sábado, 10 de fevereiro de 2024

15 Citações de Voltaire

Castelo de Ferney-Voltaire

15 Citações de Voltaire, 
o campião da acutilância e do sempre a propósito 

“Voltaire (1694 – 1778), foi um dos ilustres fundadores do iluminismo, um aguerrido defensor de causas e o manejador de uma das mais vivas e acutilantes penas que jamais existiram em França ou algures. Prolífico escritor, filósofo, contista, poeta, dramaturgo, ensaísta, historiador, epistológrafo que nos legou um admirável acervo de correspondência inimitável, certeira, escorreita, sempre ladina e instrutiva (cerca de 20 000 espécies, de que possuo apenas 1000…), este incansável promotor e agitador de ideias, que não hesitou em opor-se ao Rei e à Igreja Católica, pagou a sua temeridade com a Bastilha (duas vezes) e o exílio em Ferney, perto de Genebra. O que não o impediu de ser eleito para a Academia Francesa e de, no final da vida, ter beneficiado de um cortejo triunfal até Paris. Frederico da Prússia fez tudo para o ter como hóspede, na sua corte, e Ferney tornou-se a corte intelectual de toda a Europa.
Deixou-nos várias obras de valor perene, mas bastaria o seu inigualável CANDIDE, para ficar, para sempre na história da literatura universal. E, já agora, a sua novela ZADIG OU O DESTINO, é um magnífico precursor do romance policial.
Dou, a seguir, de entre as centenas de aforismos insertos na sua obra, 15 que escolhi e traduzi.”
Eugénio Lisboa, 10.02.2024
 
O melhor governo é aquele onde há o mínimo de homens inúteis.
 
A felicidade é frequentemente a única coisa que se pode dar sem se possuir e é, dando-a, que ela se obtém.
 
Fala-se sempre mal quando nada se tem a dizer.
 
Revelar o segredo de outro é traição, revelar o seu próprio é tolice.
 
Decidi ser feliz porque é bom para a saúde.
 
O fanático é um monstro que ousa dizer-se filho da religião.
 
A beleza agrada aos olhos, a doçura encanta a alma.
 
A política é a arte de mentir a propósito.
 
Aquilo a que chamamos acaso é talvez, apenas, a causa ignorada de um efeito conhecido.
 
Não estou de acordo com o que V. diz, mas bater-me-ei até ao fim para que o possa dizer.
 
Achou-se, em boa política, o segredo de fazer morrer de fome aqueles que, cultivando a terra, fazem viver os outros.
 
A dúvida é um estado mental desagradável, mas a certeza é ridícula.
 
Não foi Deus quem inventou o homem, mas o homem quem inventou Deus.

 

O conceito de fé

 
A ideia do dever não só regula a ética kantiana, também se estende ao mundo da economia. “A economia de hoje está baseada na ideia da fé e do dever, do crédito e do débito. São dois conceitos que provêm do mundo da fé. ‘Fé’, em grego, diz-se ‘pistis’. 
Há uma história muito bonita. Um historiador de religião, professor em Jerusalém, estava a  trabalhar sobre o conceito de fé (’pistis’). Pretendia entender o que é. Um dia estava em Atenas, levantou os olhos e viu escritas as palavras: ‘Banco de pisteos’. Banco da Fé, leu, mas na realidade o que estava escrito era Banco de Crédito.
Foi uma iluminação: fé significa crédito. É o crédito que se outorga à palavra de Deus. E, para nós, é o débito para com Deus. É muito esclarecedor: a economia e a ética estão baseadas nos mesmos conceitos: débito e crédito. Porque, o que é o dinheiro senão um crédito? Sobretudo depois que Richard Nixon separou o dólar do padrão ouro. O que resta nas notas é um puro crédito sem conteúdo. Temos crédito em um débito que não está garantido por nada.”
Giorgio Agamben, IHU

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

50 Anos

50 ANOS
por Eugénio Lisboa
"Publiquei o meu primeiro livro, há 50 anos. Vivia então na cidade da Beira (ainda hoje se chama assim), em Moçambique. O livro, diga-se de passagem, não foi publicado na Beira, nem sequer em Lourenço Marques, cidade onde nascera e onde vivera a maior parte da minha vida até então vivida. Também não foi publicado em Lisboa, onde tirara o meu curso de engenharia (como se vê, a minha vocação para eterno “outsider” é impecável). Viu a luz no Porto, onde nunca vivi, editado pela Livraria Tavares Martins, que o acolheu numa colecçãozinha intitulada “Poetas de Ontem e de Hoje”, dirigida por João Gaspar Simões, que eu não conhecia pessoalmente, e que me não conhecia a mim, nem pessoalmente, nem de maneira nenhuma: eu nunca publicara nada, nem em livro, nem em revista, nem em jornal e não tinha por costume andar atrás de escritores, mesmo dos que admirava. A responsabilidade do livro foi-me simplesmente cometida, de forma algo escandalosa, por um dos tais escritores que eu muito admirava – José Régio - , cuja obra conhecia como os meus dedos, mas sobre a qual não escrevera, nem sonhava escrever uma única linha. Uma noite, em Portalegre, regressando com ele do Café Central – hoje assassinado - , comunicou-me que, na sua recente visita ao Porto, o Tavares Martins lhe pedira autorização (e colaboração) para incluir na supra dita colecção, logo a seguir ao tomo dedicado a Garrett, uma antologia de poesia do autor de Poemas de Deus e do Diabo. Régio respondera-lhe que sim, com a condição de ser ele – e não Simões – a escolher o ensaísta que organizaria a antologia e para ela escreveria um estudo crítico introdutório. E que o escolhido seria um oficial miliciano chamado Eugénio Lisboa, que conhecera em Portalegre e ali se encontrava, a cumprir serviço. O Tavares Martins aceitara e, pelos vistos, o Simões também. Os deuses, nessa altura , estavam singularmente a meu favor, embora, algum tempo depois, se virassem malevolamente contra mim : tudo se paga e é sabido que os deuses não gostam de nos ver contentes por muito tempo. Já agora informo que não pedira para ser colocado em Portalegre com o fim de poder conhecer e conviver com o Régio – já disse e é verdade que nunca tive o hábito de andar atrás de escritores, mesmo dos que mais admiro: porque sou tímido e porque o tempo me foi ensinando que a maior parte deles ganham em não ser conhecidos de perto. Fui para Portalegre, visivelmente contrariado, por ali ter sido colocado depois de um curso de cadetes milicianos em Mafra, no qual dei abundantes provas do meu temperamento pouco acomodatício. Como era rebelde e refilão, acumulei, durante o curso, castigos (que não cumpri) e fomentei justificados ressentimentos que desembocaram numa má classificação, em comportamento (no resto safava-me bem porque o curso de engenharia tornava todas aquelas disciplinas uma brincadeira de crianças). O “mau comportamento”, em princípio, não me incomodava (até me parecia um galardão), o pior é que deu em resultado que me atirassem para uma unidade perto da fronteira: o Batalhão de Caçadores 1, em Portalegre. Como há males que nos vêm por bem – e já Pascal, sabiamente, nos aconselhava a fazermos um bom uso das doenças – a cidade alentejana serviu-me, no mínimo, para ali conhecer o Régio e, também, o Dr. Feliciano Falcão, médico analista e investigador laureado, marxista convicto, além de homem cultíssimo, melómano apaixonado, extremamente bondoso e amigo de ajudar o seu semelhante. A sua inocência fazia o Régio olhá-lo de soslaio, como se tanta candura não fosse deste mundo. Mas Portalegre serviu, também, para me apresentar o Alentejo, que ainda hoje é a minha província favorita num Portugal a que pertenço e não pertenço, visto encontrar-me maravilhosamente tripartido entre Moçambique, a Inglaterra e Portugal, minhas três pátrias de que não abdico: não sou um desenraizado, o que tenho é muitas raízes – em suma, sou rico. De qualquer modo, só para conhecer uma cabeça como a do Régio e um coração como o do Dr. Falcão, valeu a pena ir cumprir a pena de degredo, em Portalegre. Para me amparar na minha proverbial “desfasagem” em relação às forças armadas (pelas quais nunca senti nem a veneração, nem a subserviência que lhe têm votado quase todos os governos da democracia portuguesa), valeu-me o inesquecível capitão Carlos Saraiva, homem de uma inteligência, sensibilidade e compreensão como não tenho encontrado muitas, dentro ou fora das forças armadas. Fiquei seu amigo para sempre e ele meu credor, numa tal dimensão, que me não chegariam duas vidas para lhe pagar a dívida que para com ele contraí. Alguma coisa boa afinal encontrei nas forças armadas.
Voltando à antologia, comecei por gaguejar com a honra que surpreendentemente me visitava e por dizer ao Régio que, sim senhor, me tocava muito o convite, mas que nunca publicara nada (embora rabiscasse un “diário” errático para a gaveta) e que, portanto, não fazia sentido aceitar a oferta. Mas o Régio sabia-a toda. E foi por ali fora, alegando isto e aquilo e ainda que, nas nossas alongadas conversas de café, eu mostrara um conhecimento, em profundidade, da obra dele, como nunca vira em ninguém, que, acrescentava ele, a escrever, é que se aprende a escrever, e que, em suma, ele não tinha qualquer dúvida quanto ao serviço asseado que sairia das minhas mãos. Mas eu iria, poucos meses depois, para África, atirei-lhe, a ver se o dissuadia... Que não fazia mal: acabava o trabalho antes de partir e ele, Régio, comprometia-se a rever, em Portugal, as provas, com todo o cuidado que punha nas suas próprias coisas. O livro – que sairia “jeitoso”, insinuava ele, a seduzir-me – lá me chegaria às mãos na África das minhas origens... Eu havia de lhe tomar o gosto e continuar. O que era preciso era começar. Por fim, sufocado, em pânico, como quem se atira – e sem coragem para continuar a recusar tão incomensurável oferta – disse-lhe que iria tentar, apesar de ter que fazer o livro ao mesmo tempo que os meus estágios de engenharia e relatórios correspondentes.
Parti para Lisboa em fim de Fevereiro de 1955, envaidecido e apavorado. Parecia-me cada vez mais uma enorme  loucura ter-me rendido ao desafio do grande escritor. De qualquer modo, pus-me ao trabalho, aboletado, em república, na casa do Rui Serrão, colega e amigo de batalhão, que também se fizera amigo do Régio e do Dr. Falcão e deixara, por acaso, o coração em Portalegre, nas mãos gentis da “bela Helena”, com quem viria a casar. De dia, fazia os estágios e ia preparando os relatórios e, à noite, relia o Régio, tomava notas, escrevia períodos que me pareciam dignos de, mais tarde, se irem encaixar no mítico ensaio-a-haver. E tinha cada vez mais medo de não ser capaz de escrever coisa com coisa. Mas sempre ia descobrindo, na obra do autor de A Velha Casa, recantos que, até então, só mal entrevira: dava-me um estranho gozo interior sentir, às vezes, que acertara, que tocara em algo de profundamente revelador, mas sufocava-me a angústia de ainda não ver o texto em que tudo aquilo se iria inserir. Foi um trabalho longo, minucioso, lento, angustiado, que durou de Março a Maio: três meses suados e bem suados. Acabei, com uma alegria que não há palavras para contá-la, por descortinar o guião geral em que as minhas pérolas singulares se iriam incrustar. Aqueles átomos de descoberta não iriam ficar pendurados, sem se articularem num todo que fizesse sentido. Finalmente eu via o argumento. Mas havia em tudo aquilo um defeito contra o qual não me apetecia lutar: era o meu primeiro livro, mais, era o meu primeiro texto, e era-o sobre um escritor que eu conhecia bem e que me “agarrara” aos quinze ou dezasseis anos, com um livro que nunca mais saíra de mim: Uma Gota de Sangue, primeiro volante de uma vasta e ambiciosa soma romanesca, que viria a ficar incompleta. Como acontece com os primeiros livros, eu queria meter “tudo” logo no primeiro parágrafo: tal era o medo de que se “perdesse” se o não registasse logo ali... Um ou outro período corria assim o risco de sair, não propriamente “rico”, mas sim “atafulhado”...
Escrevia à mão, com letra bem desenhada e, no fim, copiei o texto num caderno de trinta e cinco linhas (salvo erro, não juro, branco), que enviei ao Régio, em Portalegre. Passara as duas últimas noites a escrever, sem dormir, à custa de anfetaminas, de que, depois, nunca mais abusei. E fiquei à espera.
Pelo meio, acabei os estágios, amanhei à pressa e sem grande convicção, os relatórios e recusei, com desenvoltura e alguma leviandade, um bom emprego que me fora lisonjeiramente oferecido, para Alverca: decidira mesmo regressar a África, à minha África, onde tinha espaço, recordações, família, o Nero já enterrado e, quem sabe, amores à espera. Estava farto de Lisboa, de Portugal, da Europa, da pequenez disto tudo. Ir-me-ia embora – o Régio não aprovava – no princípio de Agosto. Entretanto, no meio da agitação que precedia a partida, chegaria a reacção do poeta aos meus trabalhos de Hércules. E, com efeito, com data de 22 de Maio (três dias antes do meu aniversário) veio por fim a carta acusando a recepção do meu manuscrito. Abri-a a tremer. Entre outras coisas, dizia o seguinte, começando com as “cautelas” do protocolo: “Ao fazer um juízo sobre o seu trabalho, tenho de ser muito sóbrio: isto porque – numa certa medida – louvando-o, quase teria a impressão de me estar louvando a mim próprio(...) Só quis dizer que Você é muito amável com as minhas coisas. As restrições também lá estão, por certo, e ainda bem! Mas os meus inimigos dirão que certos aspectos apologéticos excedem em muito as observações restritivas, Mais uma vez passemos adiante. O que não pode ser louvar-me, - é reconhecer eu a penetração, a densidade, o encadeamento lógico, visíveis (e creio que, felizmente, não só a mim!) em todo o seu estudo, e que, aliás, eu já esperava de Você. A forma nem sempre é lapidar, e até possível é que Você não tenha propensão especial para o lapidarismo. Ainda se não vê bem, perante certos seus longos períodos, o que é devido a uma inexperiência natural num jovem escritor, ou o que deriva de uma personalidade. Mas o emprego do termo próprio, justo, já é notável na sua prosa; e devo confessar que, se já esperava de Você as qualidades de inteligência e sensibilidade patentes num estudo tão completo e aprofundado a dentro dos seus limites de extensão, não sabia, por ainda não ter lido nada seu, quais seriam as suas possibilidades de expressão verbal. Vejo que tais possibilidades de expressão já não desmerecem da coisa exprimível. Estou, portanto, e em suma, verdadeiramente satisfeito com o ter escolhido, se me permite falar assim. Quando o livro saia, e me pedir alguém de fora (como já tem sucedido) um estudo que dê uma ideia da minha obra – terei, finalmente, um pequeno volume em que já se diz muito sobre ela.”  O elogio, vindo do cauteloso Régio, era de monta. Mas fui particularmente sensível ao facto de ele ter percebido o “encadeamento lógico” do meu texto: sofrera angústias, com o receio de não vir a dar uma articulação de enredo ao conjunto de observações que a obra regiana me suscitara. Temera, sobretudo, produzir um amontoado de “pérolas” sem fio de ligação – e, sem fio, como nota Ortega y Gasset, não há “colar”.  A carta de Régio vinha sossegar-me. Quanto à falta provisória de “lapidarismo”, tinha razão. E também pressentira a causa: a inexperiência do principiante que visa meter “tudo quanto sabe” logo no primeiro parágrafo. Eu próprio estava consciente disso. E fiquei grato por mo não ter escondido.  
Mas tenho que fazer aqui uma observação que nunca, em vida do poeta, quis fazer para o não ferir. É que parte da “inexperiência” de escrita por ele (e por outros) mencionada  se ficou a dever a uma revisão de provas que não fora afinal tão cuidadosa como me prometera o autor de As Encruzilhadas de Deus. Alguma desatenção à pontuação, algum desaparecimento de pontos - e - vírgulas tornaram certos períodos cristalinamente claros em algo dificilmente compreensível... Não era, repito, apenas inexperiência: eram as tais gralhas de que o próprio poeta se queixava num lancinante poema das Encruzilhadas de Deus – e que me crucificaram a mim, logo no meu primeiro livro, o qual tanta simpatia votara às ditas “Encruzilhadas”!
O livro levaria dois longos anos a ser produzido, alegando o editor problemas financeiros – o que devia, em parte, ser verdade. Em África, primeiro em Lourenço Marques (um ano), depois na Beira (outro ano) fui esperando. Sem grande impaciência, diga-se. Outros problemas mais prementes (mais urgentes, mais “interessantes”) me ocupavam e desviavam do livro longínquo: profissionais, pessoais (amores contrariados), culturais, políticos, geográficos... Por fim, dois anos após ter entregue o manuscrito, chegou-me à Beira – onde a vida me era, simultaneamente, estimulante e frustrante – a encomenda com alguns exemplares do livrinho. Vinha bonito, elegante, escorreito, com uma bela fotografia do Régio na capa – ao lado desta, causando-me uma infindável estranheza, o “por Eugénio Lisboa”. Das 200 páginas do livro, 80 eram ocupadas pelo meu texto e notas. Dava para ficar de cauda perpendicular, como dizia o Eliot, falando de gatos. Mas não sofri, com esse primeiro livro, os tais pudores de me “ver exposto”, de que falava o Régio no posfácio aos Poemas de Deus e do Diabo. Não creio que o livro tenha chegado à livrarias da Beira e, em Portugal, se esteve nas montras de Lisboa ou do Porto, confesso que não sei – não estava lá para o verificar e nunca fui pessoa de perguntar essas coisas...Ego, sim, mas devagar. Mas sempre fui mostrando o voluminho aos amigos do Cine-Clube da Beira (o primeiro a aparecer em Moçambique), os quais, tudo gente de esquerda, tiveram a generosidade de produzir ruídos de apreço: que me tocaram fundo, sabendo eu as reservas que “aquela” esquerda sempre pôs à terrível independência do Régio. Enfim, tornara-me uma espécie de celebridadezinha local, quase exótica, quase repreensível, publicando ruminações sobre obsessões umbilicais de um rebelde de Vila do Conde... É preciso um pouco de tudo para fazer um mundo. O Joaquim Elias, o Noronha Marques, o Álvaro Simões, tudo bons amigos da Beira, lamentavam, por certo, a minha mania do Régio mas, como eram amigos, davam-me pancadinhas ternurentas, ainda que irónicas – e tingidas de alguma pena. É claro – e é humano – que, como todos os escritores, eu esperava a consagração absoluta. Vira no Régio – achava eu – coisas que mais ninguém vira, alinhavara, sobre elas, períodos que me pareciam perfurantes. Que podia, pois, esperar, senão uma estrondosa aclamação? Foi, neste ponto, que os deuses resolveram, como fazem muitas vezes, gozar comigo. O ataque, fulminante, impiedoso, sem atenuantes, partiu do próprio director da colecção em que o livrinho se inseria. Podia, desde logo, parecer estranho: o responsável oficial pela série, demolia, de alto a baixo, o texto que aceitara para a colecção que dirigia... E era, de facto, bizarro. Mas o Régio, fino psicólogo, logo lançou bálsamo na minha ferida: tudo fora desfavorável, explicou-me ele, ao orgulho de João Gaspar Simões: o poeta escolhido para segundo volume da série fora-lhe imposto pelo editor: Régio, com quem Simões estava de relações frias ou mesmo cortadas; o ensaísta escolhido para estudar  Régio fora imposto ao director da série pelo próprio homenageado; e eu, pelo meu lado, recusara-me a atender ao pedido diplomático de Régio, no sentido de salpicar com alguns adjectivos mais lisonjeiros o percurso crítico de Simões, de quem falara, de passagem, como director da revista presença (ou, em alternativa, como parece que preferia Simões, não o mencionar pura e simplesmente, visto ser ele o director da colecção – o que também julguei inaceitável). O autor de O Mistério da Poesia, que por essa altura se via atacado de todos os quadrantes da rosa dos ventos da literatura nacional, encontrando-se portanto em carne viva, reagiu mal a esta falta de veneração de um jovem principiante de vinte e poucos anos. A sua recensão crítica foi, como disse, demolidora e aleijou-me por muito tempo: comparava-me com tudo quanto era gente grande, no ensaísmo literário lusíada, para não ver, em mim, nenhuma das componentes virtuosas que via neles. De principiante canhestro, para baixo, chamou-me tudo. Não foi, porém, só a humilhação sofrida às suas mãos que me chocou. Foi um pouco como se tivesse, por fim, perdido, de modo doloroso, a minha inocência, no reino turbulento dos costumes literários: ver um homem, apesar de tudo prestigiado, criticar ,e ainda por cima tão negativamente, um autor publicado numa colecção por ele dirigida ultrapassou tudo quanto pudesse ter imaginado. Na minha ingenuidade, eu teria suposto que um director de colecção deveria simplesmente abster-se de fazer crítica aos autores a cuja edição preside. Mas até o mais impensável acha sempre forma de acontecer debaixo do sol que a todos nos alumia e aquece...
Não foi, no entanto, Simões o único a ferir o meu incipiente orgulho literário – no Brasil, Casais Monteiro receberia uma carta acerba de Régio por ter feito uma leitura “displicente” do meu texto. Houve risco de zanga séria. Como nunca fui de assinar “recortes” de jornais, confesso que não tenho  nenhuma ideia muito nítida de como reagiu a crítica lusíada, em geral. Mas tive duas grandes consolações, uma delas, inesperada e quase intrigante. A primeira veio do David Mourão-Ferreira que, no Diário Popular, se desunhou em elogios, num generoso esforço de leitura simpatizante (embora não deixasse, também, de fazer alguns reparos justos). A segunda – a tal inesperada – veio do Porto, da pena de António Ramos de Almeida, neorealista de fundamentação marxista e admirador cheio de reticências de Régio e da presença. Pois, mesmo assim, o António Ramos de Almeida viu, no meu textinho, maravilhas de penetração e de não sei que mais. Vou só citar, para vosso entretenimento e gozo, uma passagem da surpreendente recensão do neorealista Ramos de Almeida: “Eugénio Lisboa, um nome desconhecido, um jovem ignorado nas lides literárias, ganha neste «Ensaio [José Régio –Col. «Poetas de Ontem e de Hoje»]”, ainda inexperientemente escrito, foros a ser considerado e tratado como um dos temperamentos críticos mais desassombrados e penetrantes que ultimamente surgiram no tablado das nossas letras. (...) O «Exame Crítico» de Eugénio Lisboa recai exclusivamente sobre a obra poética de Régio, mas deixa-nos algumas penetrações subtis e ousadas sobre o mundo estético, ético e psicológico do Poeta (...)  O subjectivismo, mais, o egocentrismo de Régio é sondado desta vez sem qualquer «parti-pris»...” Vindo de quem vinha – e o meu texto não deixava dúvidas quanto à fundamentação não-marxista que lhe presidia -, a accolade quase me consolou das diatribes simónicas. Mas, ao fim e ao cabo, Simões, mesmo acirrado por todos os quadrantes, continuava a ser o mais influente crítico literário português e exemplar único de crítico sistemático, isto é, semanalmente presente. E, com todos os seus erros e improvisações desastradas, tinha atrás de si uma obra que testemunhava de um quase infalível faro literário. Ora ele, no fundo, mandara-me mudar de vida. Pois é: mas o que é não menos verdade é que a vingança se serve fria. E foi assim mesmo – extremamente fria – que eu involuntariamente lha servi, três anos depois. De facto, em 1960, em edição belíssima da Imprensa Nacional de Moçambique, viram a luz os Poemas de Reinaldo Ferreira, malogrado grande poeta, falecido em Lourenço Marques com 37 anos. O livro foi organizado, a partir de um desorganizadíssimo espólio, por um grupo de amigos e admiradores, de que eu fazia parte. A introdução, não assinada, era de minha autoria e correspondia ao texto de uma pequena palestra que fizera, meses antes, na Câmara Municipal de Lourenço Marques. Enviado o livro para jornais e revistas de Moçambique e da metrópole (como então se dizia), João Gaspar Simões deu-lhe a sua atenção crítica no Jornal Português de Economia e Finanças, elogiando sem reservas, o anónimo prefaciador. Mas fez mais: tendo-se encontrado com Régio, com quem as suas relações estavam menos frias, desatou a exaltar entusiasticamente os talentos ensaísticos do anónimo prefaciador. Pérfido, o Régio, que sabia muito bem quem era o autor do prefácio, foi propondo dúvidas: então o João achava aquilo assim tão bom? Não estaria a exagerar? Simões, quanto mais se via “travado” pelo autor do “Cântico Negro”, mais se derramava em elogios: que penetração, que cultura, que qualidade de escrita! Que revelação! Até que o Régio lhe perguntou se ele tinha alguma ideia de quem era o autor do texto assim tão elogiado. Não, Simões não tinha ideia nenhuma. Então o autor de Jogo da Cabra Cega, especialista consumado em jogos da cabra cega, disse-lhe: “O autor é aquele rapaz que fez a minha antologia para o Tavares Martins e de quem tu disseste tanto mal...” Simões, obviamente, salvou a face: que não havia dúvida, o jovem melhorara muito, de então para cá! Esta história tenho-a, em primeira mão, porque me foi contada pelo próprio Régio. Mas não termina aqui. Havia nobreza em Simões. Anos depois, tendo eu ido a Portugal (residia ainda em Lourenço Marques), Luís Amaro, de quem me tornara amigo, combinou encontrar-se comigo no seu escritório da Portugália, em Lisboa, e disse-me que o Gaspar Simões mostrara interesse em me conhecer pessoalmente. Ainda de asa ferida – os aleijões literários não se curam facilmente com qualquer pomada - , disse ao Luís Amaro que não me apetecia muito ver o Simões. Porém, no dia aprazado, quando me encontrava a conversar com o Luís, aparece-me de supetão o biógrafo de Eça e Pessoa que, com grande alarde, me abraça e me cobre de simpatia. Ficou, a partir daí, meu amigo fiel. E teve a suprema delicadeza de nunca se referir ao passado. As quatro recensões críticas que depois fez a livros meus foram impecáveis de empatia, penetração e não pouca generosidade. Quando estava a viver em Londres e vinha a Lisboa, João Gaspar Simões fazia sempre questão de me convidar para almoçar. Parafraseando o Artur Portela Filho dos bons tempos, eu e o autor de Pântano por várias vezes desferimos o garfo no Grémio Literário. E tive ocasião de o levar a Londres e a Cambridge, para ali fazer conferências. Devo dizer que, nas viagens de automóvel que por ali fiz com ele e numa ida ao teatro onde o levei a ver uma peça de Tcheckov, Simões falava-me, é claro, de livros e de autores, mas os seus temas preferidos eram, claramente, carros e mulheres. Já rondando os oitenta anos, ainda sofria, proustianamente, de amores mal correspondidos. E, passeando-nos, repousadamente, nas ruas de Londres, passava a vida a inquirir sobre estações de correio onde deitar um postalinho para determinada senhora de sua especial atenção, naquele momento. Acabou por me confessar – como quem se desculpa da sua pouca assiduidade epistolar com os amigos – que escrever só gostava realmente de o fazer a senhoras que o interessavam: tirando isso, a epistolografia não o atraía. Que eu não levasse, pois, a mal escrever-me tão pouco. Mas ia-me enviando para Londres os seus livros e eu retribuía, mandando-lhe boas biografias inglesas, que ele adorava ler, e contos do Isaac Bashevis Singer, de quem se tornou verdadeiro fã. Conto tudo isto, só para dizer que, na história do meu primeiro livro, as relações com o autor de Elói começaram o pior possível e acabaram em tons cor de rosa. Quando faleceu, em 1987, estava eu ainda em Londres, senti que se fazia na crítica portuguesa um buraco e outro se fazia no universo das minhas amizades. Não que o seu ensaísmo ou o seu discurso crítico tivessem muito que ver com os meus ou com os de outros que sempre privilegiei. Nem só de intuição certeira (às vezes) vive o bom ensaísmo. A verdade é que prezei sempre uma aliança íntima e fecunda entre a inteligência, a sensibilidade e o gosto da clareza. Se Simões, com todas as  qualidades que inegavelmente tinha, improvisava demasiado, para o meu gosto, também, por outro lado, muito discurso ensaístico prevalecente no mundo académico me deixava crispado, pela opacidade rebuscada, compacta e aparatosamente feia , que sempre me fazem recordar, com algum gozo, a chacota feita pelo historiador Paul Johnson às abstrusas circunvoluções do filósofo inglês, Sir Peter Strawson. Na sua crónica intitulada “Waiting for a few Delphic Utterances”, Johnson cita esta passagem particularmente opaca do filósofo: “Por fim, conquanto seja verdade que, sem um muito elevado grau de regularidade causal, sentiríamos a falta dos próprios conceitos daqueles objectos relativamente persistentes que sustêm a unidade espácio-temporal do mundo, [a verdade é que] o argumento a favor do reino universal da causalidade natural – do determinismo absoluto – permanece inconclusivo”. Todo este charabia estapafúrdio, nota Johnson, para dizer esta coisa luminosamente simples: “As leis da Física são úteis mas podem nem sempre funcionar”. Quanto discurso académico, quanta tese de doutoramento não abunda nesta teratologia estilística que propõe a treva  como valor solidamente cambial! A obscuridade sempre me pareceu má conselheira e o seu cultivo sinal de má-fé.
Entre este meu primeiro livro, de 1957, e o segundo, de 1973, decorreram 16 anos. Como se vê, publicar, fazer sair mais um livro, ver-me exposto – não tem sido uma das minhas grandes vocações. Escrever, sim. Publicar, não, necessariamente. O preceito latino nulla dies sine linea esteve sempre comigo e nunca esqueci uma passagem de um livro de Jean Dutourd, segundo o qual, a mão que não escreve todos os dias endurece, tal como endurece a teta da vaca que não é ordenhada diariamente. Simplesmente, a necessidade de escrever não correspondia, em mim, à necessidade de publicar, sobretudo, em forma de livro. Seja como for, de Portalegre, de Vila do Conde, Régio – amigo fiel e implacável – espicaçava-me por carta. Eu sentia, com alguma razão, que, por um lado, tinha uma profissão técnica a desempenhar e, por outro, ou era o mesmo, uma família a sustentar. Mas que continuava, dentro das minhas possibilidades e com alguma obstinação, a trabalhar, publicando em jornais e revistas de Moçambique textos de que me não envergonhava. Sobre André Gide, sobre Montherlant, sobre Thomas Mann , sobre Bertrand Russell, sobre Shakespeare, sobre Álvaro Lins, sobre Régio, Fialho , Manuel Laranjeira, Jorge de Sena, Miguel Torga, Irene Lisboa, Fernando Namora, José Craveirinha, Maria Silva Pinto, Ascêncio de Freitas ou Gouvêa Lemos, produzi textos que continuo a prezar. Mas nada disto, até 1973 , se organizara em livro. Porque não me parecia nem urgente, nem importante publicar livros. Régio não se resignava e aconselhava-me a ser “mais profissional”. Tentou mesmo convencer-me a colaborar, com ele, no suplemento cultural de O Comércio do Porto, que tinha, por essa altura, grande prestígio. Aqui, em África, nesta Lourenço Marques em que nascera e estudara (e casara e tivera filhas), nesta África espaçosa, viver, conviver, trabalhar na Voz de Moçambique, no Cine-Clube e, durante algum tempo, no diário A Tribuna, depois devorado, como quase tudo, pelo Banco Nacional Ultramarino, atazanar os poderes vigentes – era-me mais importante do que publicar mais um livro. A boa escrita alimenta-se mais da intensidade da vida que nos devora do que de mais escrita ou de muita escrita. Eu ia “aparecendo”, como dizem os literatos, mas não sob o formato de livro. Em 1969, Régio falecia, com 68 anos, e fugia-me um amigo essencial e um vigilante de peso. E só então, ironicamente, começou, para mim, com mais alguma assiduidade, aquilo a que se costuma chamar, pomposamente, uma “carreira de escritor”. Com o desaparecimento do autor de Histórias de Mulheres, que tanto e tão em vão pugnara pelo meu “aparecimento” mais frequente, veio-me o convite da hoje desaparecida editora Arcádia, para a elaboração do livro José Régio – A obra e o Homem. Ungido de remorsos, por tão mal ter correspondido ao dedicado interesse e afecto do autor de A Velha Casa, aceitei, como quem se redime, o convite, gastei umas férias de verão africano fanaticamente fechado em casa, sem receber amigos nem adjacentes, passei a pente fino a obra vasta e densa do criador da Benilde, enchi de fichas e papéis o tabuleiro amplo da minha secretária feita de madeira “jambir” e, terminadas as férias, suando prodigiosamente sob o clima assassino, usei noites e fins de semana impiedosos, até produzir as quatrocentas e tal páginas do que, sem vergonha de qualquer espécie, considero o que de melhor e mais abrangente e mais cuidadoso se escreveu até hoje sobre o autor do Jogo da Cabra Cega. E foi, realmente, um começo. Entregue à bagunça que era a Arcádia, por essa altura, já em graves dificuldades financeiras, passar-se-iam anos até o livro ser finalmente publicado, quando o novo director, Jorge Martins, que me não conhecia, tomou em mãos a tarefa editorial, fez um novo contrato, para mim mais favorável, e tudo isso me caíu em cima, aqui em Lourenço Marques, num momento turbulento em que se ouvia tiroteio pelas ruas e tudo ameaçava fim, menos o meu livro que ia, enfim, começar. O livro saiu para as livrarias, em Portugal, no momento em que eu passava por Lisboa, a caminho de Estocolmo: Janeiro de 1977. Mais uma vez, a “glória” de me ver exposto – fugia-me: o livro ia ser “visto” nas montras e nos jornais, por outros, mas não por mim, encafuado como me encontrava naquela improvável paisagem nórdica em que a neve me trepava pelas pernas até à altura dos joelhos. Em jornais portugueses que encontrava em bibliotecas municipais de Estocolmo, fui vendo que o livro era acarinhado: desta vez, o João Gaspar Simões embandeirou em arco, o Pedro Támen, no  Expresso, disse coisas assaz bonitas e, mais tarde, na Colóquio – Letras, o Pierre Hourcade coroou-me imperador. Os deuses, parecia, estavam fartos de gozar comigo. Depois, as encomendas nunca mais pararam de chegar: quase tudo quanto publiquei foi obra de encomenda. A própria poesia, que escrevia à sucapa, para ninguém ver, me foi pedida, para livro, por uma editora de emigrantes portugueses a residirem na Suíça. A minha esperança era que fosse tão mal distribuída, que ninguém desse por ela. Mas o júri do Prémio Cidade de Lisboa deu mesmo por ela e atribuiu-lhe o galardão: senti-me tão mal com ele, que ofereci o dinheiro ao estimável editor, João David Rosa, homem empreendedor e amigo da cultura, que viria a suicidar-se poucos anos depois. Fora ele quem enviara o livro para efeitos de prémio, na sua qualidade de editor e contra a minha expressa vontade.
De 1973 até hoje, publiquei muito, mas não demasiado. Gosto de ruminar bem as coisas antes de as passar a texto comunicável. Tento que os meus textos sejam duas coisas: claros, isto é, mais vulneráveis ao ataque (e nisto reside a honra de qualquer hipótese digna desse nome), e atraentes, isto é, capazes de seduzir o leitor, ou pela sua energia, ou pela sua música, ou pelo inesperado da sua formulação.
E não gosto de atrelar os meus cavalos aos carros que, de momento, são os mais rentáveis ou os mais seguramente vitoriosos. Há nomes – todos nós sabemos isso – que, em cada momento, são aqueles que “devem” referir-se ou sobre quem se deve falar. Há um código tácito – não necessariamente escrito – que os bons entendedores rapidamente decifram, para seu governo. Eu também o decifro – mas gosto de não lhe obedecer. Estar com quem ganha é um bem pobre recurso.
Tem havido quem estranhe que eu, saído de Moçambique, tenha depois dedicado tão pouca da minha atenção às literaturas africanas de língua portuguesa. Como de costume, a estranheza é que é estranha. Nascido em Moçambique e aí tendo vivido um total de 38 anos, terei sido um dos primeiros – mas não seguramente o primeiro – a dedicar alguma atenção crítica e não pouco carinho a textos importantes de uma emergente literatura africana. Mas a minha cultura, como a de quase todos os europeus residentes em África, era uma cultura fundamentalmente portuguesa, europeia e universal no melhor sentido. Nunca me inculquei – porque nem era verdade, nem era a minha verdadeira vocação – como especialista de literatura moçambicana. Estudei-a, sim, e até muito antes de outros que depois se lhe dedicaram em exclusividade. Mas tive, desde muito novo, outras apetências, outros alimentos a que nunca soube, nem quis fugir. Se a África me está no sangue, no imaginário e no coração, a Europa e as Américas não o estão menos. Aluno de engenharia, em Lisboa, a partir de 1947, a minha curiosidade insaciável por nomes como Camões, Pessoa, Vieira, Sá-Carneiro, Eça, Garrett, Camilo, Régio, Gide, Proust, Montaigne, Montherlant, Thomas Mann, Racine, Stendhal, Balzac, Shakespeare, Dickens, George Eliot, Shelley, Wordsworth, Pessoa, Sá-Carneiro, Régio, Lorca, Unamuno, Ortega y Gasset, T.S. Eliot, Sherwood Anderson, Edgar Poe, Hemingway, Faulkner, Pirandello, D’Annunzio, Huxley, Bertrand Russell, Bernard Shaw, o inimitável Oscar Wilde, Tolstoi, Tcheckov, Dostoiewsky ou Fiodor Sologub, [a minha curiosidade por todos estes nomes] nunca cessou de me devorar e estimular no melhor sentido. Se estudei Craveirinha, Luis Bernardo Honwana, Rui Knopfli, Rui Nogar ou Glória de Sant’Ana, que em Moçambique viveram (e, alguns, nasceram, e outros, ainda, nasceram e morreram), se o fiz com um cuidado e uma imparcialidade crítica que nem sempre se tem votado às literaturas africanas, não me senti por isso obrigado a jugular aquelas outras apetências que eram, para mim, vitais. De nada disto me sinto com vontade de pedir desculpa ao povo de Moçambique. Porque o povo de Moçambique tem a grandeza de Moçambique e deve portanto saber alcançar o que está para além de Moçambique. O melhor do que é particular é também universal. Foi para mim um privilégio inconcebível, uma permanente fonte de assombro – e é o assombro que leva a todas as descobertas – ter nascido em Moçambique: aqui descobri os afectos, os saberes, o respeito sagrado pelas crianças e pelos velhos, o Oceano Índico, as praias como não há outras, o amor, a leitura, a ciência, o calor, os mais bonitos outonos e invernos do universo, mas aprendi também – e assim é a humanidade – que se é muitas vezes feliz e cumulado de riquezas no meio de outros que são menos felizes e bem menos municiados pelos alimentos terrestres. Aprendi que existe a injustiça que fere como um espinho que nunca se arranca. E aprendi que a nossa simpatia para com o sofrimento dos injustiçados nos pode marginalizar numa sociedade que se construiu sobre a injustiça e teme a justiça como o fim de privilégios que se habituara a ter como bens de direito divino. Aprendi a sofrer, também, aqui, em Moçambique. E aprendi a deixar de ser feliz daquela maneira inocente de ser feliz que me visitara a infância e a adolescência, mas que a idade adulta foi desassossegando como quem mina fundações que pareciam tão sólidas. Moçambique.  Dei-lhe o que podia, sendo eu quem sou. Não lhe dei, talvez, tudo quanto devia. Repito: tenho raízes em mais do que um quintal. Sou rico – e vário. Ao fim de cinquenta anos de escrever e publicar, agora que se aproxima o fim da minha aventura, agradeço do coração a todos os que me enriqueceram com o seu convívio, com as luzes que em mim acenderam, com os acordes que me encantaram os ouvidos. Moçambicanos ou não, o meu temperamento não se dá nem com a rejeição, nem com a exclusão. Dizia Montaigne – e melhor conselheiro do que ele não há! – que a diversidade é a qualidade mais universal que há no mundo. Com ela me dei sempre bem, ao seu calor me aqueci, com o seu estímulo, caminhei. E, aqui, neste Moçambique que visito provavelmente pela última vez e onde descobri, com assombro inextinguível, o milagre de estar vivo e de estar vivo com outros um pouco diferentes de mim, aqui me despeço de vós, com quem aprendi, entre outras coisas, aquilo que há muitos séculos fora já descoberto por um escravo chamado Terêncio: que, sendo humano, a nada do que é humano sou alheio."
Eugénio Lisboa
Este texto foi lido na Escola Portuguesa de Moçambique, em 7 de Junho de 2007

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Sobre o amor perdido

De um amor morto 

De um amor morto fica 
Um pesado tempo quotidiano
Onde os gestos se esbarram
Ao longo do ano

De um amor morto não fica 
Nenhuma memória
O passado se rende
O presente o devora
E os navios do tempo
Agudos e lentos
O levam embora

Pois um amor morto não deixa 
Em nós seu retrato
De infinita demora
É apenas um facto
Que a eternidade ignora
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Geografia, Editorial Caminho, Fevereiro de 2004, p 41
Olhos iguais, outro olhar,
Silêncios da mesma voz,
Memória vaga e lunar
Do sol que fôssemos nós...

Assim erramos incertos, 
Juntos, distantes, cansados,
Mordendo o pó nos desertos
Onde houve relvas e prados.

E a Vida escoa-se, enquanto
O tempo, alheio à vontade,
Deslisa, remoto pranto
Duma tranquila orfandade.
Reynaldo Ferreira, in Poemas, Imprensa Nacional de Moçambique, 1960, p 64

a alegria enfeitava-nos o coração e a boca

a alegria
enfeitava-nos o coração e a boca

falámos dos encontros 
a tua boca era de terra
era a própria terra
tinha o perfume dos loureiros de ismirna
o mel de siracusa
o sabor das tâmaras dos trópicos 
a terra inteira a desfazer-se em sumos

porque partias ao clarear do dia
fomos rápidos
com poucos minutos para inventar mentiras

eu devia ter-te morto para que não partisses
Lourenço de Carvalho, in minha ave africana, Tempográfica, Lourenço Marques, p 15 

Soneto

Doce sonho, suave e soberano
Se por mais longo tempo me durara!
Ah! quem de sonho tal nunca acordara,
Pois havia de ver tal desengano!

Ah! deleitoso bem! Ah! doce engano!
Se por mais largo espaço me enganara!
Se então a vida mísera acabara,
De alegria e prazer morrera ufano.

Ditoso, não estando em mim, pois tive,
Dormindo, o que acordado ter quisera.
Olhai com que me paga meu destino!

Enfim, fora de mim ditoso estive.
Em mentiras ter dita, razão era,
Pois sempre nas verdades foi mofino.
Luís de Camões


Minuto

O amor? Seria o fruto
trincado até mais não ser?
( Mas para lá do prazer 
a Vida estava de luto...)

Fui plantar o coração
no infinito uma flor...
( Mas para lá do fervor
a Vida gritou que não!

O amor? Nem flor nem fruto,
( Tudo quanto em nós vibrara
parecia pronto a ceder...)

Foi apenas um minuto:
a fome intensa , tão rara!,
de ser criança, ou morrer...
David Mourão-Ferreira, in Obra Poética (1948-1995) , Assírio &Alvim, 2019, p 40

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Dois séculos a celebrar Charles Dickens

 

Grandes Esperanças
por Charles Dickens
Capítulo Um
"Sendo o apelido do meu pai Pirrip e o meu nome de batismo Philip, na minha fala de menino não conseguia pronunciar nada de mais longo ou mais explícito a partir destes dois nomes que não fosse Pip. Assim, chamava‑me a mim mesmo Pip, e com o tempo começaram também a chamar‑me Pip.
Digo que Pirrip era o apelido do meu pai porque me baseio no que diz a sua lápide, e no que dizia a minha irmã — a Sra. Joe Gargery, que casou com o ferreiro. Como nunca conheci o meu pai ou a minha mãe e nunca vi um retrato tanto de um como do outro (pois a sua época fora muito anterior à das fotografias), as minhas primeiras elucubrações sobre o que seria a sua aparência eram irrazoavelmente derivadas das suas lápides. A forma das letras inscritas na lápide do meu pai dava‑me a bizarra ideia de que deveria tratar‑se de um homem quadrado, entroncado e moreno, com cabelos negros encaracolados. Baseando‑me no tom e no estilo da inscrição “Também Georgiana, Esposa do Supracitado”, retirava a infantil conclusão de que a minha mãe era sardenta e enfermiça. Cinco pequenos losangos de pedra, cada um com cerca de um pé e meio de comprimento, dispostos de forma que perfizessem uma fileira simétrica ao lado dos respetivos túmulos, consagrados à memória de cinco irmãozinhos meus — que haviam desistido de tentar sobreviver excecionalmente cedo nessa luta universal —, convocaram em mim a convicção, que eu entretinha de um modo religioso, de que todos eles haviam nascido de costas e com as mãos enfiadas nos bolsos das calças, e que nunca as tiraram durante este seu modo de existência.
A região onde vivíamos era pantanosa, junto a uma sinuosidade do rio, a vinte milhas do mar. A primeira impressão mais vívida e abrangente que guardo da identidade das coisas parece‑me ter sido vivenciada aquando de um memorável e agreste entardecer. Foi nesse momento que me assegurei de que este lugar árido, repleto de urtigas, correspondia ao cemitério, e que Philip Pirrip, falecido membro da paróquia, e também Georgiana, esposa do supracitado, encontravam‑se aí mortos e enterrados; e que Alexander, Bartholomew, Abraham, Tobias e Roger, os filhos pequenos dos acima mencionados, também se achavam aí mortos e enterrados; e que a bravia paisagem, plana e sombria, que se estendia para lá do cemitério, atravessada por diques, outeiros e vedações, com o gado disperso que nela pastava, dizia respeito aos pauis; e que a linha rasa e plúmbea que se estendia ainda mais além era o rio; e que aquele antro remoto e selvático de onde o vento soprava com força era o mar; e que a diminuta criatura que agora estremecia e começava a ter medo de tudo aquilo e a chorar era Pip.
“Pára com esse barulho”, gritou uma terrível voz, e logo assomou um homem por entre as sepulturas, junto ao pórtico da igreja. “Fica quieto, diabrete, ou corto‑te a garganta!”
Um homem assustador, vestido com umas roupas cinzentas de material grosseiro, com um grande ferro agarrado à perna.
 Um homem desprovido de chapéu, com sapatos rotos e um velho trapo amarrado em torno da cabeça. Um homem que havia ficado encharcado em água, que ficara coberto de lama e se aleijara com as pedras, cortara‑se nos calhaus, picara‑se nas urtigas e ferira‑se nas sarças; que coxeava e estremecia, que lançava olhares furiosos e grunhia; um homem cujos dentes não deixavam de ranger enquanto me pegava pelo colarinho.
 “Oh! Não me corte a garganta, senhor”, roguei‑lhe, aterrorizado. “Peço‑lhe por tudo que não o faça, senhor.”
 “Diz‑me o teu nome!”, gritou o homem. “Rápido!”
“Pip, senhor.”
“Repete”, disse o homem, não desviando os olhos dos meus. “Fala!”
 “Pip, Pip, senhor!”
 “Mostra‑me onde moras”, disse o homem. “Aponta prò lugar!”
Apontei na direção da nossa aldeia, para a planície costeira que se estendia entre os amieiros e as árvores podadas, a uma distância de uma milha ou mais da igreja. Depois de deter por momentos os olhos em mim, o homem pegou‑me e voltou‑me de pernas para o ar, esvaziando os meus bolsos. Nada havia no seu interior salvo um pedaço de pão. Quando a igreja retomou a sua forma original — pois os movimentos deste homem haviam sido tão bruscos e violentos que fizeram com que a mesma me assomasse igualmente de pernas para o ar, tendo eu avistado o campanário aos meus pés — quando a igreja retomou a sua forma original, dizia eu, achei‑me sentado numa lápide elevada, a tremer, ao passo que ele devorava sofregamente o pão.
 “Meu cordeirinho”, disse o homem enquanto lambia os dedos, “que bochechas tão rechonchudas que tu tens…”
Acredito que fossem de facto rechonchudas, ainda que na altura fosse demasiado baixo para a minha idade e não fosse muito robusto.
“Diabos me levem se não era capaz de comê‑las”, disse o homem, meneando a cabeça com trejeitos ameaçadores, “e se não pensei nisso agora mesmo!”
Dei‑lhe a entender da forma mais convicta que pude o meu desejo de que ele não o fizesse, e agarrei‑me ainda com mais força à lápide junto à qual ele me havia largado, em parte para não arredar pé, em parte movido pelo meu esforço de conter as lágrimas.
 “Bem, ouve lá, tu!”, disse o homem. “Onde está a tua mãe?”
 “Ali, senhor!”, respondi‑lhe.
Ele sobressaltou‑se, estugou o passo por momentos, depois deteve a marcha e olhou de soslaio.
 “Ali, senhor!”, procurei timidamente elucidá‑lo. “Também Georgiana. Aquela é a minha mãe.” “Oh!”, disse ele, retrocedendo os passos. “E aquele ali é o teu pai, a fazer companhia à tua mãe?”
 “Sim, senhor”, respondi‑lhe. “Também ele; antigo membro desta paróquia.”
 “Ah!”, murmurou o homem, meditabundo. “E com quem é que vives — isto supondo que te possa ser concedida a vida, algo que ainda não decidi fazer?”
 “Com a minha irmã, senhor — a Sra. Joe Gargery — esposa de Joe Gargery, o ferreiro, senhor.” “Ferreiro, hein?”, disse ele. E baixou os olhos para a perna. Depois de alternar o olhar sombrio entre a perna e a minha pessoa, aproximou‑se da lápide, pegou em mim com os dois braços e inclinou‑me para trás tanto quanto lhe era possível segurar‑me assim, de forma que os seus olhos pudessem afundar‑se de modo mais penetrante nos meus, o que fez com que os meus se erguessem com a mais desamparada das expressões na direção dos seus.
“Ora vamos cá a ver”, disse o homem. “A questão é saber se te deixo ou não viver. Tu sabes o que é uma lima.”
 “Sim, senhor.”
 “E sabes o que são mantimentos.”
 “Sim, senhor.”
 Após cada uma destas perguntas, o homem inclinou‑me um pouco mais, fazendo‑me experienciar uma sensação de desamparo e de perigo.
“Vais‑me arranjar uma lima.” Voltou a inclinar‑me. “E vais‑me arranjar mantimentos.” Inclinou‑me novamente. “Trazes‑me as duas coisas.” Inclinou‑me outra vez. “Caso contrário, arranco‑te o coração e o fígado pela boca.” Voltou a inclinar‑me.
Fiquei completamente apavorado, e senti‑me de tal modo entontecido que me agarrei a ele com as duas mãos e disse: “Tenha a bondade de me deixar ficar de pé, meu senhor, assim talvez não fique maldisposto e possa servi‑lo melhor.”
Ele pegou em mim de pernas para o ar e fez‑me girar com tamanha violência que a igreja deu um salto e assomou com o catavento no sítio onde o chão devia estar. Depois, agarrou‑me pelos braços, forçando‑me a adotar uma postura rígida sobre a pedra tumular, e prosseguiu nestes termos ameaçadores:
“Amanhã de manhã, vais‑me trazer a tal lima e os mantimentos. Trazes ‑me isso tudo até ali àquela velha Bateria que fica acolá. Vais fazer isso, e não te atrevas a dizer uma só palavra ou a dar o mínimo sinal que dê a entender que encontraste uma pessoa como eu, ou seja quem for, só assim te deixarei viver. Caso contrário, ou se te desviares o mínimo que seja do que te mando fazer, por mais insignificante que seja o desvio, esse teu coração e esse teu fígado serão arrancados pela boca, assados e comidos. Agora, é importante que saibas que não estou sozinho, como deves pensar que estou. Comigo anda também escondido um jovem, e olha que em comparação com ele não passo de um anjo. Esse jovem está a ouvir estas minhas palavras. Esse jovem tem uma forma secreta, que só ele conhece, de deitar as mãos a um rapazinho e arrancar‑lhe coração e fígado. Não serve de nada o menino em causa tentar esconder‑se desse jovem. O menino pode trancar a porta, pode enfiar‑se na sua cama quente, aconchegar‑se e esconder a cabeça debaixo dos lençóis, achar‑se confortável e em lugar seguro, mas a verdade é que o tal jovem acabará por palpar caminho na escuridão, devagar e em bicos de pés, até chegar ao menino, e acabará por esventrá‑lo de alto a baixo. Neste momento, sou eu o responsável pelo facto de esse jovem não te fazer mal algum, ainda que isso me seja difícil. Olha que é difícil manter esse rapaz afastado das tuas entranhas. O que me dizes, afinal?”
Disse‑lhe que lhe arranjaria uma lima, e que lhe arranjaria também todos os restos de comida que conseguisse encontrar, e que iria ao seu encontro, bem cedo na manhã seguinte, no local da Bateria.
“Diz, diabos me levem se não o fizer”, ordenou o homem.
 Repeti o que ele me mandou dizer, e logo me pôs no chão.
“Ora bem”, prosseguiu, “agora é bom que te lembres daquilo que prometeste, e espero que te lembres também do jovem e que vás imediatamente para casa!”
 “Bo… boa noite, senhor”, balbuciei.
 “Deve ser, deve!”, disse o homem, olhando em volta para a planície fria e alagada. “Quem me dera ser uma rã! Ou uma enguia!” Ao mesmo tempo, cingiu com os braços o próprio tronco, que estremecia — não deixando de se amarrar a ele, como se procurasse manter‑se firme — e começou a coxear na direção do muro desnivelado da igreja. Ao observar a figura que agora se afastava, procurando abrir caminho por entre as urtigas e as silvas que delimitavam os verdes outeiros, olhou na direção dos meus olhos inexperientes como se procurasse eludir a presença dos mortos e das respetivas mãos, como se estas assomassem dos seus túmulos para lhe torcer os tornozelos e capturá‑lo para se lhes juntar.
 Quando o homem alcançou o muro desnivelado da igreja, galgou por cima dele, como um indivíduo cujas pernas estivessem dormentes e empedernidas, e depois voltou‑se, procurando com os olhos algum sinal da minha presença. Quando vi que ele se voltava, encaminhei‑me de imediato para casa, correndo o mais depressa que as pernas me permitiam. Porém, passado um bocado, olhei por cima do ombro e vi‑o a caminhar novamente na direção do rio, ainda com os braços a cingirem‑lhe o tronco, escolhendo os passos, com cuidado para não ferir os pés doridos, por entre os pedregulhos dispersos um pouco por todo o lado ao longo dos pauis, enquanto procurava terra firme para quando caíssem grandes chuvadas ou a maré enchesse. Quando detive a marcha para tentar localizá‑lo, os pauis assomaram aos meus olhos como uma só linha horizontal, prolongada e escura; do mesmo modo, o rio estendia‑se como uma outra linha horizontal, ainda que menos larga ou obscurecida; o céu assomava como uma fileira de extensos riscos de um vermelho muito carregado, entrecortados por outros mais densos e negros. Na margem do rio, foi‑me dado a ver, ainda que de forma indistinta, dois vultos negros, os únicos em todo o panorama que pareciam estar em posição vertical; um dos vultos era o do farol, que servia de orientação aos marinheiros — assemelhava‑se a um barril sem os respetivos aros, montado no alto de um poste — coisa hedionda quando dela nos aproximamos. O outro vulto era o de um cadafalso, do qual pendiam ainda as correntes que haviam servido para prender um pirata. O homem coxeava agora na direção deste último, como se se tratasse do pirata que, regressado à vida terrena, descera do cadafalso e procurava agora acorrentar‑se novamente. Fui acometido por um tremendo susto quando pensei nisto; e quando dei conta do gado que agora o seguia com os respetivos olhares, ponderei para comigo se também os animais haviam pensado o mesmo. Escrutinei a paisagem em busca do jovem terrível de que o homem me falara, mas nenhum sinal pude descortinar que indiciasse a sua presença. Entretanto, fui novamente acometido pelo pavor, e assim desatei a correr para casa sem parar mais nenhuma vez."
Charles Dickens, in  Grandes Esperanças, Relógio D’Água Editores, pp. 11-15
 

SOBRE O AUTOR:
«Todo o artista é um criador de homens, mesmo que apenas de si mesmo. A alguns deles foi, no entanto, concedida a faculdade de criar mundos. […] Dickens é um dos mais ilustres criadores de mundos. E o dele é um dos mais singulares. Dele conhecemos todos os campos, todas as ruas, todos os rostos. No entanto, devemos dizer a nós mesmos que nunca encontraremos algo assim: talvez só os vejamos novamente se formos bons e entrarmos no paraíso. O reino de Dickens é o realismo mágico. Reino de atração infinita, reino muito difícil de governar. Kafka tinha um assim; mas a risada de Dickens torna o seu mundo mais belo.» [Giuseppe Tomasi di Lampedusa]
 
Dados biográficos
"Charles John Huffam Dickens, conhecido como Charles Dickens, nasceu em Landport, no sul da Inglaterra, no dia 7 de fevereiro de 1812. Era filho de Elizabeth Barrow e de John Dickens.
O pai era escriturário da Tesouraria da Marinha na cidade de Portsmouth, mas vivia de empréstimos sem conseguir pagá-los. Em 1822 resolveu fugir para Londres, levando consigo a família. Aí, ficaram a morar num sótão de uma rua pobre. Em 1824, John foi preso por dívidas. Com 12 anos, Charles Dickens passou a trabalhar numa fábrica de graxa, onde permaneceu por vários meses.
Quando a avó morreu e o pai recebeu uma herança, com a qual pagou as dívidas e reconquistou a liberdade, a servidão de Charles terminou.
Charles Dickens voltou a estudar e entrou na Wellington House Academy, mas logo teve que deixar a escola e arrumar novo emprego.
Em 1827 empregou-se como aprendiz na casa de um procurador judicial. Aos 20 anos, estenógrafo diplomado, colocou-se no jornal True Sun para relatar reuniões parlamentares e campanhas eleitorais.
Em 1831 trabalhou como repórter parlamentar. Viajando pelas províncias inglesa. Divertia-se anotando episódios pitorescos.
Primeiras Crónicas
Em 1833, Charles Dickens enviou para o "Monthly Magazine" uma pequena crónica, sem assinatura. Um mês mais tarde, verificou que seu texto havia sido publicado e era lido por muita gente.
O sucesso levou-o  a redigir uma série de crónicas em linguagem leve e fácil, narrando factos reais e fictícios da classe média londrina.
Assinava-as com o pseudónimo de "Boz", no Morning Chronicle, que era o jornal londrino de maior circulação. Em 1835 publicou “Esboço de Boz”, em dois volumes.
Em 1837, “Boz” foi convidado para acrescentar textos aos desenhos do artista Seymour, para publicá-los em capítulos mensais. Dickens aceitou, mas impôs que, ao invés de redigir de acordo com os desenhos, estes ilustrassem os seus textos. Nasceu assim “As Aventuras do Sr. Pickwick” (1837), obra publicada em fascículos.
Dickens conseguiu elaborar uma obra de valor, que, de acordo com a mentalidade vitoriana (da época da Rainha Vitória), descrevia com saudosismo uma Inglaterra romântica e irreal.
Criou dois personagens, “Pickwick” e “Sam Weller”, que recordam Dom Quixote e Sancho Pança, do espanhol Miguel de Cervantes.
O Sucesso de Dickens
O rápido êxito fazia Dickens concluir um livro e iniciar outro, sem interrupção. A vaidade e a ânsia de reconhecimento público não lhe permitiam descansar.
Em 1838, publicou “Oliver Twist”, em que  relata os infortúnios de um menino órfão que mora num albergue e  trabalha numa fábrica e de onde foge para conviver com marginais, mas não se corrompe.
A obra é um sombrio melodrama, o mais sinistro de seus romances, considerado um ensaio social, quando descreve os horrores do trabalho nas fábricas.
No romance seguinte, “Nicolas Nickleby” (1839), Dickens associou o cómico ao trágico. A obra é uma condenação dos internatos, dirigidos por professores perversos e ignorantes.
Em 1842 foi aos Estados Unidos. A princípio recebido como ídolo, provocou a antipatia da imprensa local, ao declarar, num banquete em sua homenagem, que os editores americanos não pagavam os direitos de autor  aos romancistas ingleses.
Em 1843, publicou “Contos de Natal”, que é quase um conto de fadas e tornou-se parte integrante da mitologia natalícia anglo-saxónica. Outros livros com o mesmo tema são: “O Carrilhão” e “O Grilo na Lareira”, ambos de 1845.
Em 1844, viajou para Itália, estabelecendo-se em Génova, e só retornou um ano depois.
Em 1845, Dickens viajou para Paris, onde conheceu os maiores escritores franceses da época: Vitor Hugo, George Sand, Théophile Gautier e Alphonse de Lamartine.
Novamente em Londres, Charles Dickens publicou a sua obra-prima “David Copperfield” (1850), quase uma autobiografia.
Apesar dos exageros típicos da Era Vitoriana, o livro transmite uma poderosa experiência humana, e mais uma vez combate as instituições inglesas: o mau tratamento dispensado às crianças nas escolas, as condições dos operários e a humilhação do encarceramento por dívidas. Muitas das criaturas que marcaram a vida do autor estão presentes no romance.
Em 1836, Charles Dickens casou-se com Catherine Hogarth, filha do redator chefe do Morning Chronicle, com quem teve dez filhos. Depois de vinte anos de casado,  apaixonou-se pela actriz Ellen Ternan.
Com medo de perder a estima dos leitores, publicou nos jornais uma longa declaração explicando que estava a  separar-se  da mulher  pela incompatibilidade de génios. Embora amasse Ellen até o fim da vida, não foi feliz.
Charles Dickens faleceu, em Higham, Inglaterra,  no dia 09 de Junho de 1870, em consequência de um acidente vascular cerebral. Foi sepultado na Abadia de Westminster.
Encontra-se escrito  na  sua lápide: “Apoiante dos pobres, dos que sofrem e dos oprimidos, com sua morte, um dos maiores escritores da Inglaterra desapareceria para o mundo". 
A casa em que morou foi transformada em museu.”  e-biografias (adaptado).
Grandes Esperanças
Grandes Esperanças, (1860) foi considerada mais uma das obras-primas de Charles Dickens. O livro conta a história de desilusão e redenção pessoal de Philip Pirrip ou só “Pip”.
Originalmente escrita em folhetim, foi posteriormente publicada em três volumes. A obra foi adaptada para a TV e para o cinema.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

A terra ultrajada

 
A terra ultrajada
Modesta contribuição para um novo apocalipse
 
Com uma desolada
accolade a T. S. Eliot
 
Oceanos outrora maltratados,
envenenados, sujos, poluídos,
invadem, furiosos, assanhados,
os terrenos longamente corrompidos.
Os ventos devastadores vomitam
destruição, morte e porcaria:
medonhos terramotos dinamitam
grandes obras de arte e fancaria.
Morre-se à toa, sem dignidade,
homens, bichos e merda misturados,
os confortos da antiga cidade,
transformados em lixos despejados.
É uma lufa-lufa só de gritos,
gestos desastrados de quem se afunda,
ao encontro de corpos e detritos,
naquela epopeia nauseabunda.
Ninguém concebera tal desconcerto,
em dias de gozo descabelado:
logo se pervertia o descoberto,
com fero apetite de esfaimado.
Os horrores do clima anunciados,
mas nunca ou quase nunca ouvidos ,
juntaram aos gritos dos afogados
a gritaria dos corpos ardidos.
O rei da selva por fim acossado,
encarando, impotente, vento e fogo;
o ofídio fugido e enrolado,
com o seu veneno fora de jogo.
Baleias na praia, desactivadas,
pássaros fugindo do ar ardente,
gentes, empurrando-se, desvairadas,
tentando evitar o inferno fulgente.
A razão subitamente anulada,
a emoção descontrolada, ao rubro:
a memória a desfazer-se, apagada,
ignorando se é Maio ou Outubro.
Portentoso fim, em cinemascópio,
do qual não vai ficar sequer memória:
tudo terá sido um caleidoscópio,
um breve e final momento sem história.
                                       06.02.2024
Eugénio Lisboa

FADO

FADO
por Eugénio Lisboa
"Publicado em 1941, o livro Fado, de José Régio, é o quarto da sua produção poética, iniciada em 1926 (e não 1925, como se tem dito), com Poemas de Deus e do Diabo.
Com poemas facilmente cantáveis ou apetecidamente recitáveis, Fado tornou-se um dos livros de poesia mais reeditados, entre nós, com sete edições publicadas, além desta que agora se lança no mercado. Alguns dos poemas nele inseridos (“Romance de Vila do Conde”, “Fado Português”, “Toada de Portalegre”, “Fado Alentejano”) são dos mais conhecidos e retidos no ouvido, mesmo de pessoas não demasiado dadas à leitura de poesia.
Poeta moderno, por muitas e variadas razões, José Régio nem por isso rejeitou as seduções e feitiços recomendados pelos fautores dos cancioneiros populares. Ele próprio o afirma, numa passagem do célebre posfácio que juntou (constantemente o reescrevendo e acrescentando) aos Poemas de Deus e do Diabo: «Pelo que toca à parte propriamente literária do Fado, bem me apraz declarar que mal ouvi ou li versos com algum entendimento, me senti seduzido pelos velhos rimances, toadas, estribilhos, cantigas ou quaisquer outras formas de poesia popular.» Isto nada tinha de conservador ou reaccionário. Ir beber às fontes e com elas aprender a “arte poética” essencial ao exercício do “métier” faz parte da educação de qualquer poeta que se preze, sem excepção dos poetas modernos de real categoria. No mesmo Posfácio, o próprio Régio o sublinhava: «E creio que sempre duas inclinações profundas coexistiram em mim, pelo que diz respeito à forma dos meus poemas: a que me arrastava para todos os moldes da versificação tradicional, de muito cedo estudada; e a que me fazia aventurar-me não só a novas combinações, mas até a verdadeiras inovações.» O conhecimento profundo das técnicas inerentes ao ofício nunca fez mal ao verdadeiro poeta: o seu desconhecimento é que até pode ser letal... O grande crítico Cyril Connolly não hesitava em afirmar o óbvio: «Um poeta (...) deve ser um especialista altamente consciente, em matéria de técnica.» É o domínio da técnica que ajuda o poema a captar o ouvido, o coração e a inteligência do ouvinte.
Por outro lado, tem havido alguma tendência leviana a se atribuir ao Fado (outros fazem-no à Chaga do Lado) o início das preocupações do poeta com a infelicidade dos outros: dos miseráveis, dos desprotegidos, dos pobres e doentes, das prostitutas, dos malfadados da sorte, dos desamparados, em geral. O próprio Régio – mas, mais do que ele, a evidência dos seus textos de criação – nega que tenha sido assim: «As tendências psíquicas e literárias aí [em Fado] afirmadas são tão naturais ao autor como quaisquer outras. Sempre os infelizes de qualquer categoria ou espécie me atraíram, direi melhor: me seduziram (...)»
Alguma crítica de cariz supostamente marxizante, que, infelizmente, se esqueceu de ir ver o que Marx, a este respeito, escreveu, disse e proclamou, lamenta, como a minha amiga Isabel Pires de Lima, que «estes quadros de miséria social [deixem] demasiado à vista uma intenção moral e religiosa previsível e redutora», não se dignificando nunca, por outro lado, «através dum qualquer sentimento de afirmação e revolta». Ora  – porque é artista e é como artista que se cumpre –  o que Régio realmente faz – e sempre na presença recomendou que se fizesse – é não deixar demasiado indiscretamente à vista qualquer “intenção” religiosa, moral ou social. E tão grave, do ponto de vista artístico, é revelar de modo demasiado óbvio, uma intenção religiosa como uma intenção social ou política. Os patrões do marxismo, porque eram inteligentes e amavam a arte, sempre o disseram e não foram macios para os romancistas ou poetas que indiscretamente embandeiraram em arco com soluções ineptas para problemas complexos, vendendo “amanhãs que cantam” ao preço da uva mijona. O descarado desvelar, dentro da obra, de “boas intenções” morais, religiosas, sociais ou políticas é sempre um grave defeito artístico, ou, se preferirem, um calamitoso “defeito de fabrico” – contra o qual eloquentemente se ergueram Régio, Marx e outros, marxistas ou não, que realmente amavam a arte (Lenine, por exemplo, que, provocantemente ousava preferir o burguês Pushkine ao bravo progressista Maiakowsky...) Curiosamente, Régio e Marx usam quase as mesmas palavras (e o arranjo delas), para vituperarem os que são de opinião de que, na obra de arte, se deve abertamente (ostensivamente) indicar de que lado está o direito e qual a solução para os problemas, com incitação clara à revolta na direcção certa. Ora isso faz-se em panfletos , em manifestações, mas não necessariamente (e, menos ainda, obrigatoriamente) numa balada, numa toada, num soneto ou num rimance... E quanto à revolta...é claro que os sentimentos de indignação e revolta estão ardentemente implícitos nos belos poemas, que, surda mas eloquentemente, encolerizam as páginas deste soberbo Fado."
Eugénio Lisboa, 2013