sexta-feira, 8 de abril de 2022

A agonia da paz

Londres
A Agonia da Paz
por  Stefan Zweig
                                          
                                       The sun of Rome is set. Our day is gone.
                                       Clouds, dews and dangers come; our deeds are done
                                            Shakespeare, Julius Caesar

"Nos primeiros anos a Inglaterra teve tão pouco de exílio para mim como Sorrento tivera outrora para Gorki.  A Áustria  continuava a existir , mesmo depois da chamada "revolução"  e da tentativa dos nacional-socialistas , logo a seguir, de se apoderarem do país por meio de um golpe de Estado e do assassinato de DollfuB. A agonia da minha pátria iria  durar ainda quatro anos. Eu podia regressar a qualquer hora, não estava exilado, nem estigmatizado. Os meus livros ainda continuavam a salvo na minha casa de Salzburgo, eu ainda era detentor do meu passaporte austríaco, a pátria continuava a ser a minha pátria e eu ainda era seu cidadão - e cidadão de pleno direito. Ainda não tivera início aquela terrível condição  de apátrida que não é possível explicar a quem não a tenha sofrido na pele, aquela sensação , exasperante para os nervos , de cambalear no vazio de olhos abertos e bem despertos, e de saber que se pode ser escorraçado a qualquer momento de qualquer lugar onde se tenham criado raízes. Mas eu apenas estava no primeiro começo.  Em todo o caso, tratou-se de uma chegada diferente quando, em finais de Fevereiro de 1934, desci do comboio em Victoria Station; uma cidade parece-nos diferente consoante se tenha decidido aí permanecer ou apenas visitá-la. Eu não sabia quanto tempo iria viver em Londre. Só uma coisa me interessava: poder voltar ao meu próprio trabalho, defender a minha liberdade interior e exterior. Não comprei casa, porque toda a propriedade implica uma nova ligação, mas aluguei um pequeno flat, apenas suficientemente amplo para conseguir guardar, em dois armários de parede , os poucos livros que não estava disposto a dispensar, e instalar uma secretária. Isso era tudo o que um trabalhador das coisas do espírito precisava de ter à sua volta. É verdade que não sobrava nenhum espaço para a vida social. Mas eu preferia viver em limites mais estreitos para poder viajar livremente de quando em vez: sem me dar conta, a minha vida já se tinha orientado para o provisório  em detrimento do permanente.
Na primeira noite - já tinha escurecido  e os contornos das paredes diluíam-se na penumbra - cheguei ao pequeno apartamento, finalmente pronto, e estremeci. Parecia-me que, nesse preciso segundo, tinha entrado naquele outro pequeno apartamento que arranjara em Viena, havia quase trinta anos, com os seus compartimentos igualmente exíguos e tendo como única saudação de boas-vindas aqueles mesmos livros nas paredes e os olhos alucinados do King John, de Blake, que me acompanha por todo o lado.  Tive realmente que cair em mim um momento, pois durante muitos anos nunca mais me lembrara daquela primeira habitação. Seria isto um símbolo da minha vida - que durante tanto tempo  se espraiara em toda a sua amplidão -e que agora regredia  aos limites  do passado , um símbolo de mim , sombra agora de mim mesmo? Quando escolhi aquele quarto em Viena, trinta anos antes, tratava-se de um começo. Ainda não tinha criado nada, pelo menos nada de essencial; os meus livros, o meu nome ainda não existiam no meu país. Agora estranha semelhança est - os meus livros tinham voltado a desaparecer da língua que era a deles e o que eu escrevia era ignorado na Alemanha. Os amigos estavam longe, o velho  círculo das relações  destruído , perdida a casa com as suas colecções e quadros e livros; tal como então , encontrava-se novamente rodeado de estranhos. Tudo o que entretanto tinha tentado, feito, aprendido, usufruído, parecia ter sido levado pelo vento; com mais de cinquenta anos de idade, encontrava-me de novo num começo, era de novo o estudante que se senta à sua secretária e vai trotando todas as manhãs até à biblioteca  só que já não era tão crédulo, tão entusiasta, tinha um reflexo cinzento no cabelo e uma leve penumbra de desânimo sobre a alma cansada."
Stefan Zweig, in O Mundo de Ontem, recordações de um europeu, Assírio & Alvim, Agosto de 2014, pp. 454, 455, 456

quinta-feira, 7 de abril de 2022

A vergonha destes dias




O mundo pode e deve parar Putin.

Sobre a grande vantagem de ser gato


 
E se aprendêssemos com os gatos?
Se os gatos não sonham com impérios,
nem apreciam sonhos insensatos,
que acabam sempre em necrotérios,
 
melhor é fazer como eles fazem:
desejar coisas modestas e simples,
coisas que facilmente satisfazem,,
como dormir ou música dos Beatles.
 
Ser gato é saber como viver,
com o pouco que basta para gozar:
paparoca, à hora do comer
 
e, depois, venha um bom ronronar.
Por que raio se querem impérios,
que rimam à bruta com cemitérios?
                        07.04.2022
Eugénio Lisboa

I had a dream

Floating down, through the clouds
Memories come rushing up to meet me now
But in the space between the heavens
And the corner of some foreign field
I had a dream
I had a dream
Goodbye Max, goodbye Ma
After the service, when you're walking slowly to the car
And the silver in her hair shines in the cold November air
You hear the tolling bell and touch the silk in your lapel
And as the teardrops rise to meet the comfort of the band
You take her frail hand
And hold on to the dream
A place to stay, enough to eat
Somewhere, old heroes shuffle safely down the street
Where you can speak out loud about your doubts and fears
And what's more, no one ever disappears
You never hear their standard issue kicking in your door
You can relax on both sides of the tracks
And maniacs don't blow holes in bandsmen by remote control
And everyone has recourse to the law
And no one kills the children anymore
No one kills the children anymore
Night after night, going 'round and 'round my brain
His dream is driving me insane
In the corner of some foreign field
The gunner sleeps tonight
What's done is done
We cannot just write off his final scene
Take heed of the dream
Take heed

 Roger Waters, em The Gunner's Dream

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Vinte e quatro redondilhas


 
Vinte e quatro redondilhas
Glosando a mui nobre e sempre actual arte
de pactuar com o diabo
 
1
Ser-se do KAPA GÊ BÊ
tem muito grandes vantagens:
tortura-se e não se vê
que haja nisso desvantagens.

2
Vais ser do KAPA GÊ BÊ?
Queres ter algum poder?
Nesse caso, precavê-te
e aprende a não sofrer.

3
Homens do KAPA GÊ BÊ
têm grande sangue frio:
mata-se de A a ZÊ
e sempre com grande brio.

4
Ser-se do KAPA GÊ BÊ
permite ver inimigos
e até mesmo antevê
os que são falsos amigos.

5
Quem foi do KAPA GÊ BÊ
pode até chegar ao topo,
ali, de onde se vê
que o mundo é misantropo.

6
Putine e o KAPA GÊ BÊ
atormentam hoje o mundo.
Se perguntarem porquê,
é que o mundo está imundo!
                 06.04.2022
Eugénio Lisboa

Sobre o Homem


Cada um de nós é, neste mundo moderno globalizado, guardião do seu irmão ou irmã. Foram muitas as vezes que falhámos esta exigência moral.
                              Nelson Mandela    
Coragem é a resistência ao medo, domínio do medo, e não a ausência do medo.
                              Mark Twain
Resistência aos tiranos é obediência a Deus.
                              Thomas Jefferson
Muitas vezes as objecções nascem do simples facto de que aqueles que as fazem não são os mesmos que tiveram a ideia que estão a atacar.
                             Paul Valéry
O homem é aquilo que sabe.
                              Francis Bacon
Eu perdi a liberdade de não ter uma opinião.
                              Umberto Eco

O Homem Deformado pela Sociedade
"Formou Deus o homem, e o pôs num paraíso de delícias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices. O homem — não o homem que Deus fez, mas o homem que a sociedade tem contrafeito, apertando e forçando em seus moldes de ferro aquela pasta de limo que no paraíso terreal se afeiçoara à imagem da divindade — o homem assim aleijado como nós o conhecemos, é o animal mais absurdo, o mais disparatado e incongruente que habita na terra.
Rei nascido de todo o criado, perdeu a realeza: príncipe deserdado e proscrito, hoje vaga foragido no meio de seus antigos estados, altivo ainda e soberbo com as recordações do passado, baixo, vil e miserável pela desgraça do presente.
Destas duas tão apostas actuações constantes, que já per si sós o tornariam ridículo, formou a sociedade, em sua vã sabedoria, um sistema quimérico, desarrazoado e impossível, complicado de regras a qual mais desvairada, encontrado de repugnâncias a qual mais aposta. E vazado este perfeito modelo de sua arte pretensiosa, meteu dentro dele o homem, desfigurou-o, contorceu-o, fê-lo o tal ente absurdo e disparatado, doente, fraco, raquítico; colocou-o no meio do Éden fantástico de sua criação — verdadeiro inferno de tolices — e disse-lhe, invertendo com blasfemo arremedo as palavras de Deus Criador:
- De nenhuma árvore da horta comendo comerás:
- Porém da árvore da ciência do bem e do mal dela só comerás se quiseres viver.
Indigestão de ciência que não comutou seu mau estômago, presunção e vaidade que dela se originaram — tal foi o resultado daquele preceito a que o homem não desobedeceu como ao outro: tal é o seu estado habitual.
E quando as memórias da primeira existência lhe fazem nascer o desejo de sair desta outra, lhe influem alguma aspiração de voltar à natureza e a Deus, a sociedade, armada de suas barras de ferro, vem sobre ele, e o prende, e o esmaga, e o contorce de novo, e o aperta no ecúleo doloroso de suas formas,
Ou há de morrer ou ficar monstruoso e aleijão."
Almeida Garrett, in Viagens na minha Terra,  Livros do Brasil

Quando o propósito do arrependimento se ajunta com a resolução do pecado, nem é arrependimento nem é propósito, porque a resolução de pecar contradiz o propósito da emenda, e o pecado presente desfaz o arrependimento futuro.
                                   Padre António Vieira

terça-feira, 5 de abril de 2022

A banalidade da morte

 

A BANALIDADE DA MORTE
 
Nós, depois de mortos, ficamos corpos
e em vez de florescer, apodrecemos.
Contra este horror, não há anticorpos,
somos lixo e desaparecemos.
 
Na morte não há qualquer transcendência,
não precisa de qualquer cerimónia:
a morte é uma vulgar ocorrência,
uma mera estatística, sem história.
 
Por isso, é melhor irmos vivendo
e não pensar no que virá depois;
o nosso fim nada tem de estupendo:
 
depois de embrulhados em lençóis,
tudo é nada e não há discussões,
porque o nada não tem opiniões.
                           05.04.2022
Eugénio Lisboa

O Coração das Trevas Revisitado

 Bucha, Ucrânia
 

O CORAÇÃO DAS TREVAS REVISITADO
ao ver as ruínas de Bucha
 
Corpos no meio da estrada, já frios,
as mãos amarradas atrás das costas,
o horror, o horror dos calafrios…
Que de perguntas, todas sem respostas!
 
A condição humana em juízo,
e que de horríveis suspeitas à solta!
Então somos isto? Será preciso
tanta barbaridade à nossa volta?
 
Será que Mistah Kurtz teve herdeiros,
os quais por toda a parte semearam
horrendos e sangrentos paradeiros?
 
Dir-se-á que nos homens aterraram
demónios nunca antes conhecidos,
oriundos de infernos desmedidos!
                             04.04.2022
Eugénio Lisboa