terça-feira, 21 de março de 2023

Celebrar a Poesia em dia próprio

A poesia tem muitas claves. O Soneto é  talvez uma das mais nobres  e rigorosas.  Escolhemo-lo para   celebrar este dia mundial da poesia,
Como  introdução/ dissertação,  fomos roubar ao poeta  Eugénio Lisboa este sucinto e esclarecedor texto.

O SONETO
por Eugénio Lisboa
“Toda a gente sabe o que é um soneto: uma estrutura literária com catorze versos de dez sílabas, distribuídos normalmente – mas não necessariamente – por dois quartetos e dois tercetos. Há sonetos com versos de doze sílabas, mas são raros. O soneto tem fama de ser muito difícil de construir, a tal ponto que, apesar de Petrarca e Camões os terem feito primorosos, Godeau, bispo de Vence, era de opinião que é impossível fazer um soneto perfeito. Godeau ia mesmo ao ponto de dizer que o soneto não é deste mundo. A este propósito, o notável crítico de arte francês, Charles Asselineau, um dos poucos amigos que Baudelaire teve, dizia, chocarreiramente, que Godeau era crente em Deus, mas ateu em soneto. Antero de Quental, por exemplo, escreveu belos sonetos, mas como, por confissão própria, nunca se deu ao trabalho de estudar, a sério, a arte do soneto, alguns dos seus são um pouco imperfeitos. Dizer isto às viúvas de Antero é altamente perigoso: corre-se mesmo risco de vida. Mas é tudo por bem.
Não vim, porém, nesta crónica que se quer curta, falar dos problemas e dificuldades que surgem aos perpetradores de sonetos. Ora eu sou um desses perpetradores porque, durante esta guerra russo-ucraniana, tenho andado a fazê-los quase à média de um por dia, o que significa, se mais não significar, que tenho, pelo menos, alguma experiência. Queria pois aproveitar esta experiência, não, como disse, para esmiuçar pormenores de arte poética, mas para responder a esta magna pergunta: PARA QUE SERVE UM SONETO? Para responder a isto, dada a tal minha grande e prolongada experiência, estou eu magnificamente equipado: porque os tenho escrito, nos mais variados estados de espírito e para os mais variados fins. O soneto serve, por exemplo, para a guerra: tenho-o usado como fisga, para tentar atingir Putine entre os olhos. O soneto, na guerra, faz imensos estragos ao inimigo e até mata. Pode servir, em dias de neura, para nos interrogarmos sobre o sentido (nenhum) da vida e, noutros dias (de euforia), para celebrarmos e trincarmos, com lascívia, os frutos da terra. Podemos, com ele – e apesar de termos de o fazer só em catorze versos – recordar os tempos em que fomos felizes ou, alternativamente, os momentos piores da nossa vida. O soneto dá para tudo, e sempre em apenas catorze versos. Fazer caber o mundo num envelope tão pequeno, tem uma graça que só o sonetista consegue apreciar. O soneto dá para ser irónico, para ser sarcástico, para ser romântico, para ser terra-a terra, para ser colérico, como Aquiles ou admiravelmente sóbrio e digno como Heitor. O soneto dá para ser casto e para ser lúbrico. O soneto pode ser religioso ou ateu. O soneto pode servir para mandarmos recado à namorada ou para acabar com o namoro. Não há nada debaixo do sol para que o soneto não sirva. Só há uma coisa para que nunca consegui que ele servisse: para tirar nódoas. O bispo de Vence tinha razão: não há sonetos perfeitos.”
Eugénio Lisboa, em 20.06.2022 

Eu cantei já, e agora vou chorando…

Eu cantei já, e agora vou chorando…
Eu cantei já, e agora vou chorando
O tempo que cantei tão confiado:
Parece que no canto já passado

Se estavam minhas lágrimas criando.
Cantei; mas se me alguém pergunta, quando?
Não sei; que também fui nisso enganado.
É tão triste este meu presente estado,

Que o passado por ledo estou julgando.
Fizeram-me cantar manhosamente
Contentamentos não, mas confianças:

Cantava, mas já era ao som dos ferros.
De quem me queixarei, se tudo mente?
Porém que culpas ponho às esperanças,
Onde a fortuna injusta é mais qu’os erros?

Luis de Camões, in Sonetos de Luís de Camões, Livraria Clássica Editora

A um Poeta

Surge et ambula!

Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.

Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno
Afugentou as larvas tumulares…
Para surgir do seio desses mares
Um mundo novo espera só um aceno…

Escuta! É a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções…
Mas de guerra… e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

Antero de Quental, Sonetos Antero de Quental, Edição organizada, prefaciada e anotada por António Sérgio, 4ª Edição. Sá da Costa Editora 1972.

AH, UM SONETO...

Meu coração é um almirante louco
Que abandonou a profissão do mar
E que a vai relembrando pouco a pouco
Em casa a passear a passear...
 
No movimento (eu mesmo me desloco
Nesta cadeira, só de o imaginar)
O mar abandonado fica em foco
Nos músculos cansados de parar.
 
Há saudades nas pernas e nos braços.
há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.
 
Mas — esta é boa! — era do coração
Que eu falava... e onde diabo estou eu agora
Com almirante em vez de sensação?...
                             12-10-1931?
Álvaro de Campos ,  in Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. 


Desejos vãos

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o sol, a luz imensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza...
As Árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!...
Florbela Espanca, in Sonetos , Porto Editora

Educação Sentimental
 
Na janela mais alta de Lisboa
és a ave chamada Todavia:
a que posta  no céu não se desvia, 
mas que perto do rio já não voa...
 
Hei-de ensinar-te, devagar ( perdoa!), 
a pressa com que Amor se pronuncia
e a conjugares a noite com o dia 
quando o corpo do corpo se condoa...
 
Fecha os olhos, e voa! Mas não queiras 
ao inferno do céu traçar fronteiras
nem ao céu do inferno pôr limites:
 
voar só vale a pena enquanto for 
uma forma de amar além do amor,
furor que todavia não habites...
David Mourão-Ferreira, in "Infinito pessoal [1959-1962] - Obra Poética", Assírio & Alvim ,  p 145

Rio de Fogo

Há na minha alma, desde sempre, um fogo
e há , também na minha vista , um rio.
A minha vida é uma forma de jogo , ~
endireitando à morte um desafio.

Há nesse fogo um rio que fascina
e no rio um fogo que devora:
leio no rio a minha ígnea sina,
o destino aceso que em mim demora.

E leio no fogo que vai no rio,
como num livro que me fosse aberto,
o meu andar para junto do frio

que há-de queimar-me em dia certo:
se a água é chama humedecida,
minha imagem será nela esculpida.
                     Londres, 07.01.1984
Eugénio Lisboa, in A matéria intensa, Editora Peregrinação, Baden/Suíça, p. 62

Soneto do reencontro                                     
 
Na  primavera  tu  voltaste de mansinho
finda a tempestade, surgiste na bonança
me  conjugando o verbo  da esperança
num  íntimo  gesto  de  lírico carinho.
 
Tu foste  meu fuzil, o meu canto guerreiro
a  voz  peregrina  acesa  no  meu  peito,
ensina-me  a cantar agora de outro jeito
para entoar amor e paz ao mundo inteiro.
 
Combatente e amordaçada em meu destino
silenciados e por atalhos clandestinos
trinta  anos  se  passaram,  dia-a-dia.
 
Depois a liberdade chegou para o meu povo
mas  só  agora  eu  te encontrei de novo
para  nunca  mais  perder-te... ó poesia.
                                                                 
                          Curitiba, dezembro de 2002
Manoel de Andrade, in Cantares, Escrituras Editora, São Paulo, Brasil,  p.72


O Livro dos Amantes

VII

Tu pedes-me a noção de ser concreta
num sorriso num gesto no que abstrai
a minha exactidão em estar repleta
do que mais fica quando de mim vai.

Tu pedes-me uma parcela de certeza
um desmentido do meu ser virtual
livre no resultado de pureza
da soma do meu bem e do meu mal.

Deixa-me assim ficar. E tu comigo
sem tempo na viagem de entender
o que persigo quando te persigo.

Deixa-me assim ficar no que consente
a minha alma no gosto de reter-te
essencial. Onde quer que te invente.

Natália Correia, in Antologia Poética- O livro dos Amantes, Organização e prefácio de Fernando Pinto do Amaral, Publicações Dom Quixote

Que Encanto é o Teu?
 
Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.
 
Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,
 
um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,
 
tão quase é coisa ou sucessão que passa…
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.
Jorge de Sena, in As Evidências, Assírio & Alvim

segunda-feira, 20 de março de 2023

FUGIDO À JUSTIÇA


 
O Putin anda fugido à justiça,
indo esconder-se em Mariupol.
Está sem motorista, grande injustiça,
e conduz com maus ares de mongol!
 
Se sair da Rússia, será fisgado
e mandado curtir no Tê Pê I:
ficaria em Haia, mal amanhado,
e iria portar-se como uma Fifi!
 
Vai ter saudades do Kapa Gê Bê,
onde tinha os orgasmos que sabia:
fazer tortura com creme flambé!
 
Gozava, digamos, como podia,
mas resta-lhe agora comer borche
e guiar a versão russa do Porche!
                              20.03.2023
Eugénio Lisboa

Assim acorda um dia de Primavera

.
 "Da noite ao dia", um curto  vídeo que sonha e  acorda em Portimão, num terraço com vista.

domingo, 19 de março de 2023

A generosidade do gato


A generosidade do gato
 
Aos meus gatos todos,
antigos e recentes.
 
Nenhum animal foi tão caluniado
como o gato: que é egoísta,
que é arrogante e malcriado,
só falta dizer que é Maoísta!
 
Que é amado mas não sabe amar.
Que gosta de receber mas não dá!
Se o maçamos, manda-nos bugiar.
Que se julga oriundo de Bagdá!
 
Mas do que toda a gente se esquece
é de que o gato, como ninguém,
sem nunca pestanejar, nos oferece
 
sem “mas”, sem “se” e sempre sem “porém”,
a majestade e a esbelteza
da sua inconfundível beleza!
                         19.03.2023
Eugénio Lisboa
 
Sim, queridos destinatários deste soneto, nunca se esqueçam do sumptuário cadeau royal que é um gato! É como possuir um Leonardo que nos tivesse sido oferecido e não comprado. Nunca se distraiam a não devidamente avaliarem o tesouro que não merecem! 

Ao Domingo Há Música


Federico Zandomeneghi, Ragazza che raccoglie fiori


A canção, expressão da melancolia, do amor, do entusiasmo, só morrerá se estes sentimentos morrerem; ela é, como o suspiro, como o grito, um dos movimentos naturais da alma.
                                      Eça de Queirós


Nem sempre há vozes que nos capturem e resistam ao tempo. E por mais que nos tenhamos surpreendido acabaram por desaparecer da nossa memória. Há outras que se vestiram de eternidade e que resistem pela beleza da sua sonoridade , pelo imenso talento. Tornaram-se a expressão de muitos momentos carregados de muita vida sentida.
São três vozes . São três mulheres que se afirmaram  , encantaram e permanecem em imperecível  sedução. 

Aretha Franklin , em  I Dreamed A Dream.
   
Ella Fitzgerald , em Cry Me a River , canção composta por Arthur Hamilton.
   
Tina Turner, em Let's Stay Together ao vivo , do álbum Celebrate!, gravado no ano 2000 em comemoração aos seus 60 anos de idade.
 

sábado, 18 de março de 2023

Os Direitos do Gato

Se a Declaração Universal
dos Direitos do Gato é pra valer,
isso quer dizer que em Portugal
todo o gato tem muito a haver!
 
Ela garante comida e colo,
bom aquecimento e também cama
e tudo conforme o protocolo
que o gato impõe e proclama!
 
Com Declarações destas, não se brinca
e, desta, o gato nunca se esquece:
lê-a com atenção e logo vinca
 
o parágrafo que mais lhe apetece!
Direitos são direitos e o gato
ganha, em direitos, o campeonato!
                                18.07.2023
Eugénio Lisboa
 

Depois dos Poderes do Gato, vieram os Direitos do Gato. E ainda a procissão vai no adro… 

Os poderes do gato

 
Os gatos olham-nos com uma atenção
que só mesmo os gatos conseguem ter:
olhar de cognição ou de paixão?
Olhamos e ficamos sem saber!
 
Tudo, no gato, é misterioso:
o que ele faz e também o que não faz!
É inteligente e ardiloso
e nada de que não seja capaz!
 
Quando o gato decide o que quer,
não adianta nada resistir-lhe:
o gato acaba sempre por vencer,
 
como se fôssemos nós a pedir-lhe!
Os gatos têm poderes ocultos,
que dominam vontades e tumultos!
                                17.03.2023
Eugénio Lisboa
 
 
Na falta de tema, recorro ao gato. O gato é inesgotável e os outros temas disponíveis, no mercado, não são. Como é que os grandes poetas passaram a vida a esbanjar talento com temas de carregar pela boca, havendo o gato?! Isto só confirma uma suspeita que sempre tive: os grandes poetas serão grandes, mas não são inteligentes. Ainda bem: deixaram o gato para eu recorrer a ele, sempre que me não apeteça falar de coisas menores e áridas.

sexta-feira, 17 de março de 2023

De novo, feliz, em Lourenço Marques

 South Bank, Londres
De novo, feliz, em Lourenço Marques
por Eugénio Lisboa
"A felicidade é caprichosa: não se deixa facilmente capturar por quem a persegue. Dizia Bertrand Russell que a melhor maneira de se conseguir a felicidade não é procurá-la, directamente. Ela é, repito, caprichosa. Surpreende-nos, quando menos a esperamos. E toma conta de nós, pelas vias mais insuspeitadas.
Toda a gente conhece, de o ter lido ou de nele ter ouvido falar, o episódio relatado pelo narrador de À la recherche du temps perdu (de Proust), relativo à pequena “madeleine” que, embebida em chá e oferecida ao narrador pela sua tia, lhe trouxe inesperadamente e involuntariamente à memória, pelo seu sabor, todo um mundo do passado: a velha casa cinzenta, a cidade, a praça, a igreja, Combray e os seus arredores, a boa gente da terra… Um universo que, assim involuntariamente trazido à memória, se revela portador de uma indescritível felicidade. Levar à boca a pequena “Madeleine” impregnada de chá de tília foi a via insuspeitada de activar uma memória criadora de felicidade.
Todos nós, ao longo das nossas vidas, passámos por experiências análogas, mas, na maioria dos casos, passa-se por isso com alguma desatenção e sem se lhe atribuir importância ou significado de maior. Por vezes, porém, a experiência toca-nos tão fundo que, por momentos, não podemos deixar de reparar nela. Proust, psicólogo e anotador minucioso, deu-lhe, na sua Recherche, uma importância e um significado enormes.  É um exemplo extraordinariamente elaborado de “memória involuntária”, capaz de surpreender e encher de felicidade quem passa por tal experiência. Eis, nas inesquecíveis palavras de Proust: “E assim que reconheci o gosto do pedaço de madeleine embebido no chá de tília que me dava a minha tia (embora não soubesse ainda e devesse remeter para bem mais tarde descobrir a razão por que essa recordação me tornava tão feliz), imediatamente a velha casa cinzenta na rua (……), e as boas pessoas da aldeia e as suas pequenas habitações e a igreja e toda a Combray e os seus arredores, tudo isso que ganha forma e solidez, saiu, cidade e jardins, da minha chávena de chá.” Trata-se de uma passagem justamente célebre, naqual se poderá rever – agora arrancado da sua desatenção  pela minúcia da atenção de Proust – o leitor do romance celebrado.
Tenho voltado muitas vezes a este momento do folhetim psicológico de Proust, que profundamente me tocou por ter eu próprio vivido momentos idênticos e tão ou mais intensos do que os experimentados pelo narrador de À la recherche du temps perdu. É um desses momentos que agora aqui vos trago.
Vivi em Londres dezassete bem fruídos anos – de 1978 a 1995 – na qualidade de conselheiro cultural da nossa embaixada. Foram dezassete anos cheios de uma variada vivência cultural, numa cidade em que a oferta era imensa e de grande qualidade. Foram anos felizes mas muito diferentes da vida que deixara para trás: 38 anos de experiência africana, em Lourenço Marques, cidade onde nascera e onde passara os primeiros dezassete anos da minha formação. Ali me casara e ali me nasceram duas filhas.
Culturalmente falando, Lourenço Marques não era uma cidade sem interesse: com um bom Cine-Clube, um Núcleo de Arte, grupos de teatro amador de grande qualidade (um deles dirigido por Mário Barradas) e páginas culturais cheias de vivacidade em vários jornais, com cinema onde a censura era menos apertada do que nas salas de Lisboa ou Porto (no Cine-Clube, vimos todo o cinema soviético – Eisenstein, Pudovkine, etc - , polaco, checoslovaco, romeno, húngaro, francês, sem que o censor visse objecção), com uma vida de grande convívio e tertúlia, cimentada nas reuniões de A Voz de Moçambique  ou do Cine-Clube ou, aos sábados de manhã, nas visitas às boas livrarias que por lá havia – não se morria propriamente de tédio. De uma maneira muito intensa e muito especial, era-se feliz. E era uma maneira de se ser feliz muito diferente da maneira de se ser feliz, em Londres. Nesta grande cidade, faltavam-nos as tertúlias,, o convívio assíduo e de porta aberta, a conversa quotidiana, o desafio constante, as polémicas intermináveis, a cumplicidade entre amigos. Londres tinha coisas que em Lourenço Marques não havia, mas, por outro lado, não tinha outras que em Lourenço Marques havia. Era-se, em suma, feliz de modo diverso. Londres tinha indiscutivelmente uma maior diversidade de oferta e coisas (exposições, teatro profissional, música, ópera) de uma qualidade excelsa, que em Lourenço Marques eram impensáveis. Mas faltava-lhe a camaradagem quotidiana, o convívio quente, a amizade cúmplice sempre à mão de semear, a dialética vivificadora…
Ora, num certo dia da minha estadia em Londres, resolvi ir de viagem, no meu carro, até à margem sul do Tamisa (a South Bank), numa qualquer missão de serviço. Saí da embaixada por volta das onze horas da manhã e fui ao meu destino.  Estava um dia de sol relutante mas abafado e ameaçando chuva. Chegado à South Bank, estacionei o carro e dirigi-me, a pé, ao local onde tencionava ir. Fui andando e, subitamente, começou a chover. Não sei bem porquê, soube-me bem. Recebi a chuva quase como uma bênção, numa espécie de expectativa de nem sabia bem o quê. E, de repente, subiu do chão até mim o bafo capitoso da terra molhada. Uma difusa sensação de felicidade tomou, com grande força e intensidade, conta de mim. Aquele era o cheiro da terra molhada que eu tantas vezes experimentara, em Lourenço Marques, nas minhas sortidas à praia da Polana: aquele bom cheiro da terra fecundada pela chuva tropical. Era esse mesmo cheiro que agora se me oferecia, ali, na margem sul do Tamisa. Levava-me de novo, transportava-me a Lourenço Marques, numa viagem improvável mas imensamente real. Por momentos, eu estava em Lourenço Marques e não em Londres. E, repito, incrivelmente feliz, não de uma felicidade londrina, mas de uma felicidade perfeitamente laurentina. Daquele cheirinho a terra molhada saíra todo um meu passado de cumplicidades, amizades e convívio tal como os fruíra no meu tempo de Lourenço Marques. Ao meio dia de um dia de calor, na margem sul do Tamisa, rodeado de coisas londrinas, eu estava de novo a ser feliz em Lourenço Marques. Recuperara uma felicidade antiga, que se substituía a outra mais recente. A felicidade obtém-se, já o disse, por vias enviesadas. Por via do bom cheirinho da terra molhada, em Londres, eu ascendi, nesse dia de verão chuvoso, à felicidade peculiar que, tantos anos antes, me visitara em Lourenço Marques. "
Eugénio Lisboa, in PRO MEMORIA- JL, 2016