De Gustav Mahler, a Symphonie 4 : Poco Adagio pela Berliner Philharmoniker, sob a direcção do Maestro Herbert von Karajan.
"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento" Platão
quarta-feira, 24 de outubro de 2018
terça-feira, 23 de outubro de 2018
Dona Fernanda
Por António Lobo Antunes
"Pode crer, ficaria bem, talvez, por exemplo, o médico gostasse, talvez a senhora, dona Fernanda, se sentisse menos só em casa, iluminada pelas pétalas fosforescentes, se sentisse mais nova, se sentisse mais bonita, talvez que na pastelaria do quarteirão a seguir, onde bebe o seu chazinho à tarde no meio de solitários macambúzios, um sujeito bem apessoado, ou pelo menos razoavelmente apessoado, a mirasse rente ao cálice com um líquido branco num interesse discreto
E agora, dona Fernanda? O seu marido morreu, o seu cão morreu, o seu filho vive na Suíça e não atende o telefone, a sua amiga Prazeres cortou relações consigo, convencida que a senhora andava a catrapiscar-lhe o marido, o médico não pára de avisá-la
- Atenção às gorduras
a desenhar círculos à volta dos resultados das análises, tirando os óculos no fim para suspirar melhor, a bater com a ponta da esferográfica num dos números
- Ai dona Fernanda, dona Fernanda
competente, amável, preocupado, por acaso viúvo também visto que duas alianças juntinhas num dedo e a roupa descuidada, às vezes com nódoas que nenhuma esposa consentiria, sem mencionar a falta de graxa nos sapatos, a senhora com vontade de responder-lhe
- Ai senhor doutor, senhor doutor
ao olhar-lhe as biqueiras, um homem não muito velho, nem sequer feio por acaso, que, a avaliar pelas pestanas, deve ter sido um bebé lindo antes de se transformar num adulto assim assim, um aperto de mão à entrada, um aperto de mão à saída acompanhado pelas palavras
- Ali ao balcão marque para outubro
já quando a senhora, dona Fernanda, a agarrar no puxador lembra-lhe as gorduras
- Cuidado com isso
a senhora a pensar que se fosse a médica e ele o doente lhe receitava uma bisnaga de graxa e um pano para avivar o brilho ao cabedal, uma das empregadas do balcão, a folhear outubro na agenda
-Tenho dia onze e dia vinte e sete, dona Fernanda
com anéis exuberantes, desses que se compram no metro a sujeitos acocorados num banquinho diante de um pano sujo, cheio de preciosidades de pataco, a senhora, dona Fernanda, a contemplar o que ela usava no indicador direito, um girassol de plástico enorme tapando-lhe o dedo todo
- Dia onze está certo
enquanto se imaginava com um anel idêntico
- Como é que me ficaria?
e ficaria bem, pode crer, ficaria bem, talvez, por exemplo, o médico gostasse, talvez a senhora, dona Fernanda, se sentisse menos só em casa, iluminada pelas pétalas fosforescentes, se sentisse mais nova, se sentisse mais bonita, talvez que na pastelaria do quarteirão a seguir, onde bebe o seu chazinho à tarde no meio de solitários macambúzios, um sujeito bem apessoado, ou pelo menos razoavelmente apessoado, a mirasse rente ao cálice com um líquido branco num interesse discreto, a perguntar ao empregado o seu nome, talvez que o sujeito a ganhar coragem para vir ter consigo
- Dá-me licença?
e a senhora lhe aceitasse a companhia recuando uma das três cadeiras que sobravam na sua mesa, dona Fernanda, talvez aceitasse também um novo encontro para o dia seguinte, talvez, mesmo, o deixasse pagar-lhe o chá dado que apesar de barato todos os cêntimos contam e a pensão do seu marido acanhada, uma sopinha e uma maçã ao jantar e pronto, um arrozito com um terço de uma lata de atum ao almoço e entre o almoço e o jantar o luxo do chazinho, a senhora para a empregada das consultas, depois dela lhe entregar o cartão de utente com o dia onze de outubro escrito debaixo do dia vinte e seis de março de hoje
- Desculpe o atrevimento mas importa-se de me dizer onde comprou o anel do girassol?
confirmando que a um marroquino do metro a quem tinham acabado os girassóis mas não os alfinetes doirados com uma pantera pronta a saltar, ideal para a gola do casaco na qual se espetava com um alfinete, experimentou ao espelho e sentiu-se melhor com aquilo, alegrava-lhe a roupa, alegrava-lhe as feições, o sujeito do cálice, respeitoso
- Não me leve a mal dizer isto mas de pantera parece uma actriz
e a senhora, dona Fernanda, não lhe levou a mal, a senhora, dona Fernanda, contente, a senhora, dona Fernanda, quase a sorrir, a senhora, dona Fernanda, a sorrir, a senhora, dona Fernanda
- Muito obrigada
a inchar na blusa, o sujeito, lisonjeiro
- Olhe que estou a ser completamente sincero
passando o indicador, ao de leve, no bicho, por si, dona Fernanda, até podia ter carregado um bocadinho, o sujeito funcionário público
- Sou funcionário público
num ministério ou assim, pareceu-lhe que um ministério, o sujeito contínuo num ministério, tão educado
- Vemo-nos amanhã?
a pagar-lhe de novo o chá, a senhora, dona Fernanda, coquete
- Quem sabe?
mas a dizer que sim com a cabeça, isto é a cabeça, independente de si, autónoma
- Sim
a sua boca, independente de si, autónoma
- Claro que sim
e a senhora, dona Fernanda, feliz que tudo nela lhe escapasse, a aquecer a sopinha no fogão apercebendo-se que cantarolava, apercebendo-se que as duas assoalhadas mais bonitas, apercebendo-se que o sofá aguentava apesar do marido da dona Prazeres, que cortou relações consigo por supor, injustamente, que a senhora, dona Fernanda, o catrapiscava, a garantir que era difícil abraçá-la numa coisa com uma das pernas meio solta, não cessando de avisar
- Vou cair."
António Lobo Antunes, em Crónica publicada na revista Visão, em 21.01.2016
segunda-feira, 22 de outubro de 2018
Biblioteca Pessoal
" Desejo que esta biblioteca seja tão variada quanto a curiosidade que a mesma induziu em mim."
É essa escolha pessoalíssima de Borges que compõe este livro, Biblioteca Pessoal, editado pela Quetzal Editores, em 2014.
Jorge Luís Borges incluiu nessa selecção uma obra portuguesa.Segue-se o respectivo prólogo.
José Maria Eça de Queirós
O MANDARIM
"Nos finais do século XIX, Groussac pode escrever com veracidade que ser famoso na América do Sul não era deixar de ser um desconhecido. Essa verdade, naqueles anos, era aplicável a Portugal. Famoso na sua pequena e ilustre pátria, José Maria Eça de Queirós ( 1845 -1900) morreu quase ignorado pelas outras terras da Europa. A tardia crítica internacional consagra-o agora como um dos prosadores e romancistas da sua época.
Eça de Queirós foi esta coisa um tanto melancólica: um aristocrata pobre. Estudou Direito na Universidade de Coimbra e, uma vez terminado o curso, desempenhou um cargo medíocre numa província medíocre . Em 1869, acompanhou o seu amigo, o conde de Resende, à inauguração do canal de Suez. Passou do Egipto para a Palestina, e a evocação dessas andanças perdura em páginas que muitas gerações lêem e relêem. Três anos depois ingressou na carreira consular. Viveu em Havana, em Newcastle, em Bristol, na China e em Paris. O amor à literatura francesa nunca o abandonaria. Professou a estética do Parnaso e, nos seus muito diversos romances, a de Flaubert. Em O Primo Basílio (1878) notou-se a sombra tutelar de Madame Bovary, mas Emile Zola julgou que era superior ao seu indiscutível arquétipo e juntou à sua sentença estas palavras : " Fala-lhes um discípulo de Flaubert."
Cada oração que Eça de Queirós publicou fora limada e temperada, cada cena da vasta obra múltipla foi imaginada com probidade. O autor define-se como realista , mas esse realismo não exclui o quimérico, o sardónico, o amargo e o piedoso. Como o seu Portugal, que amava com carinho e com ironia, Eça de Queirós descobriu e revelou o Oriente. A história de O Mandarim ( 1880) é fantástica. Uma das personagens é um demónio; a outra , a partir de uma sórdida pensão de Lisboa, mata magicamente um mandarim que lança o seu papagaio de papel num terraço que fica no centro do Império Amarelo. A mente do leitor hospeda com alegria essa impossível fábula.
No ano final do século XIX, morreram em Paris dois homens de génio, Eça de Queirós e Oscar Wilde . Que eu saiba, nunca se conheceram, mas ter-se-iam entendido admiravelmente."
Jorge Luis Borges, in Biblioteca Pessoal, Quetzal Editores, pp. 23, 24
Eça de Queirós foi esta coisa um tanto melancólica: um aristocrata pobre. Estudou Direito na Universidade de Coimbra e, uma vez terminado o curso, desempenhou um cargo medíocre numa província medíocre . Em 1869, acompanhou o seu amigo, o conde de Resende, à inauguração do canal de Suez. Passou do Egipto para a Palestina, e a evocação dessas andanças perdura em páginas que muitas gerações lêem e relêem. Três anos depois ingressou na carreira consular. Viveu em Havana, em Newcastle, em Bristol, na China e em Paris. O amor à literatura francesa nunca o abandonaria. Professou a estética do Parnaso e, nos seus muito diversos romances, a de Flaubert. Em O Primo Basílio (1878) notou-se a sombra tutelar de Madame Bovary, mas Emile Zola julgou que era superior ao seu indiscutível arquétipo e juntou à sua sentença estas palavras : " Fala-lhes um discípulo de Flaubert."
Cada oração que Eça de Queirós publicou fora limada e temperada, cada cena da vasta obra múltipla foi imaginada com probidade. O autor define-se como realista , mas esse realismo não exclui o quimérico, o sardónico, o amargo e o piedoso. Como o seu Portugal, que amava com carinho e com ironia, Eça de Queirós descobriu e revelou o Oriente. A história de O Mandarim ( 1880) é fantástica. Uma das personagens é um demónio; a outra , a partir de uma sórdida pensão de Lisboa, mata magicamente um mandarim que lança o seu papagaio de papel num terraço que fica no centro do Império Amarelo. A mente do leitor hospeda com alegria essa impossível fábula.
No ano final do século XIX, morreram em Paris dois homens de génio, Eça de Queirós e Oscar Wilde . Que eu saiba, nunca se conheceram, mas ter-se-iam entendido admiravelmente."
Jorge Luis Borges, in Biblioteca Pessoal, Quetzal Editores, pp. 23, 24
domingo, 21 de outubro de 2018
Ao Domingo Há Música
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Anna Nikulina e Mikhail Lobukhin , em Khachaturian Spartacus Adagio Love, com coreografia de Yuri Grigorovich .
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direcções!
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)
Quando a música se transforma em dança, o corpo passa a ser todo o universo.Transcende-se em gestos, em movimentos em todas as direcções. O ritmo da melodia empresta-lhe a beleza e a luz do todos os sons. E freme, treme, salta , rompe , evade-se , transborda, explode com todos os lumes e luzes da alma.
Hoje será a dança a marcar este apontamento.
O primeiro registo, Lost in motion II, explora as emoções que se soltam, quando se mostra a alma em palco.
Heather Ogden dança ao som da voz de Leonard Cohen, em "Avalanche". A coreografia é de Guillaume Côté e a direcção de Ben Shirinian
Amy Yakima e Travis Wall interpretam Wicked Game ,cantado por James Vincent McMorrow ,com coreografia de Travis Wall.
sábado, 20 de outubro de 2018
Dizer de mim
Dizer de mim
Se apenas quero
saber de ti
Quando os dias se tornam longos
E crescem no silêncio deste aqui
E as horas e os minutos oblongos,
Vazios sem fim
MJSM, in " Poemas da Terra e do Mar"
sexta-feira, 19 de outubro de 2018
O mundo em cartoon
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| HenriCartoon |
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| HenriCartoon |
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| HenriCartoon |
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| HenriCartoon |
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“Your 10:30 distraction is here.”Brendan Loper , The New Yorker |
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“I’ll also need you to clean up the environment after I’m done with it.”Brendan Loper , The New Yorker |
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| Chapatte |
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| Chapatte |
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| Italliaoggi |
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| Italliaoggi |
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| Italliaoggi |
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| Italliaoggi |
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| Italliaoggi |
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| The Guardian |
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| El País |
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| El País |
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| El País |
quinta-feira, 18 de outubro de 2018
Porque a música é doce
Dá à alma harmonia e qual coro divino
Acorda e faz cantar no coração mil vozes
Patricia Janečková canta W. A. Mozart, em Laudate Dominum, KV 339 / Árie soprán
quarta-feira, 17 de outubro de 2018
Nova obra de Eugénio Lisboa no prelo

Está no prelo uma nova obra de Eugénio Lisboa , uma outra "masterpiece" para competir com a sua antecessora " Acta Est Fabula", publicada em sete luminosos volumes. Este novo magnum opus constitui um extenso Diário, escrito ao longo de décadas, cujo primeiro volume sairá em breve, com a chancela da Opera Omnia. Espera-nos a singular possibilidade de uma outra aprendizagem do mundo, através do olhar perspicaz e arguto deste ínclito escritor . Aguardamo-la, com impaciente curiosidade e indelével regozijo.
Regressamos , hoje, ao V volume das suas Memórias, para recordarmos a preciosa clareza e a despretensiosa erudição que caracteriza o discurso diarístico de Eugénio Lisboa. Com a sagacidade de intelectual brilhante e o encanto de homem simples, regista, interpreta, analisa, formula e repensa ideias e acontecimentos que encheram os seus dias.
PÁGINAS DO DIÁRIO
(10.01.96 - 27.05.96)
10.01.1996, Lisboa
"Caem toalhas de chuva sobre uma Lisboa cinzenta e tristonha. As notícias são de desastre e estragos infindáveis. Na televisão, os políticos falam com ar grave e prenhe. “Dizem coisas”, como a irmã (ou tia) Georgina, do Raul Solnado, gostava de dizer. O Jim anda atrás de mim, moendo-me a molécula. Vou dando vazão, sem grande vontade, a alguns compromissos: um prefácio, uns poemas para uma revista e umas provas que vou adiando (onde já vai o tempo em que revia provas com sofreguidão, a ver se o livro saía depressa…)
Portugal é um país pequeno, pobre, tristonho e, frequentemente, mesquinho. Onde se vê, de modo mais duro, impiedoso e desnudo, o “struggle not for life but for territory” é na administração pública. Mas é um velho enredo balzaquiano que já nem sequer me interessa observar. É antigo, gasto, ultra-mesquinho, nada estético. E tão inferior, que me humilha participar nele, mesmo involuntariamente. É os carros para os senhores directores gerais, é os carros para os gabinetes, é os carros para os motoristas e os motoristas para os carros. E há quem viva disto, para isto – nunca contra isto. Estou farto de tudo isto, não estou nisto, não estou sequer para fingir que dou importância a isto. De cada vez que há uma tomada de posse, dá-me vontade de vomitar ver ali, a arejarem a pluma, com ar de infinita importância, dúzias de indivíduos que, amanhã, depois de reformados, ninguém conhecerá e ninguém cumprimentará. A comédia humana, como tudo, gasta-se, repete-se e torna-se sem interesse. Nem para romanceco serve. A luta pelo poder (e pela visibilidade) é um tema que já deu o que tinha a dar. E quando se processa, dentro do contexto pífio de um Portugal infinitesimal e pelintra, o interesse é ainda mais reduzido. A dança das vaidades, nas salas da administração pública, nem sequer atinge a grandeza típica do grotesco: é apenas pequeninamente cocasse.
Leio um belo romance: Birdsong, de Sebastian Faulks. Mergulhado nele, esqueço Portugal e os portugueses. Esqueço-me de mim.
(…)
Ontem, à tarde, reunião com Guilherme d’Oliveira Martins, no Ministério da Educação. Estávamos presentes o embaixador Moya Ribera (embaixador junto da UNESCO, em Paris), a Dra. Maria de Lourdes Paixão, o Dr. Lopes Serrado e eu, pela Comissão Nacional da UNESCO. Falámos de projectos da Comissão para 1996, apesar da falta de dinheiro. Foi uma reunião afável e o Secretário de Estado prometeu o envolvimento e o apoio do ME.
02.02.96, Barcelona
Há quatro dias na capital da Catalunha. Intervalo na lufa-lufa de Lisboa, onde descobri, para minha não pequena surpresa, que tenho a tensão arterial elevada (coisa que não me acontecera, até há bem pouco tempo).
A mesma impressão de há cerca de um ano: cidade bela e aprazível de largos e atraentes boulevards. E a Sara: autêntica boneca viva e inteligente. A Geninha arranjou emprego num editor de banda desenhada e desembaraça-se admiravelmente por esta Barcelona fora.
No sábado (anteontem), visita a Besalù e Figueras (terra natal de Salvador Dali). Visita ao Museu Dali, por si próprio planeado, para sua maior glória. Tudo em grande, tudo à dimensão da sua megalomania e do seu incontestável génio (agudamente patológico e alienado – mas génio; ou génio, bem servido pelo agudamente patológico e alienado).
Em Besalù, no restaurante em que almoçámos, deixei, por esquecimento, duas garrafas de um magnífico vinho catalão, que ali tinha adquirido. O que nos forçou a voltar lá, depois da visita a Figueras.
Hoje de manhã, deambulação desenfastiada pelo Passeio Garcia, visita aos Happy Books, onde comprei Lorca, Galdós, Baroja, Julián Marias e Octavio Paz. De Julián Marias, uma Biografia de la Filosofia e um esplêndido La Educación Sentimental (sem falar num volume de artigos de Larra, de que já li um belo texto sobre a literatura espanhola contemporânea dele). Almoço com a Geninha e a A. e visita a uma exposição de Felix Mas, com a Sara acrescentada ao baralho. Felix Mas: uma espécie de síntese de Klimt com pré-rafaelismo. Sedutor, belo, levitantemente subtil, mas só inovador à rebours: porque, hoje, mais ninguém faz daquilo, fazê-lo é infringir, logo, é andar em frente como quem recua…
A Larra, como a Unamuno, doía-lhe a Espanha. A mim, dói-me Portugal e Moçambique. Mas suspeito que a dor deles era em grande: era uma dor em dimensão que os engrandecia. A minha é mesquinha e humilha-me. Saio dela, mais pequeno, mais avinagrado e mais estragado. Não é, em suma, um sofrimento redentor. É um sofrimento morto. Como o das irmãs religiosas do Port-Royal, de Montherlant.
Ontem, à tarde, reunião com Guilherme d’Oliveira Martins, no Ministério da Educação. Estávamos presentes o embaixador Moya Ribera (embaixador junto da UNESCO, em Paris), a Dra. Maria de Lourdes Paixão, o Dr. Lopes Serrado e eu, pela Comissão Nacional da UNESCO. Falámos de projectos da Comissão para 1996, apesar da falta de dinheiro. Foi uma reunião afável e o Secretário de Estado prometeu o envolvimento e o apoio do ME.
Há quatro dias na capital da Catalunha. Intervalo na lufa-lufa de Lisboa, onde descobri, para minha não pequena surpresa, que tenho a tensão arterial elevada (coisa que não me acontecera, até há bem pouco tempo).
A mesma impressão de há cerca de um ano: cidade bela e aprazível de largos e atraentes boulevards. E a Sara: autêntica boneca viva e inteligente. A Geninha arranjou emprego num editor de banda desenhada e desembaraça-se admiravelmente por esta Barcelona fora.
No sábado (anteontem), visita a Besalù e Figueras (terra natal de Salvador Dali). Visita ao Museu Dali, por si próprio planeado, para sua maior glória. Tudo em grande, tudo à dimensão da sua megalomania e do seu incontestável génio (agudamente patológico e alienado – mas génio; ou génio, bem servido pelo agudamente patológico e alienado).
Em Besalù, no restaurante em que almoçámos, deixei, por esquecimento, duas garrafas de um magnífico vinho catalão, que ali tinha adquirido. O que nos forçou a voltar lá, depois da visita a Figueras.
Hoje de manhã, deambulação desenfastiada pelo Passeio Garcia, visita aos Happy Books, onde comprei Lorca, Galdós, Baroja, Julián Marias e Octavio Paz. De Julián Marias, uma Biografia de la Filosofia e um esplêndido La Educación Sentimental (sem falar num volume de artigos de Larra, de que já li um belo texto sobre a literatura espanhola contemporânea dele). Almoço com a Geninha e a A. e visita a uma exposição de Felix Mas, com a Sara acrescentada ao baralho. Felix Mas: uma espécie de síntese de Klimt com pré-rafaelismo. Sedutor, belo, levitantemente subtil, mas só inovador à rebours: porque, hoje, mais ninguém faz daquilo, fazê-lo é infringir, logo, é andar em frente como quem recua…
A Larra, como a Unamuno, doía-lhe a Espanha. A mim, dói-me Portugal e Moçambique. Mas suspeito que a dor deles era em grande: era uma dor em dimensão que os engrandecia. A minha é mesquinha e humilha-me. Saio dela, mais pequeno, mais avinagrado e mais estragado. Não é, em suma, um sofrimento redentor. É um sofrimento morto. Como o das irmãs religiosas do Port-Royal, de Montherlant.
Enquanto a Sara toma banho (benho, como ela diz, na sua pronunciazita deliciosamente distorcida), oiço sonatas de Beethoven, para violoncelo, escrevo estas notas e vou regressar à Educación Sentimental, do Marias. Como é bom ler esta prosa de ideias, cuja vocação visível é a profundidade e a clareza. Nas mãos de um ensaísta português, toda esta riqueza, abundância e sedução dariam em pretensiosismo, confusão e bagunça.
07.02.96, Barcelona
A nossa visita chega ao fim. Regressamos amanhã a Lisboa e mal chegado, rumarei para o Porto.
A nossa visita chega ao fim. Regressamos amanhã a Lisboa e mal chegado, rumarei para o Porto.
Visitámos ontem o novo Museu de Arte Contemporânea (disse, brincando, que era um Museu de Arte Extremamente Contemporânea). A arquitectura é belíssima, limpa, escorreita, de uma simplicidade genial. O conteúdo… Apetece-me, sobretudo, sublinhar uma obra impressionante de Kieffer, que já em Washington me captara o olho e a imaginação. Construtor de apocalipses? Ou apenas reflector (em avanço) dos apocalipses que se avizinham?
De resto, tem sido tudo preguiça, ramblanços e Sara. E pouco mais.
No dia em que chegámos a Barcelona, cruzei-me, na rua, com o Fernando Pessoa. Ou era ele ou era um duplo. Mas acho que era ele.
Num livro de Francisco Umbral, que hoje comprei, num texto dedicado a Ruben Dario, o autor diz, deste, que vivia “congestionado de transcendência”. O mesmo se poderia dizer de Pascoaes, mas acho que muito menos de Pessoa. Pessoa vivia tolhido de “estranheza”, mas não de “transcendência”. Sá-Carneiro, sim. Régio, sim. Fernando Pessoa, duvido. [2015: Régio, sim, disse eu, embora não vivesse exclusivamente de transcendência: havia, nele, “mais mundos”].
Ortega y Gasset a Julián Marias: “Unamuno para usted es un tema. Para mi es un problema.” Muito do discurso literário português é, para mim, mais um problema do que um tema.
Ortega y Gasset a Julián Marias: “Unamuno para usted es un tema. Para mi es un problema.” Muito do discurso literário português é, para mim, mais um problema do que um tema.
10.02.96,
Porto (Matosinhos)
Aqui desde anteontem. O simpósio sobre o neo-realismo
começou ontem. Tem sido divertido. Depois de duas interessantes exposições, uma
de António Pedro Pitta (sobre a reflexão
estética de João José Cochofel), outra de Rosa Maria Martelo (sobre João José
Cochofel e Carlos de Oliveira), intervim, para dizer – um tanto à laia de
provocação, mas não só – que, ao lermos os teóricos mais inteligentes e
articulados do neo-realismo (Cochofel, Dionísio) e da presença (Régio), afigura-se-me que o conflito entre ambos os
movimentos não é assim tão grande. A música que se ouve [nos melhores textos de
uns e dos outros] é muitas vezes a mesma. Como Rosa Maria Martelo se referisse
à poesia da presença em termos de uma
poesia ocupada com o “transcendente”, tive que lhe observar que isso não era
bem assim. Que muita da poesia da presença
nada tinha que ver com o transcendente e que, mesmo na de Régio, havia “mais
mundos”. De resto, era ver como a Igreja, pela pena de Manuel Antunes, “virara”,
na atitude tomada com Régio, a partir de A
Chaga do Lado: a violência da sátira regiana aos poderes deste mundo
(incluindo o da Igreja Católica) tirou, para sempre, aos que tentavam
“apanhá-lo”, quaisquer ilusões a esse respeito. [2014: Poderia, nessa altura,
ter acrescentado que toda a obra ficcional de Régio estava cheia de observações
sobre a vida bem terrena – nada transcendente – de um grande número de
personagens masculinos e femininos; e que a sua poesia, repito, nem só de
transcendência se alimentava…]
O curioso é
que Alexandre Pinheiro Torres me apoiou e Eduardo Lourenço se levantou para,
enfaticamente, me contradizer: nada de casamentos póstumos entre a presença e o neo-realismo. O que levou o
Alexandre, não sem humor, a responder-lhe que me dava a mim razão, até porque o
casamento fora ântumo e não póstumo… O que era, exactamente, o meu ponto.
[2014: Nesta altura do prélio, houve um outro incidente curioso, que, na
altura, aqui não registei. Já não sei bem quando, “meti-me” com um conceito do
Eduardo Prado Coelho, que falava no “imaginário do neo-realismo” (o
“imaginário” era, por então, a tarte-à-la-crème do discurso crítico lusíada, em
clássica importação de França…) Nesta altura do campeonato, era obrigatório, em
conferência ou conversa, falar-se, irreflectidamente, de “imaginário”:
imaginário marxista, imaginário capitalista, imaginário presencista,
estadonovista e por aí fora. Eu observei, perfidamente, que talvez fosse mais
correcto falar-se no “ideário marxista” ou no “ideário neo-realista”, visto que
era de ideias e não de imagens que se tratava… O Eduardo
Lourenço ficou visivelmente furioso, mas teve a lisura de não responder…]
O Pedro
Calheiros veio dizer-me que as Letras da Universidade de Aveiro aprovavam, por
unanimidade, a minha nomeação, ou para Professor Visitante ou Professor
Convidado. Vamos agora ver as burocracias. Se assim for, estou tentado a mandar
às ortigas a Comissão Nacional da UNESCO. [2014: O que se passara fora isto. Pouco
antes, eu fora a Aveiro, fazer uma comunicação sobre “as duas culturas”,
integrada num colóquio participado por cientistas portugueses residentes (ou
tendo residido) no estrangeiro. Estava presente o reitor, Professor Júlio
Pedrosa, que, depois de me ter ouvido, me enviou um convite para leccionar na
Universidade de Aveiro, como Professor Catedrático (Visitante ou Convidado).
Depois de pensar algum tempo, resolvi aceitar.]"
Eugénio Lisboa, in Acta Est Fabula, Memórias V - Regresso a Portugal (1995-2015), Editora Opera Omnia, pp. 55, 56,57,58,59
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