sexta-feira, 30 de abril de 2010

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Urgentemente



É urgente o amor
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã

domingo, 25 de abril de 2010

LIBERDADE

"A alma de uma época está em todos os seus poetas e filósofos e em nenhum."
Fernando Pessoa



Liberdade

— Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

Miguel Torga, in 'Diário XII',1975



Liberdade

O poema é
A liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplina
— Sílaba por sílaba —
O acompanha

Sílaba por sílaba
O poema emerge
— Como se os deuses o dessem
O fazemos


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas",1977


Explicação do País de Abril

País de Abril é o sítio do poema
Não fica nos terraços da saudade
não fica em longes terras. Fica {exactamente aqui
tão perto que parece longe.

Tem pinheiros e mar tem rios
tem muita gente e muita solidão
dias de festa que são dias tristes às avessas
é rua e sonho é dolorosa intimidade.


Não procurem nos livros que não vem nos livros
País de Abril fica no ventre das manhãs
fica na mágoa de o sabermos tão presente
que nos torna doentes sua ausência.

(...)
País de Abril é uma saudade de vindima
é terra e sonho e melodia de ser terra e sonho
território de fruta no pomar das veias
onde operários erguem as cidades do poema.
(...)

Manuel Alegre, in " Praça da Canção ", 1965

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Os LIVROS no Dia Mundial do Livro


A minha relação com os livros é de permanente enleio. Comecei a deixar-me enlevar era ainda muito pequena. Recordo as estantes cheias de livros na casa da minha infância. Os meus pais liam muito e todos os dias se celebrava a leitura após o lanche e antes de deitar. A minha Mãe emprestava a voz a mil e uma histórias que nos faziam sonhar. Os livros cresciam semanalmente e para todos nós existia sempre um novo título a descobrir. O fascínio das palavras ficava nos nossos ouvidos e povoava de sonho a nossa imaginação. Com o tempo acedi às letras e passei a devorar com consentimento ou sem ele os livros da casa. Fui crescendo e vieram as letras proibidas pela ditadura. Essa leitura fruía como manancial inesgotável de deleite e de afirmação identitária, colocando-me lucidamente no lugar oposto ao da ideologia vigente, castradora da liberdade. Os livros proibidos por uma censura legalizada e oficializada enchiam muitas das prateleiras mais recônditas da casa. Esses devorava-os com um maior deslumbramento , roubando à noite muitas horas de sono. Tinham, então, para mim um redobrado apelo: o sabor supremo da palavra e a descoberta de um novo mundo mais justo e livre. Portugal , além de um pequeno ponto no extremo da Europa, estava fechado, encarcerado numa ideologia fascista que nos obrigava a resistir e a escavar os Subterrâneos da Liberdade.
Os livros sempre me acompanharam, marcando e moldando os meus dias. Estruturei-me, cresci, aprendi, ensinei e fiz descobrir com eles e através deles. Com poesia ou com prosa, eles sempre se entrelaçaram em mim numa laboração constante, pulsativa, provocatória, obrigando-me a uma fiel e perene rendição.
Aos livros, a minha homenagem. Hoje e sempre.

As cinzas de Abril


Entre tornados, chuvas torrenciais, sismos e vendavais chegaram as cinzas vulcânicas produzidas por erupções há muito previstas, mas cujos nefastos efeitos não tinham sido eficaz e preventivamente tratados por esta Europa de céus vulneráveis. Em Portugal , terra sísmica e de tradição catastrófica, os milhões da crise entraram e, de suborno em suborno, eles aí andam nas primeiras páginas dos jornais e no "prime time" dos noticiários televisivos. Não queimam as mãos de quem os agarrou e muito menos de quem os perdeu. Comissões de Inquérito, Audições Parlamentares, Investigações Policiais e são milhões e milhões que voam, de bolso em bolso, neste país de pobres onde ainda se contam os tostões para que a fome não cresça antes do final do mês. A amplitude da diferença é tão aberrante que emerge quase assassina na forma como se impõe. Milhões para uns e tostões para muitos outros. E o Abril do nosso encanto assim se transformou em cinzas. Que o digam as rosas que de tão coloridas se tornaram cinzentas.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

As mãos


Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

Manuel Alegre, in "O CANTO E AS ARMAS ", 1ª edição, Nova Realidade, 1967
e
cantado por Adriano Correia de Oliveira

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Cantigas de Abril

A cantiga é uma arma

A cantiga é uma arma
eu não sabia
tudo depende da bala
e da pontaria
Tudo depende da raiva
e da alegria
a cantiga é uma arma
e eu não sabia

Há quem cante por interesse
há quem cante por cantar
e há quem faça profissão
de combater a cantar
e há quem cante de pantufas
p'ra não perder o lugar

O faduncho choradinho
de tavernas e salões
semeia só desalento
misticismo e ilusões
canto mole em letra dura
nunca fez revoluções

Letra e Música de José Mário Branco, 1975