domingo, 15 de abril de 2012

Ao Domingo Há Música

Duas grandes vozes que  se juntaram em prol de uma grande causa. Pavarotti e  B.B. King em "The Trill is gone" no espectáculo a favor das crianças da Guatemala e do Kosovo.
Num Domingo de Abril em que a Liberdade deveria andar à solta com a Paz , recordar a solidária tenacidade  de Pavarotti  lembrando ao   Mundo quão é necessário olhar  as crianças ,  vítimas primeiras da insanidade da guerra, faz com que a música seja também uma advertida e fraterna  linguagem universal. 
 

sábado, 14 de abril de 2012

Magnificat


Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia !

Álvaro de Campos, in "Poemas"  Poesia de Fernando Pessoa, Edições Ática 

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O último livro de Antonio Tabucchi


"O tempo envelhece depressa", o último título de Antonio Tabucchi, escritor falecido em Lisboa no passado dia 25 de Março, já chegou às livrarias, com a chancela das Publicações D. Quixote.
A obra é uma antologia de nove contos, em que "todas as personagens parecem estar empenhadas numa confrontação com o Tempo", escreve a editora sobre o derradeiro livro de Tabucchi, que é editado quase 30 anos após o primeiro publicado em Portugal, em 1983, "A mulher de Porto Pim", também uma colectânea de contos.
A morte marca presença em alguns dos textos de "O tempo envelhece depressa", nomeadamente em "O círculo", cuja acção narrativa começa numa reunião familiar por ocasião do 10.º aniversário da morte do avô Josef, de Saint-Gall.
Outra "estória", como escreve Tabucchi, intitula-se "Os mortos à mesa" e, ainda noutro conto, "Entre generais", afirma-se que "este país é pequeno demais para morrer". Neste conto, a memória remonta à Hungria de 1956, quando entraram os tanques soviéticos no país e a personagem László era um jovem oficial do exército magiar.
Em "Os mortos à mesa", um ex-espião da Stasi, a polícia política da antiga RDA, passeia-se por Berlim até confessar junto do túmulo do dramaturgo Bertold Brecht, que durante anos espiou, para depois ir comer num "restaurante de classe" onde se serve "um spaghetti com gambas, mais gambas que spagetti", escreve, para acrescentar, nas palavras do ex-espião para o dramaturgo: "No nosso tempo não havia sítios destes, perdemos o melhor".
"Bucareste não mudou nada", outro conto, é uma nova reflexão sobre os "novos tempos" depois do comunismo, neste caso concreto, quinze anos após a morte do "casal condicator", escreve o autor, referindo-se a Nicolae e Elena Ceausescu, que durante décadas dominaram o país.
Segundo a editora, Tabucchi mostra-se nestes contos "sensível às convulsões da História recente".
Autor de cerca de 25 títulos, entre ficção e ensaio, Tabucchi traduziu com Maria José de Lancastre, sua mulher, a poesia de Fernando Pessoa, sobre o qual escreveu os ensaios "Un baule pieno di gente", em 1990, e "La nostalgie, l'automobile et l'infinit", em 1998, depois de todos os outros que a Imprensa Nacional da Casa da Moeda reuniu em "Pessoana Mínima", numa edição original de 1984.
Nascido em Pisa, Itália, em 1943, Tabucchi considerava Portugal uma segunda pátria, tendo em 1991 escrito o primeiro romance em português, "Requiem", que Alain Tanner passou ao cinema.
Foram aliás, várias as obras do escritor que passaram à sétima arte, nomeadamente "O fio do horizonte", adaptado por Fernando Lopes, "Noturno indiano", por Alain Corneau, e "Afirma Pereira", por Roberto Faenza.
Em Portugal estão publicados 17 dos 25 títulos do autor. O romance "Tristano morre", editado há seis anos, foi antecessor deste conjunto de "estórias". Fonte DN e Lusa
Sobre o livro: «Todas as personagens deste livro parecem estar empenhadas numa confrontação com o Tempo: o tempo dos acontecimentos que viveram ou estão a viver e o tempo da memória ou da consciência. Mas é como se uma tempestade de areia se tivesse levantado nas suas clepsidras: o tempo foge e detém-se, gira sobre si próprio, esconde-se, reaparece a pedir contas.
Sensível às convulsões da História recente, Antonio Tabucchi mede-se com o nosso Tempo “desnorteado”, em que os ponteiros do relógio da nossa consciência parecem indicar uma hora diferente daquela que vivemos.»

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Angola, terra de fogo

"Para que percorres inutilmente o céu inteiro à procura da tua estrela? Põe-na lá."
                                                                       Vergílio Ferreira, in “ Escrever”
Sempre que se chega a África, regressa-se a um mundo que nunca se esquece . Quando as portas do avião se abrem é um imenso e familiar fogo que se espalha por todo o corpo e o cheiro da terra recaptura-nos com tal intensidade que nos sentimos envergonhados pela  traição da ausência. E  a memória de tudo quanto ficou em nós reacende-se. Basta chegar. África envolve-nos e estamos de novo num mundo que não tem termo de comparação com outro continente. A Europa fica  distante , acabrunhada numa assertividade  disciplinada  e caduca que nada tem a ver com o fulgor  que se solta num continente em construção , espalhado por uma vasta área diversa, desigual.
Chegar a Angola é tudo isso e muito mais. Nada está na mesma. Tudo se alterou embora tenha passado apenas uma década de ausência. É a década da PAZ, ou talvez a década da mudança.
 Os sons de uma natureza pródiga e inarrável permanecem inalterados , os tons do céu tropical, como sempre, raiam-se vermelhos num festim de fim de tarde, mas a marca urbana quer a nível habitacional, quer a nível rodovíário, quer a nível social  alterou-se profundamente. Rasgaram-se campos com diferentes vias rodoviárias, construiram-se novos aglomerados habitacionais e projectaram-se muitas infra-estruturas. Luanda, o centro gravitacional do país, está diferente. Cresceu e está em permanente refazer da sua configuração. 
Sair ou entrar na cidade pode ser feito através de vias rápidas, contudo circular no meio urbano é um autêntico desafio. Filas imperdíveis de veículos, de autocarros públicos e paralelos (candongueiros) , num labiríntico e curto circuito  pode durar horas em desespero de quem tem horários a cumprir.
Quem conheceu Luanda  já não descortina as ruas que compõem a cidade e arredores. A grande  massa humana que, nos mercados ao ar livre, apresenta uma  diversidade de produtos para venda , produtos cuja variedade  empresta cor a  muitas das ruas, das estradas  ,dos becos, dos caminhos, habita maioritariamente  musseques  construidos dentro e em redor da cidade. A arquitectura urbana adquiriu, desse modo, uma nova forma e uma forte densidade  que ronda quase a metade da população nacional.
Luanda e os seus arredores transformaram-se num imenso centro populacional composto por diferentes classes sociais que labuta pelo mesmo objectivo: (sobre)viver melhor em cada dia.
Entretanto, o país também se alterou. Não foi apenas a capital. A desminagem foi e continua a ser uma grande aposta , pelo que viajar é já uma realidade segura.
Angola deslumbra-nos nos seus contrastes paisagísticos. A folia das cores anda à solta neste país. São os verdes profundos e matizados de uma vegetação que chega a explodir nas águas dos rios.  Os campos pintam-se, por vezes, de carmesim com as  terras encarnadas numa alegria soberba  que se expande para lá do horizonte. As savanas surgem majestosas e rasteiras   habitadas por uma  fauna profusamente variada e de singular diversidade cromática.Mas o  deslumbramento emerge avassalador perante esses infindáveis areais que beijam um   mar que se solta leve, quebrado, movediço, sempre  pintado por múltiplas paletas, partindo-se em finas nuvens de espuma apenas para nos afagar.
Angola está aí. Um país em crescimento onde todos os angolanos querem ser felizes. Há lugar para todos acederem à felicidade desde que todos se revejam como irmãos e se permitam repartir um país rico e imenso.
Angola faz-se quando todos quiserem.
                                                                 

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Eles não respeitam nada nem ninguém

Um tiro em Atenas
 Por Baptista Bastos
"Era um velho decente, formal e limpo. E havia nele memórias, sofrimento e grandeza. Olhou em volta. Nem a sombra de um remorso nem aquele limite denso e excessivo que a idade costuma expor. Olhou em volta e talvez estivesse a lembrar-se dos vendedores de esponjas de antigamente, que ofereciam o produto na praça da Constituição; ou das tavernas com parreiras, na Plaka, sob as quais comera queijo de cabra e bebera resinato, nos longos dias de calor. E de mulheres com quem dançara, pelas festas perdidas para sempre.
Passara por muitas coisas de infortúnio e por algumas alegrias selvagens e dispersas. Transfigurada de ventos e de silêncios, a cidade fora invadida pelos nazis, envolvendo de medo e atrocidades o chão sagrado dos deuses, dos poetas e dos filósofos.
Atravessara o luto criado pelos coronéis, com a consciência de que a adversidade era fruto da falta de bondade e de compaixão, aparentemente inexplicável. Fora preso por querer ser livre. Conhecera as rudezas do desemprego, e os ténues acenos de uma esperança obstinada. Depois, como se a sociedade precisasse de um mundo de compensações, haviam-lhe reduzido o ordenado, e aumentado tudo o que pertencia aos domínios da sobrevivência estrita. Mais tarde, extorquiram-lhe os subsídios e limitaram-lhe os proventos de uma reforma escassa.
Suportou as gradações da infelicidade, porque aprendera que a infelicidade nunca é lisa, e dispunha sempre de diferentes medidas de circunstância. Chegara, assim, ali: àquele plaino com relvado, de onde se divisava o que desejasse ser divisado. E descobrira, exausto e triste, de que pouquíssimas vezes o tinham deixado ser feliz e livre.
Soltou um grito. Como se quisesse desabafar a dor insuportável que sobre ele tombara, lhe vergara os ombros e lhe ferira o mais secreto da sua fé. As coisas são como são, diziam. Mas ele não queria que as coisas fossem como queriam que elas fossem.
A partir de certa altura, decidira manter uma atitude respeitosa e marginal. Nem mesmo assim obtivera paz e sossego. A verdade é que um homem está sempre ligado ao seu passado. O aparente apaziguamento interior não domesticara a ira, a cólera e a indignação que sentia, sobretudo quando a sua terra deixara de ser a lenda e a história e fora transformada numa litografia imbecil.
Quando gritou, gritou para aqueles que o não ouviam ou não desejavam ouvir. Assaltara-o o medo de ter, num futuro próximo, de esgaravatar nos caixotes de lixo, em busca de comida. E de deixar aos filhos e aos netos o peso de dívidas e a impossibilidade de as pagar. Sentou-se na relva. Ninguém o olhou. Há muito que as pessoas não se cruzavam: trespassavam-se.
Gritou: eles não respeitam nada nem ninguém!
E disparou o revólver na cabeça.
Dimitris Christoulas, 77 anos, reformado, grego. Nosso irmão."
Baptista Bastos  em Artigo de Opinião publicado no DN de 11/04/2012

terça-feira, 10 de abril de 2012

Manuel Alegre publica mais poesia



«Manuel Alegre volta, neste novo livro, a confrontar a sua poesia com as grandes questões: o sentido da vida e as incertezas, interrogações e angústias deste nosso tempo. Uma poesia, nas palavras de Frederico Lourenço, que “não esconde o sofrimento e a dor da existência humana, mas que nunca aceita a resignação ou o pessimismo”. Um novo poema de Manuel Alegre, diz Lourenço, “afigura-se-nos sempre como um fenómeno incrível de originalidade.”»

O caminho é uma homenagem ao espaço

Caminho: faixa de terra sobre a qual se anda a pé.
A estrada distingue-se do caminho não só por ser percorrida de automóvel, mas também por ser uma simples linha ligando um ponto a outro. A estrada não tem em si própria qualquer sentido; só têm sentido os dois pontos que ela liga. O caminho é uma homenagem ao espaço. Cada trecho do caminho é em si próprio dotado de um sentido e convida-nos a uma pausa. A estrada é uma desvalorização triunfal do espaço, que hoje não passa de um entrave aos movimentos do homem, de uma perda de tempo.
Antes ainda de desaparecerem da paisagem, os caminhos desapareceram da alma humana: o homem já não sente o desejo de caminhar e de extrair disso um prazer. E também a sua vida ele já não vê como um caminho, mas como uma estrada: como uma linha conduzindo de uma etapa à seguinte, do posto de capitão ao posto de general, do estatuto de esposa ao estatuto de viúva. O tempo de viver reduziu-se a um simples obstáculo que é preciso ultrapassar a uma velocidade sempre crescente.
Milan Kundera, in "A Imortalidade" , Edições D. Quixote

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Prémio de Poesia

O Poema em que te Busco é a Minha Rede
Bem mais de borboletas que de peixes,
E é o copo em que te bebo: morro à sede
Mas ainda és margarida e não-me-deixes
E muito mais, no enumerar das coisas:
Cordão de laço e corda de violino,
Saliva de verdade nalgum beijo,
E poisas
(…) com um atilho vertical
(…) que estendo às tuas formas de mulher,
Com esta soma e verbal precaução
De um fónico doutor de Mompilher.

Vitorino Nemésio, in “Caderno de Caligraphia e outros Poemas a  Marga”

Na entrega do Prémio Poesia Luis Miguel Nava 2011 a Helder Moura Pereira  e no lançamento da Revista Relâmpago serão lidos poemas de Vitorino Nemésio pelo actor Luis Lucas. A sessão realiza-se amanhã, 10 de Abril, na Casa Fernando Pessoa. Aqui fica o convite.