a terra tremeu no dia 1 de Novembro de 1755.
O fogo que se lhe seguiu, destruindo o resto que ficara de pé, teve início ali perto do Rossio, no Palácio do Conde da Ericeira. A praça deveria povoar-se de chapeleiras se a divisão mesteiral da reconstrução tivesse sido seguida à risca, mas em vez disso a tradição que já a tinha transformado no centro mundano da capital, levou à abertura de tascas, e depois cafés, frequentados por todas as tertúlias dos árcades, o mais famoso dos quais foi sem dúvida Manuel Maria Barbosa du Bocage. Muitas das anedotas que andam ligadas à sua vida libertina passaram-se, segundo a tradição, no Nicola e as pinturas que ornamentam o café parece quererem afirmar estas tradições.
Mas será definitivamente o século XIX que nos vai trazer ao Rossio o maior número de personagens famosas. De Eça de Queiroz a Antero de Quental, passando por Abel Botelho... todos por aqui viveram ou fizeram da praça o centro dos seus romances. Muitos deles foram eternizados no mais importante retrato de grupo que Columbano pintou ao reproduzir em tela de grandes dimensões o Grupo do Leão, afinal um grupo que se reunia no restaurante Leão d’Ouro que ainda hoje lá está, mesmo atrás do Rossio.
No século XX parecia que a cultura portuguesa borbulhava diretamente das tertúlias dos cafés do Rossio e eles próprios se tornaram mostruários das artes que então se produziam. O Café Portugal, o Gelo, o Nicola, a Brasileira do Rossio, o Martinho, a Suiça, os Irmãos Unidos, eram o poiso obrigatório e diário de homens tão conhecidos como Almada Negreiros, Fernando Pessoa, ou Mário de Sá Carneiro, ou, mais tarde, a geração dos chamados neorrealistas, muito influentes nos anos 50 e 60.
Partiremos para o nosso passeio sempre da Praça do Comércio, sob o Arco da Rua Augusta, deslocando-nos em três sentidos radiais. Um primeiro, para oriente, na direção de Santa Apolónia, outro oposto, para ocidente, no sentido de Santos o Velho e, finalmente outro, que sobe a Avenida da Liberdade em direção ao Marquês de Pombal e volta aos Restauradores pelo outro lado da Avenida.
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FIGURAS DE LISBOA (Roteiro 1)

Duração Total
3 horas

Descrição

Começamos esta busca da memória da cidade na Praça do Comércio, sob o Arco da Rua Augusta, virando pelas arcadas à esquerda para encontrar o Martinho da Arcada. A figura de Fernando Pessoa (1888-1935) aqui impõe-se, e a presença desse homem que era muitos num só, parece viva num ambiente cercado de referências em fotografia e até em azulejo. Logo no bar de entrada deparamo-nos com dois registos de desenho em traço azul sobre branco lembrando as famosas pinturas que Almada Negreiros fez para o restaurante Os Irmãos Unidos. Na sala do restaurante, são imagens fotográficas do poeta que se distribuem pelas paredes. Definitivamente, a sua figura ocupa aqui o espaço todo, fazendo esquecer todos os outros - políticos, intelectuais, conspiradores - que por aqui passaram desde pelo menos 1782 quando a casa se chamava da neve italiana.
Prossigamos pela Rua da Alfândega para encontrarmos o monumental pórtico manuelino da Igreja da Conceição Velha.

Da antiga Misericórdia de Lisboa temos o tímpano do pórtico que esteve guardado no interior da Igreja e por isso conserva em todo o seu esplendor a qualidade do talhe da pedra que «desenha» com segurança inúmeros rostos de personagens que se abrigam sob o manto da Virgem.
Entre reis, rainhas, bispos e papas quis-se ver neles representados Leão X, a própria fundadora das Misericórdias portuguesas, a grande Rainha D. Leonor (1458-1525), e até D. Manuel I: a verdade é que se trata de figurações simbólicas onde, se quisermos, porque não, poderão ser estes contemporâneos da obra.
Vale a pena entrar para ver a antiga capela lateral que pertenceu a uma das mais enigmáticas personagens lisboetas do século XVI: Dona Simoa, uma negra de São Tomé que acumulou uma imensa fortuna e que por isso pôde instituir uma capela perpétua para a salvação da sua alma. Encomendou a Jerónimo de Ruão - o arquitecto a quem a Rainha D. Catarina de Austria (1507-1578), casada com D. João III e irmã do Imperador Carlos V, mandou reconstruir a capela-mor do Mosteiro dos Jerónimos - esta belíssima obra de revestimento de mármores de cores contrastantes, que se tornou um dos mais importantes exemplares da arquitectura maneirista portuguesa.
Logo adiante encontramos a famosa Casa dos Bicos mandada construir pelo primeiro presidente da Câmara de Lisboa, Brás Afonso de Albuquerque (1500-1580), filho do grande conquistador de Goa, injustamente esquecido e que foi dos mais importantes intelectuais da sua época, humanista e grande cidadão. Construiu esta casa dos «Diamantes» para sua casa de cidade a qual espantou de tal forma a populaça que logo constou que com a sua imensa fortuna ele colocara uma pedra preciosa em cada bico da fachada. Daí o aforismo «que não se perca a casa dos bicos».

pormenor da Casa dos Bicos
No século XVI toda a frente ribeirinha desta zona da cidade cobriu-se de palácios e casas grandiosas. Ao lado de Albuquerque viviam os Condes de Portalegre, os Duques de Aveiro e os Condes de Linhares, todos eles aparentados entre si ou com interesses económicos e políticos comuns. Foi com uma das filhas destes condes de Linhares que D. Manuel casou o jovem Brás, mandando nessa altura que o seu nome fosse substituído pelo do pai para que a memória do "Marte da Índia" por ele fosse sempre perpetuada.
Do palácio destes Condes existem ainda vestígios num cunhal do n.º 64 da Rua do Cais de Santarém onde se vê um brasão encimado por um leão rampante.
Alfama, o bairro que se estende para detrás desta fachada de palácio, deve o seu nome às boas águas de nascente que brotam um pouco por todo o bairro, aí encontraremos muitas fontes e chafarizes de que há notícia desde a Idade Média, sendo o mais conhecido o Chafariz D’el Rei. Um pouco mais à frente encontramos o Chafariz de Dentro ou dos Cavalos.
Mas o que mais nos prende a atenção neste largo é sem dúvida a Casa do Fado e da Guitarra Portuguesa que lhe fica defronte. Entremos para prestar homenagem aos grandes nomes que honraram com as suas vozes a canção de Lisboa. São inúmeros os fadistas, em boa hora representados num painel que fica ao fundo do Museu. Vale a pena avivar a memória, destacando alguns cujas toadas ainda ressoam na nossa memória. Mesmo que a listagem se possa tornar exaustiva, todos eles merecem o quadro da glória e a palma da fama que os vai libertando da lei da morte. Entre os castiços lembram-se Alfredo Marceneiro, Rodrigo, Hermínia Silva, Natércia da Conceição; entre os fadistas de revista, Maria José Valério, Vasco Rafael e Tony de Matos; do fado aristocrata ou de salão podem-se apontar Teresa Siqueira, os Câmara – o pai Vicente da Câmara e o filho José da Câmara -, Luz Sá da Bandeira, Maria Teresa de Noronha, João Braga, António Pinto Basto, Tristão da Silva e os irmãos Câmara Pereira. E, finalmente, as divas: Maria da Fé, Argentina Santos, Cidália Moreira, Lucília do Carmo (mãe do conhecido Carlos do Carmo), Natércia Maria, Alda de Castro, Celeste Rodrigues (irmã da maior diva de sempre do fado, Amália Rodrigues). Tal como a Amália, o fado nunca morrerá, por isso aqui se registam dois jovens nomes irrefutáveis: Camané e Dulce Pontes. Mas muitos mais se poderiam referir como Mafalda Arnauth, Maria Ana Bobone, Rodrigo Costa Felix e outros que farão a glória do fado no século XXI.
Continuando o nosso percurso, sigamos pela rua do Jardim do Tabaco em passo largo até chegarmos ao Museu Militar que alberga um verdadeiro panteão de heróis nacionais.
Uma vez lá dentro olhemos o tecto. O painel central, pintado por A. de Souza Rodrigues em 1905, apresenta uma alegoria às descobertas e conquistas, e é emoldurado por uma série de bustos pintados com aqueles que, aos olhos dos portugueses do início do século XIX, eram as figuras maiores da nação.
Assim, Vasco da Gama (1469?-1524) ladeia o Rei D. Manuel, (1469-1521), Dom José (1714-1777) surge na sequência do Marquês de Minas, e finalmente o grande defensor da identidade nacional, Nuno Álvares Pereira (1360-1431). O painel do lado direito é todo dedicado a uma plêiade de famosas figuras do glorioso passado português: Martim Moniz 1147, Nuno G. de Faria 1373, Duarte de Almeida 1476, os heróis da Índia, D. Francisco de Almeida, D. João de Castro e D. Duarte de Menezes. O pintor Alves de Sousa, autor deste painel de 1913, não quis deixar de fazer figurar o lídimo "cantor" da gesta nacional, Luís de Camões (?- 1580) como não podia deixar de ser, já que Portugal, país de poetas, escolheu este poeta para símbolo da própria pátria. Mas sobrou ainda espaço para outra personagem já do século XVIII, Lopo de Mendonça 1717. Do lado oposto, o painel do tecto foi pintado por M. Oliveira: vê-se uma homenagem à cidade de Lisboa, e em torno dela novamente grandes do passado onde se contam o navegador Fernão de Magalhães que, com a sua viagem de circumnavegação deu o nome ao Estreito, (cª 1480-1521), o Infante D. Henrique (1394-1460), o Conde de Amarante 1814, Pero da Covilhã 1387, D. João II (1455-1495), grande impulsionador dos Descobrimentos, Conde de S. Maria 1833 e Afonso de Albuquerque (1445/1462-1515), herói da Índia.
Roteiros Culturais do CNC, in e-Cultura.pt

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O arco-íris de Eduardo Galeano


Na apresentação de seu livro mais recente, Eduardo Galeano revela a sua inspiração na cultura Maia, na sabedoria de que "somos todos filhos do tempo". Já no  início de 2012 , o escritor uruguaio estivera  em Cuba para a cerimónia dos Prémios da Casa de las Américas, famosa instituição cultural cubana.Na conferência de Imprensa  falou sobre temas variados e comentou os  seus mais recentes livros, “Espelhos” e “Os Filhos dos dias”,  do seguinte modo:
“Agora em Cuba será publicado o meu novo livro(…) O livro  chama-se "Espelhos"; é nada mais nada menos que uma tentativa de escrever uma história universal com o mundo visto através do olho de uma fechadura, através de pequenas histórias, histórias pequeninas que não dão importância às fronteiras do mapa nem do tempo e que tentam contribuir para a recuperação do arco-íris terrestre. Eu sou daqueles que crêem que o arco-íris terrestre é mais belo e deslumbrante do que o arco-íris celeste, mas estamos cegos dessas cores, essas cores que nos demonstram que somos mais do que nos dizem que somos, porque carregamos uma herança de mutilações, que vem da época colonial e continua viva; mutilações universais, como, por exemplo o machismo, o racismo, o militarismo e outros ismos que nos deixam cegos de nós mesmos. Este livro tenta recuperar essas cores, esses fulgores.Vou apresentar também alguns pequenos trechos de outro livro que ainda não foi publicado, mas que vai sair espero que, em Março, na Espanha, Uruguai, Argentina e México. Chama-se "Os filhos dos dias" e  parece-se muito com "Espelhos". Está guiado pela mesma intenção de recuperar o arco-íris terrestre, mas tem uma estrutura diferente. É como um calendário e a cada dia corresponde uma história que pode ter ocorrido em qualquer ano e em qualquer lugar do mundo. Então se mesclam coisas que ocorreram duzentos anos antes de Cristo com coisas que ocorreram no ano passado. A cada dia corresponde uma história, e chama-se "Os filhos dos dias" porque eu tinha guardado há alguns anos, algumas coisas que escrevi quando estava na Guatemala, há muitos anos, ali por volta de 1966 ou 1967 e têm a ver com a cultura Maia, que é deslumbrante; é uma cultura onde o tempo funda o espaço. Eu tentara fazer uma síntese do que tinha escutado nas comunidades para ver se alguma vez podia ajudar o mundo a se tocar com essas  coisas. Por certo, é uma cultura muito manipulada por quem a usa mal, não os maias, mas pelos que a usaram para vender horóscopos falsos ou para vender medo, com toda esta história de que os maias disseram que em 2012 o mundo vai acabar; é um disparate total, nunca nenhum maia disse semelhante coisa.Eu tinha feito algumas anotações, algumas sínteses e guardei-as. Agora uma delas serve de introdução a este livro, diz o seguinte: ‘E os dias caminharam e eles, os dias, nos criaram. Nós, os filhos dos dias, os averiguadores, os buscadores  da vida’ ”.Fonte: Cubadebate e YouTube

Saiba mais sobre o livro e ouça na voz do autor a leitura de uma das histórias 
d’ “Os Filhos dos Dias.”

domingo, 16 de setembro de 2012

Ao Domingo Há Música



Procuro-te

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.


Eugénio de Andrade, "As Palavras Interditas" 1951,  in “ Poesia”, 2ª ed.,  revista e acrescentada, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 


Neste soturno Setembro em que tudo  parece vedado, a procura impõe-se como forma de não sucumbir.
"...Enquanto o verão pinta de azul o céu / e o mar é devassado pelas estrelas", as palavras, que só um poeta sabe dizer, incitam a caminhar "com amor, com ódio, ao sol, à chuva, / de noite, de dia, triste, alegre ", mas à procura  "Antes que a morte se aproxime".
Pavarotti com Monica Naranjo, duas vozes que se conjugam numa sonoridade especial  e  de muita musicalidade, são também uma boa fonte de energia para este Domingo de um tempo desgastado. 
O registo é de 2000 num espectáculo para a Paz, promovido por Pavarotti .


sábado, 15 de setembro de 2012




Centenas de milhares de pessoas manifestaram-se hoje um pouco por todo o país, de Norte a Sul, de Braga a Portimão, no âmbito do protesto "Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas!". 
Em Lisboa, assistiu-se a uma participação em massa. A Praça de Espanha, no final do protesto, foi pequena para acolher os milhares de manifestantes. A SIC acompanhou a par e passo a contestação na capital e noutros pontos do país.
Cerca de um milhar de pessoas manifestaram-se em Portimão contra as medidas de austeridade impostas pelo Governo e pediram a demissão do executivo de coligação PSD/CDS-PP liderado por Pedro Passos Coelho.
Os manifestantes concentraram-se às 16:00, em frente da Câmara de Portimão, e desfilaram depois pelas ruas da baixa da cidade até à marginal, onde quem quis tomou a palavra para dizer o que entendia e protestar contra as medidas de austeridade, como as alterações à Taxa Social Única, que disseram estar a agravar o nível de vida dos portugueses.
Com palavras de ordem como "Passos ladrão, não vales um tostão" ou "Passos atenção, não queremos exploração" e cartazes com frases como "Troika que os pariu", os manifestantes deram voz ao seu desagrado pelo novo pacote de medidas de austeridade anunciadas e contra a situação difícil que o Algarve e o país atravessa em termos de desemprego.
"Não é admissível que este Governo, a mando da troika, queira formar milhares ou milhões de descamisados. Não admitimos. É uma tristeza, uma desgraça, os nossos governantes nunca cumprem o que promete. E vejam como está o nosso país: um milhão de desempregados, os jovens têm que emigrar", afirmou João Vasconcelos, da organização da manifestação.
No centro histórico de Évora juntaram-se cerca de 500 pessoas contra as medidas de austeridade.
Os manifestantes começaram a chegar à Praça do Giraldo, considerada a 'sala de visitas' de Évora, por volta das 17:00, percorreram algumas das principais ruas até aos Paços do Concelho e voltaram à principal praça da cidade, onde foram feitos os discursos.
Empunhando cartazes contra o Governo e a troika, os manifestantes gritaram palavras de ordem como "Está na hora de o Governo ir embora" e "O povo unido jamais será vencido".
Lúcio Caeiro, um dos organizadores do protesto em Évora, disse à Lusa que "não esperava" a participação de tantas pessoas e realçou que esta adesão "significa que os portugueses estão indignados".
Na cidade de Setúbal, cerca de três a quatro mil pessoas concentraram-se no Largo José Afonso e desfilaram pela Avenida Luísa Todi até à Praça do Bocage.
Durante o protesto contra as medidas de austeridade ouviram-se palavras de ordem a pedir a demissão do Governo e cantou-se o hino nacional.
Cerca de 1.500 pessoas, segundo dados da PSP, juntaram-se hoje no centro de Vila Real também em protesto contra as medidas de austeridade anunciadas pelo Governo.
Na cidade onde cresceu, o primeiro-ministro foi vaiado e até convidado a seguir o seu próprio conselho e emigrar.
"Pedro vai para a rua!", gritaram em uníssono os manifestantes, muitos deles professores, jovens e desempregados.
"Sacríficos? Tenham juízo" ou "Governo PPC, cavalo de troika", foram algumas das palavras de ordem que se podiam ler nos cartazes espalhados pela praça do município.
Em Braga, a manifestação juntou, segundo a PSP local, cerca de cinco mil pessoas e decorreu de forma "totalmente ordeira e pacífica".
"Não há nenhum incidente a registar", disse à Lusa o subintendente Daniel Mendes, do comando distrital de Braga da PSP.
O protesto decorreu desde as 15:00 até perto das 18:20, tendo tido como epicentro a Avenida Central, onde os populares interessados tiveram direito a fazer discursos de quatro minutos.
Em Coimbra foram mais de sete mil pessoas de diferentes idades, quadrantes políticos e estratos sociais que desfilaram em protesto contra as políticas da "troika" e do Governo.
"Gatunos, gatunos!" foi a palavra de ordem mais ouvida na praça da República, onde começou a manifestação, e em todo o percurso rumo à Baixa da cidade.
Às 18:00, após os manifestantes terem iniciado a marcha, pelo menos 7.000 pessoas integravam o cortejo, segundo fonte da PSP no local.
A fonte admitiu que mais cidadãos viessem a incorporar o protesto, o que acabou por acontecer, com mais grupos a acorrerem à avenida Sá da Bandeira, enquanto promotores da iniciativa "Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas!" se revelavam surpreendidos com a adesão.
Reformados, professores, funcionários públicos de diferentes setores, estudantes, desempregados, operários, sindicalistas, médicos, enfermeiros, advogados e comerciantes marcaram presença na manifestação(…).
"Espanha, Grécia, Irlanda e Portugal, a nossa luta é internacional", gritavam alguns manifestantes, entre assobios, bombos e outros instrumentos de percussão.
Com Lusa , in SiC