domingo, 6 de fevereiro de 2022

Ao Domingo Há Música



A música que ouvi junto contigo era mais que música, / E o pão que parti junto contigo era mais que pão.
Conrad Aiken

Há sempre lembrança de um trecho  musical . A  sua marca foi superior a qualquer outro. A vida teve mais sentido nesse momento. São esses momentos que constroem as grandes lembranças.
Neste domingo, trazemos a voz maior de Dulce Pontes que acaba de editar  Na Língua das Canções. Trata-se de uma canção com música da própria intérprete e letra de Tiago Torres da Silva, incluída no Álbum, "Perfil",  que sairá no dia 25 deste mês. O vídeo oficial foi realizado por Gonçalo Claro, com a participação do bailarino Yonel Castilla Serrano, da Companhia Nacional de Bailado. 

 Dulce Pontes, em " Na Língua Das Canções ".

PENSAMENTO DO DIA


PENSAMENTO DO DIA
(COM COMENTÁRIOS)
por Eugénio Lisboa
 
MEREDITH É UM BROWNING EM PROSA – E BROWNING TAMBÉM
Oscar Wilde
 
“Como de costume, Wilde, ao ser pérfido, disse a verdade. A prosa fala. A poesia canta. A prosa caminha, sem encontrar pela frente ou ignorando-o, caso o encontre, qualquer obstáculo. A poesia oferece ao vento contrário – que acolhe – a sua asa: por isso, voa. Uma caminha, a outra paira. Só quando a prosa inventa, para si, obstáculos fecundos, como em Flaubert ou em qualquer grande prosador, é que a prosa se torna poesia. Só se voa, quando se encontra ou se constrói um obstáculo que propicia o voo. Sem obstáculo, não há criação poética: não há criação. Criar é sempre descobrir uma solução para uma dificuldade. A poesia em prosa, se não luta para existir, é prosa em prosa, no pior sentido de prosa. Nem sequer tem a dignidade de ser boa prosa, a qual é poesia disfarçada. A poesia que visa conquistar o território da prosa, trava uma fútil batalha, porque acaba por perder em duas frentes: nem é boa poesia nem é boa prosa. É como aquelas mulheres, que se querem parecer com homens e afugentam, neles, todo o desejo. Não se acumula: escolhe-se.”
Eugénio Lisboa, 05.02.2022

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Aforismos de Henry Louis Mencken

Henry Louis Mencken

AFORISMOS DE H. L. MENCKEN (1880 – 1956)
por Eugénio Lisboa
"Henry Louis Mencken, literariamente conhecido como H. L. Mencken, foi provavelmente o mais influente crítico e ensaísta americano, nos anos vinte do século passado. Dotado de um sumptuoso e acutilante poder de manejo da língua inglesa e de um invulgar poder de ver as coisas muito por dentro, Mencken teve sempre a destemida vocação de se não render facilmente aos ventos que sopravam. Opondo-se, com óbvio risco, à religião organizada, à democracia representativa e à crença num deus qualquer, não se pode dizer que Mencken não sabia escolher bem os seus adversários.
Tinha uma característica qualidade, que muito admiro: detestava glórias fraudulentas e batia-se como um bravo por impor escritores de real valor, como Theodore Dreiser e Sinclair Lewis. Mas tinha um ponto fraco: nem sempre viu a necessidade de pôr linhas vermelhas ao seu sarcasmo brilhante, e os americanos não acharam muita graça ao facto de ele fazer chacota com o New Deal de Roosevelt, depois de uma depressão assassina. Foi também muito mal visto que ele, inicialmente, se não desse conta do que significava a ascensão de Hitler na Alemanha. Mas deve notar-se que muita gente cometeu este erro. O brilhante George Bernard Shaw não deixou de ter o seu flirt com Mussolini. Acontece aos melhores.
Da vasta bibliografia de Mencken, podem destacar-se os seguintes títulos: TRE PHILOSOPHT OF FREDERICH NIETZSCHE (1907); IN DEFENSE OF WOMEN (1918); PREJUDICES, seis volumes de crítica (1919 – 1927); THE AMERICAN LANGUAGE (1919).
Dou a seguir uma pequena mas significativa amostra do inquietante poder aforístico de Mencken.
 
Diga-se o que se disser dos Dez Mandamentos, devemos dar-nos por felizes por serem só dez.
Não há assuntos chatos, há só escritores chatos.
Ópera em inglês faz tanto sentido como beisebol em italiano.
Quando se ouve um homem falar no seu amor pelo seu país, pode-se estar certo de que ele espera ser pago por isso.
O pior governo é o mais moral. Um governo composto por cínicos é frequentemente mais tolerante e humano. Mas quando os fanáticos tomam o poder, não há limites para a opressão.
A consciência é aquela voz interior que nos avisa que alguém pode estar a olhar.
Nenhum homem merece uma confiança ilimitada – na melhor das hipóteses, a sua traição aguarda apenas uma tentação suficientemente forte.
É relativamente fácil suportar a injustiça. É mais difícil suportar a justiça.
Deus é um comediante a actuar para uma plateia demasiado assustada para poder rir.
Os homens casados vivem mais tempo do que os solteiros – ou, pelo menos, queixam-se durante mais tempo-.
Nada pode sair do artista que não esteja no homem.
Nunca pus um charuto na boca, antes dos nove anos.
É difícil acreditar que um homem está a dizer a verdade, quando sabemos que mentiríamos se estivéssemos no seu lugar.
Imoralidade é a moralidade daqueles que se estão a divertir mais do que nós.
Nunca deixe que um inferior lhe faça um favor. Pode custar-lhe caro.
A fé pode ser definida, em resumo, como uma crença ilógica na ocorrência do improvável.
Pode ser um pecado pensar mal dos outros. Mas raramente é um engano.
Só há uma coisa na qual homens e mulheres estão de acordo: nenhum dos dois confia nas mulheres.
 
(Hoje, fico-me por aqui. Se quiserem mais, é só pedirem: a verve de Mencken é inesgotável…)"
Eugénio Lisboa, 04.02.2022

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

A propósito de Línguas

Mindelo, Cabo Verde

Três línguas de Cabo Verde a Portugal
"Uma visita ao Mindelo mostra-nos uma intrigante paisagem linguística — façamos uma viagem de Cabo Verde a Portugal, passando pela Suíça, a propósito das línguas.
Quando chegamos a uma cidade, reparamos no relevo, no recorte da costa, nas casas, nas cores, nas ruas, nas pessoas, nas lojas, nos barcos a balançar. Se essa cidade for o Mindelo, na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, onde estive na semana passada, reparamos também na ilha de Santo Antão, ao fundo, como uma onda gigante que nunca se aproxima. Tudo isso faz parte da paisagem que vemos com os olhos. Já quem gosta de saber mais sobre línguas precisa de apurar também o ouvido.
Se for um alemão a aterrar na cidade, andará pelas ruas sem encontrar nada de estranho. Está tudo escrito numa língua estrangeira, que talvez identifique como latina. Todos falam uma língua estrangeira, com umas quantas palavras de origem latina. De uma forma ou de outra, pouco percebe. Tudo normal. 
Já um português desprevenido vê o português escrito em todo o lado e lembra-se de ouvir Cabo Verde referido na lista de países de língua portuguesa. Talvez fique então surpreendido ao compreender muito pouco do que as pessoas conversam entre si. Lá aparecem umas palavras bem portuguesas, mas as frases são difíceis de perceber.
Se se puser a conversar com cabo-verdianos, o nosso português curioso percebe que sabem falar português, com mais ou menos sotaque cabo-verdiano. Os portugueses sentem-se como ingleses em zonas turísticas ou madrilenos numa aldeia galega: todos sabem falar connosco, mas nós não percebemos as conversas em que não participamos.
 Haverá portugueses que ficam irritados com a situação, tal como há madrilenos muito aborrecidos por ouvir galegos a falar galego e um ou outro inglês que considera aborrecido que nem todos os povos conversem na sua língua. Ora, é preciso uma forma muito particular de arrogância para exigir que os outros — que até aprendem a nossa língua! — não falem entre si na sua língua materna só para lhes percebermos as conversas. Se fazemos mesmo questão, podemos sempre aprender a língua deles…
O alemão e o português que imaginamos nas ruas do Mindelo não têm essa arrogância. Estão simplesmente curiosos com a cidade onde aterraram. O alemão, pouco interessado em línguas, decide explorar outras paisagens. O português, surpreendido com aquela língua de que percebe uma ou outra palavra, para logo a seguir ficar sem nada entender, quer saber mais sobre a paisagem linguística da cidade. 
Para isso, façamos primeiro uma viagem à Suíça.
 
1. Quantos alemães se falam na Suíça?
Aterremos em Zurique. Se não soubermos alemão, ouvimos os transeuntes e identificamos tudo como alemão. As placas estão em alemão, os livros que se vendem nas livrarias estão, na sua maioria, em alemão — e os suíços falam alguma coisa que nos soa a alemão. Estamos como os alemães no Mindelo: tudo parece simples. A paisagem linguística resume-se a isto: alemão.
E, no entanto, se um berlinense aterrasse em Zurique sentiria algo muito parecido com o que sente o português no Mindelo (estou a falar de línguas; na pele, o berlinense sentirá muito mais frio, estou em crer).
Um alemão falará sem dificuldade com o suíço em alemão. Mas, se ouvisse dois suíços a falar entre si, pouco compreenderia. A televisão estaria em alemão, mas dois jornalistas a conversar num café falariam outra coisa.
Essa outra coisa é o Schwyzerdütsch, o suíço-alemão, um nome dado a todos os dialectos suíços de uma língua que muitos linguistas chamam alemânico.  Há quem chame o suíço-alemão um dialecto do alemão, mas não é bem assim. A situação é mais complexa.
Nas zonas onde o alemão é oficial, há um continuum dialectal, uma transição mais ou menos suave entre formas de falar. Num desenvolvimento com base em usos de várias zonas, construiu-se um padrão escrito, uma construção artificial (como todos os padrões), que ninguém usa de forma exacta na oralidade.
Com o tempo, os alemães e os austríacos, ao aprender o padrão na escola, foram aproximando a sua língua desse padrão e, hoje, a diversidade dialectal está mais apagada (sem nunca ter desaparecido). Na Suíça, não acontece isso: o Schwyzerdütsch continua a falar-se, nos seus vários dialectos, em paralelo com o uso do alemão-padrão na escrita e nas situações formais.
Se quisermos, o Schwyzerdütsch é a norma da oralidade informal e o alemão-padrão é a norma da escrita. Os pais falam com os filhos em suíço-alemão e esperam que aprendam a falá-lo, tal como também esperam que aprendam, mais tarde, a falar alemão-padrão para uso na escrita e noutras situações.
Para complicar ainda mais a situação, o próprio alemão-padrão tem particularidades na Suíça. Ortograficamente, por exemplo, os suíços não usam o eszett (ß) — e há vocabulário que é diferente. O alemão é uma língua pluricêntrica: contam-se três padrões (alemão, suíço e austríaco), muito próximos entre si.
Os suíços da zona de língua alemã têm uma língua para a rua e para casa e outra para as aulas e para a televisão. Estamos perante uma situação de diglossia, um termo usado pelos linguistas para descrever os territórios onde convivem duas línguas, com usos sociais distintos. Normalmente, há uma língua de prestígio, usada na escrita e nas situações formais, e outra língua popular, usada nas conversas, em casa, e transmitida aos filhos naturalmente. A língua de prestígio é ensinada, depois, na escola.
Todas as línguas têm registos formais e informais. O que diferencia os territórios diglóssicos é que há uma língua para os registos formais e outra para os registos informais.
O alemão-suíço poderia perfeitamente ser padronizado, ensinado nas escolas, usado em todas as situações. Só que não é.
Os luxemburgueses decidiram ir por um caminho diferente: codificaram a sua própria variedade germânica, o luxemburguês, que passou a ser uma das três línguas do país (o alemão, o francês e, agora, o luxemburguês). Não deitaram fora o alemão-padrão, apenas acrescentaram a sua própria língua ao que se ensina na escola e se usa oficialmente.

2. Uma língua antiga em muitas ilhas
Os cabo-verdianos estão numa situação parecida com a Suíça e estão a trabalhar para se aproximarem da situação luxemburguesa.
O português é usado nas situações formais e serve ainda para comunicar com outros falantes de português. É ensinado nas escolas e há muitos cabo-verdianos (não todos) que acabam por falá-lo e escrevê-lo tão bem como qualquer falante nativo de português. Aliás, há grandes escritores cabo-verdianos da nossa língua.
Por outro lado, em casa e na rua, o cabo-verdiano é a língua de praticamente toda a população e, tal como acontece com o alemão-suíço, apresenta uma grande variedade interna.
Ao contrário da situação suíça, o cabo-verdiano não surge do mesmo continuum dialectal da língua oficial (neste caso, o português). O cabo-verdiano é uma língua crioula, que apareceu numa situação muito particular, em que escravos de várias origens e os seus traficantes encontraram formas de comunicar imperfeitas, chamadas pidjins, que depois se transformaram em línguas completas ao serem transmitidas a novas gerações, que criaram os crioulos.
Os crioulos são extraordinários por apresentarem uma regularidade gramatical muito acentuada. Uma geração vê-se privada da transmissão de uma língua completa e cria uma gramática inteira — e cria-a numa forma tão estável e expressiva como qualquer outra língua. Mesmo nas situações mais desesperadas, os seres humanos precisam de conversar, nem que seja à força de inventar um idioma.
No caso do cabo-verdiano, a criação da língua ocorreu há bastante tempo: o cabo-verdiano tem séculos de história e há linguistas que encontram a sua influência noutras línguas, como o papiamento, uma língua oficial em várias ilhas das Caraíbas.
Para se tornar em língua oficial de Cabo Verde, a par do português, o cabo-verdiano precisa de ser padronizado. Tem havido vários passos nesse sentido. A maior dificuldade é, como acontece em muitos outros casos de padronizações recentes, a diversidade interna da língua. Mas não nos enganemos: todas as línguas são diversas por baixo do padrão.
Há várias estratégias de criação de um padrão de língua. A minha viagem à ilha serviu, aliás, para dar duas palestras sobre a diversidade da nossa língua e ainda sobre as várias estratégias que as línguas ibéricas encontraram para se padronizarem. O basco, por exemplo, também partiu de uma diversidade interna muito marcada e, mesmo assim, conseguiu criar um padrão que foi aceite pela sociedade e aplicado no ensino.
Os cabo-verdianos terão agora de encontrar uma estratégia para a sua própria língua. O certo é que, para quem gosta de saber mais sobre a linguagem humana, o cabo-verdiano é uma língua muito interessante: é o crioulo vivo mais antigo que se conhece.
 
3. De volta ao aconchego: o valor da língua materna
Voemos até Portugal. A situação suíça, a situação luxemburguesa, a situação cabo-verdiana parecem-nos estranhas — mas a verdade é que muitas línguas passaram por situações paralelas. Até o português!
A nossa língua, antes de se chamar português e ter um padrão, já existia enquanto língua falada. O latim era a língua formal (numa época em que poucos escreviam) e a linguagem era a língua da rua e de casa. Com o tempo, essa linguagem ganhou o nome de português e tornou-se oficial e língua da escrita. Note-se que o português continuou a ser uma língua exclusivamente oral para a maioria dos falantes até ao século XX; aliás, em Cabo Verde, hoje, há uma percentagem da população a escrever português muito superior à percentagem de portugueses que escreviam em português no início do século XX.
Hoje, a maioria da população de um grande número de países sabe ler e escrever. É normal que o queira fazer no seu próprio idioma. Todos gostamos de ver a nossa língua materna com honras literárias e oficiais.
Muitas sociedades têm de conjugar a natural vontade dos povos de dar honras de Estado à sua língua com a necessidade de permitir a comunicação com outros povos. Em geral, tal implica oficializar a língua materna, sem deitar fora a outra língua (ou as outras línguas).
Foi o que fez a Irlanda, que tornou o irlandês oficial, mantendo o inglês como língua segunda (com a particularidade de, hoje, o inglês ser a língua materna da maioria da população).
Foi o que fez o Luxemburgo, mantendo o francês e o alemão no sistema de ensino, a par do Luxemburguês (no final, todos falam as três línguas).
Foi o que fizeram as várias regiões de Espanha que têm outra língua para lá do castelhano.
Foi o que fez Malta, que oficializou o maltês, língua semítica com muito léxico italiano, não abandonando o inglês.
Já os suíços não sentiram necessidade de oficializar o suíço-alemão, mas protegem-no com unhas e dentes. É falado por todos os suíços da área alemã e ninguém tem vergonha da sua língua, mesmo que não a ensinem nem aprendam na escola. 
Em todos os casos acima, em que uma população decide oficializar a língua materna, a outra língua manteve-se forte e importante — e será provavelmente o que irá acontecer em Cabo Verde, mesmo depois de o cabo-verdiano se tornar oficial. As línguas maternas têm valor para os seus falantes por serem a língua materna, em que conversam e vivem diariamente; as outras línguas têm valor por permitirem comunicar com outros povos.
Os cabo-verdianos mantiveram o português como língua oficial e não parecem dispostos a abandoná-lo — querem, isso sim, usar a sua própria língua não só na oralidade, mas também na escrita. Julgo que nós, que tantas loas cantamos à nossa própria língua materna, conseguimos compreendê-los perfeitamente.
Os seres humanos sempre viveram em várias línguas. Os monolingues são a minoria. Se virmos bem, os falantes de línguas maternas com um baixo número de falantes costumam saber mais línguas do que os falantes de línguas maternas muito faladas (a começar pelo inglês). No futuro, os cabo-verdianos saberão falar mais línguas que um inglês típico.
Aliás, no futuro, não: hoje já acontece isso mesmo. Os cabo-verdianos falam cabo-verdiano, falam e escrevem português e ainda aprendem inglês na escola — é esta a intrigante paisagem que encontramos quando aterramos na linda (e quente) cidade do Mindelo."
Marco Neves | Professor e tradutor. Escreve sobre línguas e outras viagens na página Certas Palavras. O seu livro mais recente é História do Português desde o Big Bang.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Viajar pelo Chile: de Los Lagos a Atacama

Chile | Los Lagos to Atacama from Martin Heck | Timestorm Films on Vimeo.

"Explore a incrível diversidade do Chile no inverno. Do extremo norte da Patagónia e região de Los Lagos, com  vulcões perfeitos, à costa selvagem do pacífico, florestas mágicas de araucárias, picos imponentes dos Andes até ao deserto do Atacama. 
O registo foi filmado em Junho e Julho de 2019, num percurso de  mais de 5.000 km, de sul a norte.  A Música,  "Skydance", é de Kim Planert .
Os agradecimentos especiais vão  para: Angelbird Media - angelbird.com/ Wicked South America: - wickedsouthamerica.com/ 
Detalhes técnicos: Masterizado em 8K, 60fps (7680x4320) Câmaras de 12 bits: Nikon D850, Sony A7RIII, Sony A7RII, RED EPIC-W Software: Adobe Lightroom, LRTimelapse, Adobe After Effects, DaVinci Resolve 16 ."

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Camões


CAMÕES
(450 ANOS)
 
Grão poeta da condição humana,
exímio acrescentador da língua,
cultor da vida sagrada e profana,
soube viver e morrer sempre à míngua
 
de excesso, como fazem os poetas
enormes, contra ventos e marés,
indiferentes às normas obsoletas,
andando sempre com os próprios pés!
 
grão lírico, antigo e moderno,
a sua grandeza é a sua vanguarda
que nos visita em abraço fraterno,
 
vivamos em palácio ou mansarda.
Meu irmão legítimo ou bastardo,
és para sempre nosso eterno bardo!.
01.02.2022
Eugénio Lisboa, Poesia

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Ditos acerados

Alexander Woolcott 

Ditos acerados de  Alexander Woolcott (1887 – 1943)
por Eugénio Lisboa
“Uma das estrelas mais cintilantes, que gravitaram à volta da célebre mesa redonda do Hotel Algonquin, em Nova Iorque, no primeiro quartel do século XX, além dos já visitados Dorothy Parker e Robert Benchley, foi Alexander Woolcott, que viria a ser crítico de teatro da revista New Yorker, fundada pelo seu amigo Harold Ross. Apesar de amigos, Woolcott, com a sua língua afiada, definia o amigo como “um Abraham Lincoln desonesto.” Para se perceber bem do que esta casa gastava, Woolcott e Ross estiveram, o primeiro como sargento, incorporados nas forças expedicionárias americanas, na primeira guerra mundial, nos serviços de inteligência. Tinham como função manter elevado o moral das tropas americanas. Mas, no jornal que para isso criaram, Woolcott desvelava cruamente os horrores da guerra e tentava mostrar como esta era um factor altamente negativo.
Considerava-se despudoradamente o melhor escritor da América, mas acrescentava que nada tinha para dizer. Nunca se casou, mas tentou-o uma vez. Porém este homem, que trabalhara no “intelligence service”, mostrou-se pouco informado desta vez: propôs casamento a uma senhora que, por acaso, se tinha casado no dia anterior.
Uma comédia dos conhecidos dramaturgos Moss Hart e George Kaufman – THE MAN WHO CAME TO DINNER – tem como protagonista o personagem Sheridan Wkiteside, inspirado na pessoa de Alexander Woolcott. Esta peça foi adaptada ao cinema, num filme hoje clássico, com o actor Monty Woolley, numa extraordinária interpretação do protagonista, ao lado de Betty Davis.
Woolcott deixou vários livros, de que destaco WHILE ROME BURNS (1934), que por acaso possuo.
Dou, a seguir, algumas frases célebres de Alexander Woolcott:
 
Todas as coisas que eu gosto realmente de fazer ou são imorais, ou são ilegais ou engordam.
Muitos de nós gastamos metade da nossa vida a desejar coisas que obteríamos se não gastássemos metade do nosso tempo a desejá-las.
Los Angeles são sete subúrbios à procura de uma cidade.
Na vida de cada um de nós, não há tal coisa como um dia pouco importante.
As duas profissões mais antigas do mundo [cozinheiro e prostituta] arruinadas por amadores.
Estou cansado de ouvir dizer que a democracia não funciona. Claro que não funciona. Presume-se que somos nós quem a faz funcionar.
O cenário da peça de teatro era belíssimo mas os actores tapavam-no.
Sobre Oscar Levant, pianista e homem muito espirituoso: Não há nada de errado em Oscar Levant que um milagre não consiga curar.
Ela parecia-se com um navio a afundar-se e a disparar contra os seus salvadores.
Hoje talvez seja o melhor dia para eu começar a pensar em deixar de fumar.
Os ingleses têm uma grande habilidade para se precipitarem numa grande calma.
Ler Proust é como tomar banho em águas emporcalhadas por terceiros.
É para mim uma grande honra pertencer a uma profissão, na qual homens bons escrevem cada parágrafo, cada frase, cada linha, tão amorosamente como qualquer Addison ou Steele, e fá-lo plenamente consciente de que amanhã será tudo queimado ou, quando muito, usado para enfeitar uma prateleira.”
Eugénio Lisboa, 31.01.2022 

Novidades Literárias de Fevereiro

Nobel da Literatura, Bolaño e Cortázar inéditos nas novidades de Fevereiro
O mais recente romance do Nobel da Literatura 2021, a estreia em Portugal de Kay Dick, inéditos de Bolaño e Cortázar, e novidades de Itamar Vieira Júnior, Isabel Rio Novo e Manuel Vilas são destaques das editoras para Fevereiro.
A Cavalo de Ferro vai lançar, já no início do mês, “Vidas seguintes”, o mais recente romance de Abdulrazak Gurnah, vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 2021, que entrelaça história e ficção, para construir uma narrativa lúcida e trágica sobre África, o legado colonial e as atrocidades da guerra, bem como as infinitas contradições da natureza humana.
Outra novidade da Cavalo de Ferro é “O imoralista”, de André Gide, uma das obras mais representativas do universo literário deste autor francês, publicada em 1902 e de imediato envolta em controvérsia e escândalo, alternando entre a exigência de pureza e a satisfação de prazeres proibidos que operam no Homem.
A mesma chancela publica também um inédito até à data em Portugal de Julio Cortázar, “Um Certo Lucas”, coleção de pequenas ficções, sobre os seus pianistas favoritos, sobre os costumes de determinadas famílias argentinas ou o fim de uma história de amor.
A Elsinore, chancela do mesmo grupo, publicará “A cláusula familiar”, de Jonas Hassen Khemiri, romance vencedor do Prémio Médicis 2021 e finalista do National Book Award 2021, que traça um retrato divertido e doloroso das relações familiares nas sociedades modernas e multiétnicas, nas quais o desejo de individualismo se conjuga com os valores ancestrais de identidade e pertença.
A mesma chancela publica “Para acabar de vez com Eddie Bellegeule”, o aclamado primeiro romance de Édouard Louis, autor de quem a Elsinore já publicou “Quem Matou o Meu Pai” — obra adaptada a teatro, com encenação do belga Ivo van Hove e que esteve em exibição, em 2021, no Teatro Nacional D. Maria II, no âmbito do Festival de Almada — e “História da Violência”.
Para o próximo mês, a Alfaguara traz como novidade a publicação de um novo romance de Manuel Vilas, “Os beijos”, uma história de amor no meio de uma crise mundial, em que uma mulher e um homem tentam regressar ao amor e ao erotismo, “esse lugar misterioso onde os seres humanos procuram o sentido mais profundo da vida”, descreve a editora.
O grupo Almedina publica, na chancela Minotauro, “Raiva”, de Sergio Bizzio, considerado um dos melhores romances latino-americanos da última década, adaptado ao cinema, com produção de Guillermo del Toro.
Trata-se da história de um operário da construção civil que, farto de sofrer humilhações, se esconde na mansão onde a namorada trabalha como empregada doméstica, depois de, no calor de uma discussão, cometer um assassinato, passando aí a viver incógnito, como um fantasma.
Um história simples de paixão entre dois trabalhadores de classe baixa, que redunda no relato das humilhações que ambos têm de suportar por parte daqueles que se julgam mais poderosos: ele responderá à violência com violência; ela, com submissão e mentiras, segundo a editora.
A Porto Editora aposta forte na ficção nacional, propondo “Um Cão Deitado à Fossa”, vencedor do Prémio Cidade de Almada 2018, que agora se publica, e que constituiu o segundo título de Carla Pais no catálogo da Porto Editora, depois de “Mea Culpa”.
Depois de, em 2020, ter publicado “Tropel”, Manuel Jorge Marmelo regressa com o romance “A Última Curva do Caminho”, um manifesto em defesa da lentidão e da liberdade individual, com um enredo marcado pelo processo de envelhecimento, pela doença, pela solidão e pela perplexidade diante da inevitabilidade da morte.
Outra novidade nesta editora é a novela gráfica “O Crespos”, de Adolfo Luxúria Canibal, uma metáfora sobre a invisibilidade e a solidão na sociedade contemporânea, com ilustrações de José Carlos Costa.
No ano e no mês em que faz 100 anos, “Ulisses”, a obra-prima de James Joyce e um dos mais importantes romances do século XX, conhece uma nova edição pela Livros do Brasil.
“Ulisses” é publicado no mês em que se assinalam também os 140 anos de nascimento de James Joyce (2 de fevereiro de 1882) e narra um só dia na vida de Leopold Bloom, inspirando-se na “Odisseia”, de Homero.
Entre as novidades da Quetzal inclui-se aquela que é a primeira coletânea de contos do escritor chileno Roberto Bolaño, “Chamadas Telefónicas”, e novos romances de Álvaro Laborinho Lúcio, “As Sombras de Uma Azinheira”, e de Patrícia Müller, “A Rainha e a Bastarda”.
A mesma editora vai publicar “Eles”, de Kay Dick (1915-2001), escritora e jornalista inglesa, nunca antes publicada em Portugal.
Com prefácio da escritora Carmen Maria Machado, este livro, publicado originalmente em 1977, consiste numa série de sequências de sonho, e ganhou o prémio de literatura do Sudeste das Artes, tendo sido descrito como “uma obra-prima distópica perdida”, pela revista The Paris Review, em 2020.
Quanto às apostas da D. Quixote, uma das novidades é “Doramar ou a Odisseia”, novo livro de contos de Itamar Vieira Junior, o escritor brasileiro que em 2018 venceu o Prémio Leya e, em 2020, o Jabuti e Oceanos, pelo romance “Torto arado”.
Trata-se de um conjunto de histórias herdeiras da tradição literária brasileira, mas simultaneamente contemporâneas no tratamento de questões como a destruição da floresta, a exploração dos mais fracos, a construção de muros entre países, as lutas pelos direitos humanos.
As heroínas destas histórias são maioritariamente mulheres obrigadas a lutar contra a adversidade, mas também estão presentes aqueles que regra geral não têm voz, como os escravos levados de África ou os índios empurrados para fora das suas terras.
Outro destaque da D. Quixote é o novo romance de “Isabel Rio Novo, “Madalena”, vencedor do prémio literário João Gaspar Simões, sobre uma mulher em tratamentos contra um tumor, que descobre e examina o espólio dos bisavós: um romance sobre a família e a construção do eu, muito mais do que uma narrativa sobre a doença.
Pela mão da D. Quixote, chega também “Canción”, novo livro do guatemalteco Eduardo Halfon, de quem a editora publicou no ano passado “Luto”, romance sobre uma história de familia de uma personagem chamada Eduardo Halfon — que pode ou não ser o autor —, e que arrebatou o Prémio do Melhor Livro Estrangeiro (França), o Prémio Edward Lewis Wallant (EUA), o Prémio Internacional do Livro Latino (EUA) e o Prémio das Livrarias de Navarra (Espanha).
Com “Canción” o autor regressa a esse universo literário que criou, para se embrenhar na brutal e complexa história recente do seu país, na qual se torna cada vez mais difícil distinguir vítimas de verdugos.
A Tinta-da-China vai publicar em fevereiro “A Liberdade dos Futuros”, de Jorge Pinto, um livro sobre democracia, liberdade e ecologia, “Mortal e Rosa”, “livro maior” de Francisco Umbral sobre a morte do próprio filho e a sacralidade da infância, bem como “José Saramago: A escrita infinita”, ensaios em diálogo com a obra de Saramago no ano do centenário, com organização de Carlos Nogueira, diretor científico da Cátedra José Saramago da Universidade de Vigo.
Pela editorial Presença chega “A Breve Vida das Flores”, de Valérie Perrin, um livro que venceu os Prémios Maison de la Presse e Prix des Lecteurs e foi o livro mais vendido do ano em Itália.
O clássico feminista “Malina”, da escritora austríaca Ingeborg Bachmann, chega pela Antígona, em nova edição, por altura do 51.º aniversário da sua publicação original, com tradução de Helena Topa e posfácio de Elfriede Jelinek, Nobel da Literatura.
Adaptado ao cinema por Werner Schroeter, em 1991, com guião de Elfriede Jelinek, e Isabelle Hupert como protagonista, “Malina” trata de um triângulo amoroso numa Viena decadente.
É uma viagem aos limites da linguagem e da loucura de uma mulher, mas, sobretudo, um retrato existencial lúcido e poderoso.
“Malina” é o único romance de Ingeborg Bachmann, pensado como primeiro volume de uma trilogia que ficou interrompida pela morte da autora.
Frederico Pedreira lança um novo livro pela Relógio d’Água, “Um Virar de Costas Sedutor”, dois anos depois de “A Lição do Sonâmbulo”, publicado pela Companhia das Ilhas, distinguido com os prémios literários da União Europeia e da Fundação Eça de Queirós em 2021.” Agência Lusa (É desta que leio isto), 29.01.2022

A Editora Relógio d’Água publica em Fevereiro:
1 — Jogos de Azar, de José Cardoso Pires (Prefácio de Afonso Reis Cabral)
2 — Um Virar de Costas Sedutor, de Frederico Pedreira
3 — Eles, de Kay Dick
4 — A Loja de Antiguidades, de Charles Dickens
5 — Herbarium, de Emily Dickinson
6 — O Novo Sábado Começa à Sexta-Feira, de Pedro Gomes
7 — Paralização, de Adam Tooze
8 — Diário do Escritor, de Fiódor Dostoievski
9 — O Spleen de Paris, de Charles Baudelaire


Revista Colóquio/Letras nº 208 – Fundação Calouste Gulbenkian
Set – Dez 2021
Mário Cláudio
"Mário Cláudio, o autor em destaque neste número, ganhou uma dimensão que o coloca, justamente, entre aqueles que, a partir das últimas décadas do século XX, mantêm uma temática em permanente renovação.
A relação estreita com o Norte interior que formou a sua sensibilidade — numa região onde nasceram outros grandes nomes como Teixeira de Pascoaes e Agustina Bessa-Luís — e o diálogo com figuras da cultura portuguesa e europeia, tanto erudita como popular, são constantes numa obra que questiona muitos aspetos da escrita e da própria subjetividade do ser literário.
Tais interrogações resultaram num notável livro supostamente autobiográfico e, a partir do problema da autenticidade ou não da personalidade autoral, levaram-no a encontrar em Tiago Veiga (que também colabora neste número) um alter ego cujo estatuto poderíamos associar ao que Bernardo Soares teve para Fernando Pessoa.
Questões suscitadas pela obra de Mário Cláudio encontram em Vítor Aguiar e Silva — o grande teórico da literatura e estudioso de Camões, cujo enigma biográfico é objeto de um dos romances do escritor — aproximações críticas que nos ajudam a entender o seu contexto criativo.
A leitura dos estudos aqui publicados poderá, sem dúvida, contribuir para compreender o papel de ambos na descoberta permanente daquilo que é o centro desta revista: a literatura e a cultura portuguesas no mundo de hoje."