terça-feira, 5 de maio de 2020

Cantigas de Maio

Eu fui ver a minha amada
Lá p'rós baixos dum jardim
Dei-lhe uma rosa encarnada
Para se lembrar de mim

Eu fui ver o meu benzinho
Lá p'rós lados dum passal
Dei-lhe o meu lenço de linho
Que é do mais fino bragal

Eu fui ver uma donzela
Numa barquinha a dormir
Dei-lhe uma colcha de seda
Para nela se cobrir

Eu fui ver uma solteira
Numa salinha a fiar
Dei-lhe uma rosa vermelha
Para de mim se encantar

Eu fui ver a minha amada
Lá nos campos eu fui ver
Dei-lhe uma rosa encarnada
Para de mim se prender

Verdes prados, verdes campos
Onde está minha paixão
As andorinhas não param
Umas voltam outras não

Refrão:
Minha mãe quando eu morrer
Ai chore por quem muito amargou
Para então dizer ao mundo
Ai Deus mo deu Ai Deus mo levou
José Afonso

José Afonso, em "Cantigas de Maio", Álbum de 1971.

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o sol já no sul
José Afonso  , em  "Maio maduro Maio" do Álbum "Cantigas de Maio".
Venham lavradeiras
Mondadeiras
Deste campo em flor
Venham enlaçadas
De mãos dadas
Semear o amor
Ergue-te ó Sol de Verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores
Ouvem-se já os tambores
Venha a maré cheia
Duma ideia…
José Afonso

José Afonso , em "Coro da Primavera" do Álbum "Cantigas do Maio".

Dia Mundial da Língua Portuguesa

               Nunca admiro uma catedral sem me lembrar de que são feitos da mesma pedra os degraus mais humildes do burgo. As palavras são como as pedras; o espírito é que as lavra.
                                               Afonso Lopes Vieira

Celebra-se , hoje, 5 de Maio de 2020,  o primeiro Dia Mundial Da Língua Portuguesa , proclamado a 25 de  Novembro de 2019 , na Conferência Geral da Unesco, devido ao esforço e proposta do embaixador de Portugal na Unesco, António Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa. 
Em declarações ao JL , o embaixador afirma " que mais do que as comemorações oficiais,  importa a criação  de um movimento  que vá muito além  do dia 5 de Maio, que simbolicamente  é apenas a data , o lugar onde inscrevemos  a nossa vontade de uma promoção  internacional  da Língua Portuguesa. E tem uma fórmula para a estratégia a seguir: EC ao cubo. Que é como quem diz : Ensino, Cultura, Conhecimento e Comunicação. "
O evento comemorativo do Dia Mundial da Língua Portuguesa, organizado pelo Camões, I.P., em parceria com CPLP, UNESCO e  ONU News será  disponibilizado a partir das 12h00 de dia 5 de Maio no canalCamões, I.P. do YouTube.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

E em cada tempo houve outro dia

Em 1969,  Manoel de Andrade viveu intensamente um outro dia, quando   foi obrigado a fugir do Brasil, época  violenta da Ditadura. Um  tempo que levou o poeta  a  escrever este poema, na alucinante véspera da sua fuga aos tentáculos da violenta polícia política. Um emocionante poema que permanece como um  emblemático testemunho literário dessa vivência. 
A Liberdade  foi  para muitos a utopia de uma vida. Nunca é um bem que permanece. Exige atenção e memória. O áspero e íngreme caminho que tantos calcorrearam não pode permitir retrocessos. E o mundo  está sempre em constante mudança. Os arautos de hoje podem ser os algozes de amanhã. 
Manoel de Andrade  percorreu uma América Latina , numa diáspora forçada pelos algozes do seu país. As veias dessa América estavam abertas e delas jorravam  a dor e a miséria dos oprimidos.
Ao Brasil e ao poeta Manoel de Andrade , de aqui os saudamos , tecendo um profundo voto de solidariedade nestes novos  tempos  de mais acentuada turbulência.
Do poeta,  as palavras que tão bem desenhou e que sempre nos emocionam:
VÉSPERA
Quatorze de março
mil novecentos e sessenta e nove.
É preciso…
é imprescindível denunciar o compasso ameaçador destas horas,
descrever esta porta estreita que atravesso,
esta noite que me escorre numa ampulheta de pressentimentos.

Um desespero impessoal e sinistro paira sobre as horas…
O ano se curva sob um tempo que me esmaga
porque esmaga a pátria inteira…

Nossas canções silenciadas
nossos sonhos escondidos
nossas vidas patrulhadas
nossos punhos algemados
nossas almas devassadas.

Pelos ecos rastreados dos meus versos
chegam os  pretorianos  do regime.
Alguém já foi detido, interrogado,  ameaçado
e por isso é necessário antecipar a madrugada.

E eis porque esse canto já nasce amordaçado
porque surge no limiar do pânico.
Meu testemunho é hoje  um grito clandestino
meus versos não conhecem a luz da liberdade
nascem  iluminados pelo archote da esperança
para se esconderem na silenciosa penumbra das gavetas.

Escrevo numa página velada pelo tempo
e num distante amanhecer
é que o meu canto irá florescer.
                                                              
Escrevo num horizonte longínquo e libertário
e num tempo a ser anunciado pelo hino dos sobreviventes.
Escrevo para um dia em que os crimes destes anos puderem ser                                                                                                      [contados
para o dia em que o banco dos réus estiver ocupado pelos torturadores

Contudo, nesta hora, neste agora
o tempo se reparte pra quem parte
e um coração se parte nos corações que ficam.

O amanhecer caminha para desterrar os nossos gestos 
para separar  nossas  mãos  e  nossos olhos
e nesta eternidade para pressentir o que me espera
já não há mais tempo para dizer quanto quisera.

Tudo é uma amarga despedida nesta longa madrugada
e neste descompassado palpitar,
contemplo meus livros perfilados de tristeza
retratos silenciosos de tantas utopias,
bússolas, faróis, retalhos da beleza.

Aceno a Cervantes, a Lorca, a Maiakovski
mas só Whitman seguirá comigo
nas suas páginas de relva
e no seu canto democrático.

Contemplo ainda os pedaços do meu mundo
nos amigos do penúltimo momento
nas lágrimas de um benquerer
na infância de minha filha
e nesse beijo de adeus em sua inocência adormecida.

Nesta agonia…
neste abismo de incertezas…
abre-se o itinerário clandestino dos meus passos.
De todos os caminhos
resta-me uma rota de fuga, outras fronteiras e um destino.
Das trincheiras escavadas e dos meus sonhos,
restou uma bandeira escondida no sacrário da alma
e no coração…
um passaporte  chamado…  liberdade.

                                Curitiba, 14 de Março de 1969
Manoel de Andrade, in POEMAS PARA A LIBERDADE , Edição bilíngue, Escrituras Editora, São Paulo, Brasil, 2009, pp.65-69

domingo, 3 de maio de 2020

Casa vazia

Maria Antonieta
CASA VAZIA

           À memória da Maria Antonieta

                                                       Esta saudosa casa onde brilhou
                                                     Tua voz num instante sempiterno,
                                                     Em negra, íntima noite se ocultou
                                                                    Teixeira de Pascoaes

Esta saudosa casa em que brilhou
Tua voz num instante sempiterno,
Esta casa que teu ser habitou
Tornou-se hoje, p’ra mim, um escuro inverno.

Em negra, íntima noite se ocultou
Tua presença doce e gentil.
De tudo quanto fomos só ficou
Memória do que foi, saudades mil.

Quem dera que esta noite que assaltou
Com agreste vigor e crueldade
Esta casa que outrora o sol dourou

Deixasse que esta casa se tornasse
De novo esta grande raridade:
Um ninho onde o amor se eternizasse!
                                                 3.05.2020
Eugénio Lisboa,
Embora a melhor terapêutica para a peste seja o bom humor e a Ladinice, nem sempre é possível fugir a um tom mais melancólico. A musa impõe as suas razões às razões do poeta.

Ao Domingo Há Música

" O menino dizia: « quando eu for grande...»
Cresceu  e dizia : «  quando eu era pequeno...» 
O menino sonhava com o futuro, porque ainda não podia; o velho , com o passado, porque  já não.
« Quando eu for, farei...» 
« Quando eu era, fazia...»
E no intervalo, - fazes?!"
José Régio, Poemetos em Prosa para um Ano Novo- Colheita da Tarde

A nossa capacidade de resiliência  foi talvez a maior descoberta deste tempo  de peste. Dias enormes,  em que minutos  se insinuavam maiores do que  horas, puseram-nos em estado de alerta perante uma ameaça que poderia ceifar qualquer um, sem olhar ao rosto de quem. Isolados entre muros, vimos o mundo deixar de ser aquele que sempre conhecêramos. E que mudança. O vazio substituía-nos na estranheza da nossa ausência. No deserto das  ruas,    as vozes de todos nós não se ouviam.  O silêncio imperava .  O tempo era  marcado por um ritmo diferente. O mundo  que tivéramos  não era mais o mesmo.  Fora apanhado por um invasor  desconhecido que cerceava qualquer tentativa de evasão. Ficámos criando rotinas de espera  para um  advento  que tardava.   E, de repente, descobrimos que se  encerrara um  tempo em que fôramos felizes sem o saber. Um passado que vivêramos e que não mais seria futuro. 
Mas o tempo não cessa . Implacável , imprevisto , promissor ou não , ele flui. E entre o ontem e o amanhã  está um hoje que  exige presença ao menino, ao velho, ao jovem , ao homem,  a todos nós. 

A música chega hoje , na voz inconfundível de John Mayall & The Bluesbreakers, em The Mists Of Time ·
E  na  bela voz  de McKenna Breinhol , em Like Memories. Uma canção produzida pelo Cinematic Pop, com Música de Rob Gardner e  McKane Davis e Letra de McKane Davis.

sábado, 2 de maio de 2020

Variações sobre uma cantiga de amigo


VARIAÇÕES SOBRE UMA
CANTIGA DE AMIGO

 Sabedes que sen amigo
  nunca foi mulher viçosa
                   Cantiga de amigo

Quando a peste nos assola
vingativa e perigosa,
e a amiga se isola,
vai-se o viço e a cor de rosa:
porque, ausente o seu amigo,
a bela mulher viçosa,
sozinha no seu abrigo,
sente a alma vagarosa!
Sabei pois que sem amigo
nunca foi mulher viçosa
e que sem um beijo amigo,
todo o verso se faz prosa!
Se é verdade rigorosa
que o viço requer calor,
dai pois à mulher viçosa
um amigo, por favor!
                               1.05.2020
Eugénio Lisboa,
que vai aproveitando a peste para ir remergulhando nos clássicos, os quais sempre nos deram boas dicas, nos dias de grande aflição.

Frémito

Frémito do meu corpo a procurar-te

Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...
Florbela Espanca,in "A Mensageira das Violetas , antologia". Selecção e edição de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 1999. 

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Viva o 1º de Maio!

Recordamos, através de dois textos diferentes, o primeiro 1º de Maio de 1974,  celebrado euforicamente em liberdade.
Hoje, neste Maio de 2020, confinados por  um vírus opressor e mortífero, o desejo de sair à rua carrega nova esperança libertária. 
O povo unido jamais será vencido
"1 de Maio de 1974 - Dia memorável para todos que o viveram, o sentiram , o gritaram com viva alegria, jornada triunfante de confraternização, festa colectiva que apaixonou e arrebatou toda a gente, velhos e novos, soldados e operários, camponeses e trabalhadores do mar, todos de mãos calejadas, arrastando consigo o suor da alegria. Foi a ratificação popular da vitória alcançada na rua, com os blindados apontados  e  sem disparar, com as G-3 enfeitadas com cravos e rosas vermelhas.  E o eco do "saludo" chileno a ser ouvido pelas ruas, vilas e aldeias deste País que, quase à beira do abismo, ganhou forças e coragem para transformar em revolução  o que não passava de obscurantismo político: «« O povo unido jamais será vencido!» E o slogan chileno adaptou-se bem à realidade portuguesa desde a primeira hora vivida plenamente em liberdade. Ganhava forma e força a unidade entre o povo e as forças armadas, ganhavam forma e força  as lutas reivindicativas  das classes de trabalhadores que, sempre conscientes  do seu papel histórico, depressa se empenharam em apoiar  e consolidar as fracas estruturas sindicais  então existentes. Mas todos queríamos embarcar no comboio da nossa liberdade, debruçarmo-nos às janelas das carruagens engalanadas de cravos e de uma esfuziante alegria de viver ou de ainda ser possível viver em Portugal em 1974." 
Serafim Ferreira, in « Fragmentos de um "Diário da Revolução" - Abril Abril », Edições Avante, Lisboa, 1975, pp. 180,181

O Estado era uma sombra , o governo uma ilusão
" O Estado era uma sombra, o governo uma ilusão. real só a polícia política, a prisão, a tortura, os julgamentos arbitrários; único sustentáculo de um poder apodrecido.
Quando sete dias  após a queda de um regime , centenas de milhares de pessoas vão para a rua festejar a sua morte, pode concluir-se que esse regime já há muito não existia de facto, apesar do seu peso opressivo.
A manifestação de Lisboa convocada pelos sindicatos ultrapassou  todas as previsões, exactamente porque as mulheres e homens que a fizeram ou a ela assistiram não podiam conceber que tudo fosse tão evidente para tanta gente, ao mesmo tempo. E muitos poucos tinham mais de cinquenta anos para se lembrarem de algo semelhante.
Era o mundo todo junto. A festa. Todos podiam tocar a liberdade para terem a certeza  que viviam. 
Um mar de gente esteva na tarde de 1 de Maio de 1974, na Alameda D. Afonso Henriques. Para eles, 800 anos depois da fundação da nacionalidade, Portugal começava ali a dar as grandes passadas a um futuro promissor."
"25 de Abril - Documento", Coordenação dos jornalistas Afonso Praça, Albertino Antunes, António  Amorim, Cesário Borga e Fernando Cascais , Casaviva Editora Limitada, Lisboa,  5 de Maio de 1974, p 99