sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Mar , ó Mar

Mar
Mar, circunferência sem par, 
Monumento da morte e da vida inextinguível , 
Macho e fêmea, sol e lua,
Templo do que é podre e infinitamente puro,
Êxtase horizontal!

Mar,
Nas manhãs muito calmas 
Passa por ti o fantasma
De todas as infâncias!
                    21.6.58
Alberto de Lacerda, in Oferenda, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Julho de 1984,  p 167

O MAR ENALTECEU O ROSA

Enalteceu--o na espuma. 
Na rebentação das ondas
a trupar na massa escura
dos rochedos , que dão conta 
do crepúsculo. Da funda 
consumação gloriosa
da tarde onde assenta a escuta.

Depois, o rosa da tarde 
foi decaindo, difuso. 
Começou a pratear-se
quando as luzes do crepúsculo
iam naufragando quase .
E sucumbiu ao surto 
de silêncio. Que nos abre
maior silêncio de estado.
Fernando Echevarría, in Lugar de Estudo, Edições Afrontamento, 2009, p 243

Aquário

Silente e impassível
o mar
navega sua beleza
em preguiçosas caudas
e barbatanas velozes,
ilumina-se em translúcidas medusas
e na cromática simetria das escamas.

Refrata a luz e a vida
no remanso submerso das águas,
em seus relicários de pérolas
e no balé itinerante dos cardumes.

Mar, ó mar...
escondeste teus íntimos mistérios
na pressão insuportável dos abismos
nessas paisagens indevassáveis da vida
onde transitam feições primordiais jamais iluminadas.

Abres, contudo, as pálpebras da aurora
e o sol emerge do teu ventre qual fornalha ardente
e na superfície das águas
ilumina tua face absoluta
nesta horizontal extensão do azul
nesta planície sulcada de quilhas e naufrágios
onde se agitam as caudas gigantescas das jubartes
e as asas serenas do albatroz.

Teus brancos litorais abraçam a Terra
desde sempre marejados pelo teu íntimo palpitar.
Tuas marés redesenham os cinturões de areia
e delimitam teu espaço inconquistável.
Os manguezais invadidos retratam teus domínios.
Contra teu furor levantam-se falésias
fiordes verticais e punhais de granito.
Edificas tua linha de recifes,
teus castelos de corais,
cultivas teus jardins de algas e sargaços
onde mandíbulas poderosas,
venenos e descargas fulminantes,
ditam teu código submerso.

Mar, ó mar
transparente beleza de flores e de frutos
território enigmático de vidas e silêncio
abismo onde flutuam os sobreviventes
sudário de todos os náufragos.

Mar azul
chamo-te água absoluta
porque absoluta é a tua sedução
a tua irresistível espuma
a mobilidade do teu ritmo
tua incessante sinfonia
teu eloqüente silêncio.

E contudo...
diante do etérico oceano...
diante dessas deslumbrantes ilhas estelares...
tu és apenas um úmido ponto no infinito
um aquoso respingo
minúsculo aquário
um minuto ondulante na eternidade
há bilhões de anos se espraiando
nessa gota salgada suspensa no universo.


Curitiba, março de 2004

Manoel de Andrade, in Cantares, Escrituras Editora , 2007, São Paulo, Brasil,  pp. 30-32

Sobre a palavra Mar


Qual a origem da palavra Mar
por Marco Neves
“Quem cresce à beira-mar nem sempre nota quão espantoso é o mar. Mas pensemos numa pessoa que cresce no interior sem nunca vir ao litoral. Está habituada a terra firme, a colinas ou montanhas, a rios serenos entre vales e florestas. Se, de repente, chegar à nossa terra, encontra uma paisagem inundada de água! Como se a torneira tivesse ficado aberta durante milhões de anos… Um dilúvio que nunca acabou. Vales, florestas, vulcões, animais — tudo debaixo de água.
Disse que o mar é espantoso. É espantoso à portuguesa — e à espanhola. À portuguesa, porque nos deixa de boca aberta. À espanhola, porque é terrível. Quem vive do mar sabe como se pode transformar numa horrorosa armadilha. Quem navegou ao longo dos séculos também sabia que podia morrer a qualquer momento. É assim o mar — mas, enfim, é assim a vida.
De vez em quando, tenho por hábito mergulhar na origem das palavras. Pois, esta semana, vou à procura da origem de «mar».
A nossa palavra vem, sem grandes surpresas, do latim «mare». A palavra latina deu vários frutos, mas com uma particularidade. «Mar» é palavra masculina em português, tem os dois géneros em castelhano e em catalão, é feminina em francês, é masculina em italiano e volta a ser feminina em romeno. Porquê esta oscilação? É simples: em latim, a palavra era do género neutro — com o desaparecimento deste, as várias línguas latinas tiveram de arrumar a palavra num dos géneros que restaram. Os espanhóis não chegaram a decidir-se…
A palavra latina tem primas! Em alemão, temos «Meer», uma das palavras para «mar», em paralelo a «See», que já tem uma origem diferente, paralela ao «sea» inglês. E, sim, o inglês tem «sea» para mar, mas também existe «mere», com a mesma origem que o «Meer» alemão e o «mar» português. «Mere», no entanto, significa ‘lago’ e é uma palavra bastante rara.
Há mais palavras irmãs — ou primas — do nosso mar. No irlandês, podemos chamar «muir» ao mar. No russo, temos «móre». No sânscrito, a palavra original deu origem a «maryādā», que significa ‘costa’ ou ‘limite’, num pequeno salto semântico.
Mas, afinal, de onde vieram as palavras «mar», «Meer», «móre»? Vieram todas da antiga palavra indo-europeia «*móri», que já significava ‘mar’. Quando olho para essa palavra — as coisas em que uma pessoa pensa… — só me lembro de «ó ‘môri, dá-me um beijinho!», dito à beira-mar.
Certamente que «*móri» terá vindo de palavras mais antigas, perdidas no tempo. Afinal — e agora deixo uma teoria que não é fácil de verificar, mas em que todos acreditaremos sem dificuldade — não haverá língua humana sem uma palavra para mar."
Marco Neves | Professor e tradutor. Escreve sobre línguas e outras viagens na página Certas Palavras. O seu livro mais recente é História do Português desde o Big Bang.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Ideias que nem sequer estão erradas


Ideias que nem sequer estão erradas
por Eugénio Lisboa

A principal qualidade do estilo é a clareza.
Aristóteles

A clareza é a boa fé dos filósofos.

Vauvenargues

Falar obscuramente, qualquer um 

consegue; com clareza, raríssimos.

Galileu Galilei 

 

"O grande físico Wolfgang Pauli (1900 – 1958), que ganhou o Prémio Nobel da Física, em 1945, apadrinhado nada menos que por Einstein, era conhecido pela sua destemida frontalidade e ferina ironia. Ficou também conhecido por ter cunhado uma expressão que se tornou célebre: quando aspirantes a cientistas lhe propunham, para avaliação, teses estapafúrdias, sem pés nem cabeça, Pauli despachava-as, furiosamente, classificando-as de “not even wrong” (nem sequer erradas). Isto é, não tinham sequer dignidade para poderem ser consideradas erradas: não estavam certas nem erradas, porque não eram coisa nenhuma. É, provavelmente, a pior classificação que se pode dar a um trabalho qualquer: not even wrong.
Confesso que, com uma frequência inquietante, leio textos de escritores muito festejados, premiados, traduzidos, apaparicados, aos quais me apetece pôr o carimbo com o diagnóstico mortífero de Pauli; not even wrong. São textos que fazem parte de uma cultura que venera o obscuro, o opaco impenetrável, como valores insignes a promover. Como se o opaco e o obscuro fossem garantias de maturidade e profundidade. Como se por detrás daquelas ejaculações nevoentas, se escondessem tesouros apetecidos. O culto do arrevesado, do complicado, do “profundote” é, muito pelo contrário, um sintoma de aflitiva insegurança e imaturidade. É querer esconder uma total ausência de pensamento por detrás de um arrazoado pretensioso. Os verdadeiros pensadores não temem, antes procuram, a formulação mais simples, que desvele, sem mais embaraços, aquilo que descobriram. É a “boa fé dos filósofos”, de que falava o amável Vauvenargues, que Voltaire tanto admirava e estimava. Quem se aninha confortavelmente no obscuro, encontra-se inesperadamente parceiro do arbitrário e do atrabiliário. Passa-se o mesmo com os que, em vez do belo, nos servem o “bonito”. Já tenho respondido a quem me propõe um pensamento arrebicado e cheio de nevoeiro: “O que disse deve estar certo.” E, perante a perplexidade do meu interlocutor, esclareço: “Não percebi nada do que o Sr. disse e, na dúvida, é-se a favor do réu.”
Tudo isto me leva a uma velha convicção, na qual estou longe de me encontrar desacompanhado, de que seria, mais do que aconselhável, fundamental, que todos os cursos de letras incorporassem uma disciplina obrigatória, particularmente bem pensada e estruturada, de história da ciência. Sublinho: obrigatória e urgente. Talvez isto acabasse por incutir a muitos homens de letras algum respeito pelo asseado das ideias e da formulação delas. E também de respeito pelas palavras.
Até para a elaboração de metáforas se exige algum asseio, para se não cair no arbitrário quimicamente puro. Com uma desejada e suave passagem pela ciência, talvez se evitassem pérolas como estas, que desoladamente colho, hoje mesmo, num periódico lisboeta: 1) “Pões um animal no meio de um nevoeiro – que metade tapa, metade mostra – e o animal fica metade anjo, na metade que não se vê”; 2) “uma máquina de fumos na imaginação, lá dentro da cabeça, e a metáfora e a invenção surgem”; 3) “A máquina de fumos e de nevoeiro, como máquina de inventar, máquina de produzir metáforas por minuto quadrado”. Fico-me por aqui: Esta das “metáforas por minuto quadrado” é suficientemente ilustrativa do meu ponto de vista: uma pequena passagem pelo mundo da ciência não faz mal a ninguém."
Eugénio Lisboa, 15.12.2021

Nos 700 anos da morte de Dante Alighieri

Poetas portugueses respondem em poesia ao "Inferno" de Dante Alighieri
“Trinta e quatro poetas portugueses responderam a Dante Alighieri, através de poemas que dialogam com os cantos do capítulo “Inferno” de “A Divina Comédia”, publicados num livro intitulado “Poetas de Dante”, que será lançado, em Lisboa.
A iniciativa partiu do escritor Alberto Manguel, no âmbito da celebração dos 700 anos da morte do poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321), autor do poema épico e teológico “A Divina Comédia”, que narra uma viagem pelo Inferno, Purgatório e Paraíso.
“A Divina Comédia” está, então, dividida em três partes, cada uma das quais contendo 33 cantos que, juntamente com mais um introdutório, perfazem um total de 100 cantos.
“Pedimos aos poetas que ecoassem ou respondessem aos versos de Dante na linguagem do nosso tempo, no seu estilo e com o seu entendimento da história de Dante”, revelou Alberto Manguel.
O resultado é um livro editado pela Tinta-da-China, que teve uma apresentação no sábado,  11 de Dezembro, na Casa Fernando Pessoa, com leituras ao vivo feitas por alguns dos poetas, e que chegará depois às livrarias no dia 13 de Janeiro de 2022.
“Como é óbvio, não podiam reproduzir-se as circunstâncias da criação da Divina Comédia: os primeiros anos de Dante, a sua educação poética, a experiência como soldado e diplomata, o infame exílio. Mas talvez um poeta, mesmo quando separado de Dante por um abismo de sete séculos, possa responder-lhe aos versos, a partir do seu lugar e do seu tempo”, acrescenta o promotor da iniciativa, citado pela editora.
Para o bibliófilo, esta é a “melhor maneira de prestar homenagem ao que é talvez o maior poema jamais escrito”.
Segundo Clara Riso, directora da Casa Fernando Pessoa, o convite seguiu para os poetas, explicando a proposta e a sua única condição: que o novo texto não fosse mais longo do que o canto a que responde.
O resultado é “Poetas de Dante”, um volume com 400 páginas que reúne novos poemas que, na maior parte dos casos, são “livres reações à leitura”, acrescenta.
No lançamento do livro,  houve leituras feitas por vários poetas do livro: Fernando Pinto do Amaral, Matilde Campilho, Miguel Cardoso, Rita Taborda Duarte, Vasco Gato, Nuno Júdice, Filipa Leal Elisabete Marques, Ricardo Marques, Miguel Martins, Luís Filipe Castro Mendes, Rosa Oliveira, Jaime Rocha, Cláudia R. Sampaio, João Paulo Esteves da Silva, Ana Paula Tavares e André Tecedeiro.
Os restantes poetas são Catarina Nunes de Almeida, Ana Luísa Amaral, José Carlos Barros, Pedro Eiras, Tatiana Faia, Andreia C. Faria, Margarida Vale de Gato, Raquel Nobre Guerra, Regina Guimarães, Daniel Jonas, Miguel Manso, Ana Martins Marques, Rosa Maria Martelo, José Viale Moutinho, Maria do Rosário Pedreira, Alberto Pimenta e Luís Quintais.
Esta edição, que resulta de uma parceria entre a Tinta-da-China, a Casa Fernando Pessoa e o Centro de Estudos de História da Leitura, inclui prefácio de Alberto Manguel, posfácio de António Mega Ferreira e a tradução dos cantos (Jorge Vaz de Carvalho, INCM) antes de cada poema original.
A Casa Fernando Pessoa tem também em curso uma exposição temporária, que ficará patente até Março de 2022, subordinada ao tema “Marionetas da Comédia de Dante. Folhas que o vento colhe”, que se integra igualmente na celebração do 700.º aniversário da morte do poeta.
As marionetas foram feitas por Alberto Manguel a partir de representações célebres das personagens de “A Divina Comédia”, e a exposição é organizada pelo Centro de Estudos de História da Leitura e a Casa Fernando Pessoa.
Estas são duas das primeiras iniciativas do novo Centro de Estudos da História da Leitura, do qual Alberto Manguel é director e que, futuramente, ficará instalado no Palacete dos Marqueses de Pombal, na Rua das Janelas Verdes, na proximidade do Museu Nacional de Arte Antiga, que reunirá toda a biblioteca do autor e bibliófilo argentino, composta por 40 mil volumes.
Este espólio, que inclui obras de literatura e não ficção nas áreas das artes e humanidades, foi doado à Câmara Municipal de Lisboa em 2020.”
Artigo da MadreMedia/Lusa de 10.12.2021

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

A História Imortal


A HISTÓRIA IMORTAL
por Karen Blixen
I -  MR. CLAY
"Na década de sessenta do século passado, vivia em Cantão um negociante de chá, imensamente rico, de nome Mr. Clay. Era um velho alto, seco e insociável. Tinha uma casa magnífica e uma esplêndida carruagem, e em ambas se sentava de costas direitas, silencioso e solitário. Entre os europeus de Cantão, Mr. Clay tinha fama de homem avaro e duro como ferro. As pessoas evitavam‑no. A sua reputação devia‑se mais ao seu aspecto, à sua voz e maneiras, do que a algo que ele tivesse feito. Em todo o caso, corriam sobre ele duas ou três histórias, muitas vezes repetidas, que pareciam confirmar a opinião geral. Uma dessas histórias era a seguinte: Quinze anos atrás, um comerciante francês, que em tempos fora sócio de Mr. Clay mas se estabelecera por conta própria depois duma desavença entre ambos, arruinara‑se com especulações mal‑asadas. Buscando uma última oportunidade, o francês tentou obter uma consignação de chá a bordo do veleiro Thermopylae, que se encontrava atracado no porto. Mas ele devia a Mr. Clay a soma de trezentos guinéus, e o seu credor apoderou‑se da mercadoria e expediu no navio o seu próprio carregamento de chá, com o que acabou de arruinar o seu rival. O francês perdeu tudo, a sua casa foi vendida e ele foi lançado na rua com a sua família. Quando percebeu que não havia remédio para os seus infortúnios, suicidou‑se O comerciante francês havia sido um homem talentoso e amável. Tinha uma mulher encantadora e uma família numerosa. Contrastado com o pétreo Mr. Clay, a sua figura começou então a brilhar numa aura de suaves e alegres raios aos olhos dos seus amigos, que fizeram uma coleta de dinheiro para entregar à viúva. Mas a rivalidade entre a comunidade francesa e inglesa de Cantão impediu que se tivesse juntado uma quantia significativa, e passado algum tempo a senhora francesa desapareceu, juntamente com os filhos, do horizonte dos seus antigos conhecidos. Mr. Clay ficou com a casa do morto, uma bela e ampla moradia com um grande jardim, em cujos relvados passeavam pavões. Era ele quem ali vivia agora. Com o tempo, esta história adquiriu um carácter mítico. Dizia‑se que Monsieur Dupont, no seu último dia de vida, chamara a sua bela e amável esposa e os seus jovens e brilhantes filhos. Como todas as suas desventuras, declarara, haviam começado no momento em que vira pela primeira vez Mr. Clay, ele fê‑los então jurar solenemente que nunca mais, fosse em que lugar ou circunstância fosse, voltariam a olhar para o rosto daquele homem. Dizia‑se também que antes de abandonar a sua casa, em que tinha tanto orgulho, o francês havia queimado ou partido todas as suas peças artísticas, afirmando que nenhum objecto criado para o embelezamento da vida admitiria viver com o novo senhor da casa. Mas deixara em todas as salas os altos espelhos de douradas molduras trazidos de França, que até então só haviam reflectido cenas alegres e afectuosas, declarando que o castigo do seu assassino seria deparar, para onde quer que se voltasse, com o retrato de um carrasco. Mr. Clay instalou‑se na casa e comia sozinho, de frente para o seu retrato. É duvidoso que alguma vez ele tenha tido consciência da ausência de amigos à sua volta, já que a ideia de amizade nunca entrara nos seus planos de vida. Se a ordem do mundo tivesse sido deixada inteiramente ao seu critério, Mr. Clay não a alteraria em nada; e era natural que acreditasse que as coisas eram como eram porque ele assim as desejara. Aos poucos, na sua carreira de nababo Mr. Clay acabara por se julgar omnipotente. Outros mercadores de Cantão tinham idêntica fé em si próprios e, tal como Mr. Clay, conservavam‑na desviando os olhos de tudo o que no mundo extravasasse a esfera do seu poder. Aos setenta anos, Mr. Clay caiu doente com um ataque de gota, e durante muito tempo ficou praticamente paralisado. As dores eram tão fortes que não conseguia dormir, e as noites pareciam‑lhe então infinitamente longas. Uma noite, já tarde, um dos jovens escrivães de Mr. Clay veio vê‑lo com uma pilha de livros de contabilidade que estivera a rever. Ouvindo‑o a falar com os criados, o velho, deitado na cama, fê‑lo entrar no quarto e rever com ele os ditos livros. Chegada a manhã, Mr. Clay concluiu que essa noite passara menos devagar do que as outras. Assim, na noite seguinte tornou a chamar o escrivão e de novo lhe ordenou que lesse em voz alta os registos. A partir de então, ficou acordado que o jovem apareceria no vasto e luxuoso quarto de dormir às nove horas, a fim de ler para o patrão, à luz duma vela, as contas, contratos e estimativas dos negócios de Mr. Clay. O jovem tinha uma voz sonora, mas ao fim da noite já começava a falhar. Isto irritava Mr. Clay, cujo ouvido já não era tão bom como nos seus tempos de juventude. Disse ao escrivão que lhe estava a pagar para fazer o seu trabalho, e que se ele não conseguia cumpri‑lo satisfatoriamente, despedi‑lo‑ia e contrataria outro para o seu lugar. Quando chegaram ao fim dos livros que estavam em uso no escritório, o velho suspirou e rodou a cabeça na almofada. Depois de reflectir sobre o assunto, o escrivão foi aos armários buscar livros de há cinco, dez e quinze anos, e leu‑ os igualmente em voz alta, palavra por palavra, durante as horas da noite. Mr. Clay ouvia‑o atentamente; a leitura trazia‑lhe à mente os esquemas e triunfos do passado. Mas as noites eram longas; com o tempo, até os livros mais antigos chegaram ao fim e ele teve de ler as mesmas coisas novamente. Uma manhã, depois de o jovem ter lido pela terceira vez os documentos relativos a um negócio de vinte anos antes, e quando se preparava para ir também dormir, Mr. Clay reteve‑o, parecendo ter algo em mente. As elucubrações do seu amo eram sempre da mais alta importância para o escrivão, e por isso esperou que ele encontrasse palavras para exprimir o que pretendia. Passado um instante, Mr. Clay perguntou‑lhe, relutantemente e com um ar embaraçado e dubitativo, se não tinha conhecimento de outro tipo de livros. O empregado respondeu que não, que nunca ouvira falar de outro tipo de livros, mas que trataria de os encontrar se Mr. Clay lhe explicasse o que pretendia. No mesmo jeito hesitante, Mr. Clay disse‑ lhe que tinha em mente livros e relatos, não de contas e de negócios, mas de outras coisas que as pessoas concebiam às vezes e punham por escrito, para que outras as lessem. O escrivão reflectiu por momentos e disse que não, que nunca tinha ouvido falar de tais livros. Aqui terminou a conversa, e o empregado pediu licença para sair. A caminho de casa, o jovem ia revolvendo mentalmente a pergunta de Mr. Clay. Concluiu que a pergunta emanara de uma necessidade profunda, meio contra a própria vontade do velho, que a fizera com uma espécie de timidez e mesmo vergonha. Se o empregado tivesse na sua natureza algum sentido do decoro, teria varrido da memória aquela momentânea falha de dignidade do seu patrão. Mas não tendo em si tal qualidade, ele começou a reflectir sobre o assunto. A pergunta constituía, sem dúvida, um sintoma de fraqueza por parte do velho; podia ser até um prenúncio de morte. Que consequências teria para si próprio, pensou ele, um tal desenlace?”
Karen Blixen,
in A História Imortal , Relógio D’Água Editores, pp.7-10

domingo, 12 de dezembro de 2021

Ao Domingo Há Música

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
Eu não existo sem você
Vinícius de Moraes
Não há recordação que não tenha origem num momento distinto dos outros. Acumula uma parte que  deu e dará  forma à história de cada um nós. Assim como a vida  não corre de um jeito só , assim  se fazem experiências diversas que resultam num património específico. Assim, (dizem  os poetas ), será o amor a salvar o mundo, assim  as canções o teimam em cantar. E porque não há vozes sem canção, rebuscámos algumas que ficaram na memória de um tempo que sobrevive até hoje. 
I'll Stand by You , pela magnífica voz de Chrissie Hynde dos Pretenders, um registo extraído de The  Best of Proms.
  
"Here Comes The Rain Again, pela carismática  Annie Lennox, com os Eurythmics . Espectáculo realizado na Cidade do Cabo, África do Sul,  a 29 de Novembro de 2003.
.  
One , dos U2 ,  uma icónica canção na linda voz de  McKenna Breinholt , acompanhada pela Cinematic Pop Orchestra and choir , sob a direcção  do Maestro Rob Gardner, que também fez os arranjos. 

sábado, 11 de dezembro de 2021

Pensamento do dia

Pensamento do dia
por Eugénio Lisboa

Há triunfos que só se conseguem pelo preço da alma, mas a alma é mais preciosa que todos os triunfos.
Rabindranath Tagore

“Todos nós os conhecemos, os que vendem diariamente a alma ao diabo, para receberem mais uma honra, um prémio, um título, um penduricalho, uma homenagem. A caça ao triunfo é um desporto que abunda por aí. Discípulos do Rastignac, de Balzac, atropelam tudo e todos, denigrem aqui, autopromovem-se além, lisonjeiam acolá, prometem, ameaçam, namoram, prostituem-se, porque sabem que, não havendo verdadeiro mérito ou havendo-o diminuto, os caminhos para a glória são outros: duros, trabalhosos, obstinados, enviesados, torpes, se necessário, gastando nisso uma energia nervosa que teria podido ser melhor empregue, trabalhando mais e intrigando menos.
Na classe dos escritores, este tipo de esforçado puxador de cordelinhos, que alterna entre a manipulação subtil e o esticão grosseiro, que usa as graças sociais mas não desdenha, ocasionalmente, o pontapé boçal, encontra-se por todo o lado, mas alguns atingem, nisso, um apuramento genial, que de todo lhes falta na obra que assim promovem.
Somerset Maugham, homem amargo e cínico, mas exímio observador das bizarrias humanas, escreveu, sobre estes manipuladores incansáveis da própria glória, um romance admirável: CAKES AND ALE, que recomendo calorosamente aos nossos aspirantes à glo-glória, como exaustivo manual de operações que lhes afine a técnica de que precisa a sua desmedida ambição. Nada se ensina melhor, nesse romance perfidamente analítico, do que a arte de esconder uma ambição devoradora por detrás de uma falsa humildade. Tartufos consumados, vestem os vícios com os trajos das virtudes e, depois de se servirem dos outros como seus servidores e promotores, dão-se ares de nada daquilo lhes dizer respeito, fazendo-se muito surpreendidos por uma honra afinal buscada e arrancada sem elegância. No mundo da escrita, como no mundo da religião, como no mundo das universidades, raramente sopra o vento do sagrado. São mundos darwinianos, em que triunfam, frequentemente, não os mais fortes, mas os mais desmunidos de escrúpulos. Conheci e conheço alguns destes exemplares, que habitam o meu zoo privativo. Tenho a certeza de que povoam também o jardim zoológico de La Bruyère. Mas não estou agora com pachorra para o ir confirmar. Molière também os não deixou escapar, marcando-os, para a eternidade, com o ferrete mordente do seu génio.”
Eugénio Lisboa, 11.12.2021

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Eventos e novidades literárias para este tempo


Livros para  Novembro e Dezembro de  2021


Mundo Belo, onde Estás,  de Sally Rooney
Preço :19.00  ,€ 17.10 € ( promoção)
Tradução: Marta Mendonça
EAN: 9789897831805
Data de Publicação: 11/2021
Nº de Páginas: 312
Formato: 15,3 x 23,3 x 2,1 cms
Acabamento: Capa Mole
Peso: 472 grs.

NOVEMBRO
• Segunda Casa, de Rachel Cusk (nomeado para o Booker Prize 2021)
• Jóia de Família, de Agustina Bessa-Luís
• Fédon, de Platão
• Ararate, de Louise Glück (Prémio Nobel da Literatura 2020)
• Mundo Belo, onde Estás, de Sally Rooney
• Os Gestos, de Djaimilia Pereira de Almeida
• Três Histórias de Esquecimento, de Djaimilia Pereira de Almeida
• Diários (1950-1962), de Sylvia Plath
• Strindberg — Neste Mundo Fui apenas Um Convidado, de Cristina Carvalho
• Per, o Afortunado, de Henrik Pontoppidan
• Inventor de Vendavais, de Hélia Correia
• Dicionário de Artistas, de Gonçalo M. Tavares
• Quarenta e Três, de José Gardeazabal

DEZEMBRO
• A Promessa, de Damon Galgut (venceder Booker Prize 2021)
• Rua de Sentido Único; Crónica Berlinense; Infância Berlinense por volta de 1900,
de Walter Benjamin
• Condition Report, de Madalena de Castro Campos
• Jogos de Azar, de José Cardoso Pires
• Dizer o Mundo: Conversas com Rui Nunes e Paulo Nozolino, de Alexandra Carita
• Depois de Deus, de Peter Sloterdijk

Casa da América Latina




12ª Mostra de Cinema da América Latina em Lisboa
A Mostra de Cinema da América Latina está de volta a Lisboa!
De 9 a 12 de dezembro, no Cinema São Jorge, venha assistir ao melhor do cinema 
latino-americano.
A sessão de abertura será no dia 9 de Dezembro, às 21h00, com o filme "El Olvido
Que Seremos", e contará com a presença do escritor Héctor Abad Faciolince 
e o realizador Fernando Trueba.

« Consulte o programa »

Entrega do Prémio Científico Mário Quartin Graça

 
No próximo dia 9 de dezembro, às 17h30, a Casa da América Latina recebe a cerimónia da atribuição do Prémio Científico Mário Quartin Graça 2021, que este ano assinala a sua 12ª edição, e que resulta de uma parceria entre a CAL e o Banco Santander.

IV FIP Santiago - Festival Internacional de Poesia

 
A IV edição do Festival Internacional de Poesia - FIP Santiago terá lugar entre os dias 9 e 12 de Dezembro, que fará uma homenagem ao poeta Raúl Zurita, a caminho do Prémio Nobel.

 

Pedro Serra: "Este prémio tem um efeito catalisador no interesse não só de leitores, mas também de muitas editoras"

 
No âmbito do lançamento em Portugal da antologia de poesia "El Exceso Más Perfecto", de Ana Luísa Amaral, publicada por ocasião da atribuição do Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana, a Casa da América Latina conversou com Pedro Serra, professor catedrático da Universidade de Salamanca e antologiador desta antologia.

"Antologia Inventada" de Rafael Courtoisie

 
Acaba de ser publicado o livro “Antologia Inventada” de Rafael Courtoisie, poeta, narrador e ensaísta, membro da Academia Nacional de Letras e membro correspondente da Real Academia Espanhola.

LIRE MAGAZINE LITTÉRAIRE

FIL Guadalajara: "Salón de la Poesía" com Ana Luísa Amaral

 
A Feira Internacional do Livro de Guadalajara decorre até ao próximo 
dia 5 de dezembro. Nesse dia, acompanhe a sessão online "Salón de  la Poesía" com a poeta portuguesa 
Ana Luísa Amaral como convidada.
 

Nina Rizzi: "Acho que a minha escrita, a minha poesia, como 

a de qualquer outra pessoa, é política"

 
A Casa da América Latina entrevistou 
a historiadora, tradutora e poeta brasileira Nina Rizzi, no âmbito da 
sua visita a Portugal para participar 
na Bienal Internacional de Poesia 
de Oeiras. 

Jacobo Sanz Hermida: "O testemunho que fica para a eternidade é a antologia"

 
No âmbito do lançamento em Portugal da antologia de poesia "El Exceso
 Más Perfecto",de Ana Luísa Amaral, publicada por ocasião da atribuição do Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana, a Casa da América Latina conversou com Jacobo Sanz Hermida, diretor de edições da Universidade de Salamanca.
 

Revista Electra 14: “Sobre 

Arte Contemporânea”

 
A Electra é uma revista trimestral internacional, editada pela Fundação EDP, que privilegia a crítica e a
 reflexão cultural, social e política da atualidade. Esta edição tem como
 tema "Sobre Arte Contemporânea.
Les collections de Lire Magazine Littéraire
Des dossiers richement illustrés consacrés aux grands écrivains et aux 
questions philosophiques qui passionnent.
Dans chaque numéro, des portraits, des reportages, des entretiens et des
points de vue éclairés !

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