terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Elogio ao ócio


Elogio ao ócio
por Bertrand Russell
“Movimentar a matéria em quantidades necessárias à nossa existência não é, decididamente, um dos objetivos da vida humana. Se fosse, teríamos de considerar qualquer operador de britadeira superior a Shakespeare. Fomos enganados nessa questão por dois motivos. Um é a necessidade de manter os pobres aplacados, o que levou os ricos a pregarem, durante milhares de anos, a dignidade do trabalho, enquanto tratavam de se manter indignos a respeito do mesmo assunto. O outro são os novos prazeres do maquinismo, que nos delicia com as espantosas transformações que podemos produzir na superfície da Terra. Nenhum desses motivos exerce um especial fascínio sobre o verdadeiro trabalhador. Se lhe perguntarmos qual é a melhor parte de sua vida, ele dificilmente responderá: ‘É o trabalho manual, que sinto como a realização da mais nobre das tarefas humanas, e também porque fico feliz em pensar na capacidade que tem o homem de transformar o planeta. É verdade que meu corpo precisa de horas de descanso, que procuro preencher da melhor forma, mas meu maior prazer é ver raiar o dia para poder voltar ao trabalho, que é a fonte da minha felicidade.’ Nunca ouvi nada do género saindo da boca de nenhum trabalhador. Eles encaram o trabalho como deve ser encarado, uma forma de ganhar a vida, e é do lazer que retiram, aí sim, a felicidade que a vida lhes permite desfrutar.”
Bertrand Russell, in  O Elogio ao Ócio, Sextante, 2002. P. 31.

Little Cats

The day I met Ísis, my little cat,
was the beginning of a beautiful friendship!
A little cat is as blind as a bat
and moves funnily like a drunken ship.
 
Even if funny, they are beautiful,
as they obviously invented all grace.
A little cat is weak but forceful
and his story does not need a preface!
 
A cat will never understand a dog,
because a dog will never be a cat!
To obey orders is just a prologue
 
to slavery, to pain and all that!

Cats are not inclined to live like slaves,
as they were born belonging to the braves!
                                  18.12.2022
Eugénio Lisboa

O segundo verso da primeira quadra é uma imortal citação do grande clássico do cinema: CASABLANCA. Ficaria mal um soneto dedicado aos felinos, na língua de Shakespeare, sem recurso a um inesquecível clássico da sétima arte. Na realidade, o segundo verso é a última fala do filme, proferida, para a eternidade, pelo grande actor Claude Rains, saindo de cena, de braço dado, com Bogart. Shakespeare teria assinado por baixo.

Glosa sobre o esquecimento

Se a morte mata profundamente,
o esquecimento que lhe sucede
mata até mais definitivamente,
porque, além dele, nada procede.
 
O esquecimento remata o que a morte
apenas tristemente começou:
o esquecimento não tem passaporte,
porque, nele, a viagem terminou.
 
O esquecido desapareceu,
para sempre: definitivamente!
Depois de morrer, ainda morreu,
 
mas morreu de vez, absolutamente:
porque, então, não há mesmo regresso,
sendo que o nada se impôs com sucesso!
                                   28.11.2022
Eugénio Lisboa

domingo, 18 de dezembro de 2022

Ao Domingo Há Música

 

As ilusões sustentam a alma como as asas sustentam o pássaro.                                                Victor Hugo


O que cada um toma por ilusão é diferente em cada ser humano. Diz-se que um engano foi uma grande ilusão. Não quer isso dizer que foi mau. Há quem invente ilusões à medida das suas necessidades. Há ilusões de todos tamanhos e para todos os sustentos.
O apontamento musical de hoje não traz ilusões , apenas motivos para as criar e alimentar a alma.

The family Bocelli: Andrea Bocceli, Matteo Bocelli e Virginia Bocelli , em The Greatest Gift, em The Royal Legion Festival of Remembrance 2022,  no Royal Albert Hall, Londres.
   
Shona McGarty, interpreta Hallelujah , a belíssima canção de Leonard Cohen,  em The Royal Legion Festival of Remembrance 2022, no Royal Albert Hall, Londres.

sábado, 17 de dezembro de 2022

O valoroso D. Quixote na aventura dos moinhos de vento

Capítulo VIII — Do bom sucesso que teve o valoroso D. Quixote na espantosa e jamais imaginada aventura dos moinhos de vento, com outros sucessos dignos de feliz recordação.
por Miguel de Cervantes
“Quando nisto iam, descobriram trinta ou quarenta moinhos de vento, que há naquele campo. Assim que D. Quixote os viu, disse para o escudeiro:
— A aventura vai encaminhando os nossos negócios melhor do que o soubemos desejar; porque, vês ali, amigo Sancho Pança, onde se descobrem trinta ou mais desaforados gigantes, com quem penso fazer batalha, e tirar-lhes a todos as vidas, e com cujos despojos começaremos a enriquecer; que esta é boa guerra, e bom serviço faz a Deus quem tira tão má raça da face da terra.
— Quais gigantes? — disse Sancho Pança.
— Aqueles que ali vês — respondeu o amo — de braços tão compridos, que alguns os têm de quase duas léguas.
— Olhe bem Vossa Mercê — disse o escudeiro — que aquilo não são gigantes, são moinhos de vento; e os que parecem braços não são senão as velas, que tocadas do vento fazem trabalhar as mós.
— Bem se vê — respondeu D. Quixote — que não andas corrente nisto das aventuras; são gigantes, são; e, se tens medo, tira-te daí, e põe-te em oração enquanto eu vou entrar com eles em fera e desigual batalha.
Dizendo isto, meteu esporas ao cavalo Rocinante, sem atender aos gritos do escudeiro, que lhe repetia serem sem dúvida alguma moinhos de vento, e não gigantes, os que ia acometer. Mas tão cego ia ele em que eram gigantes, que nem ouvia as vozes de Sancho nem reconhecia, com o estar já muito perto, o que era; antes ia dizendo a brado:
— Não fujais, covardes e vis criaturas; é um só cavaleiro o que vos investe.
Levantou-se neste comenos um pouco de vento, e começaram as velas a mover-se; vendo isto D. Quixote, disse:
— Ainda que movais mais braços do que os do gigante Briareu, heis-de mo pagar.
E dizendo isto, encomendando-se de todo o coração à sua senhora Dulcinéia, pedindo-lhe que, em tamanho transe o socorresse, bem coberto da sua rodela, com a lança em riste, arremeteu a todo o galope do Rocinante, e se aviou contra o primeiro moinho que estava diante, e dando-lhe uma lançada na vela, o vento a volveu com tanta fúria, que fez a lança em pedaços, levando desastradamente cavalo e cavaleiro, que foi rodando miseravelmente pelo campo fora.
Acudiu Sancho Pança a socorrê-lo, a todo o correr do seu asno; e quando chegou ao amo, reconheceu que não se podia menear, tal fora o trambolhão que dera com o cavalo.
— Valha-me Deus! — exclamou Sancho. — Não lhe disse eu a Vossa Mercê que reparasse no que fazia, que não eram senão moinhos de vento, e que só o podia desconhecer quem dentro na cabeça tivesse outros?
— Cala a boca, amigo Sancho — respondeu D. Quixote —; as coisas da guerra são de todas as mais sujeitas a contínuas mudanças; o que eu mais creio, e deve ser verdade, é que aquele sábio Frestão, que me roubou o aposento e os livros, transformou estes gigantes em moinhos, para me falsear a glória de os vencer, tamanha é a inimizade que me tem; mas ao cabo das contas, pouco lhe hão-de valer as suas más artes contra a bondade da minha espada.
— Valha-o Deus, que o pode! — respondeu Pança.
E ajudando-o a levantar, o tornou a subir para cima do Rocinante, que estava também meio desazado.
Conversando no passado sucesso, continuaram caminho para Porto Lápice, porque por ali dizia Dom Quixote, não era possível que se não achassem muitas e diversas aventuras, por ser sítio de grande passagem. Que pesar o ver-se então sem lança! (como ele dizia ao escudeiro)…”
Miguel de Cervantes, in  Dom Quixote de La Mancha, Capítulo VII, 1605, Publicações Dom Quixote.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Sagesse

A última fase da aventura
é a de recordar e reviver,
embora com menos frescura,
o percurso de prazer e fazer,
 
os quais são o que mais sabe na vida!
Foi tudo agitado e um pouco à toa
e tanta riqueza ficou perdida,
sem chegarmos nunca a visitar Goa!
 
Mas valeu tudo, ao menos, a pena?
Que sabemos nós do que tem valor?
Se nos foi dado viver vida plena,
 
o melhor é guardarmos, com ardor,
dentro de nós, aquilo que vivemos
e fruirmos, felizes, o que temos!
                        16. 12.2022
Eugénio Lisboa

O Pião

O Pião
por Franz Kafka
"Um filósofo costumava circular onde brincavam crianças. E se via um menino que tinha um pião já ficava à espreita. Mal o pião começava a rodar, o filósofo  perseguia-o com a intenção de agarrá-lo. Não o preocupava que as crianças fizessem o maior barulho e tentassem impedi-lo de entrar na brincadeira; se ele pegava o pião enquanto este ainda rodava, ficava feliz, mas só por um instante, depois atirava-o ao chão e ia embora. Na verdade, acreditava que o conhecimento de qualquer insignificância, por exemplo, o de um pião que girava, era suficiente ao conhecimento do geral. Por isso não se ocupava dos grandes problemas – era algo que lhe parecia antieconómico. Se a menor de todas as ninharias fosse realmente conhecida, então tudo estava conhecido; sendo assim só se ocupava do pião rodando. E sempre que se realizavam preparativos para fazer o pião girar, ele tinha esperança de que agora ia conseguir; e se o pião girava, a esperança transformava-se em certeza enquanto corria até perder o fôlego atrás dele. Mas quando depois retinha na mão o estúpido pedaço de madeira,  sentia-se mal e a gritaria das crianças – que ele até então não havia escutado e agora de repente penetrava nos seus ouvidos – afugentava-o dali e  cambaleava como um pião lançado com um golpe sem jeito da fieira."
Franz Kafka, in "Contos", Bertrand Livreiros

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Os que não encaixam

 

Lev Tolstoi e Fiódor Dostoiévski

Sem escrúpulo, se cospe em escritores,
por razões de caca ideológica.
Balzac, monárquico, tem leitores
e vai tê-los, contra toda a lógica,
 
malgré a sanha dos controladores.
Dostoiewsky era um nacionalista
do caraças, com místicos fervores,
que o fizeram ir para uma lista
 
de suspeitos, mas vai sobreviver.
Tolstoi, um grande aristocrata
e um mórbido místico a abater,
 
inventou a Natasha e a Karenina
e tanta gente que nos é grata
e nos faz companhia e nos fascina!   
                                15.12.2022  
Eugénio Lisboa