terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O vento

O Vento

Anda o vento a bailar com o mar
E a bailar com o meu pensamento
Já nada fica no mesmo lugar
São tantas vozes no mesmo momento

E o vento não pára, arrasta a tormenta
Semeia o vazio no meu corpo dormente
Sedento devora a razão que o enfrenta
Engana a memória e mascara o presente

Onde vais
Ó meu amor
Vê lá não te a fastespara longe demais
Perdido nos braços
Do vento enganador

Tremenda é a força do vento no mar
Tamanho o ruído no meu pensamento
Procuro o silêncio e enfim devagar
Contemplo a cadência profunda do tempo
Teresa Salgueiro

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Uma falácia

El diluvio tras Puigdemont
El ‘expresident’ y su entorno se resisten a reconocer que defienden una falacia irrecostruible
VALENTÍ PUIG, El País
9 ENE 2018 - 00:00 CET
“En las viejas mitologías abundan los diluvios y los paraísos perdidos bajo el mar. En la epopeya hispánica L’Atlàntida de Verdaguer se hunde el continente de los atlantes y nace la futura América: en otros casos, se imponen diluvios de toda índole. Carles Puigdemont, desde su exilio de pommes fritesen Bruselas prenuncia otras inundaciones, sin cauce ni razón histórica, sino más bien secuela de un posdiluvio en el que los fundamentos de la Cataluña moderna parecen carecer de peso específico, arraigo y capacidad de sedimentación. Dicho de otro modo: han caducado los repertorios mitológicos y el contraste entre sociedades homogéneas y heterogéneas carece de fronteras fijas, pero el nacionalismo no lo había comprendido porque estaba con sus labores titánicas de presión mediática, hostilidad digital, propaganda y primitivismo dialéctico. Mientras, cientos de miles de electores han hecho de Ciudadanos el partido más votado aunque Puigdemont esté en Bruselas empeñado en seguir presidiendo la Generalitat por alfabeto Morse o con señales de humo. El nacionalismo se juega ahora su propia realidad. En realidad, le queda algo de presente, pero no se ve su futuro.
Si nos preguntamos por el grado de racionalidad que tiene la trayectoria de Puigdemont, la respuesta es muy precaria, antediluviana. Toda su ejecutoria pública consiste en truncar las conexiones de la sociedad catalana con sus arraigos de convivencia, respeto a la ley, coexistencias identitarias, know how económico, virtualidad institucional y sentido hispánico. Aún demostrando que algunos agravios de Cataluña sean ciertos no es justificable que la solución sea romper con España. Ni los sucesivos diluvios nacionalistas han logrado generar una mayoría suficiente convencida de la necesidad perentoria de constituir una república catalana para quedarse fuera de España y, por consiguiente, de la Unión Europea. Ha diluviado a fondo desde el crack pujolista, pero el definitivo rey de las lluvias ha sido Carles Puigdemont, un ser de la Cataluña profunda y subvencionada, con instintos de pastor sin GPS, acunado en la causa separatista, sin otra pasión política que una hispanofobia indigenista y con dedicación a cargo general del contribuyente. Bajo las rachas de su diluvio incluso hemos visto pasar expediciones carlistas con capote impermeable y aversión al Estado liberal, por supuesto al Estado de derecho y la razón de ser de la Unión Europea. Nunca fue el nacionalismo catalán menos autocrítico ni más simplista, hasta el punto de que —como revela el mapa poselectoral— uno de sus errores más inmensos ha sido gestionar tribalmente lo que es una Cataluña compleja, que cambia todos los días y que se reinterpreta de forma espontánea más allá del mito y la fábula. El año pasado, a pesar de que ya eran tiempos ilusorios para el independentismo, una de las voces más fundamentalistas de la secesión propuso en un tuit que, cuando se diera la victoria independentista, había que ser magnánimo con todos los que querrían haberla hecho fracasar por advertirlo con antelación. ¿Es que advertir de que el independentismo no saldría adelante era hacerlo fracasar? Fracasa por sí mismo. No lo impide el llamado discurso del miedo que no era sino consideración del impacto económico negativo. Intuíamos que no sabrían aceptarlo. Ahora viene lo de siempre: corresponderá a los demás aligerar el estropicio. Puede tardar mucho. Habrá otras pasiones, otros videojuegos. Tal vez el emocionalismo vaya quedándose en casa.
Con la aplicación del 155, criticada por blanda en sectores de la derecha española no siempre clarividentes, el tumulto de hipocresía fue inmediato: en el entorno abradacabrante de Puigdemont se persiste en la idea de que las recientes elecciones son una derrota del 155, pero lo cierto es que ningún partido dejó de presentar candidaturas —Puigdemont, la suya—, como no hubo dimisión de cargos políticos de la Generalitat cuando el Gobierno de Mariano Rajoy obtuvo el visto bueno del Senado. El 155 ha sido beneficioso por dar estabilidad en instantes frágiles y garantizar el desempeño de una administración pública que llevaba años paralizada. Los intentos por convertir la resistencia al 155 en un nuevo mantra no han tenido éxito, hasta el punto que el partido más votado le dio su pleno apoyo. Sigue diluviando allá donde esté Puigdemont. Está sin arca flotante, sin parejas de toda especie animal embarcadas para reconstruir el mundo. Su mundo es irreconstruible porque, aunque deje posos y frustración abertzale, es una falacia. Es absurdo suponer legitimidad donde solo hay patología política.”
Valentí Puig es escritor.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Ao Domingo Há Música

Imagem relacionada
     
          Cada qual sabe amar a seu modo. O modo pouco importa. 
          O essencial é que saiba amar.
                                            Machado de Assis

Há vozes que se distinguem no tempo porque marcaram uma geração, porque traziam melodia e frescura. Cantavam e faziam respirar. Límpidas, talentosas, souberam imprimir às palavras uma nova sonoridade que cada um  interiorizava a seu modo.
E recordá-las é voltar ao tempo em que o  amor se cantava assim:
Gigliola Cinquetti - Dio Come Ti Amo


sábado, 13 de janeiro de 2018

Pátria minha



Coimbra, 28 de Abril de 1977

Pátria

Foste um mundo no mundo,
E és agora
O resto que de ti
Já não posso perder: 
A terra, o mar e o céu
Que todo eu 
Sei conhecer.
(...) 
Miguel Torga, in "DiárioXII" , Círculo de Leitores, p.1222
Londres , 10 de Junho de 1977 - Chuvisca. E é de uma Inglaterra húmida, verde, íntima, fechada nas suas casas iguais e nas suas gabardines iguais, que me despeço, o corpo a bendizer o sol natural que o vai aquecer, e o espírito  a maldizer  a sombra social que o vai regelar. " triste pássaro que nasce em ruim ninho" - diz o povo. Mas é lá, no meu, que sempre quis viver e quero morrer. Infeliz de o sentir de tojos , e feliz de o sonhar de penas. "
Miguel Torga, in " Diário XII ", Círculo de Leitores, p.1232

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A tua mão

"Fugimos para longe, e passámos as noites, as infinitas noites de inverno em que chove sempre, à beira do lume, eu calado a escrever, tu calada a olhar para mim.  Solidão tão pesada que se distinguia  o remexer dos bichos inteiriçados de frio, que vivem nos buracos  das paredes e que se revolviam no fundo dos ninhos, para caírem  logo no torpor  invernal  -  e o caminhar  da raiz da árvore que plantei e que sob o chão teima em  se aproximar de nós. Foi nesse silêncio que a minha alma se criou. Foi esse silêncio que nos uniu indestrutivelmente. No corredor  escuro onde entrei e onde tacteio como um cego, fazendo alguns riscos a carvão nas paredes, encontrei a tua mão que me amparava e nunca mais a larguei. Aprendi que há outras existências , as do humildes, maiores que as nossas. E vi Deus."
Raul Brandão , in "Memórias - ( memórias volume II, O silêncio e o lume, Dezembro 1924)",  Quetzal Editores, p. 246 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Bússola

O orientalismo da nossa alma e história

  Quanto a nós, permanecemos viajantes, fechados no nosso eu, susceptíveis, quem sabe, de nos transformarmos pelo contacto com a alteridade, mas não certamente por fazermos dela uma experiência profunda.
                            Mathias Enard, Bússola

Por Vamberto Freitas
Bússola, este brilhante e gigantesco mosaico de história, política, orientalismo, amor, violência, fantasia e arte pura, desde o século XIX até aos nossos dias, é a primeira ficção que leio do autor francês Mathias Enard. Ao ler este e outros grandes romances de tempos recentes lembro-me sempre da pouca visão literária e pobreza analítica por parte de alguns quando olhavam e olham o que lhes parecia ser o estado da cultura e literatura ocidentais em geral, e não só, quando uns e outros pronunciavam a morte do romance, a sua pessoalíssima exaustão assumida como condição universalizada de todos os outros, ou então a sua arrogância em pensarem-se os últimos grandes escritores possíveis. Mathias Enard não está só. O romance como género literário da contemporaneidade em nada fica atrás das grandes e marcantes narrativas do realismo desde as suas origens oitocentistas, retomou a sua grandeza temática, tendo como fundo a sociedade em que se insere, ou crescentemente zonas inteiras do globo com uma história necessariamente interligada. A osmose artística entre civilizações sempre se manifestou de todas as maneiras para quem sabe ver para além do discurso enviesado dos poderes, de ontem e de hoje, ou dos que entregaram os seus talentos e saberes de vária natureza ao serviço desses comerciantes quase sempre do roubo e da morte. Bússola não é só um grande romance do nosso tempo, todo ele construído por uma linguagem que combina uma avassaladora erudição com a fala vivíssima dos seus personagens principais. O seu desdobrado, múltiplo quotidiano reinventado leva-nos por territórios próximos ou mais afastados, marcado pela banalidade que é desde sempre a memória e o desejo de qualquer ser humano, a busca de ou indiferença perante o amor, o medo da morte que nos avisa constantemente a todos, a ambição dando lugar à solidão num quarto fechado ou na imensidão de um deserto ou cidade caída e esquecida. O narrador de Bússola, na primeira pessoa, chama-se Franz Ritter, austríaco de mãe francesa, musicólogo e professor numa universidade em Viena, passando os seus dias e noites num pequeno apartamento atulhado de livros, pautas musicais e monografias, dele e dos seus colegas, enfrentando angustiadamente uma doença supostamente terminal não identificada, e durante uma noite de insónia relembra todo o seu passado como orientalista relutante, e particularmente a mulher que ama, uma judia parisiense, Sarah, que está uma vez mais a perseguir os seus estudos e descobertas filosóficas no Oriente, depois de se dedicar ao estudo profundo do tratamento do Médio Oriente nas literaturas canónicas ou marginais do Ocidente. Franz faz-me lembrar aqui o “homem subterrâneo” de Dostoiévski numa crise existencial que o leva à ira desconstrutivista de si próprio, da carreira universitária, e sobretudo dos colegas e antecessores a partir do século XIX, uma vez mais, que estudaram obcecadamente a cultura e artes dos povos árabes e persas, e que inevitavelmente os europeus desde Beethoven e todos os grandes nomes antes e depois do seu tempo aproveitariam para as suas próprias produções, na música, na literatura e nas artes plásticas. Fernando Pessoa – e muita história portuguesa – está aqui também nas linhas mestras de Mathias Enard, o outro em nós, nós no outro, contextualizando o afastamento presente na luta hiper-violenta entre nós e eles, O Ocidente a pagar agora com os mesmos
ferros, reais e simbólicos, com que havia olhado, retalhado e colonizado todos esses povos.
As duas palavras-chave em Bússola são orientalismo e alteridade. A grande arte literária ou é uma projecção intimista do seu narrador, ou então será muito pouco, um escrito banal. Franz Ritter está frente a frente não só ao seu possível fim, como projecta a sua própria pessoa nos acontecimentos que abalam o nosso mundo, uma Europa que continua a negar o seu profundo relacionamento com o Médio Oriente, e um Médio Oriente enraivecido, sobressaindo a imagem de jovens idos de cá para lá, com um facão na mão e segurando pelo pescoço os seus prisioneiros prestes a serem degolados vagarosamente e à nossa frente. Franz leva-nos nas suas próprias viagens a cidades que agora estão totalmente destruídas, a morte à solta em cada um dos seus recantos, Aleppo e Palmira na Síria relembradas na sua majestade artística e na sua civilidade, o ponto outrora de encontro entre estudiosos e amantes europeus em busca de saber e aventura. O rol de nomes dessas personalidades, das suas grandes obras literárias ou em todas as outras artes é deveras avassalador para o leitor, mas a prosa de Mathia Enard é de tal ordem e viveza que nos transporta de página a página, de cena a cena, de personagem a personagem como num sonho de choro, medo e riso, depois tudo lembrado integralmente quando atravessamos o espelho fantástico em que vimos esse outro e, naturalmente, a nossa própria imagem. O narrador Franz Ritter está aqui quase num delírio de saudade pela mulher que diz amar, uma saudade do que nunca foi nem aconteceu a maior parte do tempo, e que está sempre a oriente em busca de si própria, a intimidade de um e outro contida apenas nessa troca esporádica de palavras, os seus estados de alma apenas insinuados num ou noutro passo das suas cartas, entre notícias de andanças e trabalhos em curso. Aliás, a palavra “saudade” entra proeminentemente na sua prosa, os portugueses e a sua história no Oriente um chamamento quase constante, assim como o orientalismo de Fernando Pessoa, particularmente através de Álvaro de Campos e do seu Opiário, “Porque há um Oriente para lá do Oriente, vive no sonho dos viajantes de outrora, na fantasia da vida colonial, no sonho cosmopolita e burguês de ancoradouros e barcos a vapor”. O melhor e o pior de nós, quanto ao nosso próprio orientalismo, está aqui presente, Camões por um lado, Mouzinho de Albuquerque no outro extremo. A certa altura Franz diz, contra certos etimologistas, que “Eu pelo meu lado, pensava que a saudade, como a palavra indica, é um sentimento também árabe e iraniano, e que os jovens Pasdars da ilha, por muito que não sejam originários de Shiraz ou de Teerão e não vão a casa todas as noites, devem recitar poemas à volta de uma fogueira para enganar a tristeza – não, claro, versos de Camões como Sarah empoleirada no canhão enferrujado”. Do Levante a Tibete, acompanhamos, por entre a memória e o desejo de Franz na sua fantasia amorosa com a inefável Sarah, as viagens sem fim de uma Europa a tentar desvendar os mistérios de povos que um dia fizeram as lusitanas naus navegar e chocalhar sabres em cruzadas de conquistas reais e fantasmagóricas. Para além de tudo o mais que um grande romance, como Bússola, nos oferece em estética e abrangência temática, é como se entendêssemos pela primeira vez ou nos fosse recordado que o mundo actual tem as suas raízes dos dois lados da fronteira, essa que pensamos nos separar, quando juntos sempre estivemos. O autor disse numa entrevista recente aqui em Portugal que precisamos da literatura para vermos para além da violência nas guerras do Médio Oriente que assolam o nosso presente, e nos ameaçam a todos. Que bom ouvir de um mestre que, afinal, a literatura serve ainda para muito mais do que alimentar certas “teorias” académicas e outros discursos inconsequentes.
A questão do orientalismo nos estudos e sobretudo nas artes ocidentais vem de longe, essencialmente a criação de imagens do outro, a maior das vezes num acto de aberta inferiorização, ou então ao serviço dos vários poderes europeus, e depois norte-americanos, que financiaram e financiam os mais diversos institutos de investigação histórica e cultural desses povos, muitas vezes por académicos que nem sequer as suas línguas falam ou entendem. Bússola, por outro lado, apresenta-nos ao melhor dessas civilizações a oriente – a sua literatura e artes várias, particularmente a música. Edward Said, o falecido escritor palestiniano, que foi professor de literatura na Columbia University, em Nova Iorque, e um distinto assessor de Yasser Arafat, foi também, sem qualquer dúvida, o intelectual que mais colocou em causa, e definitivamente, tanto esses estudos como a representação dos povos fora da Europa nas diversas literaturas continentais. Num passo de grande humor e empatia meio escondida, Franz Ritter trá-lo ao baile, como quem convoca um djinn d’As Mil E Uma Noites.
“… O Lobo apareceu – diz Franz, deliciado – no deserto gelado no meio do rebanho: Edward Said. Era como invocar o Diabo num convento de carmelitas… Bilger, horrorizado com a ideia de poder ser associado a qualquer orientalismo, começou imediatamente uma autocrítica envergonhada, renegando pai e mãe; François-Marie e Julie tinham uma posição mais matizada, reconhecendo embora que Said havia colocado uma questão incendiária mas pertinente, a das relações entre saber e poder no Oriente – eu não tinha opinião, e continuo, julgo, sem a ter; Edward Said era um excelente pianista, escreveu sobre música e criou com Daniel Barenboim a orquestra West-ostlicher Divan gerida por uma fundação com sede na Andaluzia, onde se pugna por preservar a beleza na partilha e na diversidade”.
O poder das ideias e da arte. Literatura contra a violência, a literatura como partilha entre civilizações, a representação sabedora da nossa própria alteridade, ou a busca desse outro em nós. Afinal, a questão da identidade continua a fornecer às grandes obras o seu ponto de partida e de chegada. Bússola mereceu o grande Prémio Goncourt. Merece agora a leitura de quem não tem medo dos mil e um espelhos que reflectem todo o nosso ser, de quem na arte ainda alimenta a mente e a alma."
Vamberto Freitas, em recensão crítica na  coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 30 de Setembro, 2016

Mathias Enard, Bússola (tradução de Ana Cristina Leonardo), Lisboa, D. Quixote, 2016. 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Há 136 anos

E de uma exposição nasceu o primeiro museu nacional
Por Marina Marques
Investigação da historiadora Emília Ferreira desfaz alguns dos mitos em torno da primeira grande exposição em Portugal, há 136 anos.
"Já passava das duas da tarde quando D. Luiz e D. Maria Pia, D. Affonso e D. Maria Christina entraram no Palácio Alvor, às Janelas Verdes, em Lisboa, para inaugurarem a Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental Portugueza e Hespanhola. A presença dos dois casais reais ilustra a importância do evento, primeiro do género em Portugal e um dos primeiros no mundo a usar a luz eléctrica, nesse dia 12 de Janeiro de 1882.
Entre o assombro e as críticas de que dá eco a imprensa da altura, são muitos outros os méritos dessa exposição. Isso mesmo destaca a historiadora de arte Emília Ferreira no livro que recentemente publicou sobre o tema. Lisboa em Festa: A Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental Portuguesa e Espanhola 1882. Antecedentes de Um Museu deita por terra algumas "verdades" feitas em relação "ao mais notável acontecimento cultural do século XIX no nosso país".
"Sempre se disse que a exposição de Londres tinha sido um grande sucesso e por isso se quis fazer a de Lisboa. Não é verdade", defende a também directora do Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado. A exposição de Londres de que fala Emília Ferreira aconteceu no ano anterior, em 1881, quando o South Kensington Museum (atual Victoria & Albert Museum) convidou Portugal a integrar uma exposição dedicada às artes ornamentais portuguesa e espanhola.Para que o país pudesse responder ao convite de Inglaterra, foi nomeada uma comissão executiva liderada por Delfim Guedes, inspector da Academia Real de Belas-Artes. Grandes obstáculos logo se levantaram: tinham apenas dois meses para reunir as peças, numa época em que Portugal não tinha ainda um museu nacional nem tão-pouco existia um inventário do património móvel do país. "Mesmo nos dias de hoje, se falarmos em organizar uma exposição para daqui a dois meses, as pessoas dizem logo "isso é impensável"", contextualiza Emília Ferreira. "E hoje temos computadores, e-mails, eles não tinham. Os problemas com que se depararam, de mobilidade dentro do próprio país, de não terem onde dormir, onde comer, e chegarem lá e o pároco não estar... E, no entanto, foi tudo feito de uma forma tão absolutamente profissional", sublinha.
Através de documentação encontrada em diversos arquivos - Biblioteca Nacional, Fundação Calouste Gulbenkian, Museu Nacional de Arte Antiga, Arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do Victoria &Albert Museum, entre outros -, a historiadora de arte refaz a aventura dessa comissão.
Foi nessa documentação que Emília Ferreira encontrou a certeza de que este grupo de homens - Alfredo de Andrade, José Luís Monteiro, António Tomaz da Fonseca, Ignacio de Vilhena Barbosa, Augusto Filippe Simões e Teixeira de Aragão -, que faziam parte de uma elite que alimentava o sonho da criação de um museu nacional, vê na participação portuguesa na exposição londrina a oportunidade para atingir esse objectivo antigo.
"Lisboa recebe o convite em Março, em Abril é formada a comissão e meia dúzia de dias depois eles estão a fazer a proposta de se repetir a exposição em Lisboa. Portanto, ainda não havia a mais pequena noção se ia ser um sucesso ou não em Londres e eles já estavam a dizer "queremos fazer cá. Podemos?"", conta. Apesar de só em Junho a comissão ser reconduzida tendo em vista a realização da exposição em Lisboa, "eles começaram logo em Abril a trabalhar nela", garante. E explica porquê: "Quando abordam os proprietários das obras põem logo a hipótese de, se não emprestarem [as peças] para Londres, emprestam para Lisboa? E houve logo gente que disse que sim. Isso foi uma descoberta maravilhosa, aquela satisfação de se poder contrariar uma ideia comum", relata, sobre esta investigação que foi a sua tese de doutoramento, defendida em 2010 e que agora é publicada na colecção Estudos de Museus, uma parceria entre a editora Caleidoscópio e a Direcção-Geral do Património Cultural.

Chama ainda a atenção para outra dificuldade: ultrapassar a desconfiança de freiras, cabidos e particulares em emprestar os seus tesouros. "Em 1881 ainda havia quem tivesse memória de em 1834, data da extinção das ordens religiosas, ter havido um saque aos mosteiros. As pessoas estavam desconfiadas em relação à segurança do seu património", contextualiza.
Os méritos da exposição
Ainda decorria a exposição em Londres - entre Maio e Setembro de 1881 - e já em Lisboa se iniciavam as obras no Palácio Alvor, arrendado pelo Estado dois anos antes tendo já em mente a instalação de um museu nacional. E continuavam as "excursões artísticas e arqueológicas" dos membros da comissão pelo país para recolha de obras de arte a mostrar na exposição lisboeta.
Uma iniciativa pensada com todo o cuidado, como nota Emília Ferreira: "Perceber todo o processo, toda a modernidade daquele pensamento, a dedicação, o profissionalismo e o rigor daquele grupo de homens foram para mim as grandes descobertas." A modernidade do pensamento explica-a através de algumas opções: a publicação de um catálogo, ainda durante a exposição, contrariamente ao que acontecera na exposição de Londres, sendo certo que o catálogo incluía imagens, algo quase inédito até então. Ou ainda a organização das peças por famílias de objectos - cerâmica, pintura, ourivesaria -, em vez da mais tradicional arrumação por proveniência.
Inédito em Portugal e quase na Europa foi também o uso da luz eléctrica, algo que funcionava também como um chamariz. Aliás, o custo deste pioneirismo era expresso no preço dos bilhetes nocturnos, mais caros do que os diurnos. O rigor e profissionalismo, sustenta, vê-se nos minuciosos registos que mantiveram, não só nos formulários de empréstimo e devolução de cada obra como também na questão dos seguros e do transporte das obras. "Aliás, havia o mito de que não se tinha feito seguros, que as peças tinham vindo para Lisboa e não tinham sido devolvidas... E eu vi ali tudo, tudo anotado ao pormenor de se registar o pagamento de um bilhete ou uma gorjeta paga a um moço de fretes." Além disso, nota, houve deste o início a preocupação em fazer um primeiro inventário do património móvel, bem como cuidado na apresentação das peças, sendo algumas restauradas antes de serem expostas.
Quanto aos cem mil visitantes que se diz terem visitado a exposição que até Maio ocupou diversas salas do Palácio Alvor, onde se mostravam peças nacionais e espanholas desde a Idade Média até ao século XVIII, Emília Ferreira não encontrou provas de uma afluência tão numerosa. Os registos comprovam a venda de 31 842 bilhetes, sendo certo que estudantes, jornalistas, coleccionadores e operários podiam entrar gratuitamente. "Não sei quantas pessoas visitaram a exposição, mas se venderam 31 mil bilhetes, creio que possam ter chegado muito perto dos cem mil visitantes."
De qualquer forma, e como refere o relatório final da comissão, com os bilhetes e catálogos vendidos, o orçamento não fora todo gasto - apesar de mais de metade ter sido aplicado nas obras do palácio. E deixa uma sugestão: o excedente seria o suficiente para garantir o funcionamento de um museu nacional. Demonstrada a viabilidade económica para lá da quantidade e da qualidade dos tesouros artísticos nacionais, ficava assim escancarada a porta para a abertura, dois anos depois, do então Museu Nacional de Belas-Artes e Arqueologia, hoje Museu Nacional de Arte Antiga." Marina Marques, DN, 9.01.2018

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Lisboa cantada pelos Madredeus


Lisboa, na voz de Teresa Salgueiro

Anoitece
Nas vielas e nas esquinas
Nas escadas e nas colinas
Nas calçadas feitas à mão
No bater do meu coração
Mas não me canso de percorrer
A cidade em que vim nascer
Onde o Tejo vem adormecer
E é uma porta aberta para o mar
Um convite p'ra navegar
E que abraça quem quer chegar
Desde sempre assim foi

P'la manhãs
Do Castelo desço a Alfama
Labirinto de casas brancas
Enfeitadas com andorinhas
E que é o berço de tradições
Do velho fado, das procissões
Das tabernas e dos pregões
E onde nas ruas pequeninas
Ainda ecoam trovas antigas
E se inventam novas cantigas
De louvar ao bom Santo António
Que Lisboa venera


Eu só queria desenhar nesta melodia
O amor à minha cidade
Teimosa fantasia


É assim
Que eu gosto de imaginar
Esta Lisboa secular
Onde habitam todos os povos
De tantas raças, velhos e novos
A cidade mais luminosa
Bela, mágica, radiosa
Eu vou sempre cantar
P'ra ti Lisboa
De entre todas a mais formosa
Bela, mágica, radiosa
Vou p'ra sempre cantar

Adoro Lisboa
Letra: Pedro Ayres Magalhães
Música: Fernando Júdice


Lisboa tem histórias de reis,
De mares e de selvas
Lisboa tem histórias de hotéis,
De espiões e de guerras.


Lisboa tem lendas de heróis,
Princesas , donzelas
Lisboa tem lendas do cais,
Do fado e navalhas;


Lisboa tem a tradição
Dos bairros antigos
Vinho e sardinhas no verão
à beira do rio


Lisboa tem os rés-do-chão
E as altas mansardas
E há que descer e subir
Por estreitas escadas


Adoro Lisboa,
Eu quero-lhe bem,
Gosto de ir ver as gaivotas nos céus de Belém


Adoro Lisboa,
E as histórias que tem
E sei que há muita gente
Que adora também

Madredeus - "Moro em Lisboa"
Letra e música de Pedro Ayres Magalhães

Que outra cidade
Levantada sobre o mar
Á beira rio
Acabou por se elevar
Entre dois braços de água
Um de sal, outro de nada
Água doce, água salgada
Águas que abraçam Lisboa
É em Lisboa
Que o Tejo chega ao mar
É em Lisboa
Que o mar azul recebe o rio
E essa brisa que nos faz
Promessas de viagem
Brisa fresca que reclama
as nossas almas ausentes
Suave
cidade
do sal
do mar
Moro em Lisboa
E a tarde cai