sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Citação do dia

- SAMUEL JOHNSON –
Samuel Johnson (1709 – 1784), conhecido em Inglaterra como Dr. Johnson, foi um dos mais celebrados autores ingleses e tido como um verdadeiro sábio. Poeta, pensador, ensaísta, assinalado biógrafo (e foi também o protagonista da mais célebre biografia do mundo, LIFE OF JOHNSON, da autoria de Boswell), foi também lexicógrafo e, como tal, autor do primeiro dicionário de língua inglesa. Deixou alguns aforismos famosos, entre os quais o que hoje escolho, a propósito de constantemente ver e ouvir o líder do CHEGA com o nome de “pátria” na boca e a bandeira portuguesa empunhada com ar possessivo.

Patriotism is the last refuge of the scoundrel.
O patriotismo é o último refúgio do canalha. 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

QUOD NON FECIT

Mona Lisa, de Leonardo da Vinci
QUOD NON FECIT
por Eugénio Lisboa
“Há gente que me persegue, atirando-me à cara aquilo que não sou e devia ser, aquilo que não fiz e devia ter feito, as ajudas que devia ter dado e não dei e por aí fora, interminavelmente. Que o Saramago ganhou o Nobel e eu não, que o Saramago casou com a Pilar e eu não, que ele tem uma Fundação e eu não, que ele se solidarizou com a Natália Correia e eu não. Tudo verdade, tudo coisas que doem a mais não poder, mas, deixem-me que confesse o que realmente me rasga por dentro: é que tudo isso não passa de pecadilhos e o que eu realmente cometi foram pecados magnos, horríveis pecados de omissão. Verdadeiras calamidades de repercussões galácticas. Com a alma a sangrar, dou exemplos. Não fui eu quem ganhou a batalha de Ourique. Não fui eu quem conquistou Lisboa aos mouros. Não fui eu quem obteve a independência de Portugal, nem sequer fui o Papa que a reconheceu. Estive sempre ausente disso tudo, recolhidinho numa aconchegada aurea mediocritas. Não matei o Conde Andeiro nem contribuí para a vitória em Aljubarrota: nem sequer ajudei a transportar as setas dos archeiros ingleses que nos vieram ajudar. Não dei uma mãozinha à Padeira de Aljubarrota, deixando a desgraçada, sozinha, a malhar nos espanhóis. Não matei o Duque de Viseu, deixando o trabalho sujo para El-Rei D. João II. Não participei na conquista de Ceuta nem fui capaz de resgatar D. Fernando, o Infante Santo, nem sequer tentei fazer o seu resgate, deixando-o a apodrecer em Marrocos. Que de coisas eu não fiz! Não descobri o caminho marítimo para a Índia e muito menos topei o Brasil. Não me encontrava em nenhuma das naus com que Fernão de Magalhães deu a volta ao mundo. Não escrevi OS LUSÍADAS! Nem sequer soprei umas rimas ao ouvido do Luís Vaz. O Padre António Vieira nem sequer se dignou olhar para mim, quanto mais pedir-me ajuda. A lei da gravitação universal passou bem sem mim. O teorema de Pitágoras e o teorema de Fermat passaram-me ao lado. Einstein nunca me perguntou o que eu achava da teoria da relatividade, aviando-se sozinho com ela, sem nunca me ter pedido colaboração. Nada tive que ver com a teoria dos quanta, também os antibióticos não tendo sido coisa da minha invenção. A vacina não foi por mim concebida! Não fui o primeiro homem a chegar à Lua. O COURAÇADO POTEMKINE ou A ODISSEIA NO ESPAÇO foram filmes que não realizei. O mais que consegui foi um autógrafo de Kubrick, num livro que lhe foi dedicado.
Não dei sequer uma dica para a 9ª Sinfonia nem para o Quinteto para clarinete, K 581, de Mozart, e nunca pintei a MONA LISA. Rodin nunca me pediu emprestado um escopro, para esculpir O PENSADOR, e Neruda escreveu a ODE AO GATO, sem me pedir que lhe ajustasse um único verso. E tenho quase a certeza de que não serei o primeiro homem a aterrar em Neptuno. A lista está longe de estar completa. Além disso, estas listas de coisas não conseguidas têm horror ao vazio e estão sempre a encher-se de omissões novas. Resta-me uma pequena consolação: o que se passa comigo passa-se com toda a gente, incluindo os que me acusam de não ter feito isto ou aquilo. Também eles não fizeram uma infernal data de coisas. É a vida, como costumava dizer o muito estimável Guterres.”
Eugénio Lisboa, 11.01.2024

Voilà

 
Barbara Pravi, em Voilà, no Festival  Un Violon sur le Sable 2022 . Música de Barbara Pravi e letra de Igit et Lili Poe.
O registo foi extraído da noite de 23 de Julho de 2022, na Praia  Grande Conche de Royan. A cantora  Barbara Pravi é acompanhada pela Orquestra de Un Violon sur le Sable, dirigida pelo Maestro  Jérôme Pillement, com arranjos de  Robin Melchior. 

Voilà

Écoutez moi
Moi la chanteuse à demi
Parlez de moi
À vos amours, à vos amis
Parlez-leur de cette fille aux yeux noirs
Et de son rêve fou
Moi c'que j'veux c'est écrire des histoires
Qui arrivent jusqu'à vous
C'est tout
 
Voilà, voilà, voilà, voilà qui je suis
Me voilà même si mise à nue j'ai peur, oui
Me voilà dans le bruit et dans le silence
 
Regardez moi
Ou du moins ce qu'il en reste
Regardez moi
Avant que je me déteste
Quoi vous dire, que les lèvres d'une autre
Ne vous diront pas
C'est peu de chose mais moi tout ce que j'ai
Je le dépose là, voilà
 
Voilà, voilà, voilà, voilà qui je suis
Me voilà même si mise à nue c'est fini
C'est ma gueule c'est mon cri, me voilà tant pis
Voilà, voilà, voilà
Voilà juste ici
Moi mon rêve, mon envie
Comme j'en crève comme j'en ris
Me voilà dans le bruit
Et dans le silence

Ne partez pas
J'vous en supplie, restez longtemps
Ça m'sauvera p't'être pas, non
Mais faire sans vous j'sais pas comment
Aimez-moi comme on aime un ami
Qui s'en va pour toujours
J'veux qu'on m'aime parce que moi je sais pas
Bien aimer mes contours

Voilà, voilà, voilà, voilà qui je suis
Me voilà même si mise à nue c'est fini
Me voilà dans le bruit et dans la fureur aussi
Regardez moi enfin et mes yeux et mes mains
Tout c'que j'ai est ici, c'est ma gueule c'est mon cri
Me voilà, me voilà, me voilà
Voilà, voilà
Voilà, voilà
Voilà

Sentir


Se eu soubesse sentir o que sinto,
se o que sinto fosse de se dizer,
se não fosse que, ao dizê-lo, minto,
a vida seria outro viver.
 
Porque sentimos mais do que sentimos
e muitíssimo mais do que dizemos.
Sentimos só o que consentimos
e do que sentimos pouco sabemos.
 
O que sinto é uma caverna escura,
onde se esconde o que se não diz:
se senti-lo já é uma loucura,
 
dizê-lo, só à custa de ardis.
Sentir está sempre além do que sentimos
e, deste, tantas vezes, nós fugimos.
                     11.01.2024
Eugénio Lisboa

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Falo de mim

A DESPEDIDA DA MORTE

Falo de mim porque bem sei que a vida
lava o meu rosto com o suor dos outros,
que também sou, pois sou tudo o que posto
 
ao meu redor se cala, e é pedra, ou, água,
cicia apenas —O teu tempo é a trava
que te impede de ter a calma clara
 
do chão de lajes que o sol recobre,
este esperar por tudo que não corre,
nem pára e nem se apressa, e é só estado,
 
e nem sequer murmura: — O que te trazem
é o riso e o lamento, o ser amado
e o roçar cada dia a tua morte,
 
que não repõe em ti o, sem passado,
ficar no teu escuro, pois herdaste
e legas um sussurro, um som de passos,
 
uma sombra, um olhar sobre a paisagem,
memória, cálcio, húmus, eis que o mundo
nada rejeita, sendo pobre e triste
no esplendor que nos dá. A madrugada.
 
SONETO
 
Uma ausência de mim por mim se afirma.
E, partindo de mim, na sombra sobre
chão que não foi meu, na relva simples
outro ser que sonhei se deita e cisma.
 
Sonhei-o ou me sonhei? Sonhou-me o outro
— e o mundo a circundar-me, o ar, as flores,
os bichos sob o sol, a chuva e tudo-
ou foi o sonho dos demais que sonho?
 
A epiderme da vida me vestiu,
ou breve imaginar de um ócio inútil
ergueu da sombra a minha carne, ou sou
 
um casulo de tempo, o centro e o sopro
da cisma do outro ser que de mim fala
e que, sonhando o mundo, em mim se acaba.
 

IMITAÇÃO DE BOTTICELLI
 
Como a luz numa caixa de laranjas,
ou a chuva sobre a mesa de verduras no mercado,
desce a manhã neste jardim, descalça,
 
e as flores que traz, na involuntária beleza,
parecem, contra seu corpo de verão enfunado,
musgo, limo, ferrugem, as feridas que os pássaros
 
abrem na casca lisa e perfeita de um fruto.
 
Alberto da Costa e Silva nasceu em São Paulo a 12 de Maio de 1931. Faleceu a 26 de Novembro de 2023. Foi um notável autor maior que produziu uma obra diversa .Ensaísta, memorialista, historiador e poeta. Neste domínio, Poesia, publicou  O parque e outros poemas (1953), O tecelão tecelão (1962), Livro de linhagem (1966), As linhas da mão (1978), A roupa no estendal, o muro, os pombos (1981), entre outros. Recebeu, em 2000,  o Prémio Jabuti, pela obra poética.

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Há um tempo...

Nous connaitrons la lune et nous ne connaissons pas l'homme 
                        Henry de  Montherlant

Há um tempo em que somos desejados. O ar sufoca sem a nossa presença.
Há um tempo em que somos indesejáveis. O ar respira-se com a nossa ausência.
Saber aceitar esta verdade exige tempo. Mas todos os tempos chegam a um tempo. O tempo de vencer ou o tempo de perder.
E vence o tempo da ausência até ao tempo em que apaga a presença de todos os tempos.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Lembrança de Natália Correia

Natália Correia
Lembrança de Natália Correia
por Eugénio Lisboa
“Contactei, pessoalmente, Natália Correia, por duas vezes, além de a ter lido sempre, com admiração e quase fascínio. Era uma personagem inesquecível: fisicamente muito atraente ou até, nos seus tempos áureos, deslumbrante, destemida até dizer chega, livre, afrontosamente, em tempos de ditadura, a Natália envergonhava, com a sua liberdade livre, o português médio, que se encolhia, amedrontadiço e conformista, perante os ditames estúpidos e caseiros do Estado Novo.
Antes de a conhecer pessoalmente, ela esteve envolvida na minha vida, de modo breve e sem grandes consequências. Tratava-se da publicação, pela já falida editora ARCÁDIA, do meu livro JOSÉ RÉGIO – A OBRA E O HOMEM. O livro achava-se ali, patinhando na lama, sem conseguir arrancar para estrada de chão mais sólido. Tendo a Natália ido dirigir aquela outrora prestigiosa editora, por um período muito breve, ainda tentou desassossegar a pasmaceira em que jazia o meu manuscrito. Em vão. Pouco se tendo a Natália demorado naquele nicho moribundo, a minha aprofundada glosa sobre o Régio regressou ao seu sono hibernal, até que foi, inesperada e galhardamente, resgatada do oblívio, por um novo editor, Jorge Martins, que, de Lisboa, enviou a este desconhecido dele, tido e achado, nessa altura, numa Lourenço Marques onde o tiroteio crepitava, uma carta salvífica e um novo contrato mais decente do que o anterior… Estes milagres acontecem e até nos tornam momentaneamente surdos para os decibéis da metralha. Jorge Martins é hoje um dos meus melhores amigos e um valor que muito estimo e admiro, tendo sido editor, entre outros, de Vergílio Ferreira.
Mas voltemos à intrépida Natália. A primeira vez que me encontrei com ela foi em 1968, em Lisboa, em casa do escritor Tomás Ribas. Eu vivia então em Moçambique, mas vinha de vez em quando à Europa, a qual incluía sempre, em fim de viagem, Portugal. Dessa vez viéramos acompanhados de um casal amigo, Carlos Adrião Rodrigues e a inesquecível Quina, portadora da sabedoria e do falar capitoso de Campo de Ourique. No jantar, havia, entre outra gente de nota, a Natália Correia e o Vergílio Ferreira, acompanhado da mulher. Como sempre acontece, em reuniões muito participadas, acabam sempre por se formar pequenos grupos, para conversa animada. No grupo em que estávamos eu e a minha mulher, estavam também os nossos amigos de Moçambique, a Natália, a mulher do Vergílio Ferreira e não me lembro de mais quem mais. A certa altura, a Natália, que se encontrava de pernas traçadas, resolveu destraçá-las e fê-lo, num arco amplo,  generoso e assaz vistoso. A mulher do Vergílio Ferreira lançou-lhe um olhar capaz de atear incêndios. O que foste fazer! Diante daquela reprovação veemente, a Natália, positivamente, não resistiu à tentação: passou o resto da noite a traçar e destraçar a perna, animando a conversa com a sua verve destemida. A nossa amiga Quina, com a sua palheta bem condimentada, de Campo de Ourique, fez só, à saída, este comentário: “De cada vez que a Natália destraçava a perna, via-se, ao fundo, o Convento de Mafra!”
A segunda vez que estive com a Natália foi quando vivia em Londres e, de uma feita, vim a Lisboa. Uma ex-aluna minha era uma assessora/secretária da escritora e ofereceu-se-me para me levar ao famoso Botequim. O Botequim, como se sabe, era uma coisa minúscula e estava a abarrotar de gente. Mas a Natália recebeu-me com grande espalhafato, “Meu querido sente-se aqui ao pé de mim”, o que queria dizer que metade de mim se sentou algures e a outra metade, ao colo da Natália. E assim ficámos, muito íntimos e impecavelmente castos, a conversar e a beber. Era única a Natália, corajosa, infinitamente talentosa, uma verdadeira força da Natureza. Um ser que deixa grande marca, na sua passagem breve por esta Terra.”
Eugénio Lisboa, 08.01.2024 

Uma mordaz e bem oportuna crítica


Sobre o facebook, vou registar uma mensagem que recebi, há algum tempo,  recheada de humor.  Reproduz o que vai acontecendo por lá,  a propósito da dita angariação de amigos.

"Actualmente, estou a tentar fazer amigos fora do Facebook … mas usando os mesmos princípios.
Todos os dias saio à rua e durante alguns metros acompanho as pessoas que passam e explico-lhes o que comi, como me sinto, o que fiz ontem, o que vou fazer mais tarde, o que vou comer esta noite e mais coisas.
Entrego-lhes fotos da minha mulher, da minha filha, do meu cão, minhas no jardim, na piscina, e fotos do que fizemos no fim de semana.
Também caminho atrás das pessoas, a curta distância, ouço as suas conversas e depois aproximo-me e digo-lhes que “gosto” do que ouvi, peço-lhes que a partir de agora sejamos amigos e também faço algum comentário sobre o que ouvi. Mais tarde, partilho tudo quando falo com outras pessoas.
E funciona…Já tenho 3 pessoas que me seguem…
São dois polícias e um psiquiatra."