terça-feira, 5 de julho de 2022

Sophia I

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)
Sophia de Mello Breyner Andresen, poeta maior da nossa Literatura, morreu a 2 de Julho de 2004. João Bénard da Costa,(1935-2009), director da Cinemateca Portuguesa, encontrava-se em Génova, Itália. Eram amigos. Foi lá que recebeu a noticia . Eis o que escreveu sobre esse doloroso acontecimento.
SOPHIA: MEMÓRIA – 2 DE JULHO DE 2004
por João Bénard da Costa
1 - Começa a ser sina. De cada vez que me afasto, em peregrinações minhas longamente preparadas, toca o telemóvel com uma notícia terrível. Munique, agosto de 2002, Cumes, maio de 2003, Génova, julho de 2004. Mortes ou outras coisas que sabemos. Sabia que iam acontecer. Esperava-as. Mas não ali, onde parecem tão súbitas, tão sozinhas, tão desamparadas como se eu não fizesse falta nenhuma. "Por isso eu escrevi" - escreveu-me Sophia há mais de sete anos - "Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo." E esse poema continua: "Mal de te amar neste lugar de imperfeição / Onde tudo nos quebra e emudece / Onde tudo nos mente e nos separa." É isso que faz mais medo: a mentira, a separação. Já não vale a batota das palavras.
2 - Era o dia - aqui o recordei - em que passaram cem anos sobre a morte de Tchekov. A seguir a um almoço muito tardio numa fruste esplanada de madeira, subi e desci ruas quentes e íngremes até uma igrejinha românica (fundada no século VII, reconstruída no século XII) chamada Santa Maria di Castello. Lá, num claustro evanescente, está pintado um fresco representando a Anunciação. Data de 1451 e é obra de um tal Justo da Alemanha (sic) de quem nunca ouvira falar. Sob ogivas, um grande arco de volta inteira cobre o Pai e o Espírito Santo, no tecto de um espaçoso quarto. A Virgem, de pé, de manto azulíssimo e mãos cruzadas sobre o peito, está à direita, submissíssima. À esquerda, o arcanjo, dourado e muito mais volumoso, dá-lhe o Avé. Mas reparei que, ao fundo, do lado de Maria, existe um lava-louças. Da torneira salta um peixe. No fundo da bacia, meia de água, jaz outro peixe, morto. A simbologia crística do peixe é conhecida. Mas nunca a tinha visto figurada assim, em recapitulação tão elíptica e tão envolvente. 
Não havia mais ninguém. Mas, quando me vinha embora, apareceu um padre. Perguntei-lhe se não haveria reproduções. Disse-me que sim e pedi-lhe duas, uma para mim e outra para oferecer. Deu-mas e recusou qualquer pagamento. Da igreja desci até ao Vico dei Giustiniani. Virei à direita, depois à esquerda e cheguei ao Duomo, consagrado a São Lourenço, que, segundo a lenda, teria sido assado vivo naquele local ("Virem-me do outro lado, que eu deste já estou assado"). A fachada, construída entre os séculos XIII e XV, em mármore policromado, é magnífica. O interior, muito modificado, bastante mais pesado. Depois, desci para o bairro medieval e para o porto. Ao fim da tarde, o calor horrível começou a abrandar e perdi-me nas ruas estreitíssimas e de casas altíssimas, onde só havia sombra. Foi nelas que, pela primeira vez, me lembrei conscientemente de Sophia e daquele poema (do "Mar Novo") que se chama "Marinheiro sem Mar", e que é sempre um dos meus favoritos dela. "Todas as cidades são navios / Carregados de cães uivando à lua / Carregados de anões e mortos frios." E mais adiante (deve ser um dos poemas mais longos de Sophia, que, em toda a história da literatura portuguesa, ninguém excedeu no verso curto): "E sobe por escadas escondidas / E vira por ruas sem nome / Pela própria escuridão conduzido / Com pupilas transparentes e de vidro / Vai nos contínuos corredores / Onde os polvos da sombra o estrangulam / E as luzes como peixes voadores / O alucinam." Foi a pensar em Sophia que cheguei, já começava a entardecer, à Piazza San Matteo, a mais bela e perfeita praça de Génova, onde as casas de Branca Doria ("'lo credo' diss'io lui, 'che tu m'inganni; ché Branca Doria non mori unquanche/ e mangia e bee e dorme e veste panni'", disse Dante ao irmão Alberigo no Canto XXXIII do "Inferno", antes de amaldiçoar os genoveses, "uomini diversi") de Lamba Doria (vencedor da batalha de Curzola) e de Domenicaccio Doria abrem alas de rosa e branco para o verde pálido da Igreja de San Matteo e dos mosaicos da fachada dela. "Como é estranho não saber", disse Sophia no último verso dos nove "Poemas de um Livro Destruído", poemas que Sophia conservou inéditos por mais de vinte anos. Ali, sentado no chão, nos degraus da casa de Lamba Doria, em frente da igreja (já fechada) eu julgava saber alguma coisa. Suadíssimo, descamisadíssimo, sentia uma grande paz e não havia vivalma ao meu redor. Por isso, apanhei um susto quando o telefone tocou (esqueço-me sempre de o desligar). Uma espécie de mau presságio. Mas era um banal recado da Cinemateca, pormenores de programação. Estranhei não me irritar com a interrupção e, enquanto olhava, (olhava sempre) mantive uma longa conversa, com instruções para mudar o filme A para o dia Z e o filme Z para o dia B. Tudo muito calmo, muito quotidiano, como se estivesse à secretária da Barata Salgueiro. Depois de desligar, deixei-me ainda ficar muito tempo por ali, muito longe de maldizer os genoveses ou de pensar no Cócito. Nenhuma vontade de fazer mal a alguém por cortesia. Se houvesse na praça um restaurante, tinha jantado por ali, para ver como a noite lhe ficava. Não havia e por isso dei ordem às pernas para o que lhes queria: regressar ao hotel, tomar um bom banho, mudar de roupa e voltar a sair para jantar bem.
3 - Foi quando cheguei ao hotel, bastante esfalfado, já tinha na mão a chave do quarto, que o telefone voltou a tocar. Desta vez, nenhum sobressalto nem nenhuma surpresa. Era o meu genro Pedro. Demorei uns segundos a reparar no tom grave da voz. A Maria, filha da Sophia, tinha telefonado a pedir que me avisassem, que eu gostava de saber. 
Desisti dos meus planos e fiquei no hotel, numa grande casa de jantar quase deserta. Tentei falar com a Maria ou com os irmãos, mas não consegui. Também não consegui falar com a pessoa em quem mais pensava. Começaram, sim, a falar gentes dos jornais, a pedir comentários, "depoimentos" (o que eu odeio os jornalistas nessas alturas!). Inevitavelmente, pensei no poema de que toda a gente se lembrou quando ela foi morta. E ouvi-a distintamente, como no velho disco de 45 rotações que havia lá em casa, dizer: "Outros amarão as coisas que eu amei." Estúpida vaidade, ou o contrário disso, pensei que, naquela tarde em Génova, 2 de julho de 2004, eu teria sido um dos primeiros desses outros, pois que certamente Sophia amou, ou teria amado, o fresco do claustro de Santa Maria di Castello ou a Piazza San Matteo, se acaso os viu, se acaso os visse.
4 - Mas será verdade, como Sophia tão fundamente acreditou, que tudo continuará "como se eu não estivesse morta"? "Será o mesmo brilho, a mesma festa / Será o mesmo jardim à minha porta"? Vezes sem conta discuti isso com Sophia. Para ela, "sempre a poesia foi uma perseguição do real". Quando recordou a "maçã enorme e vermelha" "poisada em cima de uma mesa", "num quarto em frente do mar" (e era a coisa mais antiga de que ela se lembrava), não recordou "nada de fantástico" "nada de imaginário". "Era a própria presença do real que eu descobria." Por isso, cem vezes ou mais, na sua poesia, associada à morte, surge essa crença na continuidade do real, independentemente dela ou de qualquer humano. "Também morre o florir de mil pomares / E se quebram as ondas no oceano." Ou: "Um dia quebrarei todas as pontes / Que ligam o meu ser, vivo e total / À agitação do mundo do irreal / E calma subirei até às fontes." Cito ao acaso, de memória. Podia citar mil poemas em que ela diz o mesmo. Mas para mim (e a questão é filosófica e tão velha como os primeiros filósofos) esse radical realismo é-me estranho. Sophia ou Génova, para não sair do tema desta crónica, só são ou foram reais quando e enquanto me foram aparições. "Quando o meu corpo apodrecer e eu for morto" não estou nada certo que Sophia e Génova continuem como continuam hoje, porque eu estou vivo e eu me lembro delas. Um amigo observou-me um dia, a propósito de uma destas crónicas do PÚBLICO sobre Itália (era sobre Lecce), que eu não escrevia sobre Lecce escrevia sobre mim, como se, perdido eu, Lecce deixasse de poder ser vista como eu a vira. Tem toda a razão. Foi assim e é assim. Sem mim, não sei de eu. Isto não significa - muito ao contrário - que eu não acredite na comunhão dos santos, na ressurreição da carne, na vida eterna, amém. Esta crónica, bem lida, é um dos múltiplos sinais. Mas só a fé que tenho em não desaparecer me faz acreditar que ninguém ou nada do que amei desaparecerá também. Se eu fosse ateu, poderia repetir, sem remorso ou vacilação, o "après moi le déluge". Não concebo qualquer real independente de mim. Como não concebo que o Kouros do Egeu seja para mais alguém, como foi para Sophia, "Sorriso sem costura / Inocência de caule / Retrato nu do liso." É verdade? É. Tão, tão verdade. Mas ninguém nunca mais inventará esses seis substantivos ligados por um único adjectivo. O mais longe que vou é ao que Sophia escreveu no mágico poema chamado "Veneza", do livro "Ilhas".
"Dentro deste quarto um outro quarto 
Como um Carpaccio nas ruas de Veneza 
Segunda imagem sussurro de surpresa 
E um pouco assim são as ruas de Veneza  
Em fundo glauco de laguna ou vidro  
E um pouco assim em nossa vida o duplo  
Espelho sem perdão do não vivido  
Caminha destinado a ser perdido
5 - Acima falei dos nove "Poemas de um Livro Destruído", que, escritos entre "Coral" e "No Tempo Dividido" (ou seja, entre 1950 e 1954, tinha Sophia trinta e poucos anos) só foram inseridos em 1985 na segunda edição do último desses livros. 
Sophia falou-me deles em 1969 ou em 1970 e disse-me que lhe faziam um medo enorme, porque lhe pareciam alheios, sendo dela como se não fossem dela. Pedi-lhe que me escrevesse aquele que começa com "Não procures verdade no que sabes" e, desde esse dia, guardo esse poema ao lado das imagens mais minhas, como o retrato dela em Agrigento que o Alberto lhe tirou. Em Génova, naquela noite, ouvia a voz dela, ouvia os poemas dela ditos por ela, e via-a a ela e à poesia dela. Tudo tão real quanto fantástico. Como ela o foi, como ela o é. Mesmo quando nada restar da poesia dela, mais do que um verso ou um fragmento. Não foi só isso que nos ficou de tantos poetas da Grécia antiga? Mas, porque outros os amaram como alguns amaram Sophia, esse resto é quanto basta. Porque "a arte é filha da memória". Sophia, eu lembro-me."
João Bénard da Costa, 6 de Agosto 2004, in  Jornal Público

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Honesto Relatório de Perdas


Tudo o que não foi dito e não foi feito,
as obras ciclópicas que sonhámos,
esquecidas, a pretexto de defeito,
os inimigos que não arrasámos,
 
a sementeira tão boa de ideias claras,
que não chegámos nunca a regar,
abortando as almejadas searas
que não chegaram nunca a despertar.
 
Tudo estava em nosso poder,
e tanto talento desperdiçado!
Poder florescer e não o fazer
 
é legado totalmente malogrado.
Lista de oportunidades perdidas,
de grandes coisas sempre diferidas.
                                  04.07.2022
Eugénio Lisboa

O Longo Braço do Passado

 

O Longo Braço do Passado
por Eugénio Lisboa
“O LONGO BRAÇO DO PASSADO é o segundo romance de Rui de Azevedo Teixeira, sequela da impressionante estreia que foi o ELOGIO DA DUREZA, publicado o ano passado.
Ao contrário de tantos romances lusos, que são um conjunto de picardias narrativas, de que se extrai pouco sumo, Rui Teixeira enche de história vivida e sofrida, até rebentar as costuras, estes seus dois romances, a que se seguirá, suponho e desejo eu, um terceiro. De facto, ao mergulhar no duro e implacável universo narrativo deste antigo comando e professor universitário, lembro-me de um dito apropriado do conhecido jornalista americano, Gene Fowler, que observava, com ferino realismo: “Escrever é fácil, tudo o que há a fazer é olhar para uma folha de papel em branco e ficar à espera que as gotas de sangue comecem a cair da nossa testa.” Isto é o que acontece aos escritores que não se importam de começar, como ficcionistas, aos setenta anos: como a Nau Catrineta, têm muito que contar e não têm medo de o fazer. Há os outros que, mal saídos dos cueiros, querem inovar decisivamente o romance, mas não são como a Nau Catrineta e nada têm que contar. Estes últimos são muito apreciados – e deles recebem aplausos e prémios – pelos snobs provincianos, que fazem questão de apregoar que não gostam de uma ficção com história dentro. Se tivessem um pouco mais de cultura e conhecessem o panorama contemporâneo da grande ficção anglo-saxónica e mesmo latino-americana, não diriam tais dislates. Se não gostam que o romance conte uma história, que farão eles do D. QUIXOTE, das GRANDES ESPERANÇAS, do Dickens, d’A CARTUXA De PARMA de Stendhal, d’A PRIMA BETTE de Balzac, da ANA KARENINA, de Tolstoi ou de OS MAIAS de Eça? (Para citar apenas um punhado deles) De tolices destas, está o inferno cheio, mas há por aí muitos que as vendem e com apreciável proveito: porque, dizem, o que interessa são os personagens, ou as ideias ou as emoções e não a história. Ortega y Gasset, no seu genial ensaio sobre o romance, já esclareceu, de uma vez por todas, que a história, por débil que seja – e nas grandes ficções não o é – é como o fio no colar de pérolas: o importante, de facto, são as pérolas e não o fio, mas, sem o fio, não há colar. Nestes dois colares de pérolas, que são os dois romances de Rui Teixeira, acontece que o fio é tão importante como as pérolas. Sendo o primeiro – O ELOGIO DA DUREZA – o mundo da guerra, dado com uma invulgar verdade, para não dizer “brutalidade”, o segundo – O BRAÇO LONGO DO PASSADO - é o do não menos agónico mundo do pós guerra, com visitas implacavelmente autênticas do universo da cooperação, em Angola, e da universidade, em Portugal. Rui Teixeira não tem, como dizem os franceses, frio nos olhos, e dá-nos, com traços vigorosos, mas não panfletários nem contaminados de ideologia, o panorama grotesco-trágico da cooperação, numa democracia dita popular, com a sua dose bem aconchegada de oportunismo, velhacaria e corrupção; e o panorama pequenino, mesquinho e pouquíssimo sagrado do mundo universitário. Tudo bem fundamentado e documentado em experiência bem vivida e sofrida. Ainda por cima dois romances empolgantes. Dizia uma escritora pouco conhecida que “o problema com os livros é que eles acabam”. Não com todos os livros, mas certamente com este que hoje aqui se apresenta e com o publicado no ano passado. Ambos, enterrados eaté doer, na experiência vivida do autor, que nos deu dois grandes romances, em parte, e só em parte, autobiográficos, e com os disfarces da praxe. Ao fim e ao cabo, como dizia a escritora canadiana Margaret Atwood, “ no fim de contas, todos nós nos tornamos histórias”.
Eugénio Lisboa , texto de  apresentação do romance O Longo Braço do Passado, Junho de 2022

domingo, 3 de julho de 2022

A dificuldade é amiga da criação

Se é difícil fazer um soneto,
por causa das regras a que ele obriga
- por isso, alguns o julgam obsoleto - ,
há quem ache a dificuldade amiga
 
de se enriquecer a criação.
Assim como a resistência do ar
permite que se levante o avião,
tudo quanto seja dificultar
 
o verso que se pretende escrever
permite, com alegria, encontrar
outro verso melhor, a alvorecer!
 
Se o soneto anseia voar,
faça-o, repito, como o avião:
aceite o que resiste à criação
                     03.07.2022
Eugénio Lisboa

Ao Domingo Há Música

  

                                Doce sonho, suave e soberano
                               Se por mais longo tempo me durara
                               Ah! quem de sonho tal nunca acordara
                               Pois havia de ver tal desengano!
                                                Luis de Camões, Sonetos

Regressar a Mahler para (re)escutar uma da suas famosas peças é um prazer redobrado, neste tempo de tanto desengano e de insana instabilidade. A transformação desta peça instrumental em peça coral traz outro tipo de beleza à melodia. Que de doce sonho se encha, pelo mais longo tempo, o coração de todos nós.
Assim,  de  Gustav Mahler , Adagietto Symphony 5 , arranged for Choir. 
Gérard Pesson fez os arranjos para coro.   A interpretação  é  do Accentus Chamber Choir,  sob a direcção da Maestrina  Laurence  Equilbey .

 

sábado, 2 de julho de 2022

O Poder das Palavras


As palavras que me ponho a escrever
fazem o que podem, mas podem pouco.
Elas têm, talvez, algum poder,
mas muito aquém de um desígnio louco
.

Pretendem atingir o inefável,
o grandioso e o transcendente,
aquilo tudo que não é possível,
o delicado e o transparente.

As palavras visam o infinito,
o inacessível e o impossível,
mas o seu poder é tão só finito,

não estando ao seu alcance o indizível.
As palavras fazem só o que podem
e aos altos desígnios mal acodem.
                                   02.07.2022
Eugénio Lisboa

Casas amáveis

Casas amáveis
por  Cecília Meireles
"Vocês me dirão que casas antigas têm ratos, goteiras, portas e janelas empenadas, trincos que não correm, encanamentos que não funcionam. Mas não acontece o mesmo com tantos apartamentos novinhos em folha?
Agora, o que nenhum arranha-céu poderá ter, e as casas antigas tinham, é esse ar humano, esse modo comunicativo, essa expressão de gentileza que enchiam de mensagens amáveis as ruas de outrora.
Havia o feitio da casa: os chalés, com aquelas rendas de madeira pelo telhado, pelas varandas, eram uma festa, uma alegria, um vestido de noiva, uma árvore de Natal.
As casas de platibanda expunham todos os seus disparates felizes: jarros e compoteiras lá no alto, moças recostadas em brasões, pássaros de asas abertas, painéis com datas e monogramas em relevos de ouro.
Tudo isso queria dizer alguma coisa: as fachadas esforçavam-se por falar. E ouvia-se a sua linguagem com enternecimento.
Mas, hoje, quem se detém a olhar para rosas esculpidas, acentos, estrelas, cupidos, esfinges, cariátides?
Eram recordações mediterrâneas, orientais: mitologia, paganismo, saudade. (Que quer dizer saudade? E para que e o que recordar?)
Os jardins tinham as suas deusas, os seus anões possuíam mesmo bosques, onde morariam ecos e oráculos; e pequenas cascatas, pequenas grutas com um pouco d’água para os peixinhos.
Possuíam canteiros de flores obscuras – violetas, amores-perfeitos – para serem vistas só de perto, carinhosamente, uma por uma, de cor em cor. (Hoje, estes ventos grandiosos apagam tudo.)
E, lá dentro, as casas tinham corredores crepusculares, porões húmidos, habitados por certos fantasmas domésticos, que de vez em quando se faziam lembrar, com seus pálidos sopros, os seus transparentes calcanhares,  as suas algemas de escravidão.
As famílias abrigavam cortejos de mortos. E havia as claraboias. Luz como aquela? Nem a do luar! – uma suavidade de cinza e marfim, a maciez da seda, o fulgor da opala.
As casas eram o retrato de seus proprietários. Sabia-se logo de suas virtudes e defeitos. Retratos expostos ao público: nem sempre simpáticos, mas geralmente fiéis. Agora, os andaimes sobem, para os arranha-céus vitoriosos, frios e monótonos, tão seguros de sua utilidade que não podem suspeitar da ausência de gentileza.
Qualquer dia, também desaparecerão essas últimas casas coloridas que exibem a todos os passantes as ingénuas alegrias íntimas – flores de papel, abajures encarnados, colchas de franjas – e cujas risonhas proprietárias têm sempre um Y no nome, Yara, Nancy, Jeny…
Ah! Não veremos mais essas palavras, em diagonal, por cima das janelas, de cortininhas arregaçadas, com um gatinho dormindo no peitoril. Afinal, tudo serão arranha-céus. (Ninguém mais quer ser como é: todos querem ser como os outros são.)
E eis que as ruas ficarão profundamente tristes, sem a graça, o encanto, a surpresa das casas que vão sendo derrubadas. Casas sumptuosas ou modestas, mas expressivas, comunicantes."
Cecília Meireles, in ‘Escolha o seu sonho’, Record Editora

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Aprendizagem

Acabara de fazer catorze anos,
quando perdi o meu irmão mais velho.
Foi o primeiro dos meus desenganos,
e quando deixei de ser rapazelho.

O encontro com a morte amadurece-nos,
muito antes do tempo: em nós mata
ilusões: dentro de nós, comparece
suspeita de uma estrada insensata,

que será nosso percurso de vida.
É quando começamos a morrer
e a ter a esperança corroída.

A morte dos outros nos ensina
que é limitado o nosso viver:
isto ficará connosco, em surdina.
                            01.07.2022
Eugénio Lisboa